Os processos e técnicas grupais têm sido estudados com o aporte de diversas referências teóricas, dentre elas, a psicanálise (Santeiro et al., 2021a). No Brasil, o trabalho com grupos tem sido desenvolvido por profissionais de diferentes áreas e contextos de atuação, que frequentemente conduzem os grupos de modo empírico, nem sempre com amparo de uma sólida base teórica acerca dos fenômenos da grupalidade. Quando o profissional procura dar sustentação teórica às suas intervenções com grupos, os textos encontrados em português ainda são restritos, o que dificulta a integração da teoria à prática.
Há, portanto, a necessidade de ampliar e qualificar os estudos, mediante a análise da produção dedicada à compreensão dos fenômenos e técnicas grupais, uma vez que a literatura produzida no contexto brasileiro sobre o assunto ainda é escassa. A despeito dessa limitação, as práticas grupais são disseminadas no Brasil. Para a sua efetividade, deve estar apoiada em um suporte teórico que permita o alcance de bons resultados do trabalho em grupo, considerando seu reconhecido potencial para a promoção e o cuidado em saúde e educação (Bechelli & Santos, 2002; Santeiro et al., 2021a). Alguns exemplos de investigações produzidas com a aplicação de estratégias metodológicas alinhadas a tais preocupações serão apresentados de forma sintética na sequência, a fim de aproximar o leitor do delineamento do presente estudo.
Moscheta e Santos (2012) realizaram uma revisão integrativa da literatura com o objetivo de analisar a contribuição dos estudos nacionais e internacionais acerca do uso de grupos de apoio psicológico como estratégia de cuidado de pacientes com câncer de próstata. As bases de dados LILACS, MEDLINE e PsycINFO fundamentaram a busca de informações, abarcando um período de 20 anos. Evidências acerca dos fatores que favorecem a participação de homens nos grupos de apoio, os potenciais benefícios auferidos por diferentes modelos de intervenção em grupo e a influência da identidade de gênero no processo de enfrentamento da doença foram aspectos constatados.
Alves-Silva e Scorsolini-Comin (2019) buscaram compreender de que modo os padrões conjugais e familiares relacionados ao adoecimento entre as gerações são transmitidos. Para isso, fizeram buscas sistemáticas nas bases de dados MEDLINE, LILACS, SciELO, PsycINFO e PePSIC, recuperando artigos publicados entre 2007 e 2017. A partir da aplicação de critérios de exclusão, 35 estudos foram recuperados, permitindo analisar as publicações sobre o tema. A literatura analisada destacou temas transmitidos de forma transgeracional, como violência, incesto, tabagismo, dependência química, transtornos alimentares, obesidade, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático.
O estudo das características das publicações sobre grupos no contexto brasileiro, com o objetivo de mapear e sistematizar os conhecimentos relacionados ao tema, pode contribuir para aumentar a visibilidade das discussões, práticas e pesquisas desenvolvidas na área. A partir dessa contextualização, formulou-se a seguinte questão de pesquisa: como se configura a produção científica nacional voltada para práticas e investigações sobre processos grupais, publicada em um periódico de destaque na área?
A relevância dessa investigação reside, essencialmente, na possibilidade de identificar e analisar estudos dedicados a intervenções e pesquisas sobre processos grupais publicados nas últimas décadas. Tal análise permite compreender os temas abordados, os métodos utilizados e as perspectivas teóricas privilegiadas pelos pesquisadores, além de mapear lacunas no conhecimento, subsidiando a proposição de diretrizes para futuras agendas de pesquisa.
Com base em preocupações como essas, identificou-se um periódico brasileiro de destaque dedicado à promoção da produção científica na temática de interesse. Nesse contexto, a Vínculo: Revista do NESME (doravante, Vínculo) foi selecionada devido às suas contribuições para a consolidação do movimento grupalista no Brasil ao longo das últimas décadas e devido ao seu reconhecimento na comunidade psi e pelos pesquisadores dos campos da saúde e educação. Publicada desde 2004, a Vínculo está disponível em acesso aberto por meio do Portal de Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC, 2024).
