Introdução
No âmbito da saúde, é comum encontrarmos o termo saúde mental sendo amplamente utilizado em diversos espaços: legislações, políticas governamentais, serviços de saúde, manuais, artigos científicos, livros e mídia. No entanto, essa frequente repetição não sugere necessariamente que haja um consenso sobre o que realmente significa saúde mental (Alcântara, Vieira & Alves, 2022). Conforme Canguilhem (2009) e Foucault (2010), ao fazerem uma oposição entre saúde e doença, essas categorias foram moldadas histórica e discursivamente a partir de esferas culturais, políticas, econômicas e sociais. Assim, a concepção de saúde mental foi construída na ciência ocidental a partir das ciências naturais, influenciada pelo pragmatismo da racionalidade e verdade, que extermina outros saberes, criando hierarquias no conhecimento, alicerçado por um modelo biomédico que se propõe como totalizante e, ao mesmo tempo, fragmentador, criando dicotomias no próprio sujeito alvo de cuidados, entre corpo (somático) e mente (psiquismo) (Escobar, 2003).
Segundo a OMS (2022), saúde mental é “um estado de bem-estar no qual o indivíduo perceba as suas próprias capacidades, possa lidar com as tensões normais da vida, possa trabalhar de forma produtiva e frutífera e possa contribuir para a sua comunidade”. O termo bem-estar também aparece na definição de Saúde da OMS, sendo “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”. Definir saúde dessa forma é colocá-la num lugar inatingível, ideal, pois esses discursos operam e legitimam a disciplina médica tradicional regulamentando modos de existir (Alcântara, Vieira & Alves, 2022).
Compreendendo que a categoria saúde mental não faz parte da cosmologia dos povos tradicionais, optamos aqui pelo seu uso, em função de, geralmente, ser utilizado nos serviços da Rede de Atenção Psicossocial, mesmo cientes que esta possa ser aplicada numa perspectiva hegemônica da psiquiatria, produzindo categorizações do sofrimento, dualismos entre mente e corpo, patologização e medicalização da vida (Nascimento & Souza, 2021). Assim, ressalta-se a necessidade de ampliar o significado de saúde mental, partindo de saberes da aldeia, indigenizando conceitos e o próprio SUS, que infelizmente ainda reproduz processos de violência contra os povos indígenas.
Nesse sentido, as populações indígenas vivenciam uma cosmovisão pautada no Bem Viver, ultrapassando dicotomias ocidentais como, coletivo-indivíduo, corpo-mente e ambiente-pessoa. Assim, considera a coletividade, os saberes ancestrais, modos de vida ligados à terra, buscando a harmonia “entre o indivíduo com ele mesmo, entre o indivíduo e a sociedade, e entre a sociedade e o planeta com todos os seus seres” (Acosta, 2016, p. 27). Essa perspectiva, se contrapõe à ideia de bem-estar na contemporaneidade, sendo fundamentada a partir da noção de desenvolvimento econômico, sustentado por uma racionalidade cartesiana, antropocêntrica e neoliberal. Além disso, o bem-estar baseado na acumulação de capital tem explorado e destruído os recursos naturais ininterruptamente, afetando diretamente as condições de vida e de saúde dos povos tradicionais (Lacerda & Feitosa, 2015).
Assim, o binômio saúde-doença, quando refletido no contexto dos povos indígenas, precisa ser visualizado de forma complexa de forma a considerar suas particularidades culturais, sociais, econômicas, históricas e espirituais. Enquanto a concepção ocidental de saúde se baseia na ausência de doença, os povos indígenas geralmente têm uma visão mais holística, incluindo não apenas a saúde física, mas também o equilíbrio espiritual, emocional, social e ambiental. Com isso, as discussões sobre os processos de saúde-doença devem considerar a diversidade étnica de cada povo, entendendo que suas percepções de saúde e doença e suas práticas de cuidado e cura são influenciadas por sua própria cosmovisão, língua, organização comunitária, crenças e relações com o território (Barros, Silva & Gugelmin, 2007; Carvalho, Moura Jr. & Vasconcelos, 2023). Diante disso, o presente estudo objetiva analisar as compreensões sobre saúde mental de povos indígenas Tapuya Kariri da Aldeia Gameleira do Ceará.
1 Aspectos epidemiológicos da saúde mental indígena
A Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, reordenou a relação do Estado com os povos indígenas, comprometendo-se a “reconhecer organização social, costumes, línguas, crenças, tradições e direitos dos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” (Brasil, 1988). Segundo o censo realizado em 2022, no Brasil há cerca de 1,7 milhão de indígenas que residem em cenários rurais e urbanos.
