Inspirado por conceitos de diferentes abordagens terapêuticas, Young desenvolveu a terapia do esquema, voltada para transtornos psicológicos crônicos, integrando elementos da Gestalt, da terapia cognitivo-comportamental (TCC) e da psicanálise (Young et al., 2008). A teoria do apego (Bowlby, 1989, 2002, 2004) e a terapia do esquema compartilham a compreensão sobre a influência das relações familiares e da satisfação das necessidades emocionais na infância no desenvolvimento emocional (Wainer et al., 2016). Pesquisas sobre a eficácia da terapia do esquema indicam resultados positivos, com uma revisão sistemática demonstrando melhorias significativas nos sintomas, nos esquemas iniciais desadaptativos (EIDs) e na qualidade de vida dos participantes após o tratamento (Zhang et al., 2023).
A terapia do esquema é uma abordagem eficaz para identificar, compreender e modificar EIDs, permitindo ao terapeuta personalizar a intervenção e romper o ciclo de perpetuação, promovendo o desenvolvimento de uma vida emocionalmente mais saudável e funcional (Young et al., 2003). Os EIDs são padrões profundos de pensamento e sentimentos formados na infância, a partir de necessidades emocionais não atendidas ou experiências traumáticas, e que influenciam a percepção de si, dos outros e do mundo (Young et al., 2003). Conforme a hipótese de suscetibilidade diferencial de Belsky (1997), esses esquemas resultam da interação entre o ambiente precoce e o temperamento infantil (Bishop et al., 2022; Sojta & Strzelecki, 2023). Quando persistem na vida adulta, os EIDs podem ter efeitos negativos duradouros e contribuir para o surgimento de transtornos afetivos e da personalidade (Shute et al., 2019).
Os EIDs estão agrupados em categorias que envolvem a percepção da pessoa sobre suas necessidades emocionais básicas, as estratégias de enfrentamento utilizadas e as relações interpessoais. Cada um deles descreve um padrão específico de crenças e sentimentos que se manifestam em diferentes situações, prejudicando o bem-estar e a capacidade de adaptação do indivíduo (Young et al., 2008). Os 18 EIDs são organizados em cinco categorias principais (Lobbestael et al., 2010; Young et al., 2003): desconexão e rejeição (domínio I); autonomia e desempenho prejudicados (domínio II); limites prejudicados (domínio III); orientação para o outro (domínio IV); e supervigilância e inibição (domínio V). Cada categoria reflete necessidades emocionais essenciais não atendidas durante a infância, como a necessidade de vínculos seguros, o desenvolvimento de autonomia e competência, o estabelecimento de limites adequados, a valorização do eu e a liberdade para expressão e espontaneidade, respectivamente (Young et al., 2008).
Em cada um dos domínios, existem esquemas específicos identificados. No domínio da desconexão e rejeição, os esquemas incluem privação emocional, abandono/instabilidade, desconfiança/abuso, isolamento social, e defectividade/vergonha. No segundo domínio - autonomia e desempenho prejudicados -, estão presentes os esquemas de vulnerabilidade ao dano e à doença, dependência/incompetência, fracasso e emaranhamento. No domínio dos limites prejudicados, os esquemas incluem arrogo/grandiosidade e autocontrole/autodisciplina insuficientes. No domínio da orientação para o outro, encontram-se os esquemas de subjugação, autossacrifício, e busca de aprovação e reconhecimento. Por fim, no domínio da supervigilância e inibição, estão os esquemas de padrões inflexíveis, isolamento emocional, negativismo/pessimismo e postura punitiva (Young et al., 2008).
Três processos principais contribuem para a manutenção dos esquemas: resignação, em que os indivíduos aceitam os esquemas como parte de sua realidade; evitação, que envolve evitar situações que possam ativar o esquema; e compensação, que se refere a comportamentos adotados para contrapor o esquema (Arntz et al., 2021). Cada um desses processos atua de maneira a confirmar as crenças centrais disfuncionais, impedindo que o esquema seja desafiado ou modificado. Com isso, os EIDs permanecem ativos ao longo do tempo, dificultando a mudança e o crescimento emocional (Young et al., 2008).
Esses EIDs, juntamente aos estilos parentais (Baumrind, 1966; Darling & Steinberg, 1993; Pilkington et al., 2021; Young et al., 2003) e aos modos esquemáticos (Arntz & Jacob, 2013; Arntz et al., 2021; Young et al., 2008), influenciam diretamente a percepção do indivíduo sobre si, sobre os outros e sobre o mundo, com frequência contribuindo para o desenvolvimento de transtornos emocionais e da personalidade. Darling e Steinberg (1993) destacam que os estilos parentais influenciam diretamente o desenvolvimento emocional e psicológico das crianças. Baumrind (1966) acrescenta que as práticas familiares são fundamentais para a formação da integridade pessoal e social. Estilos parentais disfuncionais, inclusive os excessivamente protetores, podem favorecer o surgimento de EIDs, como os de dependência ou incompetência (Pilkington et al., 2021). Segundo Young et al. (2003), esses estilos refletem os padrões de cuidado vivenciados na infância e na adolescência, influenciando a personalidade. O modelo de Young organiza os estilos parentais em cinco áreas, propondo 18 estilos que se correlacionam com os 18 EIDs (Valentini & Alchieri, 2009; Young et al., 2008).