Considerando esses aspectos, esta pesquisa objetiva analisar relatos de experiência e resultados de pesquisas sobre práticas grupais publicados na Vínculo entre 2004, ano da publicação do primeiro volume, até 2020.
Método
Tratou-se de uma pesquisa de revisão de literatura, do tipo estudo de caso documental. Nessa modalidade de investigação, um certo conjunto de documentos é escolhido para escrutínio, dada a sua representatividade. No caso em apreço, a representatividade científica e sociocultural do periódico Vínculo foi visada levando em consideração os interesses e as experiências dos autores no campo investigado (escolha por conveniência).
A base empírica da pesquisa contemplou artigos publicados no periódico Vínculo, acessados por meio da plataforma PePSIC. Nesse sentido, essa Revista é editada pelo Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares (NESME), instituição sediada na cidade de São Paulo, e objetiva disseminar estudos enfocados nas temáticas de saúde mental, grupos, famílias, casais e instituições, inspirados na Psicanálise Vincular (Santeiro et al., 2021a; Vieira et al., 2021). Cabe assinalar que a Vínculo, embora editada no Brasil, conta com publicações oriundas de outras realidades latino-americanas e europeias em seu acervo.
A PePSIC, por seu turno, é considerada uma fonte de dados que integra a Biblioteca Virtual em Saúde, cuja missão é incrementar a visibilidade da produção científica da psicologia nos países da América Latina, por meio de publicações de revistas em acesso aberto, disponibilizadas de modo público e gratuito na internet. Lançado oficialmente em 2005, atualmente ele publica títulos de 11 países (PePSIC, 2024).
Os seguintes critérios de inclusão dos artigos foram estabelecidos: relatos de pesquisa e de experiência profissional focados em processos grupais, divulgados no período de 2004, ano de publicação do primeiro volume, a 2020, redigidos em português, espanhol ou inglês. Os seguintes documentos foram excluídos do estudo: editoriais, resenhas de livro e entrevistas, publicações indisponíveis na base de dados PePSIC e/ou que tenham sido lançadas a partir de 2021.
Os dados coletados foram organizados em planilhas do programa Google Planilhas, versão 2020, que abarcaram as seguintes informações: quantidade e evolução das produções ao longo do tempo; tipos de produção (relatos de experiência e relatos de pesquisa); participantes das práticas e pesquisas (número de componentes dos grupos, distribuição por gênero, etapa do ciclo vital e demais características pertinentes); condutor(es) do processo grupal (coordenação isolada ou em equipe; formação acadêmica dos coordenadores); local de desenvolvimento das práticas/pesquisas (instituições hospitalares, educacionais, jurídicas, serviços-escola etc.); tipo de grupo proposto (aberto ou fechado, homogêneo ou heterogêneo, terapêutico, de apoio ou de outra natureza); tempo de duração e frequência das práticas grupais; e autores/pesquisadores mais citados. Nas análises quantitativas, as frequências brutas e relativas das variáveis computadas foram estimadas; com base nestas, o cenário geral das produções encontradas foi ponderado a partir de aspectos históricos do periódico alvo e do movimento grupalista brasileiro, além de incorporar algumas considerações sobre a pandemia de COVID-19 e suas implicações no campo dos estudos e práticas dos atendimentos grupais on-line.
Na busca inicial, 77 artigos foram identificados. Após análise e aplicação dos critérios de inclusão/exclusão, 28 estudos foram selecionados para compor esta revisão. A Figura 1 detalha o fluxograma do percurso de busca, seleção e composição dos artigos que compuseram o corpus de análise.
