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Revista Brasileira de Terapias Cognitivas

Print version ISSN 1808-5687On-line version ISSN 1982-3746

Rev. bras.ter. cogn. vol.21  Rio de Janeiro  2025  Epub Dec 19, 2025

https://doi.org/10.5935/1808-5687.20250583 

Artigo de revisão | DOSSIÊ AVALPSI – INTERFACES ENTRE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA E AS TERAPIAS COGNITIVO-COMPORTAMENTAIS

Monitoramento de progresso em psicoterapia e implicações clínicas: uma revisão de escopo

Progress monitoring in psychotherapy and clinical implications: a scoping review

Seguimiento del progreso en psicoterapia e implicaciones clínicas: una revisión de alcance

Matheus da Costa Magalhães1 
http://orcid.org/0009-0002-4902-5260

Maria Amélia Penido1 
http://orcid.org/0000-0002-1372-5209

Luiz Fellipe Dias da Rocha2 
http://orcid.org/0000-0001-9337-894X

Pedro Paulo Salustiano dos-Santos1 
http://orcid.org/0009-0003-5226-2934

1Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Psicologia - Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil

2Centro Universitário Serra dos Órgãos, Psicologia - Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil


Destaques de impacto clínico

O monitoramento de progresso na psicoterapia melhora desfechos clínicos, reduz taxas de abandono e permite ajustes terapêuticos baseados em dados.

Evidências mostram que sua aplicação na terapia cognitivo-comportamental (TCC) aumenta a eficácia do tratamento ao identificar pacientes em risco de não resposta.

A implementação sistemática favorece decisões baseadas em evidências, tornando a prática mais eficaz e personalizada.

Palavras-chave: Avaliação de resultados de intervenções terapêuticas; Medidas de resultados relatados pelo paciente; Psicoterapia.

RESUMO

O monitoramento de progresso em psicoterapia destaca-se como prática essencial para guiar decisões clínicas, reduzir deteriorações e promover melhores desfechos. Esta revisão buscou compreender o monitoramento do progresso em psicoterapia, descrever os métodos mais utilizados e analisar as evidências de eficácia. Foram incluídos estudos publicados entre 2019 e 2024, das bases Web of Science, PubMed e Cochrane, totalizando 12 artigos (ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas). Os achados indicam que instrumentos como o Outcome Questionnaire-45 (OQ-45) e o Partners for Change Outcome Management System (PCOMS) estão associados a melhora do engajamento terapêutico, prevenção da deterioração e fortalecimento da aliança. Contudo, os efeitos são moderados por aspectos como contexto de aplicação, tipo de população e resistência dos terapeutas. A revisão integra evidências recentes sobre elementos de processo e implementação, destacando que o impacto do feedback depende não apenas do instrumento utilizado, mas da forma como ele é incorporado à prática clínica.

Palavras-chave: Avaliação de resultados de intervenções terapêuticas; Medidas de resultados relatados pelo paciente; Psicoterapia.

ABSTRACT

Progress monitoring in psychotherapy stands out as an essential practice to guide clinical decisions, reduce deterioration, and promote better outcomes. This scoping review aimed to understand how progress monitoring in psychotherapy occurs, describe the most commonly used methods, and analyze the evidence of their effectiveness. Studies published between 2019 and 2024 were included, sourced from the Web of Science, PubMed, and Cochrane databases, totaling 12 articles (randomized clinical trials and systematic reviews). Findings indicate that instruments such as the Outcome Questionnaire-45 (OQ-45) and the Partners for Change Outcome Management System (PCOMS) are associated with improved therapeutic engagement, prevention of deterioration, and strengthening of the therapeutic alliance. However, the effects are moderated by factors such as context of application, population type, and therapist resistance. The review integrates recent evidence on process and implementation elements, highlighting that the impact of feedback depends not only on the instrument used, but on how it is incorporated into clinical practice.

Keywords: Evaluation of Results of Therapeutic Interventions; Patient Reported Outcome Measures; Psychotherapy.

RESUMEN

El monitoreo del progreso en psicoterapia se destaca como una práctica esencial para guiar las decisiones clínicas, reducir el deterioro y promover mejores resultados. Esta revisión exploratoria tuvo como objetivo comprender cómo ocurre el monitoreo del progreso en psicoterapia, describir los métodos más comúnmente utilizados y analizar la evidencia de su efectividad. Se incluyeron estudios publicados entre 2019 y 2024, provenientes de las bases de datos Web of Science, PubMed y Cochrane, con un total de 12 artículos (ensayos clínicos aleatorizados y revisiones sistemáticas). Los hallazgos indican que instrumentos como el Cuestionario de Resultados-45 (OQ-45) y el Sistema de Gestión de Resultados Partners for Change (PCOMS) se asocian con una mejor participación terapéutica, la prevención del deterioro y el fortalecimiento de la alianza terapéutica. Sin embargo, los efectos se ven moderados por factores como el contexto de aplicación, el tipo de población y la resistencia del terapeuta. La revisión integra evidencia reciente sobre elementos de proceso e implementación, destacando que el impacto de la retroalimentación depende no solo del instrumento utilizado, sino también de cómo se incorpora en la práctica clínica.

