Introdução
A violência é o uso proposital da força ou poder com realização de ameaça ou atos que podem ser praticados contra si ou outra pessoa, grupo ou comunidade, possuindo a probabilidade de causar lesão, morte, prejuízo psíquico, deformações no desenvolvimento ou privações (Organização Mundial da Saúde, 2015; Dahlberg et al., 2006).
A violência pode se manifestar de diferentes formas, como a violência auto infligida, interpessoal, na comunidade e coletiva. A violência auto infligida consiste em pensamentos suicidas, tentativas de suicídio e atos de automutilação, já a violência interpessoal, abrange agressões entre os membros da família ou entre parceiros íntimos. A violência na comunidade, envolve pessoas que não possuem relação pessoal, por meio de estupro ou ataque sexual por desconhecidos e a violência em instituições, como escolas, locais de trabalho, prisões e asilos, e a violência coletiva pode ser de cunho social, política e econômica, praticada em grupos, destinada à uma ação social, guerras ou conflitos relacionados a ela e ataques por grandes grupos motivados pelo lucro econômico (Dahlberg et al., 2006).
Dando ênfase ao subtipo de violência interpessoal, entre parceiros íntimos, com destaque para os adolescentes, a “violência por parceiro íntimo é o comportamento dentro de uma relação íntima que causa dano físico, sexual ou psicológico aos integrantes desse relacionamento, incluindo atos de agressão física, coação sexual, abuso psicológico e comportamento controlador” (OMS, 2014 apud Heise & Garcia- Moreno, 2002, p. 11). Ela pode ser praticada tanto nas relações homossexuais quanto heterossexuais e, infelizmente, ela tem se tornado cada vez mais frequente nas relações entre adolescentes.
Conforme a pesquisa da Organização Mundial de Saúde (2015), a violência por parceiro íntimo é mais alta na população de renda média, com 62% de incidência. Nos Estados Unidos, estudos identificaram que, aproximadamente 18% dos adolescentes sofreram ou sofrem violência física ou sexual por parceiro íntimo e quase 10% dos jovens que estão cursando o ensino médio são vítimas de violência física e mais de 20% são vítimas de violência emocional (Sargent et al., 2017; Taylor et al., 2015). No Brasil, um estudo realizado com adolescentes de 10 capitais identificou que 38,9% dos participantes praticaram e 43,8% sofreram violência sexual (Minayo, Assis, & Njaine, 2011).
Na adolescência, a violência por parceiro íntimo gera diversos problemas na saúde sexual, reprodutiva e mental, podendo agravar quadros de depressão, além do uso de drogas, agressões e mortes (Brancaglioni, 2016). Ela pode ocorrer influenciada por experiências, crenças, normas sociais e culturais e, por isso, em intervenções, é importante enfatizar, especialmente, a alteração de normas relacionadas à violência no namoro, a construção de identidade, mudanças de crenças, manutenção de relacionamentos saudáveis, aquisição de conhecimento sobre equidade de gênero, funcionamento do corpo, comportamento útil dos expectadores, entre outros (Peskin et al., 2014).
O estudo de Mathews et al. (2016) mostrou a importância de intervenções no âmbito escolar, enfatizando que, muitas vezes, a violência por parceiro íntimo na adolescência pode ocorrer na escola ou em momentos de interação com colegas e amigos, os professores podem auxiliar na intervenção desse tipo de violência com o auxílio dos familiares. Além disso, o espaço escolar possibilita um enfoque na vitimização e perpetração da violência, abarcando também a violência em relação ao comportamento do espectador (Carlos et al., 2017).
Vale ressaltar que o desenvolvimento na adolescência muda juntamente com os aspectos biológicos, econômicos, culturais e sociais. À vista disso, é necessário que os programas de intervenção direcionados à violência por parceiro íntimo se atenham a realidade, pois essas situações podem gerar diversos problemas na saúde sexual, reprodutiva e mental, podendo agravar quadros de depressão, uso de drogas, agressões e mortes (Brancaglioni, 2016).
Entretanto, é preciso também avaliar se essas intervenções são bem-sucedidas na prevenção ou redução das situações de violência por parceiro íntimo. Dessa maneira, o objetivo deste estudo foi investigar os resultados de intervenções executadas no ambiente escolar, com foco na prevenção e redução de casos de violência nas relações de intimidade entre adolescentes.
