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Revista Brasileira de Orientação Profissional

versão On-line ISSN 1984-7270

Rev. bras. orientac. prof vol.26 no.2 São Paulo dez./set. 2025  Epub 08-Dez-2025

https://doi.org/10.26707/1984-7270/2025v26n0213 

Seção Especial

Novas perspectivas para intervenções do life design no contexto do Antropoceno1

New perspectives for life-design interventions in the Anthropocene context

Nuevas perspectivas para las intervenciones del life design en el contexto del Antropoceno

Valérie Cohen-Scali

Valérie Cohen-Scali é doutora em Psicologia Social pela Universidade de Tours (França). Coordenadora Científica da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professora do Institut National D’Étude du Travail et D’Orientation Professionnelle (INETOP) do Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM), Paris, França.

1 
http://orcid.org/0000-0001-9699-3841

Violetta Drabik-Podgórna

Violetta Drabik-Podgórna é doutora em Educação pela Universidade de Wroclaw (Polônia). Vice-Coordenadora da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professora Assistente no Instituto de Pedagogia da Universidade de Wroclaw, Wroclaw, Polônia.

2 
http://orcid.org/0000-0001-6251-2085

Marek Podgórny

Marek Podgórny é doutor em Educação pela Universidade de Wroclaw (Polônia). Cocoordenador da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professor Assistente no Instituto de Pedagogia da Universidade de Wroclaw, Wroclaw, Polônia.

3 
http://orcid.org/0000-0002-5307-1350

Maria Eduarda Duarte

Maria Eduarda Duarte é doutora em Psicologia pela Universidade de Lisboa (Portugal). Coordenadora da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professora Catedrática da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal.

4 
http://orcid.org/0000-0001-7562-4780

Jean Guichard

Jean Guichard é doutor em Psicologia pela Universidade na Região de Nord-Pas-de-Calais (França). Fundador da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professor Émerito do Institut National D’Étude du Travail et D’Orientation Professionnelle (INETOP) do Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM), Paris, França.

5 
http://orcid.org/0000-0002-3959-1149

Gabriela Aisenson

Gabriela Aisenson é doutora em Psicologia pela Universidade de Buenos Aires (Argentina). Membra da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina.

6 
http://orcid.org/0000-0003-1486-6588

Annamaria Di Fabio

Annamaria Di Fabio é doutora em Psicologia pela Universidade de Florença (Itália). Membra da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professora da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade de Florença, Florença, Itália.

7 
http://orcid.org/0000-0002-5150-1273

Kobus Maree

Kobus Maree é doutor em Psicologia pela Universidade de Pretória (África do Sul). Membro da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Pretória, Pretória, África do Sul.

8 
http://orcid.org/0000-0002-9492-8445

Jonas Masdonati

Jonas Masdonati é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Fribourg (Suíça). Membro da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professor Associado do Instituto de Psicologia da Universidade de Lausanne, Lausanne, Suíça.

9 
http://orcid.org/0000-0002-1897-1425

Laura Nota

Laura Nota é doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de Pádua (Itália). Membra da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professora Titular da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade de Pádua, Pádua, Itália.

E-mail:laura.nota@unipd.it

10 
http://orcid.org/0000-0001-9820-2281

Jacques Pouyaud

Jacques Pouyaud é doutor em Psicologia pelo Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM) de Paris (França). Membro da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professor Associado da Universidade de Bordeaux, Bordeaux, França.

11 
http://orcid.org/0000-0002-3547-5044

Marcelo Afonso Ribeiro

Marcelo Afonso Ribeiro é doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (Brasil). Membro da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professor Associado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

1  2 
http://orcid.org/0000-0002-0396-7693

Donna San Antonio

Donna San Antonio é doutora em Educação pela Universidade de Harvard (Estados Unidos). Membra da Cátedra Internacional UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida. Atualmente é Professora Associada da Universidade de Lesley, Cambridge, MA, Estados Unidos.

12 
http://orcid.org/0000-0002-0700-3138

1Conservatoire National des Arts et Métiers, Inetop, Paris, França

2Uniwersytet Wrocławski, Wroclaw, Polônia

3Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

4Conservatoire National des Arts et Métiers, Inetop, Paris,França

5Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina

6Università di Firenze, Florença, Itália

7University of Pretoria, Pretória, África do Sul

8Université de Lausanne, Lausanne, Suíça

9Università di Padova, Pádua, Itália

10Université de Bordeaux, Bordeaux, França

11Universidade de São Paulo, São Paulo-SP, Brasil

12Lesley University, Cambridge, MA, Estados Unidos


Resumo

Desde 2013, a Cátedra UNESCO de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida, juntamente com a sua Rede UNITWIN criada em 2017, tem impulsionado a investigação, a formação e as intervenções a partir de uma perspectiva do life design para auxiliar as pessoas a navegar neste mundo incerto. Este artigo é um texto de posicionamento da Cátedra UNESCO que visa propor uma nova visão para o aconselhamento de carreira no contexto atual do Antropo-Capitaloceno. Essa visão se baseia nas formas de vida ativa, que é um conceito desenvolvido na literatura de orientação profissional e de carreira por Eduard Spranger. Este artigo identifica novas intervenções de aconselhamento envolvendo uma série de atividades que tornam a vida diária de cada pessoa em uma determinada forma de vida. A discussão considera as diferentes maneiras de ajudar pessoas a se engajarem em formas sustentáveis de vida ativa. Concluímos enfatizando a necessidade de romper com abordagens isoladas do aconselhamento de carreira e desenvolver uma concepção de pessoa em conexão com o sistema terrestre.

Palavras-chave: Life design; sustentabilidade; Cátedra da UNESCO; intervenções inovativas em aconselhamento de carreira; Antropoceno

Abstract

Since 2013, the UNESCO Chair of Lifelong Guidance and Counseling, together with its UNITWIN Network created in 2017, have been driving research, training, and interventions from a Life Design perspective to help people to navigate this uncertain world. This article is a UNESCO Chair position paper which aims to propose a new vision for career counseling in the current context of the Anthropo-Capitalocene. This vision is based on forms of active life, a concept developed in the career guidance literature by Eduard Spranger. This paper identifies new counseling interventions involving a range of activities that make every individual’s daily life a certain form of life. The discussion considers avenues for helping individuals to engage in sustainable forms of active life. The conclusion discusses the need to break away from siloed approaches to career counseling and to develop a conception of the individual in connection with the Earth system.

Keywords: Life-and career-Design; sustainability; UNESCO chair; career counseling innovative interventions; Anthropocene

Resumen

Desde 2013, la Cátedra UNESCO de Orientación y Asesoramiento a lo Largo de la Vida, junto con su red UNITWIN creada en 2017, ha impulsado la investigación, la formación y las intervenciones desde una perspectiva del life design para ayudar a las personas a navegar por este mundo incierto. Este texto es un artículo de posicionamiento de la Cátedra UNESCO que tiene como objetivo proponer una nueva visión para el asesoramiento para la carrera en el contexto actual del Antropo-Capitaloceno. Esta visión se basa en las formas de vida activa, un concepto desarrollado en la literatura sobre orientación profesional por Eduard Spranger. Este artículo identifica nuevas intervenciones de asesoramiento que incluyen una serie de actividades que convierten la vida cotidiana de cada persona en una forma de vida determinada. El debate analiza las vías para ayudar a las personas a participar en formas sostenibles de vida activa. La conclusión aborda la necesidad de romper con los enfoques aislados del asesoramiento para la carrera y desarrollar una concepción de la persona en relación con el sistema terrestre.