Resultados e Discussão
Vieira et al. (2021) assinalam que a Vínculo completou 17 anos de publicação ininterrupta em 2020. Iniciando com publicações anuais, ela logo evoluiria para edições semestrais, periodicidade mantida até o ano de 2023, com 2021 caracterizando uma exceção, quando ela contou com uma edição especial; a partir de 2024, é editada em fluxo contínuo. Considerando esses indicadores resultantes dos processos de transformação editorial, optou-se por analisar os documentos das duas primeiras décadas. Nesse sentido, entre os anos de 2004 e 2020, 226 artigos foram publicados, dentre os quais 77 (34,0%) enfocavam a temática grupal.
Houve tênues variações no quantitativo de artigos sobre grupos ao longo do tempo, com a publicação de um a quatro por ano, sendo que em 2018 e 2020 constatou-se o maior número de publicações (ambos com n = 4; 14,0% cada). Observou-se, assim, um crescimento discreto nas publicações sobre grupos ao longo do período analisado (Tabela 1).
Tabela 1. Distribuição anual dos artigos publicados na Vínculo dentro da temática de grupo (N = 28)
| Ano | No | % |
| 2004 | 1 | 3,6 |
| 2005 | 1 | 3,6 |
| 2006 | 1 | 3,6 |
| 2008 | 3 | 10,7 |
| 2009 | 1 | 3,6 |
| 2010 | 1 | 3,6 |
| 2011 | 3 | 10,7 |
| 2012 | 1 | 3,6 |
| 2015 | 1 | 3,6 |
| 2016 | 1 | 3,6 |
| 2017 | 3 | 10,7 |
| 2018 | 4 | 14,3 |
| 2019 | 3 | 10,7 |
| 2020 | 4 | 14,3 |
| Total | 28 | 100 |
Esse ligeiro crescimento, considerando o fluxo de publicações da própria Revista, que se propõe a tratar da temática grupal e é reconhecida como uma referência nos estudos de grupos no país, denota que parte expressiva dos profissionais brasileiros que trabalham com grupos talvez ainda não tenham se apropriado da ideia de que suas produções podem ser veiculadas em periódicos de caráter acadêmico. Isso dialoga com aspectos dos cenários científico e laboral brasileiros, que têm a característica de “praticar” mais do que produzir conhecimento empiricamente embasado, o que está relacionado a diversas razões, como a pouca valorização das publicações nacionais entre o público leigo e mesmo entre o especializado. Esse aspecto acaba por consolidar noções de que o fazer profissional permanece desvinculado da produção de conhecimento, o que por sua vez incide negativamente sobre a prática profissional, que deixa de aproveitar o potencial de contribuição para a formação ou o aperfeiçoamento de estudantes e profissionais da área.
Por essa via de raciocínio, Penna e Castanho (2015) argumentam que é uma característica dos profissionais grupalistas da América Latina trabalharem com grupos, carecendo, todavia, de formação específica. Os autores observam que a produção de conhecimento teórico sobre grupos no contexto latino-americano está fortemente baseada na universidade, sendo que o profissional que atua com práticas grupais muitas vezes não embasa teoricamente as intervenções. Apesar disso, na avaliação desses autores, existem possibilidades promissoras de desenvolvimento de fundamentações empíricas na área, impulsionadas pelo esforço de profissionais que investem em grupos de estudos e cursos promovidos por instituições especializadas em práticas grupais. Essas instituições têm como missão institucional o fortalecimento da qualificação de profissionais que atuam com grupos. Um exemplo bem-sucedido é o Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares (NESME), uma instituição brasileira que oferece formação em psicoterapia e coordenação de grupos.
Em consonância com esse pensamento, ao traçar a origem e o desenvolvimento da psicoterapia grupal no Brasil, observou-se a influência do NESME no desenvolvimento de estudos sobre grupalidade. Fundado em 1989, a instituição formou e tem formado um contingente expressivo de profissionais na área. Atualmente, o NESME promove congressos e reuniões científicas, oferece atendimentos em clínicas de grupos, organiza a publicação de livros, além de editar a revista Vínculo (Santeiro et al., 2021a; Vieira et al., 2021).
