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Gerais : Revista Interinstitucional de Psicologia

On-line version ISSN 1983-8220

Gerais, Rev. Interinst. Psicol. vol.16 no.1 Belo Horizonte  2023  Epub Jan 20, 2025

https://doi.org/10.36298/gerais202316e18793 

Artigo

Jornal O Bond e subjetividade feminina na Fortaleza Belle Époque

Newspaper O Bond and Female Subjectivity during the Belle Époque in Fortaleza

Nathássia Matias de Medeiros1 
http://orcid.org/0000-0003-1766-2388

Idilva Maria Pires Germano2 
http://orcid.org/0000-0003-0062-9899

1Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil. E-mail: nathassiamm@gmail.com

2Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil. E-mail: idilvapg@gmail.com


Resumo

Este artigo objetiva analisar características, estratégias e funções dos enunciados sobre a mulher presentes no jornal O Bond, que circulou em Fortaleza durante a chamada Belle Époque. Parte-se de uma abordagem de matiz foucaultiano sobre o discurso, refletindo seus potenciais efeitos de subjetivação. A partir da análise realizada, observou-se que os enunciados celebram mulheres recatadas, puras, inocentes, virgens e virtuosas, além de mães e esposas dedicadas e submissas ao marido. Sobre os mecanismos de controle presentes no jornal, identificamos a denúncia condenatória dos comportamentos classificados como inadequados, os conselhos que indicavam às mulheres como elas deveriam se portar e se relacionar, e a difusão do modelo “aceitável” de mulher, deixando claro quais características femininas eram esperadas.

Palavras-chave Imprensa feminina; Subjetividade feminina; Jornais antigos do Ceará

Abstract

This article aims to analyze characteristics, strategies, and functions of the statements on women in the newspaper O Bond, which circulated in Fortaleza during the so-called Belle Époque. The study is based on the Foucaultian analysis of the discourse, discussing its potentials effects of subjectivation. From the analysis made, we observed that it was aimed to produce women who are demure, pure, innocent, virgin, and virtuous, as well as dedicated mothers and wives submissive to their husbands. Regarding the mechanisms of control present in the newspaper, we identified the condemnatory denunciation of behaviors classified as inadequate. Women were advised on how they should behave and relate, promoting an “acceptable” model of women, delineating which feminine characteristics were expected.

Keywords Women’s Press; Female Subjectivity; Old Newspapers from Ceará (Brazil)

A virada do século XIX para o XX foi crucial na história da imprensa cearense, com um aumento considerável do consumo dos títulos postos em circulação, sobretudo e mais rapidamente mediante os recém-inaugurados trens que formavam uma larga rede de comunicação pelo estado nesse período (Barbosa & Lima, 2008). A circulação dos jornais e revistas no norte do estado era facilitada pela nova Estrada de Ferro de Sobral, que ia do litoral portuário à cidade de Ipu, passando por Sobral.

De acordo com Studart (1898), na década de 1860, surgiram 116 novas publicações cearenses; na década de 1870, 78 jornais (queda que se atribui ao severo período de seca no Ceará); 175 novas publicações na década de 1880; 265 na primeira década do Brasil República; 345 novos periódicos na primeira década do século XX e 311 de 1910-1919. Entre 1920 e 1929, o número foi modesto em relação à década anterior, apenas 194 novos títulos. Tais periódicos também podiam ser adquiridos em livrarias, como a Livraria Ribeiro situada na capital cearense, ou nas próprias tipografias onde eram produzidos. O consumo dessa mídia impressa era feito principalmente pelos grupos mais abastados da sociedade, configurando, então, os periódicos como artigos de luxo.

Tais jornais não traziam apenas acontecimentos da vida cotidiana dos citadinos, também funcionavam como principal veículo de produção literária da época, sendo frequente a publicação de poesias e contos curtos nas páginas pasquineiras. Também surgiram almanaques e revistas indicados para as famílias, trazendo conteúdos sobre literatura, ciência, artes, filosofia, viagens etc.

A imprensa era vista como uma grande via de disseminação do progresso e da instrução em meio a um Ceará atrasado e ignorante. Os periódicos, assim como as cartas e os telegramas, eram os grandes meios de comunicação disponíveis na Belle Époque cearense e davam o tom das novas relações sociais que se constituíam. Os novos valores em ascensão na segunda metade do século XIX, como o cientificismo, positivismo e republicanismo, eram marca registrada de muitos dos jornais. Em 1886, por exemplo, houve a importante criação do “Clube Literário”, composto de românticos e abolicionistas que levantavam a bandeira da luz. O clube produzia o jornal A Quinzena, criado em 1887 e de cunho marcadamente republicano.

Entre os numerosos títulos de periódicos que circularam no país entre o fim do século XIX e início do século XX, alguns eram especificamente direcionados ao público feminino, formando o corpo de uma emergente imprensa feminina, que se trata da imprensa produzida para mulheres, liderada por escritoras e editoras mulheres ou não (Buitoni, 1990). No Ceará não foi diferente, onde também se registra o novo periodismo feminino em jornais como O Bond, O Orvalho, O Astro, O Lírio e A Brisa. Provavelmente, além destes, muitos outros existiram, mas foram perdidos ao longo do tempo devido aos desafios de conservação centenária desse tipo de documento impresso. Entre esses jornais, o periódico O Bond possui a maior quantidade de números preservados nos acervos públicos da cidade de Fortaleza. Os 23 números desse jornal aos quais tivemos acesso, publicados entre 1890 e 1891, podem ser encontrados na Hemeroteca do Instituto Histórico Geográfico e Antropológico do Ceará.