Palabras clave: Life design; sostenibilidad; Cátedra UNESCO; intervenciones innovadoras en asesoramiento para la carrera; Antropoceno

A crescente necessidade de mão de obra associada à industrialização da sociedade no século XIX contribuiu para dar ao aconselhamento de carreira (career counseling) um objetivo primordial: a empregabilidade dos indivíduos e sua adaptação ao mercado de trabalho (Guichard, 2009a, 2011). Posteriormente, a organização do trabalho, a globalização da economia e um mercado de trabalho cada vez mais imprevisível levaram um grupo de especialistas na área da construção de carreiras ao longo da vida a reexaminar esse objetivo, que havia sido dominante por várias décadas (Savickas et al., 2009).

Esse grupo teve como objetivo redefinir os conceitos centrais nos quais as intervenções em orientação profissional e de carreira (career development interventions) se baseavam, a fim de adaptá-los a um contexto de trabalho e de vida caracterizado por mais transições e rupturas do que no passado. A reflexão levou ao desenvolvimento do life design no aconselhamento de carreira. Este paradigma construtivista, concebido na primeira década do século XXI, prevê um novo objetivo para o aconselhamento de carreira: ajudar as pessoas a construir suas vidas de forma holística. Isso envolve delinear intervenções voltadas para a autotransformação combinadas com uma reflexão sobre as inter-relações entre diferentes domínios da vida (Collins & Guichard, 2011; Duarte, 2009, 2014; Guichard, 2009b). Essas intervenções revelam configurações que assumem a forma de trajetórias de vida nas quais as carreiras estão imbricadas.

A Cátedra da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) de Orientação e Aconselhamento ao Longo da Vida, fundada em 2013 na Universidade de Wroclaw, na Polônia, promove essa perspectiva inovadora do life design. O principal objetivo da Cátedra foi envolver pesquisadoras/es de vários países no desenvolvimento de uma reflexão sobre como o aconselhamento de carreira poderia ajudar as pessoas a lidar com as grandes crises do início do século XXI e construir um futuro desejável (Guichard et al., 2016).

A conferência inaugural da Cátedra, que ocorreu em Wroclaw nos dias 26 e 27 de novembro de 2013, reuniu pesquisadoras/es e profissionais de 20 países dos cinco continentes em torno de uma questão central: Como as intervenções para a construção da vida e da carreira podem apoiar o desenvolvimento de uma economia global sustentável e equitativa por meio de atividades de trabalho decente?

Após este evento inicial, foi criada em 2017 uma rede UNITWIN da UNESCO, reunindo 21 parceiras/os acadêmicas/os. Estas atividades estão em consonância com os objetivos estratégicos da UNESCO, da Organização Internacional do Trabalho - OIT (International Labour Organization, ILO, 2017) e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas - ODS/ONU (Brundtland Report, 1987). O objetivo é desenvolver intervenções de carreira que ajudem as pessoas no design de suas vidas ativas, integrando o desenvolvimento humano sustentável e o trabalho decente (Cohen-Scali et al., 2018; Guichard et al., 2017).

Hoje, mais de 10 anos após a fundação da Cátedra, parece necessário ampliar a posição epistemológica da Cátedra em relação à profunda transformação das sociedades e do globo que marcou o primeiro quarto deste século e passou a ser designada como Antropoceno3 (Crutzen & Stoermer, 2000; Friedlingstein et al., 2020) e, mais recentemente, Capitaloceno4 (Bonneuil, 2017; Moore, 2017)5.

Este é o tema do nosso artigo em três partes. Na primeira, são discutidas as características do contexto global e as intervenções atuais em orientação profissional e de carreira. A segunda parte apresenta os princípios que podem servir de fundamentos teóricos para a criação de novas intervenções. Por fim, a terceira parte explica a relevância dessas novas abordagens para o design de vidas ativas (design of active lives)6 a partir do conceito de formas de vida (forms of life).

Intervenções em orientação profissional e de carreira no contexto do Antropoceno

O mundo enfrenta uma série de grandes crises que estão mudando as relações entre pessoas, grupos e sistemas de atividade e vida em muitas partes do globo. O enfoque socioeconômico adotado desde o início da Era industrial levou a uma deterioração maciça das condições de vida na Terra.

Essa abordagem foi denominada de Antropoceno Predatório por McDonald (2016): “O Antropoceno Predatório é o resultado do que muitos chamam de neoliberalismo, entendido como forças sistêmicas suprapessoais que oferecem subjetivações sociais capitalistas como empreendedor e artista e nos controlam como engrenagens em enormes máquinas de produção, troca e consumo” (p. 10).

As atuais intervenções em orientação profissional e de carreira devem ser revisadas quanto à sua capacidade de ajudar as pessoas a lidar com essas grandes crises e com a reorganização das representações e modos de vida. Guichard (2022b) observa que, ao nos encontrarmos hoje em um ponto de virada na história humana, devemos reconsiderar e remodelar tanto nossas práticas quanto nossas teorias de apoio ao design de vida ativa.

Vivendo na Era do Antropoceno predatório

Já estabelecidos por Meadows et al. (1972), os efeitos das atividades humanas no planeta foram detalhados em diversos relatórios do IPCC7 (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), como apontou Friedlingstein et al. (2020). Essa situação faz com que as/os seres vivas/os vivam com 40 gigatoneladas de carbono adicionadas à atmosfera terrestre a cada ano. Isso acarreta a destruição diária de 8.000 hectares de floresta (Carrington et al., 2018) e a perda de mais da metade de todos os animais nos últimos 40 anos (Ceballos et al., 2017). Embora a concentração de carbono na atmosfera afete todos as/os humanas/os, a exposição à poluição, à fome e à escassez de água - as consequências das mudanças climáticas - afetam as populações mundiais de forma diferente (Relatório do Grupo de Trabalho III do IPCC, abril de 2022).

Indicadores de qualidade de vida e meio ambiente (Índice para uma Vida Melhor8 e Índice de Risco Climático Global9) ajudam a compreender essas consequências para muitos países. Práticas humanas causam uma perda massiva de biodiversidade, uma enorme produção de resíduos não recicláveis, poluição do ar e da terra em todas as partes do mundo e mudanças climáticas, que tornam a vida impossível em muitos países tropicais e equatoriais.

As mudanças climáticas e a deterioração do meio ambiente são duas das consequências dos atuais sistemas dominantes de produção industrial e de trocas econômicas. Esses sistemas esgotam os recursos e levam à degradação das condições de vida (ILO, 2019). As desigualdades sociais e ambientais estão se aprofundando em todo o mundo, com algumas pessoas acumulando toda a riqueza derivada da exploração das/os seres humanas/os e da natureza, e outras levando uma vida de trabalho árduo sem esperança de melhoria (Chancel et al., 2022). Essa situação agrava os desafios de adaptação a desastres climáticos mais frequentes e severos e aumenta a incidência de doenças graves relacionadas à poluição.

Tendo atingido o “estágio final da modernidade” (Macé, 2022, p. 8), enfrentamos um risco crescente de incapacidade de garantir trabalho decente, sendo que a vulnerabilidade devido à precariedade e às más condições de trabalho está se espalhando por todas as populações (Blustein, 2019; Blustein & Flores, 2023; Nota et al., 2023). Um grande número de empresas está agora em crise (Segrestin & Hatchuel, 2012). Sujeitas à pressão das/ os acionistas, elas não estão mais comprometidas com uma missão social como no passado, sendo seu objetivo principal maximizar o retorno financeiro. Esse modo de operação, baseado na busca pela melhoria contínua do desempenho, prejudica a qualidade do trabalho, a justiça social e as capacidades de inovação, resultando em sofrimento nos contextos de trabalho, problemas de saúde mental, uma sensação de conflito ético e uma perda de sentido no trabalho (Blustein et al., 2022; Coutrot & Perez, 2022; Kalleberg & Vallas, 2017).

