INTRODUÇÃO
Quando se fala sobre sentimentos e a complexidade de afetos humanos, como aqueles que influenciam a proximidade com o outro e o afastamento existencial do outro, a literatura poética possibilita maior compreensão idílica de tais afetos. Quando se pauta na proximidade e inclinação genuína das interações, pode-se ter como exemplo a gama de afetos positivos envolvidos em tais relações. Rilke (1989), por exemplo, propõe uma reflexão sobre a complexidade do amor, considerando-o como uma das tarefas mais exigentes da existência humana. Para o poeta, as relações amorosas não devem ser idealizadas como experiências simples e naturais, mas compreendidas como construções difíceis que demandam preparo emocional e maturidade, sendo todas as demais vivências parte desse processo formativo. Ainda nessa perspectiva, Rilke (1989) trata a solidão não como um estado a ser imediatamente superado, mas como uma oportunidade de expansão interior.
O autor sugere que o desejo de sair da solidão pode ser acolhido com serenidade, permitindo que esse espaço seja habitado e compreendido, em vez de evitado por meio de soluções apressadas. Essa visão dialoga com a abordagem existencial defendida por Yalom (1996), para quem o isolamento existencial é uma condição inevitável da existência, assim como a morte, a liberdade e a falta de um sentido intrínseco para a vida. Ao reconhecer a solidão como um dado existencial, é oportuno observar a necessidade de ressignificá-la, buscando formas mais saudáveis e conscientes de lidar com esse sentimento, sem negá-lo ou anulá-lo.
Yalom (1996) ainda diferencia o isolamento existencial da solidão comum, compreendida como ausência de vínculos interpessoais. Para o autor, enquanto esta última pode ser modificada por meio do desenvolvimento de habilidades sociais e afetivas, o isolamento existencial é uma condição inerente à própria experiência humana – intransponível e solitária por natureza. Nesse contexto, ele adverte sobre os riscos de se tentar preencher esse vazio por meio de vínculos artificiais ou utilitários, nos quais o outro é tratado como uma defesa contra a angústia da solidão, e não como um sujeito com quem se estabelece uma relação genuína. Tal tentativa, muitas vezes, resulta em relacionamentos frágeis e insatisfatórios, marcados pela fuga da autoconsciência e pelo risco de perda da individualidade.
Essa perspectiva existencial pode ser relacionada ao sofrimento psíquico contemporâneo, especialmente em casos cujo humor pode estar alterado, tais como os observados nos quadros depressivos, cuja complexidade envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Um dos elementos frequentemente associados ao transtorno depressivo é a vivência intensa da solidão que, quando persistente, pode agravar o quadro e aumentar a vulnerabilidade a comportamentos autodestrutivos, inclusive ideação e tentativas suicidas (Organização Mundial da Saúde, 1992). Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (2018), a depressão atinge aproximadamente 300 milhões de pessoas no mundo, sendo considerada uma das principais causas de incapacidade global. Diante disso, torna-se essencial o investimento em pesquisas de rastreamento e prevenção que contribuam para o enfrentamento precoce e eficaz desse transtorno.
Nesse contexto, a Psicologia atua de forma significativa ao posicionar o psicoterapeuta como um facilitador do processo de autocompreensão. A prática terapêutica oferece um espaço de escuta e reflexão, onde o sofrimento do indivíduo pode ser ressignificado a partir de sua história singular e das circunstâncias que a constituem. A partir dessa escuta, torna-se possível que o sujeito se confronte com seus próprios modos de ser-com-o-outro, ampliando a compreensão de seus vínculos e abrindo-se a outras formas de presença e de encontro que não estejam pautadas apenas pela lógica da utilidade ou da carência. Assim, a psicoterapia não visa apenas ao ajuste à normatividade relacional, mas à abertura para novos sentidos possíveis de estar em relação e de viver a afetividade de maneira mais autêntica e enraizada na própria existência (Sá, Mattar & Rodrigues, 2006).
