A comunicação é parte fundamental da humanidade, e com a evolução tecnológica, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) têm se tornado parte integral do dia a dia, facilitando as interações e comunicações sociais (Purim & Tizzot, 2019; Wendt, Oliveira, & Rossi, 2014). As redes sociais, como parte das mídias sociais, têm ganhado espaço como mediadoras dessa comunicação, exemplos disso são o Facebook e o WhatsApp, as mídias mais utilizadas pelos jovens (Ciribelli & Paiva, 2011; Comitê Gestor da Internet no Brasil [CGI.BR], 2016; Mello, Trintin-Rodrigues, & Andretta, 2019). Além disso, o uso das mídias sociais está aumentando nos últimos anos, o que pode ser fator de risco para desenvolver dependência de internet, considerando que quanto mais uso maior as chances de dependência (Carbonell, Chamarro, Oberst, Rodrigo, & Prades, 2018; Ciribelli & Paiva, 2011; Fernández-Villa et al., 2015).
A internet promove praticidade e rapidez na interação e comunicação, auxiliando no estabelecimento e continuação de relações sociais, de forma que não se precise mais estar fisicamente junto para trocar informações, ou esperar muito tempo pelas informações (Li, O’Brien, Snyder & Howard, 2015; Lima, Leiva, & Lemes, 2017; Oliveira & Pasqualini, 2014). Entretanto, apesar dessa forma de comunicação auxiliar nos relacionamentos interpessoais, ao passo que é rápida e prática, também pode gerar consequências negativas, como reforçar o isolamento social, no sentido de diminuir as interações face a face e potencializar sentimento de vazio e de vida sem sentido (Li et al., 2015; Griffiths & Szabo, 2014; Mello et al., 2019; Yang, 2016).
Young (1998), uma das pioneiras nos estudos sobre internet, conceitualizou que a dependência do ciberespaço se caracteriza quando o uso se torna prejudicial para a vida do usuário, perdendo o controle do uso, não tendo mais limites, não conseguindo diminuir o tempo na internet. O uso abusivo da internet pode influenciar negativamente nas habilidades sociais dos usuários, na qualidade de vida, e potencializar ansiedade, depressão e estresse, e sentimentos de solidão (Andrade et al., 2015; Costa, Patrão, & Machado, 2018; Gupta, Khan, Rojoura, & Srivastava, 2018; Jia, Yingying, Yujuan, & Lijun, 2018; Pontes, 2013; Ostovar et al., 2016). Além disso, pode influenciar também nas questões acadêmicas, como absenteísmo nas aulas, notas baixas e falta de interesse nos conteúdos acadêmicos (Li et al., 2015; Krishnamurthy & Chetlapalli, 2015; Oliveira & Pasqualini, 2014).
Destaca-se então que os universitários se encontram em fase de adaptação acadêmica, e como citado, a dependência de internet pode prejudicar isso, sendo eles população de risco que vem crescendo na última década (Carbonell et al., 2018). De fato, estudos afirmam que os universitários apresentam algum nível de dependência de internet (Anad et al., 2018; Gupta et al., 2018; Krishnamurthy & Chetlapalli, 2015). Os estudantes universitários também podem estar mais propensos a desenvolver sentimentos de solidão, diante da necessidade de acostumar-se às atividades acadêmicas, e encontrar novas maneiras de se relacionar com família e amigos, e construir novos relacionamentos interpessoais (Mello & Teixeira, 2012). Peltzer e Pengpid (2017) encontraram resultados semelhantes em 25 países, afirmando que os universitários apresentam algum nível de solidão. Salienta-se que solidão não é estar fisicamente sozinho, mas é definida por sentimentos de estar emocionalmente sozinho, analisada pela percepção cognitiva individual, sentimentos de solidão, e isso pode ser antecedente de comportamentos de risco à saúde, como uso de álcool e drogas (Hawkley & Cacioppo, 2010; Peltzer & Pengrid, 2017; Souza, 2017).