Características atuais das intervenções em orientação profissional e de carreira

Apesar desses desafios, a maioria das intervenções que apoiam o design de vidas ativas é sustentada por uma lógica focada na empregabilidade e na gestão do fluxo de pessoas a serem integrados ao mercado de trabalho. Muitas intervenções em orientação profissional e de carreira são inspiradas em práticas de gestão de recursos humanos. Em vez de considerar necessidades e aspirações individuais, elas utilizam estruturas predefinidas, como testes de avaliação e quadros de referência com seus critérios fixos, bem como métodos de avaliação para aprendizagem (Vergnies, 2023).

Na França, por exemplo, estudantes do ensino médio e concluintes da graduação agora precisam fazer suas escolhas de carreira por meio de uma plataforma baseada em opções predefinidas, seguindo uma lógica gerencial de combinação, o que limita suas possibilidades de exploração e agrava as desigualdades (Mizzi, 2022). Procedimentos semelhantes são aplicados na Polônia, em Portugal e em muitos outros países.

Além disso, a crescente dependência da noção de competências na área da orientação profissional (career guidance) levanta diversas questões (Duru-Bellat, 2015). Por exemplo, as competências são frequentemente avaliadas de forma declarativa, e isso muitas vezes depende da formulação das perguntas, que tende a ser contaminada por vieses.

É difícil identificar os fatores que impulsionam o desenvolvimento de habilidades, especialmente porque eles se manifestam em um contexto de avaliação social situada. Eles contribuem para uma representação fragmentada de pessoas em ação, que são, geralmente, julgadas incompetentes se não possuírem um determinado número e tipo de competências. Por exemplo, as/os jovens de hoje são incentivadas/os a desenvolver competências socioemocionais (soft skills), consideradas essenciais para a entrada no mercado de trabalho, independentemente da função.

Além disso, as intervenções atuais incentivam as pessoas a integrar as novas restrições do trabalho por meio de noções como carreiras nômades, carreiras proteanas e carreiras sustentáveis, promovendo a autonomia e o autoempreendedorismo, o que pode, muitas vezes, aumentar o isolamento das pessoas, afastando-as ainda mais das comunidades de vida e trabalho.

Por fim, estamos testemunhando o desenvolvimento da desmaterialização no aconselhamento de carreira, por conta do uso crescente de plataformas de informação. Por exemplo, pessoas em sofrimento psicológico precisam interagir cada vez mais com assistentes virtuais baseados em algoritmos de IA (inteligência artificial), o que implica uma adaptação cada vez maior das pessoas às operações das máquinas (Park et al., 2023; Vaidyam et al., 2019). A crítica específica às intervenções atuais em orientação profissional e de carreira é que elas adotam uma visão tecno-otimista do futuro da sociedade e falham em analisar as relações subjacentes entre as/os seres ou em considerar adequadamente as questões de justiça social no desenvolvimento de carreira.

Uma visão tecno-otimista do futuro da sociedade

Intervenções em orientação profissional e de carreira são cada vez mais concebidas como parte da gestão de fluxo, em que as pessoas precisam ser combinadas com programas de treinamento, um sistema no interior do campo digital que envolve o mínimo de diálogo com pessoas treinadas. Essa tendência se alinha à crença social do poder superior da tecnologia para resolver todos os problemas sociais e individuais. Especificamente é:

a crença de que a ciência e a tecnologia serão capazes de resolver os principais problemas sociais e ambientais de nossos tempos, sem repensar a estrutura ou os objetivos de nossas economias baseadas no crescimento com base na natureza dos estilos de vida afluentes e de estilo ocidental... Em outras palavras, o tecno-otimismo é a crença de que os problemas causados pelo crescimento econômico podem ser resolvidos por mais crescimento, desde que aprendamos a produzir e consumir de forma mais eficiente por meio da aplicação da ciência e da tecnologia (Alexander & Rutherford, 2019, p. 232).

Questionando as representações subjacentes às relações entre as/os seres

O antropólogo Descola (2021) apontou que a relação consigo mesma/o e com as/os outras/os é estruturada de acordo com representações das/os seres e das coisas baseadas em suas diferenças e semelhanças. Ele também demonstrou que o regime naturalista característico das sociedades ocidentais se baseia em uma divisão sistemática entre natureza/não humanas/os e humanas/os. Este conceito deve ser questionado no contexto atual de crise para garantir a continuidade da vida na Terra. Descola e Pignocchi (2022) propõem reconstruir essas relações com foco em uma visão inclusiva dos ambientes de vida e:

tentam imaginar formas de delegação da capacidade de ação de não-humanos que sejam institucionalmente viáveis … De fato, é fácil imaginar a representação não de seres individuais ou coletivos como tais…, mas sim de ambientes vivos, isto é, relações de um certo tipo entre seres localizados em espaços mais ou menos amplos, qualquer que seja sua natureza… O sentido de apropriação - do ambiente para os humanos, e não o contrário - representa uma revolução mental prodigiosa para os cidadãos naturalistas, que pode preparar reviravoltas ainda maiores nas práticas e hábitos de pensamento. É primeiramente na mente que mudamos o mundo, pois as instituições são ideias que se manifestam nas e por meio das práticas (pp. 89-91).

Questões de justiça social insuficientemente integradas nas intervenções de aconselhamento de carreira

Setecentos milhões de pessoas em todo o mundo não têm acesso a trabalho decente ou a oportunidades de se envolver em um trabalho que atenda às suas necessidades fundamentais de sobrevivência, conexão social e autodeterminação (Blustein et al., 2019; ILO, 2019). No entanto, como observado por McWhiter e McWha-Hermann (2021), não existe um quadro abrangente para a integração de pesquisas e para a identificação das barreiras que impedem o progresso em direção a uma maior justiça social no acesso ao trabalho e ao emprego.

Intervenções para promover a justiça social que desafiem o neoliberalismo e apoiem o design de vidas ativas foram propostas recentemente (Hooley et al., 2018, 2019). Para integrar o princípio da justiça social em intervenções para o design de vidas ativas, devemos abandonar a concepção das atividades humanas como mercadorias. Como afirma Supiot (2019), “a justiça social visa garantir… que os trabalhadores sejam empregados em ocupações onde tenham a oportunidade de utilizar plenamente as suas competências e conhecimentos e de contribuir de forma mais eficaz para o bem comum” (p. 31). Tornar a justiça social parte das intervenções de orientação profissional e de carreira daria às/aos orientadoras/es (practitioners ou counselors) um quadro para entender o papel da opressão e da desigualdade no desenvolvimento de comportamentos e para mover-se de trabalhos individualizados para trabalhos comunitários (Guichard, 2018b; Ribeiro, 2023).

Essas diversas limitações impedem que as atuais intervenções de desenvolvimento da vida e de orientação profissional e de carreira cumpram um papel compatível com a gravidade das restrições enfrentadas pelas sociedades na Era do Antropoceno. A seguir, propomos alguns princípios desenvolvidos pela Cátedra UNESCO para ajudar as pessoas a enfrentar as crises atuais, as quais acreditamos que devem orientar a construção de intervenções que promovam novas relações das pessoas com o mundo.