Nesse sentido, algumas informações relevantes acerca do alcance da Vínculo são encontradas nas métricas disponibilizadas pelo PePSIC. Constatou-se, por exemplo, que a Vínculo é acessada no mundo todo, nos cinco continentes. Entre os artigos que obtiveram maior número de acessos no seu histórico, dois se destacaram: Uma introdução aos Grupos Operativos: teoria e técnica e As práticas grupais e a atuação do psicólogo: intervenções em grupo no estágio de processos grupais. O primeiro, da autoria de Pablo Castanho, apresenta um ensaio introdutório sobre a temática dos Grupos Operativos. Nesse artigo são expostos conceitos, noções e pressupostos teóricos que fundamentam esses grupos e a técnica dos Grupos Operativos de Aprendizagem (Castanho, 2012).
O segundo artigo mencionado apresenta os resultados de uma pesquisa que delineou as modalidades grupais de intervenção psicológica no estágio de processos grupais desenvolvidos em uma universidade estadual do interior paulista, salientando a importância dessa prática para a formação acadêmica em psicologia (Costa et al., 2018). Os autores combinaram o levantamento bibliográfico e uma pesquisa documental, realizada sobre os relatórios e prontuários produzidos no estágio. Entre os achados, destacou-se o uso de modalidades grupais predominantemente institucionais e os benefícios da intervenção grupal institucional para os usuários do serviço e para a capacitação dos estagiários.
A partir dessa breve exposição, algumas características marcantes na produção científica difundida pela Vínculo puderam ser destacadas. Primeiramente, observou-se a presença de artigos que configuram ensaios teóricos, como foi exemplificado por meio da publicação de Castanho (2012), e os que veiculam relatos de pesquisas ou de experiência profissional, como o de Costa et al. (2018). Em ambos os textos notou-se um caráter introdutório à temática grupal, inicialmente com o propósito didático de fornecer embasamento teórico para a implementação de práticas grupais e, posteriormente, com a apresentação e análise de práticas grupais realizadas a partir de certo enquadramento teórico-metodológico.
Nessa significação, o caráter pedagógico e de atualização de conhecimentos sobre a temática grupal destacou-se nas análises, evidenciando a vocação da Revista como um veículo para a propagação e democratização do saber produzido sobre grupos, direcionado aos profissionais que atuam na área. Conforme apontou Castanho (2012), o trabalho grupal realizado no Brasil é frequentemente conduzido de forma empírica, sem um suporte teórico consolidado. Nesse contexto, a Vínculo surgiu como uma oportunidade de transformar essa realidade, ao publicar conteúdos sobre teorias e intervenções grupais elaborados por pesquisadores e profissionais qualificados da área.
Em relação às categorias dos artigos, houve uma distribuição equilibrada entre relatos de pesquisa (n = 15; 53,8%) e relatos de experiência (n = 13; 46,4%). Relatos de experiência são produções que costumam se ocupar de narrativas sobre experiências profissionais (Daltro & Faria, 2019). Nos documentos analisados, esses relatos foram construídos com base em vivências grupais transcorridas em diversos cenários institucionais. Os relatos de pesquisa, por sua vez, caracterizam-se como trabalhos estruturados de acordo com os princípios formais do método científico, desenvolvidos para a análise, sistematização e discussão de resultados obtidos em projetos originais. No contexto deste estudo, foram considerados de interesse os conteúdos que abordam o uso de dispositivos grupais em diferentes contextos, fundamentados em referenciais teóricos e metodológicos.
Os relatos de experiência considerados neste estudo abordaram temas diversos da prática grupal, tais como: sofrimento psíquico em uma instituição pública (Hur et al., 2008), atendimento psicoterápico com grupos de obesos (Tura, 2005), ensino da técnica grupal na graduação em Psicologia (Maireno et al., 2016), entre outros. Nos relatos de pesquisa analisados, também se observou a utilização de grupos em uma diversidade de temas e com diferentes preocupações e objetivos, tais como: apoio psicológico e aconselhamento de mães e bebês prematuros (Peres & Santos, 2018), utilização do dispositivo grupal para pessoas com doença de Alzheimer (Caetano et al., 2017), identificação de fatores terapêuticos em grupos abertos (Aquino & Sei, 2020), orientação profissional de adolescentes na modalidade grupal (Scorsolini-Comin et al., 2011), entre outros. Dessa forma, ao analisar os relatos de experiência e de pesquisa, variedade de temas e discussões abordados no escopo da Revista foram identificados.