A solidão encontra-se também como preditora de dependência de internet (Ostovar et al., 2016). Outros afirmam que a dependência de internet pode acarretar a manifestação de sentimentos de solidão, o que contradiz outros estudos que afirmam que o uso das mídias sociais, por facilitar as interações sociais, pode diminuir os sentimentos de solidão (Ostovar et al., 2016; Pittman & Reich, 2016; Santos & Nacarati, 2016; Yang, 2016; Yao & Zhong, 2014). Pode-se entender então que o uso abusivo de internet pode potencializar sentimentos de solidão, e vice-versa (Costa et al., 2018; Jia et al., 2018).
O contato face a face com os familiares reduz os sintomas de dependência de internet, mas os sentimentos de solidão podem ter impacto prejudicial nas relações presenciais, o que mostra que as relações on-line podem não ser a melhor maneira de substituir as relações off-line (Yao & Zhong, 2014). Aponta-se que os relacionamentos familiares disfuncionais se associam ao uso abusivo de internet, assim como os usuários com dependência de internet mostraram relações familiares menos harmoniosas em comparação aos que não têm dependência (Costa et al., 2018; Li et al., 2015; Snyder et al., 2015). Alves (2018) afirma que os relacionamentos afetivos podem ser considerados fator protetivo para sentimentos de solidão em adultos. Aliás, os sentimentos de solidão não estão relacionados somente a ter poucos relacionamentos, mas sim que os relacionamentos existentes são conflituosos, gerando sentimentos de solidão (Alves, 2018).
Entende-se que o uso abusivo de internet pode estar relacionado a um círculo vicioso, dado que a utilização de TICs é diária, podendo diminuir a qualidade de interações face a face, o que agravaria sentimentos de solidão (Yao & Zhong, 2014). Considera-se, assim, importante estudar sobre o uso das TICs e possíveis consequências para auxiliar nas intervenções acerca do uso abusivo de internet entre os universitários. Assim, este estudo procura identificar o perfil de uso da internet por meio das mídias sociais e analisar as associações entre as variáveis dependência de internet, solidão e relações familiares afetuosas ou conflituosas, em uma amostra estratificada de estudantes graduandos de uma universidade privada do sul do Brasil. Tem-se o objetivo de separar os participantes em dois grupos, dependentes e não dependentes de internet, para que se possa compará-los quanto às variáveis avaliadas nesta pesquisa.
Materiais e métodos
Delineamento
O estudo se caracteriza como transversal, correlacional e comparativo, com uma amostra estratificada (Sampieri, Collado, & Lucio, 2013).
Amostra
Os critérios de inclusão desta pesquisa foram: ter 18 anos de idade ou mais, utilizar ao menos uma mídia social e responder aos instrumentos do estudo com totalidade. De um total de 270 possíveis participantes cujos dados foram coletados, 161 foram excluídos por não contemplarem tais critérios. Participaram do estudo, então, 109 universitários. Demais variáveis sociodemográficas estão demonstradas na Tabela 1.
Tabela 1. Variáveis sociodemográficas
| Variáveis Sociodemográficas | |
|---|---|
| Sexo | |
| Feminino | 78 (71,6%) |
| Idade | 22,2 anos (dp.5,07) |
| Estado civil | |
| Solteiro | 96 (88,9%) |
| Turno | |
| Noite | 92 (86%) |
| Faz psicoterapia? | |
| Não | 93 (85,3%) |
| Semestre | |
| Entre 1º e 4º | 63 (60%) |
| Entre 5º e 10º | 42 (40%) |
| Escola | |
| Saúde | 35 (33,7%) |
| Politécnica | 20 (19,2%) |
| Direito | 17 (16,3%) |
| Gestão e Negócios | 12 (11,5%) |
| Indústria criativa | 11 (10,6%) |
| Humanidades | 9 (8,7%) |
| Classificação econômica | |
| A e B | 72 (73,5%) |
Instrumentos Questionário sociodemográfico
Este questionário foi elaborado pelo grupo de pesquisa “Intervenções Cognitivo Comportamentais: Estudo e Pesquisa (ICCep)”, a fim de identificar e descrever o perfil dos participantes, por meio da idade, sexo, estado civil, turno de estudo, fazer psicoterapia, semestre, escola do curso, classificação econômica, entre outros. Também foram incluídas variáveis acerca do uso de mídias sociais e objetivo de cada utilização de mídia, sendo respondida por meio de escala Likert de cinco pontos, sendo 1 (nunca) a 5 (sempre).
