Introdução
O abuso sexual infantil se manifesta de diversas formas e gera impacto nas relações sociais, de classe, gênero e de raça/cor e suas interseccionalidades. A violência sexual contra a criança e adolescente acontece em escala mundial, o que reflete nas concepções que a sociedade constrói acerca da sexualidade humana, na posição da criança e do adolescente nessas mesmas sociedades, e, finalmente, no funcionamento familiar ao longo do tempo e do contexto (Rodrigues, 2017).
A violência ocorre através de práticas eróticas e sexuais impostas à criança ou ao adolescente pela violência física, ameaça ou indução de sua vontade, sendo imposto ou não, e que, nem sempre se produz o contato sexual (tais como, o voyeurismo, exibicionismo, produção de fotos), até diferentes tipos de ações que incluem contato sexual sem ou com penetração (Santos & Dell’Aglio, 2010; De Antoni & Koller, 2002).
Foi na década de 1960, que o termo “abuso” infantil surge nos Estados Unidos, por meio de uma rede de médicos pediatras que começaram a observar com certo estranhamento, fraturas e lesões em crianças pequenas e com auxílio de raio-x passaram a verificar os sinais de maus-tratos. Assim, as relações sexuais entre adultos e crianças passaram a ser compreendidas, não como um problema de consanguinidade ou de parentesco, mas uma violação de “direitos humanos” (Rodrigues, 2017). Conforme Laner e Falcke (2013), o abuso sexual não é uma violência restrita a determinados âmbitos sociais; mas, que se encontra presente em diferentes camadas e contextos socioculturais, o que traz consequências nocivas nas dimensões físicas, psicológicas e/ou sociais do desenvolvimento humano.
Diante dos indicadores de denúncia brasileira de violação aos direitos da criança e do adolescente, considera-se a subnotificação de casos, cujo panorama necessita de cautela ao verificar os dados da realidade; ou seja, os números tendem a ser maiores que aqueles registrados em documentos oficiais. Nesse sentido, Rodrigues (2017) salienta que um dos motivos para a subnotificação dos dados, refere-se à dificuldade de discussão sobre o tema da sexualidade quanto pela idealização da família como “lugar seguro”, ou mesmo pela insuficiência dada a fala da criança ou do adolescente, interpretada muitas vezes como mentira ou fantasia.
Segundo o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde Pública (Ministério da Saúde, 2023) no período de 2015 a 2021, foram notificados 202.948 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, sendo 83.571 (41,2%) em crianças e 119.377 (58,8%) em adolescentes. E, segundo os dados do Governo Brasileiro, nos quatro primeiros meses de 2023 já foram registradas, ao todo, 69,3 mil denúncias e 397 mil violações de direitos humanos de crianças e adolescentes, das quais 9,5 mil denúncias e 17,5 mil violações envolvem violências sexuais físicas - abuso, estupro e exploração sexual e psíquicas (BRASIL. Ministério da Saúde, 2022).
Em muitos casos o abuso sexual é intrafamiliar, e ocorre dentro do sistema familiar, quando existe um laço consanguíneo (direto ou não) ou relação de filiação. Em uma relação de parentesco, entre o sujeito adulto, considerado o abusador, e a criança ou adolescente, situado na posição de vítima; o abusador pode ser o pai, a mãe ou mesmo padrasto, quanto por membros da família extensa, como avós, tios, irmãos e primos (Rodrigues, 2017). Trata-se, portanto, de um padrão familiar disfuncional, cuja violência faz parte do meio proximal e pode provocar sentimentos de menos valia, raiva, baixa autoestima e agressividade exacerbada. Tais repercussões surgem não só no meio familiar, mas na escola e em qualquer outro contexto do qual a criança faça parte (Laner & Falcke, 2013; Pelisoli, Teodoro & Dell’Aglio, 2007).
Sob este panorama, é importante ressaltar que as consequências do abuso sexual para o desenvolvimento é um fator importante na etiologia de transtornos psicológicos e, também, na gravidade dos sintomas psicológicos, os quais podem prejudicar o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social dos indivíduos. Considera-se, ainda, que os fatores de vulnerabilidade pessoais e contextuais, presentes no desenvolvimento, estão associados ao desencadeamento de transtornos psicopatológicos, como transtorno de estresse pós-traumático, depressão e transtornos de ansiedade (Krindges, et al., 2016).
