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Vínculo

versión impresa ISSN 1806-2490

Vínculo vol.22  São Paulo  2025  Epub 16-Ene-2026

https://doi.org/10.32467/issn.1982-1492v22n18 

Pesquisa

Desafios da parentalidade em famílias migrantes

Challenges of parenting in migrant families

Desafíos de la paternidad en familias migrantes

Mary Yoko Okamoto1 
http://orcid.org/0000-0001-8844-7138

Luiza Helena Neres Sebastião2 
http://orcid.org/0009-0007-4063-2597

Jean Rodrigo Gehardt3 
http://orcid.org/0009-0006-7231-8044

1Professora Associada do Departamento de Psicologia Clínica e Programa de Pós-Graduação em Psicologia FCLAs - Faculdade de Ciências e Letras - Câmpus de Assis – Unesp. Av. Dom Antônio, 2100 - Parque Universitário, Assis - SP, CEP: 19806-900. Email: mary.okamoto@unesp.br

2Discente da Graduação em Psicologia FCLAs - Faculdade de Ciências e Letras - Câmpus de Assis – Unesp. Av. Dom Antônio, 2100 - Parque Universitário, Assis - SP, CEP: 19806-900. Email: luiza.hn.sebastiao@unesp.br

3Psicólogo graduado, FCLAs - Faculdade de Ciências e Letras - Câmpus de Assis – Unesp. Av. Dom Antônio, 2100 - Parque Universitário, Assis - SP, CEP: 19806-900. Email: j.gerhardt@unesp.br


Resumo:

O presente artigo deriva dos resultados de duas pesquisas qualitativas de iniciação científica (PIBIC), que investigaram os desafios para o exercício da parentalidade de migrantes, a partir de uma família venezuelana através de entrevistas com os pais e, por meio do uso do procedimento de Desenhos de Famílias com Estórias – DF-E, buscamos compreender a experiência migratória para seus filhos. Analisamos os sofrimentos decorrentes dos conflitos culturais e as estratégias adotadas para reconstruir a vida em um novo país. Os resultados destacam que a migração produz sofrimentos devido às perdas de referências culturais relacionadas à constituição identitária. As famílias, como forma de proteção do grupo, tentam resistir a essas mudanças, o que exige um processo de negociação identitária em relação ao estabelecimento do contrato narcísico e de transmissão psíquica. Porém, os filhos são inseridos no novo contexto cultural através da escola e dependem desta negociação familiar para estabelecer a possibilidade da construção de um processo de interculturalidade. Conclui-se que políticas públicas de acolhimento são fundamentais para facilitar esses processos, considerando que podem facilitar o trânsito dessas famílias, sobretudo da segunda geração.

Palavras-chave: família; parentalidade; migrantes; Psicanálise de Casal e Família

Abstract:

This article derives from the results of two qualitative scientific initiation research projects (PIBIC), which investigated the challenges of parenting for migrants, based on a Venezuelan family through interviews with parents and, using the Family Drawings with Stories (DF-E) procedure, we sought to understand the migratory experience for their children. We analyzed the suffering resulting from cultural conflicts and the strategies adopted to rebuild life in a new country. The results highlight that migration causes suffering due to the loss of cultural references related to identity formation. Families, as a form of group protection, try to resist these changes, which requires a process of identity negotiation in relation to the establishment of the narcissistic contract and psychic transmission. However, children are inserted into the new cultural context through school and depend on this family negotiation to establish the possibility of building a process of interculturality. It is concluded that public reception policies are fundamental to facilitating these processes, considering that they can facilitate the transition of these families, especially the second generation.

Keywords: family; parenting; migrants; Couple and Family

Resumen:

El presente artículo se deriva de los resultados de dos investigaciones cualitativas de iniciación científica (PIBIC), que investigaron los desafíos para el ejercicio de la paternidad de los migrantes, a partir de una familia venezolana mediante entrevistas con los padres y el uso del procedimiento de Dibujos de Familias con Historias (DF-E), buscamos comprender la experiencia migratoria para sus hijos. Analizamos el sufrimiento derivado de los conflictos culturales y las estrategias adoptadas para reconstruir la vida en un nuevo país. Los resultados destacan que la migración produce sufrimiento debido a la pérdida de referencias culturales relacionadas con la constitución de la identidad. Las familias, como forma de protección del grupo, intentan resistirse a estos cambios, lo que exige un proceso de negociación identitaria en relación con el establecimiento del contrato narcisista y la transmisión psíquica. Sin embargo, los hijos se insertan en el nuevo contexto cultural a través de la escuela y dependen de esta negociación familiar para establecer la posibilidad de construir un proceso de interculturalidad. Se concluye que las políticas públicas de acogida son fundamentales para facilitar estos procesos, ya que pueden facilitar la transición de estas familias, especialmente de la segunda generación.