Escala Brasileira de Solidão (UCLA-BR)
A UCLA-BR é um instrumento desenvolvido por Russel, Peplau e Cutrona (1980), validado para brasileiros maiores de 18 anos por Barroso, Andrade, Midgett e Carvalho (2016), que objetiva mensurar os sentimentos de solidão por intermédio de 20 afirmativas de respostas (ex.: “Eu sinto que não tenho companhia”) em escala Likert de cinco pontos, sendo 1 (nunca) a 5 (frequentemente). O ponto de corte definindo níveis de solidão como mínima (20-42), leve (43-55), moderada (56-67) e intensa (68-80) (Barroso et al., 2016). Neste estudo apresentou consistência interna de α=0,942.
Internet Addiction Test (IAT)
O IAT é um instrumento desenvolvido por Young (1998), traduzido e adaptado para o Brasil por Conti et al. (2012), que objetiva mensurar o nível de dependência de internet e o impacto deste na vida do usuário. Isso ocorre por meio de 20 afirmativas (ex.: “Com que frequência piora o seu desempenho ou produtividade no trabalho por causa da internet?”) respondidas a partir de uma escala Likert de cinco pontos, sendo de 1 (raramente) a 5 (sempre). A correção do instrumento acontece a partir da soma das respostas, havendo pontos de corte para definir se o usuário se encontra no nível sem dependência de internet (20-30), leve (31-49), dependência moderada (50-79) ou dependência grave (80-100) (Conti et al., 2012). Neste estudo, apresentou consistência interna de α=0,923.
Familiograma
O Familiograma é um instrumento, adaptado por Teodoro (2006), que busca avaliar as percepções acerca das relações familiares, por intermédio das díades familiares em configurações diversas (pai, mãe, irmãos, avós, primos, pessoas agregadas), diante das dimensões afetividade e conflito. Por meio de 20 afirmativas de respostas (ex.: “Eu e ___ temos um relacionamento carinhoso”) em escala Likert de cinco pontos, sendo 1 (de jeito nenhum) a 5 (completamente), sendo 11 itens para cada dimensão. Não apresenta ponto de corte, considerando que médias maiores indicam maior presença da dimensão. Neste estudo, apresentou consistência interna de α=0,959 para afetividade e α=0,945 para conflito.
Procedimentos éticos e coleta de dados
O presente estudo é um recorte de uma pesquisa maior realizada em uma universidade privada do sul do Brasil, teve aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da universidade e atendeu às exigências éticas do Conselho Nacional de Saúde (CNS, 2016) para pesquisas com seres humanos. A amostra foi estratificada visando à seleção representativa de todos os alunos da universidade que participaram da coleta. O sorteio foi realizado por um programa on-line (Sorteador.com), contando com todos as turmas da universidade, selecionando as turmas até o número amostral ser contemplado. Dessa forma as turmas de cada escola da universidade foram colocadas no sorteador e escolheu-se as turmas até completar o número de alunos propostos pelo percentual de cada escola, realizado nos dois semestres de coleta do ano letivo de 2018, coletando o número de 109 universitários. Os professores das turmas sorteadas receberam um e-mail com convite para participação e, com o seu consentimento, os alunos foram convidados a participar, após o aceite por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e assim foram entregues os instrumentos e recolhidos na semana seguinte.
A correção dos instrumentos foi realizada por uma equipe composta por psicólogos e estudantes de psicologia treinados, e posteriormente foram analisados por intermédio do Statistical Package Social Sciences (SPSS, v. 22). Os protocolos serão armazenados por cinco anos. Caso houvesse algum desconforto durante a coleta de dados, os participantes receberam orientações para procurar a equipe para esta fazer qualquer tipo de encaminhamento necessário, sendo a participação optativa e desistência a qualquer momento. Os critérios de inclusão depois do sorteio das turmas foram idade igual ou superior de 18 anos e uso de ao menos uma mídia social; o critério de exclusão configurava-se em não responder todo o instrumento.