Além disso, compreende-se que a violação sexual na infância e adolescência, pode provocar impactos severos na qualidade dos relacionamentos afetivos e conjugais, na vida adulta. Conforme López et al. (2017), o abuso sexual infantil pode impactar na formação da identidade, comprometendo e prejudicando a qualidade e a satisfação das relações afetivas, dificuldades interpessoais e dificuldades em formar e manter vínculos.
Neste sentido, oportuniza-se refletir acerca da relação entre a violência sexual infantil e suas repercussões sobre a conjugalidade, na vida adulta. Para tanto, é importante definir alguns conceitos prévios que podem esclarecer e incitar novos questionamentos sobre o tema. Assim, Mosmann e Wagner (2006) ao investigarem o construto de qualidade do relacionamento conjugal, comentam que as relações amorosas inicialmente são manifestadas pelo encantamento e otimismo, o que pode não ser consistente ao longo do tempo. E para alguns casais, uma relação que se inicia como fonte de satisfação, pode terminar como fonte de frustração. Nesse sentido, o que pode estar ocorrendo neste percurso? Quais as características de uma relação conjugal bem-sucedida?
Diante do exposto, salienta-se a dificuldade na conceituação teórica sobre a qualidade conjugal, sendo um construto difícil de ser analisado, mas que pode ser definido como a avaliação subjetiva que os cônjuges fazem do próprio relacionamento (Becker & Crepaldi, 2023; Mosmann, Wagner & Féres-Carneiro, 2006). Ao mapear aspectos relacionados ao conceito da qualidade conjugal, são consideradas nas pesquisas, através do conceito multidimensional (de acordo com o processo dinâmico e interativo do casal), três grupos de fatores: recursos pessoais, contexto e processos adaptativos. Os recursos pessoais referem-se ao nível de escolaridade, experiências da família de origem, traços de personalidade, entre outros; enquanto o contexto, atribui as influências do meio sobre o casal, como, as dificuldades econômicas, doenças, rede social, cultura, etc. E os processos adaptativos, sobre a capacidade de enfrentamento das dificuldades encontradas pelo casal e seu ajustamento a elas (Becker, 2020).
Conforme o estudo intergeracional da qualidade do relacionamento conjugal e o padrão dos vínculos afetivos estabelecidos na infância, Becker e Crepaldi (2022), investigaram a Teoria do Apego na perspectiva da conjugalidade. Portanto, Bowlby (1988) sustenta que o apego é um tipo de vínculo biologicamente inato entre os seres humanos que se dispõe à busca pela proximidade com outro indivíduo - figura ou objeto de apego, apontado como alguém disponível que oferece respostas e proporciona um sentimento de segurança, sendo considerado como preparado para lidar com o mundo, como um sistema ativo, desenvolvido na infância em suas primeiras relações e que reverbera por toda sua vida (Becker, 2020).
A Teoria do Apego, aplicada aos relacionamentos adultos por Hazan e Shaver (1994), ressalta que o tipo de apego e o modo de se relacionar desenvolvidos na infância servem como um indicativo nas relações afetivas futuras. Desta forma, a satisfação conjugal estaria relacionada ao tipo de apego do indivíduo, estabelecido com seus primeiros cuidadores (Becker & Crepaldi, 2022).
É na interação com os principais cuidadores que as crianças manifestam modelos internos dinâmicos - representações mentais sobre si mesmas, dos outros e o que devem esperar destas relações. Assim, entende-se que o tipo de apego desenvolvido na infância costuma apresentar uma tendência a se repetir nas relações vivenciadas, na vida adulta. Ou seja, o desenvolvimento e senso de segurança experimentado nos anos iniciais, servirá como base para as relações futuras (Becker & Crepaldi, 2022; Gomes & Bosa, 2010).