Palabras clave: familia; paternidad; migrantes; psicoanálisis de pareja y familia

Introdução

De acordo com a Organização Internacional para Migrações (OIM), a migração é um processo de atravessamento, um movimento populacional que envolve o deslocamento de pessoas, com causas variadas. Durante a última década, as migrações internacionais no Brasil apresentam aumento no fluxo migratório do cone Sul-Sul e na fronteira Norte do país com destino ao sul e sudeste, principalmente advindos de Cuba, Haiti e Venezuela, este último com um total de 903.279 entradas entre janeiro de 2017 e abril de 2023, segundo dados do Subcomitê Federal para Recepção, identificação e triagem dos migrantes - Migração Venezuelana - Operação Acolhida.

Outro dado relevante se refere ao crescimento do número de crianças e jovens que acompanham suas famílias, e, as limitações de pesquisas específicas no campo da psicologia justificam essa pesquisa.

Para compreender os efeitos psíquicos e culturais dos processos migratórios, Bauman (2017) destaca que o encontro entre pessoas de diferentes origens pode gerar sentimentos de ameaça e exclusão, frequentemente alimentados por racismo e intolerância. Os migrantes são vistos como “estranhos”, cuja presença evoca a vulnerabilidade e fragilidade da estabilidade conquistada nas sociedades de destino (Bauman, 2017, p. 21).

Nesse contexto, a cultura torna-se central para a compreensão da migração. Kaës (2012) propõe que a diferença cultural é uma das três dimensões fundamentais da diferença, ao lado da diferença entre o humano e o não-humano, e da diferença sexual e geracional. A diferença cultural estrutura-se a partir das afiliações sociais e culturais que formam os referenciais identitários e as alianças psíquicas necessárias para a vida em comum.

Considerando tais questões, o encontro entre culturas pode ser violento, pois mobiliza conteúdos inconscientes, arcaicos e reprimidos. Isso pode levar à reativação de defesas psíquicas e à formação de vínculos regressivos mais ou menos profundos cuja reação pode se expressar através de tentativas de regressão a estados narcísicos primários, justamente porque pode mobilizar aqueles conteúdos mais indiferenciados dos sujeitos, tendo como resultado o estabelecimento de vínculos fusionais ou sincréticos.

Os relatos da experiência de desapropriação e a exigência de apropriação de um universo novo e desconhecido apontam para o conceito de cultura apresentado por Kaës (2012), como um conjunto de dispositivos de representações simbólicas que conferem significados e identidade, funcionando, portanto, como organizadores da permanência do conjunto humano, através dos processos de transmissão e transformação. Para o autor, tal dispositivo é essencial tanto para a construção do próprio universo cultural quanto para a constituição do sujeito singular e do conjunto intersubjetivo inserido neste universo.

Se por um lado a cultura define os processos conhecidos e reconhecidos, compartilhados por uma comunidade, por outro lado, define aquilo que não é, ou seja, o estrangeiro, o que não pertence àquele ambiente cultural, marcando indelevelmente o estrangeiro, o que nos remete ao conceito de narcisismo das pequenas diferenças, apresentado por Freud (1929).

A questão identitária é um aspecto central, em se tratando de movimentos migratórios (Dantas et al, 2010; Kaës, 2005, 2012), considerando que não é algo fixo, mas se constrói pela articulação entre representações internas de pertencimento e as imagens projetadas pelos outros e, em contextos migratórios, essa articulação pode se romper, levando ao sofrimento identitário e envolve a constante negociação, questões étnico-raciais, relativas ao preconceito, educação dos filhos, familiares e intergeracionais e gênero, em especial entre a segunda geração, aquela que enfrenta um duplo quadro de referência de pertencimento cotidianamente.

Podemos considerar a experiência migratória um trauma psíquico decorrente da irrupção de uma experiência de sofrimento diante da violência ou do terror próprios de algumas situações peculiares e específicas nas quais o sujeito fica exposto ao impacto de mudanças como ocorre na experiência de ruptura resultante da experiência migratória. Tal ruptura remete à perda da terra natal e da língua materna, dos aspectos identificados como reconhecidos e compartilhados com um grupo, gerando uma experiência do estrangeiro, daquele que não ocupa o seu lugar, vem de fora e, portanto, ocupa um lugar de alteridade marcado pela exclusão (Okamoto, Justo, Resstel, 2017).

Portanto, refletir sobre a migração e como ela afeta a segunda geração de migrantes, auxilia a compreender o processo vivido pela família e a constituição subjetiva desses filhos num cenário intercultural, exigindo que a família possa efetuar negociações entre seus processos identitários e de pertencimento ligados à origem familiar, bem como aqueles do país de destino, que receberá essa população e poderá contribuir para a sua integração ou exclusão social.

