O perfeccionismo é uma característica multidimensional de personalidade definida pela tendência a estabelecer elevados padrões pessoais e a avaliar o próprio desempenho de forma excessivamente crítica (Smith et al., 2022; Stoeber, 2018). Na tentativa de descrever esse construto, diferentes modelos teóricos emergiram, como: o modelo multidimensional de perfeccionismo de Hewitt e Flett (1991), que propõe o perfeccionismo auto-orientado, o perfeccionismo socialmente prescrito e o perfeccionismo orientado ao outro; o de Frost et al. (1990), que considera as dimensões padrões pessoais, dúvidas sobre ações, ordem, preocupação com erros, expectativa parental e crítica parental; e o de Slaney et al. (2001), cujas dimensões são padrões, discrepância e ordem. Independentemente do modelo, dois aspectos parecem ser centrais para a descrição do perfeccionismo: os esforços perfeccionistas (EP) e as preocupações perfeccionistas (PP) (Flett & Hewitt, 2019). Os EP dizem respeito à tendência a estabelecer para si mesmo padrões altamente rigorosos e de empenhar-se para alcançá-los; já as PP referem-se à tendência socialmente prescrita de compreender a perfeição como exigida pelos outros, além da propensão a ter autocrítica demasiada e a desacreditar na própria capacidade de alcançar os altos padrões estabelecidos (Gaudreau, 2021). Os níveis de perfeccionismo têm aumentado consideravelmente nos últimos anos, com destaque para adolescentes e jovens adultos (Curran & Hill, 2019). Esse fato é relevante, uma vez que níveis elevados de perfeccionismo estão associados a piores desfechos de saúde mental (Smith et al., 2022).
Não possível compreender o perfeccionismo como um fator transdiagnóstico, tanto de risco quanto de manutenção, dado que está presente em diferentes transtornos (Burcaş & Creţu, 2021; Lunn et al., 2023; Stackpole et al., 2023). Sabe-se que ambas as dimensões apresentadas estão relacionadas a uma série de desfechos clínicos, sendo que os da PP são negativos, enquanto os da EP são mistos (Flett & Hewitt, 2019), exceto pela relação de EP com transtornos alimentares já consistentemente demonstrada (Burcaş & Creţu, 2021; Lunn et al., 2023; Stackpole et al., 2023). Múltiplos estudos apresentaram a relação desse construto com ideação suicida (Flett & Hewitt, 2019) e com diversos transtornos mentais e síndromes, a exemplo de sintomas de burnout (Flett & Hewitt, 2019), depressão (Smith et al., 2022) e transtornos de ansiedade (Burcaş & Creţu, 2021). Vale mencionar que o perfeccionismo é um fator de vulnerabilidade não apenas para transtornos mentais, mas também para prejuízos interpessoais, além de apresentar relação com condições como preocupação e ruminação (Flett & Hewitt, 2019). Há, também, estudos que demonstram desfechos favoráveis associados a altos níveis de EP, por exemplo, menor procrastinação, em oposição ao caso das PP (Smith et al., 2022). Considerando a perniciosidade do perfeccionismo, pesquisadores têm direcionado atenção ao desenvolvimento de diferentes programas de intervenção para seu manejo e tratamento.
Nesse sentido, estudos anteriores têm explorado diferentes abordagens para o tratamento do perfeccionismo. Os programas existentes variam em termos de duração da intervenção, número de módulos, formato e duração das sessões. No entanto, a maioria é baseada na terapia cognitivo-comportamental para perfeccionismo (TCC-P) (Galloway et al., 2022). A TCC-P é baseada no modelo de perfeccionismo clínico (Shafran et al., 2002) e procura entender e intervir no perfeccionismo de maneira direcionada, atuando nos fatores de manutenção destacados pelo modelo, como autovalor atrelado a desempenho, padrões inflexíveis, vieses cognitivos e autocriticismo.
Na última década, metanálises conduzidas por diversos pesquisadores, como Galloway et al. (2022), Robinson e Wade (2021) e Suh et al. (2019), investigaram a eficácia da TCC-P em diferentes formatos de aplicação, modos de entrega e desenhos de estudo (ensaios clínicos randomizado, aberto, não randomizado, estudos de série de casos e qualitativos). A pesquisa desenvolvida por Pleva e Wade (2007), por exemplo, explorou os impactos da presença ou não de um terapeuta durante a intervenção, examinando a eficácia da autoajuda guiada versus autoajuda não guiada para o perfeccionismo, encontrando diferenças significativas na adesão ao tratamento e nos resultados. Também foram desenvolvidos estudos que examinaram as especificidades de um formato de intervenção em grupo, verificando a eficácia da TCC-P nessa modalidade (Galloway et al., 2022; Hamedani et al., 2023).
