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Revista Brasileira de Orientação Profissional

On-line version ISSN 1984-7270

Rev. bras. orientac. prof vol.25 no.1 Campinas Jan./June 2024  Epub Sep 06, 2024

https://doi.org/10.26707/1984-7270/2024v25n0107 

Artigo

Dimensões de adaptabilidade de carreira em estudantes universitários com intenção de evadir

Undergraduate students' dimensions' career adaptability with droupout intention

Dimensiones de la adaptabilidad profesional en estudiantes universitarios con intención de escapar

Lucas Fadul de Aguiar1  1 

possui formação e mestrado em psicologia pela UFPA, sendo professor no Centro Universitário do Pará (UNIESAMAZ) E-mail:lucasaguiar531@gmail.com


http://orcid.org/0000-0002-7079-8287

Marco Antônio Teixeira2 

é mestre e doutor em psicologia pela UFRGS, atualmente professor de graduação e pós-graduação da mesma instituição. E-mail:mapteixeira.psi@gmail.com


http://orcid.org/0000-0001-5567-1491

Janari da Silva Pedroso1 

é mestre e doutor pela UFPA, atualmente professor de graduação e pós-graduação da mesma instituição. E-mail:pedrosoufpa@gmail.com


http://orcid.org/0000-0001-7602-834X

1Universidade Federal do Pará, Belém/PA, Brasil

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS, Brasil


Resumo:

O abandono do ensino superior é considerado uma questão pública. A partir do exposto, esta pesquisa objetivou explorar as dimensões da adaptabilidade de carreira - controle, curiosidade, confiança e preocupação - em estudantes universitários com a intenção de evadir em seus cursos, por meio de uma abordagem qualitativa. Vinte convidados participaram (idade média = 25 anos; sexo biológico = 55% masculino). Os resultados demonstraram que a decisão de evasão teve forte influência das experiências pregressas no ensino superior, o que desenvolveu maior confiança dos próprios interesses profissionais e possibilidades de mercado. Para os que desejavam sair sem um projeto definido, a adaptabilidade teve pobre representação no discurso. Indicadores sociais como raça e gênero podem ser explorados em pesquisas futuras.

Palavras-chave Escolha da carreira; Desenvolvimento profissional; Evasão; Universidades

Abstract:

Dropping out of higher education is considered a public issue. Based on that, this research aimed to explore the dimensions of career adaptability - control, curiosity, confidence and concern - in university students intending to drop out of their courses, through a qualitative approach. Twenty guests participated (average age = 25 years; biological sex = 55% male). The results demonstrated that the decision to drop out was strongly influenced by previous experiences in higher education, which developed greater confidence in one's own professional interests and market possibilities. For those who wanted to leave without a defined project, adaptability had poor representation in the discourse. Social indicators such as race and gender can be explored in future research.

Keywords Career choice; Career Development; Dropout; Colleges

Resumen:

El abandono de la educación superior se considera una cuestión pública. Con base en lo anterior, esta investigación tuvo como objetivo explorar las dimensiones de la adaptabilidad profesional - control, curiosidad, confianza y preocupación - en estudiantes universitarios que pretenden abandonar sus estudios, a través de un enfoque cualitativo. Participaron veinte invitados (edad promedio = 25 anos; sexo biológico = 55% masculino). Los resultados demostraron que la decisión de abandonar los estudios estuvo fuertemente influenciada por experiencias previas en la educación superior, que desarrollaron una mayor confianza en los propios intereses profesionales y posibilidades de mercado. Para quienes querían irse sin un proyecto definido, la adaptabilidad tuvo poca representación en el discurso. Los indicadores sociales como la raza y el género se pueden explorar en futuras investigaciones.

Palabras clave Escuela profesional; Desarrollo professional; Evasion; Universidades

O Brasil vivencia um processo de expansão das vagas de ensino superior a partir da ampliação de instituições privadas e públicas desse grau de formação. Esse fato trouxe à tona uma problemática grave para educação: o processo de evasão discente, demarcado por fatores pessoais e de ordem sociais (Jackson & Tomlinson, 2020). Por definição, evasão universitária consiste na saída parcial ou total do estudante de seu curso no ensino superior, anterior à sua conclusão, sendo caracterizada em três tipos: o abandono, quando o aluno deixa de se matricular para o próximo período; a desistência, que se refere ao pedido formal de desligamento; e a transferência ou reopção, pela qual o estudante realiza uma mudança de graduação. Esse fenômeno ainda pode ser categorizado em dois níveis, o primeiro relativo à fuga da instituição e o segundo do próprio sistema (Brasil, 1996).

Os motivos que levam alguém a evadir são variados, porém a literatura científica produzida levantou evidências suficientes para caracterizar os principais, aqui citados: dificuldades financeiras para pagar a faculdade e/ou materiais básicos; impasses familiares, com colegas de turma e professores; desidentificação com a escolha realizada; não adaptação à rotina acadêmica; lacunas de aprendizagem durante o ensino básico, o que leva a obstáculos com os conteúdos do terceiro grau; e realização de estudos fora da cidade natal (Ambiel, 2015; Chaym & David, 2019).