Princípios-chave para aprender a se integrar ao mundo

As intervenções que apoiam o design de vidas ativas devem atender a sete princípios que contribuem para a justiça social, o trabalho decente e o desenvolvimento sustentável, permitindo que as pessoas enfrentem o Antropo-Capitaloceno, ajudando-as a se relacionar consigo mesmas, com as/os outras/os e com o mundo (Carosin et al., 2022). Isso envolve tornar tais intervenções um componente essencial da educação para todas/ os, uma educação capaz de ensinar como se tornar parte do mundo e, assim, gerar um novo modo de humanidade (Common Worlds Research Collective, 2020; Plumwood, 2009). Como Descola (2021) enfatiza, ao discutir formas de pensar o mundo, o desafio é redesenhar:

modos de identificação, esses filtros ontológicos que estruturam a mundiação10… que podem ser vistos como esquemas cognitivos e sensório-motores, que são incorporados durante a socialização em um ambiente físico e social particular e funcionam como dispositivos de enquadramento para nossas práticas e nossas instituições, sem mobilizar conhecimento proposicional (p. 11).

O princípio do sistema terrestre limitado

O modelo Doughnut “reconhece que o bem-estar depende da possibilidade de que cada pessoa leve uma vida digna e de oportunidades, salvaguardando ao mesmo tempo a integridade dos sistemas de suporte à vida na Terra” (Raworth, 2017, p. 48). Este modelo postula a existência de um teto e um piso ambientais que constituem limites além dos quais a humanidade corre o risco de desaparecer. O objetivo é, portanto, manter as ações humanas dentro de um espaço seguro e justo para a humanidade.

Esse espaço é metaforicamente representado como o Doughnut, uma imagem que fornece uma representação simples de um mundo com recursos limitados e serve como um suporte conveniente para pensar as atividades humanas e suas consequências, bem como para fazer comparações ao longo do tempo e do espaço (Fanning et al., 2022). Várias cidades (por exemplo, Amsterdã) e universidades (por exemplo, a Universidade de Lausanne) ao redor do mundo já decidiram adotar esse modelo para estruturar suas operações nos próximos anos.

O princípio do cuidado (care)

O cuidado é definido como uma atividade geral que inclui tudo o que fazemos para manter, dar continuidade e reparar o mundo, para que possamos viver nele da melhor forma possível (Tronto, 1993). Por mundo, Tronto se refere a corpos, pessoas e ambientes interligados - um conjunto de elementos conectados em uma rede complexa que sustenta a vida. Adotar uma ética do cuidado significa engajar-se em relacionamentos singulares que ocorrem em um mundo vulnerável.

Um forte senso de responsabilidade para com as/os outras/os e suas necessidades é parte integrante da ética do cuidado. Diversos modelos de ética do cuidado são propostos como base para uma nova ordem humana baseada na não-violência como meio de luta por mudanças sociais (Butler, 2020). Intervenções que apoiam pessoas vulneráveis no design de suas vidas ativas devem proporcionar-lhes a maior liberdade possível para que possam agir e expressar todo o seu potencial.

O princípio da responsabilidade (responsibility)

O nosso mundo tecnológico e industrial atual exige a implementação de um código ético que oriente todas as ações humanas a fim de garantir que as gerações futuras desfrutem de uma vida de qualidade. Pessoas e coletivos devem alinhar seus esforços e projetos com um imperativo de responsabilidade (Jonas, 1984). Esse imperativo é concretizado pela reflexão e observância de princípios como: “aja de modo que os efeitos da sua ação sejam compatíveis com a permanência da vida humana genuína” (p. 11).

Diante disso, a responsabilidade deve ser considerada um objetivo e a regra das intervenções de aconselhamento de carreira e de vida, para que as pessoas atendam ao imperativo da responsabilidade e façam escolhas que protejam as gerações futuras (Drabik-Podgórna, 2018).

O princípio da verdade (truth)

Para Foucault (2011), a vida verdadeira origina-se do desenvolvimento de uma relação vigilante consigo mesma/o. Trata-se de uma prática de verdade que visa mostrar que “o mundo só poderá… transfigurar-se e tornar-se outro… ao preço de uma mudança, de uma alteração completa, da mudança e alteração completas na relação” (p. 315) que se tem consigo mesma/o. Por um lado, o trabalho da verdade é alcançado por meio do desenvolvimento do autoconhecimento para avaliar com precisão a capacidade de enfrentar os desafios iminentes. Por outro lado, envolve a autovigilância perpétua das próprias representações e pensamentos.

Trata-se de desenvolver uma nova relação consigo mesma/o, com as/os outras/os e com o mundo na “prática da verdade”, sustentada pelo autoexame e pela solidariedade com a humanidade, em prol da criação de um “mundo totalmente diferente” (p. 315). As intervenções de aconselhamento de carreira devem oferecer experiências que desenvolvam pensamento crítico e resistência à padrões de pensamento (Guichard, 2018b).

O princípio da esperança (hope)

O filósofo alemão Bloch (1986) abre sua obra-prima, O Princípio da Esperança, destacando a importância de aprender a ter esperança: “É uma questão de aprender a ter esperança… O trabalho dessa emoção requer pessoas que se dediquem ativamente ao que elas estão se tornando, ao qual elas próprias pertencem”. Esse princípio parece estar incorporado no Manifesto Convivialista e parece promover o desenvolvimento de intervenções de vida e carreira para apoiar o design de vida ativa.

Convivialismo é o nome dado a tudo o que, em doutrinas e sabedorias, existentes ou passadas, seculares ou religiosas, contribui para a busca de princípios que permitam aos seres humanos competir sem se massacrarem, a fim de cooperar melhor: para nos fazer progredir como seres humanos, com plena consciência da finitude dos recursos naturais e numa preocupação partilhada com o cuidado do mundo… As únicas políticas legítimas, mas também a única ética aceitável, são aquelas baseadas nos cinco princípios seguintes: naturalidade comum, humanidade comum, socialidade comum, individuação legítima e oposição criativa. Estes cinco princípios estão subordinados ao imperativo absoluto do controle da arrogância (Convivialist International, 2020, p. 7).

Nosso objetivo é desenvolver intervenções que contribuam para a construção de uma sociedade convivial (Illich, 1973) em um mundo plural que garanta prosperidade e bem-estar para todas as pessoas e rejeite qualquer ideia ou ação que alimente o crescimento econômico perpétuo e o consumo ilimitado. As intervenções em design de vida e carreira devem promover a experiência de estilos de vida sustentáveis com baixo impacto ambiental por meio da experimentação social e antropológica.

O princípio da atividade (activity)

Em seu livro A Condição Humana, Arendt (1958) caracteriza a noção epônima fundamentalmente como vida ativa11. No modelo de Arendt, a vida ativa inclui três categorias principais de atividades: labor (die Arbeit), trabalho (die Herstellung) e ação (das Handeln).

Labor abrange as atividades necessárias para sustentar a vida e a reprodução do animal humano. São atividades que se repetem constantemente e não deixam vestígios de trabalhos produzidos (por exemplo, colher frutas, trocar fraldas de uma criança etc.). Trabalho refere-se às atividades do homo faber, nas quais produtos relativamente duráveis são projetados e fabricados, ajudando as/os seres humanas/os a se distanciarem de sua condição animal (por exemplo, conceber uma máquina-ferramenta ou uma prensa tipográfica). De modo geral, as pessoas desenvolvem sentimentos de autorrealização por meio do seu trabalho: produzem obras nas quais se reconhecem. Por fim, a ação designa a atividade da/o ser humana/o como zoon politikon - um animal social - que se baseia na mediação de esforços razoáveis para construir um mundo juntos, notadamente lidando com as questões colaterais induzidas pelo labor e pelo trabalho (por exemplo, a deliberação política, a organização de um sistema de trocas locais etc.).