A revisão sistemática e metanálise mais recente, conduzida por Galloway et al. (2022), investigou a eficácia de ensaios clínicos randomizados (ECRs) baseados na TCC-P em formatos de autoajuda (guiados e não guiados) e face a face, verificando os impactos das intervenções na redução do perfeccionismo e dos sintomas de ansiedade, depressão e transtornos alimentares. Ao todo, 15 ECRs foram incluídos no estudo, que contou com 912 participantes com idade entre 16 e 40 anos, sendo a amostra categorizada como não clínica e composta majoritariamente por mulheres (82%). A duração do tratamento variou entre 3 e 10 semanas (com média de 7 semanas) e de 3 a 13 módulos/sessões (média de 8). Verificou-se também que a maioria das intervenções foi administrada na modalidade remota e conduzida na Austrália (n = 10).
Em todas as modalidades de entrega verificou-se tamanho de efeito grande da TCC-P em medidas de perfeccionismo clínico (g = 0,87, 95% CI = 0,70-1,04) e de preocupação com erros (g = 0,89, 95% IC = 0,71-1,08); tamanho de efeito médio para medidas de padrões pessoais (g = 0,57, 95% IC = 0,43-0,72), transtornos alimentares (g = 0,61, 95% IC = 0,36-0,87) e depressão (g = 0,60, 95% IC = 0,28-0,91); a ansiedade, por sua vez, apresentou tamanho de efeito médio/pequeno (g = 0,42, 95% IC = 0,21-0,62). Esses resultados foram condizentes com outras metanálises, indicando que a TCC-P demonstrou eficácia em vários ECRs, incluindo formatos presenciais, pela internet e de autoajuda (Galloway et al., 2022). Tanto a modalidade face a face quanto a de autoajuda demonstraram diminuição dos níveis de perfeccionismo e sintomas de depressão, ansiedade e transtornos alimentares dos participantes. Além disso, o formato da intervenção não impactou significativamente no tamanho de efeito. No entanto, alguns estudos se propõem a investigar a eficácia da TCC on-line para tratar o perfeccionismo isoladamente e comparada à modalidade face a face, buscando, mais uma vez, verificar a existência ou não de uma diferença significativa entre elas (Egan, van Noort, et al., 2014; Shafran et al., 2017).
Nos últimos anos, o campo da saúde mental tem visto uma mudança significativa na utilização de plataformas on-line para sessões de terapia (Andersson & Berger, 2021). Uma abordagem específica que ganhou força é a psicoterapia de grupo on-line, que oferece uma série de benefícios que contribuem para sua crescente popularidade. Desde a pandemia de covid-19, que começou em 2020, o mundo enfrentou impactos diretos na saúde mental que afetaram significativamente a psicologia e, por consequência, os tratamentos propostos (Xiong et al., 2020). A modalidade face a face ficou prejudicada por motivos de contaminação e, assim, houve um avanço para formas de atendimento on-line. Isso não apenas acelerou a adoção de plataformas digitais, mas também destacou a importância de alternativas acessíveis e seguras para o processo terapêutico.
A transição para a terapia on-line trouxe à tona várias vantagens adicionais. Por exemplo, pacientes que anteriormente enfrentavam estigmas ao buscar ajuda psicológica passaram a sentir-se mais confortáveis ao acessar sessões no ambiente seguro de suas casas. Outro fator é a melhora da acessibilidade aos serviços de saúde mental, quebrando barreiras geográficas e permitindo que indivíduos de diversos locais participem de sessões de terapia de grupo. Esse aspecto é especialmente crucial para aqueles que vivem em áreas remotas ou com mobilidade limitada. Além disso, a participação em um grupo on-line cria um sentimento de comunidade e apoio entre os membros, promovendo ligações que podem ser fundamentais no processo de cura (Smit et al., 2021). A flexibilidade no agendamento das sessões é outra vantagem, pois permite que os indivíduos frequentem a terapia sem os constrangimentos das tradicionais consultas presenciais. Nesse contexto, parte do resultado das intervenções em terapia cognitivo-comportamental em grupo (TCCG) provém da interação entre os membros. Isso é observado na relação entre participantes de um grupo ao oferecerem apoio e compaixão, efeito na diminuição de evasão e faltas, maior adaptabilidade dos pacientes ao tratamento, aprendizado e coesão grupais, remoção do foco em si mesmo e efeitos nos sintomas (Neufeld et al., 2017). Portanto, tanto os aspectos técnicos quanto os do processo em grupo devem ser considerados em uma intervenção.
A partir desse recorte, é possível observar diversas vantagens no uso da terapia cognitivo-comportamental guiada e on-line para perfeccionistas. Entre eles, o uso de intervenções remotas facilita o acesso a amostras específicas que ainda precisam ser mais bem estudadas, como alunos de pós-graduação, para os quais há uma lacuna considerável na literatura científica no que concerne à eficácia de intervenções para perfeccionismo. Esse grupo apresenta fatores relevantes para ser considerado uma população potencial para intervenções desse tipo. Pesquisas indicam que pós-graduandos apresentam níveis de sofrimento psicológico geral várias vezes acima da média da população geral, o que tem sido utilizado como base para argumentar a existência de uma crise de saúde mental na pós-graduação em âmbito internacional (Moran et al., 2020). Embora existam poucas pesquisas sobre o assunto no Brasil, evidências preliminares sugerem que esse cenário se repete no país (Costa & Nebel, 2018). Dois fatores são frequentemente citados como característicos do ambiente da pós-graduação: altos níveis de exigência e crítica constante. Esses aspectos são particularmente relevantes para a TCC, pois são considerados preditores do aumento do perfeccionismo e, consequentemente, do sofrimento psicológico. Essa hipótese é explicitada por Curran e Hill (2018), que argumentam que altos padrões de desempenho e críticas frequentes, somados à percepção de erro ou fracasso, levariam a altos níveis de PP e a sofrimento psicológico. Assim, esse cenário representa uma relevante oportunidade de pesquisa e intervenção.
