A educação em saúde pode ser definida como um conjunto de práticas educativas que visam à aquisição de conhecimento em saúde por parte da população, bem como ao aumento da autonomia sobre o próprio cuidado (Ministério da Saúde, 2012). Os materiais educativos em saúde configuram-se como uma forma de aplicação de tais práticas, ao esclarecer dúvidas e facilitar a compreensão de um público sobre determinada condição em saúde física ou mental. As vantagens de utilizar esse tipo de material incluem o acesso às informações pelo público leigo e a participação ativa de pacientes e de seus familiares no contexto de saúde (Organização Pan-Americana da Saúde [OPAS], 2023; Ramos et al., 2024). Esse formato de conteúdo também pode gerar maior autonomia em quem busca informações sobre saúde on-line (Comitê Gestor da Internet no Brasil [CGI.br], 2024), com a elaboração de cartazes, folhetos, cartilhas e aplicativos (Sona et al., 2022). Ao transmitir informações sobre as evoluções científicas em saúde, os materiais educativos auxiliam na promoção da saúde da população (OPAS, 2023). Quando voltado especificamente para a área de saúde mental, esse tipo de intervenção é denominado psicoeducação (Oliveira & Dias, 2023), que pode incluir informações sobre transtornos mentais específicos (Fortunata & Marback, 2022), bem como sobre os funcionamentos cognitivo, emocional e comportamental dos pacientes (Barlow et al., 2025).
Os materiais educativos em saúde têm potencial interventivo, porém, para isso, devem seguir fundamentos básicos em sua elaboração para que possam alcançar efetivamente seu público-alvo. Nesse sentido, o seguimento de diretrizes pode nortear a estrutura e os aspectos obrigatórios dos materiais para a obtenção de um nível de qualidade médio. Diferentes diretrizes são elaboradas, divulgadas e consolidadas para tipos específicos de materiais, como a diretriz CONSORT para relatos de estudos clínicos, que apresenta critérios a serem seguidos para a obtenção de um relatório de qualidade (Merkow et al., 2021).
A elaboração de uma diretriz de produção e de avaliação de guias em saúde é um processo baseado na compilação de dados, que sintetiza, sistematicamente, uma série de informações fundamentais a serem abordadas durante a criação de materiais educativos em saúde (Xie et al., 2020). Em primeiro lugar, é necessário que o profissional saiba onde buscar dados atualizados, o que auxilia na compreensão do que já está disponível ao público, além de conferir efetividade à ferramenta após sua divulgação (Greaney et al., 2020). Ademais, utilizar uma estratégia de escrita a partir de um roteiro de pesquisa qualitativa permite abarcar conteúdos validados cientificamente. Tais fatores favorecem a investigação de informações e a estruturação de argumentos coesos por meio da adaptação do que já se faz na ciência, o que facilita também sua execução pelos demais profissionais da saúde (Creswell & Creswell, 2021).
A consequência proporcionada pelo delineamento desses materiais está diretamente relacionada à efetividade da intervenção sobre o público a que se destina. A eficácia se dá pelo diálogo entre a equipe multiprofissional e o paciente, desde a construção até a distribuição dos materiais em conjunto aos significados atribuídos à doença (Echer, 2005). Pode-se observar tal resultado no campo da psicologia, por exemplo, diante de uma demanda como a dor crônica. Ao abranger a melhor evidência disponível (terapia cognitivo-comportamental) e a expertise clínica (psicoeducação a partir de uma cartilha), utilizam-se dois pilares das práticas baseadas em evidências para sua aplicação de acordo com os valores do paciente (Hayes et al., 2020). A possibilidade de inserção desses materiais no contexto do público aumenta a motivação tanto de quem oferece o serviço profissional quanto do paciente que recebe a ajuda, o que transmite esperança quanto à adesão de tratamento interligado à psicoeducação (Fortunata & Marback, 2022).
Apesar da existência de diretrizes para a elaboração de materiais educativos em saúde, nem sempre elas são utilizadas pelas equipes que os produzem (Furukawa et al., 2022). Diferentes motivos parecem estar envolvidos nessa lacuna. Uma das razões pode ser a falta de orientação procedural para diferentes áreas da saúde e, por consequência, uma generalização dos procedimentos para áreas que trabalham de diversas formas. Parece também haver dificuldade de interconexão entre as subáreas da saúde com relação às diretrizes de elaboração de materiais. Esse fator se deve à fragmentação do conhecimento científico, como na psicologia, em que se utilizam diferentes termos para educação para o público, como “orientação”, “psicoeducação” e “neuroeducação” (Oliveira, 2014; Oliveira & Dias, 2023). Essa heterogeneidade de escrita complexifica a conexão entre as áreas para a construção de medidas em comum. Logo, faz-se necessária a construção de diretrizes abrangentes para materiais em saúde que sejam capazes de unificar os campos mencionados, já que estes integram o corpo humano e a sua relação com o ambiente.