Contudo, a evasão não deve ser entendida de forma pontual, mas sim como um processo. Antes de evadir, o estudante desenvolve uma intenção pelo abandono, que pode ser operacionalizada em uma saída concreta. Desse modo, ambos os fenômenos se encontram diretamente relacionados. A particularidade de investigar este público que apenas cogita sair de seu curso está em compreender se o desejo pela mudança é traduzido em uma transição planejada ou apenas reflete as dificuldades do estudante em permanecer na graduação (Ladeira et al. 2019).

Com o intuito de conhecer a capacidade de realizar uma mudança acadêmica em estudantes universitários com intenção de evadir, esta pesquisa faz uso do conceito de adaptabilidade de carreira, um construto psicossocial que indica a prontidão para mudanças ocupacionais e profissionais (Ladeira et al. 2019). A partir de recursos para lidar com tarefas iminentes e traumas no trabalho, a adaptabilidade é dividida em quatro grandes dimensões: curiosidade, preocupação, confiança e controle. Ser curioso diz respeito a emitir comportamentos exploratórios de busca e pesquisa por novas informações e possibilidades de trabalho; ser preocupado trata de realizar planejamentos e traçar metas a curto e médio-longo prazos; a confiança se refere ao senso de capacidade para atingir os objetivos almejados; o controle, por fim, explica a responsabilidade com o próprio futuro e a capacidade de tomar decisões (Savickas & Porfeli, 2012).

Para Gamboa et al. (2015), maiores níveis de adaptabilidade em universitários demonstraram correlações positivas com empregabilidade e procura ativa por trabalho. Além disso, Ladeira et al. (2019) reforçam essa perspectiva ao apresentarem dados que demonstram os recursos adaptativos como preditores para percepção satisfatória de emprego. Ou seja, deve-se compreender adequadamente como esses recursos são alocados por discentes que evadem com o intuito de validar e orientar diferentes projetos de vida.

Além disso, Mourão e Fernandes (2020) argumentam que a adaptabilidade de carreira também diz respeito à adequação do autoconceito às expectativas sociais de uma atividade de trabalho. Em outras palavras, os autores afirmam que os recursos adaptativos retroalimentam o senso de identificação e de capacidade pessoal para realização de certas tarefas. Os indivíduos tendem a escolher profissões que estejam de acordo com a percepção que possuem sobre as próprias habilidades, características de personalidade e influências contextuais que tenham recebido ao longo da vida.

Isso quer dizer que estudantes universitários podem se sentir motivados a permanecerem ou não sem seus cursos de ensino superior pela maneira como percebem a si próprios no contexto atual de formação. Portanto, o manuseio dos recursos de adaptabilidade também está atrelado à interpretação que o sujeito faz da sua transição de carreira. Pessoas com bons índices adaptativos podem estar certas do seu interesse em evadir do ensino superior justamente por terem concluído que se sentirão mais bem integradas em outra profissão (Jiang et al, 2018).

Ademais, a pesquisa qualitativa de Ozdemir (2019) aponta uma evidência importante para essa discussão: alunos entrevistados com bons índices de adaptabilidades demonstraram confiança na própria capacidade, mas pessimistas e incertos com os próximos passos de carreira, relato muito próximo dos estudantes com escores rebaixados de adaptabilidade. O que diferenciou os dois grupos foi a capacidade do primeiro em persistir nas dificuldades vivenciadas ao longo do ensino superior, na tentativa de superar barreiras de formação para uma futura absorção no mercado, bem como a realização de escolhas que sobrepusessem desconfortos emocionais.

Quanto às transições de carreira planejadas e conscientes, é essencial compreender em que medida os recursos de adaptabilidade são traduzidos em comportamentos adaptativos. Se uma intenção de evadir precede a evasão, há de se considerar que após concretizar esse passo, o estudante deve colocar em movimento estratégias que envolvam o bom aproveitamento da sua nova formação ou atividade profissional. Sendo a adaptabilidade um percurso entre a disposição interna para o comportamento externo, se faz necessário uma compreensão sobre o manuseio de cada um dos recursos do referido construto pelo universitário (Drosos & Korfiatis, 2023).

Para Savickas (2005, 2013), as quatros dimensões de adaptabilidade oferecem dados específicos decisivos sobre a capacidade adaptativa geral do estudante universitário. O desenvolvimento dos recursos de controle e preocupação são indicados para o engajamento em atividades de estágio e participação de eventos de networking, respectivamente (Brown et al., 2021). A curiosidade aponta para exploração das diferentes opções de trabalho, apesar de que pesquisas demonstram que isso não vem acompanhado de um planejamento adequado (Jackson & Tomlinson, 2020). Sobre essa questão, outros estudos levantam a possibilidade que alunos de elevada adaptabilidade de carreira ou percepção positiva de ofertas de emprego no mercado tendem a desconsiderar a importância do planejamento (Spurk et al., 2020).

No mais, a dimensão confiança é vista como apresentando resultados mistos em diversas pesquisas. Ozdemir (2019) novamente argumenta que há um fator cultural e econômico envolvido, com o mercado se tornando mais e mais acirrado dentro de alguns países e no sistema global como um todo. Dessa maneira, a percepção de capacidade para atingir objetivos se torna menor a partir das exigências para empregabilidade terem aumentado. Isso ganha destaque ao se pensar que a noção de adaptabilidade foi construída num contexto macrossocial e político em que as profissões contemporâneas são marcadas por incerteza acentuada (Pong & Leung, 2023).

