Introdução
Pra você guardei o amor Que aprendi vendo os meus pais O amor que tive e recebi E hoje posso dar (...)
Por que amamos quem amamos? O que faz com que uma pessoa se apaixone por outra em particular e por vezes estabeleça com ela uma relação amorosa? Essas são questões interessantes de serem colocadas quando pensamos em um casal. Este último termo é ao que Weissmann (2021) destina-se a versar no “Dicionário de Psicanálise de casal e família”, e chama-nos atenção que a primeira frase que compõe sua definição é: “Relação de duas pessoas que se designam mutuamente como escolhidas para fazer parte desse vínculo, com uma certa permanência no tempo (a relação estável) e com habilitação para a sexualidade” (p. 68). Essa, portanto, é sua definição central de casal, da qual destacamos a palavra escolha, pois a autora é clara em afirmar que há na formação da conjugalidade uma escolha dos sujeitos.
A temática da escolha é um tanto quanto espinhosa para a psicanálise. Como mostram Costa e Gomes (2017), Freud desenvolve em sua teoria, ao mesmo tempo, ideias sobre um determinismo da vida anímica e conceitos que poderiam parecer produzir uma controvérsia ao trazerem a ideia de escolha, como por exemplo, os conceitos de escolha do sintoma, escolha da neurose e escolha de objeto. Os autores trabalham essa aparente controvérsia em seu artigo e chegam, então, à conclusão de que a escolha deve sempre ser pensada articulada à causalidade – enquanto reconhecimento de múltiplos fatores causais para os fenômenos psíquicos – ou, podemos dizer ainda, à exposição à experiência. Esta última, porém, não deve ser pensada apenas em termos hereditários, os autores ressalvam, mas principalmente no que concerne aos efeitos das experiências vividas na infância.
Portanto, pensar no que faz com que dois sujeitos se enamorem e construam um vínculo, passa, necessariamente, por pensar nas escolhas desses sujeitos a partir de suas experiências e marcas. É isto o que vemos a própria Weissmann (2021) deixar claro quando diz que “Cada sujeito traz um modelo de casal proveniente de experiências anteriores, tendo por base a relação com seus pais enquanto casal. (...) As vivências inconscientes estruturam o objeto casal introjetado, modelo que cada sujeito aporta ao casal” (Weissmann, 2021, p. 68).
A fala da autora nos recorda uma passagem do médico e poeta Lewis Thomas (como citado em Minuchin 1990, p. 21), de que “Há uma tendência das coisas vivas a se unirem, a estabelecerem vínculos, a viverem umas dentro das outras, a retornarem a arranjos anteriores, a coexistirem enquanto é possível”. Ou seja, a tendência à união e ao estabelecimento de vínculos caminha junto à de retorno a arranjos anteriores.
Eiguer (1989) postula que para melhor compreendermos a origem fantasística da família, contamos com a ideia de organizador, que possibilita situar os investimentos particulares entre os membros da família, e que ele divide em três principais: a escolha de objeto, o eu familiar, e a interfantasmatização. Aqui focalizaremos no primeiro deles, a escolha de objeto. Esta, segundo Eiguer (1989), se dá no momento de instalação da relação amorosa e sofre influência do Édipo de cada parceiro.
A postulação de Eiguer (1989) segue a orientação de Freud que, desde seus primeiros textos, como “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Freud, 1905/1996a), se refere ao amor como tendência a reestabelecer uma relação originária. Segundo ele, do primeiro e mais importante vínculo sexual com a pessoa que cuida, geralmente a mãe – que lhe contempla com sentimentos de sua própria vida sexual -, a criança retira uma fonte incessante de excitação e satisfações sexuais que lhe despertam a pulsão sexual tanto pela excitação da zona genital, como pela ternura. É isto que a ajuda a preparar a escolha do objeto com o objetivo de restaurar a satisfação perdida, levando a criança também a amar outras pessoas que a auxiliam em seu desamparo e satisfazem suas necessidades, de modo a dar continuidade ao modelo de relação inicial.
Freud (1905/1996a) fala também que o caminho mais curto para a criança seria escolher como objetos sexuais as mesmas pessoas que ama desde a infância com a libido amortecida. Entretanto, segundo ele, isso não é possível já que a maturação sexual é adiada e nesse período se ergue, dentre outros entraves à sexualidade, a barreira do incesto, uma exigência que exclui da escolha objetal os parentes consanguíneos amados na infância. Em virtude disso, as inclinações infantis só voltam a emergir nos seres humanos na esfera das representações, ou seja, por meio das fantasias.
