Com o aumento do uso das Redes Sociais On-line (RSO), as interações humanas ficaram mais frequentes nesses ambientes digitais (Mahajan, 2009; Riordan et al., 2018), emergindo questões quanto às consequências dessas plataformas na vida das pessoas (Sultan, 2013). Entre as RSO, o Facebook, criado em 2004, é a mais popular no mundo (Statisca, 2019). O uso do Facebook pode ser benéfico, em alguns casos, como demonstrado em pesquisas, indicando melhora no bem-estar psicológico, na satisfação com a vida e autoestima (Ellison, Steinfield, & Lampe, 2007; Johnston, Tanner, Lalla, & Kawaski, 2009; Nabi, Prestin, & Jiyeon, 2012). Contudo, há evidências ressaltando possíveis prejuízos associados ao acesso intenso dessa RSO, caracterizado como uso problemático ou dependência do Facebook (Casale & Fioravanti, 2017; Lee-Won, Herzog, & Park, 2015; Gosling, Gaddis, & Vazire, 2007; Hong, Huang, lin, & Chiu, 2014; Hughes, Rowe, Batey, & Lee, 2012; Kus & Griffths, 2011; Marino et al., 2016; Uysal, 2015; Dhir, Kaur, Chen, & Lonka, 2016; Satici & Uysal, 2015).
A dependência do Facebook é definida como o uso exagerado da RSO e, portanto, está diretamente relacionada ao tempo que o usuário permanece conectado (Vasalou, Joinson, & Courvoisier, 2010; Ross et al., 2009) e à quantidade de vezes que ele acessa a plataforma (Pelling & White, 2009), o que pode causar prejuízos à sua vida (Andreassen, 2015; Blachnio, Przepiorka, & Pantic, 2016; Hong et al., 2014). Pesquisas relacionando a dependência do Facebook com outros construtos estão sendo realizadas, por exemplo, com foco nos traços de personalidade, sobretudo, considerando suas manifestações saudáveis, tipicamente medidos pelo Five-Factor Model (Gosling et al., 2007; Hughes et al., 2012; Kuss & Griffiths, 2011; Ross et al., 2009; Zywica & Danowski, 2008). Entretanto, pesquisas com traços patológicos de personalidade são escassas. Uma revisão sistemática (Ferrari, Sette, & Carvalho, 2018) não encontrou nenhum estudo relacionando dependência do Facebook com traços patológicos da personalidade. Após a data da revisão, foi encontrada apenas uma pesquisa que buscou investigar a relação entre traços típicos do transtorno de personalidade narcisista e dependência do Facebook (Casale & Fioravanti, 2017).
A presente pesquisa encontra-se neste ínterim, uma vez que buscou investigar a relação entre dependência do Facebook e traços típicos dos transtornos de personalidade narcisista (TPN) e histriônica (TPH). Esses dois funcionamentos patológicos foram selecionados pela sobreposição quanto aos traços, como necessidade de atenção/admiração, manipulação, o uso de comportamentos de sedução, e a busca ativa por amizades (Anderson et al., 2014; Furnham, 2014; Gore, Tomiatti, & Widiger, 2011; Hopwood, Thomas, Markson, Wright, & Krueger, 2012; Samuel, Lynam, Widiger, & Ball, 2012; Zimmerman, 2012), além de serem relacionados à exposição social (Arrington, 2005; Deters, Mehl, & Eid, 2014; Dhaha, 2013; Gosling et al., 2007). Essas características devem favorecer a observação desses funcionamentos patológicos nas RSO.
Fundamentação teórica
O Facebook tornou-se parte da vida de mais de dois bilhões de usuários em todo o mundo. Mais de 85% dos usuários estão fora dos Estados Unidos da América (Socialbakers, 2018), sendo que o Brasil ocupa o terceiro lugar no ranking mundial, com 130 milhões de usuários, em sua maioria mulheres, jovens e adultos (Rock Content, 2018). Essa RSO é usada para diferentes finalidades, como interação, comunicação, educação, trabalho, lazer e entretenimento (Mahajan, 2009). Todas as atividades ocorrem em tempo real (Aboujaoude, 2011; Hamid, Ishak, & Yazam 2015), o que torna a plataforma dinâmica. Além dos diferentes tipos de interação, a possibilidade de acesso remoto à plataforma via smartphone pode fazer com que o usuário use-a com mais frequência no seu dia a dia (Mahajan, 2009).