Palabras clave: Psicoterapia; Evaluación de Resultados de Intervenciones Terapéuticas; Medición de Resultados informados por el Paciente

O monitoramento sistemático do progresso em psicoterapia emergiu nas últimas décadas como parte de um movimento mais amplo de práticas baseadas em evidências (Gelkopf et al., 2021). Sua aplicação visa a oferecer dados objetivos e contínuos sobre o estado do paciente, servindo como um recurso complementar à avaliação clínica tradicional. Inicialmente desenvolvido em contextos de saúde pública e grandes sistemas de atendimento, o método vem sendo adaptado a diferentes abordagens terapêuticas, com destaque para sua integração na terapia cognitivo-comportamental (TCC), em que apresenta evidências robustas de eficácia (Gelkopf et al., 2021). Embora o monitoramento possa ser aplicado em diversas abordagens psicoterapêuticas, sua integração na TCC é particularmente notável, dado o caráter estruturado da intervenção, o foco em metas específicas e a abertura a intervenções baseadas em dados (Hisler et al., 2024).

O monitoramento de progresso é um método que vem se destacando por sua capacidade de oferecer uma visão estruturada e contínua do estado do paciente. A utilização de instrumentos, tanto padronizados quanto personalizados, permite que os terapeutas acompanhem mudanças sutis em sintomas, bem-estar e funcionamento geral, proporcionando um quadro mais completo das necessidades do paciente (Rognstad et al., 2025). Os instrumentos são integrados a esse processo, oferecendo não apenas dados quantitativos, mas também alertas para terapias que podem não estar surtindo o efeito desejado. Esse método não só melhora a precisão das previsões, contextualizando o progresso dos pacientes em relação a dados normativos, mas também permite uma alocação de recursos de maneira mais eficiente. Ao identificar precocemente casos em que a intervenção não está sendo eficaz, pode-se ajustar o tratamento rapidamente, evitando a deterioração do quadro do paciente e orientando-o para intervenções mais adequadas (Barkham et al., 2023).

No entanto, um desafio significativo persiste: uma parcela considerável dos indivíduos submetidos à psicoterapia não apresenta melhoras significativas em suas condições e, em alguns casos, pode até experimentar uma deterioração de seu quadro clínico. Assim, os efeitos iatrogênicos em psicoterapia referem-se às consequências adversas que podem emergir como resultado do tratamento psicológico, em vez de proporcionar os benefícios esperados. Essas consequências podem incluir o agravamento dos sintomas, o surgimento de novas questões emocionais ou comportamentais, bem como a deterioração da relação entre o paciente e o terapeuta. É, portanto, crucial que os profissionais da saúde mental estejam cientes desses riscos e implementem estratégias de monitoramento e feedback ao longo do processo terapêutico, a fim de mitigar possíveis efeitos indesejados e promover melhores resultados para os pacientes (de Jong & Aafjes-van Doorn, 2022).

Uma pesquisa conduzida por Flückiger et al. (2018) reforça a perspectiva de um monitoramento de progresso, revelando que a qualidade da aliança terapêutica pode influenciar positivamente a adesão do paciente ao tratamento e a eficácia na aplicação das intervenções da TCC, tanto presenciais quanto on-line. Aliado a isso, Luong et al. (2020) destaca que o feedback, quando utilizado de forma regular, pode aumentar o engajamento e melhorar a aliança terapêutica, fatores que estão intimamente relacionados ao sucesso do tratamento em pacientes ansiosos. A falta de avaliação contínua pode resultar em falta de clareza sobre as necessidades dos pacientes e em intervenções menos eficazes. Dessa forma, muitas variáveis podem influenciar os desfechos do processo psicoterapêutico, e o monitoramento do progresso pode ser um instrumento valioso para fornecer dados mais precisos na compreensão da eficácia da psicoterapia (Rognstad et al., 2025).

Além disso, um fator relevante para que o monitoramento de progresso se torne fundamental são os estudos recentes sobre a prática psicoterapêutica, revelando uma propensão significativa entre os terapeutas a superestimar suas competências e a eficácia das intervenções propostas (Knapp et al., 2017; Longley et al., 2023; Pereira et al., 2024). Essa autoavaliação otimista é em parte influenciada por vieses cognitivos, como o viés de confirmação, que leva os profissionais a se recordarem com mais frequência dos casos de sucesso e a ignorarem os insucessos. Essa inter-relação complexa entre a autoavaliação dos terapeutas e a percepção clínica ressalta a necessidade de uma reflexão crítica contínua e de práticas que incentivem um monitoramento mais rigoroso dos resultados terapêuticos. Além disso, a confiança excessiva na própria capacidade pode resultar em uma falta de disposição para buscar feedback e medir constantemente o progresso dos pacientes. Diante disso, a incorporação de um método baseado em dados surge como essencial. Uma estrutura terapêutica que integre feedback contínuo, qualitativo e quantitativo pode oferecer uma perspectiva mais clara e imparcial do progresso do paciente (Lutz et al., 2022).

Este artigo tem como objetivo principal compreender como ocorre o monitoramento do progresso em psicoterapia. Especificamente, busca-se descrever os métodos atualmente utilizados para essa finalidade, analisar as evidências disponíveis sobre a eficácia desses métodos, investigar o impacto do uso sistemático do monitoramento na prática clínica, tanto para terapeutas quanto para pacientes, e refletir sobre como a pesquisa contínua nessa área pode ampliar o espectro de eficácia da psicoterapia, além de contribuir para a prevenção de efeitos iatrogênicos.