O interesse das análises de Arendt para intervenções que apoiem o design de vida ativa é duplo. Elas enfatizam que a vida ativa não se reduz a empregos no mercado de trabalho. As mesmas atividades podem ser realizadas como um emprego ou como o que Richardson (2012) chama de “trabalho de cuidado pessoal” (que, na classificação de Arendt, deveria ser melhor rotulado como “labor de cuidado pessoal”). Ao mesmo tempo, as análises de Arendt permitem estabelecer diferenças significativas entre as diversas funções ocupacionais no mercado de trabalho atual, dependendo da proporção de labor, trabalho e ação que elas compreendem. Certos trabalhos personificam formas quase puras de labor ou de trabalho, ou ainda, de ação. Por exemplo, no caso do labor: limpar a sede de empresas à noite, entregar refeições em domicílio, codificar imagens para inteligência artificial etc.

O princípio da capacidade (capability)

Uma sociedade convivial é uma sociedade onde o homem controla a ferramenta (Illich, 1973). Em tal sociedade, capacidades coletivas são mobilizadas para empoderar as pessoas. Isso implica que as pessoas ensinam umas às outras a serem mais autônomas (Arnsperger, 2023). A abordagem baseada em capacidades (Sen, 2009) reconsiderou o conceito de justiça social como um conjunto de oportunidades oferecidas a cada pessoa para fortalecer seu poder e ser capaz de escolher a vida que almeja. Capacidade é definida como a liberdade que uma pessoa tem para fazer coisas e levar uma vida que tenha motivos para valorizar.

O desenvolvimento das capacidades humanas deve envolver todos os membros da sociedade. Para Sen (2009), desenvolver capacidades para o desenvolvimento sustentável também ajuda a tornar a liberdade sustentável: “A liberdade sustentável... envolveria manter e, se possível, expandir as liberdades e capacidades reais que as pessoas desfrutam atualmente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de terem uma liberdade semelhante ou maior” (p. 307).

O uso da abordagem baseada em capacidades em intervenções de aconselhamento ajuda as pessoas a ampliar suas possibilidades de ação e, consequentemente, a ter um trabalho digno (Bolton, 2011) e a viver uma vida mais livre, sem comprometer o bem-estar das gerações futuras e das/os não humanas/os. Todos esses princípios fornecem uma base a partir da qual as intervenções de aconselhamento podem atuar para apoiar pessoas e grupos a considerarem suas vidas no contexto do Antropoceno.

Uma perspectiva focada no conceito de forma de vida

No contexto do Antropoceno Predatório ou Capitaloceno (Moore, 2017), novos conceitos devem ser utilizados para repensar o design de vidas ativas. O conceito de forma de vida é um conjunto de práticas e usos diversos que conferem à vida comunitária sua singularidade, expressa na linguagem, nos modos de ação, nas crenças, nos valores e nas formas de pensar.

O conceito de forma de vida também desencadeia um processo antropológico e psicossocial abrangente que ajuda a compreender a lógica das configurações da vida contemporânea na crise atual. Este conceito nos convida a atentar para diversas dimensões da existência humana. Ele mostra o mundo em sua pluralidade e oferece novas perspectivas para e sobre o aconselhamento de carreira como apoio às pessoas na transformação de suas vidas, alinhando-as às necessidades de um sistema terrestre limitado.

O que é uma forma de vida?

Já em 1914, Spranger propôs uma definição de formas de vida com foco no caráter antropo-psicossocial:

O termo individualidade, que parece provir do Fédon de Platão, via Leibniz e Marsilio Ficino, não abrange o fenômeno aqui pretendido devido ao seu simbolismo científico. Não nos referimos a uma mera visão da alma, que seria colocada como princípio formador no mundo comum dos objetos, mas ao ser humano em seu multiforme entrelaçamento com o conteúdo da própria vida, como produto inseparável de ambos: o mundo naturalespiritual e a individualidade misteriosamente moldadora e moldada. O que chamamos de forma de vida é esse todo, em seu contexto orgânico (Spranger, 1914).

Esse conceito também foi discutido nas obras de Wittgenstein em 1953, Agamben em 1995 e Foucault em 2009. Para Wittgenstein, formas de vida são práticas sociais e padrões de expectativas e respostas que variam entre culturas e períodos históricos (Emmett, 1990). Pessoas que compartilham formas de vida compartilham interesses, sentimentos e maneiras de ver o mundo. Para Foucault (2011), as formas de vida expressam a verdadeira vida tal como é vivenciada na revolução, na arte e no ativismo:

testemunhando pela própria vida, sob a forma de um estilo de existência… [que] deve manifestar diretamente, por… sua prática constante e sua existência imediata, a possibilidade concreta e o valor evidente de outra vida, que é a verdadeira vida (p. 184).

Por sua vez, Agamben (Ferrarese, 2015) acredita que uma vida:

que não pode ser separada de sua forma é uma vida na qual os modos, atos e processos singulares de viver nunca são simplesmente fatos, mas sempre e acima de todas as possibilidades de vida, sempre e acima de todos os poderes (p. 50).

Para Agamben (Ferrarese, 2015), uma forma de vida só se realiza coletivamente e é obra de seres caracterizadas/ os por sua indeterminação. Qualquer busca pela felicidade coincide com a conquista de uma forma de vida que tem significado político porque “constitui um distanciamento de uma ordem, de um poder” (p. 51).

Mais recentemente, Ferrarese e Laugier (2018) definiram uma forma de vida como uma combinação de “práticas e instituições sociais, uma relação com o mundo e modos de percepção, atitudes e disposições comportamentais. Ela estabelece a estrutura para possíveis ideias de uma boa vida” (p. 5). Pode-se, portanto, dizer que uma forma de vida, como o próprio nome indica, informa a vida da pessoa (comportamentos, atitudes, ações, representações etc.), mas não a caracteriza como tal. Ou melhor, o que caracteriza a pessoa depende intimamente da configuração em que ela coexiste com outras/os humanas/os.

Um dos pontos importantes dessa definição é que uma forma de vida é uma maneira humana compartilhada de estar no mundo e funcionar com as/os outras/os. Assim, o termo forma de vida nos incentiva a abandonar uma visão psicológica de uma pessoa como caracterizada por um conjunto de traços essenciais definidores.

Formas de vida ativa (active forms of life) consistem em vários “traços dispostos” de maneira única (Ferrarese & Laugier, 2018). Por um lado, uma forma de vida não se refere a um conjunto de características, mas a uma configuração “instituída pelo arranjo de traços entre si” (Ferrarese & Laugier, 2018, p. 11). Por outro lado, ela se atualiza sempre em uma sequência de práticas sociais. Diante disso, é um conjunto de modos comuns de agir. Definir uma forma de vida:

envolve colocar-se em jogo; não é o que me é imposto, mas o que só posso alcançar a um certo custo. Formas de vida incluem disposições, orientações, gestos, modos de interação e roteiros de ação, que se concretizam dentro de uma estrutura material e institucional que condiciona nossas ações e possibilidades de vida (Ferrarese & Laugier, 2018, p. 13).