A manifestação dos EIDs pode ser observada por meio dos modos esquemáticos, que são estados emocionais e comportamentais resultantes da ativação desses esquemas em situações específicas (Young et al., 2008). Esses modos refletem diferentes aspectos da personalidade, com padrões específicos de pensamentos, sentimentos e comportamentos (Arntz & Jacob, 2013). Eles são agrupados em quatro categorias, conforme exposto na Tabela 1.
Tabela 1 Modos de enfrentamento
| Categoria | Modo esquemático | Descrição |
|---|---|---|
| 1) Modos da criança | Criança vulnerável | Sentimentos intensos de tristeza, medo, solidão, vergonha ou desamparo; reflete necessidades emocionais básicas não atendidas. |
| Criança zangada | Raiva e frustração por ter sido negligenciada ou maltratada; reage de forma explosiva às frustrações atuais. | |
| Criança impulsiva/indisciplinada | Busca satisfação imediata de desejos, sem considerar regras ou consequências. | |
| 2) Modos dos pais disfuncionais | Pai punitivo/crítico | Autoimagem negativa marcada por autocrítica severa e sentimento de culpa, como se merecesse punição. |
| Pai exigente | Pressiona o indivíduo a cumprir padrões rígidos e perfeccionistas, negligenciando as próprias necessidades e limites. | |
| 3) Modos de enfrentamento | Capitulador complacente | Submete-se às vontades dos outros, anulando a própria identidade para evitar rejeição ou conflito. |
| Protetor desligado | Evita emoções e relacionamentos ao se desconectar, agir de forma fria ou usar distrações excessivas. | |
| Hipercompensador | Exibe o oposto do que sente internamente, buscando controle, superioridade ou perfeição como forma de esconder fragilidades. | |
| 4) Modos saudáveis | Adulto saudável/feliz | Age com equilíbrio, protege a criança vulnerável, regula os outros modos e toma decisões realistas e funcionais. |
| Criança saudável/feliz | Vive emoções positivas como alegria, espontaneidade, segurança e conexão, expressando suas necessidades de forma saudável. |
Fonte: Adaptada de Arntz e Jacob (2013) e Young et al. (2008).
Esses modos podem ser adaptativos, representando comportamentos saudáveis, ou desadaptativos, envolvendo emoções e comportamentos disfuncionais que agravam as dificuldades do indivíduo, prejudicando seu bem-estar e suas relações (Arntz & Jacob, 2013). Embora haja poucos estudos sobre os modos esquemáticos, as evidências sugerem sua relevância no tratamento de transtornosclínicos (Bär et al., 2023) (Tabela 1).
Na psicoterapia, esses modos, com os EIDs e os estilos parentais, frequentemente contribuem para a resistência ao tratamento e para a recaída em transtornos mentais, como depressão, ansiedade e ataques de pânico (Gollapalli et al., 2023). Dessa maneira, ao utilizar ferramentas específicas para avaliar esses construtos, como inventários, por exemplo, o terapeuta pode mapear os esquemas, os estilos e os modos presentes, facilitando a personalização da intervenção terapêutica e a adesão ao tratamento (Krupiniski & Gomide, 2022; Mota & Assunção, 2023). Para avaliação clínica na terapia do esquema, podem ser utilizados o Questionário de Esquemas de Young, o Inventário de Estilos Parentais e o Inventário de Modos Esquemáticos, permitindo identificar os EIDs, os estilos parentais e os modos esquemáticos, respectivamente (Young et al., 2008).
Assim, este estudo busca apresentar e discutir instrumentos validados para a realidade brasileira que avaliam os esquemas, os modos esquemáticos e os estilos parentais, incluindo mecanismos de evitação e compensação e, ainda, explorar a confiabilidade e a aplicabilidade desses instrumentos em populações clínicas com diferentes transtornos mentais e da personalidade. Espera-se destacar a importância de conhecer os instrumentos validados para a realidade brasileira, uma vez que muitas das ferramentas utilizadas na terapia do esquema foram originalmente desenvolvidos em contextos culturais distintos.