Nesse sentido, o presente estudo tem como objetivo principal desenvolver um programa de aplicação on-line para perfeccionismo em pós-graduandos, baseando-se no programa “Superando o perfeccionismo” (no original, Overcoming Perfectionism), de Shafran et al. (2019). O programa desenvolvido aqui se difere do proposto por Shafran et al. (2019) não apenas em relação ao conteúdo dos módulos, mas também por ter um formato de aplicação síncrono, em grupo e guiado por um terapeuta (ao invés de autoguiado).
Além disso, pretende-se avaliar a validade de conteúdo do programa desenvolvido por meio da análise de especialistas. Essa validação refere-se ao quanto os itens de um determinado instrumento (seja ele interventivo ou avaliativo) podem ser considerados amostras representativas dos comportamentos que são a expressão do construto de interesse (Lopes & Aguiar, 2024). Um programa com validade de conteúdo indicaria que os principais elementos de uma intervenção para perfeccionismo em pós-graduandos foram contemplados. Não importante destacar que a validade de conteúdo é a forma inicial de se obter validade para um dado instrumento e, embora não garanta sua validade empírica, é um passo fundamental para garantir adequação teórico-conceitual daquilo que se está construindo.
Ao incorporar diversos modos de entrega e avaliar rigorosamente a validade do programa desenvolvido, pretende-se contribuir com informações adicionais à literatura acerca de possibilidades de entrega diferenciada de programas para tratamento de perfeccionismo e, ao mesmo tempo, facilitar o desenvolvimento de mecanismos de apoio personalizados para pessoas perfeccionistas.
MÉTODO
O objetivo deste estudo foi alcançado por três fases: tradução do programa de Shafran et al. (2019) intitulado “Superando o perfeccionismo” (no original, Overcoming Perfectionism) e construção de um novo programa de intervenção; investigação da validade de conteúdo por meio de análise de especialistas; e reunião de imersão da equipe de pesquisa para deliberação sobre as sugestões de modificação seguida de alterações finais. Este estudo encontra-se aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG; número do parecer 1.974.928). Não foram seguidas orientações específicas de nenhum grupo de autores para a definição do percurso metodológico desta pesquisa. Por se tratar de um estudo de construção e validação de conteúdo de programas de intervenção, não existem diretrizes consideradas padrão-ouro ou amplamente citadas para tal.
Fase 1 - Tradução do programa “Superando o perfeccionismo” (Shafran et al., 2019) e desenvolvimento de um novo programa de intervenção
A fase de construção do programa foi organizada em quatro etapas. A primeira consistiu em um grupo de estudos sobre intervenção em TCC-P, do qual participaram graduandos do curso de psicologia do Departamento de Psicologia da UFMG, membros do Laboratório de Avaliação e Intervenção na Saúde (LAVIS) e estudantes de pós-graduação interessados no tema, além da coordenadora do projeto. Foram estudados programas de intervenção em TCC-P, em especial a 2Є edição do livro de autoajuda Overcoming perfectionism (Shafran et al., 2019), os quais foram utilizados como referência para a elaboração da intervenção (ver Egan, Wade et al., 2014; Stoeber, 2018). Essa fase teve duração de 12 semanas, com encontros semanais de aproximadamente 2 horas. Para cada encontro, havia um programa de intervenção para perfeccionismo, lido previamente, e que era discutido em profundidade pelos membros do grupo. Os programas selecionados eram tanto aqueles disponíveis em estudos de caso com foco na redução dos níveis de perfeccionismo quanto aqueles que estavam disponíveis na íntegra em livros e artigos científicos sobre a temática, à época em que o grupo de estudos ocorreu (primeiro semestre de 2022). Foram incluídos apenas programas de intervenção de TCC e terapias contextuais. Cada membro do grupo era responsável por fazer uma breve apresentação do programa a ser debatido no dia, o que era seguido pela abertura do momento de discussão. Um dos membros do grupo era responsável por fazer uma ata do encontro, em que eram anotadas as principais características do programa (modalidade, abordagem teórica, número de encontros e conteúdos, entre outras), além de elencadas suas limitações e forças. O programa de intervenção “Superando o perfeccionismo (Shafran et al., 2019) foi traduzido e lido na íntegra, sendo que a decisão por utilizá-lo como base para a construção da intervenção que é foco do presente estudo deveu-se majoritariamente a: 1) disponibilidade dos módulos da intervenção e atividades previstas para o paciente estarem descritas na íntegra; e 2) maior número de evidências científicas disponíveis apontando resultados favoráveis de seu uso em pessoas perfeccionistas (detalhes podem ser vistos em Shafran et al., 2023). Como o programa de intervenção de Shafran et al. (2019) é direcionado ao paciente, não prevê uso em grupos e não é conduzido por terapeutas, a equipe entendeu que faria mais sentido construir um novo programa que se alinhasse melhor aos objetivos deste estudo, não sendo, portanto, necessária a autorização dos autores para sua adaptação. Ademais, como o livro encontra-se disponível para compra em vários sites, isso, por si só, dispensaria a solicitação de autorização por parte dos autores para seu uso em pesquisas.