Metodologia

A pesquisa utilizou método qualitativo (Minayo, 2014), com entrevistas semiestruturadas com os pais, gravadas e transcritas na íntegra, com duração média de 1 hora. Com a criança, com 10 anos de idade, foi utilizado o procedimento clínico de Desenhos de Família com Estórias, de Walter Trinca (Trinca, 1997), com uma criança de 10 anos. Os resultados foram analisados a partir da análise de conteúdo (Bardin, 2011) e da teoria psicanalítica de Casal e Família e de estudos migratórios. As pesquisas foram aprovadas pelo comitê de ética e pesquisa da FCLAs sob os CAAEs: 79865924.8.0000.5401 e 79856824.4.0000.5401. Todos os nomes são fictícios para a preservação da privacidade dos participantes.

História da família Sol

Família formada por casal venezuelano, Rosa e Hector, e pelos filhos, o mais velho, filho de Rosa, Miguel, de 12 anos; Ana, de 10 anos, e Manoel, de 4 anos. A família está no Brasil há oito anos. Rosa foi a única participante da entrevista.

A migração da família foi motivada pelo cenário de crise econômica e alta inflacionária na Venezuela, na qual a família vivenciou dificuldades para garantir condições mínimas de subsistência tais como a: alimentação e acesso a cuidados com a saúde, além de vivenciar situações de risco, como assaltos, devido a situações de violência e criminalidade. Sobre o país escolhido para a migração, a princípio, o casal planejava se mudar com os filhos para a Colômbia, no entanto os amigos do marido, Hector, decidiram se mudar para o Brasil, e em um intervalo curto de 3 dias, o marido, após perguntar a opinião da esposa, e juntamente com ela, decidiu juntar-se aos amigos rumo ao Brasil.

A viagem para o Brasil aconteceu por via rodoviária, tendo o marido chegado de ônibus, e entrado no Brasil pela fronteira do estado de Roraima, na cidade de Boa Vista. Rosa migrou para se juntar ao marido em Boa Vista cerca de um mês depois, após Hector relatar as dificuldades de manter-se trabalhando sozinho no país, devido à precariedade laboral à qual foi sujeitado. A migrante realizou o mesmo percurso do marido, sendo recebida no galpão que ele trabalhava. O local era constituído por um quarto de 2 m2, sem janelas, sem mobiliário, em que habitavam 5 pessoas: Rosa, Hector, o colega dele, com a esposa e cunhada - sendo que todos dormiam no chão. O casal permaneceu neste local por um período de 3 meses, até que conseguiram alugar um imóvel e adquirir um colchão usado.

Após 7 meses de sua chegada, Rosa retornou à Venezuela pelo mesmo trajeto, trazendo seus filhos e sua mãe. Os migrantes permaneceram em Roraima por 1 ano e 6 meses, quando decidiram realizar o processo de interiorização por meio do programa “Acolhida”, do Governo Federal. Esse processo se deu após Rosa procurar pela sede da Polícia Federal, na cidade, que ficava perto do Hospital da Criança no qual teve de levar sua filha, devido à dor de ouvido, e, segundo conta, aproveitou para dar início ao processo. Rosa não solicitou nenhum local específico para envio da família, apenas que o local tivesse melhores condições econômicas em relação à da cidade de Boa Vista.

A migrante relatou que uma semana após dar entrada no pedido de interiorização, foi informada do destino selecionado, e sobre a data de entrega de documentação necessária para a realização do processo, além de dados sobre a partida para a cidade de destino. A família foi direcionada para uma cidade de grande porte do interior paulista. Rosa contou ainda que a decisão de realizar a interiorização foi sugerida pelo marido, diante das condições precárias que vivenciavam em Roraima, mas que ela, em um primeiro momento, resistiu, pois queria manter-se geograficamente mais próxima do país de origem, à espera de uma melhora nas condições do país de origem e do consequente retorno.

Na Venezuela, o casal possuía um comércio e mantinha o sustento da família por meio dos rendimentos desse comércio local. No entanto, ao chegar no Brasil, Hector teve que garantir a sua subsistência realizando “diárias”, serviços informais como faxina, pagos por dia. Rosa relata que, ao chegar no Brasil, fazia doces, chips de banana, venda de frutas, e “diárias”, assim como as realizadas pelo marido. Ela disse ainda que recebiam um pagamento inferior aos praticados aos brasileiros, além da ausência de registro e garantia de direitos trabalhistas e precariedade nas condições de trabalho, chegando a ficar sem alimentação durante o trabalho, caracterizando uma situação de exploração laboral de migrantes.

Após serem assistidos pelo programa federal de interiorização, a família recebeu passagens aéreas para uma cidade próxima de seu destino, onde foi aguardada por membros do projeto que garantiram o transporte para a cidade de destino. Ao chegarem nesta cidade, receberam estadia em local alugado pelo projeto, onde se estabeleceram. Além disso, Rosa conta que, já depois da interiorização no Brasil, ao chegar na cidade de destino, e na qual reside atualmente, ela procurou serviços de saúde em busca de métodos contraceptivos, mas que durante o período de espera para ter acesso aos serviços, acabou engravidando. Ao procurar atendimento devido à gravidez, a migrante relatou ter sofrido episódios de xenofobia, durante a realização do pré-natal, e violência obstétrica no parto de seu terceiro filho.