Será, pois, centralmente nas obras destes dois autores que focalizaremos aqui. Mas, sendo psicanalistas até mesmo na escrita desse trabalho, não seguiremos uma ordem cronológica que nos faria primeiro apresentar as postulações de Freud para, em seguida, apresentarmos as de Eiguer, e sim faremos um trabalho no a posteriori, ou seja, primeiro traremos as postulações de Eiguer, baseadas nas ideias freudianas, para que depois possamos nos debruçar mais propriamente nesta fonte.
Em seguida traremos uma vinheta clínica de um caso atendido no Serviço de Psicologia Aplicada de uma universidade carioca que ilustra a relevância da investigação da escolha objetal em uma terapia de casal. O faremos, pois, por objetivarmos aqui um aprofundamento sobre a temática da escolha de objeto justamente em função de apostarmos que tal compreensão pode propulsionar desenvolvimentos no campo da terapêutica com casais. E, por sabermos que é muito importante que teoria e prática possam caminhar juntos, pois um embasa e fundamenta o outro de forma mútua, de modo que imbricados é que se pode avançar no campo da terapia com casais e famílias.
A escolha de objeto como organizador familiar em A. Eiguer
Como já apontamos acima, Eiguer (1989) afirma que a ideia de organizador é uma importante ferramenta para melhor compreendermos a origem fantasística da família. Tal conceito - que foi originalmente proposto por R. Spitz, posteriormente tomado por D. Anzieu e Kaës (1997) para pensar o processo evolutivo dos grupos, e trazido para a terapia de família por Ruffiot (1984) - é definido por Eiguer (1989) como:
uma formação coletiva para a qual contribuem os psiquismos pessoais, que concentra um jogo de representações psíquicas específicas do familiar e um denominador comum de emoções frequentemente exaltadoras. Fator de maturação e apaziguamento, o organizador familiar implica um salto progressivo na consolidação dos vínculos recíprocos. Do ponto de vista econômico, o organizador familiar reativa antigos investimentos, redistribuindo suas cargas pulsionais. Do ponto de vista tópico, o organizador permite a aparição (frequentemente, a reaparição) das instâncias coletivas como, por exemplo, o objeto-grupo familiar. Em outras palavras, a família tornar-se-á, por causa do organizador, um grupo constituído por indivíduos que possuem uma representação inconsciente deste grupo, no interior de seu próprio aparelho psíquico
(Eiguer, 1989, p. 29).
O autor acrescenta que o organizador, porém, implica trabalho psíquico e passagem por crises, pois a família sofre inúmeras metamorfoses para encontrar uma coesão. A partir disso, então, é que Eiguer (1989) fala a respeito dos três organizadores que citamos anteriormente: a escolha de objeto, o eu familiar, e a interfantasmatização.
A escolha de objeto, de acordo com Eiguer (1989), ocorre durante a instauração da relação amorosa e é influenciada pelo Édipo de cada membro do casal em formação. As famílias de origem preparam o sujeito, através do amor intenso e incestuoso e sua proibição, para investir em um outro grupo, que virá a ser sua família posteriormente. Eiguer (1989) afirma que, desde Freud (1913[1912-1913] /1996d), entendemos como o Édipo e a proibição do incesto têm um valor socializante. Por este processo, o sujeito encontra uma saída para a angústia de castração pela via da identificação paterna, orientado pelo ideal do eu e pelo supereu: perde-se a mãe e ganha-se a possibilidade de escolher outra mulher, mas não sem as marcas modelatórias que essa primeira deixa. O autor diz que se trata de uma liberdade condicional, pois o sujeito
procurará uma mulher como sua mãe (…) a escolha da parceira não se faz completamente ao acaso. O inconsciente individual é, de algum modo, utilizado. Esta escolha terá um valor semelhante ao das formações de compromisso inconsciente, como o sintoma ou o lapso. Comportará um alívio econômico e agirá frequentemente como um mecanismo defensivo. Podemos estimar, então, a importância desta escolha para a consolidação e a organização inconsciente do casal, os dois parceiros entrecruzam objetos inconscientes: a relação sentimental se alimenta desta descoberta de um parceiro que, como escreve S. Freud (1905), é uma redescoberta e ao mesmo tempo um resultado do amor infantil. A escolha é organizadora porque, ao evitar o desprazer, o indivíduo obtém aí uma vantagem: um amor possível, não é sua mãe, mas parece-se com ela, não é o amor total, mas é intenso… e a ameaça da castração é, então, afastada
(Eiguer, 1989, pp. 31-32).