A segunda etapa consistiu na tomada de decisão sobre o escopo da intervenção em duas imersões realizadas com a equipe do projeto. Cada uma das imersões teve duração de 4 horas. Nessa etapa, foram decididos os temas, os objetivos, as funções e as tarefas de cada um dos oito encontros propostos e, de maneira geral, a estrutura e o conteúdo de dois materiais auxiliares a serem produzidos: um guia do terapeuta e um guia do participante.
Na terceira etapa, foram elaborados os guias do terapeuta e do participante. Os dois materiais foram desenvolvidos considerando a presença de capítulos específicos para cada um dos oito módulos da intervenção e capítulos adicionais relacionados à intervenção. A quarta etapa consistiu na correção, revisão e edição dos guias.
Fase 2 - Estudo de validade de conteúdo por meio da análise de especialistas
Na segunda fase, foi feito um estudo de validação de conteúdo por meio da análise de especialistas. A versão do programa de intervenção, no formato dos guias do terapeuta e do participante, produzidos na fase anterior, foi submetida a um exame por parte de um comitê de juízes especialistas composto por profissionais da área da psicologia. A escolha desses profissionais ocorreu por conveniência e os critérios de inclusão foram: 1) ser graduado em psicologia; 2) ser mestrando ou já ter o título de mestre em psicologia; e 3) ter experiência clínica na área de TCC. Como critério adicional, era desejável que os especialistas tivessem experiência clínica e/ou de pesquisa com a temática do perfeccionismo.
O convite, acompanhado do questionário para avaliação, foi enviado via correio eletrônico a cada profissional. Usando uma escala Likert de 5 pontos, em que 5 significava que o critério fora totalmente contemplado, os especialistas deveriam usar os seguintes critérios para análise do material enviado: 1) clareza: se a linguagem é clara e compreensível; 2) coerência com a TCC: se está coerente com os princípios da TCC; 3) relevância do conteúdo: se o conteúdo teórico apresentado é relevante para a intervenção; 4) relevância das tarefas: se as tarefas propostas são relevantes para a intervenção; e 5) estrutura das tarefas: se as tarefas propostas seguem uma estrutura clara e adequada. Eles também foram solicitados a responder a duas perguntas adicionais mais abrangentes sobre a intervenção, tanto quantitativa quanto qualitativamente, da mesma forma que fizeram com os cinco critérios anteriores. As questões foram: a) considerando o manual como um todo, o quanto você acredita que a ordem dos módulos está adequada sob a perspectiva teórica da TCC?; e b) na sua opinião, o quanto esses módulos formam uma boa estrutura de intervenção em TCC para perfeccionismo? Não importante mencionar que a avaliação dos especialistas e as notas atribuídas por eles a cada um dos critérios elencados foram conferidas a cada um dos guias (do terapeuta e do participante) e continham, em detalhes, todos os procedimentos para aplicação da intervenção.
Participaram quatro especialistas, com idade entre 25 e 48 anos e tempo médio de experiência na área de 12 anos. Após a avaliação deles, foi calculado o coeficiente de validade de conteúdo (CVC) para verificação do nível de concordância dos juízes em relação à adequação dos itens avaliados. Para verificação da validade da primeira versão do programa, utilizou-se como indicativo uma média mínima de 0,80 (Hernandez-Nieto, 2002).
Fase 3 - Deliberação sobre as sugestões de alteração nos guias e revisão final
No formulário enviado aos juízes havia um campo aberto, ao final da avaliação de cada capítulo, destinado às considerações e observações a respeito da clareza e da pertinência do conteúdo proposto, caso fosse identificada alguma necessidade de mudança, aprimoramento ou exclusão. A equipe de pesquisadores realizou uma imersão para deliberar sobre as sugestões de mudanças mencionadas pelos especialistas. A essa reunião seguiu-se uma nova fase de alteração, revisão e edição dos guias, sendo que a última revisão foi feita pela professora coordenadora do projeto. Ao final dessa fase, obteve-se a versão final dos guias do terapeuta e do participante e o programa foi nomeado “Perfeccionismo em contexto: intervenção para a pós-graduação”. O percurso metodológico de construção e validação de conteúdo do programa foi sistematizado na Figura 1.