No contexto brasileiro, as aldeias indígenas sofrem com o impacto das desigualdades sociais, estando a maior parte delas localizadas em contextos rurais e, por vezes, isoladas dos centros urbanos, gerando um difícil acesso físico e até mesmo desassistência em suas condições de vida (Moura Jr., 2022). Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde -OPAS (2023), os povos indígenas da América Latina vivenciam as maiores disparidades nos determinantes sociais da saúde, assim apresentando níveis mais altos de desemprego, pobreza e analfabetismo, além de receberem uma menor cobertura de políticas públicas e saneamento básico, constantes entre outras violações de direitos humanos, fruto do racismo sistêmico.
Quanto à saúde mental, alerta-se para um problema alarmante de saúde pública, pois os povos indígenas sofrem com altos índices de diagnósticos de transtornos mentais, uso abusivo de álcool e substâncias psicoativas, comportamentos de violência autoinfligida e suicídio. Além disso, muitos desses casos sequer chegam a ser notificados nos sistemas de informações do SUS, abrindo precedentes para uma situação ainda mais preocupante, principalmente no pós- pandemia da COVID-19, que foi um contexto extremo e prolongado marcado por medo, perdas e incertezas, que gerou impactos nos modos de vida da população (El Kadri, Silva, Pereira & Lima, 2021; Carvalho, Viana, Araújo & Aragão, 2022).
Dentre outros fatores relacionados à saúde mental indígena no Brasil identificados pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (SESAI) estão o suicídio e o uso de álcool e substâncias psicoativas. Em 2013, o estado começou a realizar esforços para a qualificação da vigilância epidemiológica no que se refere ao suicídio, inclusive em lugares de difícil acesso (Braga, 2017). Nesse sentido, no Brasil, a taxa de mortalidade por suicídio entre indígenas (15,2/100 mil) é quase o triplo em relação à média de pessoas não indígenas (5,7/100 mil). Ademais, as taxas de suicídios em crianças indígenas apresentam números ainda mais preocupantes, sendo 18,5 vezes maiores do que entre crianças não indígenas (Brasil, 2019).
De acordo com o estudo da revista The Lancet Regional Health – Americas, de Araújo et al. (2023), foi observado um aumento significativo na incidência de mortes por suicídio entre os povos indígenas. Em 2000, a proporção de casos era de 9,3 por cada grupo de 100 mil indivíduos; porém, ao longo de 21 anos, esse número quase dobrou, atingindo 17,6 por 100 mil em 2020. Em contrapartida, durante o mesmo período, a taxa média de suicídios na população brasileira também registrou crescimento, embora em menor escala, passando de aproximadamente 4,6 para 6,4 mortes por 100 mil pessoas, representando um aumento de 39%. Ainda na mesma pesquisa, destaca-se que entre os anos 2000 e 2020, 64% dos casos de suicídio registrados em comunidades indígenas envolveram indivíduos com menos de 24 anos, sendo 68% indivíduos solteiros, predominantemente (90%) por meios físicos como enforcamento, asfixia e/ou estrangulamento. Em contraste, na população em geral, o risco de suicídio tende a ser maior entre indivíduos com 60 anos ou mais.
Considerando as realidades dos povos indígenas do Ceará, cenário desta pesquisa, destaca-se que essas têm enfrentado desafios em relação à promoção de sua saúde mental, tal como a falta de acesso a serviços de saúde mental culturalmente apropriados. Conforme o estudo realizado no Ceará (Moura Jr., 2022), comprovou-se que cidades com povos indígenas têm índices maiores para suicídio, tentativa de suicídio, intoxicação exógena, violência autoinfligida e violência interpessoal que as cidades com baixa prevalência de povos indígenas. Nessa mesma pesquisa, confirma-se que municípios com comunidade indígena aldeada possuem uma oferta de equipamentos de saúde maior do que a média do Estado, porém, apresentam um número maior de óbitos em geral por transtornos mentais e comportamentais, devido ao uso de substância psicoativa e álcool, como as taxas de suicídio, o comportamento de violência autoinfligida e os casos de violência interpessoal e autoprovocada.