No jornal O Bond, é possível encontrar numerosos enunciados que falam sobre a condição da mulher na sociedade cearense. O jornal é repleto de modos peculiares de se dirigir às suas leitoras, com repertórios que constroem a mulher associando-a ao mundo doméstico, à delicadeza, recato, beleza, fragilidade e outros traços e imperativos da “feminilidade” hegemônica. Ao mesmo tempo, o jornal apresenta de forma negativa as mulheres “namoradeiras”, que escapavam desse modelo vigente. A partir disso, surge a pergunta central do presente artigo: que modos de subjetivação eram discursivamente construídos para mulheres no jornal O Bond durante a Belle Époque no Ceará?

Buscamos entender aqui a que a mídia jornalística, como meio de comunicação social, transmite modos de agir, pensar, conduzir a vida, tomar decisões, valores, prescrições, ou seja, modos de ser. Assim como Fischer (2002), entendemos que a mídia funciona, ao lado das instituições, como um meio de educação das pessoas, participando nos processos de constituição de subjetividades.

Pensar o jornal como mecanismo de regulação da subjetividade da mulher implica pensar na mídia como um discurso capaz de produzir efeitos de subjetivação. Como indica Gregolin (2007), os estudos que trabalham com análise de discursos podem estabelecer um rico diálogo com os estudos sobre as diversas mídias, uma vez que pensar o discurso implica pensar na apropriação da linguagem pelos sujeitos e como esse processo está inserido na história.

Dessa maneira, ao analisarmos os discursos veiculados no O Bond, preocupamo-nos também com a produção de sujeitos, pois os discursos, ao regularem a vida feminina, perpassam as subjetividades e atuam na construção de modos de subjetivação: “[...] os sujeitos são efeitos discursivos e esses efeitos produzidos no interior de concretas relações sociais, econômicas, institucionais, não existem senão nos corpos [...]” (Fischer, 2003, p. 384). A partir dessa perspectiva, o sujeito é indissociável das relações sociais.

Quando pensamos na questão do discurso tendo como referência Michel Foucault, buscamos entender os jogos de saber e poder envolvidos na formação discursiva em questão, pois a construção dos discursos e das verdades vigentes está relacionada com o poder (Lene, 2006). Tal análise do poder é realizada tendo sempre em vista o efeito-sujeito. Isso porque, nos modos de subjetivação, um poder/saber exerce-se positivamente sobre um corpo, produzindo um modo de vida, constituindo um sujeito. A proposta desta pesquisa é analisar o “foco local de poder-saber” (Foucault, 1988) presente nos jornais para mulheres analisados, de modo a elucidar quais saberes são veiculados e quais mecanismos de poder são engendrados nas páginas do pasquim analisado.

É fundamental ainda destacar que esta pesquisa se centra na história dos modos de regulação da vida feminina que se mostram no jornal O Bond. Esta pesquisa, portanto, propõe-se a contribuir para o campo de estudos da história dos modos de subjetivação das mulheres brasileiras, caminhando na contramão da narrativa histórica tradicional que privilegia a cena pública e os sujeitos masculinos e destina as mulheres ao silêncio (Perrot, 2005). Interessa-nos revisitar o passado não para localizar a origem de nossa identidade, mas sim para desconstruí-la. Pensar a história dessa forma “[...] pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam.” (Foucault, 2013, p. 83).

Tendo em vista a visada histórica deste artigo, propomo-nos a realizar ainda uma breve incursão ao passado da Belle Époque cearense, destacando o contexto do jornalismo da época e o funcionamento da imprensa feminina de então.

A Belle Époque das letras: a imprensa feminina e o jornal cearense O Bond

Explorando o cenário histórico-social que abordamos aqui, cabe destacar que o salto no desenvolvimento da imprensa insere-se em um quadro maior de mudanças sociais. O fim do século XIX e início do século XX no Brasil foram marcados por uma série de eventos importantes, como a abolição da escravatura em 1888, a Proclamação da República em 1889, a produção da borracha, o início do movimento sufragista, a reforma escolar, a acentuada imigração advinda tanto de países estrangeiros quanto das zonas rurais para os grandes centros urbanos, o movimento ascendente de industrialização e urbanização, entre outros.

O movimento “original” da Belle Époque teve início na França, ocorreu por volta de 1870 a 1914 e envolveu intensas transformações na cultura, nas artes, nas tecnologias e na vida política. Tal processo de agitação sociocultural serviu como inspiração para movimentos similares em outros países, o que se ligava ao fato de que a França era então considerada o centro cultural do mundo. Como explica Hobsbawm (1974), durante o século XIX, o “mundo desenvolvido” fornecia modelos a serem copiados pelas localidades “mais atrasadas”, tendo os franceses grande influência na América Latina. No Brasil, podemos considerar que a Belle Époque se inicia por volta da década de 1860 e se prolonga até aproximadamente 1930.

Antes do movimento, no início do século XIX, o Brasil não configurava ainda como um país urbanizado, predominando o modelo rural de vida, baseado nas grandes fazendas. Até o início do século XX, o uso da cidade e a higiene pública não eram regulamentados por leis no Brasil. O estilo de vida das classes mais abastadas era baseado no da família real portuguesa, as relações sociais marcadas pelo sistema de escravidão e as famílias seguiam um rígido modelo patriarcal (D’Incao, 2015).

Ao longo do século XIX, as ruas passavam a ser consideradas um espaço público e o seu uso deveria ser regulamentado. Ia-se então criando uma oposição entre o espaço público da rua e o espaço privado do lar (Freyre, 1985). Com o intenso conjunto de ações urbanas e sociais, buscava-se, nesse período, a modernização e a higienização da sociedade. Além disso, construiu-se um conjunto de novos valores que passaram a circular no meio social. As relações sociais, que antes eram senhoriais, tornavam-se burguesas, guiadas pelos interesses econômicos da nova classe em ascensão.