Ferrarese e Laugier (2018) acreditam que o horizonte político do século XXI está fadado a transformar radicalmente nossas formas de vida, o que envolve a autoinvenção comum e a organização conjunta da vida, local e globalmente. As formas de vida dominantes nas sociedades ocidentais contemporâneas, centradas nas regras do mercado e na maximização dos lucros para as organizações capitalistas, devastaram os recursos naturais a ponto de colocar a vida na Terra em risco. Para garantir uma vida de qualidade para todas/os, incluindo as gerações futuras, é necessária uma transformação radical das formas de vida. Estas devem agora incorporar o cuidado, a responsabilidade e a vulnerabilidade das/os seres vivas/os.

O propósito das intervenções de aconselhamento de carreira: Construir formas de vida ativa

Como posso construir minha vida ativa individual e coletivamente para contribuir para uma sociedade justa e sustentável, em um mundo com 10 bilhões de pessoas afetadas por grandes desastres e recursos naturais esgotados? Na era do Antropo-Capitaloceno, ajudar as pessoas a encontrar respostas para essa pergunta por si mesmas deve se tornar o objetivo principal das intervenções que as apoiam no design de suas vidas ativas. Por um lado, todas/ os devem visualizar o curso de sua vida pessoal e social, consumindo o mínimo de recursos e tendo em mente a necessidade de outras/os humanas/os e não humanas/os de viverem vidas dignas em um mundo saudável. Por outro lado, devem ser consideradas formas eficazes de lidar com grandes eventos climáticos. Essas projeções podem ser iniciadas por meio de processos de ressonância (Rosa, 2019). A seguir, descrevemos alguns modelos que podem ser usados para apoiar pessoas em suas reflexões aprofundadas sobre suas vidas ativas.

O modelo da vida ativa

As análises de Arendt (1958) sobre a vida ativa ajudam a traduzir a reflexão abstrata sobre formas de vida em um exame mais concreto das formas de vida ativa, com base nas três dimensões de seu modelo (labor, trabalho e ação). Cada uma delas pode ser associada a um conjunto de questões para avaliar a forma de vida de cada um/a.

A primeira dimensão aborda como a pessoa resolve o problema de sua sobrevivência biológica (labor): Que tipos de atividades a pessoa realiza para atender às suas necessidades básicas? Que critérios de valor e significado orientam essas atividades? Qual é o propósito dessas atividades e elas têm um impacto positivo sobre humanas/os e não humanas/os? Essas questões podem envolver consumo e mobilidade diária, trabalho, lazer e seu equilíbrio, e a gestão geral da vida diária.

A segunda dimensão diz respeito à forma como alguém se envolve na produção que deixa um rastro (trabalho): Que tipos de atividades proporcionam à pessoa um senso de realização, de expressar sua humanidade em uma criação única, útil à sociedade e respeitosa ao planeta? Como podem aumentar suas experiências de conexão com a natureza? Essas questões podem estar relacionadas às atividades individuais em sua região e à forma como todas/os podem contribuir para o design e construção de um ambiente de vida coletivo sustentável.

A terceira dimensão corresponde à contribuição de cada um/a para um projeto coletivo (ação) que visa combater tudo o que causa danos às/aos seres vivas/os e à destruição da natureza. Que tipos de atividades levam alguém a trabalhar com outras/os para melhorar a vida de humanas/os e não humanas/os? Que ações coletivas podem ser tomadas para combater as forças que destroem a vida? Como participar da gestão de projetos de democracia local?

Essas três dimensões da vida ativa podem servir como critérios para analisar as situações das pessoas em suas formas de vida ativa. Elas também podem ser utilizadas em intervenções de aconselhamento de vida e carreira para ajudar as pessoas a retratar o estilo de vida adotado. É essencial explorar todas as situações ligadas às formas de vida, que decorrem da familiaridade de uma pessoa com um conjunto de pessoas ou objetos, combinada com habilidades específicas mobilizadas para realizar ações esperadas ou desejadas.

O modelo do sistema de atividade

A operacionalização ou enquadramento dessas questões pode ser inspirado no modelo do sistema de atividades (Curie et al., 1990). Este modelo categoriza as atividades diárias em quatro domínios da vida: familiar, de trabalho, pessoal e social. As atividades comunitárias pertencem ao domínio social. Todos esses domínios devem incorporar atividades de cuidado, informação, educação e ação para a proteção do meio ambiente natural e da biodiversidade.

Formas de vida ativa também produzem situações que atravessam esses domínios. Por exemplo, um/a desempregada/o pode participar de atividades de conscientização sobre biodiversidade com crianças em idade escolar, que, às vezes, podem ser remuneradas; ou uma pessoa pode trabalhar meio período para se dedicar mais ao cultivo de frutas e vegetais em sua horta para uso privado e, posteriormente, vender parte dessa produção.

A Tabela 1 apresenta alguns exemplos de atividades pertencentes a formas de vida ativa em consonância com o desenvolvimento humano sustentável. Esta apresentação é parcial, visto que qualquer forma de vida ativa inclui não apenas atividades, mas também atitudes, representações, capacidades, sentimentos, modos de ser e de fazer as coisas. Para as/os orientadoras/es, ajudar a construir formas de vida ativa significa encorajar as pessoas a refletir e analisar situações cotidianas (Goffman, 1974) e ajudá-las a mudar seus hábitos de vida.

Tabela 1 Exemplos selecionados de atividades incluídas em formas de vida ativa em consonância com o desenvolvimento humano sustentável 

Domínio Labor Trabalho/Design/Fabricação Ação
Família Preparar refeições que consumam pouca energia e privilegie produtos locais, à base de plantas, etc. Criar um sistema para a família economizar energia e reciclar resíduos Organizar projetos com outras famílias (férias na natureza)
Trabalho Na procura de emprego, priorizar o critério de contribuir para o desenvolvimento equitativo e sustentável através
do trabalho decente
Encontrar realização em uma função de trabalho que tenha efeitos benéficos para humanas/os e não humanas/os Desenvolver uma organização
de trabalho decente que contribua para um desenvolvimento sustentável e equitativo
Social-comunitário Realizar tarefas para ajudar pessoas vulneráveis (por exemplo, preparar refeições em associações de caridade) Desenvolver software para organizar trocas em um mercado local solidário Estabelecer um sistema local para a produção e troca de bens e serviços
Pessoal Escolher modos de transporte ecologicamente corretos (caminhada, bicicleta) Expressar a criatividade em diversos campos por meio de produções sustentáveis Promover a criatividade por meio de atividades de educação e compartilhamento de experiências

Segundo Ricoeur (2009), o domínio do hábito corresponde a “uma maneira adquirida e relativamente estável de sentir, perceber, agir e pensar: afeta todos os objetivos da consciência sem ser, em si, um objetivo” (p. 353). O objetivo é questionar nossa vida cotidiana em todas as suas dimensões.

Ressonância para impulsionar a projeção em direção a formas de vida ativa

Rosa (2019) propôs o conceito de ressonância, onde algo é posto em vibração, e o conceito de aceleração, que ela associa à alienação que vivenciamos na modernidade tardia. Nossa experiência do mundo é sempre um amálgama de corpos e sentidos. Ela poderia ou deveria surgir por meio de uma relação corporal direta, mas, para Rosa (2019), as relações com os mundos das/os sujeitas/os modernas/os tardias/os não são mais, em sua maior parte, imediatamente corporais, mas sim mediadas pela linguagem, livros, telas e música. As relações com o mundo são, portanto, tanto o resultado de visões culturais do mundo e de práticas sociais quanto de disposições físicas e psicológicas individuais.

Esses mediadores da experiência de mundo podem gerar relações de mundo alienantes, frias, silenciosas e pobres. Além disso, para Rosa (2019), no estado de alienação, a nossa própria voz e/ou a voz da/o outra/o tende a se tornar inaudível ou a não nos dizer mais nada - a/o sujeita/o e o mundo permanecem congelados em um silencioso face a face.