RESULTADOS
Fase 1 - Tradução do programa “Superando o perfeccionismo” (Shafran et al., 2019) e desenvolvimento de um novo programa de intervenção
O programa desenvolvido para modalidade on-line síncrona e em grupo consistiu em oito módulos de intervenção, cada um sendo realizado em um encontro semanal de 1h30, ao longo de oito semanas. O programa construído prevê a presença de um terapeuta principal e um coterapeuta para apoiar o primeiro na coordenação do grupo e na organização das atividades previstas. Os nomes dos módulos e seus objetivos principais estão detalhados na Tabela S1 do material suplementar. Apesar de terem conteúdos e objetivos diferentes, todos os encontros seguem a mesma estrutura geral: 1) saudação e verificação de humor dos participantes; 2) retomada do plano de ação da semana anterior, quando aplicável; 3) estabelecimento do roteiro do encontro, expondo os objetivos e os tópicos previstos; 4) conteúdo do encontro; 5) síntese dos pontos principais; e 6) feedback dos participantes sobre o encontro e despedida.
A fim de apoiar o terapeuta e o coterapeuta na operacionalização dos conteúdos previstos nos módulos, foram elaborados dois guias: o guia do terapeuta e o guia do participante, conforme mencionado na seção Método. Esses materiais visam auxiliar os terapeutas, coterapeutas e participantes no processo em grupo antes, durante e após os encontros. O guia do terapeuta, composto por 15 capítulos, fornece informações abrangentes e específicas para os profissionais. Os sete primeiros capítulos são teóricos e abordam temas como contexto da pós-graduação, características do perfeccionismo, teoria que embasa a intervenção (TCC), postura esperada do terapeuta, entre outros (ver Tabela 1 para uma descrição mais detalhada dos guias). Os oito capítulos seguintes tratam dos encontros da intervenção, detalhando objetivos, conteúdos, atividades e planos de ação propostos. Cada módulo é apresentado em um capítulo específico.
Tabela 1 Capítulos teóricos do guia do terapeuta
| Seção | Descrição |
|---|---|
| Capítulo 1 | Objetivo(s): apresentar a organização e composição da pós-graduação no Brasil; diferenciar as modalidades stricto sensu e lato sensu de pós-graduação; iniciar reflexão sobre a relação entre pós-graduação e saúde mental. |
| Capítulo 2 | Objetivo(s): explicar o que é perfeccionismo e sua relação com saúde mental. |
| Capítulo 3 | Objetivo(s): evidenciar a TCC como uma intervenção flexível para lidar com o perfeccionismo; informar sobre os -fatores de manutenção, vieses cognitivos, falhas de avaliação e comportamentos associados ao perfeccionismo. |
| Capítulo 4 | Objetivo(s): indicar as características e habilidades esperadas do profissional no processo psicoterapêutico, como empatia, aceitação, responsividade, autenticidade e autoconfiança. |
| Capítulo 5 | Objetivo(s): explicar a metodologia de pesquisa aplicada e o funcionamento de um ECR. |
| Capítulo 6 | Objetivo(s): informar acerca da estrutura, da frequência e do acesso aos encontros; delimitar as funções dos -terapeutas e coterapeutas. |
| Capítulo 7 | Objetivo(s): descrever as tarefas e os seus objetivos, que devem ser, dentro do possível, abordadas em cada uma das sessões da intervenção. |
O guia do participante é composto por oito capítulos, os quais correspondem analogamente aos oito últimos capítulos do guia do terapeuta, porém com uma linguagem adaptada ao público-alvo. Ele tem por objetivo ser um material de apoio e contém atividades e planos de ação a serem realizados pelos participantes. As atividades devem ser praticadas durante a sessão, junto ao terapeuta, enquanto os planos de ação devem ser realizados após a sessão correspondente, com a devida orientação do terapeuta. No início de cada sessão, o terapeuta fica responsável por checar a execução do plano de ação da semana anterior, a fim de dirimir possíveis dúvidas e facilitar a implementação dessa ferramenta na vida dos participantes.
Fases 2 e 3 - Estudo de validade de conteúdo por meio da análise de especialistas e versão final do programa.
Em relação às respostas quantitativas, a maioria dos critérios obteve um CVC de aproximadamente 1 em ambos os guias. Acerca do guia do terapeuta, apenas os critérios 1 e 5 ficaram com um CVC menor que 1. No guia do participante, todos os critérios alcançaram um CVC de 1. De modo geral, ambos os guias apresentaram CVCs aceitáveis em relação a todos os critérios avaliados, tendo em vista o ponto de corte de 0,80 (Hernández-Nieto, 2002). Ainda, ambas as perguntas adicionais obtiveram CVCs aceitáveis. Na primeira questão, os guias pontuaram 0,85. Na segunda, a pontuação foi de 0,95. Assim, ambos superaram o ponto de corte de aceitabilidade de 0,80 (Hernández-Nieto, 2002). Em relação à análise qualitativa das respostas dos especialistas, tanto em relação aos cinco critérios apresentados quanto sobre as perguntas adicionais, as sugestões de alteração foram divididas em três categorias pelos pesquisadores, explicitadas na Tabela 2.