A construção do conceito de adaptabilidade de carreira também ocorreu a partir de estudos qualitativos, por meio da análise das narrativas e histórias individuais (Savickas, 2005). A necessidade de mais pesquisas com esse caráter envolve aprofundar o entendimento sobre a complexidade do fenômeno estudado, o que se encaixa para questões relacionadas à evasão. Entende-se sobre os motivos que levam um estudante a evadir, mas há lacunas quanto ao que se fará após essa tomada de decisão e principalmente como o sujeito se sente a respeito disso. Tendo em vista o exposto, essa pesquisa visa reconhecer como os quatro recursos de adaptabilidade são manuseados pelos estudantes universitários para intenção de evadir, de forma a explorar potencialidades e dificuldades.

Método

Participantes

A amostra foi composta por 20 estudantes universitários com intenção de evadir, com idades variadas e ambos os gêneros. Dezessete decidiram que trocariam de curso e os demais possivelmente abandonariam o ensino superior. A Tabela 1 mostra as informações dos participantes da pesquisa.

Tabela 1 Dados dos participantes 

Dados dos participantes
Participantes
Pseudônimo Idade Sexo Curso atual Opção de evasão
P1 22 M Eng. Bioprocessos Enfermagem
P2 23 M História Direito
P3 24 M Farmácia Dir./Econo./Adm
P4 22 M Biomedicina Química
P5 28 M Não mencionado* História
P6 23 F História Fisio./Psico.
P7 21 F Psicologia Odontologia
P8 29 M Economia Abandono total
P9 20 F Matemática Psicologia
P10 24 M Eng. Biomédica Sem opção
P11 24 F Direito Medicina
P12 27 F Pedagogia Abandono total
P13 32 M Economia Abandono total
P14 21 M Direito Não sabe
P15 24 M Economia Contabilidade
P16 23 M Ciências Sociais Arquitetura
P17 19 F Enfermagem Medicina
P18 20 F Enfermagem Medicina
P19 19 F Enfermagem Medicina
P20 22 F Arquitetura Cinema

Nota. Eng. = Engenharia; Dir = Direito; Fisio = Fisioterapia; Pisco = Psicologia; Adm = Administração

Instrumento

A entrevista semiestruturada foi escolhida como instrumento para coleta de dados, assim definida por se basear em um conjunto de perguntas abertas que permitem ao participante discorrer sobre o assunto pretendido de forma fluida. O diálogo foi aberto com duas perguntas voltadas para discutir a intenção de evadir, sendo elas “o que te leva a desejar trocar/sair do curso?” e “como você tem lidado com essa decisão?”. Após esse momento, perguntas orientadas para os recursos de adaptabilidade foram realizadas a partir da estratégia teaching the test desenvolvida por Savickas e Porfeli (2011), que envolve discutir as respostas dos participantes em relação a uma escala previamente aplicada. Para o caso da presente pesquisa, optou-se pela versão brasileira da Career Adapt-Abilities Scale (CAAS) (Audibert & Teixeira, 2015).

No procedimento teaching the test, as perguntas ocorreram após a leitura das respostas escolhidas e a explicação das dimensões de adaptabilidades relacionadas, tendo em vista que os recursos de adaptabilidade foram distribuídos em grupos de seis questões. Ao final da conversa de cada grupo, a entrevista prosseguiu com os seguintes questionamentos: “como você acredita que está fazendo uso da sua (dimensão de adaptabilidade)?” e “como a (dimensão de adaptabilidade) pode ser útil para o momento pós-evasão?”. Na Ttabela 2, o roteiro da entrevista foi exposto.

Tabela 2 Roteiro da entrevista 

Etapas da entrevista
Rapport Momento de acolhimento e para firmar o vínculo, assegurando aspectos éticos essenciais como confidencialidade dos dados apresentados.
Explicação da atividade Explanação do passo-a-passo da entrevista e razão pela qual está sendo feita.
Aplicação da escala Versão brasileira da Career Adapt-Abilities Scale (CAAS)
Primeira parte da entrevista

O que te leva a desejar trocar/sair do curso?

Como você tem lidado com essa decisão?

Segunda parte da entrevista (retorno à escala)

Como você acredita que está fazendo uso da sua (dimensão de adaptabilidade)?

Como a (dimensão de adaptabilidade) pode ser útil para o momento pós-evasão?

Desenho da pesquisa e procedimento

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada com estudantes universitários de graduação da Universidade Federal do Pará (UFPA) e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da referida instituição (CAAE: 2.072.802). O processo de coleta de dados se deu a partir do método bola de neve, em que participantes já entrevistados indicavam contatos em potencial para pesquisa; ademais, como convite inicial, um texto explicativo sobre o projeto de pesquisa foi enviado a diferentes grupos por meio de redes sociais, em especial o Whatsapp. Todas as entrevistas foram realizadas via Skype ou Hangout, com o intuito de flexibilizar as possibilidades do encontro, tendo em vista que muitos não dispunham de tempo suficiente em horário comercial. Cada entrevistado assinou um termo de consentimento livre esclarecido (TCLE) online, de maneira a concordar que as informações adquiridas fossem usadas para fins científicos, porém sem danos à privacidade.