Como a migração da família ocorreu de forma fracionada, ela contou sobre o sofrimento e preocupação que sentiu diante da distância dos filhos, durante os meses em que ficaram separados. Rosa externalizou ainda a preocupação em relação à parte da família que continuava na Venezuela, como a incerteza sobre seus familiares terem acesso a alimentos, e serviços de saúde. Há ainda o sofrimento relatado devido à distância que separa seus filhos do grupo familiar de origem, como pais, irmãos e sobrinhos. Segundo seu relato, eles mantinham contato frequente com os familiares e sentiam falta do apoio da família. A alimentação é outro aspecto relatado por Rosa como um aspecto que gera sofrimento, e ainda que o preparo seja o mesmo, o sabor não é.

Em relação ao acesso à educação dos filhos, a família conseguiu acesso a documentos e foi possível matricular os filhos, ainda em Roraima, no entanto, o filho mais velho teve de ser matriculado em um ano anterior ao que cursava, devido à falta de vaga na turma correta. Após chegarem no município onde residem atualmente, além do acesso dos filhos à educação, a família acessou o serviço de saúde e seu marido, que tem problemas de audição, e conseguiu acesso ao tratamento, que não era possível no país de origem. No que se refere à transmissão da educação no contexto familiar e às diferenças culturais, Rosa refere dificuldade de explicar às filhas temas relacionados a questões LGBT, por exemplo, e ela diz perceber como sendo menos comuns, na Venezuela. Mas Rosa procura ensinar a filha a respeitar todos independentemente de características. A transmissão de valores culturais do país de origem, a adaptação ao novo idioma, e as diferenças nas práticas educativas são os principais desafios à educação dos filhos, uma vez que ela percebe divergências nas práticas educativas brasileiras em relação à venezuelana. Ademais, ela relatou uma preocupação em relação à educação dos filhos devido a tais divergências, principalmente relativa à falta de limites. Teme que pode ter dificuldades devido às características percebidas no Brasil, e que poderia culminar em filhos desrespeitosos e que no futuro podem infringir leis.

Rosa contou que pretende continuar no Brasil, tendo em vista as maiores oportunidades educacionais para os filhos, em relação ao país de origem. Segundo ela, seus filhos têm acesso a aulas extracurriculares, tais como, ballet, francês, curso técnico de informática, além do acesso a serviços de saúde. Além disso, demonstrou muito medo da violência na Venezuela, assim, considera o Brasil um país mais seguro comparativamente.

Análise dos resultados

A análise dos resultados da entrevista realizada com Rosa contemplou 6 categorias de análise, considerando a leitura atenta de todo o material coletado e que envolvem a: trajetória migratória; rupturas e separações; incertezas e desafios; reconstrução da vida; educação dos filhos; e perspectivas de futuro.

1. Trajetória Migratória

A decisão de migrar foi motivada principalmente por questões político-econômicas e a deterioração das condições de subsistência na Venezuela. Rosa relata a escalada da crise: “uma crise econômica, é, uma inflação que foi comendo as coisas, volvendo, volvendo até o momento que a gente não tinha já, como se recuperar economicamente.”

A entrevistada enfatizou a precariedade do sistema de saúde como um fator crucial na decisão, pensando nos filhos: “A saúde estava horrível, eu pensava em isso para minhas criança, e na saúde, ficar doente, as persona ficava morrendo no hospital porque não tinha nenhum soro pra botar.” Inicialmente, a migração seria para a Colômbia, mas a mudança de planos dos amigos do marido direcionou a família para o Brasil, chegando a Boa Vista.

Um dado relevante é a resistência inicial de Rosa à interiorização a partir de Roraima, motivada pela esperança de um retorno próximo: “na realidade, não queria sair de meu, não queria sair dali perto de meu país; falava assim: a Venezuela, meu país, vai melhorar, e eu vou voltar.”

2. Rupturas e Separações

A migração familiar ocorreu em momentos, representando a primeira grande ruptura. O marido migrou primeiro, em busca de emprego e estabilidade. A separação foi difícil, dado o forte apego familiar: “foi uma época muito forte, também, é, porque a gente, é.. sempre foi bem apegado da família”.

Seis meses depois, Rosa migrou também, mas sem os filhos, que ficaram com a avó materna. O marido, ao relatar as dificuldades de aluguel e trabalho no Brasil, sugeriu que as crianças permanecessem na Venezuela: “você vai vir, mas você vai tem que deixar as criança, porque ainda aqui tá difícil pra gente alugar uma coisa, e aqui você aluga, e tem que alugar.. você aluga só a casa, você no tem cama, no tem nada.”