Tabela 2 Categorias de sugestões de alteração
| Categorias | Exemplo de alteração |
|---|---|
| 1. Organização da ordem dos módulos por conta da coerência | Foi realizada a troca da ordem do módulo 5 com o módulo 6 nos guias do terapeuta e do participante. |
| 2. Revisão de ortografia e sintaxe | Na página 57 do guia do terapeuta, a escrita e a sintaxe do trecho “Os quais não só não -auxiliam” foram reorganizadas. |
| 3. Reformulação de atividades do plano de ação para maior engajamento | Foi padronizada a questão dos planos de ação: esclarecer qual atividade é plano de ação e qual é para ser feita durante o encontro. Foi explicitado que, quando tivesse plano, iria ser avisado. |
Os demais comentários foram positivos e de reforço ao trabalho, com discursos falando das adequações teórica e prática do material apresentado. As falas consistiram na análise da teoria da TCC, ressaltando a presença dos componentes essenciais para uma intervenção com a abordagem, como psicoeducação, planos de ação, modelo cognitivo, identificação e modificação de distorções cognitivas, flexibilização de comportamentos rígidos e itens semelhantes.
Finalmente, após a compilação dos resultados encontrados na fase 2, a equipe de pesquisa realizou uma imersão com a finalidade de discutir e deliberar sobre os ajustes finais a serem feitos, em que não apenas as sugestões dos especialistas foram consideradas, mas também uma nova leitura e análise do material foi realizada. Ao final dessa imersão, a equipe de pesquisa considerou o programa e os guias prontos para serem enviados à revisão ortográfica e à elaboração do seu layout final.
DISCUSSÃO
Este estudo teve como objetivo principal desenvolver um programa de intervenção, baseado no modelo cognitivo do perfeccionismo proposto por Shafran et al. (2019), para uso na modalidade on-line, síncrona, guiada e em grupo para pós-graduandos. Adicionalmente, pretendeu-se investigar a sua validade de conteúdo por meio da análise de especialistas. Como resultados, o estudo apresentou uma proposta de intervenção para perfeccionismo na pós-graduação direcionada para aplicação em grupos e de forma síncrona guiada por um terapeuta e por um coterapeuta, que foi compilada em dois guias (do terapeuta e do paciente). Ademais, os resultados encontrados no estudo de validade de conteúdo pela análise de especialistas apontam um elevado nível de concordância entre os juízes acerca da clareza, da viabilidade e da adequação de conteúdo do programa aos objetivos propostos. A seguir, tais resultados serão discutidos em maior profundidade e as limitações e contribuições do presente trabalho serão apresentadas.
As aproximações e os distanciamentos entre este programa e o desenvolvido por Shafran et al. (2019) podem ser pontuados em termos de conteúdo abarcado, formato de aplicação e modo de entrega. Sobre o conteúdo, nota-se que os conceitos e as intervenções centrais delineados por Shafran et al. (2019) foram conservados, com alguns acréscimos e mudanças. A literatura científica tem demonstrado como pessoas perfeccionistas podem se beneficiar de intervenções baseadas em mindfulness (Flett et al., 2021), o que foi integrado pelo programa, em dissonância com o dos autores de referência. Em adição, considerando que indivíduos perfeccionistas tendem a ter dificuldades para lidar com as emoções (Malivoire et al., 2019; Smith et al., 2022), foram incorporadas discussões relativas às funções das emoções e estratégias de regulação emocional (Gross & Ford, 2024), bem como à compreensão do sofrimento como proveniente da resistência à dor (Neff & Germer, 2019). Complementarmente, contribuições de Patel et al. (2023) e Wells et al. (2020) foram úteis para o embasamento da condução de prevenção de recaídas dos participantes. Dessa forma, evidencia-se o avanço em direção a uma maior integração de teorias cognitivas e comportamentais, ampliando as possibilidades da TCC clássica.
Ainda, é nítido que o público-alvo do estudo foi considerado nesta adaptação, haja vista que os exercícios, exemplos e reflexões contemplaram a realidade da pós-graduação no Brasil, o que se configura como um progresso na área, por ser a única intervenção em perfeccionismo com essa especificidade (Galloway et al., 2022). A ordem do conteúdo também divergiu e pode ser vista como um diferencial, já que foi estruturada pela equipe de pesquisa e adaptada de acordo com sugestões recebidas na fase de avaliação por especialistas. Destaca-se que, nessa etapa, o alto índice de concordância em relação a clareza, viabilidade e adequação de conteúdo dos dois guias, bem como as adaptações realizadas a partir das sugestões dos especialistas, possibilitaram maior robustez na construção do programa, sendo uma especificidade desta intervenção em relação às descritas na literatura.
As mudanças podem ser percebidas não somente no que tange ao conteúdo, mas também ao formato de aplicação e ao modo de entrega, como será apresentado a seguir. Diferentemente da proposta de Shafran et al. (2019), que se baseia em um livro de autoajuda, esta intervenção tem um formato em grupo on-line, com encontros síncronos mediados por um terapeuta e um coterapeuta e com os guias do terapeuta e do paciente como apoio. Por um lado, sabe-se que o formato de autoajuda não guiado apresenta vantagens em relação à sua disseminação em grande escala (Galloway et al., 2022). Por outro lado, foram incorporados outros fatores pertinentes, a exemplo do caráter grupal, que, como relatado por Galloway et al. (2022), não é comum em intervenções tradicionais. Essa configuração possibilita um senso de humanidade compartilhada e minimiza o sentimento de solidão, podendo ser altamente benéfica para o público-alvo em questão, dado que, como esclarecido por Flett e Hewitt (2019), pessoas perfeccionistas costumam ter dificuldades em suas relações interpessoais. Além disso, a dinâmica de grupo facilita a abertura para mudanças, uma vez que os participantes se sentem mais apoiados e motivados ao perceberem que não estão sozinhos, em um ambiente propício para experimentarem um senso de comunidade e pertencimento, os quais têm um significativo potencial terapêutico (Galloway et al., 2022; Yalom & Leszcz, 2020). Outrossim, a interação em grupo oferece múltiplas perspectivas e feedback imediato de pares, acelerando o processo de autoconhecimento e mudança, o que oportuniza aos indivíduos observarem e refletirem sobre suas próprias crenças, experiências e comportamentos (Galloway et al., 2022; Yalom & Leszcz, 2020).