Método
Tipo de estudo
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura que consiste na busca rigorosa de estudos sobre temas específicos com o intuito de identificar, selecionar, analisar e sintetizar as informações e resultados neles presentes (Rother, 2007). De acordo com Galvão e Pereira (2014), a revisão sistemática busca a minimização de erros e vieses na busca e análise das produções bibliográficas. Para tanto, pressupõe a formulação de uma pergunta norteadora para a busca bibliográfica, a elaboração de critérios de inclusão e de exclusão, uma variedade nos locais de busca e a avaliação da qualidade metodológica dos estudos selecionados.
Bases de dados e busca bibliográfica
A questão norteadora da busca bibliográfica foi: “Quais os resultados de intervenções realizadas em escolas visando prevenção ou redução da ocorrência de violência nas relações de intimidade dos estudantes?”. Ela foi elaborada utilizando-se a estratégia PICO (Patient or Problem, Intervention, Control or Comparasion, Outcomes) (Santos, Pimenta, & Nobre, 2007). A busca ocorreu no total de sete bases de dados, sendo seis internacionais: Cumulative Index to Nursing and Allied (CINAHL), Education Resources Information Center (ERIC), Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Psychological Information Database (PsycINFO), Scopus e Web of Science. E para englobar a literatura nacional, foi consultada a biblioteca eletrônica Scientific Electronic Library Online (ScieELO).
Em todas as bases de dados foram realizados os cruzamentos: “Intimate partner violence” AND “Randomized Controlled Trial” AND school e “Dating violence” AND “Randomized Controlled Trial” AND school. Na base de dados CINAHL a pesquisa foi realizada no campo “AB Resumo”. Na base LILACS o campo de busca adotado foi “palavras do resumo”. Na PsycINFO os resultados foram buscados em “abstract”. Na Pubmed a pesquisa foi realizada em “title/abstract”. Na SciELO buscou-se no campo “assunto”. Na SCOPUS o campo de busca adotado foi “article title, abstract, keywords”, e na Web of Science a busca foi realiza em “tópico”, que pesquisa título, resumo e palavras-chave.
Critérios de inclusão e exclusão dos artigos
Foram incluídos somente artigos, geralmente realizados no formato double blind review, por eles passarem por um processo mais rígido de avaliação por pares. Em relação às intervenções, somente foram incluídas aquelas desenvolvidas como estudos experimentais (ensaios clínicos randomizados), por apresentarem maior rigor metodológico. Incluiu-se somente os estudos publicados no período (2014-2018), sendo eles em português, inglês ou espanhol, pois são idiomas que abrangem a maior parte das produções nacionais e internacionais, bem como por serem idiomas de domínio dos autores desta revisão. Não foram incluídos os artigos publicados em formato de livros, capítulos de livros, teses, dissertações, editoriais, cartas ao editor e anais de congressos. Igualmente, os estudos com intervenções não experimentais, aqueles publicados em alguma língua diferente das incluídas, bem como as que não abordassem diretamente os temas em foco (violência nas relações de intimidade entre adolescentes).
Procedimentos da revisão
Em maio de 2019 ocorreu o processo de busca e seleção dos artigos nas bases de dados. A partir das informações dos títulos e resumos, foram selecionados aqueles que atendiam aos critérios de inclusão e exclusão. Esse procedimento foi realizado por dois revisores independentes. As divergências identificadas entre as duas buscas foram discutidas até a obtenção de consensos. Com objetivo de facilitar as análises descritivas e críticas dos trabalhos pesquisados, as informações referentes ao título, autoria, revista, objetivos, método, resultados e conclusões foram extraídas dos artigos e sintetizadas em uma planilha do programa Excel.
Resultados
Os cruzamentos dos termos de busca nas seis bases de dados resultaram em um total de 72 artigos. No processo de triagem, 22 foram identificados como repetidos. Dessa forma, não foram considerados na leitura de títulos e resumos. Nessa etapa da triagem, 35 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão estabelecidos, totalizando 15 artigos para leitura na íntegra. Após a leitura dos textos completos, foi possível identificar que outros 7 estudos não atendiam aos critérios de inclusão por apenas descreverem protocolos de intervenção ou por abordarem secundariamente a violência no namoro, tendo como foco principal a saúde sexual. Desse modo, ao final do processo de busca e seleção bibliográfica, 8 artigos compuseram a síntese qualitativa da revisão. As etapas desse processo são apresentadas na Figura 1 e as características dos estudos analisados encontram-se sintetizadas na Tabela 1.