Essa separação gerou intenso sofrimento em Rosa, manifestado na preocupação constante com a alimentação das filhas e familiares que ficaram: “Passei fome, porque tinha momento que não conseguia comer... Você se sentar, comer bem... e você pensar o que que tá na comida dos meus filhos, era uma coisa isso.” Outro aspecto da ruptura é o sentimento de desamparo e a falta de uma rede de apoio confiável no Brasil: “Aqui no tenho ninguém que eu vou falar assim... no tem aquela confiança assim... o que se eu ficar doente meus filho vão ser cuidado por uma, por um familiar alguma coisa assim.” A entrevistada também mencionou a perda de hábitos alimentares, como a dificuldade de consumir o tradicional ‘farinha’ venezuelano, que, quando encontrado, tem um custo elevado.

3. Incertezas e Desafios

Os desafios iniciaram-se no país de origem, com a escassez de alimentos (“você não conseguir a comida, você comer todo dia a mesma coisa”). A chegada ao Brasil revelou o impacto físico da crise, com Rosa pesando 42 kg, e a condição de saúde precária do marido, que, apesar da demora, conseguiu tratamento auditivo pelo sistema de saúde brasileiro (SUS).

Após a chegada, Rosa enfrentou a exploração laboral em Roraima, com jornadas exaustivas de faxina mal remuneradas: “Lá em Roraima muita gente se aproveita da necessidade das persona... era 30, 40 reais que pagavam.” Além disso, vivenciou episódios de xenofobia (por meio de comentários) e um relato de violência obstétrica, sentindo-se “muito desconfortável” com um ginecologista por ser migrante.

A adaptação cultural e linguística é outro desafio relatado. Embora os membros da família mantenham o espanhol em casa, a adaptação ao português é um processo, sendo mais rápido para as filhas devido à escola: “A cultura é muito diferente também, é uma coisa que (...) é, um pouco difícil pra mim, tem momento que não consigo uma palavra de falar.”

A gravidez não planejada após a migração, devido à demora na consulta para controle contraceptivo no Brasil, e o subsequente início da pandemia de COVID-19 representaram um “choque” e um abalo psicológico profundo, gerando um intenso medo de morrer e deixar os filhos sozinhos no país: “eu pegar essa enfermidade e eu morrer, meus filho como que vão ficar eles sozinho tão pequeno.”

4. Reconstrução da Vida

A reconstrução da vida começou com trabalhos informais e condições de moradia extremamente precárias em Boa Vista. Rosa e o marido dormiram no chão de um quarto minúsculo, sem porta ou janela, por cerca de três meses, dividindo o espaço com outros colegas, enquanto faziam doces e chips de banana. A mudança para a cidade atual ocorreu por meio do programa de interiorização “Acolhida” do Governo Federal, após Rosa buscar atendimento na Polícia Federal. Ela demonstrou abertura a qualquer destino, contanto que houvesse melhores condições econômicas. Atualmente, a família se sustenta com a venda de produtos alimentícios. A recepção inicial na nova cidade foi positiva, com a família recebendo agasalhos e apoio. A interiorização proporcionou acesso a serviços básicos, como saúde e educação.

5. Educação dos Filhos

A educação dos filhos é vista como prioridade, mas também apresenta desafios, como a adaptação ao novo idioma e as diferenças nas práticas educativas e culturais. Em Boa Vista, a dificuldade de acesso à escola era grande devido à alta demanda de crianças venezuelanas. Para garantir a matrícula do filho, Rosa precisou colocá-lo no primeiro ano, embora a idade o colocasse no segundo, “para não deixar ele sem estudar.” O contato dos filhos com temas culturais e de gênero no Brasil, como a questão LGBT, que Rosa considera mais discreta em seu país de origem, é um ponto de dificuldade na comunicação com a filha, mas ela busca transmitir valores de respeito e tolerância: “a gente tem que respeita porque a gente tem que respeitar para ser respeitado independentemente de cor, independentemente da raça, independentemente do gênero, independentemente do que seja a persona.”

6. Futuro e Perspectivas

Apesar do sofrimento pela separação da família, a migrante não tem planos de retornar à Venezuela para moradia. O principal fator para a permanência no Brasil é o futuro profissional e educacional das filhas, que agora têm acesso a cursos de qualificação técnica (gestão financeira), idiomas (inglês e francês) e atividades de interesse (teatro e balé), o que os pais veem como a base para uma futura carreira bem-sucedida. Rosa considera que um retorno implicaria em um recomeço do zero, o que afetaria o desenvolvimento já conquistado pelas filhas: “eu vou tirar ela daqui, eu vou começar do zero novamente... vai ser um impacto pra ela também bastante forte por que ela faz ballet.”

Outros fatores decisivos para a permanência são o acesso à saúde pública (SUS), a possibilidade de obtenção de renda (mesmo que informal) e a violência comparativamente inferior à de seu país de origem. A esperança de retorno, presente no início da migração, foi substituída pela certeza de continuar no Brasil, visando o bem-estar dos filhos: “eu tenho certeza que eu vou continuar aqui em assis até, até o dia, ter meus filhos maiores até eu decidi, sair pra, até que eu ver eles, com um futuro bem, que eles estejem bem.”

Nesse momento, apresentamos os DF-E produzidos pela filha da família entrevistada, Ana, com 10 anos de idade.