A partir da segunda metade do século XIX, o vertiginoso aumento na produção e exportação de algodão cearense torna a cidade de Fortaleza um importante polo econômico e a sétima capital de maior população do Brasil no fim do século XIX. Segundo o recenseamento de 1890, o estado do Ceará já contava com 805.687 habitantes, sendo 394.909 homens e 410.778 mulheres; 358.619 habitantes eram brancos, 69.635 pretos, 137.956 caboclos e 239.477 mestiços (Studart, 1924).

Durante a Belle Époque no Brasil, houve na capital cearense intensa modernização dos espaços públicos, higienização da urbe e dos grupos sociais, refinamento dos costumes, medicalização das vidas. Todos esses processos, juntos, contribuíram para a intensa transformação dos modos de os sujeitos relacionarem-se consigo mesmos, com os outros e com a cidade durante relativamente um curto período: “A nova Fortaleza aformoseada agora exigia novos corpos, sadios e civilizados.” (Ponte, 2001, p. 195).

Em 1875, Adolfo Herbster apresenta a Nova Planta Topográfica da Cidade de Fortaleza e Subúrbios, claramente inspirada no modelo da reforma parisiense realizada pelo Barão de Haussmann em meados do século XIX, que buscava principalmente tornar a cidade mais bela e desestimular rebeliões populares. O novo planejamento urbano de Fortaleza mantinha o formato em xadrez já proposto por Silva Paulet, facilitando a disciplinarização, a vigilância, a higienização e delimitação dos fluxos urbanos.

Mudanças drásticas marcaram a cidade, como a criação de novas mansões, prédios públicos, cinemas, reformas de praças, abastecimento de água e esgoto, Mercado de Ferro (1897), Teatro José de Alencar (1910), criação do Asilo de Alienados e Asilo de Mendicidade (1886), transferência de curtumes, matadouros e cemitérios, calçamentos, criação de bondes a tração animal, rede de iluminação a gás carbônico, implantação de estrada de ferro, criação da Biblioteca Pública (1867), da Santa Casa de Misericórdia (1861), novas fábricas e novo porto (1891). Além disso, no campo das ações para a população, houve a criação de novas instituições assistencialistas, organização do policiamento, criação de oficinas na cadeia pública (1882), vacinações, criação de colégio para órfãos, campanha de casamento de amasiados (1885), serviço telefônico (1883) e linhas de navios a vapor para a Europa e o Rio de Janeiro (1866).

Não apenas em Fortaleza, mas nas grandes cidades brasileiras, ao movimento de reforma urbanística, aliou-se o movimento médico-higienista. Durante o século XIX, as cidades em países não desenvolvidos, recentemente livres de sua condição de colônias, eram vistas como insalubres, dando espaço a práticas higienistas civilizatórias que buscavam apagar seu ranço colonial e nelas instalar a modernidade. Na época, também as teorias e técnicas da medicina brasileira eram pautadas principalmente no modelo europeu (Ponte, 2001).

Durante a Belle Époque, os novos grupos sociais emergentes no País nesse período buscavam afirmar a sua superioridade com o afrancesamento dos costumes. Foi um processo de (re)europeização, como avalia Pimentel (1998), pois nos miramos nos moldes portugueses durante o Brasil-Colônia e depois, no Brasil imperial e do início da República, passamos a nos espelhar especialmente na França, mas também na Inglaterra, países idealizados como sinônimos de civilização. A França fazia-se presente nas vestimentas, na linguagem, no lazer, enfim, no comportamento da população, sobretudo das elites.

Tal elite dominante, letrada e de caráter aristocrático, fundava nessa época novas formas de lazer e sociabilidade, baseadas na civilização, modernização e disciplinarização dos costumes. A sociedade “alencariana” da Belle Époque era estratificada e hierarquizada, com uma burguesia ascendente formada por cearenses e estrangeiros, uma camada média de profissionais liberais, comerciantes, professores, escritores e outros que viviam com salário contado, e um grupo de trabalhadores pobres e desempregados. Assim, a implantação dos novos costumes tratava-se também de um esforço de civilizar a população, principalmente as camadas sociais mais baixas, que eram vistas como rudes, ignorantes e mesmo perigosas. As camadas mais pobres que se avolumavam, submetidas ao êxodo rural resultante das secas, eram vistas como as principais responsáveis pela disseminação de doenças e pela falta de educação e higiene. Essas pessoas eram vistas, pelas elites e pela administração pública, como uma ameaça ao movimento civilizatório em marcha na urbe cearense.

No cenário cultural, estavam em voga os teatros, livrarias, cafés, praças, espaços que buscavam seguir os moldes europeus, sobretudo o francês. Os espaços sociais começam a adquirir um aspecto excludente em relação às massas. Se, no início do século XIX, havia certa flexibilidade nos comportamentos públicos e era permitido às pessoas abastadas transitarem na cultura popular, a partir do fim do século essa segregação torna-se mais rígida e as elites passam a cultivar hábitos e gostos diferenciados (Pimentel, 1998).

É nesse cenário que cresce vertiginosamente o número de jornais impressos em todo o Brasil e no estado do Ceará, fato que foi determinado tanto por questões técnicas – como a introdução da fotografia, do telégrafo, de novas máquinas de impressão e composição – quanto pela necessidade de difusão e apropriação dos novos ideais civilizatórios: “O século XIX foi, para o Brasil, o período marcado pela formação de um público ávido pelo consumo de informações, seja por meio de textos, seja por meio de imagens.” (Azevedo, 2009, p. 89).