Análise de dados
A análise de dados foi realizada pelo programa SPSS, v. 22. Para verificar a distribuição de normalidade das variáveis analisadas, utilizou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov, com correção de Lilliefors (p<0,05), resultando em uma amostra não normal. Foram realizadas análises descritivas de média, mediana, desvio-padrão, para caracterizar a amostra. A análise de correlação foi de Spearman, para amostras não paramétricas, verificando correlações significantes menor que 0,05 (95% de confiança) e menor que 0,01 (99% de confiança) (Sampieri et al., 2013). Para a interpretação das correlações, foi utilizada a mensuração sugerida por Dancey e Reidy (2006), em que de 0,1 a 0,3 a correlação é fraca, de 0,4 a 0,6 é moderada e de 0,8 a 1 é forte; com objetivo de correlacionar as variáveis de dependência de internet, sentimentos de solidão e relações familiares afetivas e conflitivas.
Os participantes foram divididos em grupos conforme níveis de dependência de internet e níveis de solidão. Assim, teve-se o intuito de verificar se há diferenças (p<0,05) entre os grupos, divididos entre: sem dependência de internet (grupo 1) e leve/moderada/grave (grupo 2), quanto aos seus sentimentos de solidão e suas relações familiares afetivas e/ou conflituosas. A mesma análise estatística foi realizada entre os grupos de solidão mínima (grupo 3) e leve/moderada/grave (grupo 4), em relação a sua dependência de internet e suas relações familiares afetuosas e/ou conflituosas. Conforme Quadro 1.
Quadro 1 Caracterização dos grupos analisados
| Grupo | Caracterização |
|---|---|
| 1 | Sem dependência |
| 2 | Dependência de internet leve/moderada/grave |
| 3 | Solidão mínima |
| 4 | Solidão leve/moderada/grave |
Fonte: Elaborado pela autora.
Para analisar se os grupos se mostraram minimamente homogêneos, para poder posteriormente analisar as diferenças entre eles, foi realizado o teste Qui-Quadrado, para as variáveis acerca de gênero, trabalho, psicoterapia, prática de esportes e atividades de lazer. Bem como, com o mesmo intuito, realizou-se o teste Mann-Whitney, para averiguar se há divergências estatísticas quanto à idade entre os grupos. Os grupos 1 e 2, e 3 e 4 foram analisados diante de variáveis sociodemográficas e não mostraram diferenças significativas entre eles, conforme Tabela 2 e 3, mostrando-se homogêneos.
Tabela 2. Resultados significativos na comparação de variáveis sociodemográficas e dependência de internet nos Grupos 1 e 2
| Variável | Dependência de internet | X2 | p | |
|---|---|---|---|---|
| Grupo 1 n (%) | Grupo 2 n (%) | |||
| Gênero | ||||
| Mulheres | 32 (30) | 46 (43) | 0,008 | 0,931 |
| Homens | 13 (11) | 18 (16) | ||
| Trabalha | ||||
| Sim | 35 (33) | 44 (40) | 1,08 | 0,299 |
| Não | 10 (9) | 20 (18) | ||
| Pratica esportes | ||||
| Sim | 22 (20) | 26 (25) | 1,026 | 0,311 |
| Não | 22 (20) | 37 (35) | ||
| Atividades de lazer | ||||
| Sim | 36 (34) | 53 (50) | 0,099 | 0,753 |
| Não | 8 (7) | 10 (9) | ||
Nota: Qui-quadrado
Tabela 3. Resultados significativos na comparação de variáveis sociodemográficas e solidão nos Grupos 3 e 4
| Variável | Solidão | X2 | p | |
|---|---|---|---|---|
| Grupo 3 n (%) | Grupo 4 n (%) | |||
| Gênero | ||||
| Mulheres | 42 (39) | 36 (33) | 0,499 | 0,480 |
| Homens | 19 (17) | 12 (11) | ||
| Trabalha | ||||
| Sim | 46 (42) | 33 (30) | 0,597 | 0,440 |
| Não | 15 (14) | 15 (14) | ||
| Pratica esportes | ||||
| Sim | 27 (25) | 22 (20) | 0,069 | 0,792 |
| Não | 34 (32) | 25 (23) | ||
| Atividades de lazer | ||||
| Sim | 51 (48) | 38 (36) | 0,324 | 0,569 |
| Não | 9 (8) | 9 (8) | ||
Nota: Qui-quadrado
Tabela 4. Diferenças entre grupos na comparação entre médias de idade e dependência de internet
| Variáveis | n | Mediana | z | p | ||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Idade | Dependência de internet | Grupo 1 | 45 | 58,72 | -1,039 | 0,299 |
| Grupo 2 | 64 | 52,38 | ||||
| Solidão | Grupo 3 | 61 | 56,74 | -0,652 | 0,514 | |
| Grupo 4 | 48 | 52,79 |
Nota: Variáveis assimétricas analisadas pelo Teste de Mann Whitney, com descrição da mediana.