Nesse contexto, as pessoas podem apresentar dificuldades para controlar o tempo que passam no Facebook, acarretando prejuízos em sua vida (Andreassen, 2015; Cin & Melo, 2013), o que pode configurar um uso exagerado ou problemático do Facebook, também denominado de dependência do Facebook (Lee, Cheung, & Thadani, 2012; Lee-Won et al., 2015; Moreau, Laconi, Delfour, & Chabrol, 2015). Para que seja caracterizada a dependência do Facebook, o usuário precisa, obrigatoriamente, apresentar prejuízos em sua vida, em algum dos contextos de convívio social, podendo comprometer as relações interpessoais (Andreassen, 2015; Blachnio et al., 2016; Hong et al., 2014).
A avaliação da dependência do Facebook se baseia em dois pontos. O primeiro é a quantidade de acessos que a pessoa realiza, sendo proposto pela literatura quatro ou mais acessos por dia (Pelling & White, 2009). E o segundo ponto é o tempo gasto com a RSO todos os dias, cujo ponto de corte varia entre mais de uma e mais de cinco horas por dia (Vasalou et al., 2010; Ross et al., 2009). Contudo, a literatura não apresenta um padrão único de critérios para classificação da dependência, uma vez que o acesso dos usuários não é totalmente controlado, pois a pessoa pode estar conectada à RSO em um aplicativo do celular, mas não utilizar ou interagir diretamente com a plataforma. Conclui-se que a avaliação da dependência do Facebook não apresenta padrões comportamentais bem-definidos e consensuais, dificultando sua investigação e até diagnóstico (Hong et al., 2014).
Apesar do crescente número de estudos sobre a dependência do Facebook, essa condição ainda não é oficialmente reconhecida como um transtorno mental pelos manuais psiquiátricos, como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais ([DSM-5]; APA, 2013) e a Classificação Estatística Internacional de Doenças e de Problemas Relacionados à Saúde ([CID-10]; OMS, 2007). Entretanto, autores da área consideram que o acesso exagerado ao Facebook pode ser gerador de prazer, de sentimentos de satisfação, e favorecer na alteração de humor e dificuldade de controlar o tempo gasto. Esses aspectos observados podem se assemelhar às características apresentadas pelos dependentes de substâncias químicas (Aboujaoude, 2011; APA, 2013).
Estudos para melhor compreensão da dependência do Facebook vêm sendo realizados, englobando outros construtos psicológicos. Parte desses estudos se focam nas relações com os traços de personalidade, principalmente com base no Five-Factor Model (Gosling et al., 2007; Hughes et al., 2012, Kuss & Griffiths, 2011; Ross et al., 2009; Zywica & Danowski, 2008). Esses estudos apontam traços como preditores de dependência do Facebook, por exemplo, alta extroversão e abertura a experiência indicam tendência para usar o Facebook com o objetivo de buscar relações de extensão social (Gosling et al., 2007; Hughes et al., 2012); sujeitos mais introvertidos buscam o Facebook com o objetivo de estabelecer relações interpessoais não estabelecidas fora do mundo virtual (Zywica & Danowski, 2008); e indivíduos com alto nível de neuroticismo tendem a utilizar a plataforma com o objetivo de evitar solidão (Ross et al., 2009).
Entretanto, estudos focando nos aspectos mais patológicos da personalidade, ainda são escassos (Ferrari et al., 2017). Até o presente momento, apenas uma pesquisa foi encontrada, investigando a relação entre traços do funcionamento narcisista e a dependência do Facebook (Casale & Fioravanti, 2017). Os resultados demonstraram que há relação entre a dependência da plataforma e o traço necessidade de admiração (r = 0,33; p < 0,001), típico do funcionamento narcisista. Outros estudos são encontrados com traços patológicos da personalidade, porém investigando a relação com o uso não dependente do Facebook. Essas pesquisas demonstram que indivíduos com funcionamento narcisista (Kapidzi, 2013; Liu, Ang, & Lwin, 2013; Mehdizadeh, 2010) e histriônico (Rosen, Whaling, Rab, Carrier, & Cheever, 2013) tendem a apresentar mais movimentações no Facebook (i.e., número de amigos, fotos, compartilhamento de informações, entre outras), em comparação a pessoas sem elevação nesses traços.