Com isso, ressaltamos a importância da sistematização de informações epidemiológicas sobre saúde mental das populações indígenas para fortalecer estratégias de promoção e prevenção na assistência em saúde mental. Sendo fundamental que as ações em vigilância em saúde, especificamente com populações indígenas, respeitem a diversidade de compreensões sobre a vivência do sofrimento e as formas de cuidados sobre ele, já que o adoecer psíquico é uma experiência subjetiva atrelada ao contexto sociocultural. Assim, é necessário sensibilidade para não realizar mapeamentos baseados em concepções de saúde ocidentais e descontextualizadas da cosmologia indígena (Brasil, 2019).
2 Método
De natureza qualitativa, esta pesquisa-ação advém da pesquisa Detecção de agravos e fatores de proteção em saúde mental de populações indígenas e quilombolas do Ceará (2021-2022). Assim, a pesquisa-ação é um método de caráter social, que combina investigação científica com ação prática na qual, a partir de uma construção coletiva entre pesquisadores e comunidades, busca-se gerar transformação, planejamentos e reflexões por meio de ciclos de ações. Com isso, quebrando dicotomias entre teoria e prática que, ao invés de realizar uma investigação sobre um contexto, é realizada dentro do contexto (Thiollent, 2022). Consideramos que para pesquisa com povos originários é crucial partir de uma construção colaborativa implicando na emancipação e justiça social.
Temos como locus a Aldeia Indígena Gameleira dos Tapuya Kariri, localizada no contexto rural entre as cidades de São Benedito e Carnaubal, na Serra da Ibiapaba, Ceará, Brasil. Mediante o Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (SIASI), estima-se que sua população é de 1.238 indígenas. Os Tapuya Kariri têm sua economia similar ao restante da população nordestina e rural sendo, em sua maioria, agricultores que produzem para consumir. Ressalta-se que parte da terra segue na mão de posseiros restringindo o uso dela. Muitos complementam a renda com recursos de políticas públicas do governo federal (Carneiro, 2017).
Ao realizar roda de conversa, destaca-se que esta foi gravada com o devido consentimento dos participantes. A escolha por essa técnica possibilitou uma abordagem dialógica com um espaço de fala livre. O momento aconteceu no pátio da Escola Indígena Tapuya Kariri, no mês de agosto de 2023, tendo duração de 2h30minutos. Participaram em torno de 20 adultos, em sua maioria mulheres com idades a partir dos 40 anos. O convite foi realizado para a aldeia; todos que se sentissem à vontade poderiam participar das discussões.
Por fim, foi utilizado a análise de conteúdo (Bardin, 2011), onde realizou-se o levantamento e organização inicial das informações coletadas por meio de uma leitura flutuante do conteúdo (pré-análise); em seguida, identificou-se as categorias emergentes em que os dados brutos foram transformados, classificados e agregados, conforme os diálogos dos participantes (exploração do material); e, por fim, relacionou-se os dados obtidos com a fundamentação teórica, assim codificando, categorizando e interpretando o significado e conexões entre os dados (tratamento dos resultados).
A presente pesquisa foi aprovada por Comitê de Ética, com número de referência: 41945220.8.0000.5576. Entendendo que se trata de um grupo historicamente vulnerável e em constante perseguição, os nomes dos participantes foram ocultados.
3 Resultados e discussões
A partir da análise de dados, as compreensões sobre saúde mental dos povos indígenas Tapuya Kariri se desdobram em duas categorias: 1) vivências de sofrimento psíquico, enfatizado pelos transtornos mentais, relacionados a sintomas, como ansiedade e depressão, bem como preocupações com a saúde mental da juventude indígena e a deslegitimação do sofrimento psíquico. Nessa abordagem, observa-se que os povos indígenas relatam conceitos e linguagens, muitas vezes associados à lógica biomédica e, 2) compreensões ancestrais sobre saúde mental; destacaram-se compreensões indígenas sobre saúde a partir de uma perspectiva ancestral, valorizando aspectos comunitários, às práticas espirituais e ritualísticas. Nessa categoria, destaca-se uma perspectiva ancestral e comunitária relativa à saúde mental.
4 Vivências de sofrimento psíquico
O termo Transtornos Mentais Comuns (TMCs) refere-se a problemas de saúde mental que não têm causa orgânica clara e se manifestam através de sintomas, como esquecimento, insónia, fadiga e dificuldade de concentração, além de manifestações físicas. Ansiedade e depressão são dois dos TMCs mais prevalentes na sociedade. Além do impacto psicológico, eles também afetam áreas da vida, como socialização, resultando até mesmo em tentativas de suicídio. Ressalta-se que os TMCs são caracterizados por um sofrimento psíquico difuso e não específico, distinguindo-se de outros transtornos mentais (Soares & Meucci, 2020).