Método
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada entre 2 de novembro e 8 de dezembro de 2024, para a qual foi realizada uma busca de publicações relacionadas aos instrumentos de avaliação utilizados na terapia do esquema com ênfase nas contribuições do Grupo de Avaliação e Atendimento em Psicoterapia Cognitivo-comportamental (GAAPCC) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Esse grupo recebeu permissão do Dr. Jeffrey Young, criador da terapia do esquema, para realizar a validação dos instrumentos relacionados aos esquemas no Brasil. Essa autorização conferiu ao grupo o direito exclusivo de traduzir, adaptar e validar as seguintes ferramentas: Young Schema Questionnaire - Short Form 3 (YSQ-S3), Young-Rygh Avoidance Inventory (YRAI), Young Compensation Inventory (YCI) e Schema Mode Inventory (SMI). A permissão do Dr. Young assegura que nenhum outro grupo de pesquisa no Brasil poderá realizar novas traduções desses instrumentos, garantindo a utilização exclusiva das versões adaptadas pelo GAAPC. Além dos instrumentos validados por esse grupo, apresenta-se o Young Parental Style Inventory (YPI), adaptado por Valentini, Alchieri e Laros (2013), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
A busca foi realizada no Diretório de Teses e Dissertações da PUCRS, que disponibiliza trabalhos acadêmicos e de pesquisa da instituição. Além disso, foram utilizadas as bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Portal de Periódicos em Psicologia (PePSIC) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS).
APRESENTAçãO E DISCUSSãO DOS RESULTADOS
Nesta seção, apresenta-se a análise dos resultados da busca realizada sobre os instrumentos de avaliação na terapia do esquema (Tabela 2). Ademais, serão discutidos os achados, destacando suas contribuições para a prática clínica.
Tabela 2 Instrumentos da terapia do esquema: versões adaptadas para a realidade brasileira
| Nome do instrumento | Versão brasileira | Validado por | Nº de itens | Domínios | Resultados |
|---|---|---|---|---|---|
| Young Schema Questionnaire (YSQ-2) | Questionário de Esquemas de Young - versão reduzida (YSQ-S2) | Cazassa e Oliveira (2012) | 75 | 5 | O instrumento apresentou alta consistência interna (alfa de Cronbach de 0,955 para os 75 itens). Os coeficientes dos 15 esquemas variaram entre 0,566 (dependência/incompetência) e 0,905 (fracasso), com a maioria superior a 0,70. A validade concorrente mostrou correlações significativas entre os esquemas e a EFN, com coeficientes de Spearman variando de 0,354 (autossacrifício) a 0,637 (autocontrole insuficiente), todos com p < 0,001. A validade discriminante foi confirmada, com participantes “acima da média” na EFN apresentando médias significativamente mais altas nos esquemas desadaptativos (p. ex., subjugação: 124,03, 202,36 e 257,24, χ2 = 114,608, p < 0,001). A análise fatorial exploratória identificou 17 fatores, explicando 66,7% da variância, com KMO de 0,893 e p < 0,001 no teste de esfericidade de Bartlett. |
| Young Schema Questionnaire - Short Form 3 (YSQ-3) | Questionário de Esquemas de Young - versão breve (YSQ-S3) | Souza et al. (2020) | 90 | 5 | Apresentou evidências robustas de validade psicométrica. A validade de conteúdo foi confirmada por especialistas, com 95,1% de concordância geral, além de alta clareza semântica (97,1%) e fidelidade ao conteúdo original (91,9%). A estrutura interna manteve os 18 EIDs nos cinco domínios teóricos propostos por Young, com equivalência semântica assegurada pela retrotradução aprovada pela ISST. A consistência interna do instrumento foi excelente, com alfa de Cronbach total de 0,965 e alfas das subescalas variando entre 0,67 e 0,92, sendo a maioria superior a 0,80. Esses resultados indicam que o YSQ-S3 é confiável e adequado para avaliação dos esquemas desadaptativos na realidade brasileira. |
| Schema Mode Inventory (SMI) | Inventário de Modos Esquemáticos (SMI) | Damasceno (2020) | 124 | 4 | A consistência interna, avaliada por meio do alfa de Cronbach, variou entre α = 0,70 e α = 0,90, enquanto os valores de Ômega de McDonald oscilaram entre Ω = 0,71 e Ω = 0,91, indicando fidedignidade adequada das subescalas. A estrutura fatorial foi analisada por meio de AFC, com índices de ajuste considerados satisfatórios: χ2/df = 2,4, SRMR = 0,065, RMSEA = 0,042, CFI = 0,90 e TLI = 0,90. Além disso, as cargas fatoriais padronizadas foram todas estatisticamente significativas, sendo a maioria superior ao critério mínimo de 0,30. |