Além disso, a ausência de rigor na elaboração de materiais em saúde parece estar ligada à falta de critérios avaliativos para serem julgados por juízes e pacientes. Para validação, é preciso que o público avalie e revise o roteiro do material educativo, etapa crucial para o refinamento da alfabetização em saúde. Contudo, torna-se um desafio a construção padronizada de critérios relacionados à clareza e à compreensão do material acessíveis à resposta popular, o que, por fim, gera incompreensão e passividade por parte dos respondentes (Furukawa et al., 2022). Logo, tanto os materiais quanto as diretrizes de sua produção necessitam de adaptações culturais tangíveis às avaliações e às incrementações que não se restrinjam a juízes técnicos.
Existem diversos fatores que atestam a importância da elaboração de diretrizes em saúde mental, e cabe ressaltar que os principais estão alicerçados ao contexto em que estão situadas a pesquisa acadêmica e a necessidade de divulgação científica validada e traduzida ao público (Echer, 2005). Ao contextualizar o enquadramento de diretrizes em saúde mental, observa-se que, no Brasil, esses materiais ganham mais força pelo poder exercido no compartilhamento digital de dados, visto que as fontes mais utilizadas para consulta de informações em saúde mental são a internet e os profissionais da saúde (Oliveira & Dias, 2023).
Acredita-se que a união dessas duas frentes informativas seja necessária para construir e validar o conhecimento oferecido à população, pois, desse modo, oferta-se o acesso em larga escala, bem como o anonimato e o poder de escolha diante das informações buscadas. Logo, a utilização de materiais psicoeducativos on-line no formato de cartilha é uma forma válida de disseminar o conhecimento científico ao público leigo e de auxiliar pesquisadores na construção de outros materiais com a mesma finalidade (CGI.br, 2024; Sona et al., 2022).
Diante do volume de materiais produzidos e disponibilizados na internet sobre saúde mental, o objetivo deste estudo é desenvolver diretrizes para a elaboração e para a avaliação de materiais de educação em saúde. Em especial, pretende-se: a) identificar diretrizes já publicadas para tal; b) verificar quais procedimentos foram adotados por estudos de construção e de validação de materiais de educação em saúde; e c) compilar os critérios descritos nas diretrizes e aqueles utilizados pelos pesquisadores.
MéTODO
Trata-se de um estudo metodológico, ou seja, que avalia o processo de outros estudos de pesquisa em saúde, com o fito de identificar lacunas, vieses e práticas ineficazes no contexto de pesquisa e, por fim, propor melhorias e soluções (Mbuagbaw et al., 2020). Ao avaliar a qualidade metodológica existente, este tipo de estudo pode servir de precursor para o desenvolvimento de novas diretrizes (Lawson et al., 2020). No presente artigo, foram analisados os métodos de construção e de avaliação de materiais de educação em saúde. A partir da análise, os dados foram extraídos em quatro etapas, inspiradas em Lawson et al. (2020), Mbuagbaw et al. (2020), Song et al. (2019), AGREE Collaboration (2003) e Xie et al. (2020).
A primeira etapa consiste na identificação da necessidade de elaboração de diretrizes. Para isso, realizou-se uma revisão integrativa da literatura. Esse tipo de estudo busca fornecer uma compreensão abrangente de um tópico, ao incluir tanto a literatura empírica quanto a teórica (Oermann & Knafl, 2021). A pergunta norteadora foi “Qual é o estado atual do desenvolvimento de materiais de educação em saúde?”. A busca de artigos foi conduzida nas bases de dados Google Acadêmico, PubMed e SciELO a partir do termo (patient educational materials).
A segunda etapa corresponde à busca e à sumarização de dados existentes por meio da elaboração de categorias de temas recorrentes (domínios) e de seus componentes. Na terceira etapa, a equipe de trabalho discutiu sobre a inclusão ou exclusão dos domínios e seus componentes, com base em sua frequência e relevância, assim como a análise e o refinamento dos dados. Por fim, na quarta etapa, o material selecionado foi sintetizado e organizado na forma de diretrizes.