Apesar de os TMCs não fazerem parte da cosmologia indígena, por vezes as palavras ansiedade e depressão apareceram nas falas dos Tapuya-Kariri. Uma das participantes na roda de conversa afirmou que: “quando eu penso em saúde mental, me vem na mente esses negócio que hoje em dia tem muito, essa tal de ansiedade e depressão, muito triste, dá é medo na gente, só Deus mesmo” (P1, Mulher Tapuya Kariri). Além disso, algumas pessoas afirmaram vivenciar sofrimentos relativos à ansiedade e depressão:
Tem uma doença que machuca a gente, dói. É uma dor impossível que ela não deixa a gente comer, não deixa a gente dormir, a gente passa mal em si [...] o meu problema é a depressão, já me deu e me traz ansiedade que é o que eu tenho, eu tomo remédio controlado pra isso (P1, Mulher Tapuya Kariri).
O processo pelo qual a concepção ocidental da saúde mental entrou nas aldeias indígenas multifacetado foi influenciado por séculos de colonização e aculturação. As atualizações do colonialismo apresentam imposições nos modos de vida dos povos indígenas, não apenas nas formas de governo, economia e religião, mas também nas práticas relacionadas à saúde (Montoya Vélez, 2020). A saúde mental tem sido historicamente objeto dominado pela lógica médica psiquiátrica, que se baseia em modelos biomédicos de diagnóstico e tratamento, servindo a uma lógica de normatização do existir dos moldes capitalistas (Severo & Dimenstein, 2009). A seguir, observamos o relato de uma pessoa que buscou a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) após receber uma notícia negativa:
Teve uma vez que aconteceu que meu filho mais velho, é, ele aprontou aqui, aí foi preso, aí eu passei mal, aí me levaram com a pressão muito alta pra UPA e o médico lá disse que eu estava, que eu tinha muita ansiedade e tinha problema, né? precisava de remédio (P2, Mulher Tapuya Kariri).
O diagnóstico psiquiátrico tem sido historicamente empregado como um mecanismo para legitimar o saber médico centrado na doença, em que os sintomas são vistos apenas como disfunções biológicas, desconsiderando aspectos cotidianos do sujeito, invalidando fatores sociais, econômicos e políticos que permeiam a subjetividade e contribui com o processo de estigmatização da saúde mental (Basaglia, 2005). Além do mais, isso desvia a atenção para questões estruturais, como desigualdades sociais, racismos, pobreza, opressão e marginalização, que são determinantes sociais da saúde (Soares & Meucci, 2020).
Além disso, aspectos de sofrimento psíquico em jovens indígenas foram apresentados como uma preocupação pelos Tapuya-Kariri, principalmente após o período pandêmico, e apontam para um desamparo frente a essa situação:
Tudo muito causado pela pandemia, né? Jovens que estão aí com ansiedade, aí a flor da pele, aí nós não sabemos o que faz, que nós não somos formados pra lidar com essa situação, então, a gente fica assim meio com medo, de mãos atadas, porque é uma situação que é como a Patrocinio diz, ninguém vê. Só quem sabe, é quem sente. Muitas vezes o pai, o pai ou a mãe ou o irmão não está muito familiarizado com assunto pra lidar com essa situação, né? E aí a pessoa se fecha, cai numa depressão e aí? Eu tenho medo. Eu, na minha concepção como a cacique, liderança desta comunidade, eu não vejo assim, o DSEI com esse engajamento de resolver essa situação, parece que não é prioridade (P3, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
Ao observar os indicadores de saúde mental indígena, os jovens são os mais afetados, principalmente relacionados aos índices de suicídio; afinal, nas populações originárias, temos números alarmantes de casos de suicídios registrados, que envolveram indivíduos com menos de 24 anos (Araújo et al., 2023). Observamos o relato de uma mãe sobre o comportamento de seu filho adolescente:
Também por conta do meu filho que é o menor de quinze ano, ele é muito estressado, ele é muito grosseiro, ele é muito cabeça quente, eu acho que ele também tem um pouco de problema também, que ele é muito, muito grosseiro comigo, e não só comigo, com o pai dele e, ele precisa muito também de um apoio, porque ele é muito, muito estressado (P4, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
Nessa perspectiva, outro ponto que se destacou foi o sofrimento deslegitimado, em que foram narradas experiências em que o sofrimento psíquico foi minimizado, invalidado ou ignorado por outras pessoas:
Assim, né? Assim, muita gente pensa que isso é um uma besteira, pensando que isso não é coisa que a gente tem uma doença e pensa que é uma coisa da gente mesmo que a gente invente. Eu acho que, eu penso assim, que não liga pra gente que não dá atenção [...]. As pessoas podem olhar pra você e não acreditar, não acredito. Não vejo, né? Por quê? Porque só quem está vendo é quem está sentindo. Eu falo por mim. O meu problema é um problema que ninguém está vendo [...] Só quem vê, quem sente é quem sente ele. Então pra mim, tem muita gente no deboche, eu sou muito criticada por esse problema (P5, Mulher Tapuya Kariri).