Por outro lado, considerando a população como um todo, era pequeno o número de pessoas alfabetizadas durante o período colonial brasileiro e ainda no Império. Não apenas a população pobre e escrava era iletrada, mas muitos dos donos de terras também não sabiam ler e escrever: “O retrato do acesso à leitura no final do império era desanimador, em 1872 apenas 16% da população era alfabetizada.” (Costa, Monteiro, & Miranda, 2015, p. 372). Isso nos leva a considerar que o público leitor dos jornais que emergiam na Belle Époque, por mais que as taxas de pessoas letradas tenham aumentado ao longo dos anos, não era extenso.

Diante no número ligeiramente maior de mulheres que homens no Ceará na segunda metade do século XIX, e com a influência do crescimento do número de mulheres letradas devido às conquistas em relação à educação feminina, surgiam novas aspirações das mulheres como consumidoras e, ainda que timidamente, como produtoras de informação e cultura. Segundo o primeiro Censo demográfico de 1872, o primeiro realizado no Brasil, apenas 11,5% das mulheres, de um total de 4.806.609, eram alfabetizadas. Diante desse cenário, ganha cada vez mais força a luta pela educação feminina; e é nesse quadro que emerge e se fortalece a imprensa feminina. Esse tipo de periódico despontou e ganhou mais força nessa época, atendendo ao novo público leitor feminino que surgia com as conquistas em relação à educação e letramento das mulheres, com a valorização dos espaços íntimos domésticos destinados à leitura e com as frequentes reuniões sociais para declamação de poesias e romances (Ponte, 2001).

Esse período também vê aumentar o número de mulheres escrevendo para jornais, embora de modo mais acanhado, se comparado ao número de escritores homens. A princípio, era comum que assinassem seus escritos usando pseudônimos, costume bastante comum também entre os homens, como meio de evitar desavenças pessoais e políticas. Uma dessas colaboradoras anônimas no Ceará foi Francisca Clotilde (1862-1935), que chegou a assinar como Jane Davy.

Apesar da invisibilidade relegada ao periodismo para mulheres na história da imprensa brasileira, não foram poucos os jornais, revistas e almanaques direcionados às mulheres no período mencionado. Duarte (2016), em um levantamento sobre a imprensa feminina no Brasil durante o século XIX, identificou 153 títulos de periódicos femininos e feministas. No entanto, além destes, muitos outros provavelmente existiram. Frequentemente esse tipo de jornal e revista empregava títulos evocando objetos, plantas ou animais belos e delicados, identificados como próprios do universo feminino, por exemplo, Pérola, Colibri, Lírio, Violeta, Beija-flor, Bem-te-vi, Borboleta etc. Essas publicações frequentemente também anunciavam o seu público-alvo, logo abaixo do título: Jornal das Moças, Jornal das Famílias, Jornal das Senhoras, entre outros. Era muito comum que os jornais nessa época durassem apenas poucos números, no entanto, muitos conseguiam resistir ao longo dos anos, como A Mãi de Familia e Echo das Damas, ambos publicados no Rio de Janeiro.

Como indica Duarte (2016), nos periódicos femininos podemos acompanhar a história das mulheres e o papel das instituições que participaram de sua constituição: Igreja, Estado, Família e Escola, por exemplo. Os primeiros títulos surgidos relacionavam-se à busca da educação feminina. Ao longo dos anos, surgiram então páginas voltadas ao divertimento das mulheres ou, como comumente eram chamadas, do “bello sexo”.

Em meio à imprensa para mulheres no Ceará, temos o jornal de periodicidade semanal O Bond (1890-1891), que lança o seu primeiro número em 18 de maio de 1890, e intitula-se como Jornal das Moças até o seu quinto número. A partir do número seguinte, o subtítulo é alterado para Propriedade de uma Associação e, após o seu décimo terceiro número, leva o subtítulo Folha da Tarde, o qual é substituído, em seu vigésimo segundo número, por Propriedade de Rocha, Santos e Brito. Até o quinto número, dizia ser impresso na “Typografia do Bond” e, a partir deste, passou a ser impresso na “Typografia Popular”, localizada no Boulevard da Conceição.

O Bond apresenta seções que se repetem na maioria dos números e algumas outras que se mantém apenas durante pouco tempo: “Piparotes”, “O que se diz de nos”, “Typos da moda”, “Rabecadas”, “Bimbadas”, “Foguetes”, “Chronica da semana”, “Noticiario”, entre outras. Os seus jornalistas são numerosos, e muitas das assinaturas claramente tratava-se de pseudônimos: Nicácio, Miguelinho, Stella, Zé de Soiza, Theotonio, João Grossa, Zé da Véstia, Xico Jaqueta, João sem nome, Olho de Lynce, O condutor, Cathegorica, Busca-pé, entre outros. Devido ao intenso uso de pseudônimos, dificulta-se a identificação dos nomes e do sexo dos autores.

O Bond revela características comuns aos pasquins da época, como o teor cômico na maioria das publicações. Tem sempre quatro páginas, com três colunas por página. Em todos os seus números, logo abaixo do título, traz a ilustração de um bonde a tração animal (cavalos) carregado de passageiros. Não trabalhava com assinaturas e o número avulso custava 40 réis. Dizia-se, em todas as suas capas, uma publicação diária, mas logo em seu primeiro número traz o alerta jocoso: apenas teria tiragem diária quando os jornais Patria ou Tribuna deixassem de existir.

Fazia menções a lugares da cidade de Fortaleza, como o Clube Iracema, Rua das Cachorras Magras, Passeio Público, Club dos Girondinas, entre outros. Falava de pessoas da cidade, muitas vezes anonimamente, mas também frequentemente as nomeava, como Miguel da Ponta, João Facundo, Miranda e outros nomes de grande ou pouca “importância”. Trazia relatos da vida cotidiana da Capital, como uma greve no Seminário, uma festa de aniversário do diretor da Escola Normal (José de Barcellos), a vinda do circo para a cidade, entre outros eventos considerados dignos de registro.