Assim, os objetos inconscientes dos sujeitos membros do casal podem se entrelaçar, fundando um mundo objetal compartilhado. Ainda sobre a escolha do parceiro, Eiguer (1989), fazendo uma releitura da obra de Freud, aponta para três modalidades de escolha: a edípica; a anaclítica, que é regressiva em relação à dissolução do complexo edípico, notando-se nela “uma identificação parcial e narcisista à atitude infantil do próprio sujeito” (Eiguer, 1989, p. 33); e a narcisista, pautada pela busca de alguém semelhante ao que se é, foi, gostaria de ser, ou a uma parte que foi parte de si um dia. Mas, segundo o autor, pode ocorrer também a escolha do tipo defensiva ao duplo oposto do modelo parental.
Tais apontamentos de Eiguer (1989) demonstram claramente como ele desenvolve suas postulações a partir da teoria freudiana, como afirmamos acima, o que fará com que agora, no movimento a posteriori citado, nos dirijamos às postulações de S. Freud sobre a escolha de objeto.
Postulações freudianas sobre a escolha de objeto
Embora S. Freud não tenha se voltado em sua prática clínica e em suas postulações teóricas às especificidades do trabalho com casais e famílias, quando pensamos em um trabalho nesse campo norteado pela psicanálise, vemos que sua obra é orientadora primordial. Isto pois é em seus textos que os autores que desenvolveram esse campo se apoiam para construir suas bases, como vimos acima com A. Eiguer em relação ao tema da escolha de objeto amoroso. É por isso que nesse momento nos dedicaremos a apontar as postulações centrais de Freud a respeito dessa temática.
Dos textos iniciais de Freud pinçamos a concepção de que a atividade sexual infantil tem um papel de influência central nos posteriores enlaçamentos amorosos, como ele afirma em seu célebre texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade infantil” (Freud, 1905/1996a): “Não é sem boas razões que, para a criança, a amamentação no seio materno toma-se modelar para todos os relacionamentos amorosos. O encontro do objeto é, na verdade, um reencontro” (p. 210). Para o autor, portanto, o vínculo primevo da criança com a pessoa que lhe dispensa cuidados lhe desperta a pulsão sexual e contribui para a posterior preparação da escolha objetal, visando a restauração da satisfação perdida. Servindo tal vínculo como modelo, a criança poderá amar outras pessoas que a auxiliam em seu desamparo e satisfazem suas necessidades, visando dar continuidade ao modelo de relação inicial. A necessidade de voltar-se para outras pessoas justifica-se, como afirma Freud (1905/1996a), pela barreira do incesto que exclui da escolha objetal os parentes consanguíneos amados na infância, fazendo com que as inclinações infantis só voltem a emergir via fantasias.
Alguns anos depois, em “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914/1996e), ele reafirma essas postulações, e avança ao nomear o tipo e a fonte de ligação caracterizada pela influência dos primeiros objetos sexuais da criança – que são as pessoas responsáveis por seus cuidados, alimentação e proteção -, como amor anaclítico ou de ligação. Avança, ainda, ao revelar que, além deste, há também outro tipo de escolha objetal, que denominou de amor do tipo narcisista, no qual as pessoas procuram a si mesmas como objetos amorosos. Assim, Freud (1914/1996e) define que de acordo com os caminhos que levam à escolha de um objeto, uma pessoa pode amar: 1) Em conformidade com o tipo narcisista: o que ela própria é, o que ela própria foi, o que ela própria gostaria de ter sido, e, alguém que foi uma vez parte dela mesma; e, 2) Em conformidade com o tipo anaclítico (de ligação): a mulher que a alimenta e o homem que a protege.
Ainda nesse texto, a partir de suas considerações sobre o ideal do eu, Freud (1914/1996e) credita o apaixonamento ao direcionamento da libido do eu ao objeto, e a exaltação desse por sua transformação em um ideal sexual. Esse processo de idealização ocorre por esse objeto satisfazer as condições infantis para amar de acordo com a escolha objetal anaclítica ou, de acordo com a escolha objetal narcísica, visando ser utilizado substitutivamente à satisfação narcísica quando essa encontrou entraves. Desta forma, o autor afirma que:
O que possui a excelência que falta ao ego para torná-lo ideal é amado. Esse expediente é de especial importância para o neurótico, que, por causa de suas excessivas catexias objetais, é empobrecido em seu ego, sendo incapaz de realizar seu ideal do ego. Ele procura então retornar, de seu pródigo dispêndio da libido em objetos, ao narcisismo, escolhendo um ideal sexual segundo o tipo narcisista que possui as excelências que ele não pode atingir
(Freud, 1914/1996e, p. 107).