A deslegitimação do sofrimento pode acontecer de muitas formas, desde a falta de reconhecimento da gravidade da questão enfrentada, até processos de culpabilização a quem está passando por um processo de sofrimento ou até mesmo desconsiderar as causas associadas ao sofrimento psíquico (Nascimento & Leão, 2019). Uma das participantes da pesquisa relatou precisar silenciar em momentos de angústia:
Por conta que, eu quando eu fico muito nervosa assim, ele se revolta assim porque eles se preocupa comigo e fica brigando comigo, né? Aí eu sempre tento esconder, mas não consigo por conta que eu passo mal. Meu guidão lá adormecia na, começa a adormecer minhas pernas, faltando força nas pernas, no corpo. Aí adormeci a minha língua. Aí eu desmaio ali do nada se eu ver alguma coisa. Aí eles se preocupam, aí eles ficam brigando comigo, né? Por conta de eu ver as coisas e não ficar quieta em casa, certo? não passar mal, aí eu fico preocupada e guardo as coisas comigo (P6, Mulher Tapuya Kariri).
Essas deslegitimações do sofrimento são comuns na sociedade quando tratamos de saúde mental, são prevalentes em contextos onde há estigma em torno da saúde mental. Esse processo pode gerar sentimentos de isolamento, alienação e falta de apoio para aqueles que estão lidando com sofrimento psíquico. Outrossim, pode intensificar o quadro de sofrimento e dificultar o acesso a cuidados e suporte sociais (Nascimento & Leão, 2019).
5 Compreensões ancestrais sobre saúde mental
Na concepção de saúde indígena, a espiritualidade desempenha um papel fundamental e interconectado com o bem-estar físico, mental e comunitário. E as alterações de saúde se relacionam com o afastamento das vivências espirituais da aldeia, permitindo que espíritos malignos sejam convocados com más intenções. Nessa perspectiva, é fundamental reconhecer a espiritualidade no cenário da saúde mental indígena de forma holística e integrada aos modos e dimensões de vida cotidiana dos povos originários. Ela fornece uma estrutura cultural que promove o apoio comunitário e a cura dentro das aldeias indígenas (Nascimento & Souza, 2021). Conforme lideranças Tapuya Kariri:
Saúde mental é quando você tem paz, quando você tem união. É quando Deus, quando o Espírito Santo vem dentro da sua família, dentro do seu corpo, aí você tem saúde, você tem força. Você tem força, você rebate tudo, o seu corpo não dói nada, viu? Mas se você não tem paz, não tem união dentro da sua casa, aí você não tem nada, você é doente (P7, Homem, Liderança Tapuya Kariri).
O que nós sente esse tipo de doença, né? doença psicológica, né? O povo diz que não tem cura, mas eu pra mim ela tem cura, essa doença tem cura né? Todas as doenças têm cura. Todas as doenças têm cura. A doença mais ruim na terra, no mundo, nosso pai eterno curou. Então se ele curou uma, ele curou dez, vinte, trinta, quarenta mil. Todas as doenças têm cura (P8, Homem, filho de liderança indígena).