| Young Parental Style Inventory (YPI) | Inventário de Estilos Parentais de Young | Valentini (2009), Valentini et al. (2013) | 72 | 5 | Os resultados demonstram boa confiabilidade e validade psicométrica. O alfa de Cronbach para os fatores da escala maternal variou de 0,66 a 0,89, e para a escala paternal, de 0,71 a 0,90, indicando boa consistência interna. A análise de invariância dos parâmetros mostrou que o instrumento mantém um bom ajuste entre subamostras, com TLI variando entre 0,794 e 0,810, e CFI entre 0,782 e 0,799, sugerindo que o modelo é estável em diferentes grupos. A AFC revelou que o modelo de cinco fatores (49 itens) apresentou o melhor ajuste geral, com RMSEA de 0,05 para a escala maternal e 0,06 para a paternal, e TLI de 0,82 para a maternal e 0,81 para a paternal, valores que indicam um bom ajuste do modelo. Em comparação, o modelo de 17 fatores (72 itens) e o modelo de 9 fatores (37 itens) apresentaram ajustes mais fracos, com RMSEA mais altos (0,08 a 0,10) e TLI inferiores a 0,82. |
| Young Compensation Inventory (YCI) | Inventário de Compensação de Young (YCI) | Santos et al. (2022) | Dominação e manipulação (19 itens); obsessão e organização (10 itens); rebeldia e independência (10 itens); busca de reconhecimento (11 itens) |
4 | Apresentou boas propriedades psicométricas. A análise fatorial exploratória indicou fatorabilidade adequada (KMO = 0,86; Bartlett: χ2 = 1799,976; gl = 1128; p < 0,001), resultando em quatro fatores: dominação e manipulação (α = 0,85; G6 = 0,87; Ômega = 0,71; eigenvalue = 5,23); obsessão e organização (α = 0,75; G6 = 0,77; Ômega = 0,75; eigenvalue = 4,15); rebeldia e independência (α = 0,73; G6 = 0,74; Ômega = 0,69; eigenvalue = 3,54); e busca de reconhecimento (α = 0,81; G6 = 0,81; Ômega = 0,91; eigenvalue = 3,42). A saturação mínima considerada foi 0,32; seis itens (18, 22, 25, 27, 44 e 46) não atingiram esse valor. A validade convergente foi verificada por correlações de Spearman entre os fatores do YCI, as dimensões do SCL-90-R e os esquemas do YSQ-S3. Os achados confirmam a validade de construto do instrumento. |
| Young-Rygh Avoidance Inventory (YRAI) | Inventário de Evitação de Young (YRAI) | Santos et al. (2021) | Somatização e busca por estimulação (20 itens); evitação cognitiva (17 itens); retraimento emocional (9 itens) | 3 | Apresentou indicadores psicométricos satisfatórios. A AFE revelou uma boa adequação amostral, com índice KMO de 0,80 e teste de esfericidade de Bartlett significativo (χ2 = 5537,476; gl = 703; p < 0,001). Foram extraídos três fatores com cargas fatoriais iguais ou superiores a 0,32, levando à exclusão dos itens 7 e 9, que não atingiram o critério mínimo de saturação. O fator 1, denominado somatização e busca de estimulação, apresentou coeficiente alfa de Cronbach de 0,84, ômega de 0,87 e Guttman G6 de 0,86. Os itens 3, 4 e 40 têm escore invertido. O fator 2, denominado evitação cognitiva, apresentou alfa de Cronbach de 0,78, ômega de 0,83 e Guttman G6 de 0,83. Já o fator 3, denominado retraimento emocional, apresentou coeficiente alfa de Cronbach de 0,62, ômega de 0,75 e Guttman G6 de 0,67. Os itens 3, 29 e 34 tiveram escore invertido. |
| Young Schema Questionnaire - Long Form, Third Edition (YSQ-L3) | Questionário de Esquemas de Young - versão longa (YSQ-L3) | Ferronatto (2021) | 205 | 5 | Apresentou índices satisfatórios na AFC, com CFI e TLI de 0,967, RMSEA de 0,068 e SRMR de 0,062, confirmando a adequação do modelo original de 18 EIDs. As correlações entre as subescalas não indicaram colinearidade significativa, sendo a correlação mais alta entre abandono e defectividade (r = 0,757) e a mais baixa entre isolamento social e autossacrifício (r = 0,169). A confiabilidade das subescalas, medida pelo alfa de Cronbach ordinal, foi superior a 0,7, com valores de confiabilidade composta variando de 0,741 a 0,962. |
Nota: AFC = análise fatorial confirmatória; AFE = análise fatorial exploratória; CFI = Comparative Fit Index; EFN = Escala Fatorial de Ajustamento Emocional/Neuroticismo; EIDs = esquemas iniciais desadaptativos; ISST = International Society of Schema Therapy; KMO = Kaiser-Meyer-Olkin; SCL- 90-R = Symptom Checklist-90-Revised; RMSEA = Root Mean Square Error of Approximation; SRMR = Standardized Root Mean Square Residual; TLI = Tucker-Lewis Index; χ2/df = Qui-quadrado relativo aos graus de liberdade.
