O II Simpósio Grupo Familiar: Tecendo Saberes sobre a Vincularidade, organizado pelo NESME, realizou-se em Mococa, interior de São Paulo, nos dias 31 de outubro e 1º de novembro de 2025. O encontro reuniu profissionais, pesquisadores e estudantes interessados nas temáticas das famílias e dos vínculos. Como equipe organizadora, acompanhamos com entusiasmo as trocas, debates e expressões que se desenrolaram ao longo desses dias, traduzidas nesta resenha que apresenta um panorama do evento sob a perspectiva de quem o construiu, destacando seus principais momentos, reflexões e contribuições.
Mococa é conhecida por sua história, arquitetura e tradições, e foi escolhida como um local acolhedor para discutir vínculos. Com suas ruas tranquilas, praças arborizadas e casarões imponentes que exibem a elegância do ciclo do café, a cidade guarda marcas de várias gerações. Assim como esses patrimônios de tijolo e madeira ressoam com o passado, o Simpósio abordou a importância do acesso às histórias familiares, ao possibilitar o reconhecimento das conquistas, dos desafios e das dores que constituíram esta cidade que se atualizam entre seus membros.
O evento reafirmou seu compromisso com a escuta aprofundada das vincularidades, mantendo a tradição dos eventos do NESME de realização de grupos psicanalíticos de discussão na sequência de cada mesa de apresentações. Isso possibilita conversas horizontais, nas quais a escuta e o diálogo são de fato ferramentas de construção coletiva e de afeto. Ao mesmo tempo, trouxe uma proposta inovadora que ampliou a experiência dos participantes de maneira muito significativa, que envolveu a presença das famílias dos participantes, incluindo as crianças, em momentos-chave do evento.
O destaque e grande diferencial desta edição foi a criação de um espaço simultâneo e intencional dedicado às crianças — filhos e filhas dos participantes, em sua maioria profissionais da saúde e da psicologia. Este espaço não foi apenas recreativo, mas um ambiente de elaboração e de conversação intergeracional.
Também, o evento contou com uma estratégia de acolhimento às diversidades, com a declaração inicial de nosso compromisso com o repúdio a qualquer forma de discriminação no evento, como racismo, homofobia, transfobia, entre outros. Também, a criação de um plantão para partilha, reconhecimento e cuidado, favorecendo o diálogo entre diferentes vozes a partir de uma escuta sensível para os casos em que eventualmente tais situações pudessem ocorrer.
O encontro iniciou com o espaço para a família, realizado na histórica sala do Cine Mococa, onde, em conjunto, pais e filhos assistiram a uma animação, que conta a história de uma família de migrantes, seus lutos, segredos e transformações. Enquanto os profissionais, seus parceiros e filhos adultos participavam de debates, as crianças, no mesmo ambiente, participaram de atividades expressivas conduzidas em uma oficina especialmente planejada para o grupo infantil. Mediadas por desenhos, colagens e pinturas, expressaram sua compreensão dos vínculos familiares, da força e capacidade de reconstrução dos grupos. Este local, que por décadas foi o palco de encontros comunitários e sonhos projetados, serviu como um cenário para a reflexão sobre as famílias de origem, a partir das histórias, das experiências e dos lugares ocupados por cada membro.
No dia seguinte, enquanto os profissionais tiveram a oportunidade de escutar e debater temas importantes — como famílias e migração, a experiência da Doula de Adoção, a oficina de parentalidade, o atendimento às famílias em embates jurídicos e a formação do profissional para o trabalho com famílias. As crianças ocuparam o espaço da Casa Rosa, um imponente edifício tombado pelo patrimônio histórico. Longe de ser apenas uma construção antiga, ele funcionava como uma vibrante escola infantil de contraturno.
Em seu interior, o casarão revelava uma arquitetura convidativa e misteriosa: além das grandes salas, havia um porão que aguçava a curiosidade mantendo uma atmosfera de mistério. O ponto central de sua beleza, contudo, eram os diversos quintais que se abriam em diferentes níveis, repletos de árvores frutíferas e recantos sombreados, perfeitos para a brincadeira ao ar livre.
Para completar a ambientação planejada para o universo infantil, a vida pulsava nesses espaços com a presença de pequenos animais de estimação da escola: galinhas e seus pintinhos, saguis visitantes e uma tartaruga, ensinando sobre o cuidado e a natureza.
Neste cenário lúdico e reflexivo, e sob o olhar de monitores treinados, as crianças participaram de oficinas cuja proposta era permitir que elaborassem, a partir de suas próprias vivências, uma compreensão afetiva e simbólica dos vínculos familiares.
Ao final do segundo dia de atividades, foi realizada a Produção do Sonho Coletivo, uma estratégia que utiliza a construção de um sonho fictício e elaborado em conjunto pelos participantes, que é analisado também de forma coletiva. Foi conduzida por Solange Aparecida Emílio e Tânia Aldrighi Flake e transformou as vivências do evento sobre a vincularidade em uma narrativa onírica compartilhada. O sonho criado foi intitulado como “não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”, frase que retoma o encantamento e a magia trazidos pela animação vista no início do evento, articulada à complexidade dos vínculos, assim como a dualidade entre o que é visível e o que atua nas entrelinhas das relações familiares. Constituiu uma impactante síntese dos dois dias de intensa construção de saberes sobre a vincularidade.
O ponto culminante mais simbólico foi durante o encerramento do encontro. As crianças retornaram ao espaço coletivo, compartilhando suas descobertas e percepções sobre a pluralidade das configurações familiares e sobre as formas de pertencimento e vínculo que identificaram em suas próprias experiências. Esse momento de retorno foi potente e legítimo, revelando como o espaço infantil pode ser também um lugar de elaboração, expressão e construção de sentido.
O encontro entre adultos e crianças foi uma das experiências mais renovadoras do simpósio e reforçou a necessidade de se pensar a família em movimento, em contínuo diálogo intergeracional.
O transbordamento dos afetos, iniciado nos espaços de trocas entre os profissionais e nas oficinas infantis, se expandiu, alcançando outros espaços de encontro e vínculos criados durante o evento.
Estar em Mococa, caminhando entre seus palacetes centenários, sentindo a atmosfera de uma época preservada, e resgatando a memória local, também convidou todos os participantes, inclusive as crianças, a valorizar seu próprio patrimônio afetivo.
Assim, o II Simpósio Grupo Familiar: Tecendo Saberes sobre a Vincularidade ampliou seu campo de escuta, reafirmando o compromisso do NESME com a produção de conhecimento que valoriza a experiência, a pluralidade e a dimensão humana das relações familiares.
Ao integrar as diferentes gerações familiares no mesmo espaço, criou-se um ambiente único de troca e aprendizado mútuo, promovendo uma experiência intergeracional de escuta, afeto e reconhecimento.
Assim, o evento destacou-se por três aspectos.
Primeiro, a realização em Mococa concretizou um anseio de longa data ao levar a proposta para um novo território, fortalecendo laços regionais e ampliando o acesso ao trabalho com famílias e grupos.
Segundo a inclusão de um espaço voltado às crianças ao reconhecê-las não apenas como tema, mas como presença viva e participante, reafirma o valor da escuta intergeracional.
Por fim, a criação do espaço de acolhimento representa uma inovação nas práticas do NESME, reafirmando seu compromisso ético com a diversidade e inspirando sua incorporação em todos os eventos futuros.
Essas três dimensões marcaram a inovação do evento, evidenciando desafios e a força criativa do grupo.