Apesar das evidências apresentadas, os achados na literatura quanto à dependência do Facebook e traços patológicos da personalidade ainda são incipientes e precisam ser acumulados, possibilitando a identificação de um claro padrão. Estudos anteriores (Hong et al., 2014; Hughes et al., 2014; Ross et al., 2009) utilizaram como indicadores de dependência do Facebook instrumentos de autorrelato. Outra possibilidade para acessar a atividade no Facebook, sem interferência da pessoa, é por meio dos dados passivos (e.g., número de amigos e número de fotos postadas). Apesar de ainda não existirem pesquisas demonstrando que os dados passivos do Facebook são indicativos de dependência, entende-se que quanto mais o usuário interage na RSO, mais tempo ele permanecerá, e por conseguinte pode ser indicativo de dependência.
Com base nas evidências prévias apresentadas, o presente estudo teve como objetivo verificar a predição da dependência do Facebook por meio de traços típicos dos transtornos da personalidade narcisista (TPN) e histriônica (TPH). Como objetivo secundário ao escopo do estudo, mas necessário para sua condução, verificamos as propriedades psicométricas da escala que avalia dependência do Facebook como objetivo específico.
Para tanto, a pesquisa foi dividida em duas partes. Na primeira, foram verificadas as propriedades psicométricas do instrumento de dependência do Facebook que foi adaptado para o Brasil. Posteriormente, foram realizadas análises para verificar o quanto os traços patológicos do TPN e do TPH predizem a dependência do Facebook, considerando medidas de autorrelato e dados passivos.
Foram testadas as seguintes hipóteses: (h1) os traços do TPN e TPH devem predizer dependência do Facebook (Casale & Fioravanti, 2017; Mehdizadeh, 2010; Kapidzi, 2013; McCain et al., 2016; Rosen et al., 2013); (h2) o traço busca por atenção tende a ser o mais relevante para predição de dependência do Facebook (Mehdizadeh, 2010; Mehroof & Griffiths, 2010; Rosen et al., 2013); (h3) os dados passivos (e.g., número de amigos, fotos, álbuns) devem incrementar a predição da dependência do Facebook (Blachnio et al., 2016; Koc & Gulyagci, 2013); (h4) o instrumento de dependência do Facebook deve apresentar a mesma estrutura da escala original, indicando boa adequação psicométrica.
Método
Participantes
Participaram da pesquisa 424 sujeitos, de ambos os sexos, com idade entre 18 e 64 anos (M = 27,62; DP = 8,43), sendo prioritariamente mulheres (71,1%) e de etnia caucasiana (74,4%). A maioria dos participantes relatou ser solteiros (65,6%), seguido por casados (18,6%). Referente à escolaridade, 31,1% relataram estar cursando a graduação; 24,5%, graduação completa; e 20,2%, pós-graduação completa. Em sua maioria, os participantes relataram morar no estado de São Paulo (72,7%). Além disso, 52,2% dos sujeitos relataram já ter feito ou fazer tratamento psicológico, 78,8% disseram não ter feito ou fazer tratamento psiquiátrico e 76,2% já utilizaram ou utilizam medicação psicotrópica.