RESULTADOS
ANáLISE DE DIRETRIZES PARA ELABORAçãO DE MATERIAIS DE EDUCAçãO EM SAúDE
A revisão integrativa da literatura resultou em uma amostra inicial de 20 artigos sobre o uso de materiais de educação em saúde, em línguas portuguesa e inglesa, em um intervalo de publicação de 2000 a 2022. Esses estudos foram incluídos por estarem de acordo com os critérios de inclusão estabelecidos: a) abordar os critérios para a construção de materiais de saúde; b) ser redigido em português ou inglês; c) ser publicado em periódico científico, ou seja, não foram aceitos outros tipos de artigos, livros, capítulos de livros, relatórios, dissertações e teses; d) ser publicado entre o período de 2000 e 2022; e e) estar disponível na íntegra.
Os dados foram extraídos e organizados em uma ficha de coleta em formato de planilha, composta por espaço para título do material, principais resultados, discussão e referência. Nessa etapa, a leitura anterior foi aprofundada para um entendimento dos dados do material qualificado, para posterior sumarização das informações e criação de domínios e de itens relacionados às diretrizes (Lawson et al., 2020; Xie et al., 2020). A partir da leitura e da análise dos artigos, identificou-se a carência de checklists e de orientações para o desenvolvimento dos materiais. Os dados extraídos nessa etapa podem ser visualizados na Tabela 1.
Tabela 1 Dados dos estudos qualificados
| Autores e data | Título | Orientações sobre materiais de educação em saúde |
|---|---|---|
| Echer (2005) | Elaboração de manuais de orientação para o cuidado em saúde | Orientações vagas, porém indicou outros artigos relevantes. |
| Okuhara et al. (2017) | Designing persuasive health materials using processing fluency: a literature review | Orientações para design, linguagem, estruturação coesa, focado na persuasão. |
| Lee et al. (2011) | Suitability and readability assessment of printed educational materials on hypertension | Orientações para adequação cultural e qualidade dos materiais. |
| Helitzer et al. (2009) | Health literacy demands of written health information materials: an assessment of cervical cancer prevention materials | Orientações para legibilidade e compreensão dos leitores. |
| Williams et al. (2016) | Readability of patient education materials in ophthalmology: a single-institution study and systematic review | Orientações para escrita e adaptação cultural por meio da troca de termos. |
| Szabó et al. (2021) | Readability and comprehension of printed patient education materials | Orientações para medição da compreensão dos materiais. |
| Rodriguez et al. (2020) | Readability of online patient educational materials for coronary artery calcium scans and implications for health disparities | Orientações para melhor legibilidade dos materiais. |
| Early et al. (2020) | Literacy assessment of preimplantation genetic patient education materials exceed national reading levels | Orientações para legibilidade, compreensividade e clareza dos materiais. |
| Akansel & Aydin (2011) | Suitability of Turkish written patient educational materials related to breast cancer | Orientação para compreensividade dos pacientes sobre o conteúdo e sua satisfação com a escrita. |
| Seligman et al. (2007) | Facilitating behavior change with low-literacy patient education materials | Orientações para ação, design do material e estrutura da escrita. |
| Muir & Lee (2010) | Health literacy and ophthalmic patient education | Orientações para legibilidade, checklist, legibilidade e estruturação da escrita. |
SUMARIZAçãO DE DADOS
Após a análise dos materiais selecionados, foram identificados aspectos comuns entre eles, os quais foram descritos como componentes importantes para uma educação em saúde eficiente. Esses componentes foram: Domínio I - Qualidade das informações; Domínio II - Comunicação e adequação; e Domínio III - Critérios de avaliação.
Com base nos domínios encontrados, foram elaborados itens a serem incluídos nas diretrizes. A identificação inicial foi realizada por meio da leitura e da análise dos resultados encontrados, a fim de comparar os dados e distinguir os padrões temáticos. Os itens foram ranqueados conforme sua frequência nos materiais analisados, por meio de uma avaliação de 1 (menor frequência) a 5 (maior frequência) (Lawson et al., 2020; Song et al., 2019; Xie et al., 2020).