Para a avaliação dos EIDs, estilos parentais e modos esquemáticos, Jeffrey Young desenvolveu uma série instrumentos especializados. A Tabela 2 apresentou as principais ferramentas utilizadas na terapia do esquema, destacando-se as versões adaptadas para a realidade brasileira, os autores responsáveis pela validação, o número de itens, de domínios e os resultados sobre sua validade psicométrica. A Tabela 3 apresenta a descrição das amostras utilizadas no processo de validação dos instrumentos.
Tabela 3 Descrição das amostras utilizadas por instrumento
| Instrumento | Variável | Média (anos) | DP | |
|---|---|---|---|---|
| YSQ-S2 | Idade | 28,5 | 10,14 | |
| Categoria | n | % | ||
| Gênero | Masculino | 115 | 30,9 | |
| Feminino | 257 | 69, | ||
| Escolaridade | Ensino fundamental | 23 | 6,0 | |
| Ensino médio completo | 182 | 48,1 | ||
| Ensino superior | 130 | 34,4 | ||
| Pós-graduação | 35 | 9,2 | ||
| Não informada | 9 | 2,4 | ||
| Região/cidade | Porto Alegre | 372 | 100 | |
| Média (anos) | DP | |||
| YSQ-S3 | Idade | 30,94 | 9,82 | |
| Categoria | n | % | ||
| Gênero | Feminino | 144 | 72,0 | |
| Masculino | 56 | 28,0 | ||
| Escolaridade | Ensino médio incompleto e completo | 5 | 2,5 | |
| Ensino superior incompleto | 75 | 37,5 | ||
| Ensino superior completo | 44 | 22,0 | ||
| Média (anos) | DP | |||
| SMI | Idade | 32,3 | 12,6 | |
| Categoria | n | % | ||
| Gênero | Feminino | 740 | 72,0 | |
| Masculino | 287 | 28,0 | ||
|
Escolaridade |
Ensino médio completo | 75 | 7,3 | |
| Ensino superior incompleto | 267 | 26,0 | ||
| Ensino superior completo | 218 | 21,2 | ||
| Mestrado | 213 | 20,7 | ||
| Especialização | 165 | 16,1 | ||
| Doutorado | 89 | 8,7 | ||
| Cor da pele autorreferida | Branca | 902 | 87,9 | |
| Parda | 82 | 8,0 | ||
| Preta | 31 | 3,0 | ||
| Amarela | 10 | 1,0 | ||
| Indígena | 2 | 0,2 | ||
| Média (anos) | DP | |||
| YPI | Idade | 21,3 | 6,1 | |
| Categoria | n | % | ||
| Gênero | Feminino | 546 | 59,3 | |
| Masculino | 374 | 40,7 | ||
| Estado civil | Solteiros | 595 | 64,6 | |
| Outros | 325 | 35,4 | ||
| Escolaridade | A partir da 2ª série do ensino médio | 920 | 100 | |
| Região/cidade | Natal-RN | 625 | 67,9 | |
| Petrolina-PE | 104 | 11,3 | ||
| Brasília-DF | 61 | 6,6 | ||
| São Leopoldo-RS | 37 | 4 | ||
| Região Metropolitana de Porto Alegre-RS | 94 | 10,2 | ||
| Média (anos) | DP | |||
| YRAI/YCI | Idade | 34,2 | 12,9 | |
| Categoria | n | % | ||
| Gênero | Feminino | 405 | 80,6 | |
| Masculino | 99 | 19,4 | ||
| Escolaridade | Ensino superior incompleto | 144 | 28,6 | |
| Pós-graduação | 133 | 26,4 | ||
| Ensino superior vompleto | 116 | 23,0 | ||
| Mestrado | 49 | 9,8 | ||
| Ensino médio completo | 42 | 8,4 | ||
| Doutorado | 19 | 3,8 | ||
| Classe econômica | A | 138 | 27,4 | |
| B1 | 137 | 27,2 | ||
| B2 | 159 | 31,6 | ||
| C1 | 57 | 11,4 | ||
| C2 | 10 | 1,9 | ||
| D-E | 1 | 0,2 | ||
| Média (anos) | DP | |||
| YSQ-L3 | Idade | 31,85 | 10,31 | |
| Categoria | n | % | ||
| Gênero | Masculino | 302 | 12,5 | |
| Feminino | 2019 | 87,5 | ||
| Escolaridade | Ensino fundamental completo | 13 | 0, | |
| Ensino médio incompleto | 47 | 1, | ||
| Ensino médio completo | 318 | 13,2 | ||
| Formação técnica | 120 | 5,0 | ||
| Ensino superior incompleto | 742 | 30,8 | ||
| Ensino superior completo | 619 | 25,7 | ||
| Pós-graduação | 552 | 23,0 | ||
| Cor da pele autorreferida | Branca | 1729 | 71,7 | |
| Parda | 494 | 20,5 | ||
| Preta | 139 | 5,8 | ||
| Amarela | 42 | 1,7 | ||
| Indígena | 7 | 0,3 | ||
| Branca | 1729 | 71,7 | ||
| Classe social | A | 188 | 7,8 | |
| B1 | 212 | 8,8 | ||
