INTRODUÇÃO
Diante do cenário de crescimento de adoecimento físico e psíquico decorrentes das condições de trabalho, vêm aumentando os estudos sobre a saúde de trabalhadores (as) com ênfase na avaliação das condições de saúde e qualidade de vida. Os principais impactos identificados são o aumento do absenteísmo e licenças nos espaços de trabalho, aumento da demanda de atendimento em saúde mental nos serviços de saúde, menor desempenho e produtividade dos indivíduos, sendo necessário fortalecer as ações direcionadas à prevenção, promoção, diagnóstico e tratamento dos agravos ocupacionais (Lavor-Filho et al., 2021; Castro, Rocha & Cruz, 2019)
As condições de saúde mental da população têm gerado preocupação aos órgãos de saúde nos últimos tempos pelas implicações nos diversos contextos da sociedade. De acordo com o relatório mundial de saúde mental da Organização Mundial da Saúde (OMS) há, em média, 280 milhões de pessoas com transtorno depressivo e 301 milhões de pessoas com transtorno de ansiedade no mundo, além dos altos índices de suicídio (OMS, 2022). O Brasil é o país com a maior taxa de pessoas ansiosas do mundo e o quinto em relação à depressão (OPAS, 2019). Destaca-se que o aumento de transtornos mentais também tem afetado a economia mundial por reduzir a capacidade produtiva e o desempenho no trabalho, estima-se um custo de 1 trilhão de dólares por ano (OMS, 2022).
A categoria de profissionais da segurança pública é um grupo exposto a situações laborais que podem levar ao adoecimento. A atividade policial é considerada como a segunda função mais estressora e a terceira ocupação que apresenta mais indícios de adoecimentos físicos e emocionais. É considerada como uma profissão de risco em que o agente pode estar suscetível a problemas de saúde, como alcoolismo, síndrome de Burnout, estresse, episódios depressivos, quadros de ansiedade, dores generalizadas, doenças psicossomáticas, ideações e/ou tentativas de suicídio, entre outras (Castro, Rocha & Cruz, 2019; Back, 2021).
A segurança pública é uma política de Estado que reflete, em sua expressão, a garantia da segurança da coletividade. É atribuído ao agente da segurança pública o referencial de protetor da sociedade, tornandose responsável pelo cuidado do patrimônio público e da população em geral. No cenário de atividade policial destacam-se antagonismos: de um lado o policial na figura do herói, protetor da sociedade e que combate a violência; do outro, o policial na função ostensiva como reprodutor de violência e, um terceiro, o policial vítima da violência (Futino & Delduque, 2020).
A atividade policial tem provocado sentimentos ambivalentes que estão sendo explicitados pela mídia, comunidade acadêmica e sociedade (Futino & Delduque, 2020). Torna-se necessário observar alguns aspectos relevantes que podem determinar o cenário de atuação policial, como as características do trabalho, o processo de institucionalização e de representação social dos policiais. Considerando que todas as dimensões às quais o indivíduo está inserido produzem impactos no processo saúde-doença, atenta-se para os fatores relacionados ao estilo de vida, mas também para o contexto social, cultural, ambiental e outros (Loureiro, Costa & Santana, 2016).
A discussão sobre saúde mental no âmbito da segurança pública ainda é um desafio devido à representação social da figura policial. Um estudo verifica crescentes índices de morbidade e afastamentos decorrentes do estresse profissional cumulativo, Transtorno de Estresse Agudo (TEA) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) em agentes da Segurança Pública (Brasil, 2019). Os impactos na saúde mental de policiais trazem repercussões na qualidade de vida e trabalho do agente, bem como para sociedade em geral.
O cuidado em saúde mental envolve estratégias de promoção à saúde, prevenção dos agravos e tratamento. Entende-se que promover saúde depende de um conjunto de estratégias, atores e políticas, a fim de orientar a população sobre a importância das mudanças de hábitos que podem favorecer a qualidade de vida e bem-estar do indivíduo e da coletividade. Promover saúde possibilita a capacitação e a autonomia do indivíduo e das coletividades para atuar de forma participativa no processo de saúde-doença (Abreu & Murta, 2018; Brasil, 2018).