Nesse cenário, a psicoterapia, sobretudo sob uma abordagem fenomenológico-hermenêutica, não visa simplesmente a ajustar o sujeito às normas sociais vigentes ou capacitá-lo a manter vínculos bem-sucedidos, mas sim a oferecer um espaço de meditação e escuta sensível. O terapeuta, longe de atuar como técnico ou consertador de afetos, torna-se um facilitador do encontro do sujeito consigo mesmo e com o seu horizonte histórico-existencial. Trata-se de acolher a solidão não como falha ou patologia, mas como possibilidade de aproximação com o próprio sentido de ser e de estar com o outro (Heidegger, 1989; Boss, 1976). Diante das múltiplas formas de vivenciar a solidão ao longo do desenvolvimento humano, torna-se relevante ampliar os modelos teóricos que buscam compreendê-la, considerando suas interações com a vida cotidiana. Assim, este estudo se propõe a discutir os fatores que modulam a experiência da solidão com base nas contribuições da psicologia clínica e das concepções contemporâneas acerca desse afeto existencial, por meio do diálogo entre diferentes autores a partir de concepções clínico-existenciais.
METODOLOGIA
Foi delimitado um delineamento de pesquisa descritivo e transversal, com caráter qualitativo. Nesse molde, a natureza qualitativa do estudo preza pela identificação dos fatores relevantes acerca do objeto de estudo investigado, não se limitando à reprodutibilidade do desenho de pesquisa ao valorizar a profundidade das discussões aventadas (Creswell, 2007). O delineamento propôs o levantamento de dados disponíveis em um recorte único do tempo, não visando à verificação de relações de causalidade ou o monitoramento da evolução dos elementos estudados (Campos, 2019).
Ao tratar dos procedimentos técnicos para a coleta e análise dos dados, caracterizou-se uma revisão de literatura narrativa ao ser sintetizadas as contribuições disponíveis na literatura científica para conceber perspectivas amplas sobre a temática investigada, fazendo uso de fontes de informação secundárias para acessar o objeto de estudo estabelecido. Ainda, destaca-se que a abordagem qualitativa do estudo é observada na estratégia de coleta de dados ao ser adotada uma estratégia de captação de materiais bibliográficos não sistematizada, selecionando-os por conveniência e relevância para as discussões (Ogassavara et al., 2023).
Ressalta-se que as revisões narrativas são estruturas metodológicas valiosas, principalmente para profissionais em atuação prática por permitir que eles mesmos adquiram e atualizem seus conhecimentos de forma econômica, poupando tempo e esforço demandados para a seleção de obras relevantes e a síntese dos achados (Rother, 2007). Corroborando com tal aplicação, indica-se que a realização de estudos secundários no campo da saúde é uma atividade incentivada e valorizada em planejamentos nacionais do setor da saúde brasileira, assim reconhecendo sua utilidade para embasar tomadas de decisão e o desenvolvimento tecnológico de modelos práticos (Brasil, 2024).
A captação de materiais bibliográficos foi realizada entre os meses de fevereiro e abril de 2025 mediante plataformas de busca amplamente utilizadas, como Google™ Acadêmico, SciELO e PubMED. Foram captados materiais no formato de artigos publicados em periódicos científicos e livros, sendo identificados pelo emprego dos descritores “solidão”, “psicologia” e “interação interpessoal” em suas versões em português e inglês. Destaca-se que não foi utilizado nenhum critério de exclusão em função da data de publicação dos materiais, permitindo que obras clássicas e atemporais fossem consideradas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A solidão, na contemporaneidade, é frequentemente compreendida como uma condição indesejável que deve ser evitada a qualquer custo. Conforme observam Barroso, Oliveira e Andrade (2019), há uma tendência a confundir estar só com estar isolado, como se ambas as experiências fossem equivalentes. Nesse contexto, o ideal de relacionamento amoroso pautado pelo romantismo é frequentemente exaltado como símbolo máximo de realização pessoal, embora, paradoxalmente, também possa ser evitado por aqueles que o associam ao sofrimento emocional. Tal ambivalência se traduz em comportamentos de evitação de vínculos profundos, como a constante troca de parceiros ou a dificuldade em assumir compromissos afetivos.