De acordo com Ainsworth (1978), denominam-se quatro tipos de apego, desenvolvidos na infância e que estão presentes ao longo de toda a vida do indivíduo: apego seguro, apego inseguro ansioso, apego inseguro evitativo e apego inseguro desorganizado. O padrão de apego seguro, refere-se a um relacionamento norteado por um vínculo seguro, de modo que a criança receba amparo para explorar seu ambiente de forma curiosa e motivada, e quando se mostra irritada, apresenta confiança em receber cuidado e proteção das figuras de apego, que agem com continência, compreensão, disciplina e responsabilidade. Os cuidadores oferecem segurança e acompanhamento, ao mesmo tempo em que encorajam a independência. No adulto, o padrão de apego seguro, apresenta uma relação espontânea de confiança e segurança, oriunda das experiências de infância, e uma tendência em confiar no parceiro amoroso ao mesmo tempo em que consegue estabelecer limites, apresenta um autoconceito positivo e manifesta abertura emocional e disponibilidade de diálogo (Becker & Crepaldi, 2022).
Já o estilo de apego ansioso caracteriza-se por uma experiência confusa de confiança e segurança, cujas experiências podem ter sido tempestuosas e conflitantes na primeira infância em relação aos seus cuidadores, tornando-se um adulto com dificuldades relacionadas a frustração ou insatisfação nas suas relações adultas (Dalbem e Dell’Aglio, 2005).
Por sua vez, o apego evitativo corresponde a falhas na construção de memórias infantis, sem suporte emocional nas situações estressoras, sendo, negadas ou ausentes. Então, ao chegarem na vida adulta, tornam-se indivíduos que costumam não demostrar necessidade de confiar em outras pessoas, evidenciando expressivos distanciamentos e rupturas em seu padrão de relacionamento. Por fim, o apego desorganizado está relacionado a relatos de sinais graves de desorientação e desorganização, principalmente em eventos traumáticos ou perdas importantes nas suas primeiras relações significativas (Dalbem & Dell’Aglio, 2005). Neste aspecto, salienta-se que o abuso sexual vivenciado na infância e adolescência pode constituir-se um fator de risco para o desenvolvimento afetivo, além de impactar negativamente a qualidade do relacionamento conjugal, na vida adulta.
Tendo em vista as discussões aqui levantadas, apresenta-se como objetivo geral deste trabalho, analisar as produções científicas nacionais e internacionais, acerca do impacto do abuso sexual infantil na qualidade do relacionamento conjugal, a fim de identificar como a literatura especializada discute e compreende tal fenômeno ao longo dos anos. Adota-se como pressupostos epistemológicos neste estudo, a Teoria do Apego de Bowlby (1988), além da temática do abuso sexual infantil e suas repercussões na conjugalidade.
Método
Procedimentos
Trata-se de uma revisão de literatura do tipo integrativa, a qual refere-se, reúne e sintetiza resultados de pesquisas sobre uma temática delimitada, de forma sistemática e ordenada, colaborando para o aprofundamento do conhecimento científico investigado (Sousa, et al., 2017). Nesse sentido, a revisão integrativa tem como finalidade a síntese do conhecimento e a aplicação de resultados de estudos significativos na prática, permitindo a integração de estudos experimentais e não-experimentais para uma compreensão completa do fenômeno analisado (Souza, Silva & Carvalho, 2010). Com base no modelo apresentado por Becker e Crepaldi (2019), a elaboração do estudo corresponde às seguintes etapas de elaboração: (1) Levantamento da produção científica encontrada em banco de dados; (2) Leitura dos resumos e seleção dos artigos relacionados à temática; (3) Leitura das obras obtidas; (4) Definição das categorias de análise; (5) Análise e discussão dos resultados encontrados.
Coleta de dados
Para o levantamento da pesquisa, consultaram-se as bases de dados nacionais e internacionais: SciELO, LILACS e PEPSIC acessados pela Biblioteca Virtual em Saúde - Psicologia Brasil (BVS-Psi); além das bases da CAPES/MEC e também do Google Acadêmico. A definição dos descritores foi estruturada pela busca para a revisão integrativa na seção de Terminologia em Psicologia da BVS-Psi - (DeCs) para os estudos nacionais, enquanto, em estudos internacionais no idioma espanhol, consultaram-se as palavras-chave utilizadas nos artigos encontrados.