As ações preventivas visam tanto a interferir na diminuição dos riscos de agravos diagnosticados ou a atuar antes mesmo do estabelecimento do possível diagnóstico, considerando que o tratamento é a assistência ao indivíduo que apresenta um agravo já diagnosticado, podendo ser medicamentoso ou não. Salienta-se que, a fim de alcançar a efetividade nas ações e comunicação com a população, as estratégias referidas utilizam-se de ações educativas para o seu fortalecimento. No contexto da atuação policial, destacase a importância das corporações adotarem estratégias de promoção, prevenção e tratamento, visando ao cuidado em saúde mental dos agentes (Abreu & Murta, 2018; Brasil, 2018).
Estudos que abordem as relações entre as condições de saúde, trabalho e outros fenômenos acerca de policiais, principalmente a saúde mental, ainda são escassos. Neste sentido, realizou-se uma pesquisa preliminar na Open Science Framework (OSF) sobre as estratégias de prevenção e promoção à saúde mental de policiais, não sendo encontrada outra revisão de escopo atual ou em andamento. Diante disto, este estudo tem como objetivo identificar as estratégias de prevenção e promoção à saúde mental para policiais, disponíveis na literatura.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão de escopo, desenvolvida a partir da proposta metodológica do Joanna Briggs Institute Reviewers – JBI (Peters, 2015) e das recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews- PRISMA-ScR (Peters et al., 2020).
Esse método de revisão possibilita explorar a temática estudada com base na produção científica, contribuindo para sintetizar as evidências sobre determinada área de conhecimento. Foram percorridas cinco etapas, a saber: 1) identificação da questão de pesquisa; 2) identificação dos estudos relevantes; 3) seleção dos estudos; 4) análise dos dados e 5) síntese e apresentação dos resultados (Peters et al., 2015).
Utilizou-se a estratégia PCC, acrônimo de “população” (P), “conceito” (C) e “contexto” (C) para a elaboração da pergunta condutora. Assim, definiu-se a questão da pesquisa: “quais estratégias de prevenção e promoção à saúde mental de policiais estão relatadas na literatura?” Nesta, a população (P) refere-se a policiais, o conceito (C) às estratégias de prevenção e promoção à saúde mental e, o contexto (C), à saúde mental.
Como critérios de elegibilidade para inclusão nesta revisão, foram utilizados estudos primários; a população do estudo conter policiais, sejam federais, civis ou militares que atuam na garantia da segurança da coletividade; o objeto do estudo diz respeito a estratégias em saúde mental, que podem ser ações, programas e serviços de promoção e prevenção à saúde mental. Foram excluídos os estudos que não responderam aos objetivos desta revisão.
Para o desenvolvimento da estratégia de busca, inicialmente foi realizada uma busca exploratória na Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Medline) e na Scientific Electronic Library Online (Scielo) para identificar as palavras-chaves, descritores e demais termos utilizados nas pesquisas sobre a temática estudada (Solomons & Hinton, 2021).
Posteriormente, os termos identificados foram consultados na lista dos Descritores em Ciências da Saúde - DeCS e no Medical Subject Headings - MeSH. Com a localização dos descritores controlados, as estratégias de busca foram construídas. Em cada base de dados foi utilizada uma estratégia adaptada para aumentar a sensibilidade da busca, almejando encontrar os estudos que melhor respondessem à pergunta condutora (Rethlefsen et al., 2021). As chaves de busca foram combinadas com os operadores booleanos “AND” e “OR” (Quadro 1).