| B2 | 682 | 28,3 | ||
| C1 | 605 | 25,1 | ||
| C2 | 523 | 22,1 | ||
| D e E | 192 | 8,0 | ||
| Região | Centro-Oeste | 106 | 4,4 | |
| Nordeste | 177 | 7,3 | ||
| Norte | 85 | 3,5 | ||
| Sudeste | 1427 | 59,2 | ||
| Sul | 616 | 25,5 |
O Young Schema Questionnaire (YSQ) é um dos principais instrumentos utilizados para identificar os EIDs em adultos (Young & Brown, 2005). Para essa população, além da versão completa (YSQ-L3), validada por Ferronatto (2021), existem versões reduzidas que possibilitam a investigação dos elementos mais representativos de cada esquema. O YSQ-S2 avalia 15 EIDs por meio de 75 itens, enquanto o YSQ-S3 avalia 18 EIDS (incluindo busca de aprovação e reconhecimento, negativismo/pessimismo, e postura punitiva) e serve para avaliar a presença dos EIDs em adultos, mas com 90 itens.
Em 2012, Cazassa e Oliveira validaram o YSQ-S2 para a realidade brasileira, e esse instrumento tem sido amplamente utilizado em diversas pesquisas (Cazassa & Oliveira, 2012), como na avaliação de EIDs em pessoas com sintomas depressivos (Ribeiro et al., 2014), alcoólatras (Silva et al., 2012) e para investigar diferenças entre homens e mulheres, com destaque para um estudo no qual as mulheres apresentaram pontuações mais altas do que os homens em esquemas como fracasso, vulnerabilidade ao dano e à doença, autossacrifício e inibição emocional (Luz et al., 2014). O YSQ-S2 também foi utilizado para avaliar EIDs em pacientes bariátricos (Camargos et al., 2020). Já o YSQ-S3 foi validado no Brasil por Souza et al. (2020), e Ferronato et al. (2023) investigaram as diferenças entre as modalidades de coleta on-line e em papel. Os autores concluíram que há uma diferença mínima entre os resultados obtidos nas duas modalidades, indicando que ambos os métodos são válidos para a aplicação do YSQ-S3 (Ferronato et al., 2023).
Os EIDS têm mostrado seu valor na avaliação de transtornos clínicos (Bär et al., 2023), não se limitando apenas aos transtornos da personalidade, mas também informando o tratamento de diversas condições. Os EIDS funcionam como conceitos transdiagnósticos, indicando uma vulnerabilidade geral à psicopatologia (Bach & Bernstein, 2019; Dalgleish et al., 2020). Contudo, ainda existem fenômenos clínicos, como as características centrais da esquizofrenia, por exemplo, que podem não ser completamente abrangidos pelo atual conjunto de EIDS (Bär et al., 2023; Khosravani et al., 2021). Dessa forma, uma avaliação precisa dos EIDs permite ao terapeuta guiar o paciente na desconstrução de padrões prejudiciais e na promoção de novas formas de pensar e agir (Nicol et al., 2020).
O uso do YSQ-S3 na avaliação dos EIDs desempenha um papel importante na prática clínica, sendo especialmente relevante em diversos contextos, como na depressão (Bishop et al., 2022; Ribeiro, 2023; Thimm & Chang, 2022; Zanfir, 2024), nos transtornos alimentares (Maher et al., 2022), no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) (Aflakian et al., 2023; Peeters et al., 2022; Remmerswaal et al., 2023; Thimm & Chang, 2022), no transtorno bipolar (Korkmaz et al., 2024), em problemas interpessoais (Janovsky et al., 2020), nos comportamentos aditivos (Sberse et al., 2023; Vieira et al., 2023), nos transtornos da personalidade (Ávila et al., 2023; Sberse et al., 2023; Thimm & Chang, 2022), no transtorno da compulsão alimentar (Sales & Camargo Palma, 2021), no suicídio (Costa et al., 2023; Grażka & Strzelecki, 2024), na autolesão não suicida (von Mühlen & von Mühlen, 2024) e no transtorno por uso de substâncias (TUS) (Pumariega, 2024).