Para ter uma maior compreensão e clareza dos materiais, foram utilizados como critérios de inclusão, artigos empíricos, entre o período de data fixado, de acordo com as pesquisas e idiomas selecionados; sendo excluídos estudos como, revisões de literatura e meta-análises, teses, dissertações e relatórios científicos e tipos de estudo em formato de livro e capítulo de livro. Esta opção se explica, para ter acessibilidade na integra dos materiais, além do recrutamento de artigos indexados, os quais são apresentados a produções que passam por processo rigoroso de avaliação, assegurando maior qualidade para o avanço do conhecimento.
Após tais delineamentos e com base nos descritores predeterminados, a combinação de estratégias de buscas foram as seguintes: “Abuso sexual infantil” AND “Conjugalidade” OR “Abuso sexual” AND “Relacionamento amoroso” OR “Qualidade conjugal” OR “Satisfação Conjugal” OR “Teoria do Apego”. As mesmas estratégias de busca traduzidas em espanhol, foram: “Abuso sexual infantil” OR “Relación amorosa” AND “Calidad conyugal” AND “Satisfacción Conygal” OR “Teoría apego”.
A fim de obter um recorte atual do estado da arte do fenômeno, optou-se por investigar estender os estudos dos últimos seis anos, entre o período de 2017 e 2023, ressaltando a dificuldade de encontrar temas que contribuíssem para uma maior compreensão e clareza. Salienta-se que a data de coleta de dados realizou-se no mês de dezembro de 2023. Após a definição dos descritores e o levantamento nas bases de dados, foram encontrados um total de 1.180 artigos indexados, conforme a amostra do PRISMA (Figura 1).
Após o refinamento, com base nos critérios de inclusão, foram excluídos 1.166 trabalhos que estavam fora do escopo da temática sendo 209 por duplicidade em bases de dados, resultando em 14 artigos, cujas produções foram lidas na íntegra. Destes, a partir da análise, seis foram excluídos por não corresponderem diretamente ao tema proposto, compondo para o corpus da análise, um total de oito artigos para a análise das categorias temáticas. Os artigos excluídos foram removidos por não corresponderem ao escopo da temática acerca do abuso sexual infantil e as relações amorosas na vida adulta.
Análise de dados
Para a realização da análise de dados, seguiu-se o método da análise de conteúdo temático categorial proposto por Bardin (2011), o qual se refere a um conjunto de técnicas de análise de comunicação, que visa obter, por método sistemático e objetivo a apresentação do conteúdo das informações, indicadores (quantitativos ou não) que consintam a conclusão de conhecimento relativos ao contexto da produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (Bardin, 2011; Becker, 2020).
Assim, foram retidos oito artigos indexados, os quais foram lidos e analisados na íntegra, com base em critérios metodológicos e temáticos que estavam diretamente relacionados ao objetivo deste artigo. É importante mencionar que os dados foram submetidos à análise de duas juízas independentes, com experiência na temática apresentada. A técnica adotada é derivada da concordância entre juízes para avaliação de fidedignidade (Fagundes, 1999). A concordância entre as juízas e a pesquisadora foi de 97% em relação às seguintes categorias que resultaram em duas categorias semânticas: (a) o impacto psicológico do abuso sexual na infância; e (b) repercussões do abuso sexual infantil na qualidade do relacionamento conjugal.
Resultados e Discussão
Os oito artigos analisados tiveram maior publicação entre os anos de 2021 (n=2), 2018 (n=2), 2017(n= 1), 2019 (n=1), 2022(n=1), 2023(n=1), não obtendo nenhum estudo de 2020 para compor a pesquisa. Sendo dois artigos em espanhol e seis artigos na língua portuguesa.
Levando em consideração os descritores utilizados, constata-se que os campos de conhecimento sobressalentes corresponderam à área da psicologia (n=3) e à área da saúde coletiva (n=3); na sequência foram encontrados artigos relacionados à área de desenvolvimento social (n=1) e à área da educação (n=1).