Quadro 1 Estratégias de busca utilizadas por bases de dados, 2022.
| Base de dados | Estratégia de Busca |
|---|---|
| EMBASE | ‘police’/exp AND (‘prevention’/exp OR ‘health promotion/exp’) AND ‘mental health’/expAND [embase]/lim |
| WEB OF SCIENCE | ((TS=((police))) AND TS= ((Prevention OR ‘Health promotion’))) AND TS= ((‘mental health’)) |
| SCIELO | (POLICE) AND (PREVENTION OR “HEALTH PROMOTION”) AND (“MENTAL HEALTH”) |
| SCOPUS | (TITLE-ABS-KEY ((Police))) AND (TITLE-ABS-KEY ((Prevention OR ‘Health Promotion’))) AND (TITLE-ABS-KEY (‘Mental Health’) |
| MEDLINE (Via PubMed) | (((police[MeSH Terms])) AND ((prevention) OR (‘Health promotion’[MeSH Terms])) AND (‘mental health’[MeSH Terms])) |
| LILACS (BVS) | ((police)) AND ((prevention) OR (‘health promotion’)) AND ((‘mental health’)) AND (db:(“LILACS”)) |
| GOOGLE SCHOLAR | (policia) AND (prevenção OR “promoção da saúde”) AND (“saúde mental”) |
| BDTD | (police) AND (prevention OR “health promotion”) AND (“mental health”) |
| CATÁLOGO DE TESES E DISSERTAÇÕES CAPES | (policia) AND (prevenção OR “promoção da saúde”) AND (“saúde mental”) |
Fonte: elaboração própria.
Realizou-se uma pesquisa eletrônica em seis bases de dados, a saber: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online – MEDLINE/PubMed (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/), SCOPUS/ Elsevier (https://www.scopus.com/), Web of Science - WOS (Web of Science), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde - Lilacs (LILACS (bvsalud.org), Scientific Electronic Library Online -SciELO (SciELO.org) e Embase (Embase). Para explorar outras fontes de dados a fim de alcançar o objetivo proposto, foi realizada uma busca na literatura cinzenta: Google™ Scholar (Google Acadêmico); na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações- BDTD (BDTD (ibict.br)) e no Catálogo de Teses e Dissertações - CAPES (Catálogo de Teses & Dissertações - CAPES).
As bases de dados foram acessadas no mês de novembro de 2022 por meio da Comunidade Acadêmica Federada (CAFe) no Portal de Periódicos da CAPES, com o acesso institucional da Universidade Federal de Pernambuco. Salienta-se que não foram utilizadas restrições de idiomas, período, local de estudo, desenho de estudo ou qualquer outra limitação para a busca dos estudos.
Após a identificação dos estudos, esses foram exportados de cada base de dados para o software Rayyan (https://www.rayyan.ai/), que possibilitou reunir todos os achados, excluir os duplicados e realizar a seleção por pares. No primeiro momento, dois revisores avaliaram, de forma independente, todos os títulos e resumos para selecionar os estudos que respondessem aos critérios de inclusão desta revisão. Após a leitura dos títulos e resumos, foram selecionados os estudos elegíveis para leitura na íntegra. Destaca-se que não foi possível exportar os estudos selecionados por meio das bases de dados da literatura cinzenta para o software Rayyan, sendo criada uma planilha no Microsoft Excel™ para o seguimento das etapas de seleção. As discordâncias da inclusão dos estudos foram resolvidas de forma dialogada.
Posteriormente, foi realizada uma busca manual na lista de referências dos estudos incluídos para identificar estudos adicionais e finalizar a etapa de seleção. O resultado da seleção dos estudos é apresentado em formato de fluxograma, seguindo as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta- Analyses – PRISMA.
Para apresentação dos resultados dos estudos incluídos, os dados foram extraídos e organizados de forma descritiva em um quadro, por meio de um instrumento de coleta de dados elaborado no Microsoft Excel™. Na tabela foram evidenciados os principais aspectos de cada estudo, a saber: autor(es), ano de publicação, local do estudo, objetivo e estratégia de prevenção ou promoção à saúde mental utilizada. Posteriormente foi realizada, a partir dos estudos incluídos, uma discussão com a literatura com o propósito de responder ao objetivo da revisão de escopo.