Heidegger (2002), ao refletir sobre o modo como o ser humano se relaciona com o mundo e com o outro na era da técnica, considera que o homem se revela frequentemente a si mesmo e aos outros como um instrumento disponível para uso, reduzindo a alteridade a uma função utilitária. Ao tentar escapar da solidão, seja pelo apego excessivo ao outro, seja pela recusa a qualquer forma de vínculo, o sujeito acaba reforçando essa lógica instrumental. No entanto, ao reconhecer o caráter desafiador dessa revelação, abre-se espaço para uma compreensão mais autêntica da existência, que rompe com a superficialidade dos vínculos e o anonimato das relações contemporâneas.
A partir da abordagem fenomenológico-hermenêutica de Heidegger (1989) e Boss (1976), observou-se que a psicoterapia não se limita a ajustes comportamentais ou normativos, mas propõe um espaço de ressignificação da experiência vivida. Nos resultados deste estudo, evidenciou-se que a escuta ativa e sensível do terapeuta, longe de buscar corrigir ou adaptar o indivíduo a padrões sociais, facilita um processo de autocompreensão. Esse processo possibilita a ressignificação do sofrimento, ampliando a percepção do sujeito sobre seus vínculos e suas formas de estar no mundo.
A abordagem cognitiva sobre a solidão parte da ideia de que a vulnerabilidade cognitiva pode ser entendida como um distúrbio emocional em si mesma. Pocinho e Macedo (2010) discorrem que, nessa perspectiva, a solidão crônica teria origem na forma distorcida com que alguns indivíduos interpretam as interações sociais e percebem o comportamento dos outros, o que acaba levando ao isolamento. Para essa linha de pensamento, a solidão aproxima-se de um estado de solipsismo, já que, apesar de gerar sofrimento, também se configura como uma experiência de consciência, na qual o indivíduo se recolhe em si mesmo, de forma não crítica e sem atribuições de culpa. Nesse sentido, a solidão solipsista pode ser vista como uma manifestação do individualismo que marca a cultura contemporânea.
De acordo com Santos e Camargo (2024), a dependência emocional é um fator relevante a ser considerado no contexto da solidão, caracterizando-se pela necessidade exacerbada do indivíduo de demonstrar cuidado e zelo por outra pessoa. Esse tipo de vínculo afetivo é considerado disfuncional, sendo marcado pela busca constante de uma figura de apego. Nesse processo, o indivíduo tende a descarregar sua carga emocional sobre o outro, na tentativa de preencher lacunas internas ou suprir necessidades afetivas não satisfeitas. Pensando em estratégias de intervenção, o autoconhecimento torna-se fundamental: quando as relações interpessoais e ambientais são conduzidas de forma consciente e realista, aumentam significativamente as possibilidades de o indivíduo aperfeiçoar seus comportamentos diante de diferentes situações. A baixa autoestima, por sua vez, é um fator determinante para a manutenção de comportamentos dependentes. Ainda segundo os autores, os indivíduos com autoestima satisfatória tendem a proporcionar bem-estar tanto para si próprios quanto para os outros, uma vez que possuem maior autonomia para criar ambientes agradáveis e lidar de maneira mais assertiva com conflitos, a partir do fortalecimento do autoconhecimento — ao contrário daqueles que apresentam autoestima deficitária (Santos & Camargo, 2024).
Ao considerar a solidão não como patologia, mas como uma oportunidade para um encontro mais profundo consigo mesmo e com o outro, conforme proposto por Heidegger (1989) e a visão existencial de Boss (1976), os resultados indicam que a psicoterapia pode promover uma vivência mais autêntica das relações e da afetividade. A ausência de uma busca pelo padrão social de relacionamento, combinada com a ênfase no processo de abertura para novas formas de estar no mundo, foi um dos aspectos essenciais para o fortalecimento das intervenções terapêuticas observadas. Portanto, a análise dos resultados sugere que a prática terapêutica, fundamentada na escuta fenomenológica, atua como um espaço de ressignificação e de encontro com o próprio sentido de ser. Isso oferece ao sujeito uma possibilidade mais profunda do que uma simples adaptação social. A psicoterapia, ao promover um processo de transformação, não apenas no comportamento, mas na maneira como o sujeito se relaciona consigo mesmo e com os outros, favorece uma vivência mais autêntica e enraizada nas experiências pessoais. Quando se propõe outras estratégias, a autopercepção desempenha um papel fundamental no processo de intervenção, uma vez que, quanto mais o indivíduo reconhece suas dificuldades e anseios relacionados à solidão, maiores são as possibilidades de promover mudanças significativas em sua realidade.
