1 A narrativa e o contexto histórico-cultural
Michel Foucault (1926-1984), em sua obra, “História da Loucura na Idade Clássica” (1972), narra o contexto de entendimento da loucura ao longo dos séculos XV-XVI. A ideia de loucura é marcada, incialmente, pela dicotomia cósmica (aproximação da religião como fuga ao advento e crescimento da Idade da Razão ao final da Idade Média) e reflexão moral (“O Mal não é o castigo ou o fim dos tempos, mas apenas o erro e defeito” (Foucault, 1972)). O ensejo da loucura é o processo de exclusão, afastando os indesejados do convívio social, entrega-los ao destino como representado na famosa passagem da Nau dos Insensatos, pois “confiar o louco aos marinheiros é com certeza evitar que ele ficasse vagando indefinidamente entre os muros da cidade, é ter a certeza de que irá para longe, é torna-lo prisioneiro da própria partida” (Foucault, 1972, p. 11). A viagem marítima carregava consigo a ideia de cosmologia e moral, uma vez que “a água acrescenta a massa obscura de seus próprios valores: ela leva embora, mas faz mais que isso, ela purifica” (Foucault, 1972, p. 11). Ao final do século XVI, com o avanço do Século das Luzes, a loucura aproxima-se a razão em uma relação dual: à medida que se deflagra como o seu oposto, passa a constituir parte da razão,
A loucura torna-se uma forma relativa à razão, ou melhor, loucura e razão entram numa relação eternamente reversível que faz com que toda loucura tenha sua razão que a julga e controla e toda razão, sua loucura, na qual encontra sua verdade irrisória. Cada uma é a medida da outra, e nesse movimento de referencia recíproca elas se recusam, mas uma fundamente a outra.
(...)
A loucura torna-se uma das próprias formas da razão. Aquela integra-se nesta, constituindo seja uma de suas forças secretas, seja um dos momentos de sua manifestação, seja uma forma paradoxal na qual pode tomar consciência de si mesma. De todos os modos, a loucura só tem sentido e valor no próprio campo da razão (Foucault, 1972, p. 30-33).
É neste cenário de dualidades que se encontra o período de escrita de “Diário de um Louco”, escrito no outono de 1834 por Nicolai V. Gogol (1809-1852). As obras do período atestam a produção literária com a loucura como tema como, por exemplo, An Insane Man of Ambition (sumasshedshiy chestolyubets) publicado em 1826 no Moscow Telegraph, The Madhouse (Dom sumasshedshikh) publicado em 1844 na coleção Russian Nights (Russkiye nochi) (Trott, 1989). A tênue linha entre normal e patológico permeia sobremaneira na escrita deste conto, em especial por sofrer influência da publicação de um artigo de Polevoy discutindo as dificuldades sobre estabelecer os limites entre o normal e o patológico no período de escrita do conto (Trott, 1989). Desta forma, “Diário de um Louco” torna-se uma ferramenta em potencial para pensar as subjetividades do indivíduo humano, a perspectiva antimanicomial e a dicotomia normal-patológico há muito discutida no âmbito da saúde mental. É dentro desta obra e do contexto de sua influência histórica que se encontra Axenty Ivanovitch Poprishchin, o protagonista do conto de Gogol.
A narrativa, escrita em primeira pessoa, começa com a revelação ao leitor a respeito deste funcionário público, escrivão, preparando-se para trabalhar. O recorte da rotina do personagem é marcado quando ele se aproxima e escuta a conversa entre duas cadelas e confessa ao leitor que isso o deixou surpreso, “Confesso que desde algum tempo venho ouvindo e vendo coisas que ninguém jamais viu nem ouviu” (p. 48). Destaca-se que o quadro patológico do protagonista não é inato, mas surge ao longo da vida, no entanto, o autor não destaca os motivos do início da sintomatologia. Parte da construção do personagem leva em consideração a construção de suas frases, em especial a repetição de construções verbais como “eu confesso”, “deixe para lá, deixe para lá, silencio”. Segundo Trott (1989), Gogol utiliza essas frases de três formas: identificação de marcas verbais, propósitos cômicos e apontar o estado mental do narrador. Desta forma, o autor mostra o conflito entre os lados internos (pensamentos, self) e externos (verbalização, o outro) do próprio narrador, em especial, acentuando o estado mental de Poprishchin. O efeito evocado pela narrativa, ainda de acordo com Trott (1989) é estabelecer duas ideias separadas: a ideia que o leitor evoca a respeito do narrador e a ideia do narrador sobre si mesmo. Estas observações ganham destaque, em especial nas descrições e visões que o próprio narrador tem de si mesmo – “Eu por acaso sou filho de algum rasnotchínietz, alfaiate ou sargento? Eu sou um nobre” (p. 51). Nestas passagens, revelam-se outras características da dualidade normal e patológico, uma vez que a visão ideal do narrador sobre si mesmo contrasta com a própria realidade – “Mas não tenho recursos – eis o mal” (p. 51).