MéTODO

O presente estudo é uma revisão de escopo desenvolvida com base nas orientações do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), seguindo o estabelecido em seu último relatório sobre revisões de escopo, publicado em 2018 (Tricco et al., 2018). Todas as pesquisas consideradas neste artigo foram realizadas no dia 12 de fevereiro de 2025.

As pesquisas foram realizadas em três bases de dados: Web of Science, PubMed e Cochrane. Operadores booleanos foram utilizados para formar combinações entre os diferentes termos da seguinte forma: “psychotherapy” AND (“progress monitoring” OR “routine outcome monitoring” OR “measurement-based care” OR “feedback-informed treatment”). O resultado de cada um desses descritores foi filtrado pelos últimos cinco anos, considerando o período entre novembro de 2019 e novembro de 2024.

Todos os resultados obtidos foram transferidos para o software on-line gratuito Rayyan. O programa tem como objetivo auxiliar a realização de revisões sistemáticas, mas também pode ser utilizado no desenvolvimento de outros tipos de revisão (Ouzzani et al., 2016).

Em um primeiro momento, um dos pesquisadores retirou manualmente as duplicatas indicadas pelo aplicativo. Depois, com acesso aos títulos e aos resumos de cada artigo, dois pesquisadores avaliaram os critérios de inclusão de maneira independente. Os critérios de inclusão foram os seguintes: (a) estudos relacionados com a eficácia do monitoramento de progresso; (b) revisões sistemáticas com ou sem metanálise ou ensaios clínicos randomizados; e (c) trabalhos sobre adultos em atendimento individual. Nessa etapa, o cegamento foi retirado e os conflitos foram resolvidos por consenso entre os dois pesquisadores. Após esse estágio, os estudos disponíveis foram acessados pelos pesquisadores na íntegra. Na terceira etapa, os artigos completos foram analisados de maneira manual, considerando os seguintes critérios de exclusão: (a) resultados não publicados; (b) metodologias discrepantes das estabelecidas (revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados); e (c) trabalhos em línguas diferentes de inglês e português. O fluxograma (Figura 1) foi desenvolvido com base na declaração do PRISMA de 2020 e ilustra os procedimentos descritos (Page et al., 2021).

Imagem 1 Figura demostrando a metodologia Prisma 

Em relação aos critérios de inclusão da presente revisão, optou-se por incluir apenas ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas por serem considerados níveis elevados na hierarquia das evidências científicas. Essa escolha visa a assegurar maior robustez metodológica às conclusões e a fornecer subsídios confiáveis para a prática clínica. A delimitação temporal dos últimos cinco anos (2019 a 2024) justifica-se pela intenção de oferecer um panorama atualizado, alinhado às demandas contemporâneas da psicoterapia baseada em evidências. Com isso, busca-se garantir a relevância prática da revisão, permitindo que clínicos tenham acesso às recomendações mais recentes e aplicáveis ao seu contexto.

Além disso, restringiu-se a busca a artigos publicados em inglês e português para preservar a precisão conceitual das análises, evitando riscos de distorções causadas por traduções automáticas ou imprecisas. É importante ressaltar que esse critério linguístico não comprometeu a abrangência da revisão, pois não houve perda de artigos relevantes durante o processo de triagem. Embora a maioria dos estudos analisados se refira ao contexto da TCC, alguns não especificam a abordagem teórica utilizada, o que amplia a aplicabilidade dos achados.

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta um resumo com os principais aspectos de cada artigo analisado: tipo de artigo, objetivo e amostra, intervenções utilizadas, medidas de desfecho clínico, resultado encontrado e follow-up conduzido em cada artigo. Entre os 12 estudos incluídos nesta revisão, sete eram ensaios clínicos randomizados e cinco eram revisões sistemáticas, sendo três com metanálise. As pesquisas selecionadas foram agrupadas em quatro categorias principais: ferramentas e instrumentos de monitoramento, impacto do feedback no progresso terapêutico, desafios e condições de implementação, e eficácia em contextos específicos.