É tendo isso em vista que chegamos ao texto “Psicologia de grupo e análise do ego”, no qual Freud (1921/1996h) abordará mais profundamente o processo de idealização e postulará que esse, no qual se dá uma supervalorização do objeto amado à custa do amante, ocorre pois o objeto amado é posto no lugar do ideal do eu. Tudo isso, então, nos permite vislumbrar como, em Freud, o amor narcísico associa-se a uma idealização do objeto sustentada pela promessa da recuperação de uma felicidade e plenitude que se acredita vivenciada na condição primária, do narcisismo infantil.
Todas essas postulações nos apontam, então, a importância da construção das primeiras relações infantis na constituição do sujeito e em seus posteriores enlaçamentos amorosos, na medida em que ao versar sobre as escolhas amorosas anaclíticas e narcísicas, bem como ao falar sobre o amor ligado a uma idealização, o que Freud faz é mostrar o amor enquanto uma repetição ligada à situação edípica do sujeito, na qual o que se visa é um reencontro do objeto. Como está assinalado, portanto, os pais, enquanto primeiros cuidadores da criança, com quem essa vive suas primeiras trocas libidinais, são considerados como fundamentais para sua constituição e posterior escolha de objeto. O papel dessas figuras é notável principalmente no processo que Freud denomina Complexo de Édipo, central na construção do ideal do eu do sujeito e, logo, de seus posteriores relacionamentos afetivos.
O Complexo de Édipo tem um papel central na teoria freudiana. Em sua conceituação, Freud alude ao mito grego de Édipo, personagem que se vê às voltas com uma profecia de que mataria seu pai e se casaria com sua mãe. Tentando evitar a realização deste destino, e desconhecendo quem eram seus reais genitores pois fora abandonado quando criança, acaba realizando involuntariamente a profecia e furando seus próprios olhos ao descobrir a verdade. Um dos textos nos quais Freud faz importantes considerações a respeito do complexo edípico é na “Conferência XXI: O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais”. Neste, Freud (1917[1916-1917]/1996f), defende que este complexo pode não só ser considerado como núcleo das neuroses, mas também como índice da posição ocupada pela criança na sequência familiar, lugar que constituirá um fator fundamental na forma de sua vida posterior. Isso porque, segundo ele,
nos anos da infância anteriores à puberdade, quando o processo atingiu alguma definição, o objeto encontrado vem a ser quase idêntico ao primeiro objeto do instinto de prazer oral, que foi obtido por ligação [ao instinto nutricional]. Embora esse objeto não seja realmente o seio materno, pelo menos é a mãe. Dizemos que a mãe é o primeiro objeto de amor. (...) A essa escolha que a criança faz, ao tornar sua mãe o primeiro objeto de seu amor, vincula-se tudo aquilo que, sob o nome de ‘complexo de Édipo’, veio a ter tanta importância na explicação psicanalítica
(Freud, 1917[1916-1917]/1996f, p. 333)
Confirma esta concepção no texto “A dissolução do complexo de Édipo” (Freud, 1924/1996j), no qual afirma que o complexo de Édipo é o fenômeno central do período sexual da primeira infância e está intimamente ligado ao que ele chamou de complexo de castração, na medida em que este segundo ocasiona a destruição do primeiro. Isto porque, como Freud já havia afirmado um ano antes, em um texto de 1923/1996i, a demolição do complexo edípico implica o abandono pelo menino da catexia objetal da mãe, e tal lugar pode ser preenchido por uma intensificação da identificação com o pai, o qual, embora proíba o incesto, é também aquele que possibilita a abertura do caminho à satisfação com outras mulheres. Estas, entretanto, tendo como “referência” a mãe, primeiro objeto de amor.
O caminho percorrido acima nos permite visualizar sistematicamente a construção central da teoria freudiana a respeito da escolha de objeto. Mas, para além de nos apresentar sua construção ao longo de suas obras, Freud também nos permitiu visualizá-la problematizando tal questão no campo dos relacionamentos amorosos nos textos que constrói em meio aos que apresentamos acima e que, não à toa, reúne sobre o nome de “Contribuições à Psicologia do Amor” I, II e III, quais sejam: “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” (Freud, 1910/1996b), “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” (Freud, 1912/1996c) e “O tabu da virgindade” (Freud, 1918[1917]/1996g). Nesses textos, Miller (2010) aponta que Freud pensa a relação sexual através da temática da escolha de objeto, e que este último termo já demonstra de partida que na sexualidade humana o ser humano introduz a questão da escolha. Esta, de acordo com a leitura de Miller (2010), marca que, ao contrário da ideia sublime do amor que trata de algo que não se pode substituir, Freud trata sempre da possibilidade – e, mais ainda, da necessidade – de uma substituição.