Os itens mais frequentes foram: acessibilidade de informações; utilização de linguagem simples; uso de imagens e/ou aspectos visuais de fácil compreensão; consideração do nível de alfabetização do público-alvo; e avaliação do material por pacientes. Esses aspectos estavam presentes em grande parte dos materiais analisados (nota 5 ou 4). Desses itens, o mais frequente na categoria (nota 5 - maior frequência) foi o uso de linguagem simples.
Itens moderadamente frequentes, de nota 3, foram: precisão ou arredondamento de dados numéricos; limitação de conceitos-chave; inclusão de exemplos concretos; legibilidade visual e de design; avaliação por profissionais da saúde; atenção do formato de entrega; e avaliação do nível de literacia. Itens menos frequentes, com notas entre 2 ou 1 foram: fundamentação dos dados em evidências; confiabilidade das fontes de dados; e desenvolvimento do material por profissionais da saúde.
ANáLISE, REFINAMENTO E SELEçãO DE ITENS
Os itens foram analisados por meio de sua frequência e relevância (Lawson et al., 2020; Xie et al., 2020), de forma que aqueles mais frequentes ou considerados relevantes foram incluídos na etapa seguinte, como parte da versão final das diretrizes desenvolvidas. Os itens foram distribuídos em três domínios: I - Qualidade de informações; II - Comunicação e adequação; e III - Critérios de avaliação.
O primeiro domínio incluiu os itens referentes à confiabilidade e ao embasamento científico das informações. Já o segundo domínio foi dividido em quatro categorias: legibilidade, design, sensibilidade e interatividade. Nestas, os itens adicionados foram: uso de linguagem simples; precisão de dados numéricos; limitação de conceitos-chave; inclusão de exemplos concretos; acessibilidade de informações; legibilidade visual e de design; consideração do nível de alfabetização do público-alvo; e atenção ao formato de entrega. Os itens foram distribuídos nas quatro categorias de acordo com a sua adequação.
Por fim, o terceiro domínio compreendeu os itens avaliativos: avaliação do nível de literacia; avaliação do material por pacientes; e avaliação do material por profissionais da saúde. Para além da inclusão dos itens mencionados, foram adicionados itens elaborados pelas autoras, especificados a seguir.
SíNTESE DE UMA NOVA DIRETRIZ E CHECKLIST
Para a criação de uma nova diretriz e do checklist que a acompanha (Tabela 2), foram separados os domínios e seus itens em dois módulos: Módulo 1 - Construção; e Módulo 2 - Avaliação. O Módulo 1 contém os Domínios I e II. Os itens identificados para o Domínio I foram analisados em dois aspectos: 1) se as informações são baseadas em evidências (de acordo com resultados de estudos empíricos e recomendações em saúde); e 2) se advêm de fontes confiáveis (bases de dados científicas, artigos científicos etc.). O Domínio II abrange as categorias de legibilidade, design, sensibilidade e interatividade. Na categoria de legibilidade, foram incluídos os itens: uso de linguagem simples, limitação do número de conceitos-chave, precisão dos dados numéricos e uso de exemplos concretos. A categoria design compreendeu o uso de imagens e de gráficos de fácil compreensão, a organização das informações e a diagramação. Na categoria de sensibilidade, foram adicionados os itens sobre a compreensão do leitor, ao considerar seu nível de alfabetização, tanto de maneira geral quanto no âmbito da saúde, das tecnologias da informação (se a distribuição do material for on-line) e da infraestrutura da região onde mora. Por fim, na categoria interatividade, foram adicionados os itens: presença de atividades interativas no material (p. ex., tabelas e planilhas para completar) e de ensino interativo (p. ex., informações específicas do público-alvo, como tomar decisões em saúde, como criar planejamentos em saúde).