Além disso, os anciãos e líderes espirituais desempenham um papel crucial na orientação e apoio às questões de saúde dentro das aldeias indígenas. Eles são respeitados por sua sabedoria e por serem detentores do conhecimento ancestral; por isso, são frequentemente consultados para oferecer conselhos, orientações espirituais e rituais de cura para aqueles que estão enfrentando dificuldades (Braga, 2017). Como citado:
E aí eu costumo dizer que naquelas noites que a gente passava dentro daquela casinha a gente conseguiu se organizar tanto que as coisas foram fluindo de maneira tão rápida que a gente não se deu conta. E aí por isso que eu acho assim muito importante a gente sempre estar de mãos dadas com as nossas lideranças. É quem vai nos guiar até quando Deus permitir (P9, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
Outra concepção significativa sobre saúde mental está associada ao território e à terra dentro das perspectivas indígenas dos Tapuya Kariri: “Saúde é terra, território! é diálogo com a família, é terra” (P6, Homem, Tapuya Kariri). O território é vital para os povos tradicionais, é o espaço em que se vive, onde se planta e colhe, é fonte de subsistência que garantem segurança alimentar e o Bem Viver das comunidades, sendo também um legado ancestral, transmitido para as próximas gerações (Fernandes, 2016). No relato de um dos participantes observamos a relevância da terra para os Tapuya Kariri:
eu quero é meu pedaço de terra. Porque eu trabalhava. Eu tinha o que comer. E eu quero é isso. Esse território aqui ele nos pertencia, a gente saia de casa pra trabalhar e na época da colheita a gente tinha muita fartura. A carrada de milho que a gente trazia no lombo do jumento ela ia lá no teto [...] não, não é como agora, porque agora é diferente, você viu, eu sair daqui todo dia pra trabalhar cedo, chegar tarde. Eu trabalho, colho, mas antes de mim vai uma pessoa lá tirar a renda. E antigamente nós não tínhamos isso (P10, Homem, Tapuya Kariri).
Os Tapuya Kariri reivindicam seu território e sua regularização, pois permanecem sofrendo com constantes conflitos causados por posseiros que cerceiam os seus territórios, causando impactos significativos nas relações dos povos indígenas com a natureza e nos modos de viver, gerando um aprisionamento da terra e das pessoas (Carneiro, 2017). Nessa perspectiva, nas aldeias indígenas a terra representa muito mais que um espaço para morar e produzir, há um sentido existencial, relacionado à ancestralidade e ao sentimento de pertencimento. Outrossim, a terra é vista como parte da coletividade, pois trata-se de fonte de vida, conexão espiritual e identidade cultural (Fernandes, 2016). É notório isso na fala de uma das participantes que retrata sobre um espaço sagrado dos Tapuyas como promotor de saúde mental dentro do território:
O próprio Buraco dos Tapuyas que é onde a gente vai, quando tô despedaçada, é lá que ela se renova. É nosso lugar sagrado que temos. São as cafurnas, e é assim um local que não tem casa perto, você vai ao silêncio, que você sai de lá assim renovada. Várias vezes e a gente já fez momentos lá pra buscar essa paz (P11, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
Para os Tapuya Kariri o Buraco dos Tapuyas é habitado por seus encantados, que para eles “são os nossos parentes né? que foram para um outro plano espiritual, mas que continuam ajudando a gente” (P7, Homem, Tapuya Kariri). Os buracos e as cafurnas têm uma simbologia espiritual muito forte para os Tapuya Kariri, pois eles “materializam a presença dos encantados, seus antepassados que sempre estiveram ali, protegendo-os e esperando no local para fortalecê-los nas lutas diárias. Por ser um lugar onde seus encantados estão presentes é um lugar de profunda intimidade” (Carneiro, 2017, p. 125). Vale ressaltar que o local vive em disputas com o proprietário do espaço, que chegou a colocar uma cerca dificultando a realização de rituais, porém, os povos cortaram os arames e derrubaram a cerca, como modo de resistência e retomada de um território que lhes pertence (Carneiro, 2017).
De acordo com Conselho Federal de Psicologia (CFP) (2022), aldeias indígenas que têm vivências sem conflitos em seus territórios tradicionais, experimentam níveis mais baixos de estresse, ansiedade e depressão, enquanto que aquelas que enfrentam deslocamento, perda de terras ou degradação ambiental podem sofrer impactos negativos em sua saúde mental. Sendo associado ainda ao sofrimento ético-político que trata da dialética de uma inclusão perversa e exclusão; ao serem cada vez mais afastados de seus territórios tradicionais é rompida a relação pessoa/ambiente cuja dicotomia não existe para os povos indígenas (Sawaia, Albuquerque & Busarello, 2020).
Os rituais sagrados são outro aspecto considerado promotor de saúde mental, envolvendo elementos simbólicos, como música, canto, orações, danças e oferendas conduzidas por líderes espirituais ou curandeiros tradicionais. Eles são projetados para mobilizar energias espirituais e promover a conexão com o divino, os encantados e a natureza, buscando equilíbrio, sabedoria e integração entre todo o coletivo no território sagrado (Santos & Bezerra, 2020). Como apontado:
O nosso ritual sagrado quando a gente participa dele né? eu tiro por mim, só que eu fui muito engajada dentro do movimento, lutei muito até o quanto eu pude, então em 2015 me deu depressão, me deu depressão. Essa depressão ela foi curada dentro do movimento indígena. Nós tava numa retomada, meu Deus, me arrepio todinha, nós tava numa retomada, aí aconteceu algo muito bravo que me envolveu. Então essa depressão eu fui curada dela dentro do movimento indígena, porque o movimento indígena ele cura, ele era uma salvação para os problema da gente, porque lá a gente tira os estresse (P12, Mulher, Tapuya Kariri).