Análise de dados

Os dados foram tratados por meio do software livre IRAMUTEQ (versão 0.7 alpha 2) e submetidos ao processo de Análise Temática de Clarke e Braun (2007). Desse modo, a fase de julgamento dos dados adquiridos ocorreu por meio de etapas. Em primeiro lugar, todas as entrevistas foram transcritas em comprometimento com a fidedignidade das falas de cada sujeito, de modo a respeitar jargões, gírias e interjeições. Após essa fase, as transcrições foram refinadas para posterior tratamento, de acordo com as exigências do referido programa, em que se buscou adequá-las ao português padrão. Os produtos finais desse processo são conhecidos como corpus.

Cada corpus é criado com vistas a analisar um núcleo específico das entrevistas, de forma que o programa IRAMUTEQ faz o tratamento com base a classificação hierárquica descendente simples (CHD), proposta por Reinert (1990), a qual coloca o texto em segmentos, a partir da organização e secção de vocábulos em radicais. De acordo com Camargo e Justos (2013), essa análise visa obter unidades de contexto elementares (UCE), responsáveis por reunir as palavras afins entre si e reuni-las em classes. As UCE são hierarquizadas via teste de qui-quadrado (%2), com a força de análise boa para igual ou maior a 3,84 em um p < 0,0001.

A Análise Temática foi realizada em seis fases, a saber: familiarização com os dados; geração de códigos iniciais; busca por temas; revisão dos temas; definição dos temas e produção do relatório. O IRAMUTEQ, em si, não interfere em nenhum dos referidos estágios, tendo em vista que o programa não é responsável pela construção das categorias temáticas, mas sim pela formação de classes que auxiliam na organização dessas. Desse modo, a ferramenta possibilita maior confiabilidade à pesquisa a partir da conexão de informações as quais poderiam passar despercebidas.

Resultados

Considera-se que o grau de coerência dentro das UCEs dentro de classe deva ser de no mínimo 75%. Tendo vista o exposto, dois corpus emergiram: o primeiro responsável por tratar os dados oriundos das duas primeiras perguntas, ligadas à intenção de evadir, com 88% de similitude entre as UCES; já o segundo, relativo às demais oito perguntas e voltadas à adaptabilidade de carreira, com 89%. A força do teste atingiu uma margem de 3,87 para p < 0, 0001.

Corpus 1

A partir das análises das UCE, quatro classes foram geradas e agrupadas em duplas, em dois subcorpus - os quais serviram como base para construção de duas categorias, a partir dos segmentos de texto, que são reunidos por similitude, aqui nomeadas de “decisão pela mudança: cautela com os próximos passos” e “evasão em foco: o futuro empregatício na discussão familiar”. Ademais, o software foi sensível ao observar as principais palavras que compõem cada classe, como pode ser visto na Figura 1.

Figura 1 Dendograma do primeiro corpusNota. Esta figura apresenta o primeiro dendograma gerado pelo software do IRAMUTEQ, relacionado às intenções de evadir apresentadas pelos estudantes em uma entrevista previamente aplicada 

Corpus 2

As UCE também foram organizadas de modo a formarem quatro classes, agrupadas em duplas a partir de dois grandes subcorpus - posteriormente transformadas nas categorias “adaptabilidade de carreira: desenvolvimento e estagnação” e “adaptabilidade de carreira: transição para uma nova realidade”. Além do apresentado, o programa IRAMUTEQ foi capaz de observar núcleos temáticos referentes a cada um dos grupos, como pode ser visualizado na Figura 2.

Figura 2 Dendograma do segundo corpusNota. Esta figura apresenta o segundo dendograma gerado pelo software IRAMUTEQ, relativo à adaptabilidade de carreira como um constructo qualitativo, uma experiência vivida por estudantes que apresentaram alguma intenção de evadir dos seus atuais cursos universitários 

Decisão pela mudança: cautela com os próximos passos

Esta primeira categoria discute as diferentes reações que os discentes do ensino superior apresentaram ao decidirem evadir de suas graduações, assim como os aspectos intra/intersubjetivos levados em conta para essa tomada de decisão. Ela abriga as classes 1 e 2 do primeiro corpus, localizadas abaixo do subcorpus I, em que as principais palavras foram “curso de economia, profissão, curso de psicologia” e “entender, diferente, interessar”. Dito desse modo, o primeiro fator emergente na fala dos participantes trata do processo de desencanto com o curso. No entanto, observaram-se diferenças relevantes para a desmotivação, a depender da grande área a qual o estudante fazia parte. No caso dos entrevistados P5, P10, P11, P14 e P16, todos referentes às ciências exatas, foi relatado as dificuldades no diálogo com os professores e principalmente a presença de grade curricular defasada e desconexa com a realidade.