Tabela 2 Checklist - Diretrizes para o desenvolvimento de material educativo em saúde
| MÓDULO 1 - CONSTRUÇÃO | ||
|---|---|---|
| DOMÍNIO I: QUALIDADE DAS INFORMAÇÕES | ||
| É baseado em evidências? Quais?________________ |
( ) Sim | ( ) Não |
| As fontes são confiáveis? Quais?_______________ |
( ) Sim | ( ) Não |
| DOMÍNIO II: COMUNICAÇÃO E ADEQUAÇÃO | ||
| Legibilidade: | ||
| Possui linguagem simples? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Tem coesão? É claro? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Possui limitação de conceitos-chave? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Possui dados numéricos precisos (arredondados)? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Possui exemplos concretos? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Design: | ||
| Possui imagens e gráficos simples, de fácil compreensão? | ( ) Sim | ( ) Não |
| As informações estão organizadas? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Foi realizada a diagramação do material? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Sensibilidade: | ||
| Foi considerado o nível de alfabetização? | ( ) Sim Se sim: ( ) Geral? ( ) Em saúde? ( ) Se on-line, nas tecnologias da informação e comunicação? ( ) Sobre infraestrutura de saúde local e regional? |
( ) Não |
| Todos os termos técnicos foram explicados? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Possui sensibilidade quanto à cultura? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Interatividade: | ||
| Possui atividades interativas, como espaços para completar? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Possui ensino interativo? | ( ) Sim Se sim: ( ) Ensina a criar planos de ação? ( ) Possui aspectos específicos ao público-alvo? ( ) Ensina a como tomar decisões em saúde? |
( ) Não |
| MÓDULO 2 - AVALIAÇÃO | ||
| DOMÍNIO III: CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO | ||
| Foi feita a avaliação do nível de legibilidade? | ( ) Sim Se sim: ( ) Possui nível mínimo de 6° ano? ( ) Possui escore de concordância entre avaliadores de no mínimo 90%? |
( ) Não |
| Foi avaliado por profissionais da área? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Foi avaliado por profissionais de áreas relacionadas? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Contemplou todos os aspectos do Domínio I? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Foi avaliado por pacientes? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Foi avaliado por familiares? (opcional) | ( ) Sim | ( ) Não |
| Contemplou todos os aspectos do Domínio II? | ( ) Sim | ( ) Não |
| Foi feita a avaliação da convergência com público e objetivos? | ( ) Sim | ( ) Não |
| O material é relevante para o público-alvo? | ( ) Sim | ( ) Não |
O Domínio III foi incluído no Módulo 2. Como itens deste domínio foram identificados aqueles referentes ao processo de avaliação do material. Dessa forma, tem-se a avaliação do nível de escolaridade da leitura pela fórmula de Flesch-Kincaid (Moreno et al., 2023). Ademais, acrescentou-se o cálculo do índice de concordância entre avaliadores, a partir da fórmula: % de concordância = número de avaliadores que concordaram ÷ número de total de avaliadores × 100 (Alexandre & Coluci, 2011). Um escore mínimo de 90% é necessário para que o nível de concordância seja considerado “bom” (Wynd et al., 2003). Quanto à formação dos avaliadores, consideraram-se as avaliações realizadas por profissionais da área e de áreas correlatas. Indispensavelmente, incluiu-se a avaliação por pacientes; e, de forma opcional, a avaliação por familiares de pacientes com a condição abordada. Por fim, adicionou-se a avaliação da convergência dos objetivos do material com o seu público-alvo, bem como a avaliação de sua relevância.
DISCUSSãO
A maioria dos estudos analisados trouxe a legibilidade como principal aspecto a se considerar durante o desenvolvimento de materiais de educação em saúde para pacientes (Akansel & Aydin, 2011; Early et al., 2020; Helitzer et al., 2009; Lee et al., 2011; Muir & Lee, 2010; Okuhara et al., 2017; Rodriguez et al., 2020; Seligman et al., 2007; Szabó et al., 2021; Williams et al., 2016). Isso se deve ao fato de muitos materiais já publicados apresentarem falhas quanto à legibilidade, como volume excessivo de texto, presença de termos técnicos que não são explicados ao leitor e estilo de escrita que seria compreendido somente por profissionais da área ou pessoas com nível educacional mais alto (Ahn et al., 2023; Luo et al., 2024; Nattam et al., 2023).
O principal motivo para o enfoque na legibilidade e na escrita com linguagem simplificada é a necessidade de ampliar o alcance de público. Se existirem falhas graves na legibilidade, como o nível elevado da linguagem, pode ser que o material não atinja seu objetivo principal. A American Medical Association recomenda que a escrita de materiais educativos em saúde seja elaborada, no máximo, tendo em vista o 6º ano do ensino fundamental (Weiss, 2007), porém, a maior parte dos materiais estrangeiros existentes apresenta níveis superiores a este (Lee et al., 2011; Rodriguez et al., 2020; Szabó et al., 2021). No contexto brasileiro, o alfabetismo é classificado em cinco níveis, em ordem crescente de funcionalidade: analfabeto, rudimentar, elementar, intermediário e proficiente (Indicador de Alfabetismo Funcional [Inaf], c2025). Os resultados de 2024 indicaram o predomínio de alfabetismo elementar (36%) na população brasileira, seguido do intermediário (25%). No que diz respeito à literacia em saúde (LS), as pesquisas nacionais não contemplam amostras representativas da população. Os estudos mais recentes encontraram níveis baixos de LS em adultos (Rodrigues et al., 2022) e níveis problemáticos em estudantes do ensino médio (Zompero et al., 2022). Em comparação, profissionais da saúde e da educação apresentaram majoritariamente níveis suficientes de LS (Portela et al., 2024).