1) Desenhe uma família qualquer

História: Era a mãe, o pai, a filha, o avô e a avó, eles um dia numa casa amarela, e tinha um cachorro, eles gostavam de ir no parque de diversões. Um dia a avó e o avô tiveram que se mudar para outro lugar, (omitido - nome da cidade) a filha que se chamava Luiza ficou triste porque não queria ir. O pai explicou pra ela que eles tinham que se mudar porque a casa estava ficando muito pequena, então eles se mudaram. Passou uma semana, o avô falou que a avó estava doente, e ela ficou triste, mas o pai dela disse “a gente vai ver a sua avó e seu avô em (omitido – nome da cidade)”, e foram de carro. Quando chegaram lá o vovô falou que a vovó ainda estava dormindo e foi ver. Quando terminou de ver a avó dela dormindo ela perguntou se queria conhecer a cidade, o avô falou “vamos”, e foram, conheceram vários lugares que nem conhecia, e fim. O nome do desenho é “A grande família ,,, que nunca separar”.

2) Desenhe uma família que você gostaria de ter

História: Era a mãe, o pai, a filha e o filho. Eles viviam numa pequena casa com pessoas. A mãe se chamava Beatriz, o pai se chamava Hernan, a filha se chamava Antonella e o filho se chamava Ruan. (perguntei: Luan? Ela disse: Luan). Uma vez a filha foi no supermercado com o irmão mais velho Luan, só que se perderam no caminho, então falaram “vamos voltar por onde a gente foi”, só que ela não lembrava. Então ela lembrou que o pai dela sempre lembrava, “olha pra trás pra ver se você não se perdeu mesmo”. Ela olhou pra trás e falou “a gente não tá perdido, é só seguir reto, virar e aí vamos pra casa”. Aproveitaram para ir no supermercado, compraram tudo o que pediram e foram embora. Quando chegaram em casa a mãe perguntou “por que demoraram tanto?”, “ah, a gente se perdeu, mas a Antonella falou que o papai falou pra ela que quando se perder tem que olhar pra trás” e viu que a gente não tava perdido. O papai então deu um abraço nos dois por terem aprendido que falar que se perdeu não precisava falar que se perdeu, mas você não havia se perdido porque a Antonella te alertou, então vocês dois estão de parabéns. O nome do desenho é “Os irmões sabidos”.

3) Desenhe uma família em que alguém não está bem

História: Era a mãe, o filho pequeno e o pai. A mãe tava cuidando do pai porque ele tava doente, o filho Guilherme estava na casa da avó. Depois do pai sarado ele voltou, só que quando o pai voltou (corrigiu para o filho) o pai ficou de novo doente. Só que teve uma vez que ela falou “vamo pro médico”, que disse que estava com uma gripe bem forte, o pai falou que estava com dor de cabeça e dor de garganta e tomando os remédios, e ele não melhorou muito bem. Depois disso o pai melhorou e brigou muito com o filho e ficou doente de novo. Perguntei quem ficou doente de novo, me disse que o filho. Perguntei por que o pai brigou com o filho, me disse “brigou não”, eu disse “você me disse que o pai brigou com o filho”, ela me responde “não, brincou! é porque eu falei errado mesmo”. Aí o filho ficou doente e só deu um remédio pra ele e melhorou. Perguntei se era o bebê que havia melhorado, disse que sim. O nome do desenho é “O pai sempre fica doente”.

4) Desenhe a sua família

História: Mora eu, o meu pai, a minha mãe e meus irmões. O nome do meu pai é Hernan, o nome da minha mãe é Beatriz, meu irmãozinho é o Luan, minha irmã é Antonella e meu irmão é Sebastian meu nome é Vitória. Teve uma vez que eles saíram pra tomar sorvete, quando foram tinha uma brinquedoteca, os menores foram, o Luan e a Vitória foram brincar, mas aí o pai e a mãe esqueceram deles lá, aí eles estavam entrando no carro e lembraram deles dois. Daí eles foram pra casa, assistiram filme e fim. Perguntei se tudo bem, disse que sim, e se queria contar algo do desenho ou da história, disse que não. O nome do desenho é “A família esquecida”.

Discussão de resultados

A partir do relato da família e da produção de DF-E, compreendemos como a crise econômica e política que se instalou no país foi o principal motivo que levou a família a deixar seu lar, grupo familiar, cultura, língua e o mundo genealógico e de origem para trás. É nesse contexto que se insere a estranheza ao chegar no Brasil, diante do olhar de estranheza, uma vez que no encontro da população local com os migrantes são externalizadas as estrangeiridades (GEBRIM, 2020), marcadas pelos referenciais tais como a língua, sotaque, etnias, vestimentas e impressões corporais, como as tranças desenhadas pela criança.