Tal substituição trata-se da passagem do objeto fundamental para uma série de objetos substitutivos. Isto porque, segundo Miller (2010), o “problema” colocado pela escolha mostra que a matriz do conflito romântico está em que nem todos os parceiros estão autorizados, somente alguns, de modo que “o conflito essencial é a escolha entre o partenaire autorizado que está determinado pelas regras sociais da escolha e o partenaire não autorizado, ou talvez o partenaire proibido” (Miller, 2010, p. 13). Ou seja, é porque a mãe é, ao mesmo tempo, objeto escolhido e objeto proibido, que o objeto está sempre perdido e temos que fazer outra escolha.
Vale ressaltar que Miller (2010) diz isto mais especificamente levando em consideração a relação do menino com a mãe exposta por Freud em seu texto de 1910/1996b. Mas, tomando o texto de 1918/1996g, podemos fazer uma leitura similar no que concerne à relação da menina com o pai, pois Freud afirma que, com relação ao tabu da virgindade, o marido não passa de um homem substitutivo ao pai interdito. Segundo ele, o tabu da virgindade ocorre
pelo fato de que o primeiro homem a penetrar uma mulher, e que será depois interditado, proibido como tal, funciona como o primeiro substituto do pai. Quer dizer que o fato de trazer um homem não escolhido para deflorar a virgem responde a essa necessidade de normalizar a sexualidade feminina: a de introduzir um “menos-um”, um homem que funcionaria como se ele fosse o bom objeto, o objeto original, como se fosse o pai que logo será proibido pelo resto da vida sexual
(Miller, 2010, p. 17).
Assim, compreendemos que a outra escolha que é exigida e feita pelo sujeito, porém, não deixa de ter por base o primeiro amor infantil. Deste modo, na teoria freudiana são como substitutivos de um objeto fundamental anterior à imposição da barreira do incesto que os objetos de amor aparecem. Ou seja, desde S. Freud está marcado o atravessamento das escolhas amorosas por relações anteriores.
Método
Este trabalho consiste em um estudo teórico-clínico (Vorcaro, 2010), ilustrado com fragmentos de um caso de psicoterapia de casal atendido no Serviço de Psicologia Aplicada de uma universidade carioca. Para preservar o sigilo, utilizamos nomes fictícios. Além disso, é importante frisar que os membros do casal assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando a utilização dos dados clínicos para fins de ensino, pesquisa e publicação.
O casal embolado: uma ilustração clínica
Antonela e Dário começaram a namorar quando ambos tinham 13 anos. No início do relacionamento ela era uma menina segura, extrovertida e social, enquanto Dário era muito cuidadoso e atencioso com ela. Entretanto, ainda durante suas adolescências, Antonela o traiu algumas vezes, mas ambos optaram por dar continuidade ao relacionamento. Aos 15 anos de ambos, Antonela engravidou da primeira filha do casal, o que fez com que eles resolvessem passar a morar juntos. Após alguns anos, quando estavam com 21 anos, Dário descobriu uma nova traição de Antonela, época em que cogitou divorciar-se dela, mas não o fez pois descobriram que ela estava grávida da segunda filha do casal.
Três anos depois do nascimento desta filha, Dário foi preso, tendo saído da prisão apenas após três anos. Ainda na prisão, pedia a uma amiga favores relacionados à cobrança de uma dívida e, após sua soltura, envolveu-se com a mesma, com quem manteve um relacionamento extraconjugal por um ano. Após esse tempo, Dário decidiu findar esse relacionamento extraconjugal e, por estar sendo ameaçado, optou por revelá-lo à Antonela, que resolveu continuar a relação conjugal com Dário. No ano seguinte, Antonela procurou por psicoterapia de casal para ela e seu esposo.
Dário e Antonela chegaram à psicoterapia de casal, aos 28 anos de ambos, relatando que não estavam conseguindo se comunicar, vinham tendo muitas discussões e isso decorria do histórico de traições conjugais de ambas as partes, que havia tornado Dário indiferente a ela, e ela ciumenta e insegura. Em meio à psicoterapia, Antonela chegou a descobrir ainda uma nova traição do marido, situação na qual decidiu novamente permanecer no casamento e afirmou que o mais doloroso para ela não eram as traições, mas o desrespeito, as evitações e as agressões verbais de Dário para com ela.