Instrumentos
Inventário Dimensional Clínico da Personalidade-2 (IDCP-2; Carvalho & Primi, no prelo)
O IDCP-2 é um instrumento de autorrelato para avaliação de traços patológicos da personalidade. É composto por 206 itens que devem ser respondidos em uma escala tipo Likert de 4 pontos, sendo 1 = nunca e 4 = sempre. Os itens são divididos em 12 dimensões, a saber: Dependência, Agressividade, Instabilidade de humor, Excentricidade, Necessidade de atenção, Desconfiança, Grandiosidade, Isolamento, Evitação a críticas, Autossacrifício, Conscienciosidade e Inconsequência. Para este estudo, foram utilizadas duas dimensões, Necessidade de atenção (Carvalho, Sette, Capitão, & Primi, 2014) e Grandiosidade (Carvalho, Sette, & Ferrari, 2016). A dimensão Necessidade de atenção é composta por 13 itens referentes aos traços típicos do TPH e apresentou evidências de validade (estrutura interna e relação com variáveis externas) e índices de precisão adequados (Carvalho et al., 2014). A consistência interna nesse estudo foi α = 0,84. A dimensão Grandiosidade, composta por 18 itens que avaliam os traços do TPN, também apresentou evidências de validade e indicadores favoráveis de precisão (Carvalho et al., 2016). A consistência interna nesse estudo foi α = 0,85.
Questionário do Facebook para dados passivos
O questionário desenvolvido pelos autores, com base no estudo de Gosling, Augustine, Vazire, Holtzman e Gaddis (2011), investiga os dados passivos do Facebook, isto é, as atividades do usuário, como número total de amigos, grupos, álbuns, fotos postadas, fotos de perfil e check-in. Apesar de ser um instrumento de autorrelato, as perguntas não consideram a percepção dos participantes, apenas informações do seu perfil no Facebook. Não foram conduzidas pesquisas prévias com esse questionário.
Facebook Addiction Scale – versão brasileira (FAS)
A escala tem como objetivo verificar o uso dependente do Facebook, sendo composta por 12 itens, os quais devem ser respondidos em uma escala tipo Likert de 6 pontos, que varia de 1 = discordo totalmente a 6 = concordo totalmente. Os itens são divididos em quatro fatores: Abstinência, Tolerância, Problemas de saúde e Satisfação substitutiva. A escala apresentou adequação psicométrica (i.e., evidências de validade com base na estrutura interna e relação com outras variáveis, bem como fidedignidade por consistência interna) em estudos prévios (Andreassen, Torsheim, Brunborg, & Pallesen, 2012; Hong et al., 2014) – neste estudo, apresentou consistência interna igual a 0,86.
Procedimentos
Depois da submissão e aprovação do projeto ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade São Francisco (CAAE: 64831316.5.0000.5514), iniciou-se a coleta de dados, de forma on-line (plataforma Google Docs), disponibilizando o link nas RSO (i.e., Facebook, WhatsApp, Instagram) e e-mail. Somente após anuência do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, os participantes responderam aos instrumentos, com duração aproximada de 20 minutos.
Primeiramente, foi realizada a tradução e adaptação da escala FAS, pelos autores deste estudo, com autorização dos autores da versão original. Os pesquisadores traduziram os itens separadamente e, consensualmente, obtiveram a versão inicial brasileira do instrumento, que foi encaminhada para um professor de inglês, fluente em português e inglês, para revisar a compatibilidade entre a versão original e a versão adaptada para o Brasil. Discrepâncias foram discutidas e chegou-se a uma versão final brasileira da FAS.
Na sequência, as propriedades psicométricas do instrumento adaptado (FAS) foram verificadas. Foram realizadas análises fatoriais confirmatórias, utilizando o programa estatístico Mplus (versão 6.12). Para tanto, o modelo original da escala foi usado como referência (Hong et al., 2014). Foram verificados os índices de ajuste da escala e cargas fatoriais dos itens, sendo usados como parâmetros os seguintes valores, RMSEA ≤ 0,06 (Brown, 2006), SRMR ≤ 0,05 (Hu & Bentler, 1999) e TLI ≥ 0,90 (Brown, 2006; Bentler, 1990). Além disso, foram feitas análises para verificar o nível de dificuldade dos itens via modelo de Rasch, correlação item-theta e índices de fidedignidade por consistência interna (α), relatados na descrição do instrumento. Essas análises foram realizadas no programa estatístico Winsteps (versão 3.69.1) e SPSS (versão 21). Ressalta-se que para a medida utilizada em análises com o modelo de Rasch, observou-se a unidimensionalidade de acordo com os critérios estabelecidos por Linacre (2009). Ademais, para os índices de ajuste, utilizaram-se como base os critérios apresentados por Linacre (2014), quais sejam, 0,5 a 1,5.