O momento de chegada às cidades que fazem parte do Projeto Acolhida é de total desamparo, não há certeza do que poderá acontecer, e é onde buscam um primeiro espaço de pertencimento, uma vez que o abandono dos espaços conhecidos – internos e externos – representam rupturas e aproximações violentas e que geram sofrimento identitário, uma vez que são marcas que contribuem para a constituição da identidade (Kaës, 2005). Dessa forma, esses movimentos de distanciamento e aproximação com o novo mundo social irão configurar a subjetividade daqueles que migram, portanto, a busca pela documentação, emprego, o contato com as primeiras palavras de uma língua até então desconhecida em um país novo é uma busca de se inserir e interagir com o meio social.

É importante ressaltar que em relação à educação dos filhos, a família relata a preocupação com a transmissão e manutenção da cultura de origem e isso pode ser apontado através dos relatos nas entrevistas que apontam que em casa falam a língua do país de origem, assistem programas de seu país de origem e preparam alimentos que remetem à terra de origem como um meio de assegurar a transmissão psíquica geracional, através de conteúdos presentes na história da família. Essa preocupação remete também à manutenção do contrato narcísico, conceito desenvolvido por Piera Aulagnier e retomado Kaës (2014) como um tipo de aliança inconsciente que pensa a relação do infans com o conjunto social, de forma que recebe o investimento narcísico parental que confere ao sujeito um lugar de pertencimento e a possibilidade de se constituir como Eu, investimento esse que, no futuro pode assumir a linguagem fundamental do conjunto social, sendo de extrema importância para famílias migrantes, considerando com a preocupação com a preservação e transmissão da cultura, valores, hábitos, língua de origem, em busca de cumprir com a função de manutenção do berço psíquico representado pelo grupo familiar, em uma tentativa de manter a ilusão grupal de que pertencem a uma origem comum e compartilhada, evitando a desidentificação entre os componentes da família (Kaës, 2014).

Entretanto, as famílias que chegam ao novo país vivem um impasse a partir do momento em que os filhos circulam pelo mundo social, uma vez que na escola entrarão em contato com os aspectos antes desconhecidos desse mundo novo, aprenderão a nova cultura, língua, formas de se vestir e quando retornam às suas casas entram em conflito e precisam fazer um acordo com a família: o que fica do país de origem e o que vai? Por isso é necessária uma negociação psíquica para a manutenção de determinados conteúdos de origem da família, ou seja, apenas os sujeitos capazes que tramitar o luto da perda da cultura de origem poderão ter abertura para assimilar as novidades trazidas pelos filhos de forma interna e vincular, de forma que a cultura que ficou para trás e a nova se entrelaçam, formando uma rede com pontes que as fazem interagir-se em um processo de pertencimento e interculturalidade, que “se constrói como uma colcha de retalhos a partir da qual os sujeitos em vínculos se permitem fazer escolhas peculiares de integração e transformação cultural (Weissman, 2020, p. 21).

Os quatro desenhos que compuseram o DF-E e suas respectivas histórias revelaram os conteúdos psíquicos vivenciados no processo de migração, em que não há contorno na folha e nem chão, da mesma forma como o psiquismo, que sofre rupturas e desmalhagens (Benghozi, 2010) e busca encontrar um novo território para se fixar e permitir a inserção das pessoas nesse novo espaço, tal como a ideia de desenvolver raízes no novo território. Isso também está relacionado à terra de origem, que agora é distante e sem possibilidade de retorno, o que foi relatado pela mãe entrevistada, sobretudo devido à crise econômica que atinge o país.

Em suas produções, Ana revelou conteúdos de que a família está em melhores condições no Brasil, mas esse conteúdo surgiu permeado com o sentimento de estarem perdidos, do temor de serem esquecidos, de olharem para trás para não se perderem, fragilidades, solidão e medos, demonstrando que esses conteúdos foram os mais marcantes na produção da criança. Além disso, demonstra o impacto desses dois momentos decisivos na vida, o momento de crise e dificuldades vivido no país de origem e a mudança e melhora na vida associadas ao Brasil, um novo lugar. No entanto, o sentimento de fragilidade, de estarem perdidos permeia suas produções. Ana aponta ainda, a existência de uma marca identitária, referente ao uso de tranças em uma das filhas, demonstra a necessidade da preservação de alguns aspectos identitários que possam dar sentido tanto em relação ao pertencimento quanto à sua origem e revela a importância da transmissão psíquica para a família.

Ressaltamos que a família demonstra os impactos psicológicos dessa crise ou trauma que estão, em certa medida, relacionados às razões que provocaram o deslocamento e podem ser acentuados em contextos de refúgio, como é característico da migração venezuelana, uma vez que representam um sofrimento distinto, que envolve a expulsão de seu lar, além das circunstâncias concretas da partida, tais como o risco de uma catástrofe humanitária, perseguições, fome e ameaça à vida. Assim foi possível notar que tais impactos estão presentes seja no conteúdo das entrevistas com a mãe como nas produções de seus filhos e ilustram a violência representativa de um Estado que, ao contrário de desempenhar a função de proteção de seus cidadãos, promove a impossibilidade e a dificuldade da manutenção de vida, provocando um ataque às metagarantias, conforme aponta Benghozi (2022).

