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Vínculo

versión impresa ISSN 1806-2490

Vínculo vol.22  São Paulo  2025  Epub 16-Ene-2026

https://doi.org/10.32467/issn.1982-1492v22n19 

Resenha

Resenha do Evento II Simpósio “Grupo Familiar: Tecendo Saberes sobre a Vincularidade”

Event Review II Symposium “Family Group: Weaving Knowledge about Bonding”

Reseña del evento II Simposio «Grupo familiar: tejiendo conocimientos sobre la vinculación»

Fernanda Maria Donato Gomes1 
http://orcid.org/0009-0001-3490-9322

Solange Aparecida Emílio2 
http://orcid.org/0000-0002-7819-4365

Tânia Aldrighi Flake3 
http://orcid.org/0000-0002-6478-0187

1Psicóloga CRP22863. Possui graduação em Psicologia pelo Instituto Unificado Paulista (1984). Pós-graduação Lato Sensu em Formação De Professores Para O Ensino Superior pela Universidade Paulista (2010). Especialização em Saúde Mental: Assistência Psicossocial pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (2013). Associada, docente e secretária da diretoria do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das configurações Familiares (Gestão 2025/2027). Trabalha como psicóloga em consultório de psicologia. Atuando principalmente nos seguintes temas: supervisão, psicodiagnóstico, psicanálise, plantão psicológico e terapia familiar. E-mail: gomesfm@uol.com.br

2Psicóloga (CRP: 06/44593); mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1998), doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (2004), com pós-doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (2021). Supervisora clínica e institucional nos atendimentos em psicoterapia individual, em grupos, casais e famílias com o referencial da Psicanálise Vincular. Professora do curso de formação para o trabalho com grupos e coordenadora da Clínica Social do NESME (Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares). Membro do Conselho Executivo da Psicologia Revista e professora do curso de graduação em Psicologia da PUC-SP. E-mail: solange.emilio@terra.com.br

3Psicóloga, CRP 06/11483, mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP), Doutorado em Ciências da Saúde (USP), Especialista em Psicoterapia Familiar e de Casal (PUC-SP), Associada do Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares (NESME), docente no Curso de Formação para o trabalho com grupos, Cocoordenadora do Centro de Centro de Educação Permanente em Psicanálise dos Vínculos (CEPPV/NESME), Editora Vínculo (NESME). E-mail: siberi01@uol.com.br


Resumo:

O II Simpósio Grupo Familiar, promovido pelo NESME em Mococa (SP), reuniu profissionais e estudantes para discutir famílias e vínculos. O evento inovou ao acontecer em novo local, incluir espaço para crianças e acolher a diversidade. A programação contou com mesas temáticas, oficinas e atividades intergeracionais, reforçando a importância do diálogo e da integração entre gerações.

Palavras-chave: vínculo; família; grupo; relações intergeracionais; psicanálise

Abstract:

The II Family Group Symposium, organized by NESME in Mococa (SP), brought together professionals and students to discuss families and bonds. The event was innovative by taking place in a new location, including a space for children, and embracing diversity. The program featured themed panels, workshops, and intergenerational activities, reinforcing the importance of dialogue and intergenerational integration.

Keywords: bond; family; group; intergenerational Relations; psychoanalysis

Resumen:

El II Simposio del Grupo Familiar, organizado por NESME en Mococa (SP), reunió a profesionales y estudiantes para debatir sobre familias y vínculos. El evento fue innovador al realizarse en un nuevo lugar, incluir un espacio para niños y acoger la diversidad. La programación contó con mesas temáticas, talleres y actividades intergeneracionales, reforzando la importancia del diálogo y la integración entre generaciones.

Palabras clave: vinculo; familia; grupo; relaciones intergeneracionales; psicoanálisis

O II Simpósio Grupo Familiar: Tecendo Saberes sobre a Vincularidade, organizado pelo NESME, realizou-se em Mococa, interior de São Paulo, nos dias 31 de outubro e 1º de novembro de 2025. O encontro reuniu profissionais, pesquisadores e estudantes interessados nas temáticas das famílias e dos vínculos. Como equipe organizadora, acompanhamos com entusiasmo as trocas, debates e expressões que se desenrolaram ao longo desses dias, traduzidas nesta resenha que apresenta um panorama do evento sob a perspectiva de quem o construiu, destacando seus principais momentos, reflexões e contribuições.

Mococa é conhecida por sua história, arquitetura e tradições, e foi escolhida como um local acolhedor para discutir vínculos. Com suas ruas tranquilas, praças arborizadas e casarões imponentes que exibem a elegância do ciclo do café, a cidade guarda marcas de várias gerações. Assim como esses patrimônios de tijolo e madeira ressoam com o passado, o Simpósio abordou a importância do acesso às histórias familiares, ao possibilitar o reconhecimento das conquistas, dos desafios e das dores que constituíram esta cidade que se atualizam entre seus membros.

O evento reafirmou seu compromisso com a escuta aprofundada das vincularidades, mantendo a tradição dos eventos do NESME de realização de grupos psicanalíticos de discussão na sequência de cada mesa de apresentações. Isso possibilita conversas horizontais, nas quais a escuta e o diálogo são de fato ferramentas de construção coletiva e de afeto. Ao mesmo tempo, trouxe uma proposta inovadora que ampliou a experiência dos participantes de maneira muito significativa, que envolveu a presença das famílias dos participantes, incluindo as crianças, em momentos-chave do evento.

O destaque e grande diferencial desta edição foi a criação de um espaço simultâneo e intencional dedicado às crianças — filhos e filhas dos participantes, em sua maioria profissionais da saúde e da psicologia. Este espaço não foi apenas recreativo, mas um ambiente de elaboração e de conversação intergeracional.