O uso do YSQ-S3 vai além da simples identificação dos EIDs, uma vez que permite ao clínico ter uma compreensão mais ampla de como esses esquemas influenciam os sintomas. Por exemplo, na depressão (Bishop et al., 2022; Ribeiro, 2023), a avaliação dos EIDs pode ajudar a identificar esquemas como defectividade/vergonha e fracasso, que estão frequentemente presentes e podem ser essenciais para compreender o sofrimento e a perpetuação dos sintomas depressivos (Amiri & Razmi, 2023; Ribeiro, 2023). Isso permite que os terapeutas personalizem as intervenções, focando em esquemas específicos que precisam ser trabalhados para aliviar o sofrimento emocional.
Em condições como o transtorno da personalidade borderline (TPB) (Sberse et al., 2023), a avaliação dos EIDs é fundamental para entender as causas subjacentes dos comportamentos impulsivos e das dificuldades nas relações interpessoais, associadas ao abandono/instabilidade, defectividade/vergonha e dependência/incompetência. No TOC (Aflakian et al., 2023; Peeters et al., 2022), a identificação de esquemas como dependência/incompetência ou perfeccionismo pode orientar intervenções que ajudem a diminuir a rigidez nos pensamentos e a promover maior flexibilidade emocional.
Além disso, no caso de comportamentos aditivos (Rubio-Escobar et al., 2024; Vieira et al., 2023), os EIDs fornecem pistas essenciais sobre as crenças e as necessidades emocionais que alimentam o uso de substâncias, o que facilita ao terapeuta trabalhar as origens desses padrões disfuncionais. No TUS, a identificação dos EIDs de padrões inflexíveis, inibição emocional, isolamento social/alienação, desconfiança/abuso, abandono/instabilidade e privação emocional (Pumariega, 2024) facilita a análise dos mecanismos de enfrentamento que o paciente desenvolveu ao longo do tempo, como a evitação emocional ou o isolamento social, que muitas vezes se perpetuam no contexto do transtorno (Grigorian et al., 2020; Sakulsriprasert et al., 2023). O mesmo ocorre em casos de autolesão não suicida (Aakbari et al., 2022; von Mühlen & von Mühlen, 2024), em que a identificação de EIDs do domínio de desconexão e rejeição servem de base para compreender a necessidade básica infantil não atendida de vínculos seguros (Young et al., 2008), facilitando a escolha das técnicas da terapia do esquema mais adequadas.
Além do YSQ, Young também desenvolveu o Schema Mode Inventory (SMI), que é utilizado para avaliar os diferentes modos esquemáticos e para avaliar os estilos parentais. O autor também elaborou o Young Parental Style Inventory (YPI), projetado para identificar a influência dos pais na formação dos esquemas, mapeando padrões de interação que podem ter contribuído para o desenvolvimento de esquemas disfuncionais. O YPI também visa a avaliar as conexões desses estilos parentais com aspectos psicossociais e psicopatológicos (Young, 1999).
A identificação de modos esquemáticos, mediante o uso do SMI, para a prática clínica é especialmente relevante nas mais diferentes populações. Por exemplo, estudos relacionados aos modos pais exigentes e protetor desligado foram identificados em pacientes com TOC (Bär et al., 2023); modos criança desadaptativa em pacientes com personalidade borderline (Puri et al., 2021; Sberse et al., 2023); modos protetor desligado, hipercompensador, criança impulsiva, pais críticos e punitivos e criança vulnerável em pacientes com TUS (Pumariega, 2024). Essa compreensão auxilia o terapeuta a conduzir as sessões de forma mais adequada às diferentes demandas dos pacientes.
Quanto à relevância de se avaliar os estilos parentais, por meio do YPI, o terapeuta pode identificar padrões específicos de interação entre pais e filhos que contribuem para o surgimento de esquemas disfuncionais, como o estilo controlador, negligente ou abusivo, por exemplo (Young et al., 2008). Isso facilita a adoção de técnicas mais adequadas e norteia o clínico quanto ao uso da reparentalização limitada e da confrontação empática, técnicas básicas da terapia do esquema. Ao avaliar os estilos parentais, o terapeuta pode identificar interações específicas que perpetuam esses esquemas, como a crítica excessiva de um pai controlador (Joshua et al., 2024), a falta de cuidados de um estilo negligente ou a presença de abusos emocional e físico (Emami et al., 2024). Esses padrões de interação podem ter levado o paciente a internalizar crenças distorcidas sobre si e sobre os outros, como o sentimento de inadequação, abandono ou desconfiança (Young et al., 2008). Por exemplo, se o paciente experimentou um estilo controlador, em que os pais tinham expectativas excessivas e eram punitivos, a reparentalização limitada pode incluir a validação das emoções do indivíduo, promovendo uma sensação de aceitação incondicional, sem julgamento. No caso de um estilo negligente, o terapeuta pode atuar oferecendo segurança emocional e atenção constante, criando um ambiente terapêutico de confiança e acolhimento.