Após a verificação das propriedades psicométricas da FAS, foram feitas análises para verificar e atingir o objetivo principal do estudo. Vale ressaltar que foi criado uma variável agregada englobando todos os dados passivos do Facebook, isto é, os dados coletados pelo questionário foram transformados em uma única variável (denominada Fb), representando as atividades do usuário no Facebook. Os dados agregados foram: número total de amigos, de grupos, álbuns de fotos, fotos, fotos incluídas no álbum do perfil e check-in realizados. Foram realizadas análises de regressão linear pelo método enter para avaliar o quanto os fatores do IDCP-2 e a variável Fb conseguem predizer os fatores de dependência do Facebook. Essas análises foram realizadas por meio do programa estatístico SPSS (versão 21).
Resultados
Verificação das propriedades psicométricas da versão brasileira da FAS
Evidências de validade com base na estrutura interna foram investigadas pela testagem das estruturas originais dos instrumentos. Primeiro, em relação à carga fatorial dos fatores, esta variou entre 0,74, Abstinência, e 0,92, Tolerância (M = 0,84 e DP = 0,076). Foram encontrados os seguintes valores para os índices de ajuste: X2/df = 3,6 (df = 50; p < 0,01); CFI = 0,91; RMSEA = 0,078; SRMR = 0,06; TLI = 0,89.
Complementar, as correlações entre os fatores da FAS foram significativas (p ≤ 0,01), variando de 0,43 (rfatores problemas de vida*satisfação substitutiva) a 0,64 (rfatores tolerância*problemas de vida), (Mr = 0,51 e DPr = 0,07). Na Tabela 1, estão apresentadas as cargas fatoriais e estatísticas descritivas dos itens da FAS, além do nível de dificuldade, índice de ajuste, correlações item-theta, e índices de fidedignidade (alfa de Cronbach).
Tabela 1. Carga fatorial e estatísticas descritivas dos itens da FAS
| Fator | Item | Carga | S.E. | b | S.E. | Infit | Outfit | ritem-theta | MƟ (DP) | α |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Abstinência | 1 | 0,79* | 0,03 | -0,46 | 0,07 | 0,94 | 0,89 | 0,85 | -1,59 (1,13) | 0,73 |
| 2 | 0,70* | 0,04 | 0,24 | 0,08 | 0,85 | 0,80 | 0,74 | |||
| 3 | 0,58* | 0,04 | 0,23 | 0,08 | 1,17 | 1,16 | 0,72 | |||
| Tolerância | 4 | 0,71* | 0,03 | -0.57 | 0,06 | 1,01 | 0,95 | 0,81 | -0,01 (1,39) | 0,80 |
| 5 | 0,86* | 0,02 | 0,50 | 0,06 | 0,85 | 0,82 | 0,86 | |||
| 6 | 0,69* | 0,03 | 0,06 | 0,05 | 1,12 | 1,20 | 0,81 | |||
| Problemas de vida | 7 | 0,35* | 0,05 | -0,09 | 0,06 | 1,61 | 1,52 | 0,69 | -0,80 (0,95) | 0,70 |
| 8 | 0,86* | 0,02 | 0,26 | 0,06 | 0,62 | 0,62 | 0,78 | |||
| 9 | 0,88* | 0,02 | -0,17 | 0,05 | 0,73 | 0,73 | 0,80 | |||
| Satisfação substitutiva | 10 | 0,22* | 0,06 | -0,15 | 0,05 | 1,22 | 1,20 | 0,66 | -0,77 (0,86) | 0,50 |
| 11 | 0,58* | 0,05 | -0,97 | 0,05 | 0,83 | 0,80 | 0,79 | |||
| 12 | 0,63* | 0,04 | 1,12 | 0,06 | 0,93 | 0,98 | 0,58 |
Nota. * p = 0.001
Conforme apresentado na Tabela 1, as cargas fatoriais (terceira coluna) dos itens foram positivas e significativas, variando de 0,22 a 0,88. A maior parte dos itens apresentaram nível de dificuldade (b) maior em comparação à média de theta, o que indica que o teste tende a não ser endossado pela amostra. No geral, o índice de consistência interna foi igual ou superior a 0,70, com exceção ao fator Satisfação substitutiva.