Revela-se ao leitor, posteriormente, a paixão do personagem pela filha do seu chefe – “mas era ela, ela mesma! Santo Deus, que maneira de vestir! trajava um vestido branco como um cisne: puxa, e que suntuosidade! E que olhar! um sol! juro que era um sol!” (p. 49). A obsessão e sujeição do narrador pela filha do chefe leva-o a um estado de delírio, em especial, pelas tentativas frustradas de tentar conversar com a cadela Medji, “‘Escuta aqui, Medji, agora estamos a sós; se quiseres posso fechar a porta, de sorte que ninguém verá nada: conte-me tudo o que sabes sobre a senhorita, como ela é e como vive’ (...) Mas a esperta cadela meteu o rabo entre as pernas, contraiu-se toda e saiu devagarzinho pela porta como se nada tivesse ouvido” (p. 53-54). No agravamento de seu quadro, o narrador vai à casa da amiga da cadela Medji, a Fidèle e rouba-lhe as supostas cartas que elas trocam entre si na tentativa de saber mais sobre o sujeito de seu amor. Nas leituras, percebe que a filha do chefe está compromissada com um cadete. O narrador, pasmo diante das notícias, incialmente não quer acreditar no que soube – “Estás mentindo, cadelinha maldita. Que língua vil!” (p.61) –, supõem ser perseguição do colega do escritório – “São coisas do chefe da seção. Ora, ele me jurou ódio figadal, e ai está – me prejudicando aqui, me prejudicando ali, não para de prejudicar” (p. 61), e, por fim, frustra-se com a inviabilidade de seu desejo. Diante da frustração, a piora da sintomatologia de sua patologia irrompe, em especial, com a dissidência temporal que os relatos começam a ser narrados (ex.: Ano 2000, 43 de abril; Martubro, dia 86; Nenhuma data, o dia não tinha data). A dissociação temporal é acompanhada pela fuga à realidade ao convencer-se de que ele seria o Rei da Espanha. Neste momento, assim como observado por Foucault (1972), marca-se uma das grandes características da representação da loucura iniciada no final do século XVI na qual, despojada da realidade dramática, a loucura “só é castigo ou desespero na dimensão do erro. Sua função dramática só subsiste na medida em que se trata de um falso drama: é uma forma quimérica, onde só se lida com faltas supostas, assassinatos ilusórios, desaparecimentos destinados aos reencontros” (Foucault, 1972, p. 40-41). Reivindica sua posição no território espanhol, é preso e levado à um hospital manicomial onde encerra seus dias em uma narrativa consternadora (p. 72). Até mesmo neste momento, o entendimento do personagem enquanto doente, o reconhecimento de que está em um hospital manicomial (embora indireta), reflete o que Foucault (1972) também exemplificou quando diz que
Na loucura em que seu erro a encerra, a personagem involuntariamente começa a desvendar a trama. Ao se acusar, ela diz, contra a própria vontade, a verdade. (...) em seu delírio ele se censura por ter inventado toda uma correspondência amorosa; a verdade vem à tona, na e através da loucura que, provocada pela ilusão de um desfecho, na verdade desfaz por si só o imbróglio real do qual ela é simultaneamente a causa e o efeito (Foucault, 1972, p. 41).