Verificando não haver diferenças significativas dos grupos sobre as variáveis sociodemográficas, foi realizada a análise para comparação de grupo para verificar possíveis diferenças significativas entre eles e as relações familiares. Este fora realizado por meio do teste de Mann-Whitney.
Resultados
Os resultados deste estudo apresentam características do uso de internet, afirmando que 100% (n=109) da amostra faz uso de WhatsApp. Os universitários relataram que verificam as redes sociais ao acordar 69,7% (n=76), por 30 minutos ou menos (n= 56, 51,4%); também verificam tais redes antes de dormir (n=103; 96,3%), por 30 minutos ou menos (n=42, 39,3%). O objetivo maior para o uso das redes foi para falar ou manter contato com amigos, conhecidos ou colegas de trabalho pelo WhatsApp (M=4,6; DP=0,8), Facebook (M=3,5; DP=1,1), Instagram (M=3,1; DP=1,3) e Messenger (M=3,0; DP=1,3).
Quanto à dependência de internet, mensurou-se os níveis de dependência, sem dependência (n=45; 41,3%), dependência leve (n=43; 39,4%), dependência moderada (n=19; 17,4%) e dependência grave (n=2; 1,8%). O instrumento UCLA-BR mensurou os níveis de sentimentos de solidão mínima (n=61; 56%), leve (n=33; 30,3%), moderada (n=13; 11,9%) e intensa (n=2; 1,8%). O instrumento Familiograma apresentou médias no limite do mínimo (11) e máximo (55) para resposta, de 44,7 (DP=8,29) para afetividade e 19,44 (DP=7,24) para conflito. As correlações entre as variáveis mostraram nível de significância menor que 0,01, o que afirma boa confiabilidade (99%), apresentando algumas correlações positivas e outras negativas, conforme Tabela 5.
Tabela 5. Relação entre dependência de internet, solidão, afetividade e conflito
| IAT | UCLA | Familiograma Afetividade | Familiograma Conflito | |
|---|---|---|---|---|
| IAT | 1 | |||
| UCLA | 0,352** | 1 | ||
| Familiograma Afetividade | -0,26** | -0,276** | 1 | |
| Familiograma Conflito | 0,319** | 0,355** | -0,578** | 1 |
Nota: Teste de Spearman; **p≤0,01; Valência das correlações: 0,1 a 0,3 fraca, 0,4 a 0,6 moderada, 0,8 a 1 forte (Dancey & Reidy, 2006).
Na comparação de grupos pela dependência de internet, o grupo 1 (Dependência normal ou sem dependência) apresenta 45 participantes (41,3%) e o grupo 2 (dependência leve, moderada e grave) apresenta 64 participantes (58,7%).
A análise de comparação mostrou que houve diferenças significativas entre as variáveis estudadas (p<0,05), conforme Tabela 5. Na comparação de grupos pela solidão, o grupo 3 (solidão mínima) apresenta 61 (56%) participantes e o grupo 4 (solidão leve, moderada e grave) apresenta 48 (44%) participantes. A análise de comparação de grupos mostrou diferenças significativas (p<0,05).