Já em seu título o jornal traz o símbolo da modernidade, fazendo alusão ao bonde no qual se transportavam mercadorias, jornais, pessoas, ideias e “progresso”. O bonde era símbolo da urbanidade, da civilização e da modernidade. Era ainda cenário das novas sociabilidades que se consolidavam, dos novos modos de as pessoas relacionarem-se consigo mesmas e umas com as outras.

Este artigo divulga resultados iniciais da pesquisa de doutorado da primeira autora, sob orientação da segunda autora, que inclui um corpus mais vasto de antigos de jornais cearenses para mulheres. Do jornal O Bond, da coleção de 23 números acessados por meio do Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará, utilizamos diretamente neste artigo os números 1, 2, 4, 10, 11, 13, 14 e 29. Esses exemplares exibem conteúdos que ilustram bem os discursos dirigidos às suas leitoras na sociedade cearense do início da República e permitem que se analisem as operações de subjetivação feminina em curso naquele momento histórico.

Repertórios da vida feminina: estratégias de controle da mulher no jornal O Bond

Tendo em mente o quadro apresentado, imaginemos por um instante uma moça cearense, letrada e economicamente privilegiada, no ano de 1891. Ela sai à rua em um dia de domingo, com 40 réis na mão, esperando o vendedor de jornais passar. Ela compra um exemplar do jornal O Bond, abre-o, chega à segunda página e lê a seguinte passagem em uma seção do jornal intitulada “Chronica das moças”: “Esta chronica, adoráveis leitoras, é para vós, sois vós que a inspira [sic], por isso mesmo escrevo-a com a pena dourada da minha phantasia caprichosa. Lede-a, pois, e guardae-a com todo o desvelado carinho e recato de virgem na covinha perfumada de vosso seio imaculado” (O Bond, 1891a, p. 2).

Argumentamos neste ensaio que o ato de nossa moça ler tal passagem e muitas outras de teor semelhante no O Bond e noutros jornais para o público feminino não é isento de efeitos em sua subjetividade. Certamente não falamos de um processo de causa e efeito, de uma reprodução de ideias, em que ela necessariamente se formará recatada e se manterá virgem pelo fato de ter sido orientada a proceder dessa forma. No entanto, entendemos que a formação do sujeito envolve um processo de objetivação e subjetivação no qual cada um, ao mesmo tempo em que é objetivado por relações de saber e poder variadas, também se produz ao engajar práticas sobre si mesmo. É, em última instância, uma pedagogia da população o que se pretende com os meios de comunicação. É a tese de Fischer (2002), quando a autora afirma que a mídia participa de fato da “[...] constituição de sujeitos e subjetividades, na medida em que produz imagens, significações, enfim, saberes que de alguma forma se dirigem à ‘educação’ das pessoas, ensinando-lhes modos de ser e estar na cultura em que vivem” (Fischer, 2002, p. 153).

E o jornal O Bond, assim como outros periódicos da época, funcionava como ferramenta de construção de uma nova mulher que atendesse aos anseios da época. Denominamos de nova mulher porque a Belle Époque trouxe novas exigências à vida feminina. À mulher cabia ser mãe, esposa e dona de casa. Ela deveria ser dedicada à criação dos filhos, esposa afetiva, submissa ao marido e voltada aos afazeres do lar. Com grande ajuda do discurso médico-sanitarista, cria-se a concepção de que a mulher é feita para a vida doméstica, sendo esse o seu instinto natural e a sua grande responsabilidade diante da sociedade. Na criação desse modelo, saberes e práticas contribuíram, como o combate ao aleitamento mercenário e estimulação, pelo saber médico, do aleitamento materno (Costa, 1999).

Os espaços públicos tornam-se mais abertos à circulação das mulheres, no entanto, de formas distintas para mulheres de diferentes classes sociais. Para as mulheres pobres, abre-se a possibilidade de trabalhar, mas ainda em funções subordinadas aos homens (Rago, 1985). Já as mulheres das elites passaram a fazer aparições em ambientes de lazer, como cafés, bailes, teatros, cinemas e ocasiões especiais. Se, por um lado, a mulher passava a ter uma maior liberdade em relação à sua circulação nos espaços urbanos, por outro, as suas ações passaram a ser vigiadas e julgadas não somente por sua família, mas também pela sociedade como um todo, sendo então necessário que a mulher fosse educada para aprender a portar-se em público (D’Incao, 2015). Dessa forma, a entrada da mulher nos espaços públicos significou ainda mais exigências morais. O comportamento honroso de uma mulher refletia não apenas o seu caráter, mas também o de sua família e, caso fosse casada, de seu marido. Assim, a discrição e o recato eram pré-requisitos para a mulher nos espaços públicos.

Em Fortaleza, as mulheres eram convocadas a remodelar a família de acordo com os novos modelos civilizatórios e higienistas, o que as torna personagens importantes no processo de exercício de poder sobre o corpo social (Ponte, 2001). Contraditoriamente, ainda que a mulher começasse a ganhar espaço no âmbito público ou mesmo em lutas políticas, ganha mais força a construção do seu lugar no espaço doméstico, limitado aos padrões de moralidade burguesa. Por exemplo, a mulher era vista como portadora de papel fundamental, no desenvolvimento intelectual e no progresso, mas mantendo-se intocado o seu papel de esposa e mãe (Pimentel, 1998). Tendo em vista a normalização da sociedade, a imprensa feminina passa a configurar-se um meio expressivo de disseminação dos valores modernos entre o público feminino e de educação das mulheres nos padrões da sociedade emergente.