Já para P2 e P6, ambos do curso de história, ficou evidente o interesse e o gosto pela opção realizada. No entanto, pontuaram o mercado de trabalho restrito e desvalorizado das ciências humanas como questões decisivas para a saída. Em especial no último caso, pesa a situação política do país, em que as humanidades sofrem constantes questionamentos quanto à sua validade e importância social. As diferenças entre os motivos para evadir, a depender da área de conhecimento, podem ser vistas nas falas de P10 “Eu fiquei assim, estou me matando na UFPA com um bando de professor ruim, passando noites sem dormir ... para precisar fazer outro curso” e P6 “Eu não me arrependo de ter feito história ... é muito difícil você estar em algo que gosta e não ser reconhecida. Isso é muito ruim. E eu não quero isso.”

Ademais, um terceiro grupo apresentou-se como relevante nessa pesquisa: os entrevistados P1, P2, P3, P9, P11, P14 e P20, os quais associaram suas intenções de evadir ao refinamento dos interesses profissionais. No entanto, destaca-se que amadurecer a busca pela realização pessoal no trabalho não necessariamente envolve menos aflições. Da mesma forma que se pode sair de uma graduação para outra com maior remuneração e valorização social, é possível abandonar determinados cursos com maior segurança de mercado para outros com menores oportunidades empregatícias. Em situações como essas, evidencia-se enorme conflito subjetivo, numa tentativa de conciliar “dois mundos” de acirrados diálogos. É o que P20 comenta claramente, na seguinte expressão:

“Estou fazendo o curso de arquitetura e quero trocar para o de cinema ... eu tenho medo na verdade, pois não sei muito bem se vou sair e ao mesmo tempo já não quero mais ficar, mas há bastante área de trabalho ..., porém eu já não estou mais gostando e tenho medo de acabar desistindo e ter que fazer outro curso lá na frente”.

Todos os participantes mencionados até aqui apresentam suas intenções de evadir aliadas a busca por novas graduações, de modo a não caracterizar um abandono completo do ensino superior. O mesmo não pode ser dito de P8 e P12, participantes que relataram a necessidade de trocar a universidade por um emprego remunerado, com o intuito de sustentarem suas despesas ou auxiliarem as famílias. Ademais, as motivações de ambos são singulares: o primeiro intenciona abandonar a graduação por não enxergar mais perspectivas de emprego após formado - principalmente em decorrência da crise financeira no país - e o segundo por advir de outra cidade e não ser capaz de se sustentar na capital.

Dentre outros fatores citados como decisivos para mudança, destaca-se em menor escala a conclusão do participante de não possuir perfil necessário para atuar na profissão (P7) e o refinamento de interesses via contato com outros campos de trabalho (PU, P16), questões próprias do amadurecimento pessoal, relativas às escolhas de carreira (Tessaro & Schmidt, 2017). Por fim, menciona-se quem entrou no curso por não ter alcançado a nota desejada na primeira opção de graduação (P17 e P18), questão considerada preocupante, à medida que aponta para possível desmotivação dos discentes no futuro.

Evasão em Foco: o futuro empregatício na discussão familiar

A segunda categoria foi baseada nos resultados gerados a partir das classes 3 e 4 do primeiro corpus, localizadas no subcorpus II, e evidenciou a relevância familiar na escolha profissional, de modo que esta pode apoiar, desmotivar ou acompanhar o processo de escolha junto ao jovem (Almeida & Melo-Silva, 2011). As principais palavras destacadas foram “pagar, curso de medicina, curso de enfermagem” e “tempo, minha família e acabar”, respectivamente. Desse modo, patente é a responsabilidade que há em incluir o grupo familiar no processo de construção de carreira individual (Tessaro & Schmidt, 2017).

Essa dificuldade de evasão pode ser acentuada quando o estudante não é da mesma cidade onde realiza o curso universitário, de maneira a ser sustentado pelos pais ou parentes próximos. Em casos como esse, a continuidade dos estudos ou a possibilidade de encontrar alternativas torna-se restrita, mesmo quando ele ou ela já se encontra insatisfeito com a opção. O relato aponta para o fato de o próprio deslocamento já ser considerado um motivo que pressiona os discentes, visto com P5, P12 e exemplificado na seguinte fala de P16 “Eque eu sou do Marajó... eu não posso simplesmente sair para estudar para um novo vestibular”.

Em menor escala, há as figuras familiares que não se colocaram como opositores, mas propuseram reflexões diante da intenção de evadir apresentada e preocuparam-se em apoiar os jovens de sua família quando eles apresentaram a decisão de sair do curso atual (P1, P6 e P9). Esse comportamento já é associado na literatura científica à importância da parentela para decisões de carreira satisfatórias (Workman, 2015).

Adaptabilidade de carreira: desenvolvimento e estagnação

A terceira categoria foi criada para tratar das classes 1 e 2 do segundo corpus, abaixo do respectivo subcorpus I, com as palavras principais “passado, faculdade, focar” e “área, atuar, pesquisa”, respectivamente. É apontada as diferentes reações que os discentes universitários apresentaram ao longo da iminência de evasão, sendo as mesmas adaptativas ou não. Ao longo das falas dos entrevistados, o primeiro recurso apresentado foi a preocupação, entendido prioritariamente pela capacidade de planejamento e preparação para o futuro. O observado permitiu destacar dois movimentos distintos: a construção de planos detalhados e a necessidade de explorar a nova graduação para sequer pensá-los. Quanto ao primeiro, os estudantes que relataram esse tipo de comportamento comunicaram a importância da primeira graduação para aprendizado sobre o mercado de trabalho e autoconhecimento.