Por ser uma revisão de escopo, a Resolução 510/16 do Conselho Nacional de Saúde, prevê dispensa da avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP).
RESULTADOS
Foram identificados 702 estudos, excluindo-se 86 por estarem duplicados, restando 616 estudos. Após a leitura dos títulos e resumos na primeira fase da seleção, foram excluídos 566 estudos por não responderem ao objetivo da pesquisa, restando 50 artigos.
A segunda fase da seleção foi a leitura na íntegra que resultou na exclusão de 44 artigos. Posteriormente, a consulta às referências dos seis artigos selecionados não ampliou o número de estudos por não atender aos critérios de inclusão. Portanto, ao finalizar todas as etapas de seleção, seis estudos foram incluídos na revisão. A Figura 1 descreve o fluxograma do processo de seleção dos estudos.

Fonte: elaboração própria.
Figura 1 Fluxograma do processo de seleção dos estudos, adaptado do PRISMA, 2023.
Em relação à caracterização dos estudos selecionados, foram publicados entre os anos 2008 e 2021, sendo quatro realizados no Brasil, um nos Estados Unidos e um na Suécia, conforme descrito no Quadro 2.
Quadro 2 Descrição dos estudos incluídos na revisão de escopo segundo autores, ano, local e objetivo, 2023.
| Estudo | Autor(es) | Ano | Local | Objetivo |
|---|---|---|---|---|
| E1 | Guimarães, Laudelino & Massuda. | 2020 | Brasil | Descrever e analisar uma prática de intervenção em saúde mental com abordagem integrada, voltada a policiais rodoviários federais |
| E2 | Coleta & Coleta | 2008 | Brasil | Identificar fatores de estresse ocupacional e verificar as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos policiais civis |
| E3 | Silva et al. | 2022 | Brasil | Trata da construção de um programa para a prevenção e manejo do comportamento suicida na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro |
| E4 | Van Hasselt et al. | 2019 | Estados Unidos | Fornecer uma visão geral do programa de treinamento Peers as Law Enforcement Support (PALS) |
| E5 | Arnetz et al. | 2013 | Suécia | Determinar a eficácia de um programa de prevenção primária destinado a melhorar as respostas psicobiológicas ao estresse entre policiais urbanos. |
| E6 | Trombka et al. | 2021 | Brasil | Avaliar a eficácia da promoção da saúde baseada em mindfulness (MBHP) para promover a qualidade de vida e saúde mental dos policiais. |
Fonte: elaboração própria.
Observou-se que os estudos selecionados apresentaram estratégias tanto em nível individual quanto organizacional, conforme descrito no Quadro 3.
Quadro 3 Descrição dos estudos incluídos na revisão de escopo segundo população e estratégia, 2023.
| Estudo | População | Estratégia | ||
|---|---|---|---|---|
| E1 | Policiais Rodoviários Federais | Intervenções Individuais (psicoeducação; plantão psicológico e outros) | Intervenções Grupais (palestras, rodas de conversas e treinamentos) | Intervenção Organizacional (ambiente de trabalho e suas implicações) |
| E2 | Policiais Civis | Manejo dos sintomas do estresse ocupacional (prática de atividade física, lazer, autocontrole e atividades religiosas e familiares) | ||
| E3 | Polícia Militar | Programa de prevenção e manejo do comportamento Suicida | Capacitação dos profissionais | Palestras, espaços para a prática da atividade física, grupos focais, e outras |
| E4 | Policiais | Treinamento entre pares, a fim de favorecer o acolhimento nos momentos de crise profissional e pessoal | ||
| E5 | Policiais Urbanos | Treinamento para respostas psicobiológicas ao estresse | Sessões psicoeducativas, técnicas de relaxamento, técnicas de imagens preventivas e abordagem de práticas de habilidades. | |
| E6 | Policiais Civis | Promoção da saúde baseada em Mindfulness (MBHP) | ||
Fonte: elaboração própria.