Investigação da predição de dependência do Facebook por meio de traços típicos do TPH e TPN
Na Tabela 2, está apresentada a análise de regressão linear, utilizando como variáveis preditoras os fatores das dimensões Necessidade de atenção e Grandiosidade do IDCP-2 e a variável agregada do Facebook (Fb); e como variáveis a serem preditas, os fatores da FAS, que avaliam domínios da dependência do Facebook.
Tabela 2. Análise de regressão linear para predição dos fatores da FAS a partir dos fatores das dimensões Necessidade de atenção e Grandiosidade e variável agregada do Facebook
| Necessidade de Atenção | ||||
| Abstinência | Beta | t | p | r2 |
| Intensidade emocional | .15 | 2.701 | .01 | .06 |
| Busca por atenção | .14 | 2.374 | .02 | |
| Fb | .09 | 1.891 | .05 | |
| Tolerância | Beta | t | p | r2 |
| Intensidade emocional | .17 | 3.245 | .01 | .10 |
| Busca por atenção | .23 | 4.106 | .01 | |
| Problemas de vida | Beta | t | p | r2 |
| Intensidade emocional | .11 | 1.999 | .04 | .09 |
| Busca por atenção | .27 | 4.861 | .01 | |
| Satisfação substituta | Beta | t | p | r2 |
| Busca por atenção | .23 | 4.192 | .01 | .10 |
| Fb | .17 | 3.616 | .01 | |
| Grandiosidade | ||||
| Abstinência | Beta | t | p | r2 |
| Necessidade de reconhecimento | .31 | 5.490 | .01 | .10 |
| Fb | .10 | 1.994 | .05 | |
| Tolerância | Beta | t | p | r2 |
| Necessidade de reconhecimento | .35 | 6.164 | .01 | .10 |
| Problemas de vida | Beta | t | p | r2 |
| Necessidade de reconhecimento | .37 | 6.624 | .01 | .12 |
| Satisfação substituta | Beta | t | p | r2 |
| Necessidade de reconhecimento | .35 | 6.333 | .01 | .12 |
| Superioridade | .15 | 2.340 | .02 | |
| Fb | .20 | 4.342 | .01 | |
De acordo com a Tabela 3, é possível observar que alguns traços patológicos, e a variável agregada do Facebook, são capazes de predizer os fatores da FAS. Considerando a dimensão Necessidade de Atenção, o traço Busca por Atenção conseguiu predizer os quatro fatores da FAS com maior contribuição nos modelos. Por sua vez, na dimensão Grandiosidade, o fator Necessidade de reconhecimento foi um dos únicos que conseguiu predizer os fatores da FAS com capacidade preditiva significativa. A variável agregada do Facebook prediz os mesmos dois fatores da FAS nos dois modelos, Abstinência e Satisfação substituta, com cargas mais elevadas quando em conjunto com os fatores de Grandiosidade.
Discussão
O objetivo deste estudo foi verificar a capacidade preditiva dos traços típicos dos TPN e TPH para dependência do Facebook, além de verificar as propriedades psicométricas da FAS, adaptada para o Brasil pelos autores. Os resultados das análises para verificação de validade com base na estrutura interna indicaram índices de ajuste inferiores ao sugerido pela literatura (Browen, 2006; Hu & Bentler, 1999), confirmando a h4. Contudo, os valores foram próximos do recomendado pelos autores e semelhantes aos resultados do estudo de desenvolvimento da escala (Hong et al., 2014). A partir disso, e visando a comparabilidade entre estudos, optou-se por manter a estrutura original da escala. As cargas fatoriais dos itens e correlações entre os fatores foram adequadas, com a maior parte das magnitudes moderadas. Os valores referentes ao nível de dificuldade, índice de ajuste, correlações item-theta e índices de fidedignidade também foram adequados (Linacre, 2009).