Essas evidências permitem discutir a importância de ampliar o escopo de experiências profissionais com o intuito de incluir aquelas que dizem respeito a formações antecedentes à ocupação atual, mesmo que universitárias. No entanto, aqui ganha destaque o processo de reescolha, precedido por uma intenção de evadir da opção anterior. Assim, reforça-se a premissa de impermanência das carreiras no século vinte e um, em que as transições não perpassam apenas trocas de ambiente de trabalho, mas também profissionais (Savickas & Porfeli, 2012).

Ademais, é necessário colocar que aspectos relativos a questões de identidade de gênero são determinantes no desenvolvimento da carreira, tendo em vista a perpetuação social de marginalização que minorias políticas vivenciam até hoje. Esse tópico é salientado pela entrevista com P5, o qual relatou a intenção de evadir do seu curso por sofrer discriminações atreladas à sua transexualidade. O entrevistado comentou não sentir desejo de planejar sua carreira, pois já fizera isso uma vez e se viu frustrado; a curiosidade por explorar novos caminhos profissionais também lhe parecia pouco promissora; a confiança pessoal e o controle para determinar o futuro igualmente não foram expressos de forma significativa. As seguintes falas de P5 sintetizam o exposto “Eu não irei montar um futuro para mim, justamente para que ele não “monte” em cima de mim, como aconteceu da última vez...”, “Quando eu vou para sala, sinto como se eu estivesse me digladiando com todo mundo e todo mundo estivesse digladiando comigo. É como estar em um campo de batalha”.

Adaptabilidade de carreira: transição para uma nova realidade

A quarta e última categoria abrigou as classes 3 e 4 do segundo corpus, presentes no respectivo subcorpus II, em que as principais palavras evidenciadas por essas classes foram “minha mãe, retorno, universidade” e “lugar, amigo, gostar”. Assim como no primeiro corpus, destinado a tratar da intenção de evadir e suas respectivas categorias, o software IRAMUTEQ também encontrou no segundo fortes correlações entre adaptabilidade e apoio familiar, em especial nas dimensões confiança e controle (P6, P9, P10, P11, P15). Logo, afirma-se que a presença de suporte parental está associada a maior capacidade de acreditar na própria força para construir um futuro profissional quando se trata da saída/mudança de um curso universitário (Huy et al., 2017). Isso fica explícito na seguinte fala de P6:

Meus pais nunca me pressionaram para seguir essa ou aquela profissão, estão mais preocupados em me ajudarem a ser feliz na verdade. Então me senti bastante tranquilo para mudar, apesar que a insegurança bate, com certeza bate. Não é como se eu pudesse sair escolhendo por aí, então se for para trocar de curso, tem que ser para o certo.

No entanto, é válido mencionar que todos os participantes (P6, P9, P10, P11, P15) que apontaram o apoio familiar como essencial, também dispunham de condições econômicas suficientes para realizarem essa transição, sem a exigência dopara ajudar com as despesas domésticas e pessoais. Isso fica evidente à medida em que P8, P12, P17 cogitavam seriamente a desistência por não encontrarem chances de crescimento profissional nas escolhas universitárias atuais e não terem possibilidades de serem sustentados pelos pais por muito mais tempo. Os participantes citados relataram dificuldades para realizarem planejamentos de carreira a médio/longo prazo, com demonstração de pouca confiança e controle no futuro ocupacional e baixa curiosidade (Salvador & Ambiel, 2019). A seguinte fala de P17 ilustra bem esse ponto:

É conflitante sabe... os meus pais não querem demonstrar que estão decepcionados comigo, e isso é difícil de aceitar. Sei que não é uma questão comigo em si, acredito que seja mais preocupação da parte deles, preocupação com o dinheiro. Eu preciso ajudar em casa e deixar de fazer isso não é uma opção.

Discussão

A adaptabilidade de carreira, enquanto recursos que patrocinam estratégias de enfrentamento para mudanças e barreiras imprevisíveis, coloca o indivíduo como agente principal das transformações na vida profissional. Isso não significa análises descontextualizadas e que diminuam problemas sociais. Pelo contrário, as enfatiza ao ponto de impô-las como aspecto central de avaliação de comportamentos adaptativos (Lopes et al, 2022).

Dessa forma, pode-se dizer que os estudantes com intenção de evadir entrevistados estão em contato com situações estressoras que os obrigam a tomarem decisões assertivas e pautadas em riscos. Isso fica evidente quando se menciona a condição dos participantes P2 e P6, que cursam história e não veem um mercado aberto à realização dos seus objetivos de vida. Além disso, a crise econômica acentuada reforça a carência que licenciaturas já possuem no Brasil, em especial as de humanas, pouco valorizadas (Ambiel et al., 2016).