Além disso, Young desenvolveu o Young-Rygh Avoidance Inventory (YRAI) para avaliar os mecanismos de evitação (Young & Rygh, 1994) e o Young Compensation Inventory (YCI) para os mecanismos de compensação relacionados aos EIDs (Young, 1995). Esses comportamentos influenciam diretamente as respostas no YSQ-S3, pois a evitação busca evitar situações que ativem esquemas, enquanto a compensação tenta corrigir ou minimizar a percepção negativa dos esquemas, como a busca por perfeição ou controle (Young et al., 2008). Esses mecanismos podem distorcer ou esconder a real intensidade dos esquemas, dificultando sua identificação precisa. Por exemplo, um paciente que evita situações relacionadas ao esquema de abandono pode subestimar sua presença, enquanto alguém que compensa um esquema de falha pode não perceber os padrões disfuncionais subjacentes. A avaliação desses comportamentos (Ghiasi et al., 2024; Gulder Altuner & Yararbas, 2024) ajuda o terapeuta a entender melhor as estratégias do paciente e a ajustar a abordagem terapêutica, como no caso da violência infantil, tabagismo e uso de substâncias ilícitas associados a EIDs e comportamentos de compensação e evitação (Gulder Altuner & Yararbas, 2024).
Em suma, todos os instrumentos apresentados se complementam. Na prática clínica, eles auxiliam na compreensão das origens dos esquemas e suas manifestações nos comportamentos e nas emoções dos pacientes, permitindo realizar uma intervenção mais precisa e adaptada às necessidades individuais. Contudo, a aplicação dessas ferramentas requer que o terapeuta tenha formação específica em terapia do esquema e as utilize como parte de uma avaliação clínica mais ampla, sempre contextualizando os resultados com a história do paciente. É importante oferecer uma devolutiva cuidadosa e empática e, quando necessário, reaplicar a medida ao longo do processo terapêutico. Entre as limitações, destacam-se a natureza de autorrelato dos instrumentos, que pode ser influenciada por distorções ou estados emocionais momentâneos, a necessidade de atenção a questões culturais e a capacidade reflexiva do paciente. Os instrumentos devem ser utilizados como recursos complementares à escuta clínica e à avaliação profissional.
Apesar de os instrumentos analisados terem sido aplicados a amostras amplas e variadas, algumas limitações metodológicas devem ser consideradas. A predominância de participantes do sexo feminino, de cor branca e com nível educacional elevado é recorrente na maioria das amostras, o que pode restringir a generalização dos achados para populações mais diversas em termos de gênero, etnia, escolaridade e classe social. Além disso, a maior parte dos dados foi obtida por conveniência, o que implica em viés de seleção e reduz a aleatoriedade da amostra. Outro ponto importante é a concentração de participantes em faixas etárias específicas - principalmente adultos jovens, limitando a aplicabilidade dos resultados a outras faixas etárias, como adultos mais velhos. Em alguns casos, há também uma distribuição geográfica concentrada em determinadas regiões do Brasil, o que pode não refletir toda a diversidade cultural e socioeconômica do país.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo deste estudo foi apresentar e discutir estudos de avaliação com instrumentos validados para a realidade brasileira, capazes de mensurar EIDs, modos esquemáticos, estilos parentais, além de mecanismos de evitação e compensação, considerando sua aplicabilidade em populações clínicas com diferentes transtornos mentais e da personalidade. A partir da análise dos estudos e instrumentos relacionados à terapia do esquema, foi possível observar uma diversidade de abordagens e contribuições sobre a utilização desses métodos, assim como as implicações terapêuticas dessas ferramentas. A revisão realizada, com foco na validação dos instrumentos pelo GAAPCC, permitiu identificar a aplicação dos instrumentos adaptados aos mais diferentes transtornos mentais e da personalidade. Por meio de medidas como YSQ-S2, YSQ-S3, SMI, YPI, YRAI e YCI, o terapeuta pode identificar esses padrões e adaptar intervenções específicas.
Apesar de destacar a relevância dos instrumentos de avaliação na terapia do esquema, este estudo apresenta algumas limitações que merecem ser consideradas. A principal está no delineamento adotado, que se caracteriza por uma revisão narrativa. Esse tipo de revisão, embora útil para fornecer uma visão geral sobre os instrumentos validados para a realidade brasileira, não permite uma análise experimental ou longitudinal mais aprofundada, que poderia proporcionar evidências mais robustas sobre a eficácia desses instrumentos no contexto clínico.