Posterior à adequação do instrumento adaptado, foram realizadas análises de regressão, visando compreender quais traços patológicos e se os dados passivos do Facebook conseguiam predizer a dependência do Facebook. Os resultados demonstraram que alguns fatores do IDCP-2 conseguiram predizer os fatores da FAS confirmando a h1. Os achados confirmam estudos prévios que demonstraram a relação, e a predição entre uso do Facebook e traços típicos do TPN e TPH, ainda que estes estudos não avaliem diretamente a dependência do Facebook (Carvalho & Pianowski, 2017; Casale & Fioravanti, 2017; Mehdizadeh, 2010; Kapidzi, 2013; McCain et al., 2016; Rosen et al., 2013).
Mais especificamente, os fatores Necessidade de reconhecimento, Busca por atenção e Intensidade Emocional foram os que apresentaram maiores contribuições nos modelos de regressão testados. Esse resultado corrobora parcialmente a h2 do estudo. Esperava-se que o traço Busca por atenção apresentasse as maiores predições, e isso aconteceu quando se observsa apenas os fatores da dimensão Necessidade de atenção. Ao se observar todos os traços preditores, Necessidade de reconhecimento foi aquele com maior poder explicativo. Embora não vá ao encontro da expectativa (h2), com base em evidências prévias (Mehdizadeh, 2010; Mehroof & Griffiths, 2010; Rosen et al., 2013), estudos demonstraram que as atividades do Facebook possibilitam a busca por reconhecimento pelos usuários (e.g., Gosling et al., 2007; Mahajan, 2009; Vazire & Gosling, 2004), o que pode eventualmente reforçar o uso excessivo dessa RSO (Aboujaoude, 2011). Talvez o traço Necessidade de reconhecimento, mais relacionado ao TPN (APA, 2013), seja um traço que represente indiretamente a busca por atenção, traço mais típico do TPH; já que em contextos como o do Facebook ter a admiração dos outros necessariamente implica ter atenção dessas pessoas. Futuros estudos devem buscar investigar essa hipótese alternativa.
No que fiz respeito aos dados passivos do Facebook, incluídos neste estudo como a variável Fb, observou-se capacidade preditiva para dois fatores da FAS, corroborando parcialmente a h3. As maiores magnitudes foram encontradas na predição do fator Satisfação substituta, que se refere à necessidade de usar a RSO com o objetivo de obter satisfação (Eijnden, Lemmens, & Valkenburg, 2016). Esses dados são concordantes com a literatura (Kapidzi, 2013; McCain et al., 2016; Mehdizadeh, 2010; Mehroof & Griffiths, 2010; Rosen et al., 2013) e mostram que quanto mais movimentação (ou atividade) no Facebook, maior a tendência de o usuário apresentar dependência da RSO. Além disso, parte importante das avaliações de dependência do Facebook se refere à quantidade de acessos que o usuário faz (Pelling & White, 2009) e ao tempo gasto com atividades na plataforma (Vasalou et al., 2010; Ross et al., 2009), corroborando os achados do presente estudo.
De forma geral, as hipóteses da pesquisa foram corroboradas. Hipóteses alternativas foram apresentadas e devem ser testadas em estudos futuros. As principais limitações deste estudo devem ser ponderadas. Referente aos participantes, deve-se observar que não foram incluídas pessoas com diagnóstico conhecido de transtornos da personalidade, o que pode ter limitado a variabilidade nas respostas aos itens do IDCP-2, além de apresentar outras características específicas que não foram controladas. Deve-se considerar também que o IDCP-2 é um teste de autorrelato, e não diagnóstico. Para estudos futuros, recomenda-se que multimétodos sejam utilizados para avaliação de traços da personalidade, ampliando as perspectivas avaliadas de cada traço. Para os autores, este é o primeiro estudo que verificou a predição da dependência do Facebook a partir dos dados passivos do Facebook, considerando ainda que dependência do Facebook é um fenômeno relativamente recente (Moreau et al., 2015) e, por isso, sugere-se que sejam realizados mais estudos na área (Ferrari et al., 2017). Ademais, com base nos resultados encontrados, sugere-se que sejam realizados estudos especificamente com traços típicos de TPH, com o objetivo de definir padrões mais consistentes quanto à relação entre TPH e dependência do Facebook.