Em relação à quantidade de participantes dos grupos investigados, nos relatos de pesquisa e nos de experiência o número variou de três a 13 pessoas por grupo. Na maioria dos trabalhos, os grupos eram formados por pessoas de ambos os sexos, conjuntamente (n = 11; 39,3%), seguidos por trabalhos grupais focados em mulheres (n = 5; 17,8%), e apenas um grupo era formado exclusivamente por homens (n = 1; 3,6%). Grande parte das produções não informou a quantidade de participantes (n = 11; 39,3%).
A idade dos integrantes variou entre quatro e 88 anos, o que sugeriu uma larga amplitude de possibilidades de aplicação do dispositivo grupal. Em nenhum dos artigos a raça/etnia das pessoas foi informada, o que denotou uma importante lacuna que impede a análise do alcance da estratégia grupal em relação à diversidade étnico-racial que compõe a população brasileira.
Em termos numéricos, constatou-se maior participação feminina nas dinâmicas grupais, o que se coaduna com a realidade sociocultural brasileira de maior procura e envolvimento em serviços e cuidados à saúde por pessoas do sexo feminino, como constatado por Ribeiro et al. (2006), que indicaram o predomínio de mulheres usuárias dos serviços de saúde, tanto públicos quanto privados.
Os dados mostraram, ainda, haver preponderância de grupos mistos, quando se observa a composição por sexo/gênero. Cunha et al. (2016) indicaram maior benefício obtido em intervenções grupais quando há identificação de uma demanda especial para a condição de determinado gênero. Nesse sentido, os autores argumentam que os atravessamentos de gênero, condição psíquica, demanda apresentada e idade favorecem os processos identificatórios entre os participantes. Isso contribui para amenizar o sentimento de solidão e o isolamento social, promovendo, conforme Bechelli e Santos (2005b), um senso de pertencimento e a redução de estigmas associados à condição de paciente que busca atendimento psicológico.
Observou-se grande variação em relação à idade dos participantes, incluindo pessoas em diferentes momentos desenvolvimentais, além de uma notável variação em relação ao número de componentes dos grupos. Esse tipo de constatação sugeriu haver a necessidade de oferecer uma prática bastante flexível, capaz de contemplar a heterogeneidade da população brasileira, o que foi debatido por Cunha et al. (2016).
Quanto ao recorte de análise por raça/etnia dos participantes, nenhum dos artigos apresentou tal informação. Embora a população brasileira seja marcada por diversidade étnico-racial - o que não justifica a não explicitação desse dado -, esse achado salientou a importância da descrição dessa variável para delimitar o perfil da população atendida. Afinal, as características sociodemográficas fornecem indicadores sobre o quanto a democratização do acesso às psicoterapias e práticas grupais por diferentes segmentos sociais tem avançado. Esse dado negligenciado deve ser considerado nos novos estudos sobre as pesquisas e práticas profissionais, dentre outras razões, para que a invisibilização das diferenças étnico-raciais não seja reproduzida no campo estudado.
No que concerne à coordenação dos grupos, predominou a condução isolada (n = 11; 39,0%), seguida da condução em equipe (n = 7; 25,0%). Parte dos estudos não informou esse dado (n = 10; 36,0%). Esse dado pode estar relacionado a uma possível dificuldade de compartilhamento da coordenação pelos profissionais que atuam com grupos. Em instituições e consultórios, muitas vezes não é possível contar com o suporte de coterapeutas ou observadores, o que pode restringir a apreensão de processos e fenômenos grupais e dificultar as oportunidades de realizar trocas entre profissionais, reduzindo o alcance das práticas.