Tabela 1 Resultados da revisão de escopo 

Autor (ano) Tipo de artigo Objetivo/amostra Intervenções Medidas Resultados/desfechos Follow-up
Cordony et al. (2023) Revisão sistemática Examinar se o feedback de dados de monitoramento de resultados rotineiros (ROM) para pacientes e/ou clínicos em tratamentos de álcool e outras drogas (AOD) melhora os resultados futuros dos pacientes em 10 estudos. A intervenção consistiu na implementação de um sistema de feedback baseado em dados de ROM. Routine Outcome Monitoring (ROM); Outcome Rating Scale (ORS); Session Rating Scale (SRS); Group Session Rating Scale (GSRS); Outcome Questionnaire (OQ-45); Arnetz and Hasson score (AHSS); Symptoms Checklist 8D (SCL-8D); Addiction Severity Index (ASI); Readiness to Change Questionnaire (RCQ); Personal Resources Diagnostic System (PREDI) Embora alguns estudos indiquem que o feedback pode melhorar a retenção no tratamento e o funcionamento global, apenas um estudo encontrou uma redução significativa no uso de substâncias, e apenas entre indivíduos considerados “fora de pista”. A heterogeneidade dos métodos e a escassez de ensaios randomizados de alta qualidade dificultam conclusões firmes sobre a eficácia do feedback. Média de 12 semanas nos estudos.
De Jong & Aafjes-van Doorn (2021) Metanálise Metanálise multivariada abrangente a eficácia do feedback de progresso em tratamentos psicológicos com 21.699 pacientes extraídos de 58 estudos. Outcome Questionnaire System (OQ System); Partners for Change Outcome Management System (PCOMS). Redução dos sintomas; taxas de desistência; porcentagem de casos deteriorados; duração do tratamento. O feedback de progresso em psicoterapia tem um efeito positivo pequeno, mas significativo, na redução de sintomas, além de reduzir as taxas de desistência. A quantidade de estudos que apresentaram dados de follow-up foi limitada, resultando em uma análise não significativa para os efeitos do feedback nesse contexto.
Duncan et al. (2021) Ensaio clínico randomizado Avaliar a eficácia do Measurement-Based Care (MBC), usando o PCOMS, em melhorar desfechos psicoterapêuticos, aumentar adesão e reduzir abandonos em comparação ao tratamento usual (TAU) em cuidados integrados em 285 pacientes. Os terapeutas usaram o PCOMS, com aplicação da ORS e feedback em tempo real, para ajustar o tratamento com base nos resultados de cada sessão. ORS; Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9). Os resultados mostraram que os pacientes na condição de feedback apresentaram melhoras significativamente maiores na ORS em comparação com os da condição TAU. O estudo sugere que a implementação do MBC em ambientes de saúde integrada pode levar a melhores resultados; seis sessões.
Hisler et al. (2024) Ensaio clínico randomizado Examinar os efeitos da implementação do feedback do terapeuta por meio de um modelo de deep learning (DLM), ferramenta que prevê a resposta do tratamento em 2.394 pacientes. TCC on-line utilizando um DLM. Engajamento na plataforma; aceitabilidade da ferramenta; PHQ-9; Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7). Embora não tenha impactado diretamente os desfechos clínicos, aumentou significativamente o uso de recursos e a realização de atividades pelos pacientes, sugerindo potencial para aumentar o engajamento. Oito semanas; o estudo sugere que a DLM pode ser uma adição valiosa ao tratamento de TCC on-line, especialmente para identificar e intervir em clientes que não estão progredindo adequadamente.
Janse et al. (2020) Ensaio clínico randomizado Avaliar o efeito do feedback informado sobre o tratamento em terapias cognitivo-comportamentais em 368 pacientes. TCC de baixa intensidade (LIF-CBT); TCC de alta intensidade (HIF-CBT). Duração do tratamento; redução de sintomas; taxa de desistência. Os resultados mostraram que os pacientes na condição HIF-CBT alcançaram a mesma redução de sintomas em significativamente menos sessões em comparação com a condição LIF-CBT. Além disso, a taxa de desistência foi significativamente menor na condição HIF-CBT. O estudo sugere que o feedback intensivo pode reduzir a duração do tratamento e a desistência; média de 33,3 semanas.
Lewis et al. (2022) Ensaio clínico randomizado Comparar estratégias padronizadas e personalizadas de implementação do MBC em clínicas comunitárias, utilizando 154 clínicos e 228 pacientes, focando na adesão clínica e na redução de sintomas de depressão. Grupo padronizado: treinamento geral em MBC; uso do PHQ-9 em prontuários; consultas em grupo. Grupo personalizado: treinamento adaptado às barreiras específicas das clínicas e suporte para superá-las. Completude do PHQ-9; fidelidade ao MBC. Os resultados mostraram que, embora a implementação personalizada tenha superado a padronizada em termos de completude do PHQ-9, não houve diferença significativa na fidelidade total ao MBC entre os grupos. Redução significativa no PHQ-9 após 12 semanas.
Malins et al. (2020) Ensaio clínico randomizado Avaliar a validade preditiva da ORS em relação a uma variedade de resultados de saúde em longo prazo em 79 pacientes com ansiedade severa relacionada à saúde que receberam TCC. TCC adaptada à ansiedade severa. Structured Clinical Interview for the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders IV (SCID); Outcome Rating Scale(ORS); Short-Form Health Anxiety Inventory (SHAI); Patient Health Questionnaire (GAD-7); PHQ-9; Patient Health Questionnaire (PHQ-15); Work and Social Adjustment Scale (WSAS); EuroQol (EQ-5D-5L); Visual Analogue Scale(VAS). Os resultados mostraram que as pontuações da ORS na última sessão previram melhoras significativas em vários desfechos de saúde mental e física ao longo do tempo, incluindo ansiedade. Os resultados indicaram que as pontuações da ORS no final do tratamento eram preditivas de melhoras ao longo do tempo; intervalos de três, seis, nove e 12 meses após o tratamento.
Østergård et al. (2020) Revisão sistemática e metanálise Avaliar os efeitos do PCOMS como uma ferramenta de feedback na psicoterapia e explorar potenciais moderadores desse efeito; 18 estudos com 2.910 pacientes no total. PCOMS. ORS; SRS. Os resultados da metanálise mostraram um efeito geral pequeno do uso do PCOMS sobre os sintomas gerais. Não houve efeito em ambientes psiquiátricos e houve um efeito positivo em ambientes de aconselhamento. Estudo não realizou follow-up.
Østergård et al. (2021) Ensaio clínico randomizado Investigar a eficácia do PCOMS na melhora da taxa de retenção e na redução do uso de drogas em um centro de tratamento para 100 usuários de Cannabis. PCOMS utilizando ORS e SRS. Taxa de retenção do tratamento; uso de drogas (EuropASI). O estudo não encontrou evidências de que o PCOMS melhorasse a retenção ou reduzisse o uso de Cannabis em comparação ao TAU. Follow-up realizado três e seis meses após a baseline; 8 sessões.
Rognstad et al. (2025) Revisão sistemática Mapear como elementos de processo e implementação são utilizados em 39 estudos sobre sistemas de feedback de medidas (MFS). Teoria de intervenção de feedback de desempenho clínico (CP-FIT). Funcionamento do paciente; sintomas de sofrimento psicológico; medidas de aliança terapêutica. Os resultados indicaram um efeito positivo geral dos MFS sobre os resultados clínicos, sugerindo que os MFS podem melhorar os resultados em comparação com o TAU. Não foram encontradas associações entre os elementos de processo e implementação e os tamanhos de efeito dos MFS. A eficácia dos MFS pode aumentar ao longo do tempo.
Schöttke et al. (2022) Ensaio clínico randomizado Avaliar se o monitoramento sistemático do progresso de 230 pacientes, com ou sem feedback para os terapeutas, melhora os resultados da psicoterapia. TCC. Questionnaire for the Evaluation of Psychotherapeutic Change (FEP-2); Outcome Questionnaire (OQ-30); Assessment for Signal Cases (ASC). Os resultados mostraram que, embora a carga psicológica dos pacientes tenha melhorado significativamente em todos os grupos ao longo do tratamento, não houve diferenças estatisticamente significativas entre eles em relação à eficácia do tratamento. Houve melhora, mas não resultou em diferenças significativas nos resultados do tratamento entre os grupos; média de 30 sessões.
Solstad et al. (2023) Revisão sistemática Investigar os efeitos e as experiências relacionadas ao uso de medidas de resultado relatadas pelo paciente de forma idiográfica (I-PROMs) em psicoterapia, por meio de uma revisão sistemática com 13 estudos da literatura empírica. I-PROMS. Facilitar o monitoramento contínuo de progresso; fornecer feedback em tempo real; ajustar intervenções terapêuticas. Os resultados mostraram que os I-PROMs facilitaram a auto-reflexão dos pacientes, ajudaram na identificação de tópicos terapêuticos e aumentaram o comprometimento com a terapia. Contudo, desafios como dificuldade em formular metas, desmotivação pela falta de progresso e necessidade de flexibilidade na aplicação dos I-PROMs foram identificados. Sem acompanhamento sistemático relatado nos estudos.