Em relação aos aspectos metodológicos, verificou-se tanto na língua espanhola quanto na língua portuguesa, a predominância do tipo pesquisas transversais. Segundo Sampieri et al. (2013) a pesquisa transversal refere-se a um recorte específico no caminho da vida dos sujeitos envolvidos (Becker, 2020). É importante salientar que dentre a busca para análise do estudo, não foram encontradas pesquisas do tipo longitudinal, e nesse sentido sugere-se o aprofundamento de estudos futuros do tipo longitudinal, os quais possibilitariam aprofundamento do fenômeno, no decorrer do tempo.
No que se refere ao método das pesquisas sobressaiu-se o enfoque qualitativo, totalizando quatro estudos, dos quais uma pesquisa na língua espanhola (Latorre, 2023) e as outras três referiram-se a estudos nacionais (Resende et al.; 2022; Sousa, Neiva & Farias, 2021; Cruz et al., 2021). Quanto ao método de pesquisa com enfoque quantitativo, totalizaram-se três estudos: um escrito em espanhol (López et al., 2017) e os outros dois na língua portuguesa (Amorim et al., 2021; Madalena, Carvalho & Falcke, 2018); além de pesquisa com método misto (Krindges & Habigzang, 2018).
Quanto aos instrumentos e técnicas, percebeu-se uma distribuição equilibrada entre os métodos na aplicação de questionário (n=2), escala (n=2), entrevista, diário de campo e observação (n=2). Além de estudos que aplicaram somente a entrevista (n=1) e outro que conjugou as duas técnicas de entrevista e questionário (n=1). Dentre os estudos qualitativos, sobressaíram-se a análises de conteúdo (n=4); tal técnica contribui para classificação e interpretação de conteúdo em diferentes classes de documentos (Bardin, 2011; Becker, 2020).
A leitura na íntegra dos artigos resultou na elaboração de duas categorias temáticas: (a) o impacto psicológico do abuso sexual na infância (b) repercussões do abuso sexual infantil na qualidade do relacionamento conjugal, as quais serão analisadas e discutidas, a seguir.
a) O impacto psicológico do abuso sexual na infância
Esta categoria incluiu três pesquisas, que contemplaram a prevalência do abuso sexual infantil no impacto da saúde mental (Sousa, Neiva & Farias, 2021; Resende, et al.; 2022; Amorim, et al., 2021). Os resultados ressaltaram que a exposição ao abuso sexual na infância contribui ativamente para baixa autoestima, sentimento de raiva, vergonha e culpa, dificuldade de acreditar e si e nas pessoas, transtornos alimentares, transtorno de estresse pós-traumático, sexualidade precoce ou dificuldades relacionadas a sexo, abuso de sustâncias, agressividade, comportamentos autodestrutivos, podendo desencadear ideação suicida na adolescência e vida adulta, entre outros. Destaca-se que tais impactos demostram a gravidade da violência sexual sobre a criança e o impacto que perdura por uma vida inteira. Isso, porque a influência das experiências vividas na infância são a base da maturidade entre aspectos psicológicos e sociais que elas experimentarão na vida adulta e em reflexo sua vida relacional na vida adulta (Forgearini & Hintz, 2012).
O estudo nacional de Amorim, et al. (2021) apresenta as consequências do abuso sexual diante dos prejuízos cognitivos intelectuais, como baixo rendimento acadêmico, dificuldade de atenção e concentração, déficit de linguagem e de aprendizagem. Corroborando com os resultados das pesquisas desta categoria, cujas pesquisas nacionais (Sousa, Neiva & Farias, 2021; Resende et al.; 2022) salientam que o abuso sexual infantil, pode desencadear crenças disfuncionais como distorções de imagem e crença negativa de si mesmo, bem como, crenças disfuncionais cognitivas, quanto menos estimulado o autoconceito e a inteligência da criança que sofreram violência sexual, maiores são as chances de apresentar algum tipo de crença disfuncional intelectual e emocional.