Guimarães, Laudelino e Massuda (2020) desenvolveram um estudo sobre a experiência de uma intervenção integrada em saúde mental para policiais rodoviários federais, por considerar a atividade desses profissionais estressante e perigosa. Apresentaram três focos de intervenções de promoção e prevenção à saúde mental desses profissionais: 1) intervenções individuais com ações voltadas para psicoeducação, plantão psicológico, acompanhamento psicoterapêutico e psicotraumatologia; 2) intervenções grupais com palestras, rodas de conversa e treinamentos voltados para as relações de equipe e saúde mental e 3) intervenção organizacional com foco no ambiente de trabalho e suas implicações na saúde mental do trabalhador (Guimarães, Laudelino & Massuda, 2020).
Outro estudo incluído nesta revisão analisou as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos policiais civis do interior do estado de Minas Gerais. Foi aplicado como instrumento uma entrevista semiestruturada sobre o modo como os policiais lidam com o estresse. A análise foi realizada segundo a classificação de coping ocupacional de Latack e categorizadas em manejo dos sintomas, esquiva e controle. A maioria dos policiais relatou utilizar estratégias de manejo dos sintomas para lidar com o estresse ocupacional, a saber: prática de atividade física, lazer, autocontrole e atividades religiosas e familiares (Coleta & Coleta, 2008).
Considerando a magnitude do fenômeno do suicídio policial, um estudo teve como objetivo apresentar as propostas de implementação do programa de prevenção e manejo do comportamento suicida na polícia militar do estado do Rio de Janeiro. O programa é composto por nove etapas, como: promover a sensibilização dos policiais e seus familiares acerca da saúde mental e comportamento suicida; capacitar os profissionais de saúde para a identificação e manejo do comportamento suicida; formação de multiplicadores entre os policiais; criação de grupo de pesquisa e desenvolvimento de estudos sobre o tema. Dentre as ações direcionadas à prevenção da saúde mental, propõe-se a realização de palestras, distribuição de cards informativos, organização de espaços para a prática de atividade física, rodas de conversa, grupos focais e outras (Silva, Silva, Souza, Silva & Abecassis, 2022).
Como uma estratégia de prevenção secundária, o programa Peers as Law Enforcement Support (PALS) foi desenvolvido nos Estados Unidos da América com o objetivo de realizar treinamento voluntário de apoio entre pares, a fim de favorecer o acolhimento entre os policiais nos momentos de crise profissional e pessoal. Os membros voluntários participam de um treinamento para identificar e auxiliar os policiais que apresentam sofrimento psíquico (Van Hasselt, Klimley, Rodriguez, Themis-Fernandez, Henderson & Schneider, 2019).
Estudo de prevenção primária realizado na Suécia para avaliar a eficácia de um programa de treinamento voltado a melhorar respostas psicobiológicas ao estresse utilizou uma amostra aleatória de 37 policiais, dividindo-os em grupo controle e grupo de intervenção. Este último grupo recebeu um complemento ao programa de treinamento padrão, com a utilização de sessões psicoeducativas, técnicas de relaxamento, técnicas de imagens preventivas e abordagem de práticas de habilidades (Arnetz, Arble, Backman, Lynch & Lublin, 2013).
Utilizando o delineamento metodológico randomizado controlado multicêntrico (RCT), o estudo POLICE realizou intervenção com o foco na promoção da saúde baseada em Mindfulness (MBHP). O estudo gerou evidências sobre a melhoria da qualidade de vida e saúde mental de policiais brasileiros a partir da intervenção (Trombka et al., 2021).
DISCUSSÃO
Esta revisão de escopo identificou seis estudos que abordaram sobre as estratégias de prevenção e promoção à saúde mental de policiais. O número de estudos considerados elegíveis corrobora com a crítica sobre a escassez de pesquisas publicadas voltadas para a temática.