Sobre o gênero do coordenador, os grupos foram coordenados por mulheres (n = 9; 32,0%), homens (n = 3; 11,0%) e por gênero não informado (n = 16; 57,0%). As idades dos coordenadores não foram informadas na maioria dos estudos (n = 27; 96,4%), exceto em uma produção na qual as coordenadoras tinham 21 anos.
Acerca da formação acadêmica, os coordenadores dos grupos eram psicólogos (n = 18; 64,0%), estudantes de psicologia (n = 4; 14,0%), psicólogo e terapeuta ocupacional, conjuntamente (n = 2; 7,0%), e equipe multiprofissional (n = 1; 4,0%). Três (11,0%) produções não informaram essa variável. No que concerne aos cenários nos quais as práticas e pesquisas foram desenvolvidas, as instituições de saúde foram as mais mencionadas (n = 12; 43,0%), seguidas de instituições educacionais (n = 10; 36,0%). Em seis (21,0%) estudos o contexto não foi informado.
Constatou-se, assim, maior utilização de dispositivos grupais em ambientes de saúde e educacionais. Todavia, convém acrescentar que as práticas grupais podem ser realizadas em ambientes distintos, desde que seus fundamentos teóricos e técnicos sejam resguardados para os objetivos serem alcançados, tendo em vista os distintos formatos e finalidades das intervenções: psicoterapêuticas, grupos operativos, de aprendizagem, entre outros. Ademais, observou-se a concentração de grupos realizados visando à promoção de saúde e prevenção de doenças, o que pode apontar para a utilização do dispositivo grupal com finalidade profilática, aplicado ao desenvolvimento de ações que não tenham apenas um caráter curativo, o que é fortemente recomendado pela literatura (Bechelli & Santos, 2005a).
No que respeita aos tipos de grupos propostos, constatou-se grupos fechados (n = 13; 46,0%), grupos abertos (n = 10; 36,0%), e tipo não informado (n = 5; 18,0%). Grupos homogêneos (n = 12; 43,0%) e heterogêneos (n = 10; 36,0%) foram estudados; em 6 artigos (21,0%), tal informação não foi declarada.
Os estudos se dividiram em grupos operativos (n = 12; 43,0%), grupos terapêuticos (n = 8; 29,0%) e grupos de diagnóstico (n = 2; 7,0%). Em seis (21,0%) produções esse dado não foi informado.
O tempo de duração das práticas grupais relatadas foi variável, predominando sessões de 60 e 90 minutos (ambas contempladas em quatro artigos; 14,0% cada), seguido de sessões entre 100 e 120 minutos (ambas contempladas em dois documentos; 7,0% cada), 50 a 80 minutos (presentes em um estudo; 4,0%) e tempo não informado (n = 15; 54,0%). A frequência semanal das sessões foi variável: uma vez por semana (n = 8; 28,0%), quinzenal (n = 4; 14,0%), duas vezes por semana (n = 1; 4,0%), três vezes por semana (n = 1; 4,0%), encontro único (n = 1; 4,0%), e dado não informado (n = 13; 46,0%).
Muitos dados relevantes não foram disponibilizados nos artigos analisados, o que indicou a necessidade de haver maiores investimentos na precisão da elaboração dos textos, aspecto qualitativamente indispensável no discurso acadêmico. Para leitores interessados em processos grupais e profissionais que atuam com grupos, os esclarecimentos de tais dados são de grande importância. Em contrapartida, a escassez ou a ausência de informações nos documentos analisados pode dificultar os planejamentos de processos grupais e de políticas públicas, com implicações diretas nas práticas profissionais e, consequentemente, nas possibilidades de promoção da saúde mental dos pacientes/usuários dos serviços. Além disso, a ausência de certas informações dificulta uma compreensão mais aprofundada dos enquadres grupais e, neste estudo, limitou as análises das experiências e pesquisas encontradas.