Segundo Sousa, Neiva e Farias (2021), o impacto do abuso sexual pode envolver toda a estrutura pessoal e social do indivíduo, gerando consequências negativas ao longo do desenvolvimento. Por outro lado, quando fatores de proteção estão presentes no sistema familiar, tais como o acolhimento e a comunicação não violenta, é possível amenizar o trauma sofrido (Rosenberg, 2019). De acordo com Rodrigues (2023) o abuso sexual impacta diretamente a saúde mental e ressalta a problemática presente nos dias atuais; para tanto, a autora enfatiza que a violação dos direitos sexuais na infância pode desconstruir o processo identitário e a subjetividade da criança, que muitas vezes se sente culpada ou responsável pelo ato violento cometido pelo autor da violência.
Conforme os achados dessa revisão, outras pesquisas (Sousa, Neiva & Farias, 2021; Resende, et al.,2022; Amorim, et al., 2021) destacam os fatores de risco e o impacto na saúde mental que influenciam na formação do ciclo vital, o que demanda a necessidade de acompanhamento psicológico na intervenção psicoterapêutica, tanto para a vítima como para os familiares, quando estes ficam cientes do abuso. Destaca-se sob esse contexto a importância do papel da Psicologia para intervenções frente as situações que envolvem a violência sexual infanto-juvenil e a atuação do psicólogo no processo de superação das vítimas, a fim de corroborar para a redução dos prejuízos acometidos e incitar a prevenção à violência (Fernandes, et al., 2022).
(b) Repercussões do abuso sexual infantil na qualidade do relacionamento conjugal
Esta categoria visou discutir as variáveis acerca das repercussões do abuso sexual na infância na qualidade do relacionamento conjugal, na vida adulta. Portanto, evidenciaram-se três variáveis principais, presentes na conjugalidade: confiança, comunicação e vida sexual.
No estudo de Cruz et al. (2021), nos casos de abuso intrafamiliar, pode ocorrer dificuldade de a criança compreender o ato abusivo no momento, e depois de anos compreender que aquela ocorrência referiu-se ao abuso; isso, pode ser compreendido por alguns fatores: a interpretação cognitiva da criança (algumas entendem que o ato seria um “carinho” do adulto ao invés de significar como uma violação); enquanto outras podem sentir-se ameaçadas e diante do medo e da culpa por considerarem-se responsáveis pela “sedução”, acabam silenciando a violência sofrida.
Desse modo, é necessário compreender que as relações de afeto são alicerces fundamentais para as relações humanas, ao longo de todo o ciclo vital, e é na interação com os principais cuidadores que as crianças desenvolvem modelos internos dinâmicos de afeto que refletem nas representações mentais sobre si mesmas, dos outros e o que devem esperar destas relações. E o que se ressalta, diante da violência sexual infantil, é que as consequências do silenciamento do trauma e o seu efeito na dinâmica de afeto experimentada na infância, poderá influenciar negativamente as relações conjugais futuras e durante toda a sua vida (Becker e Crepaldi, 2019; Dalbem & Dall’Áglio, 2005).
Do ponto de vista de Latorre (2023), cuja tônica reside em discutir a importância do acolhimento e a validação da narrativa da criança no depoimento do trauma sofrido, considera-se que a negligência parental e a ausência de suporte emocional infantil podem revitimizar a criança e gerar sentimentos de desvalor, insegurança, ansiedade, medo e culpa.
Diante do exposto, Falcke, Wagner e Mosmann (2013) em concordância com Penso e Neves (2008) afirmam que o trabalho terapêutico pode contribuir na reelaboração das funções familiares, ao trabalhar a ressignificação da própria história. Por conseguinte, o trauma e o sofrimento deixam de ocupar um espaço central na vida dos familiares, possibilitando que o ciclo seja rompido e os cuidadores tenham um papel efetivo no amparo e na reconstrução da confiança.