Tabela 1. Características das publicações utilizadas para a revisão sistemática de literatura
| Autoria (ano) | País | Amostra (n) | Meninos (%) | Idade (anos) |
|---|---|---|---|---|
| Sanchez-Jiménez et al. (2018) | Espanha | 1764 | 52,3 | 11 a 19* |
| Kelly et al. (2018) | África do Sul | 2448 | 0 | 13 a 20* |
| Sargent et al. (2016) | Estados Unidos | 1295 | 47,5 | 13 a 19* |
| Mathews et al. (2016) | Africa do Sul | 3451 | 39,7 | 13,7# |
| Joppa et al. (2016) | Estados Unidos | 225 | 46 | 15,8# |
| Gonzalez-Guarda et al. (2015) | Estados Unidos | 82 | 44 | 13 a 16* |
| Taylor et al. (2015) | Estados Unidos | 2665 | 47 | 10 a 15* |
| Peskin et al. (2014) | Estados Unidos | 766 | 42,2 | 13,0# |
Nota. * = Faixa etária. # = média.
Conforme demonstrado na Tabela 1, as produções foram constantes, com distribuição equivalente ao longo dos últimos cinco anos. A maioria das intervenções foram desenvolvidas nos Estados Unidos (n = 5), seguidas por África do Sul (n = 2) e Espanha (n =1). O tamanho das amostras variou entre 82 e 3451 participantes e a maioria (n = 7) foi composta por adolescentes do sexo masculino e feminino. A idade dos participantes variou entre 10 e 20 anos, estando quase que a totalidade no período da adolescência que, de acordo com a classificação da Organização Mundial da Saúde, ocorre entre 10 e 19 anos (OMS, 2015)
Na Tabela 2, os resultados dos estudos analisados indicaram que somente uma intervenção não apresentou resultados significativos (González-Guarda et al., 2015). Todos os outros estudos foram bem-sucedidos na prevenção ou redução da violência nas relações de intimidade de adolescentes estudantes. Especificamente, ocorreram reduções tanto na vitimização (Joppa et al., 2016; Mathews et al., 2016; Taylor et al., 2015; Peskin et al., 2014) quanto na agressão (Joppa et al., 2016; Taylor et al., 2015; Peskin et al., 2014). Além de melhorias significativas em mitos do amor romântico (Sanchez et al., 2018) e no posicionamento ativo daqueles que presenciam as situações de violência (Sargent et al., 2016). Em termos de prevenção, houve redução dos riscos da violência por parceiro íntimo mediante o adiamento da iniciação sexual e diminuição da quantidade de parceiros sexuais (Kilbum et al., 2018).