Constatou-se a presença de diferentes tipos e características de práticas grupais, o que levanta a questão sobre a real apropriação teórica dos fenômenos do campo grupal e a compreensão das singularidades de cada grupo por parte dos autores dos artigos analisados. Os resultados também instigam questionamentos sobre se tal variação pode ser atribuída à escassez e dispersão de teorias grupais capazes de abranger as multifacetadas realidades brasileiras, bem como às diferentes formações e abordagens dos profissionais que conduzem os processos grupais nas produções publicadas pelo Periódico.
Na presente investigação, artigos retratando a prática grupal on-line não foram encontrados. Todavia, cabe assinalar que, desde a última década do século XX e primeira década do século XXI, há indicadores de que os atendimentos psicológicos on-line eram alvos de pesquisas, incluindo os processos de grupo (Santeiro et al., 2021b).
Estudos sobre grupos on-line cresceram de modo exponencial a partir do momento pandêmico. Como a coleta de dados abarcou artigos publicados até 2020, ela cobriu apenas os meses iniciais da pandemia da COVID-19, quando se deu a implementação das medidas restritivas do contato social. Esse tipo de escolha metodológica permite contextualizar a ausência de estudos com esse perfil, haja vista a pandemia ter colocado os atendimentos grupais on-line nas pautas de pesquisadores e práticos, ainda que, anteriormente a ela, pudessem ser menos visados, - ou até mesmo evitados.
Assim, novos estudos surgiram e passaram a englobar os questionamentos sobre as possibilidades e limitações da modalidade de atendimento grupal on-line. As produções científicas decorrentes, após os respectivos trâmites editoriais terem sido cumpridos, foram e têm sido escoadas em diversos veículos nos anos seguintes, e não somente naqueles com perfil editorial focado em processos de grupo (Santeiro et al., 2021b; Silva et al., 2022; Sola et al., 2021).
Consideradas as peculiaridades das intervenções grupais on-line não terem sido observadas na amostra analisada, bem como algumas das implicações impulsionadas pela pandemia no campo da produção de conhecimentos científicos, a partir de agora a análise das demais variáveis é retomada. Nessa acepção, ao se examinarem as referências das 28 produções analisadas, 434 autores foram contabilizados, mencionados 641 vezes. Os cinco autores mais citados foram: Freud (n = 24), Zimerman (n = 16), Kaës (n = 15), Santos (n = 13) e Pichon-Rivière (n = 11).
Examinando esses nomes mais citados, notou-se diferentes gerações de autores de processos grupais, o que sugeriu a renovação e vitalidade do campo estudado. Freud é pensador fundamental no campo teórico-técnico psicanalítico e, por essa razão, a maior frequência de citações à sua obra era esperada em uma revista com o perfil editorial da Vínculo. Ainda que Freud não tenha se ocupado do trabalho clínico com pequenos grupos, influenciou as gerações futuras de grupoterapeutas por meio de textos teóricos como Totem e tabu (Freud, 1913/2012) e Psicologia das massas e análise do Eu (Freud, 1921/2011).
Nesse sentido, os demais autores representam, de fato, pesquisadores dos processos grupais, em conformidade com a linha editorial da Revista analisada (pequenos grupos). David E. Zimerman desenvolveu seus trabalhos enquanto psicanalista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. É considerado um dos mais prolíficos pensadores do campo grupal, com diversas obras de referência básica na psicanálise e na psicoterapia psicanalítica, dentre as quais se destacam diversas produções dedicadas ao trabalho com grupos. Falecido em 2014, seus livros têm sido continuamente reimpressos ao longo do período coberto por esta investigação e suas contribuições permanecem atuais para o desenvolvimento de trabalhos grupais e/ou clínicos de inspiração psicanalítica (Santeiro et al., 2021a). A propósito, é bom lembrar que o autor foi membro do Conselho Editorial e teve um artigo publicado pela Vínculo (Zimerman, 2007), além de ter mantido colaboração e contatos profissionais com os gestores e membros do NESME, ao longo dos anos, o que incluiu visitas à sua sede e participações como convidado de honra em eventos promovidos. No livro organizado por Fernandes et al. (2003), três membros fundadores do NESME, ele assinou um capítulo (Zimerman, 2003).