Também, o evento contou com uma estratégia de acolhimento às diversidades, com a declaração inicial de nosso compromisso com o repúdio a qualquer forma de discriminação no evento, como racismo, homofobia, transfobia, entre outros. Também, a criação de um plantão para partilha, reconhecimento e cuidado, favorecendo o diálogo entre diferentes vozes a partir de uma escuta sensível para os casos em que eventualmente tais situações pudessem ocorrer.

O encontro iniciou com o espaço para a família, realizado na histórica sala do Cine Mococa, onde, em conjunto, pais e filhos assistiram a uma animação, que conta a história de uma família de migrantes, seus lutos, segredos e transformações. Enquanto os profissionais, seus parceiros e filhos adultos participavam de debates, as crianças, no mesmo ambiente, participaram de atividades expressivas conduzidas em uma oficina especialmente planejada para o grupo infantil. Mediadas por desenhos, colagens e pinturas, expressaram sua compreensão dos vínculos familiares, da força e capacidade de reconstrução dos grupos. Este local, que por décadas foi o palco de encontros comunitários e sonhos projetados, serviu como um cenário para a reflexão sobre as famílias de origem, a partir das histórias, das experiências e dos lugares ocupados por cada membro.

No dia seguinte, enquanto os profissionais tiveram a oportunidade de escutar e debater temas importantes — como famílias e migração, a experiência da Doula de Adoção, a oficina de parentalidade, o atendimento às famílias em embates jurídicos e a formação do profissional para o trabalho com famílias. As crianças ocuparam o espaço da Casa Rosa, um imponente edifício tombado pelo patrimônio histórico. Longe de ser apenas uma construção antiga, ele funcionava como uma vibrante escola infantil de contraturno.

Em seu interior, o casarão revelava uma arquitetura convidativa e misteriosa: além das grandes salas, havia um porão que aguçava a curiosidade mantendo uma atmosfera de mistério. O ponto central de sua beleza, contudo, eram os diversos quintais que se abriam em diferentes níveis, repletos de árvores frutíferas e recantos sombreados, perfeitos para a brincadeira ao ar livre.

Para completar a ambientação planejada para o universo infantil, a vida pulsava nesses espaços com a presença de pequenos animais de estimação da escola: galinhas e seus pintinhos, saguis visitantes e uma tartaruga, ensinando sobre o cuidado e a natureza.

Neste cenário lúdico e reflexivo, e sob o olhar de monitores treinados, as crianças participaram de oficinas cuja proposta era permitir que elaborassem, a partir de suas próprias vivências, uma compreensão afetiva e simbólica dos vínculos familiares.

Ao final do segundo dia de atividades, foi realizada a Produção do Sonho Coletivo, uma estratégia que utiliza a construção de um sonho fictício e elaborado em conjunto pelos participantes, que é analisado também de forma coletiva. Foi conduzida por Solange Aparecida Emílio e Tânia Aldrighi Flake e transformou as vivências do evento sobre a vincularidade em uma narrativa onírica compartilhada. O sonho criado foi intitulado como “não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”, frase que retoma o encantamento e a magia trazidos pela animação vista no início do evento, articulada à complexidade dos vínculos, assim como a dualidade entre o que é visível e o que atua nas entrelinhas das relações familiares. Constituiu uma impactante síntese dos dois dias de intensa construção de saberes sobre a vincularidade.

O ponto culminante mais simbólico foi durante o encerramento do encontro. As crianças retornaram ao espaço coletivo, compartilhando suas descobertas e percepções sobre a pluralidade das configurações familiares e sobre as formas de pertencimento e vínculo que identificaram em suas próprias experiências. Esse momento de retorno foi potente e legítimo, revelando como o espaço infantil pode ser também um lugar de elaboração, expressão e construção de sentido.

O encontro entre adultos e crianças foi uma das experiências mais renovadoras do simpósio e reforçou a necessidade de se pensar a família em movimento, em contínuo diálogo intergeracional.

O transbordamento dos afetos, iniciado nos espaços de trocas entre os profissionais e nas oficinas infantis, se expandiu, alcançando outros espaços de encontro e vínculos criados durante o evento.

Estar em Mococa, caminhando entre seus palacetes centenários, sentindo a atmosfera de uma época preservada, e resgatando a memória local, também convidou todos os participantes, inclusive as crianças, a valorizar seu próprio patrimônio afetivo.

Assim, o II Simpósio Grupo Familiar: Tecendo Saberes sobre a Vincularidade ampliou seu campo de escuta, reafirmando o compromisso do NESME com a produção de conhecimento que valoriza a experiência, a pluralidade e a dimensão humana das relações familiares.

Ao integrar as diferentes gerações familiares no mesmo espaço, criou-se um ambiente único de troca e aprendizado mútuo, promovendo uma experiência intergeracional de escuta, afeto e reconhecimento.

Assim, o evento destacou-se por três aspectos.

Primeiro, a realização em Mococa concretizou um anseio de longa data ao levar a proposta para um novo território, fortalecendo laços regionais e ampliando o acesso ao trabalho com famílias e grupos.

Segundo a inclusão de um espaço voltado às crianças ao reconhecê-las não apenas como tema, mas como presença viva e participante, reafirma o valor da escuta intergeracional.

Por fim, a criação do espaço de acolhimento representa uma inovação nas práticas do NESME, reafirmando seu compromisso ético com a diversidade e inspirando sua incorporação em todos os eventos futuros.

Essas três dimensões marcaram a inovação do evento, evidenciando desafios e a força criativa do grupo.

Recebido: 06 de Novembro de 2025; Aceito: 12 de Novembro de 2025

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