Analisando as estratégias de regulação da vida feminina no jornal O Bond, é possível perceber que uma das formas de alcançar os seus objetivos consistia na denúncia e controle das mulheres que escapavam aos novos padrões de comportamento esperados nos espaços públicos: “Sabbado diversas meninas do Boulevard da Conceição (Outeiro) andaram brigando por causa dos namorados. Que desfructe moças, criem juizo, deixem-se de andar dando espetáculos em plena rua” (O Bond, 1890h, p. 4).

Entre os comportamentos condenados pelo jornal, o mais frequentemente repreendido é o namoro, sobretudo os que tomavam lugar nos bancos de igreja e nas novenas. No O Bond são várias as passagens que denunciam e condenam os namoros:

Começo tangendo o verbo sobre certas deidades que namoram cynicamente sem o menos escrúpulo [...]. (O Bond, 1890l, p. 4).

No Patrocinio continúa o mesmo namoro desbriado, como nos annos anteriores. (O Bond, 1890d, p. 3).

Na rua do Senador Pompeu faz lama o namoro. Lá perto do Formiga temos uma novena, que aquillo já parece mais porem é com uma safadeza. (O Bond, 1890a, p. 2).

Temos hoje fogos de vistas na egreja do Patrocinio, grande queima de namoros. O Padre-cura, porque não lança uma vista de olhos sobre os corredores de sua matriz? (O Bond, 1890b, p. 3).

[...] que vão exalando os namoros da rapaziada. Aquillo já fede a <<coisa>>. Namora-se agora em toda parte, e com grande descaramento [...]. (O Bond, 1890j, p. 2).

É possível observar que os namoros, sobretudo aqueles que aconteciam nos espaços públicos, eram regulados por meio da denúncia e da reprovação nos jornais. Como afirma Silva (2009, p. 132), “as folhas pasquineiras não só criticavam e pediam providências inibidoras às autoridades responsáveis pela condução da moral e das condutas “lícitas” da sociedade, como atuavam para intervir e inibir esses namoros indecorosos”.

No contexto das novas relações sociais possíveis na época, os namoros entre moças e rapazes passam a ganhar maior destaque. Com o novo modelo de amor romântico, convocava-se a viver o amor de forma mais platônica, sendo os namoros mais “carnais” condenados como imorais. O namoro, naquele tempo, era

A oportunidade de estabelecer, dentro dos padrões de moral e decência vigentes (que valorizavam, entre outros quesitos, a manutenção da virgindade feminina), um contato mais íntimo entre os namorados que permitisse o conhecimento mútuo e encaminhasse para o desfecho desejado: o casamento. Assim, mesmo mais livre, o namoro deveria ser “sério” e não apenas um passatempo. Se assim fosse, a moça correria o risco de ser mal vista, rotulada como “fácil”, e perderia a chance de arranjar “um bom partido”, isto é, um homem “sério e trabalhador” que pudesse prover as necessidades da futura esposa e mãe de seus filhos. (Scott, 2016, p. 21).

Nessa virada de século surgia um novo modelo de família, a burguesa, aos moldes dos padrões europeus. Em complemento a esse novo ideal de família, urbana e focada no núcleo familiar, novas exigências apresentavam-se à mulher, à qual cabia ser mãe, esposa e dona de casa. Ela deveria ser dedicada à criação dos filhos, esposa afetiva, submissa ao marido e voltada aos afazeres do lar (Pimentel & Caminha, 2006). Como esclarece Scott (2016), encontravam-se muitas variações desse modelo, dependendo do contexto sociocultural de cada mulher. No entanto, esse era o ideal burguês que servia de parâmetro social.

Tendo em mente esse contexto, podemos compreender como as moças namoradeiras se tornavam alvos constantes de repreensão do jornal. As mulheres, sobretudo as moças, que buscavam os namoros ou eram consideradas mais “atiradas” para os padrões da época, eram constantemente condenadas pelo jornal.

Menina namoradeira que mostra os dentes ao falar, é da pátria uma caveira... não preenche o seu lugar. (O Bond, 1890k, p. 3).

Um conductor dos Bonds do João Fonseca, no Circo, pintou a manta com uma certa freguesa da Rua da Misericórdia. Cuidado, menina, com o Bond das moças. (O Bond, 1890e, p. 3).

Mães de familia, ensinae vossas tenras e meigas filhinhas a coser com perfeição uma camisa de homem e botar panella no fogo, pois ellas só tratam de aprender o malvado crochet, mestre do synico e desbriado namoro. Se ellas continuarem assim, vós passareis pelo dissabor de vel-as estampadas nas columnas do Bond. (O Bond, 1890c, p. 1).

É importante destacar que no Ceará, tanto imperial quanto republicano, a honra feminina – que se liga à virgindade, fidelidade e controle sexual – pertencia sempre a um homem, seu pai enquanto ela fosse solteira e a seu marido depois de casada (Pimentel & Caminha, 2006). No O Bond, recomendava-se às moças (em um tom de aconselhamento) que protegessem sua honra, considerada um bem precioso, dos rapazes sedutores e “mal-intencionados” (pois não visavam ao casamento).

Quanto aos vossos namorados, elles tem sido ingratos para convosco: uns possuem duas e trez namoradas, outros querem casar-se, porém falta-lhe o melhor, que é o “largen”, e sem isto não se vae ao mercado comprar os quiabos e nem se ver o boi dançar, pois a estes coitadinhos eu sempre ponho a mão no fogo por elles porque elles querem, porem não podem. Quanto aos outros, eu tenho a dizer o seguinte: São ruins seductores, e até se as leitoras me permittem a phrase, eu direi – são infames! Um concelho, queridas leitoras: não vos deixeis illudir, tende cuidado com estes magarefes, zelae a vossa honra, que vale mais que tudo. (O Bond, 1890i, p. 4).