Tabela 6. Comparação dos grupos internet e solidão com as dimensões do Familiograma e internet
| Variáveis | n | Mediana | Z | p | U | ||
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Internet | Conflito | Grupo 1 | 45 | 44,34 | -2,952 | 0,003* | 960,5 |
| Grupo 2 | 64 | 62,49 | |||||
| Afetividade | Grupo 1 | 45 | 63,64 | -2,395 | 0,017* | 1051 | |
| Grupo 2 | 64 | 48,92 | |||||
| Solidão | Grupo 1 | 45 | 46,08 | -2,497 | 0,013* | 1038,5 | |
| Grupo 2 | 64 | 61,27 | |||||
| Solidão | Conflito | Grupo 3 | 61 | 48,34 | -2,479 | 0,013* | 1058 |
| Grupo 4 | 48 | 63,46 | |||||
| Afetividade | Grupo 3 | 61 | 57,68 | -0,998 | 0,318 | 1300,5 | |
| Grupo 4 | 48 | 51,59 | |||||
| Internet | Grupo 3 | 61 | 47,11 | -2,939 | 0,003* | 983 | |
| Grupo 4 | 48 | 65,02 | |||||
Nota: Variáveis assimétricas analisadas pelo Teste de Mann Whitney, com descrição da mediana.
Discussão
Este estudo objetivou caracterizar o perfil de uso de internet pelos universitários, identificar possíveis associações entre as variáveis dependência de internet, solidão e relações familiares, e comparar universitários com dependência e sem dependência de internet, e níveis de solidão em relação às variáveis dependência, solidão e relações familiares. Quanto às características do uso de mídias sociais, identificou-se que os universitários, em sua totalidade, utilizam ao menos uma mídia social, sendo ela o WhatsApp. Esse dado já havia sido descrito em outros estudos, afirmando o WhatsApp como a mídia mais acessada (Andrade et al., 2015; CGI.BR, 2016). Os resultados mostram que o motivo maior do uso de mídias é para falar e manter contato com outras pessoas, o que mostra que o uso da internet pelos universitários do presente estudo tem como fim a comunicação. Pode-se inferir que as mídias auxiliam nesse aumento do uso de internet e com isso a dependência desta vem crescendo nos últimos anos (Carbonell et al., 2018).
Quanto à dependência de internet, os universitários apresentaram, em sua maioria, algum nível de dependência de internet, o que é encontrado com similaridade em outros estudos (Anad et al., 2018; Gupta et al., 2018; Krishnamurthy & Chetlapalli, 2015). Quanto aos níveis de solidão, encontrou-se em quase metade da amostra algum nível de sentimentos de solidão, dado também encontrado em outros países, nos quais se encontrou solidão na maioria da amostra (Souza, 2017; Peltzer & Pengrid, 2017). As relações familiares foram consideravelmente afetuosas e em níveis medianos conflituosas. Além disso, a afetividade familiar, identificada no estudo com médias altas, é fator protetivo para dependência de internet, considerando ter apoio emocional e potencialização de autonomia, porém a dependência ainda assim está presente na maioria da amostra do presente estudo (Terres-Trindade & Mosmann, 2016).
Neste estudo, a dependência de internet esteve correlacionada positivamente com a solidão, o que sugere que quanto mais dependência de internet maiores são os sentimentos de solidão. Comparando os grupos 1 (Sem dependência) e 2 (Dependência leve/moderada/grave), encontrou-se diferenças significativas entre eles, o que suporta os dados da correlação; ao passo que a solidão teve maiores médias no grupo 2. Sugere-se, assim, que ter maior dependência indica ter mais sentimentos de solidão. Além disso, a segunda comparação, entre grupos 3 (solidão mínima) e 4 (solidão leve, moderada e intensa), mostrou que, assim como na primeira comparação, há diferenças entre ambos, ao passo que a dependência de internet teve maiores médias no grupo 2, confirmando o ciclo de maior solidão pode ter maior dependência.