Dentre os resultados abordados nessa categoria, observou-se que o abuso sexual pode impactar no senso de confiança e segurança do indivíduo em seus relacionamentos amorosos, que conforme Cruz et al. (2021) a dificuldade de expor sentimentos e promover diálogos saudáveis nas relações adultas, evidencia limitações na qualidade conjugal, no sentido de voltar a confiar no parceiro (a), após a emergência de conflitos. Segundo Bowlby (1988) o papel do apego na vida dos seres humanos envolve o sentimento de segurança que é fortificador das relações. Tal premissa considera a influência dos primeiros vínculos interpessoais, quando a criança constrói modelos representacionais internos sobre confiança e segurança. Nesse sentido, se as relações forem abusivas na infância, há uma tendência de que os sentimentos de desconfiança e insegurança se perpetuem ao longo do desenvolvimento; por outro lado, se as relações iniciais forem marcadas pela reciprocidade, afetos e limites com os principais cuidadores, o senso de segurança, bem-estar e confiança tendem a se manifestar nas relações afetivas (Andrades, Santos & Wagner, 2021; Becker & Crepaldi, 2022).
Em relação às repercussões presentes nesta categoria, todos os artigos investigados foram concordantes ao discutirem sobre o impacto do abuso no desenvolvimento emocional, especialmente nas relações interpessoais e amorosas. Como exemplo, menciona-se o estudo de Madalena, Carvalho e Falcke (2018) que aponta sobre a relação ao vínculo de confiança, associados a desconfiança e insegurança quando a criança é abusada sexualmente na infância. Considerando os resultados realizados na pesquisa, pela ótica da Teoria do Apego, a criança de apego ansioso caracteriza-se por uma experiência confusa de confiança e ambivalência afetiva na sua primeira infância. E a influência desse tipo de apego na vida adulta, pode predispor a maiores conflitos na relação conjugal e baixa qualidade relacional do casal, associado a dependência emocional e padrões de emaranhamento na dinâmica afetiva (Main, 2001; Andrades et al., 2021; Becker, 2020).
Ao considerar os desdobramentos do abuso sexual na infância sobre a qualidade do relacionamento conjugal, torna-se importante refletir sobre impactos da vida sexual adulta, considerando a influência existente na dificuldade e queixas relacionadas a sexualidade, comportamentos hipersexualidados ou aversão sexual. Conforme os estudos de Krindges e Habigzang (2018), vítimas de abuso sexual na infância tendem a manifestar maiores dificuldades de estabelecer vínculos afetivos, satisfação sexual e prejuízo na confiança.
Nesse quesito, os estudos de López et al., (2017) e de Krindges e Habigzang, (2018) demostraram as consequências da violação sexual na vida adulta, tais como: vergonha, raiva, medo, insegurança, desconfiança, tristeza, confusão, interesse sexual precoce (adolescência), ou pouco interesse sexual na vida adulta, disfunções sexuais, evitação de contato físico, sentimento de vingança, dificuldades para lidar com as emoções, expressando-as com intensidade, agressividade ou diminuição excessiva (entorpecimento emocional) entre outras queixas. Portanto, com base na Teoria do Apego (Bowlby, 1988), discute-se que o estilo de apego inseguro desorganizado ou evitativo, apresenta como os sinais graves de desorganização e desorientação em eventos traumáticos ou perdas importantes podem influenciar negativamente as próximas relações. Diante da pesquisa realizada, pode-se considerar que o abuso sexual atue enquanto um estressor e fator de risco em potencial para o desenvolvimento das relações de apego futuras.
Para tanto, o estudo de Becker e Crepaldi (2019) demonstrou que o apego inseguro desorganizado ou evitativo, evidenciou um padrão de menor qualidade do relacionamento conjugal, norteado por um funcionamento de distanciamento emocional, na intenção de manter a independência, demostrando dificuldades de vinculação, comunicação e confiança.
Além dos padrões de apego, os estudos sobre transgeracionalidade familiar trazem importantes contribuições ao considerar a repetição dos diferentes padrões de violência ao longo das gerações. Como exemplo, cita-se o estudo de Madalena et al. (2018) que investigou a repercussão das dinâmicas de violência na família de origem de casais e sua relação com a qualidade conjugal. Verificou-se, então, que das violências cometidas, o abuso sexual apresentou maior destaque quanto às consequências emocionais expressivas, relatadas entre os cônjuges. Frente a isto, nos estudos de Falcke et al. (2003) e de Forgearini e Hintz (2012), a possibilidade de um relacionamento conjugal satisfatório e as necessidades atuais atendidas pelos cônjuges depende do processo de ressignificação de pessoas e vínculos disfuncionais que ambos estabeleceram na infância, considerando a influência dos padrões transgeracionais.