A avaliação de contexto pode ocorrer em diversos níveis. Além dos aspectos macroeconômico e até mesmo político-ideológico que interfere nos movimentos dentro do mundo trabalhista, é possível avaliar condições situacionais mais específicas, que dizem respeito à instituição que se estuda e o ambiente familiar. Por exemplo, para os participantes P3, P4, P5, P8, P11 e P20, lidar com a desorganização familiar dificulta a tomada de decisão (Bardagi & Hutz, 2008) e implica em sentimentos de inferioridade, como pode ser visto na seguinte fala de P5 “Meus pais dizem que eu e a minha irmã vamos ficar sem trabalhar, enquanto nossa outra irmã estará trabalhando... por eles (os pais), já fizeram a sua parte comigo, não vão me ajudar”.

Nesse sentido, em face da resposta familiar negativa, os recursos de adaptabilidade apontam menos possibilidades de reação. Ao que se sabe, a escolha de uma carreira depende da forma como se crê agente das próprias decisões e do efeito das suas ações no mundo. Para estudantes de ensino superior sem recursos financeiros ao seu dispor por conta própria, o auxílio da família é imprescindível. Ou seja, tudo o que poderiam fazer depende da aprovação de terceiros antes (Ferreira & Fernandes, 2015).

Logo, ao que parece, não basta apenas perceber o auxílio advindo de cuidadores e da parentela, é necessário que esses tenham a oportunidade de oferecerem um ambiente favorável à transição. É imprescindível investigar se a própria situação financeira pode ser determinante para a presença ou ausência desse suporte. Em outras palavras, é mais angustiante para famílias de baixa renda gestarem conflitos de carreira, do ponto de vista subjetivo e material, à medida que enfrentam a premência de atenderem necessidades básicas no tempo presente (Zacher et al., 2018).

Assim, pode-se observar que a classe social e o status socioeconômico funcionam como preditores das aspirações educacionais de estudantes universitários, assim como da própria adaptabilidade - tendo como agravo o não desenvolvimento da última implicar na dificuldade de construir uma carreira satisfatória de forma geral, dentro ou fora da universidade (Lopes et al., 2022).

No que tange ao contexto institucional e do curso, diversos entrevistados mencionaram terem feito péssimas escolhas, em particular nas graduações de exatas. Não basta compreender o que se quer, mas também se o ambiente de estudo abarca as necessidades da escolha. Nesse sentido, a adaptabilidade de carreira tangencia novas discussões sobre interesses profissionais e contextos socio-educacionais. É possível afirmar que só se gosta daquilo que se conhece, não como algo estanque e universal, mas local e histórico (Zacher et al., 2018).

Abandonar uma graduação no Brasil pode estar bem mais relacionado às condições do próprio país do que aos interesses em si, como foi dito por P10 “Além dos professores serem ruins, a didática horrível, o curso de engenharia de bioprocessos no Brasil é totalmente diferente de como é aplicado no resto do mundo. Não tem nada a ver com o que eu tinha imaginado, mas se eu estivesse em outro lugar, provavelmente ia gostar”. Contudo, a despeito dos estudantes que pensam em saírem de suas graduações partirem para caminhos profissionais diferentes daqueles percorridos até então, as experiências pregressas podem ser aproveitadas (Maree, 2015). Como dito por P1, P2, P4, P6, P11, P12, P15, P16 e P18, a primeira escolha profissional não foi feita com base em uma boa pesquisa de mercado. Os participantes relataram a necessidade de maior contato empírico e experiencial com a próxima decisão de carreira, algo que já parece ocorrer, apesar de admitirem não haver um planejamento adequado para isso.

A afirmativa anterior é corroborada pelos próprios participantes (P1, P3, P7 e P10), ao relatarem dar mais prioridade à conversa com profissionais de áreas afins à nova escolha de carreira do que procurarem por grades curriculares na internet. Como apontado por Cheung e Arnold (2014), em estudo com estudantes veteranos, o desenvolvimento de comportamentos exploratórios é fundamental para realçar tomadas de decisão ocupacionais, direcionar a construção de competências pertinentes e por fim alavancar a confiança pessoal para lidar com as tarefas exigidas ao longo da construção de carreira.

A partir do colocado, cabe discutir se a ausência de planejamento se traduz em uma baixa preocupação ou se é reflexo do desenvolvimento de outro recurso de adaptabilidade: o controle sobre o próprio futuro profissional. Sendo esse o último caso, alguns participantes comentaram que a saída e/ou troca de curso não seria feita caso faltasse certeza de que a nova profissão permitiria realizar os interesses profissionais amadurecidos ao longo da escolha atual (Rudolph et al., 2017).

No entanto, essa não é a situação de P3, P5, P8, P13, P14 e P20. Observou-se que esses participantes conseguiram definir que evadiriam do curso atual e até mesmo sabiam para qual desejavam ir (P20), porém estavam relutantes em se projetarem para fora da graduação presente, tendo em vista o receio de não serem bem-sucedidos materialmente em uma nova profissão e correrem o risco de perderem a segurança da decisão já realizada. Os dados encontrados reforçam evidências anteriores da estreita relação que as dimensões de controle e preocupação da adaptabilidade possuem entre si como preditoras da capacidade de fazer escolhas profissionais em contextos desafiadores (Buyukgoze-Kavas et al., 2015), da autoeficácia para tomada de decisão na carreira (Douglas & Duffy, 2015) e da autoeficácia para buscas de trabalhos (Guan et al., 2013).