Tais resultados indicam que não só a dependência de internet se relaciona ao aumento de solidão, como o contrário também é verdadeiro, e isso corrobora outros achados (Costa et al., 2018; Jia et al., 2018; Ostovar et al., 2016; Pittman & Reich, 2016; Santos & Nacarati, 2016; Yao & Zhong, 2014). Entretanto, há pesquisas que demonstram que o uso de internet, abusivo ou não, poderia diminuir sentimentos de solidão, dependendo do que se faz na rede, contrariando o encontrado no presente estudo (Pittman & Reich, 2016; Yang, 2016). Isso pode significar que o uso de internet, em si, mantém relações diferentes com solidão do que a dependência de internet propriamente dita. Alguns estudos, ainda, supõem que tal dependência aumentaria a solidão porque o uso demasiado de mídias sociais pode acabar diminuindo as interações off-line e, com isso, potencializando sentimento de vazio e vida sem sentido, que é base dos sentimentos de solidão (Griffths & Szabo, 2014; Jia et al., 2018; Li et al., 2015).
Segundo os resultados, quanto maior a dependência de internet, maior conflito familiar e menor afetividade familiar. Ao ser comparado entre os grupos 1 e 2, também foi indicado que tal conflito apresenta médias estatisticamente maiores entre quem apresentou maior dependência de internet, o que sugere que ter tal dependência pode significar ter maiores conflitos familiares. Já a afetividade apresentou maiores médias entre quem não demonstrou dependência de internet, o que mostra que quanto menor for tal adição maiores os níveis de afetividade familiar. Isso evidencia que a dependência de internet tem a ver com a qualidade dos relacionamentos familiares, sugerindo, conforme suporta a literatura, que usuários com maiores níveis de dependência apresentam relações menos harmoniosas e afetuosas, bem como mais disfuncionais e conflituosas que os não dependentes (Costa et al., 2018; Li et al., 2015; Snyder et al., 2015).
Pode-se pensar pela literatura que o funcionamento familiar está ligado a relacionamentos interpessoais saudáveis ou disfuncionais, o que sugere, a partir dos resultados aqui obtidos, que a dependência de internet pode interferir de forma negativa para o funcionamento da família, podendo ser, talvez, fator de risco para relações conflituosas em tal contexto (Teodoro, 2006). Aponta-se que o conflito familiar aparece na literatura como preditor de dependência de internet, ressaltando que o uso da rede, além de poder prejudicar as relações face a face, também pode criar conflitos acerca do que se posta na internet, como fotos, vídeos, mensagens, entre outros (Li et al., 2015; Griffiths & Szabo, 2014; Snyder et al., 2015; Terres-Trindade & Mosmann, 2016). O maior conflito e menor afetividade familiar também se conecta com o agravamento de sentimentos de solidão, uma vez que estes podem ser derivados de conflitos familiares (Ponciano, 2018).
A variável solidão manteve associações similares à dependência de internet. Maiores níveis de solidão mostraram maior conflito familiar e menor afetividade familiar. A comparação entre os grupos 3 e 4 também sugeriu que conflito familiar estaria mais presente entre aqueles que demonstraram maior solidão. Já a afetividade não apresentou diferenças significativas entre os grupos, sugerindo que ter maior solidão seria fator de risco para conflito familiar, porém afetividade familiar poderia não ser fator de proteção para solidão. Ainda assim, os resultados afirmam que os sentimentos de solidão não aumentam ou diminuem as relações afetuosas, o que pode ser apoiado por Alves (2018), ao afirmar que tais sentimentos estão mais ancorados nos relacionamentos conflituosos. Contudo, vão contra os achados do autor, ao mostrar que a afetividade pode não ser fator de proteção para solidão (Alves, 2018).
Os resultados são apoiados pela literatura, que considera que a dinâmica familiar auxilia no desenvolvimento saudável e adaptativo dos jovens adultos, gerando maior segurança e autonomia, diminuindo sintomatologias (Correia & Motta, 2017). O adulto necessita de conexão afetiva, que auxilia nas habilidades de enfrentamento de novas situações e reconstrução da identidade do indivíduo (Ponciano, 2018). Considera-se também a necessidade de a adaptação acadêmica ser perpassada por novas relações e maneiras de socializar (Mello & Teixeira, 2012). Visto isso, considera-se que os relacionamentos afetivos, ainda que indiretamente, podem estar associados positivamente aos sentimentos de solidão, e os relacionamentos conflitivos, ao gerar afastamento emocional, podem causar maiores sentimentos de solidão (Alves, 2018; Ponciano, 2018).