Defendendo-se das acusações de Antonela, Dário dizia ter mudado ao longo dos anos na visão de Antonela por não mais priorizá-la como sempre fez, pois isso havia lhe causado muito sofrimento ao longo da vida. Acrescentava estar muito sobrecarregado por ser o único responsável financeiro pelas despesas da família, visto que Antonela não trabalhava, e ainda ser atrapalhado por ela em seu trabalho com ligações e desconfianças. Frente a essas falas, Antonela respondia afirmando seu desejo de trabalhar e justificando o fato de não o fazer por haver um acordo entre eles para que ela fizesse faculdade, cuidasse da casa e das filhas, além do próprio Dário.
Questionados sobre as configurações de suas famílias de origem, Antonela relatou ter perdido a mãe aos 2 anos e ter sido criada pelos avós maternos, embora sempre tenha tido contato com o pai e com a madrasta, que lhe davam assistência principalmente na época do tratamento, após o falecimento de seus avós. Dário, por sua vez, contou que aos seus 7 anos sua mãe saiu de casa, divorciando-se de seu pai por este ser dependente químico. Quando isso ocorreu, ele foi morar com a avó, mas só ficou em sua casa por um ano, tendo posteriormente ido morar na casa de seus tios, onde ficou até sua adolescência, quando voltou a residir com o pai. Quando Dário estava contando sua história, Antonela o interrompeu dizendo que ele precisava usar a palavra correta para falar sobre a saída de sua mãe de casa no que tangia a ele enquanto filho, e disse que ele havia sido abandonado. Ele negou, dizendo não se sentir assim por saber que a mãe havia feito o que precisava na época por sofrer no relacionamento com o pai. A única dor que Dário disse ter da época foi em função de, durante o período em que residia com os tios, ter sentido que era tratado e presenteado de forma diferente de seus primos, ganhando apenas aquilo que esses não queriam mais. Mas não se sentia injustiçado pelos tios, pois sabia que a obrigação de o sustentar era de seu pai, e não deles. Dário finalizou afirmando que atualmente tinha uma boa relação com os pais, mas sentir não poder contar com ninguém, ter sempre que resolver tudo sozinho.
Em dada sessão, em meio ao frequente embate entre eles, Antonela relatou que até a comida no prato de Dário tinha que colocar. Ao ouvir isso, ele riu e disse que nunca tinha notado que isso acontecia, alegando que também fazia coisas para ela, como levá-la de carro aos lugares que ela precisava ir. Dário seguiu queixando-se de Antonela não ser independente e sempre solicitar seu auxílio para coisas que deveria resolver sozinha. Ela lhe respondeu afirmando que não era dependente dele, mas sim desejava ter sua companhia e seu suporte, embora ele não entendesse isso e não disponibilizasse mais tempo para ficar com ela e com as filhas. Ele a acusou de não gostar mais de fazer as coisas que antes faziam juntos e ele gostava, como ir a festas, por ela ter ingressado em uma igreja evangélica e ficar a maior parte de seu tempo lá, não dedicando-se a ele do mesmo modo como à igreja. Ela justificou o fazer por só lá encontrar o acolhimento que desejava e não tinha dele.
Dário queixava-se a todo momento de sentir um desejo de Antonela de que ele fosse como ela, o que nunca ocorreria, mas revelou um desejo semelhante dizendo que queria que ela fosse forte e independente como ele. Justificava esse desejo dizendo que um dia ele poderia não estar mais lá e que não era bom ser dependente, que ele havia sofrido muito quando era dependente dela, pois ela o “largava”, fala que a fez acusá-lo de estar desejando fazer o mesmo. Apesar disso, ambos falaram de ocasiões em que ela saiu sozinha e ele foi procurá-la, e em uma sessão em que ele estava doente, admitiu sentir-se dependente dela. Retomando a situação em que ela disse que tinha que lhe dar até comida, ele disse que isso não era necessário, que quando quisesse comer podia fazê-lo na rua ou, quando em casa, pedir que ela encomendasse algo para ele. Com isso, sem notar, resumiu sua necessidade por ela à alimentação e demonstrou uma demanda de que ela ofertasse isso a ele de alguma maneira.