A discussão da relação existente entre preocupação e controle foi diretamente acompanhada de outro recurso, que emergiu junto aos anteriores: a curiosidade, que trata dos comportamentos exploratórios e de busca/pesquisa de carreira. Isto já foi salientado por Cheung e Jin (2016), que propuseram em sua pesquisa o acesso ao curso acadêmico como uma intervenção exploratória na carreira, sob a qual os sujeitos encontram subsídios para tomarem as suas decisões profissionais no futuro. Os mesmos autores relembram a importância de conceituar a dimensão curiosidade como não apenas o acúmulo de conhecimento sobre o ambiente, mas como o contato com ele e as lições apreendidas a partir disso.

Os participantes P9, P18 e P19, por exemplo, relataram maior conhecimento das diferentes opções de trabalho. Desse modo, há uma postura proativa em torno da carreira, mesmo no contexto de crise financeira brasileira atual, com atenção para as dimensões controle e confiança (Lee, 2018). Um dos participantes, inclusive, resolveu desistir de sua graduação atual (P13) por decidir continuar com sua carreira na formação anterior - professor de letras - e monetizar seu hobbie com a música, ao formalizar a criação de uma banda.

Em seu caso, o entrevistado comentou ter pouco conhecimento ao finalizar a primeira graduação, sobre como se inserir no mercado de trabalho e o que poderia fazer para melhorar suas chances nele. Em decorrência disso, optou por retornar ao ensino superior, com o intuito de ganhar um segundo diploma e assim aumentar as possibilidades de emprego. Dentro de um ano, observou que isso não era necessário. Essa evidência já foi apontada pela literatura, ao mencionar a relevância que há em desenvolver competências de busca de trabalho para novos entrantes no mercado (Brown et al., 2021).

Ao que concerne a carreira de pessoas transexuais, é válido situar que pesquisas relativas à correlação entre experiências de carreira e transexualidade ainda são escassas, tendo em vista que o interesse por explorar e compreender o universo ocupacional e profissional de minorias políticas, em especial as que envolvem orientações sexuais e identidades de gênero não normativas, é recente. Assim, os dados empíricos apontados aqui são considerados exploratórios, sendo necessárias investigações com desenhos metodológicos sensíveis às singularidades desse público (Santos & Oliveira-Silva, 2021).

Compreender a carreira de pessoas transgênero envolve diretamente um processo de socialização de gênero, o qual pode ser entendido a partir da superação da barreira e limitação de ocupações e perspectivas no trabalho, pelo fato que determinadas opções podem ser descartadas, tratadas como não relevantes ou até mesmo impossíveis, de acordo com os papéis de gênero tradicionalmente impostos. Isso implica diretamente na disponibilidade de profissões “destinadas” a homens e mulheres como um todo, mas ganha singularidade quando se trata de sujeitos transexuais, que vivem a seguinte situação conflitante: uma ocupação “adequada” para o sexo de nascença ou ao gênero com o qual se identifica (Almeida & Vasconcelos, 2018).

Considerações Finais

O objetivo principal desse estudo envolveu reconhecer e compreender como os recursos de adaptabilidade de carreira são utilizados em estudantes universitários com intenção de evadir. As conclusões e limitações mais pertinentes para essa discussão estão aqui sumarizadas. A primeira delas trata das diferenças e proximidades entre os recursos adaptativos em cada caso. A maioria dos estudantes que decidiram trocar de curso apresentaram boa capacidade adaptativa, em especial para as dimensões controle e confiança. Esse não foi o caso, no entanto, para os participantes que relataram impasses familiares e/ou socioeconômicos relativos ao desejo de evadir. A implicação dessa informação faz refletir sobre a necessidade de se analisar determinantes sociais, como de raça, gênero e fatores socioeconômicos como indispensáveis para se compreender os níveis de adaptabilidade.

Já a maior parte dos estudantes que pretendiam apenas desistir, sem relatarem uma nova opção de carreira, não apontaram recursos de adaptabilidade desenvolvidos, à exceção de um participante. A presente pesquisa contribui com a temática da evasão ao expor dados que apontem a relação entre abandono total do ensino superior e a ausência de um projeto de carreira definido, o que aumenta as chances desses estudantes caírem em estatísticas de desemprego, subempregos ou no mercado informal.

Por fim, discute-se a importância da realização de pesquisas em carreira com minorias identitárias de gênero e, também, de orientação sexual, tendo em vista os processos discriminatórios que dificultam ou inviabilizam a inserção profissional e social desse público. É imprescindível a utilização de instrumentos e metodologias sensíveis às particularidades do grupo como forma de reduzir a possibilidade de generalização dos sofrimentos apontados, algo que não foi feito nesse estudo. Pesquisa específicas sobre a carreira de sujeitos não-binários tornam-se urgentes, de forma que acompanhem as necessidades de um tempo histórico marcado por lutas sociais e busca por direitos humanos.

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Recebido: 27 de Outubro de 2023; Revisado: 01 de Março de 2024; Aceito: 22 de Março de 2024

1 Endereço para correspondência: R. Augusto Corrêa, 01, Guamá, Belém/PA, 66075-110. E-mail:lucasaguiar531@gmail.com

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