Para além do uso da linguagem simples, a elaboração de material de apoio visual é um componente importante para a criação de materiais de educação para o paciente. Ao se considerar que uma parcela da população-alvo (25% ou mais) tem baixo nível de alfabetização e de LS, as imagens são um suporte para exemplificar, de forma mais concreta, os conceitos ensinados (Mbanda et al., 2021). Além do aspecto visual para esclarecer conceitos técnicos, as imagens e gráficos podem ser úteis para a explicação de componentes numéricos, como gráficos demonstrando a probabilidade de ter um sintoma ou o nível de risco de desenvolver alguma condição. O uso de imagens e gráficos simplificados, especialmente para dados numéricos, pode auxiliar a aumentar o nível de compreensão dos leitores e diminuir a desinformação (Furukawa et al., 2022; Mbanda et al., 2021).
Muitos dos estudos encontrados fazem algum tipo de sumarização quanto ao formato ideal de conteúdo dos materiais de educação em saúde para os pacientes. Contudo, tais sumarizações não contemplam de forma abrangente os pontos necessários para o desenvolvimento de novos estudos e/ou publicações de educação do paciente: não se encontram diretrizes ou guias para a estruturação padronizada, mas sim aspectos amplos não especificados (Echer, 2005). Dessa forma, podem ocorrer problemas durante a confecção do material, além de haver discrepâncias significativas entre materiais de variados autores, visto que cada aspecto pode ser interpretado de diferentes formas. Isso também é identificado como limitação, pois, nas diretrizes revisadas, não há marcadores específicos para recomendação do tamanho de materiais de educação em saúde. Boa parte dos estudos foca na sugestão da elaboração de materiais coesos, o que não foi suficiente para limitar a quantidade de informações compiladas oferecidas ao público. Hipoteticamente, o número de fontes informativas fornecidas em um material educativo tende a acompanhar o esforço para aprendizagem, além da retenção e da importância que este passa a ter para o leitor em seu dia a dia. Portanto, essa limitação tem potencial de interferir na continuidade de leitura dos materiais, tanto na etapa de avaliação por juízes quanto na de divulgação, em que os indivíduos podem interromper ou não iniciar a leitura, a partir da observação do montante de páginas e da inferência de que a atividade será exaustiva.
CONSIDERAçõES FINAIS
Este estudo teve como objetivo o desenvolvimento de uma nova diretriz e checklist para auxiliar na elaboração e na avaliação de materiais de educação em saúde. Foi possível identificar orientações já publicadas e os procedimentos adotados pelos estudos nas construções e validações de materiais desse tipo. A partir das orientações gerais e dos procedimentos comuns, foram encontrados critérios para realizar a compilação, a análise e a síntese dos dados para a elaboração das diretrizes e do checklist apresentados neste artigo.
Os resultados encontrados apontam para a necessidade do uso de uma linguagem mais simples na elaboração de materiais de educação em saúde, levando em consideração o nível de alfabetização e de LS do público-alvo. Materiais que apresentam linguagem complexa ou técnica podem ter seu acesso prejudicado. A utilização de imagens e gráficos de fácil compreensão também é um aspecto importante.
Como parte fundamental do processo de criação de materiais em saúde, sugere-se a avaliação por juízes diversos, com diferentes metas. Os profissionais da área ou áreas relacionadas, quando engajados em educação continuada ou em pós-graduação stricto sensu, podem ser mais capazes de avaliar se o conteúdo técnico é baseado em evidências científicas atuais. Já os próprios pacientes, familiares e população geral podem sinalizar se o conteúdo é de fácil acesso e se cumpre o que propõe.
As limitações deste estudo se referem ao viés de seleção dos estudos utilizados para análise de resultados, ao utilizar uma revisão não sistemática da literatura. Além disso, como, até o momento, entende-se que essa é a primeira diretriz construída em língua portuguesa sobre o tema, foi necessária a criação e a estruturação do método e do relatório do presente artigo.