No que se refere à sexualidade na vida adulta, López et al. (2017) verificou que as disfunções sexuais nem sempre terão relação direta com o abuso, mas que este pode ser um dos fatores relevantes e presentes nas queixas de muitos casais. Conforme o autor supracitado, a ampla amostra de mulheres que vivenciaram o abuso sexual na infância relatara algum tipo de disfunção sexual na vida adulta, apresentando com maior frequência, dor e rejeição nas relações sexuais, além de dificuldades de excitação e ausência de libido. Para Krindges e Habigzang (2018) a satisfação sexual também está associada à qualidade do relacionamento conjugal no que ser refere às outras variáveis presentes na conjugalidade, especialmente com o padrão de afetividade demonstrado entre os parceiros.
De modo geral, o abuso sexual na infância pode acarretar impactos adversos e expressivos ao longo do ciclo vital, tais como aversão, medo, evitação, insatisfação, instabilidade, transtornos sexuais, dificuldade em confiar intimamente nas pessoas, relacionamentos insatisfatórios, entre outros. Em vista deste cenário, a psicoterapia pode promover resultados preventivos no acolhimento à criança vitimizada, no que tange aos relacionamentos conjugais e interpessoais que desenvolverá na vida adulta; além de possibilitar a ressignificação e a elaboração do trauma (Latorre, 2023).
Considerações Finais
Este artigo teve como finalidade analisar as produções científicas nacionais e internacionais, acerca do impacto do abuso sexual infantil na qualidade do relacionamento conjugal. Para tanto, tratou-se de uma revisão de literatura do tipo integrativa, contemplando estudos nacionais e estrangeiros dos últimos seis anos; cujo intento se pautou em evidenciar o estado da arte atualizado da temática pesquisada.
Os principais resultados derivados da categoria do “impacto psicológico do abuso sexual na infância”, ressaltou que a exposição ao abuso sexual na infância contribui ativamente no desencadeamento de crenças disfuncionais, bem como, crenças disfuncionais cognitivas, entre outros fatores de risco para o desenvolvimento infantil. Já a categoria referente às “repercussões do abuso sexual infantil na qualidade do relacionamento conjugal”, evidenciou falhas no estabelecimento da comunicação, confiança e a necessidade de amparo do indivíduo acometido pelo abuso na vivência da conjugalidade. O que, por sua vez, pode comprometer o senso de confiança e segurança do indivíduo em seus relacionamentos amorosos, além das dificuldades e queixas relacionadas à sexualidade do casal.
Essa revisão de literatura permitiu constatar através da técnica integrativa, a escassez de estudos específicos que delimitassem a temática abordada, entre o abuso sexual na infância e seu impacto na conjugalidade. Para tanto, aponta-se a necessidade de novos estudos que possam contribuir para a ampliação do fenômeno estudado, além de propor novos métodos e instrumentos de coleta de dados, bem como pesquisas de temporalidade longitudinal e métodos mistos.
Em relação ao estudo realizado, recomenda-se também, a aplicação de diferentes estratégias de busca e a procura por outras bases de dados, bem como, o maior intervalo temporal entre as buscas realizadas; além de considerar outras modalidades de documentos e trabalhos teóricos, tais como livros, teses e dissertações, capítulos de livros, os quais poderiam agregar conhecimentos relevantes na pesquisa.
Por fim, ressalta-se o papel fundamental que a Psicologia pode contribuir nesse contexto ao considerar as repercussões do trauma sexual na infância e seus desdobramentos na vida adulta. Acerca disto, entende-se que realizar pesquisas visando a construção e a ampliação do conhecimento teórico e aplicado, no campo do desenvolvimento humano, possibilita colaborar na prevenção da violação de direitos e constrói pontes para a formulação e implantação das políticas de cidadania do indivíduo ao longo de seu ciclo vital.