Assim, a solidão em contextos clínicos e sua relação com a saúde mental e o bem-estar psicológico apresentam intersecções importantes, uma vez que há um vínculo profundo entre a capacidade de estabelecer e manter laços sociais saudáveis e gratificantes e o equilíbrio emocional (Martins et al., 2020). Na prática clínica, sentimentos como espanto e angústia são frequentemente associados às experiências de solidão, que podem conduzir a um processo de introspecção com desdobramentos tanto construtivos quanto destrutivos. De maneira construtiva, a solidão pode favorecer a autoexploração e uma melhor compreensão de si mesmo, funcionando como um momento de pausa que permite reorganizar pensamentos e emoções. Por outro lado, quando acompanhada por sentimentos de desesperança, essa mesma experiência pode aprofundar o sofrimento emocional, dificultando a percepção de pertencimento e o estabelecimento de vínculos significativos (Oliveira, Santos, Duarte & Pinheiro, 2023).
De acordo com Barroso, Oliveira e Andrade (2019), o suporte social e a adoção de estratégias de enfrentamento são também como recursos importantes para atenuar os efeitos da depressão e da solidão. A função do suporte social como fator protetivo já havia sido evidenciada em estudos anteriores, reforçando sua relevância para a promoção do bem-estar e da qualidade de vida. Destaca-se, ainda, a relevância das redes de apoio informal, como a participação em atividades de lazer dentro e fora de casa, o cultivo de amizades e a convivência social, a adesão a práticas religiosas e a realização regular de atividades físicas. Esses fatores associam-se a menores níveis de solidão e depressão, indicando estratégias eficazes para a promoção do bem-estar. Alguns desses elementos já haviam sido apontados por Baldissera e Bueno (2012) como possíveis formas de intervenção no enfrentamento de estados emocionais negativos.
A falta de interação social positiva, aliada à ausência de redes de apoio e suporte social, pode ser uma fonte direta de impactos negativos na saúde emocional (Lima, 2024). Nascimento et al. (2023), ao analisarem um momento histórico marcado pela redução da interação presencial — a pandemia da COVID-19 —, observaram que a tecnologia teve papel relevante na modificação das relações interpessoais, especialmente nesse período. Os autores apontam que o uso da internet e das redes sociais para comunicação contribuiu para atenuar a solidão entre pessoas idosas, promovendo formas de interação que, em outros contextos, poderiam estar limitadas ou até mesmo ausentes devido à crise sanitária. No entanto, destacam que, quando essas ferramentas se tornam a única forma de interação, de maneira dependente e exclusivamente virtual, surgem questionamentos sobre a qualidade dessas conexões em comparação com os encontros presenciais. Assim, a tecnologia não substitui plenamente outros tipos de interação.
Lima (2024) amplia a discussão sobre o contexto pandêmico, analisando como a ausência de interações interpessoais presenciais agravou danos à saúde mental e emocional de estudantes durante o ensino remoto. Houve maior percepção de isolamento entre os pares, o que impactou negativamente tanto o aprendizado quanto o desenvolvimento socioemocional, aspectos diretamente relacionados à interação com o outro. Oliveira e Carrilho (2024), ao abordarem o ensino superior nesse cenário, destacam a importância da conexão interpessoal entre alunos e professores. A dificuldade de comunicação entre esses agentes compromete o engajamento no processo de ensino-aprendizagem e intensifica a solidão entre os estudantes, reduzindo o potencial positivo do ambiente educativo, a valorização e a autovalorização dos alunos, bem como a qualidade das relações interpessoais.
Esse contexto também se estende a outros ambientes de interação. Borges et al. (2019), por exemplo, analisam a relação interpessoal entre pacientes e enfermeiros durante o tratamento e acompanhamento na atenção primária, destacando que essa relação favorece um ambiente terapêutico mais propício, baseado em atenção, respeito, afetividade e empatia. A presença de vínculos interpessoais nesse contexto contribui para evitar a solidão em momentos de fragilidade, promovendo a recuperação e a promoção da saúde.