Gomes e Levy (2013) afirmam que as escolhas amorosas geralmente são carregadas de idealizações e projeções, o que dificulta a percepção do parceiro enquanto alteridade, outro, diferente do eu. Segundo as autoras, nesse processo há uma grande influência dos modelos familiares de origem na constituição do novo casal, fazendo com que muitos conflitos ocorram quando um não corresponde à idealização do outro. Como já apontamos acima, a escolha amorosa pode constituir-se de diferentes formas, mas, como destacam Magalhães et al. (2013), o que vemos em muitos casos é uma intensa demanda de completude dos membros do casal em uma tentativa ilusória de que a falta inerente não se revele para cada um deles.
No caso de Antonela e Dário isso fica claro quando notamos que, tendo ambos vivido uma experiência fusional primária difícil, visto que Antonela enfrentou um falecimento materno na primeira infância, e Dário um abandono materno, eles movimentam-se regressivamente na escolha do parceiro. Ao longo dos atendimentos, questionamo-nos se a escolha objetal poderia ser compreendida como uma escolha narcísica ou anaclítica. Desde o início nos pareceu, contudo, um tipo de escolha regressiva em relação à etapa de dissolução do Complexo de Édipo. Apesar de a mãe de Dário tê-lo abandonado concretamente aos 7 anos, foi possível notar em seu discurso um esvaziamento no sentido dos investimentos maternos já desde o início da vida. Nesse sentido, a ausência da mãe constituía-se como marca de sofrimento para ambos, que pareciam procurar um no outro ora restauração da completude narcísica, levando-nos a pensar no tipo de escolha narcísica, ora uma substituição fantasística do objeto mãe perdido - por luto no caso de Antonela, e por abandono no caso de Dário -, nos remetendo à escolha anaclítica. Assim, via conjugalidade, intentavam experienciar ora uma completude, ora uma substituição da mãe perdida, o que acabava gerando constantes discussões e ameaças de separação nunca concretizadas, que acabavam por reiterar o temor da perda. Isso ocorria porque, se na conjugalidade há uma expectativa de que os parceiros atualizem as relações primordiais com a mãe,
Em momentos remotos, essas relações incluem ódio e amor direcionados ao mesmo objeto, gerando grande ambivalência emocional. Nesse sentido, o cônjuge, uma vez eleito, será alvo de inúmeras projeções arcaicas, de cunho tanto amoroso quanto hostil, colocando a ambivalência infantil em foco novamente no contexto da conjugalidade
(Magalhães et al., 2013, p. 23).
Ou seja, a relação com a mãe atualiza-se na relação conjugal na medida em que, tal qual a mãe é depositária dos mais intensos sentimentos de amor e ódio, o cônjuge eleito também o será (Titan, 1999). Nos parece, porém, que, no caso de Dário, a ambivalência em relação à mãe ficava recalcada, ao passo que a ambivalência direcionada à Antonela era manifestada. O abandono de sua mãe na infância parecia por ele recalcado e era negado, mas fazia sombra em sua relação amorosa com Antonela, de quem ele demandava um cuidado alimentar semelhante ao materno, e ao mesmo tempo temia o abandono da mesma e direcionava a ela sentimentos ambivalentes manifestos.
Isso associa-se à postulação de Fagundes (1999) de que em casos de vivência fusional primária marcada por grandes dificuldades, na relação conjugal o sujeito pode permanecer ou retornar ao estado narcísico de “ilusão de fusão”, o qual tem a potencialidade de reativar as relações objetais internas primitivas. Nesta direção, Kernberg (1995) aponta que os parceiros atuam as fantasias fundadoras do casal via identificação projetiva. Segundo ele:
O desejo inconsciente de reparar os relacionamentos patogênicos dominantes do passado e a tentação de repeti-los em termos de necessidades agressivas e vingativas insatisfeitas resulta em sua reencenação com o parceiro amado. Através da identificação projetiva, cada parceiro tende a induzir no outro as características do antigo objeto edípico e/ou pré-edípico com quem ele ou ela tiveram conflitos
(Kernberg, 1995, p. 80).
Ou seja, quando o objeto interno de um é colocado no parceiro via fusão e identificação projetiva e prevalece a ilusão de fusão no casal, o outro não é mais percebido enquanto tal, mas funciona como um depositário dos conflitos edípicos e pré-edípicos do parceiro.
