O número 2 de 2023 traz, além de pesquisas empíricas e revisão de escopo, um número crescente de revisões sistemáticas. Sabemos a importância do papel desses trabalhos para o avanço do conhecimento. Sabemos, ao mesmo tempo, da responsabilidade dos revisores e dos autores sobre cada uma dessas produções.
A qualidade metodológica das pesquisas, dos cobiçados ensaios clínicos randomizados, das revisões sistemáticas e de escopo, tem sido colocada na pauta das discussões dos periódicos. O que estamos oferecendo enquanto conhecimento? Quais os critérios que utilizamos para aferir nossos resultados?
Na área de ciências humanas não é comum vermos publicações nas quais a hipótese nula é o principal resultado. Haeffel (2022) em uma análise provocativa, destaca que a psicologia apresenta quase sempre resultados de sucesso. Esse autor sugere que já estaria na hora de a psicologia ficar “cansada de vencer”, pois em quase 100% dos estudos publicados na área as hipóteses são confirmadas e a hipótese nula sempre perde. Ironias à parte, o assunto é sério.
Nunca é tarde para relembrar a lição popperiana de que o que diferencia uma teoria científica de uma não científica é a possiblidade de a formulação teórica ser falsificável. Quando uma teoria é refutada, há um avanço no caminho do conhecimento. Por mais contraintuitivo que possa parecer, a ciência não progride com o acúmulo de resultados positivos.
A busca por evidências positivas parece fortalecer nos pesquisadores um viés de “não procurar” evidências negativas. Deve-se abrir espaço nas publicações para incluir e discutir criticamente aquilo que parece não ter funcionado em um estudo. Qual é bússola que tem orientado os pesquisadores? Não basta fazer pesquisa empírica ou revisão sistemática: esses estudos precisam, após avaliação crítica de seus aspectos metodológicos, oferecerem algum grau de confiabilidade sobre aquilo que estamos oferecendo como evidências científicas produzidas pela psicologia.
Com essa reflexão, encerro o trabalho editorial de seis anos e meio, que representou um ciclo de aprendizagem importante em minha trajetória profissional nessa atuação como Editora-chefe da RBTC (de julho de 2017 a 2023). O próximo número de 2023 será uma Edição Especial comemorativa do Prêmio Monográfico Bernard Rangé. Essa premiação, idealizada em 2013, pela diretoria da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas, na gestão de Carmem Beatriz Neufeld, buscou valorizar a pesquisa e o conhecimento. Sinto-me honrada por atuar em instituições comprometidas com a produção de conhecimento, com o trabalho sério e que que nos leva a avaliações constantes daquilo que vamos construindo. Essa é a força que me move. Essa despedida não representa um afastamento da RBTC. É uma alternância importante para que a revista continue nos rumos delineados desde o seu surgimento.
Desejo a vocês uma excelente leitura e profícuas reflexões.
Angela Donato Oliva.











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