FERRAMENTAS E INSTRUMENTOS DE MONITORAMENTO

Nessa categoria, foram identificados diferentes instrumentos e sistemas utilizados para monitoramento do progresso terapêutico, os quais podem ser organizados em três grupos principais: instrumentos padronizados de rastreio clínico, ferramentas de acompanhamento contínuo com feedback ao terapeuta e tecnologias personalizadas ou baseadas em inteligência artificial.

Entre os instrumentos padronizados, destaca-se o Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9), composto por nove itens que avaliam a presença de episódio depressivo maior, conforme os critérios da 5ª edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5) (Levis et al., 2019). Esse instrumento, em alguns estudos, foi utilizado em conjunto com o Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7) como base para sistemas preditivos, como no caso da ferramenta deep-learning model (DLM).

Nas ferramentas que fornecem feedback contínuo ao terapeuta, o Outcome Questionnaire-45 (OQ-45), de autoavaliação, monitora a saúde mental do paciente ao longo do tratamento, medindo mudanças na funcionalidade e prevendo possíveis falhas, além de fornecer retorno direto aos profissionais. Ele avalia aspectos como sofrimento psicológico, relações interpessoais, papéis sociais e estados emocionais positivos (Lambert et al., 2018). Já o Partners for Change Outcome Management System (PCOMS) é um sistema de gerenciamento de resultados centrado na coleta e utilização do feedback do paciente para aprimorar os desfechos terapêuticos. Essa ferramenta tem sido especialmente empregada em contextos como centros de aconselhamento universitário e clínicas ambulatoriais (Miller et al., 2005). Também relacionado ao monitoramento contínuo está a Outcome Rating Scale (ORS), um instrumento breve que avalia o bem-estar do paciente durante a terapia com foco nos funcionamentos pessoal, interpessoal e social, auxiliando os terapeutas no acompanhamento do progresso e na adaptação das intervenções (Miller et al., 2005).

Entre as ferramentas mais recentes e personalizadas, encontram-se os Idiographic-Patient-Reported Outcome Measures (I-PROMs), que são instrumentos dinâmicos que se adaptam às necessidades do paciente e oferecem feedback em tempo real, permitindo um monitoramento contínuo da eficácia do tratamento (Green, 2016). Por fim, a ferramenta DLM, identificada em apenas um dos estudos, foi desenvolvida para uso em contextos de TCC oferecida via internet voltada ao tratamento de depressão e ansiedade. Esse sistema aplica técnicas de aprendizado profundo para prever a probabilidade de um paciente alcançar melhoras confiáveis com base em avaliações repetidas dos instrumentos PHQ-9 e GAD-7.