Somado a isso, compreende-se que a presença de uma dupla de facilitadores, um terapeuta e um coterapeuta, é um diferencial tanto em relação ao programa da Shafran et al. (2019) quanto aos referidos na literatura (Galloway et al., 2022). Sobre esse ponto, destaca-se a relevância da presença do coterapeuta em um contexto grupal para o atendimento de demandas individuais que possam surgir durante os encontros, de forma a favorecer a personalização do cuidado e o andamento do grupo (Carneiro & David, 2017). A vantagem de a intervenção ser guiada por esses dois profissionais se torna ainda mais notável ao considerar a importância da relação terapêutica , especialmente no caso de pacientes com perfeccionismo (Hewitt et al., 2021). A presença dessa dupla de facilitadores também colabora com a identificação de particularidades dos membros do grupo e adequação do tratamento a partir disso, podendo contribuir para melhor adesão do paciente e para desfechos mais favoráveis em saúde mental. Adicionalmente, esses facilitadores podem utilizar os seus conhecimentos técnicos para agregar à intervenção, como ao manejar possíveis ativações emocionais, promover validação e auxiliar os participantes na compreensão do seu modelo perfeccionista. Tais conhecimentos técnicos e o próprio domínio do programa podem ser aprimorados no treinamento fornecido aos terapeutas e coterapeutas, elevando o nível de qualidade da intervenção, etapa que também é vista como um diferencial em relação aos outros programas, que não descreveram ter uma fase como essa (Galloway et al., 2022).
Outra mudança em comparação a Shafran et al. (2019) é o formato de guias estruturados tanto para os terapeutas quanto para os participantes, os quais são uma inovação em relação às outras intervenções apresentadas na literatura. Esses materiais servem como referência durante as sessões e para atividades complementares, proporcionando um suporte contínuo e facilitando a aplicação prática dos conceitos discutidos, bem como auxiliando na manutenção da integridade do programa mesmo ao ser aplicado por diferentes profissionais. Ademais, o detalhamento dos materiais sobre a estrutura dos encontros e acerca dos papéis do terapeuta e do coterapeuta durante o processo - além das informações sobre a própria pós-graduação no Brasil, TCC-P e formato de grupo on-line - diverge do material de Shafran et al. (2019). Além disso, constituem um arcabouço teórico diferente do que existe nos programas vistos na literatura científica da área e favorecem a replicabilidade da pesquisa devido às descrições bem delimitadas.
Vale mencionar que a escolha do formato on-line foi feita de forma alinhada com uma tendência crescente nas intervenções psicológicas (Andersson & Berger, 2021), principalmente após a pandemia de covid-19 (Xiong et al., 2020), bem como com o cenário interventivo preexistente (Galloway et al., 2022). A modalidade remota permite maior acessibilidade e flexibilidade para os participantes, além de ter possibilitado o acréscimo de atividades audiovisuais que não estavam presentes no programa de Shafran et al. (2019), sendo algo especialmente relevante tendo em vista que, conforme explicitado por Neufeld et al. (2017), o componente lúdico pode contribuir para o andamento do grupo. Em termos de estrutura, o programa adaptou o número de módulos estabelecidos por Shafran et al. (2019), de maneira a seguir um tempo de intervenção e número de módulos compatíveis com a média das intervenções já existentes (Galloway et al., 2022). Não possível hipotetizar que isso colabore com o tempo de assimilação dos conteúdos e de implementação das mudanças cognitivo-comportamentais almejadas.
Finalmente, é perceptível que, na construção deste programa, buscou-se preservar aspectos já validados pela literatura. No entanto, também foram identificadas áreas que poderiam ser melhoradas ou que ainda não foram tão bem exploradas pelos programas atuais. Com base nisso, foram adicionados elementos para oferecer uma abordagem mais abrangente e adaptada às necessidades específicas do público-alvo. Não importante salientar que este programa é pioneiro na criação de intervenção psicológica em perfeccionismo para pós-graduandos e egressos no contexto nacional. Isso permite não apenas a ampliação no atendimento às especificidades culturais e sociais desse público, mas também a expansão e o aprimoramento das práticas terapêutica s no país.