Tabela 2. Resumo dos estudos relacionados
| Objetivo | Intervenção | Resultados | |
|---|---|---|---|
| Sanchez et al. (2018) | Avaliar o programa Dat-e Adolescence. | Dat-e Adolescence é um programa de prevenção da violência no namoro voltado à adolescentes. Aborda diferentes formas de violência namorados, fatores de risco associados, crenças, atitudes e estratégias de resolução de conflitos. As atividades incluem role playing, vídeos, debates, jogos e dinâmicas de grupo. | O programa melhorou os mitos do amor romântico: ciúme (p<0,001), onipotência (p<0,001), paixão (p<0,001) e melhor metade (p<0,001). Porém, não teve efeitos significativos nas agressões físicas, psicológicas ou online. |
| Kilbum et al. (2018) | Analisar os efeitos de um programa de distribuição de renda para meninas na diminuição da violência praticada por parceiro íntimo e redução do risco de HIV. | A intervenção envolve a transferência mensal de dinheiro condicionada à frequência escolar de estudantes do sexo feminino e aconselhamento sobre prevenção de HIV. | A intervenção reduziu os riscos da violência por parceiro íntimo por adiar a iniciação sexual das participantes e por diminuir a quantidade de parceiros sexuais. As maiores reduções ocorreram quando o efeito direto foi estimado sem a iniciação sexual [RR 0,57, IC (95%): 0,48-0,65] ou sem parceiro sexual nos últimos 12 meses [RR 0,53, IC (95%): 0,46-0,60]. |
| Sargent et al. (2016) | Avaliar a eficácia do programa Take CARE no comportamento de estudantes que presenciam violência por parceiro íntimo. | Take CARE é um vídeo com o objetivo de reduzir a violência nos relacionamentos íntimos de estudantes por meio do aumento de comportamentos de ajuda de espectadores e na construção de autoeficácia para intervir. | Os participantes da intervenção apresentaram significativamente mais comportamentos úteis de expectador (p = 0,032) na avaliação de follow up, realizada três meses após a intervenção. Os estudantes hispânicos se envolveram mais em comportamentos úteis em comparação aos estudantes não hispânicos (p<0,012). |
| Mathews et al. (2016) | Identificar os resultados do programa PREPARE na redução da violência por parceiro íntimo. | Visa a prevenção da violência no namoro com base em comunicação assertiva, desigualdades de poder de gênero, valores e aspirações referentes ao relacionamento íntimo. Atividades realizadas como aulas de educação em saúde. | Os resultados sugerem que a intervenção proporcionou parcerias íntimas mais seguras, pois os participantes relataram menor probabilidade de vitimização (35,1% versus. 40,9%; OR 0,77, IC95%: 0,61-0,99). |
| Joppa et al. (2016) | Testar a eficácia de um programa de intervenção breve na prevenção de violência no namoro. | Busca desenvolver relacionamentos saudáveis via modificação de cognições (atitudes no namoro, expectativas e conhecimento) e comportamentos (resolução de conflitos e habilidades de comunicação), de modo que os relacionamentos fiquem livres de violência física, verbal e emocional. | Os efeitos foram mais significativos para homens (p<0,001) do que para mulheres (p<0,05). Após três meses, os participantes apresentaram menor probabilidade de terem cometido violência emocional e/ou verbal ou outro tipo de violência, bem como menor probabilidade de relatarem vitimização emocional e vitimização total. |
| Gonzalez- Guarda (2015) | Avaliar um programa de prevenção em Adolescentes cubano-americanos. | O programa YOUTH: Together Against Dating Violence objetiva prevenir violência no namoro por meio do desenvolvimento de competências sociais dos estudantes, formação para equipe escolar e sensibilização para pais. | Os resultados não foram significativos para vitimização e agressão no namoro ao longo do tempo, realizando-se controle por sexo e interação de gênero. |
| Taylor et al. (2015) | Examinar os efeitos do programa Shifting Boundaries. | Shifting Boundaries é uma intervenção para prevenir a violência no namoro e o assédio sexual entre adolescentes. Ela é aplicada em sala de aula enfatizando as características e consequências da violência no namoro, estabelecimento de limites e relações seguras. | Houve reduções significativas na frequência de violência no namoro, tanto para vitimização (IRR: 0,46; IC95%: 0,25-0,42; p = 0,01) quanto para agressão (IRR: 0,50; IC95%: 0,25 - 0,93; p = 0,027). |
| Peskin et al. (2014) | Investigar se jogo Keep It Real reduz a violência no namoro entre adolescentes de minorias étnicas. | É um programa de educação em saúde que objetiva retardar o início do comportamento sexual e promover relacionamentos saudáveis de namoro por meio da identificação de características de amizades e relacionamentos de namoro saudáveis e não saudáveis; avaliação de relacionamentos; resistência à pressão dos pares; apoio social; entre outros aspectos. | O grupo controle apresentou mais chances de vitimização por violência física (ORa = 1,52; IC95%: 1,20, 1,92) e violência emocional (ORa = 1,74; IC95%: 1,36, 2,24), e perpetração de violência emocional (ORa = 1,58; IC95% = 1,11, 2,26) do que o grupo de intervenção. |
Nota. IC95% = Intervalo de confiança. OR = Odds Ratio. ORa = Odds Ratio ajustado. RR = Risco relativo.