IMPACTO DO FEEDBACK NO PROGRESSO TERAPêUTICO

Na análise dos estudos para esta revisão, a maioria das pesquisas destacou os efeitos positivos do feedback no processo terapêutico em relação principalmente a: melhora nos resultados, mudanças clinicamente significativas, maior frequência de sessões, menor deterioração dos casos e menor taxa de desistência. O estudo de Janse et al. (2020) apresentou uma particularidade: análises post hoc indicaram que pacientes com transtornos da personalidade apresentaram uma redução de sintomas quando receberam feedback intensivo. Os resultados demonstraram que os pacientes na condição TCC de alta intensidade alcançaram a mesma redução de sintomas em significativamente menos sessões em comparação com a condição TCC de baixa intensidade.

Malins et al. (2020) revelou que a ORS é eficaz para prever desfechos clínicos e monitorar o progresso terapêutico, especialmente em pacientes que apresentam melhoras rápidas no início da terapia, estendendo-as ao longo de 12 meses. Já Hisler et al. (2024) investigou a ferramenta DLM, que, embora não tenha impactado diretamente os desfechos clínicos, aumentou significativamente o uso de recursos e a realização de atividades pelos pacientes, sugerindo potencial para aumentar o engajamento.

Duncan et al. (2021) demonstrou que o uso de feedback contribuiu significativamente para a melhora nos escores da ORS, promovendo maior engajamento dos pacientes e menor abandono do tratamento, embora não tenham sido observadas mudanças significativas nos escores do PHQ-9. de Jong et al. (2021) corroborou esses achados, apontando que o feedback tem um pequeno, mas significativo, efeito na redução de sintomas psicológicos, especialmente em casos que fogem do progresso esperado. Por sua vez, Østergård et al. (2020) mostrou que o PCOMS apresentou efeitos significativos em configurações de aconselhamento, mas sua eficácia foi limitada em ambientes psiquiátricos, ressaltando a importância do contexto.

Em contraponto, no artigo de Schöttke et al. (2022) não foram encontrados efeitos positivos significativos do feedback sobre os resultados do tratamento. Os achados apontaram que, embora a carga psicológica dos pacientes tenha melhorado significativamente em todos os grupos ao longo do tratamento, não houve diferenças estatisticamente significativas entre eles em relação à eficácia. O autor sugere que a falta de um efeito positivo pode estar relacionada à baixa frequência de feedback e a necessidade de um monitoramento mais sistemático e frequente.

DESAFIOS E CONDIçõES DE IMPLEMENTAçãO

Essa categoria explorou os fatores que dificultam ou facilitam a utilização de sistemas de feedback. Solstad et al. (2023) destacou as vantagens da utilização do I-PROMS pelo fato de facilitar a autorreflexão dos pacientes, identificar e monitorar tópicos terapêuticos, e aumentar o comprometimento com a terapia. No entanto, o artigo ressaltou a necessidade de flexibilidade por parte dos terapeutas ao implementar I-PROMs, pois o uso inflexível desses instrumentos pode limitar sua eficácia. Utilizando sistemas de feedback como Outcome Questionnaire (OQ) e o PCOMS, Rognstad et al. (2025) identificou barreiras organizacionais e culturais, além de baixa adesão por parte dos terapeutas, como fatores que comprometem os resultados. Lewis et al. (2022) observou que abordagens personalizadas na implementação do PHQ-9 aumentaram a adesão ao longo do tempo, mas não resultaram em melhoras clínicas significativas, evidenciando a complexidade de adaptar o monitoramento às práticas clínicas.

EFICáCIA EM CONTEXTOS ESPECíFICOS

Nesta revisão, foram encontrados apenas dois artigos que analisaram os efeitos do monitoramento de progresso em contextos específicos, ou seja, situações delimitadas por características como o tipo de população atendida, o foco do tratamento ou a natureza dos desafios terapêuticos enfrentados.

Por exemplo, Cordony et al. (2023) investigou o impacto do feedback baseado nos resultados de indivíduos em tratamentos voltados para álcool e outras drogas. Embora houvesse algumas evidências preliminares de que o feedback poderia melhorar os resultados, a maioria dos estudos incluídos na análise não encontrou associações significativas entre o uso do feedback e a redução do consumo de substâncias. Apenas uma pesquisa revelou uma redução significativa no uso de substâncias, e isso ocorreu exclusivamente entre pacientes classificados como “fora de pista” - ou seja, aqueles cujo progresso estava abaixo do esperado. No entanto, quatro dos seis estudos de qualidade boa ou média identificaram melhoras em outros aspectos, como maior retenção no tratamento e melhor bem-estar geral dos pacientes.

De forma semelhante, Østergård et al. (2021) analisou o uso de feedback em indivíduos em tratamento para o uso de Cannabis. Os resultados não demonstraram um efeito incremental do uso do PCOMS em comparação ao tratamento usual no que diz respeito a retenção no tratamento, redução do uso de drogas ou fortalecimento da aliança terapêutica. A média de comparecimento às sessões foi semelhante entre os grupos, assim como as taxas de desistência, que não apresentaram diferenças estatisticamente significativas. Em síntese, o estudo não encontrou evidências de que o PCOMS proporcionasse melhorias na retenção ou na redução do uso de Cannabis em relação ao tratamento usual.