Dando continuidade à apresentação dos autores mais frequentemente referenciados nos artigos analisados, René Kaës é um renomado psicanalista francês que tem contribuído com produções de grande originalidade sobre a clínica de grupos, desde os anos 1960. Por essa razão, tem sido considerado uma das maiores influências no modo de se compreender e trabalhar com grupos, também na América Latina (Castanho, 2012).
Manoel Antônio dos Santos é professor titular da Universidade de São Paulo. Desde os anos 1990, tem se dedicado a desenvolver e orientar pesquisas no campo da assistência em saúde, com contribuições sobre os fenômenos grupais. É membro do Conselho Editorial da Vínculo. Curiosamente, David E. Zimerman foi um dos psicanalistas entrevistados por Santos na pesquisa que resultou em sua tese de livre-docência, defendida na Universidade de São Paulo na década passada, o que está relatado no artigo A infância (re)contada pelo fio da memória de psicoterapeutas septuagenários (Santos, 2014).
Enrique Pichon-Rivière foi um psiquiatra e psicanalista argentino que se debruçou sobre o estudo de temáticas grupais; destacou-se como um dos pioneiros nessa área, a partir da noção de grupos como totalidade e centrados em tarefas. Seus trabalhos têm raízes nos anos 1930 (Fabris, 2007) e sua influência nas práticas e pesquisas contemporâneas ultrapassa a data de sua morte, ocorrida em 1977, por meio da publicação de obras póstumas, como O processo grupal (Pichon-Rivière, 1983/2012). Dentre os autores brasileiros que deram continuidade ao legado pichoniano, exemplifica-se: Ávila (2016), Castanho (2012), Hur et al. (2008) e Santeiro et al. (2021a).
Considerações Finais
Este estudo permitiu mapear e analisar a produção científica sobre pesquisas e práticas grupais, publicadas no periódico Vínculo nas suas duas primeiras décadas. Nessa direção, algumas tendências presentes nos documentos analisados puderam ser delimitadas, como: publicações de relatos de pesquisa e relatos de experiência, em proporções semelhantes; constância (baixa variação numérica) de artigos publicados entre 2004 e 2020, mas com tendência de crescimento nos últimos anos; o caráter didático, instrutivo e atualizador de conhecimentos sobre a temática grupal cultivado pela Vínculo; os diferentes tipos e finalidades dos grupos propostos; a referenciação de autores clássicos em psicanálise de grupos e teoria grupal utilizados na fundamentação teórica dos estudos.
Em relação às lacunas identificadas nas produções analisadas, constatou-se, sobretudo, a escassez de informações essenciais para a sistematização do conhecimento sobre como as práticas grupais são realizadas e sobre quais as características dos grupos implementados, quem são os condutores das atividades grupais, e quais as características da população alvo que efetivamente tem tido acesso aos serviços. É importante salientar a necessidade de fomentar pesquisas sobre a prática grupal no contexto nacional, considerando a heterogeneidade de práticas e as iniquidades que marcam o acesso à saúde mental em um país atravessado por imensas desigualdades regionais na distribuição de recursos e alocação de profissionais de saúde mental. Desse modo, será possível promover intervenções contextualizadas e condizentes com as reais necessidades da população, com suas características que se mostram, ao mesmo tempo, tão singulares e tão plurais.
A título de desfecho, recomenda-se que: (a) as instituições de saúde/educação e as de pesquisa incentivem a publicação de relatos de experiência e pesquisas científicas por profissionais que praticam grupos, como medida promotora de maior articulação entre prática e teoria; (b) as instituições editoras de produções científicas estimulem a inclusão de dados sociodemográficos completos nos artigos publicados, como forma de enriquecer as análises e possibilitar reflexões mais contextualizadas sobre a diversidade dos profissionais e dos participantes de práticas de grupo; e (c) haja investimentos em estudos e que explorem as práticas grupais nos ambientes digitais.











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