Nesse sentido, múltiplos fatores potencializam interações positivas. Viana, Querino e Aragão (2020) exploram como diferentes dimensões do trabalho, como a qualidade ambiental e a estrutura física, impactam a satisfação e o bem-estar de profissionais da saúde, especialmente enfermeiros. Uma boa infraestrutura e um ambiente de trabalho colaborativo favorecem a conexão entre os profissionais, funcionando como fator protetivo contra estressores emocionais e fortalecendo, inclusive, a relação com os pacientes.
Por outro lado, quando a comunicação interpessoal é inadequada e gera barreiras na interação entre profissionais, há maior intensificação do estresse e do sentimento de isolamento. A ausência de empatia e afetividade na comunicação compromete a qualidade das relações, gerando sentimentos negativos que afetam tanto os vínculos entre os profissionais quanto entre estes e os pacientes, agravando os desafios emocionais no contexto da saúde (Silva, Gomes & Corgozinho, 2021).
As dimensões culturais e sociais também influenciam a experiência da solidão e o modo como se estabelecem conexões interpessoais. Em determinados contextos culturais, a solidão pode ser mais profundamente enraizada, o que torna fundamental compreender as nuances das interações interpessoais para uma melhor compreensão da experiência humana em sua totalidade (Brasil, Oliveira & Cupertino, 2021).
A solidão, embora, muitas vezes associada à diminuição do bem-estar e da satisfação com a vida, pode ter efeitos variados dependendo do contexto e da percepção individual. Quando prolongada, a solidão social pode reduzir o bem-estar emocional, levando a sentimentos de tristeza e ansiedade, o que compromete a satisfação com a vida. No entanto, em alguns casos, a solidão pode ser experienciada de forma positiva, proporcionando momentos de reflexão, autocuidado e crescimento pessoal, o que contribui para o bem-estar subjetivo. Assim, a relação entre solidão, bem-estar e satisfação com a vida é mediada por fatores como a qualidade das interações sociais, a resiliência e a capacidade de adaptação, podendo ser tanto prejudicial quanto benéfica, dependendo de como a pessoa lida com essa experiência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da revisão bibliográfica empreendida neste estudo, foi possível identificar que a solidão, na contemporaneidade, não se reduz a uma condição emocional adversa, mas constitui um fenômeno complexo, multifacetado e profundamente enraizado nas estruturas existenciais do ser humano. Os principais elementos conceituais levantados como a ausência de sentido, a desconexão interpessoal, a resposta emocional negativa e a carência de intimidade revelam que a solidão não pode ser pensada apenas como um estado psicológico indesejado, mas como uma experiência existencial que demanda compreensão ampliada e contextualizada.
Com base no exposto, foi possível evidenciar que a solidão também pode ser uma via de acesso ao autoconhecimento, à escuta de si e à ressignificação dos vínculos interpessoais. Longe de ser tratada como patologia, essa experiência pode ser compreendida como abertura ontológica para modos mais autênticos de ser-no-mundo. Desse modo, este estudo contribui para um reposicionamento teórico da solidão no campo da psicologia clínica e existencial, ao propor que a prática terapêutica, quando fundamentada na escuta sensível e na suspensão de normatividades, torna-se um espaço privilegiado para a elaboração de sentidos, a desconstrução de padrões relacionais instrumentais e a promoção de encontros genuínos.
Assim, a relação afetiva genuína entre os indivíduos também está relacionada à vivência saudável da solidão. A fragilidade diante da auto objetificação e da objetificação do outro pode dificultar essa experiência, o que, por sua vez, enfraquece a capacidade do sujeito de vivenciar sentimentos afetivos autênticos, como o amor. Este implica a aproximação do outro sem que isso afaste o sujeito de suas próprias vivências existenciais, complexas e completas. Como desdobramentos futuros, recomenda-se o aprofundamento da articulação entre solidão, sofrimento psíquico e temporalidade existencial, bem como o desenvolvimento de estudos qualitativos que possam investigar, à luz da fenomenologia, como diferentes sujeitos experienciam e atribuem sentidos à solidão em contextos clínicos e culturais distintos.