Discussão
O objetivo deste estudo foi analisar os resultados de intervenções realizadas em escolas visando a prevenção ou redução da ocorrência de violência nas relações de intimidade. Diante das intervenções que foram analisadas, pode-se afirmar que a maioria foi bem-sucedida, indicando que a violência por parceiro íntimo pode ser prevenida e enfrentada por intervenções realizadas na escola. As intervenções que tiveram sucesso foram aquelas que ressignificaram as crenças, regras, atitudes e pressupostos, pois são esses aspectos que influenciam o modo como as pessoas pensam, sentem e se comportam. Nessa perspectiva, a aquisição de conhecimento e a ressignificação de crenças, quando colocadas em prática nas relações dos adolescentes, resultam na diminuição da agressão e da vitimização, pois mudanças nas cognições influenciam diretamente o comportamento (Joppa et al., 2016; Kilburn et al., 2018).
Assim sendo, o estudo de Joppa et al. (2016) também reconhece que as escolas podem efetuar um papel importante na educação dos estudantes, principalmente em relação aos relacionamentos saudáveis, através do aumento de conhecimentos e conscientização. Entretanto, o papel desempenhado pela família também é fundamental, pois a comunicação sobre comportamentos de risco entre pais e filhos pode prevenir a violência no namoro. Dessa maneira, mostra-se necessário que os programas de intervenção trabalhem a comunicação eficaz nas famílias para a melhor orientação dos jovens e para que eles confiem nos pais, como, por exemplo, o programa Keep It Real, relacionado à violência no namoro, que incluiu atividades com a função de aumentar a comunicação entre pais e filhos (Peskin et al., 2014).
De modo complementar, o estudo da avaliação do Take CARE revelou que adolescentes frequentemente se deparam com violência por parceiro íntimo, e por isso, respostas úteis para aqueles que testemunham a violência também são um fator importante, pois a ação de espectadores pode impedir a ocorrência de violência. Um aspecto primordial é conscientizá-los que os comportamentos ciumentos e controladores também podem representar comportamentos abusivos, como, por exemplo, a violência sexual ou física (Sargent et al., 2017). Quando todos os envolvidos na violência, direta ou indiretamente, se encontram engajados na sua prevenção e enfrentamento, abre-se a possibilidade de resolução mais definitiva do problema.
Aspectos culturais também se encontram associados à violência por parceiro íntimo na adolescência, especialmente quando relacionados a alguns conceitos e crenças sobre o amor e mitos sobre o amor romântico, como o mito da onipotência, que consiste na ideia que o amor pode conquistar tudo, o mito do ciúme que apoia a crença que o ciúme é um sinal de amor, o mito da metade superior que nos faz considerar que somos incompletos e que existe alguém em algum lugar que está predestinado a achar seu parceiro e o mito da paixão eterna, no qual os relacionamentos devem durar para sempre (Sánchez et al., 2018). O programa Dat-e Adolescence foi efetivo nestas desmistificações, contribuindo para que os adolescentes vivenciassem as relações íntimas com base em entendimentos mais racionais e com menos idealizações, de acordo com as características de si mesmo e do parceiro.
Além disso, o programa Dat-e Adolescence teve resultados positivos para a regulação da raiva e a diminuição da autodepreciação. Dessa maneira, mostra-se de grande valia o trabalho da regulação da raiva e o aumento da autoestima, pois a falta de controle da raiva pode funcionar como gatilho para a violência por parceiro íntimo, assim como a autodepreciação, que acarreta a desvalorização de si (Sánchez et al., 2018).
O programa Keep it Real, descrito por Peskin et al. (2014), ressaltou a importância da educação em saúde e foi projetado para promover relacionamentos saudáveis com o intuito de diminuir os índices de violência no namoro. Também, no trabalho de Kilburn et al. (2018), foi ressaltada a importância da educação em saúde, principalmente no combate à transmissão do HIV e a violência por parceiro íntimo, portanto, a educação é um fator essencial que auxilia a educar os jovens sobre abusos psicológicos e verbais, ou seja, capacitando os mesmos a promover relacionamentos saudáveis. (Matheus et al., 2016).