2 A esquizofrenia em Poprishchin
As sintomatologias presentes na construção do personagem Poprishchin aproximam-se da apresentação de um quadro de Esquizofrenia. O termo “esquizofrenia” foi cunhado pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857-1939) em 1911 e carrega consigo a ideia de uma desarmonia interna do funcionamento mental e a cisão radical do contato com a realidade (Ashok, Baugh & Yeragani, 2012). Atualmente, segundo o CID-11 e o DSM-5, não há mais subtipos clínicos para classificar a esquizofrenia, uma vez que as sintomatologias de indivíduos com esquizofrenia variam ao longo do tempo, não apresentando estabilidade, padrão de evolução para a doença, predição de resposta à tratamentos farmacológicos ou psicossociais, bem como sintomatologia heterogênea (Dalgalarrondo, 2019). Para levantamento da hipótese do quadro de esquizofrenia apresentado pelo personagem no conto de Gogol, utilizamos por base os sintomas de primeira ordem originalmente propostos pelo psicopatológo Kurt Schneider (1887-1967) (Gruhle, 1929; Scheiner, 1935), bem como aqueles utilizados nos sistemas de classificação CID-11 e DSM-5.
Dentre os sintomas de primeira ordem, encontram-se em Poprishchin: percepção delirante (p. 46-47), alucinações auditivas (p. 46-47), eco ou sonorização dos pensamentos (p. 49), difusão do pensamento (p. 70-71) e distúrbios de vivencia do eu (p. 64). Dentre os sintomas positivos e negativos, destacam-se a presença de ideias delirantes (p. 64), distorções da realidade (p. 46-47), empobrecimento da linguagem (p. 49), diminuição da vontade refletida em hipopragmatismo (p. 48). Presença do pensamento progressivamente desorganizado (datas registradas) e dificuldade no gerenciamento emocional (p. 62) típicos do “paradoxo emocional da esquizofrenia” também podem ser percebidos no narrador. Juntos, a apresentação destes sintomas pode indicar um quadro de esquizofrenia. A esquizofrenia, por sua vez, parte do esforço para compreender o processo de simbolização em psicoses. Mais do que isso, tentar compreender a esquizofrenia é um dos grandes pontapés iniciais para o entendimento das subjetividades humanas e a tênue linha do debate normal-patológico.
3 As subjetividades humanas no debate normal-patológico
A loucura na contemporaneidade é marcada pelo entendimento da relação saber-poder, em especial no âmbito da saúde mental, mas, mais do que isso, aproxima-se da produção histórica tão cara às Ciências Sociais e Humanas (Martins, 2008). Segundo Torre e Amarante (2001), a subjetividade atrela-se ao conhecimento de saúde contemporâneo pela necessidade de compreender o indivíduo atrelado a seu contexto histórico, uma vez que ele é produto do seu tempo. Desta forma, o espaço-tempo que o indivíduo se insere é o próprio produtor das subjetividades. A clínica se amplia, “a análise se produz em um campo de forças, seja num grupo, numa relação psicoterapêutica, nas relações do hospital, da fábrica, da escola, do hospício, em espaços os mais distintos. Clínica torna-se uma relação estratégica nos espaços sociais, e não o ato médico ou psicoterapêutico do es paço do consultório” (Torre; Amarante, 2001).
A subjetividade na obra de Nikolai Gogol é reflexo da sociedade em que Poprishchin está inserido. Observa-se durante a narrativa um ambiente de desenvolvimento industrial, aumento de habitantes nas zonas urbanizadas e uma forte estratificação social e econômica nas relações sociais. Obliterado ante a possibilidade de ascensão social e até mesmo consumação dos desejos em relação a atribuir casamento com a filha do chefe, o personagem entra em uma crise de identidade. Há uma forte crítica social associada a construção da obra de Gogol, mas também há uma forte interjeição entre a subjetividade do narrador e as pressões sociais as quais está submetido. Pressões estas que levam o indivíduo à loucura, em especial por não alcançar as demandas que a sociedade lhe impõe. Neste sentido, cabe refletir: seria Proprishchin um reflexo daquilo que hoje é levado a crer como loucura? Ou seja, indivíduos que fogem à regra daquilo que é considerado normal por a maior parte da população? Seria Proprishchin um indivíduo que foge à norma e, nas tentativas de encaixar-se, depara-se com a inevitabilidade de se considerar “louco” diante daquela sociedade? Afinal, o que é loucura? Estas são as reflexões fragrantes que este conto nos traz.