ANáLISE COMPARATIVA E LACUNAS NAS EVIDêNCIAS

Os estudos analisados nesta revisão revelam um panorama quanto à utilidade dos instrumentos de monitoramento e do uso de feedback no contexto psicoterapêutico, embora com nuances importantes. De modo geral, ferramentas como a ORS e o PCOMS demonstram bons resultados na melhora de desfechos clínicos e engajamento dos pacientes, mas a eficácia dessas intervenções parece variar conforme o contexto de aplicação. Por exemplo, enquanto estudos como os de Duncan et al. (2021) e de Jong et al. (2021) apontam efeitos positivos do feedback, Østergård et al. (2020) e Schöttke et al. (2022) sinalizam que esses efeitos podem ser mais limitados ou inexistentes em contextos psiquiátricos ou com baixa frequência de feedback.

Além disso, há evidências de que o tipo de população atendida influencia os resultados. O estudo de Janse et al. (2020) mostra que pacientes com transtornos da personalidade se beneficiam de feedback intensivo, enquanto Østergård et al. (2021) e Cordony et al. (2023) não identificaram efeitos robustos do feedback em populações com uso de substâncias. Isso sugere que a eficácia do monitoramento de progresso pode depender tanto da natureza do transtorno quanto da forma como o feedback é integrado ao tratamento.

Os achados também convergem quanto aos desafios de implementação. Diversos estudos, como os de Rognstad et al. (2025) e Solstad et al. (2023), indicam barreiras organizacionais, resistência por parte dos terapeutas e necessidade de flexibilidade na aplicação dos instrumentos. Esses fatores aparecem como obstáculos recorrentes que limitam o potencial impacto dos sistemas de monitoramento.

Solstad et al. (2023) mostrou que os terapeutas devem adaptar o uso de I-PROMs às necessidades individuais dos pacientes, focando no uso de diálogo e colaboração para fornecer intervenção direcionada e de apoio, como parte da criação e da manutenção de uma aliança terapêutica - por exemplo, não usando em todas as sessões ou adiando a discussão se os pacientes quiserem falar sobre outros temas.

Por fim, embora a maioria dos estudos relate efeitos positivos ou promissores, muitos apresentam limitações metodológicas ou resultados mistos, especialmente nos contextos específicos. Isso evidencia a necessidade de mais investigações que comparem diretamente diferentes instrumentos e estratégias de feedback, em contextos clínicos distintos, para se compreender melhor quando e para quem o monitoramento de progresso é mais eficaz.

DISCUSSÃO

O monitoramento de progresso em psicoterapia é uma prática importante que visa a acompanhar de forma sistemática a evolução dos pacientes ao longo do tratamento, permitindo ajustes nas intervenções terapêuticas conforme necessário. Foi objetivo desta revisão de escopo compreender como ocorre o monitoramento de progresso em psicoterapia, qual a eficácia dos métodos atuais mais utilizados na TCC e qual o impacto na prática clínica tanto para o terapeuta quanto para o paciente. O investimento em monitoramento de progresso em psicoterapia contribui para aprimorar as intervenções terapêuticas, garantindo que sejam não apenas precisas, mas também adaptadas às necessidades individuais dos pacientes (Lutz et al., 2022).

Nesta revisão, foi possível observar duas formas de monitorar o progresso com mais eficácia: via instrumentos psicométricos e instrumentos idiográficos. Em relação aos instrumentos psicométricos, os mais utilizados foram OQ, PCOMS, PHQ-9 e ORS. A aplicação desses instrumentos forneceu feedback, ajudando o psicoterapeuta a manter a adesão do paciente ao processo terapêutico, e aumentou o engajamento e o monitoramento dos sintomas (de Jong et al., 2021). O estudo realizado por Solstad et al. (2023) demonstrou a importância de personalizar medidas de monitoramento, o que permite que as intervenções sejam adaptadas às necessidades individuais, levando em consideração os objetivos e os desafios únicos de cada sujeito. Destaca-se que personalizar aumentou o engajamento do paciente, a solidez da aliança terapêutica e permitiu ajustes colaborativos no tratamento, um princípio fundamental na TCC.

De maneira análoga, o monitoramento regular pode permitir que terapeutas identifiquem rapidamente intervenções que possam ser prejudiciais e ajustem suas abordagens, promovendo um ambiente de tratamento mais seguro e eficaz. Além disso, a prática de feedback contínuo fortalece a aliança terapêutica, incentivando um diálogo aberto sobre os desafios enfrentados e estimulando resultados mais positivos (Flückiger et al., 2018). Assim, o monitoramento de progresso não apenas se configura como uma ferramenta de melhoria para os resultados terapêuticos, mas também pode desempenhar um papel importante para diminuir os riscos de efeitos iatrogênicos, contribuindo para um tratamento mais ético e centrado no paciente. Apesar da implementação de sistemas de feedback mostrar potencial para avanços significativos na eficácia da psicoterapia, esta revisão evidencia lacunas relevantes que precisam ser abordadas para maximizar os benefícios dessas práticas (de Jong et al., 2021).

Alguns pontos na área de monitoramento de progresso necessitam de atenção. Um ponto a se destacar na psicoterapia refere-se à taxa de desistência, que apresenta variações significativas em função de fatores como o modelo terapêutico adotado, as características individuais dos pacientes e as condições de acesso ao tratamento. Aspectos como baixa aliança terapêutica, expectativas irreais em relação ao tratamento e dificuldades logísticas, como custos e transporte, têm sido identificados como preditores comuns de abandono (Bethany Carrington et al., 2024; Kullgard et al., 2022). O monitoramento de progresso pode oferecer insights importantes sobre variáveis que se relacionam com o abandono de psicoterapia. Mais estudos sobre o uso de monitoramento e taxas de abandono dos tratamentos são recomendados.