A busca por ressonância pode, portanto, ser vista como um caminho de transformação e uma solução individual e coletiva para a alienação atual induzida pelo AntropoCapitaloceno. Mais especificamente, a ressonância é uma relação pessoa-ambiente que pode ser vivenciada em três eixos. A ressonância horizontal (eixo social) emerge da intersubjetividade nas esferas familiar, de amizade e política. A ressonância diagonal (ou ressonância material) baseia-se na relação com objetos inanimados e existe nas esferas do trabalho, da escola, do esporte e do consumo. A ressonância vertical é transcendental e abrange as esferas da natureza, da arte, da religião e da história.

Os três eixos se entrelaçam e se fundem para formar um espaço experiencial que é um locus de diversas relações com o mundo. Entre elas, a ressonância é o tipo de relação que, segundo Rosa (2019), resulta em uma boa vida. Assim, a ressonância pode ser vista como uma forma de atualizar formas de vida ativa.

Em ambientes práticos de aconselhamento de carreira, os fundamentos da vida cotidiana podem ser examinados com o objetivo de modificá-los em conjunto com formas de vida ativa por meio de certos métodos informados pela perspectiva do life design.

Apoiar a transformação em formas de vida ativa e sustentável: Algumas vias metodológicas

Refletir sobre a transformação das formas de vida envolve duas etapas: em primeiro, analisar a forma de vida atual e, em segundo, imaginar uma forma de vida ativa na qual se gostaria de se envolver. Uma forma de vida requer investigação das estruturas da ação cotidiana. As pessoas devem, de fato, identificar os fatores pessoais e sociais que regem suas ações e práticas (Ogien, 2018). Isso envolve um questionamento profundo e crítico do próprio modo de existência no contexto atual do Antropo-Capitaloceno:

O imaginário do crescimento parece-nos hoje quase “constitucional”; é por isso que consumir e trabalhar para produzir são agora vistos como verdadeiros deveres cívicos e por que uma filosofia diferente (se considerada necessária) exigirá uma metafísica e uma antropologia profundamente diferentes… inaugurando uma crítica verdadeiramente existencial da nossa cumplicidade involuntária, mas persistente, com o crescimento (Arnsperger, 2023, p. 156).

Abaixo, esboçamos alguns possíveis caminhos metodológicos que acreditamos que podem ser seguidos para fornecer o suporte que essa transformação requer.

Facilitando a narração/o diálogo

O diálogo é uma atitude essencial para as/os orientadoras/es que contribui para a construção da identidade: “Uma pessoa é formada por três instâncias EU-TU-ELE… um ser humano se torna alguém, uma pessoa e, portanto, um eu, somente através da prova adicional do que pode ser chamado de ELE” (Jacques, 1982, p. 72). Assim, a identidade pessoal se concretiza pela fusão dessas três posições no ato da comunicação, sendo a autoexperiência discursiva antes de ser existencial. O diálogo auxilia na coconstrução de histórias, inspirando a narrativa da experiência, na qual essas três posições se integram (McLeod, 2004).

Qualquer experiência pode ser narrada de diversas maneiras e mobilizar uma diversidade de vozes (Hermans & Hermans-Konopka, 2010), seguindo modelos que podem ser universais (McAdams, 1996). A/O orientador/a é tanto testemunha quanto coeditor/a de uma nova história. Seu papel é ajudar as pessoas a se tornarem autoras de suas vidas (McLeod, 2004; Savickas, 2009). Ao fazer isso, a/o orientador/a acompanha a verbalização de novas experiências para possibilitar que a pessoa as articule de uma nova forma. Como Buber (1937) elucida,

um homem se depara com uma forma que deseja ser transformada em obra por meio dele... O homem está preocupado com um ato de seu ser. Se ele o realiza, se ele profere a palavra primária (Eu-Tu) de seu ser para a forma que surge, então o poder efetivo flui, e a obra surge (p. 9-10).

Orientadoras/es podem usar técnicas de diálogo e de narrativa e se valer de uma variedade de formas, estruturas e componentes narrativos (Cohen-Scali, 2019; DrabikPodgórna, 2009, 2017; Guichard, 2018a).

Investigação/coinvestigação

Construir uma forma de vida ativa pressupõe uma mudança na forma como avaliamos nosso modo de viver e pensar anterior. As pessoas devem se perguntar o que dá valor às suas atividades e às suas vidas. Para Dewey (2011), os valores unem desejos e interesses e são centrais para o curso da ação:

A continuidade das atividades humanas, individuais e coletivas, significa não poder estabelecer de forma válida a importância das valorações presentes sem colocá-las na perspectiva das valorações passadas com as quais estão em continuidade. Sem essa visão, a perspectiva futura - as consequências das novas valorações atuais - permanece indefinida (p. 158).

Em sua filosofia pragmática, Dewey (2011) explora como a pessoa pode reequilibrar as transações nas quais está envolvida quando percebe uma ruptura, desconforto ou dificuldade, e busca alcançar um novo equilíbrio com seu ambiente para se conectar mais a ele. Transformar a própria forma de vida também significa mudar hábitos individuais. Para tal, Dewey (1938) sugere a investigação. Investigação é definida como “a transformação controlada ou direcionada de uma situação indeterminada em uma situação tão determinada em suas distinções e relações constituintes a ponto de converter os elementos da situação original em um todo unificado” (pp. 104-105).

Consequentemente, a investigação envolve questionar os próprios hábitos de ação e pensamento em um processo iterativo (Thievenaz, 2019). A/O orientador/a pode ajudar a/o orientanda/o a analisar sua situação, identificar as fontes de seu desconforto e examinar sua experiência, pensamento e hábitos de ação como um primeiro passo para o desenvolvimento de uma forma de vida ativa. Esse método promove a reflexividade e desencadeia a transformação de estruturas experienciais.

Apoiar e coconstruir ações e projetos coletivos

Outro método é elaborar, com a/o orientador/a, projetos de envolvimento em novas ações coletivas. Como aponta Ogien (2018), na ação coletiva, a pessoa descobre outras formas de vida. Orientadores/as organizam “a atividade de identificação e planejamento que ajuda as pessoas envolvidas na ação conjunta a dar passos em direção à conclusão da ação e às oportunidades que cada ação abre para garantir sua continuidade” (p. 140). A ação coletiva permite organizar configurações agentivas, definidas como conjuntos de habilidades das pessoas, para exibir criatividade na expressão artística, poética ou política, como uma plataforma a partir da qual as pessoas podem organizar e transformar o ambiente ao seu redor (Pitrou, 2018).

Esta atividade ajuda a combater o isolamento, promove relacionamentos sociais e estimula o desenvolvimento de habilidades. Conversas filosóficas são uma oportunidade para a educação moral das pessoas, pois cultivam a empatia, a reflexividade e o raciocínio lógico. As trocas podem ocorrer em um contexto de oficinas participativas com contribuições de conhecimento e discussão (por exemplo, sobre a crise climática, como no Climate Fresk12). Esses eventos desenvolvem habilidades de debate e escuta, e ajudam as pessoas a se tornarem pensadoras/es morais, interlocutoras/es atentas/os e competentes (Noddings, 2002).