Porém, de acordo com Eiguer (1989), “a ilusão dura pouco tempo, a desilusão logo invade os amantes e põe à prova a solidez do vínculo sentimental” (p. 46), visto que o sujeito se confronta com a alteridade de seu objeto amoroso, frustrando-se. Isso pode gerar uma série de reações, de acordo com a qualidade do vínculo conjugal. Sobre isso, Magalhães e Féres-Carneiro (2003) apontam que a saúde do vínculo conjugal depende da identificação objetal que ocorre entre os companheiros conjugais: se via introjeção, pode-se assimilar o parceiro criativamente preservando sua alteridade; se via incorporação, o componente alteritário é desconsiderado, o que pode levar a conjugalidade a aniquilar-se. É necessário o reconhecimento da alteridade na conjugalidade para que as subjetividades dos parceiros sejam suficientemente discriminadas (Magalhães, 2018). Diante disso, muitas vezes presenciamos as solicitações de litígio. Entretanto, como afirmam Antunes et al. (2010), para que o vínculo de fato se dissolva, “o desejo de ruptura deve-se sobrepor ao desejo de complementaridade, caso contrário, os sujeitos se manterão numa eterna tentativa de separação” (p. 205).
É tal tentativa sempre frustrada de separação que vimos, portanto, em Dário e Antonela, cuja conjugalidade, embora aniquilada em muitos pontos, sustentava-se no fio da navalha pois ambos se encontravam embolados e fixados ao desejo de complementariedade, permanecendo no campo da ameaça.
Considerações Finais
É consenso entre autores do campo da psicoterapia de casal - aproximem-se eles mais de uma perspectiva psicanalítica ou de uma perspectiva sistêmica - que a escolha conjugal é um tema de suma relevância no estudo das questões concernentes aos casais e à formação das famílias – visto que essas últimas se formam a partir da eleição de uma parceria. Por isso, debruçar-se sobre esse tema é importantíssimo, visto que lançar luz sobre tais pontos nos permite avançar no campo da psicoterapia de casal e de família.
Foi a isso, portanto, que nos dedicamos aqui, e partimos justamente da questão da escolha de objeto amoroso, sobre a qual já versou com preciosismo S. Freud, em cuja obra outros autores, como A. Eiguer, inspiraram-se anos depois. Através da leitura desses autores, pudemos depreender que a escolha feita pelo sujeito, embora nova e única, não pode ser considerada tão inédita e espontânea, pois tem por base o primeiro amor infantil. Na teoria freudiana, são como substitutivos de um objeto fundamental anterior à imposição da barreira do incesto que os objetos de amor aparecem. Ou seja, desde S. Freud está marcado o atravessamento das escolhas amorosas por relações anteriores, o que faz afirmar que todo encontro objetal é, na verdade, um reencontro. Por isso, é sempre preciso considerar as dinâmicas inconscientes que ligam os cônjuges, não só para compreendê-las, mas também para elaborar as heranças recebidas, visto que essas podem ter a capacidade de gerar transtornos para o casal.
Dizemos isso pois as escolhas e os vínculos que dela resultam podem ser terapêuticos ou destrutivos para os sujeitos, ou seja, podem fixá-los em relações marcadas pelo trauma e com um funcionamento patológico, ou impulsioná-los a mudanças em direção à saúde. É isso que aponta Kaës (2009), dentre outros autores, que afirma que o encontro amoroso muitas vezes propicia um reencontro de uma relação narcísica perdida e, por isso, uma ilusão de completude. Entretanto, o reconhecimento da alteridade do objeto é também imprescindível. Deste modo, os eus conjugais dos casais se constituem pelo apagamento das fronteias egóicas de seus membros - via processos de identificação, idealização e clivagem atravessados pela questão da transmissão psíquica -, mas este apagamento deve ser apenas parcial. E é ainda nesse sentido que é necessário um processo de separação-individuação saudável da família de origem, que engloba uma revisão e um entendimento das experiências passadas, para a construção e o sucesso das relações futuras.
Buscamos demonstrar a importância disto através da ilustração clínica que trouxemos, cuja discussão nos permitiu afirmar que os conflitos existentes entre os membros do casal decorriam da defasagem entre a expectativa projetada de um membro sobre o outro - que tem por base seus referenciais infantis, suas questões parentais inconscientes -, e sua realidade. Tal defasagem consiste centralmente na impossibilidade de complementariedade reeditada da infância, a qual gera frustrações e reivindicações, e faz emergir a ambivalência de sentimentos.
Assim, diante de todo o exposto acima, finalizamos fazendo coro ao apontamento de Magalhães et al. (2013) de que o resgate da história geracional é fundamental na psicoterapia de casal e família, pois permite a elaboração de elementos que operam como obstáculos para a diferenciação entre componentes da intrasubjetividade e da intersubjetividade, permitindo uma mudança de posicionamento subjetivo em relação às famílias de origem e na conjugalidade.