As características da estrutura dos órgãos que compõem a segurança pública são marcadas por estereótipos, como os de associação à fortaleza, o que tem sido considerado como fatores que prejudicam a busca do profissional pelos serviços de saúde, especialmente os serviços de saúde mental. Um estudo ressaltou também a importância da pauta sobre a saúde mental nas corporações policiais, mesmo sendo desafiadora, conforme os resultados encontrados. Salientou ainda que a carência de diálogo e estratégias de enfrentamento pode desencadear o agravamento dos sintomas de adoecimento e suas possíveis consequências, tanto para o agente quanto para seus familiares e a sociedade. O preconceito institucional, as questões de gênero e o medo da discriminação nas corporações podem dificultar a adesão aos cuidados em saúde, favorecendo a continuidade do adoecimento (Back, 2021).
Dentre as intervenções ressaltadas pelos estudos incluídos, o apoio social, em especial entre os pares das corporações, torna-se uma importante estratégia para o enfrentamento das questões relacionadas à saúde mental. Corroborando com o achado, um estudo destacou a importância das interações sociais para a diminuição do estresse e aumento do afeto positivo (Lades, Laffan, Daly & Delaney, 2020). Observa-se que o suporte social e familiar é um fator potencializador capaz de influenciar a percepção sobre qualidade de vida e minimizar os eventos estressores, podendo contribuir para o acolhimento e a identificação das demandas de saúde mental dos policiais, promovendo a sensibilização desses profissionais acerca da importância do tratamento (Castro & Cruz, 2015).
Fatores como a sobrecarga de trabalho, a baixa remuneração, a responsabilidade social/pressão da população, o prolongamento da jornada de trabalho, os desvios de funções, as condições insalubres e perigosas, a vivência de situações de violência, entre outros, podem trazer implicações na qualidade de vida e saúde dos profissionais (Castro & Cruz, 2015; Futino, 2018). Diante disso, entende-se que as intervenções individuais, como as de autocuidado e de acompanhamento psicológico, conforme foram relatadas nos estudos incluídos na revisão, são importantes estratégias de promoção e prevenção à saúde (Back, 2021).
Também como uma estratégia de autocuidado, os espaços para a prática da atividade física foram relatados como uma intervenção de promoção à saúde mental desses profissionais, por possibilitar interação entre os pares e como estratégia para evitar e controlar sintomas de estresse, ansiedade e outras comorbidades. A atividade física pode interferir positivamente na saúde mental de policiais (Bernardo et al., 2016).
Sabe-se que, para alcançar a integralidade do cuidado ao indivíduo, faz-se necessária a articulação entre diversos setores, atores da sociedade e o Estado. Diante disto, entende-se que a questão da saúde mental precisa ser dialogada de maneira intersetorial. Ações intersetoriais de promoção, prevenção e assistência em saúde mental são necessárias, uma vez que o cuidado em saúde mental desses profissionais pode estar invisibilizado por ainda ser considerado tabu dentro das instituições (Pelegrini, Cardoso, Claumann, Araújo Pinto & Felden, 2018; Tavalera-Velasco, 2018).
Um estudo evidenciou que, muitas vezes, a formação no início da carreira policial já se torna um evento estressor e que pode trazer implicações durante todo o contexto de atuação profissional. Sendo assim, a realização de encontros temáticos para dialogar sobre o enfrentamento a situações estressantes apresentase como uma estratégia de prevenção. Outras ações foram elencadas, como a ampliação da contratação de profissionais especializados em saúde mental, como o psicólogo; a condução de grupos, tanto com os agentes quanto com seus familiares, a fim de dialogar sobre os impactos da função para ambos; o acompanhamento psicológico individual e outras terapias; espaços para o acolhimento, escuta e acompanhamento dos agentes, além da realização de mapeamento dos riscos psicossociais para monitoramento (Back, 2021).