Entende-se, a partir dos resultados deste estudo, que conflito e afetividade familiar estão ligados aos sentimentos de solidão e à dependência de internet. Porém, enquanto conflito familiar mostra-se significativamente potencializador de solidão e dependência de internet, a afetividade apenas se relacionou contrária e significativamente com dependência de internet, e não com solidão. É possível, assim, que a afetividade familiar é fator protetivo para dependência de internet, como mostrado na literatura, mesmo que somente verificado na associação negativa entre eles (Terres-Trindade & Mosmann, 2016).
Destaca-se a necessidade de estudar mais acerca do conflito e afetividade familiar, identificando possíveis variáveis que também influenciam nessas relações interpessoais, como níveis de depressão e ansiedade (Correia & Motta, 2017). Entende-se ainda a importância de realizar intervenções acerca da dimensão conflito, já que ela está associada não só à solidão, mas também à dependência de internet. Assim como compreender quais variáveis poderiam influenciar no porquê de a afetividade familiar não se mostrar igualmente contrária ao conflito na solidão, mas sim na dependência de internet.
Considerações finais
Diante dos resultados, também se compreende que a dependência de internet pode resultar em maiores níveis de solidão e vice-versa, sendo importante pensar em intervenções com universitários, diante desses resultados. Assim, considera-se que os sentimentos de solidão e a dependência de internet podem gerar comportamentos de risco à saúde, como depressão, ansiedade e estresse, e prejudicar a qualidade de vida e questões acadêmicas, além de possivelmente serem impeditivos de boas competências emocionais, como melhor capacidade de regular emoções. Também se aponta para a necessidade de estudar qual o tipo de uso das mídias, compreendendo por meio da literatura que há diferenças entre usuários ativos, que interagem na rede; e passivos, que somente visualizam as postagens, visto que usuários passivos demonstram menores sentimentos de solidão que usuários ativos.
Este estudo encontrou resultados que afirmam que a dependência de internet pode ser prejudicial aos usuários, ao passo que possibilita maiores sentimentos de solidão e conflito familiar e pode diminuir os relacionamentos familiares afetuosos. Entende-se que a evolução tecnológica proporciona diversas possibilidades e tende a auxiliar as pessoas em suas vidas, como na comunicação virtual. Entretanto, é necessário repensar uma nova adaptação ao uso da comunicação on-line, visto que, neste estudo, os universitários com maior dependência de internet apresentam sintomas prejudiciais em suas vidas, como maiores níveis de solidão e relações familiares com mais conflitos.
Com o advento da pandemia da covid-19 em 2020, a população encontrou-se mais exposta ao uso das mídias, a fim de suprir as necessidades sociais. Entretanto, já se verifica consequências desse período, como maior adição à internet (Prakash, Yadav, & Singh, 2020), aumento de ansiedade, estresse, depressão e solidão (Maia & Dias, 2020; Elmer, Mepham, & Stadtfeld, 2020), e ainda dificuldade de organizar a vida acadêmica, social, familiar e de trabalho, o que pode levar à exaustão física e mental (Lima et al., 2020). Futuros estudos podem avaliar essas mudanças sócio-históricas relativas ao uso de internet e mídias sociais, e possíveis intervenções acerca do uso on-line mais saudável.
Ainda assim, é importante salientar que esta amostra pode ser estudada em maior dimensão, procurando entender que outros fatores podem estar associados a esses resultados, como sintomas depressivos, ansiosos, crenças e percepções distorcidas da realidade, entre outros. Considera-se que os resultados encontrados são importantes e podem ser utilizados para pensar intervenções com a população universitária, uma vez que todo e qualquer suporte para os universitários auxiliam em seu maior desempenho e na qualidade de vida, visto que a adaptação acadêmica conta com fatores familiares e estes com solidão, assim como ficar atento à propensão dos universitários à dependência de internet.