Podemos compreender que não se trata de algo tão uniforme e homogêneo com foi demonstrado nas produções infantis, mas consideramos a importância de mecanismos de defesa que visam proteger o psiquismo dos ataques vivenciados pelo grupo durante todo esse processo de transição, apontando uma idealização do Brasil, ou melhor, uma supervalorização do país de destino, como um mecanismo de compensação diante de todas as perdas, rupturas e sofrimentos decorrentes do movimento de deslocamento, processo que pode ser desencadeado diante da intensa fragilidade vivenciada pela família durante todo a sua trajetória de saída do país de origem, chegada e fixação no Brasil (Kaës, 2005, 2012).

Dessa maneira, considerando a preocupação da manutenção identitária e pertencimento relatados e os conteúdos expressos no DF-E, a importância em entender as rupturas causadas pela migração, de modo considerar o temor resultante dessas rupturas que buscamos destacar neste estudo, Correa (2013) enfatiza a intensidade do temor de perda das referências de pertencimento, que se manifesta nas tentativas de prolongar ou preservar o que é familiar e conhecido, o que pode dificultar a exploração de novas oportunidades de crescimento sem que haja, necessariamente, a perda de suas origens. Para a autora, o percurso que se inicia com a chegada e a permanência em um novo local é visto como uma longa “travessia”, sem um tempo determinado ou um destino final, o que nos permite compreender o nível de sofrimento gerado pela fragilização ou quebra dos marcos identitários, que provoca um deslocamento narcísico, seja por meio da diminuição dos investimentos ou da supercompensação defensiva típica da ruptura dos laços intra e intersubjetivos.

Além disso, apontamos a existência de uma experiência traumática em toda a travessia migratória da família, associadas a perdas, como a do objeto de afeto (ausente durante o momento que migraram e as crianças ficaram sozinhas), a preocupação com a sobrevivência, inclusive dos familiares que permaneceram na Venezuela, das condições de precariedade na chegada e os primeiros momentos vividos no Brasil. Em muitos momentos, os pais tentaram não explicitar aos filhos as situações de crise, como uma maneira de proteção, mas que pode revelar a existência de conteúdos que têm potencial para a constituição de conteúdos que remetem à transmissão psíquica transgeracional, uma preocupação sempre presente em relação a famílias migrantes, sobretudo devido a experiências de intenso sofrimento que atravessam essas famílias. Benghozi (2010) afirma que o traumatismo como herança desse conteúdo não metabolizado pode gerar a repetição da cena da violência, mesmo após várias gerações de forma transgeracional, em que serão passados os conteúdos brutos, com lacunas e vazios.

Considerações Finais

A despeito de todas as crises, rupturas e fragilidades ocasionadas pelo movimento migratório na família, bem como dos conflitos relacionados ao pertencimento e à negociação da identidade, é possível observar um movimento de interação entre as culturas envolvidas, visando a formação de uma identidade intercultural. Para que esse processo ocorra, é fundamental uma flexibilidade no grupo familiar que permita uma negociação psíquica para decidir quais elementos manter, quais abandonar e a capacidade de criar e dar origem ao novo.

Consideramos que a situação migratória gera a ameaça de rupturas identitárias e pode desorganizar as funções familiares, especialmente a transmissão da cultura e do patrimônio simbólico, que são fundamentais para o sentimento de pertencimento e identidade. A maior inserção e autonomia dos filhos na nova cultura podem ameaçar as alianças familiares e reativar os medos associados à migração, como a perda do mito de origem e a fragilidade dos vínculos intersubjetivos que sustentam a unidade familiar.

As crianças que migram com os pais se inserem no mundo da cultura por meio das escolas e lá entrarão em contato com os aspectos referentes à identidade, gerando um conflito, e a família, em uma tentativa de manter a construção identitária, acaba se fechando. Através das entrevistas com os pais e dos desenhos produzidos pelas crianças, é possível notar que o processo migratório envolve muitas violências, como a fome, exploração e dificuldades econômicas. Por mais que as crianças não tenham sido propriamente informadas sobre a migração, em todas as produções aparece esse elemento, juntamente com questões relativas à separação, perdas, tristeza e busca pela felicidade e união da família. É extremamente importante que a família consiga negociar entre aquilo que conhecem do país de origem e aquilo que recebem do país de destino, principalmente trazido pelos filhos, para que criem laços com o mundo social, dando origem a um lugar novo, psíquico e físico e de pertencimento.

Além disso, ressaltamos a importância do cenário político, econômico e social que acompanhou a família desde a saída do país de origem à chegada e permanência no Brasil, apontando que as políticas de acolhimento são fundamentais para a oferta de espaços que realmente acolham essas famílias, no sentido de um envoltório psíquico que possa favorecer a remalhagem familiar extremamente necessária para famílias migrantes.

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FinanciamentoPIBIC - CNPq

Recebido: 11 de Fevereiro de 2025; Aceito: 11 de Maio de 2025

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