Os Tapuya Kariri, fazem seus rituais a partir do que eles chamam de processos de retomada, que são táticas para recuperarem seus territórios tradicionais que foram ocupados por fazendeiros da região. Essas retomadas são formas de resistência contra a violação de seus direitos e investidas para o apagamento de sua cultura. Para os indígenas, essa estratégia não apenas simboliza a busca por um território livre de cercas, mas também representa uma oportunidade de fortalecer sua identidade cultural (Carneiro, 2017). Uma das práticas que acontecem durante a retomada é o Toré, citado por alguns dos Tapuyas como promotor de saúde mental:
No toré, a gente tira todas as preocupação, fica tudo ali. Então o Toré é uma hora muito, muito boa da gente descarregar tudo que a gente tem na gente ali. Eu me sentia leve e solta, quando eu saía do agora porque tu vai dançar agora, né? Mas é isso, o sagrado preencher a gente, dar aquela alegria, parece uma coisa que entra dentro da gente, parece que tá flutuando. Ela é absurda, ali dentro de uma roda de toré, a gente fica leve e solta (P13, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
O Toré era praticado pelos ancestrais dos Tapuya Kariri; porém, a partir dos processos de aculturação, essa prática foi se perdendo na aldeia. Durante a busca de identificação étnica e luta pela demarcação de seus territórios, as lideranças e jovens participaram de encontros, eventos e assembleias indígenas em que entraram em contato com o toré, ritual que voltou a ser praticado na aldeia (Carneiro, 2017). É uma dança cerimonial, sendo uma expressão cultural e espiritual para os povos indígenas, conectando-os com suas tradições ancestrais, fortalecendo a identidade cultural e sua relação com a natureza. Durante o Toré, os participantes dançam em círculos ao som de cantos específicos, geralmente acompanhados de instrumentos musicais tradicionais, como maracás, tambores e flautas. As letras das músicas contam histórias e ensinamentos transmitidos pela oralidade pelos seus ancestrais. O Toré também desempenha um papel fundamental na promoção da coesão comunitária, fator importante para o Bem Viver indígena (Santos & Bezerra, 2020). Os Tapuyas relataram que o Toré parou durante a pandemia e que sentiam falta desses momentos coletivos:
É assim, nós sabemos que nós passamos por anos muito difíceis, né? Devido a pandemia, né? Foi uma uma temporada que a gente passou isolado, nem o nosso ritual sagrado que ele é dançado, pegado na mão do parente, um junto do outro, a gente deixou de praticar por algum tempo né? E isso impactou muito dentro da comunidade, tanto para o jovem, quanto pras crianças, quanto para os adultos, os anciãos, né? E isso a gente viu depois que a gente teve o retorno das escolas presencialmente (P14, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
Outra prática considerada promotora de saúde mental na aldeia são as rodas de conversas, ocasiões em que os Tapuyas Kariri se reúnem para conversar sobre a vida, e ser apoio mútuo. Esses momentos foram citados como potentes para a manutenção do vínculo comunitário e para lidar com momentos subjetivos difíceis:
Acho que o que promove são rodas de conversas. E eu tenho isso, como uma certeza, porque a tia Raimunda, ela é uma senhora de oitenta anos, ela perdeu um filho recentemente. Eu fui lá assim que eu soube, aí quando eu cheguei lá estava chorando. Aí quando ela me viu, ela olhou pra mim e disse assim, “eu perdi mais um amor da minha vida”. É uma mãe desolada, um filho morto. Quando foi terça, nós estivemos aqui na escola e ela muito cabisbaixa né? e aí eu só observando ela. Aí quando terminou a reunião a gente sentou lá na sala de informática e começou a conversar, né? cantando umas músicas e nisso, no final, ela estava rindo. Eu fiquei imaginando o quanto é bom você falar, escutar, né? Porque numa hora dessa, se ela tivesse em casa com certeza ela tava muito triste. Conversar na roda de conversa faz muito bem pra gente. A gente respeita o que se diz fica aqui. Então acho que a roda de conversa é uma das coisas importantes que , porque é muito difícil você carregar um fardo sozinha (P3, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