Assim, alguns dos desafios a serem superados dizem respeito à adesão dos pacientes em preencher medidas sequenciais e contínuas e dos próprios terapeutas em entenderem o quanto monitorar o progresso pode contribuir positivamente para o desfecho clínico. Dessa forma, a adesão dos clínicos aos protocolos de monitoramento de progresso é um fator importante a ser considerado. A resistência por parte dos terapeutas, baixa fidelidade no uso de ferramentas padronizadas e treinamento insuficiente constituem barreiras que limitam a eficácia do monitoramento. Tais obstáculos precisam ser superados, pois a implementação consistente dessas práticas demonstra que a formação e o suporte contínuos dos profissionais são essenciais para garantir um impacto positivo no tratamento (McAleavey et al., 2024).

Outro obstáculo que surge na discussão sobre monitoramento de progresso é a tendência dos terapeutas, especialmente aqueles mais experientes, de se avaliarem como competentes e, por esse motivo, não entenderem a necessidade do feedback contínuo (Kullgard et al., 2022). A autoavaliação otimista dos terapeutas cognitivo-comportamentais pode levar a uma desconsideração da necessidade de monitoramento rigoroso e feedback. Essa confiança excessiva pode resultar em falta de disposição para buscar feedback externo e ajustar as abordagens terapêuticas quando necessário. Quando os psicoterapeutas não reconhecem suas limitações ou não ajustam suas intervenções, os pacientes podem não alcançar os resultados desejados, perpetuando um ciclo de insatisfação e progressos limitados na terapia (Pereira et al., 2024). Em suma, a inter-relação entre a autoavaliação dos terapeutas, os vieses cognitivos e os resultados dos pacientes são complexos, e a adoção de práticas que incentivem a reflexão crítica e o feedback pode ser importante para a melhoria contínua na psicoterapia, necessitando de mais pesquisas.

Um dos desafios identificados foi a baixa potência estatística e a qualidade questionável de muitos estudos na área, resultando em conclusões que podem não ser robustas ou generalizáveis. A heterogeneidade das abordagens dificulta ainda mais a comparação de resultados, uma vez que as medidas de progresso e os tipos de feedback utilizados variam amplamente entre as pesquisas. Essa variação nos efeitos do feedback observada em diferentes contextos pode ser atribuída a diferenças nos métodos de implementação, nas características dos pacientes e nos perfis dos terapeutas, diminuindo a uniformidade das evidências e limitando diretrizes clínicas claras.

Além disso, a escassez de estudos robustos que avaliem os efeitos do monitoramento de progresso ao longo do tempo representa uma limitação significativa. A investigação insuficiente sobre como essas práticas podem ser aplicadas de maneira sustentada e eficaz reduz a capacidade de entender completamente seus benefícios. Para abordar essas lacunas, futuras pesquisas devem explorar a eficácia do feedback em diversos contextos clínicos e investigar a utilização de diferentes ferramentas. Mais estudos deverão investigar quando e como esses efeitos são produzidos e em que tipo de resultados podemos esperar encontrá-los. Para resolver essa questão, os autores dos estudos encorajam fortemente que pesquisas futuras incluam medidas de resultados independentes (de Jong & Aafjes-van Doorn, 2022). Além disso, o uso de dados de feedback para combinar pacientes com terapeutas específicos, com base nos resultados anteriores dos clínicos, pode melhorar a eficácia do tratamento (McAleavey et al., 2024).

Com isso, pesquisas futuras são necessárias para explorar mediadores e moderadores da eficácia do feedback, diferentes características dos sistemas de feedback e uma gama mais ampla de medidas de resultados. A eficácia do monitoramento de progresso depende fortemente da implementação adequada, que inclui treinamento dos terapeutas e uso efetivo das medidas (McAleavey et al., 2024).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em conclusão, este estudo buscou compreender como ocorre o monitoramento do progresso em psicoterapia, destacando seus métodos, impactos e limitações. Os achados indicam que o uso sistemático de feedback ao longo do processo terapêutico representa uma estratégia valiosa, com potencial para aumentar a eficácia das intervenções, promover ajustes responsivos ao tratamento e prevenir efeitos iatrogênicos. Embora haja suporte para o uso de feedback como uma estratégia importante na avaliação do processo terapêutico, as limitações metodológicas destacadas nas revisões sistemáticas, metanálises e ensaio clínicos randomizados presentes nesta revisão indicam a necessidade de mais pesquisas rigorosas e bem-delineadas. Elas devem abordar as variações nos efeitos, os desafios e as questões de implementação em diversos contextos a fim de fornecer recomendações mais robustas e abrangentes. A compreensão dessas limitações é essencial para otimizar os benefícios do monitoramento de progresso em psicoterapia, garantindo que todos os pacientes possam se beneficiar de uma psicologia baseada em evidências.

Fonte de financiamento:Nada consta.

Outras informações relevantes:Este artigo foi submetido no GNPapers da RBTC código 583.

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Recebido: 14 de Fevereiro de 2025; Aceito: 30 de Abril de 2025; Publicado: 17 de Novembro de 2025

Correspondência: Matheus da Costa Magalhães E-mail: matheusc.atlas@gmail.com | mariaameliapenido@gmail.com

Editora responsável:

Marcela Mansur-Alves

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