Vale salientar que metade das intervenções analisadas foram realizadas nos Estados Unidos, contrariando dados da Organização Mundial da Saúde que estimou a existência de 78% de planos de ação sobre violência por parceiro íntimo ocorrendo na região Europeia (OMS, 2015). Talvez esse resultado possa ser explicado pelo fato de os Estados Unidos realizarem maiores investimentos em pesquisas, especialmente em estudos com delineamentos mais sofisticados, como os ensaios clínicos randomizados. Alguns dos estudos analisados nesta revisão, que foram realizados nos Estados Unidos indicaram que aproximadamente 18% dos adolescentes relataram que sofreram ou que sofrem violência física, emocional ou sexual nos relacionamentos íntimos e que ocasionaram em problemas de saúde física e mental (Sargent et al., 2017; Taylor et al., 2015).
O fato de não terem sido encontrados estudos nacionais sobre a violência por parceiro íntimo no ambiente escolar reflete a necessidade de mais investigações para avaliar as intervenções realizadas. A OMS (2015) define que, no Brasil, os programas de prevenção de violência entre namorados na escola são de extrema importância, especialmente as intervenções com foco em equidade de gênero, mudanças de normas sociais e culturais.
Outro país que se destacou com duas intervenções analisadas foi a África do Sul, país em que a OMS (2015) destaca que as relações íntimas são marcadas por um alto índice de violência e a manifestação de violência sexual por parceiro íntimo aumenta o risco de contágio de infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV entre mulheres (Mathews et al., 2016; Kilburn et al., 2018). A partir dos dados de violência por parceiro íntimo, as intervenções devem adequar-se à realidade da população, com enfoque na economia, na raça, etnia, gênero, normas culturais e sociais (Sánchez et al., 2018; Kilburn, et al., 2018; Gonzales et al., 2015; Peskin et al.,2014). E que devem ser vistas e trabalhadas como um problema de saúde pública (Mathews et al., 2016).
Assim sendo, Kilburn et al. (2018) destaca, em seu estudo realizado na África do Sul, que uma boa condição econômica pode afetar os índices de violência no namoro, pois, no estudo descrito por eles, a transferência de renda trouxe sentimentos de independência e empoderamento financeiro para as mulheres jovens, ademais, este estudo também possuiu impactos significativos nas parcerias sexuais e na iniciação sexual. Isso porque a pobreza pode aumentar os riscos, devido ao desequilíbrio de poder de gênero. Desta maneira, é necessário mudanças de normas sociais, aumentando assim as atitudes de igualdade de gênero e a redução da aceitação da violência contra mulheres.
Considerações Finais
Este estudo identificou, a partir das intervenções analisadas, novos significados sobre relações íntimas, sobre a violência e o que ela afeta. Nesse sentido, é necessário realizar intervenções com o objetivo de prevenir e reduzir a violência entre estudantes adolescentes, pois foi percebido que a redução da agressão e vitimização, além de ações positivas entre aqueles que testemunham a violência nas relações. Ademais, é positivo atentar-se a redução dos riscos da violência por parceiro íntimo através do adiamento da iniciação sexual, a diminuição da quantidade de parceiros sexuais e progressos significativos sobre os mitos sobre o amor romântico.
Este estudo exerce uma forma de conscientização sobre a violência por parceiro íntimo no âmbito escolar, dessa forma, sugerindo mais estudos para aprofundar nessa questão. Muitos dos estudos encontraram a limitação de adequar o programa de acordo com a realidade dos participantes, em razão da pouca quantidade de tempo para as intervenções e a falta de participação da escola e da família. Desta forma, é necessária uma pesquisa sobre a realidade dos participantes, sabendo as necessidades e os pré-conceitos ali instalados e a apresentação do projeto para aqueles que fazem parte da vida dos adolescentes, como os pais e funcionários da escola, pois essa integração estimula uma melhor participação dos estudantes, e, quanto mais tempo o projeto tiver, mais serão as oportunidades de acompanhar os efeitos das intervenções. Outra limitação encontrada foi a seleção dos participantes e, dessa maneira, uma sugestão seria a separação entre sexos ou pequenos grupos, pois assim os participantes podem se sentir mais confortáveis para participar e compartilhar vivências. Sendo assim, espera-se que esse estudo possa incentivar novas pesquisas com o intuito de se ter um maior conhecimento sobre intervenções que podem ser realizadas para prevenir e reduzir a violência entre parceiros íntimos.