Experimentando e abrindo ressonância

Intervenções que apoiam o design da vida ativa também podem ser elaboradas para chamar a atenção das pessoas para determinados eixos de ressonância. Elas podem incentivar as pessoas a explorar e considerar esses eixos ao moldar seu futuro e preparar a contribuição que desejam dar à humanidade e ao mundo. Como explicam Lijster e Celikates (2019), vivenciar a ressonância proporciona uma nova percepção de si mesma/o e do mundo:

Quando você realmente vivencia a ressonância, o horizonte temporal se amplia... ele se estende; é a copresença do passado e do futuro. Uma vez que você está em ressonância com algo, é como se o passado falasse com você e, através de você, com o futuro (p. 74).

Mais do que construir situações de ressonância artificiais, as situações de aconselhamento life design visam tornar a ressonância disponível e ativa como um recurso adaptativo a ser desenvolvido.

Na descrição de Rosa (2019), essa relação de ressonância depende de dois movimentos complementares: 1. a abertura ao mundo, ou seja, uma disposição e um convite para ouvir o mundo e ser afetado por seu chamado (emocional, cognitivo e físico); e 2. o poder de agir, experimentar a autoeficácia e reconhecer a própria atividade no mundo. Esses dois movimentos estão em jogo na construção de formas de vida ativa. Consequentemente, as próprias intervenções do life design representam, por assim dizer, uma relação de ressonância social única na qual quem busca apoio é tocado e transformado (Kargulowa, 2023).

Defendendo as pessoas

A defesa de direitos (advocacy) em aconselhamento foi enfatizada como uma necessidade para a profissão pela Associação Americana de Aconselhamento em 1999 (Lewis & Bradley, 2000). Embora a defesa de direitos seja geralmente entendida como a defesa da profissão (Schiersmann et al., 2012), em nosso artigo o foco está na defesa de direitos da/o orientanda/o.

Na definição de Toporek (1999), defesa de direitos é “uma ação tomada por um orientador para facilitar a remoção de barreiras externas e institucionais ao bem-estar dos orientandos” (p. 2). Isso não significa que as pessoas não possam se defender, mas sim que as/os orientadoras/es podem ter acesso a recursos, suportes e alavancas sociais, econômicos ou políticos que estão fora do alcance das pessoas. Na visão de Toporek (1999), para ser eficaz, a/o orientador/a deve se envolver com o ambiente da pessoa, a fim de ajudá-la a identificar e superar todas as fontes de dificuldade. Isso também significa que as/os orientadoras/es se engajam em ações sociais e participam do contexto sociopolítico como ativistas para facilitar a eliminação de fontes de opressão e desigualdade.

Conclusão

Nessa perspectiva, o propósito do aconselhamento de carreira - e, de modo mais geral, de qualquer intervenção que apoie as pessoas no design de suas vidas ativas - é auxiliá-las no questionamento, por um lado, dos critérios de valor das atividades e práticas sociais em seu mundo vivido e, por outro, de seus próprios propósitos existenciais à luz dos critérios objetivos das necessidades e limites do sistema terrestre.

Novas formas de vida ativa devem consistir em atividades, práticas sociais, ideias e significados voltados para a preservação deste sistema. Essa perspectiva parece alinhada ao desenvolvimento sustentável como um quarto paradigma para intervenções de carreira no século XXI, baseado no “respeito à natureza como um todo (animais, plantas e o planeta), incorporando as gerações futuras e a vida futura na Terra” (Hartung & Di Fabio, 2024, p. 207).

A crise climática, que também é uma crise social, expôs, mais do que qualquer outra crise anterior, a extensão das desigualdades socioeconômicas. Isso deve mobilizar todos as/os profissionais que atuam na área para o apoio à construção de vidas ativas. A crise multifacetada exige uma reformulação das competências das/os orientadoras/ es, que devem se comprometer mais fortemente com a justiça social e o combate às desigualdades. O conceito de formas de vida oferece uma perspectiva ampla sobre os modos de ser, pensar e agir das pessoas e reflete um certo tipo de relação consigo mesma/o, com as/os outras/os e com o mundo (Guichard, 2022a).

Este conceito rompe com as abordagens fragmentadas que separam os processos psicológicos dos sociais, ainda frequentemente adotadas em intervenções de orientação profissional e de carreira. O enfoque da forma de vida provoca a reflexão sobre os princípios de ação aqui definidos. As quatro vias metodológicas que delineamos provavelmente promoverão o surgimento de formas de vida ativa, ou seja, formas sustentáveis de vida que atendam às necessidades de sobrevivência, realização e ação coletiva. Devem resultar na produção de um repertório de novas práticas para fortalecer o papel das/os orientadoras/ es de carreira como atores/atrizes sociais e políticas/os.

1Agradecemos ao Australian Journal of Career Development pela autorização da tradução e publicação do presente artigo em língua portuguesa na Revista Brasileira de Orientação Profissional. O artigo original pode ser acessado em: Cohen-Scali, V., Drabik-Podgórna, V., Podgórny, M., Duarte, M. E., Guichard, J., Aisenson, G., ... & Antonio, D. S. (2025). New perspectives for life-design interventions in the anthropocene context. Australian Journal of Career Development, 34(1), 5-17. https://doi.org/10.1177/10384162241307964

3O termo Antropoceno foi cunhado por Paul Crutzen (2002) para dar significado a uma ruptura com a Era geológica do Holoceno, caracterizada pela relativa estabilidade dos fenômenos naturais. Crutzen (2002) utilizou o prefixo Anthropos para transmitir a ideia de que as atividades humanas causaram grandes mudanças no ambiente natural e geológico.

4O termo Capitaloceno é usado por Moore (2017) para descrever o fato de que são as atividades humanas, realizadas ao longo de quase três séculos por potências em busca de enriquecimento, que esgotam todos os recursos humanos e naturais ao depender de combustíveis fósseis. Por esse motivo, apenas uma parcela histórica e geograficamente circunscrita da humanidade é responsável pelos desenvolvimentos atuais.

5Neste texto, utilizaremos a expressão Antropo-Capitaloceno.

6Como veremos mais adiante, Hannah Arendt (1958) faz o contraste entre vida ativa e vida contemplativa. Isso caracteriza a condição humana. O ser humano é, antes de tudo, um homo faber. Em suas vidas ativas, as/os humanas/os trabalham, fabricam e atuam.

7Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

10Mundiação refere-se à maneira como as pessoas, dependendo do ambiente social em que vivem, consideram objetivamente certos elementos em detrimento de outros e certas continuidades entre eles. Os mundos de um físico nuclear e de um caçador Achuar não são os mesmos. Não porque ambos estejam mais próximos da realidade, mas porque suas ferramentas de percepção são diferentes. Um detecta bósons, o outro, espíritos. E não se trata de representação, mas do que viram ou não viram, do que ouviram (Descola, 2022).

11A edição alemã do livro de Arendt (traduzida por ela mesma) foi na verdade intitulada Vita activa (1960).

12Segundo a Wikipédia, “o Climate Fresk é uma organização francesa sem fins lucrativos fundada em 2018, cujo objetivo é conscientizar o público sobre as mudanças climáticas. Propõe um jogo sério colaborativo baseado em 42 cartas em que os participantes desenham um afresco, daí o nome ‘fresk’, que resume o trabalho do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Até 2023, mais de um milhão de pessoas já havia participado.”

Declaração de uso de inteligência artificial

O conteúdo deste artigo foi inteiramente elaborado sem o uso de inteligência artificial para a sua criação.

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Recebido: 30 de Setembro de 2025; Aceito: 07 de Outubro de 2025

2Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. Avenida Prof. Mello Moraes, 1721, Cidade Universitária, 05508-030, São Paulo, SP. E-mail: marcelopsi@usp.br

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