No campo das relações amorosas, no fim do século XIX e início do século XX, passava-se a ter um pouco mais de liberdade na escolha dos parceiros, dando-se maior relevância ao amor romântico, embora o casamento ainda fosse utilizado como forma de ascensão social ou manutenção do patrimônio e prestígio entre famílias ricas (Scott, 2016). No jornal analisado, o casamento aparece sempre como algo desejado às moças, com a roupagem estratégica do aconselhamento que já mencionamos: “As meninas d’aquele bairro andam anciosas para se casarem e está me parecendo que muito breve aquellas jovens vão ao caminho do civil. É o que o ‘Bond’ deseja a toda menina encantadora” (O Bond, 1890m, p. 2).

Em outro número do jornal, a mesma ideia: “Os casamentos agora têm andado a supapo. A conselhamos á rapasiada, que caze já e já” (O Bond, 1890a, p. 2).

As repreensões e denúncias presentes no Bond estão, via de regra, embebidas por um tom jocoso, muito próprio do jornalismo cearense da época. Muitos pasquins do fim do século XIX eram marcadamente cômicos, sendo comum a exposição de pessoas e costumes. Na verdade, como aponta Silva (2009), o humor sarcástico presente nos jornais era um meio de envergonhar direta ou indiretamente os alvos das pilhérias, e assim, repreender e controlar a população, que estava diante de um novo código de moralidade e civilidade no período da segunda metade do século XIX. A denúncia dos “maus costumes” pelos redatores, que tomavam o lugar de vigilantes da moral, era costumeira nos pequenos jornais cearenses. A imprensa mostrava-se assim um importante veículo do processo civilizatório, como meio de propagação das novas ideias modernas, como o cientificismo positivista e evolucionista.

Na análise dos jornais, outra estratégia é identificada: a difusão do modelo de mulher aceitável para a nova sociedade que se instaurava. Nesse período, busca-se na mulher características relacionadas à pureza, virtude, honra e submissão, o que fica muito claro em vários momentos no jornal.

Se todas as moças fossem como ella, então o Ceará podia gabar-se de ter meninas virtuosas e innocentes como o lyrio. (O Bond, 1890f, p. 4).

As Pastorinhas... Estas, sim, são cá de nossa predilecção; gostamos de ver aquelas garbosas meninas entoarem aquelles cânticos tão saudosos, que nos faz lembrar um paraizo cheio de rechonchudos e louros anjinhos [...]. (O Bond, 1890n, p. 3).

Pois bem já que o Bond foi tão bem recebido, temos o grato dever de agradecer de coração a vós, oh lindas e divinas Cecis, porque soubestes mais uma vez apreciar o que é bello e chik em matéria de imprensa séria [...]. (O Bond, 1890c, p. 1).

No entanto, no trecho a seguir, vemos uma fuga parcial ao padrão regular do jornal O Bond de estímulo a um modo de ser mulher que envolve apenas delicadeza, inocência e fragilidade.

No Rozario a festa esteve explendida. Um certo gaiato, porém, que lá se achava e já alizou os bancos do seminário, entendendo que estava no Circo ou na feira, praticou toda sorte de bandalheiras, tomando em paga de tudo isso uma bofetada na lata cynica, por uma mulher a quem o mesmo individuo queria ridicularizar, dirigindo-lhe chufas e pilhérias só dignas de criaturas vis. Achamos boa a reprimenda da mulher, e aconselhamos a todas, que assim procedam toda vez que se dê factos desta ordem, que os sevandijas e bilontras de bolços esguios, que não têm imputação, não trepidam em praticar. Todos os outros fangotes que estavam procedendo da mesma forma que o tal bicho, tornaram-se quietos com medo talvez de encontrarem outra mulher-homem como encontrou o tal ex-seminarista. (O Bond, 1890g, p. 3).

Podemos observar nesse trecho uma aprovação da atitude “enérgica” da mulher, que é chamada pelo autor de mulher-homem e tem a sua atitude louvada. Há a exaltação de uma atitude feminina que quebra a ideia de mulher inocente e passiva. No entanto, a postura da mulher parece só ser aprovada porque atuou reprimindo um ato condenável de um homem, restaurando a ordem do local, a sacralidade da igreja e protegendo a sua própria honra.

Entendemos aqui que o jornal O Bond, ao regular os modos de vida femininos por meio de suas estratégias de difusão de modos aceitáveis de ser mulher, denúncias dos comportamentos condenáveis, ameaças de exposição pública e aconselhamento, perpassa as subjetividades das mulheres e produzem-nas como sujeitos. Tais concepções de como deve ser a mulher não estão desarticuladas dos processos socioculturais.

A mídia impressa é um ponto de articulação entre saber e poder, que traz consigo regimes de verdade de uma época. Tais regimes de verdade incitam discursos, inclusive, sobre o que é, ou o que deve ser, a mulher. “Ademais, a verdade... o que é senão uma construção discursivamente moldada, que muda de tempos em tempos?” (Gregolin, 2007, p. 24). Os discursos, como o jornalístico, são historicamente constituídos e estão sempre inscritos em formações discursivas que seguem os regimes de verdade de determinado momento histórico, o que significa que o que é dito relaciona-se com as dinâmicas de poder e saber de sua época.

Entendemos os discursos do jornal não apenas como formas linguísticas de representação, uma vez que consideramos a sua relação de suporte e legitimação com práticas institucionais que organizam, regulam e administram a sociedade (Willig, 2001). Os discursos estão imbricados na legitimação das relações de poder e estruturas sociais. Portanto, o poder não é nem fonte, nem origem do discurso. O poder é alguma coisa que opera pelo discurso, já que o próprio discurso é um elemento de um dispositivo. Assim, os jornais desempenham uma função de adestramento e docilização em consonância com o processo de moralização da população (Vogel, 2009).