Salienta-se a importância da perspectiva ampliada de prevenção e promoção à saúde mental, em que as intervenções consideram não apenas os aspectos individuais (estilo de vida, comportamentos), mas também os aspectos contextuais (político, econômico, ambiental e outros) (Back, 2021). Entendendo que a saúde mental não se restringe apenas ao indivíduo e suas estruturas psíquicas, mas que também existem diversos fatores que atravessam este campo, como a questão de gênero, sexualidade, raça, exposição a fatores de riscos e ambientais, condições de trabalho, representação social e outros. Nesse estudo, as intervenções descritas para saúde mental de policiais se voltam para estratégias de âmbito individual e coletivo, bem como para a implementação de programas.
Em relação à oferta de serviços de promoção, prevenção e tratamento em saúde mental, é preciso destacar que, no Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como componente da Política Nacional de Saúde Mental, é um potente dispositivo para o acolhimento das demandas de saúde mental destes profissionais (Onocko-Campos, 2019; Sampaio & Bispo, 2021). Estudo evidenciou que os profissionais sinalizam falta de apoio institucional e dificuldade para acessar os serviços ofertados (Back, 2021). Na Política Nacional de Saúde Mental não há direcionamentos específicos para o cuidado em saúde mental dos agentes policiais, mas considerando os princípios de universalidade e integralidade preconizados pelo SUS, esses profissionais têm o direito aos serviços disponíveis.
Ressalta-se que há limitações nesta revisão de escopo, como: a estratégia de busca utilizada pode não ter contemplado todas as publicações disponíveis acerca do tema e alguns estudos incluídos discorrem sobre agravos diferentes em saúde mental, o que pode contribuir para desdobramentos e estratégias de promoção e prevenção distinta. No entanto, as limitações desta revisão podem estimular a elaboração de novos estudos acerca da temática. Os resultados deste estudo poderão contribuir para evidenciar as intervenções em saúde mental para policiais que estão sendo desenvolvidas e auxiliar gestores e governantes sobre a importância do investimento em ações intersetoriais direcionadas à promoção e prevenção à saúde mental deste público.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste estudo sugerem a importância da necessidade da implantação de estratégias intersetoriais de promoção e prevenção à saúde mental de policiais por compreender o viés de risco e adoecimento relacionados ao exercício trabalho, principalmente neste período pós-pandemia, onde o medo, o luto e outras questões que causam sofrimento mental se somaram aos fatores específicos adoecedores na função policial.
Conforme evidenciado em outras pesquisas, no contexto de exercício policial há os fatores desencadeadores de adoecimento, como a carga de trabalho e o tipo de trabalho, estando os agentes suscetíveis a situações que podem ser estressoras e violentas. As evidências sobre o significativo aumento de adoecimento físico e mental na categoria dos policiais, ressalta a importância de um olhar mais atento, tanto para os agentes em processo formativo quanto para aqueles com longo tempo de carreira.
Os policiais são agentes importantes para a garantia da segurança pública, portanto, são necessárias estratégias que visem à qualidade da saúde mental para o enfrentamento das situações cotidianas a que estão submetidos. O adoecimento de um agente policial traz repercussões em seu modo de atuação profissional e convívio com a população, o que impacta diretamente na saúde da sociedade. Policiais em sofrimento psíquico podem adotar uma atuação mais ostensiva e agressiva e, diante de sua representação social, enquanto agente protetor, causar sensação de medo e estranhamento na população pela distorção da figura policial. Para que a Política da Segurança Pública seja exercida com maior efetividade, torna-se necessário suporte emocional para os agentes policiais.
Sugerem-se estudos de abordagem qualitativa que coloquem o profissional de segurança pública como protagonistas para melhor compreensão sobre o adoecimento psíquico nessa população. É primordial que o agente possa discorrer sobre sua vivência no contexto de atuação e os impactos para sua qualidade de vida e contexto social.