Uma das limitações deste estudo é que o programa não foi submetido à avaliação pelo seu público-alvo, o que poderia revelar problemas adicionais de inteligibilidade. O alto nível educacional dessa população diminui a probabilidade de tais problemas, ainda que não torne esse processo desnecessário. Outra limitação deriva do impacto do contexto e da cultura na formação de características de personalidade como o perfeccionismo. Não possível que especificidades da América Latina, do Brasil e suas regiões impactem o perfeccionismo de pós-graduandos brasileiros de maneira significativa, e essas diferenças podem não ter sido totalmente contempladas pelo programa. Este estudo faz três grandes contribuições para a literatura. A primeira delas é para a área da intervenção psicológica geral e é derivada do nível de clareza e detalhamento da intervenção representado nos seus materiais: guia do terapeuta e guia do participante. Intervenções que tenham tema, objetivo e passos de cada sessão claramente delineados são essenciais para que, futuramente, terapeutas e pesquisadores possam adequadamente replicar e investigar, incluindo comparativamente, sua eficácia. Isso é verdade, ainda que, como discutido no guia do terapeuta, os profissionais tenham liberdade e sejam encorajados a coordenar os encontros levando em conta os inputs dos participantes, o que pode significar que o previsto não seja sempre executado.
A segunda é para a área de intervenção e teoria em TCC para perfeccionismo e deriva do conteúdo coberto pela intervenção. O programa apresentado abrange o conteúdo clássico que integra intervenções baseadas em TCC, como modelo cognitivo-comportamental e psicoeducação sobre emoções, e o conteúdo clássico que em geral integra intervenções baseadas em TCC para perfeccionismo, como modelo cognitivo-comportamental do perfeccionismo. Entretanto, cobre também autocompaixão, motivação para a mudança e prevenção à recaída, conteúdos que têm constituído modelos recentes e que pesquisas atuais indicam serem importantes para intervenções tanto de maneira geral - no caso da motivação e da prevenção à recaída (Boswell et al., 2015; Robberegt et al., 2023; Zang et al., 2018) - quanto de intervenções direcionadas ao perfeccionismo (Shafran et al., 2023). Um programa com tais conteúdos permite a investigação da eficácia de intervenções que os incorporem em oposição a intervenções que não o façam, o que é benéfico para a área em TCC e pode informar avanços teóricos.
A terceira grande contribuição é para a área da saúde mental de pós-graduandos. Internacionalmente, esse grupo apresenta indicadores de sofrimento psicológico várias vezes acima da população geral, o que caracteriza a crise de saúde mental na pós-graduação. O programa apresentado neste estudo representa uma ferramenta interventiva que pode servir a profissionais da saúde mental e instituições envolvidas com a pós-graduação, de programas de pós-graduação a associações nacionais e ministérios. No entanto, tal potencial só poderá ser alcançado caso o programa tenha sua eficácia investigada e essa é a principal recomendação para futuros trabalhos. Além disso, é recomendável que pesquisas futuras investiguem a inteligibilidade do programa no público-alvo.
Este estudo apresenta o primeiro programa de intervenção on-line para redução de perfeccionismo em pós-graduandos brasileiros. Ele é baseado na TCC, abordagem psicológica mais eficaz no tratamento do perfeccionismo (Suh et al., 2019), e apresenta bons indicadores de validade de conteúdo. Pesquisas futuras devem se aprofundar na investigação da validade e verificar a eficácia do programa. Considerando a relevância do perfeccionismo para o entendimento da saúde mental de pós-graduandos e o contexto de crise de saúde mental nacional e internacional na pós-graduação (Costa & Nebel, 2018; Evans et al., 2018 ), essa ferramenta agrega ao corpo de conhecimento crescente, embora ainda insuficiente, de estratégias de intervenção e prevenção voltadas para a saúde mental de pós-graduandos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As evidências apresentadas ao longo deste estudo ressaltam a relevância de um programa de intervenção baseado na TCC para o tratamento do perfeccionismo em pós-graduandos. A construção e a validação de conteúdo do programa “Perfeccionismo em contexto: intervenção para a pós-graduação” representaram um avanço significativo no desenvolvimento de estratégias de apoio psicológico para essa população, que enfrenta altos níveis de sofrimento psicológico. O elevado índice de concordância entre os especialistas sobre a clareza, a viabilidade e a adequação do conteúdo do programa reforçam seu potencial como ferramenta interventiva promissora. Além disso, a abordagem on-line, síncrona e em grupo amplia a acessibilidade e a viabilidade da implementação da intervenção em diferentes contextos acadêmicos.
Apesar das contribuições deste estudo, algumas limitações devem ser reconhecidas. A ausência de uma avaliação direta do público-alvo quanto à inteligibilidade do material pode indicar a necessidade de ajustes futuros. Além disso, a influência de aspectos culturais específicos no desenvolvimento e na manutenção do perfeccionismo entre pós-graduandos brasileiros deve ser mais bem explorada. Como desdobramento, sugere-se a condução de estudos experimentais para examinar a eficácia da intervenção na redução dos níveis de perfeccionismo e sofrimento psicológico nesse grupo. Dessa forma, espera-se que este programa contribua não apenas para o campo da psicologia clínica e da TCC, mas também para políticas institucionais voltadas à saúde mental de pós-graduandos, promovendo maior bem-estar e qualidade de vida nessa etapa acadêmica.