No contexto da Belle Époque no Brasil, como explica Rago (1985), o discurso burguês polariza as mulheres. De um lado a figura da mãe, santa, assexuada e pura e, de outro, a pecadora, carnal, egoísta e diabólica. Tanto em uma personagem quanto em outra, as mulheres são colocadas em posições de submissão aos homens, dependentes, irracionais e incapazes. Tal polarização fica clara nos discursos do jornal O Bond, que por um lado condena as mulheres “desviantes” e por outro exalta as mulheres “recatadas”, mas não destaca um modelo de mulher que resista a tais extremos.

Considerações finais

A partir do que foi exposto, podemos pensar como o discurso da mídia impressa, tomando o antigo jornal O Bond, configurava uma estratégia de regulação da vida feminina na Belle Époque fortalezense. Ao enunciar como as moças deveriam namorar, casar, tratar a sua “honra”, viver o matrimônio, etc., esse jornal colabora para construir determinada forma de ser mulher. É, essencialmente, de um controle da vida e da produção de subjetividades que estamos falando.

O discurso moralizador presente no jornal O Bond torna possível o exercício de um poder sobre os corpos femininos, produzindo modos de vida, constituindo sujeitos. Por intermédio das estratégias de regulação da vida feminina no veículo analisado, esboçam-se modos de subjetivar-se para as leitoras. A partir da análise realizada, pudemos observar que tais discursos podem operar para produzir mulheres recatadas, puras, virtuosas, inocentes e virgens enquanto não forem casadas. Além disso, o futuro desenhado para as moças resume-se ao de mãe e esposa dedicada, “prendada” e submissa ao marido.

Em última instância, eram mulheres docilizadas, normalizadas e disciplinadas que se queria, o sujeito produto da anátomo-política do corpo individual, o que condiz com o quadro disciplinar do período em que circulava o jornal analisado. Mesmo ao exaltar uma mulher com atitude espirituosa, isso se faz ainda com intenções de regulação social.

Tal esforço normalizador do jornal não anula a existência na época de mulheres fora da norma, pois não se trata de uma relação de causa e efeito. O tecido social é marcado por lutas, dissidências, formações de compromissos e pluralidades de discursos e práticas. Fora do jornal, podemos encontrar o exemplo do romance Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva, que traz a história de uma mulher do sertão cearense, forte, líder de uma fazenda, que tem um envolvimento amoroso fora do casamento com um sobrinho mais jovem, ou mesmo a história real da vida de Francisca Clotilde, escritora, jornalista, professora, que escreveu o livro A divorciada, em 1904, tendo ela mesma vivido um divórcio.

Sobre os mecanismos de controle presentes no jornal, identificamos a ameaça de denúncia, pela qual se expunham à vergonha e condenação os comportamentos classificados como inadequados, os conselhos, que indicavam às mulheres como elas deveriam se portar e se relacionar consigo mesmas e com os outros, e a difusão do modelo “aceitável” de mulher, deixando claro que características eram esperadas de uma mulher “bem aceita”.

Podemos ainda pensar que o controle das vidas femininas do fim do século XIX e início do século XX, que ocorreu por meio dos jornais, mas não apenas por intermédio deles, serviu a um propósito também político, respondendo aos anseios civilizatórios tão presentes na Belle Époque fortalezense, instaurando modos de ser favoráveis àquela conjuntura social.

Pesquisar sobre a história de algo, como a história dos modos de subjetivação femininos, permite observar que as coisas não são imutáveis. Colocar em questão e historicizar a regulação da mulher, diante do corrente movimento de denúncia e questionamento dos padrões e repressões impostos às mulheres, representa suma importância social e política. Os modos de vida femininos carregam um passado de intensas opressões e controles que ressoam, por meio de continuidades e descontinuidades históricas, até os dias atuais.

Apesar de tais modelos de mulher presentes no O Bond parecerem distantes da nossa realidade atual, em que vivemos grande difusão das reivindicações feministas, há não muito tempo, em 2016, a revista Veja, uma das maiores veiculadoras brasileiras de notícia, publicou uma matéria com o seguinte título: “Marcela Temer: bela, recatada e do lar”. O subtexto da chamada esclarecia: “A quase primeira-dama, 43 anos mais jovem que o marido, aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos e sonha em ter mais um filho com o vice” (Linhares, 2016). Tal visão sobre o que seria uma “boa primeira-dama” traz em si um modelo de mulher que parece anacrônico nos dias atuais.

Apesar de tantas lutas visando à abertura do horizonte de possibilidades para as mulheres – de outros modos de vida e de subjetivação –, elas ainda continuam sendo constante alvo de cerceamentos, exigências e direcionamentos. Imposições subjetivas estão presentes na vida cotidiana de todos, no entanto, as mulheres ainda parecem ser o alvo privilegiado de controle social. Atualmente, a mulher é convocada a usar anticoncepcional, a lembrar do uso da camisinha na relação, a manter o corpo em forma, belo e saudável, a prevenir a gravidez precoce, a prevenir o câncer de mama, a educar os seus filhos, entre outras inúmeras exigências. É fato que os homens têm sido também cada vez mais convocados a fazer parte desse movimento, mas esse é um fenômeno que podemos situar mais fortemente na contemporaneidade. Já os exercícios de poder sobre a vida feminina têm raízes profundas na história, como pudemos discutir na análise realizada neste artigo.

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Recebido: 18 de Agosto de 2019; Aceito: 27 de Maio de 2020

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