A narrativa evidencia a importância da coletividade para os povos Tapuya Kariri, quando se pensa sobre Saúde Mental. Montero (2007) discorre sobre o conceito sentido de comunidade, que se designa a um sentimento de pertencimento e de importância mútua que existe entre membros de uma comunidade que se produz nas vivências cotidianas entre convergências e conflitos, é como se existisse uma crença compartilhada pelo coletivo de que suas “necessidades serão satisfeitas a partir do compromisso de estar juntos” (Costa & Castro, 2015, p. 286). A seguir, alguns relatos, sobre o sentido de comunidade e coletividade para fortalecer a aldeia:
Então eu me orgulho muito hoje de dizer: eu sou Tapuya Kariri e está dentro dessa aldeia, em algumas aldeias a gente sente essa ausência do coletivo, por mais que seja um parente, isso não é bom, isso fragiliza a própria luta local, né. E aí a gente vê essa questão, já aqui com a gente é diferente. Então, eu acho que isso é o que nos fortalece! Eu acho que isso é que faz com que a gente hoje esteja onde a gente está. Por mais que não tenhamos um território demarcado, que é o que a gente deseja mais. Mas estamos fortes, né! Talvez não tão fortes, mas também não tão fracos porque a gente segura um na mão do outro. Pra ir vencendo cada dia. Eu sou muito grata porque eu aprendi uma coisa que não se aprende em lugar nenhum, que é a questão da coletividade, nesse mundo que as pessoa só quer olhar muito pro seu umbigo, eu sou muito grata ao movimento indígena por ter me feito essa pessoa desse jeito. (P3, Mulher, Liderança Tapuya Kariri).
Em contraste com o individualismo pregado pelo neoliberalismo, os povos indígenas compreendem a comunidade como a unidade central de organização social, priorizando o bem viver coletivo sobre o interesse individual. Assim, é relevante compreender que o fortalecimento da cultura e o envolvimento das aldeias nas vivências tradicionais e coletivas são, em si, práticas promotoras da saúde mental. Além disso, a demarcação do território deveria ser prioridade, para os povos indígenas terem seus modos de vidas respeitados. A saúde caminha com a emancipação (CFP, 2022).
Assim, as práticas tradicionais de saúde mental indigenista como o Toré, a conexão com a natureza e o apoio comunitário apareceram no estudo como elementos que levam ao bem viver. São vivências que oferecem suporte emocional e espiritual, como também fortalecem aspectos comunitários e identitários. E é um convite para que o SUS possa reconhecer práticas promotoras de saúde para os povos indígenas, apontando para a necessidade de políticas públicas que promovam e assistam à saúde, considerando a ancestralidade.
Considerações finais
As compreensões sobre saúde mental dos povos indígenas Tapuya Kariri se desdobram em duas perspectivas distintas. A primeira está relacionada à saúde mental dentro de uma perspectiva ocidental, que enfatiza principalmente os transtornos mentais, apresentando narrativas associadas a vivências relacionadas a sintomas, como ansiedade e depressão. Nessa abordagem, observa-se que os povos indígenas, relatam conceitos e linguagens, muitas vezes associados à lógica biomédica.
Por outro lado, se destacaram compreensões indígena sobre saúde a partir de uma perspectiva ancestral, que valoriza aspectos comunitários e coletivos. Nessa visão, a saúde está intrinsecamente ligada ao território, às práticas espirituais, aos rituais, como o toré, e, principalmente, ao sentido de comunidade. Essa perspectiva ressalta a importância da conexão com a terra, da espiritualidade e da vida comunitária para a promoção da saúde no território. Nesse viés, as narrativas dos Tapuya Kariri, associadas a atividades realizadas na aldeia produzem saúde.
Além disso, ressaltamos a importância da demarcação dos territórios indígenas para garantir direitos territoriais, preservação ambiental e cultural de um solo que, para os Tapuya Kariri, é sagrado. Não há saúde sem território para os povos indígenas, assim, não ficamos neutros dentro dessa lógica, e precisamos nos posicionar junto à luta dos povos originários.
Por fim, consideramos a necessidade de novos debates sobre essa temática que se proponham a investigar as relações entre sentido de comunidade e saúde mental e a atuação das políticas públicas nesses espaços. Pois isso possibilita repensar as formas como as políticas públicas direcionadas para povos tradicionais se estruturam e ainda nos permite refletir sobre saberes tradicionais.














