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Revista de Psicologia da UNESP

versão On-line ISSN 1984-9044

Rev. Psicol. UNESP vol.20 no.1 Assis  2021  Epub 22-Nov-2024

https://doi.org/10.5935/1984-9044.20210007 

Artigo

Violência doméstica contra a mulher e pandemia Covid-19: o que destaca a literatura?

Domestic violence against women and the Covid-19 pandemic: what does the literature highlight?

Daniel Gomes de Lima1 

Luanna Gomes de Almeida2 

Rafaela Nunes de Lima1 

Natania Silva Tavares Monteiro1 

Beatriz de Castro Magalhães1 

Grayce Alencar Albuquerque1 

1Universidade Regional do Cariri

2Prefeitura Municipal de Brejo Santo; Centro Universitário Dr. Leão Sampaio


Resumo

O estudo objetiva descrever a relação entre pandemia COVID-19 e violência doméstica contra a mulher. Trata-se de um estudo teórico-reflexivo, construído com base na leitura crítica de estudos científicos atuais sobre violência doméstica contra a mulher e pandemia Covid-19. Foram originadas seis categorias que destacam a problemática da violência doméstica como questão de gênero, a qual foi agravada pelo distanciamento social; discutem as repercussões mentais ocasionadas pela violência e pandemia e destaca a crise econômica como fator agravante da violência doméstica e intensificado por ela; e discorrem sobre as dificuldades profissionais no atendimento às mulheres em situação de violência durante a pandemia e elenca estratégias de enfrentamento. Percebe-se que os estudos reforçam que a causalidade da violência doméstica contra a mulher ancora-se nas desigualdades de gênero; e, apesar de a pandemia não ser a causa direta do fenômeno, ela se destaca por incutir maior vulnerabilidade feminina a esse agravo.

Palavras chave: Covid-19; pandemia; violência doméstica

Abstract:

The study aims to describe the relationship between the COVID-19 pandemic and domestic violence against women. This is a theoretical-reflective study, based on a critical reading of current scientific studies on domestic violence against women and the COVID-19 pandemic. Six categories were created that highlight the problem of domestic violence as a gender issue, which was aggravated by social distance; discuss the mental repercussions caused by violence and pandemic and highlight the economic crisis as an aggravating factor of domestic violence and intensified by it; and discuss the professional difficulties in assisting women in situations of violence during the pandemic and list coping strategies. It is noticed that the studies reinforce that the causality of domestic violence against women is anchored in gender inequalities; and although the pandemic is not the direct cause of the phenomenon, it stands out for instilling greater female vulnerability to this disease.

Keywords: Covid-19; pandemic; domestic violence

Introdução

Os impactos da pandemia da Covid-19 ultrapassam a esfera individual, atingindo a esfera coletiva e, assim, para reduzir a magnitude de seus agravos na coletividade, foram impostas medidas restritivas como o isolamento social que, embora controverso, é de suma importância para tentar reduzir a curva de contaminação e, por consequência, os impactos gerados pela pandemia (Lima, 2020).

Entretanto, os efeitos colaterais gerados por esse isolamento repercutiram significativamente em determinados grupos populacionais tidos como vulneráveis, a exemplo das mulheres que, em decorrência dos efeitos provocados na economia das famílias, do distanciamento de serviços de apoio e do próprio aumento de tempo de convívio com parceiros íntimos, tornaram-se mais susceptíveis à violência doméstica (Marques et al., 2020)

A violência doméstica, de acordo com a Lei Maria da Penha, é caracterizada por qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial (Brasil, 2021). Com esse agravo, uma das principais violências mais comumente observadas é a violência por parceiro íntimo (VPI), definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o comportamento de um parceiro ou ex-parceiro dentro de um relacionamento íntimo que cause danos físicos, sexuais e psicológicos à mulher, podendo se apresentar de várias formas, através da violência física, sexual, psicológica, patrimonial e moral (Brasil, 2006; OMS, 2012).

Esse tipo de violência acomete um grande número de mulheres. De acordo com o Atlas da Violência (2020), no ano de 2018, 4.519 mulheres foram assassinadas no Brasil, o que representa uma taxa de 4,3 homicídios para cada 100 mil mulheres. O mesmo levantamento revelou que entre 2008 a 2018 houve aumento de 4,2% nos assassinatos de mulheres e, em alguns estados, a taxa de homicídios em 2018 mais do que dobrou em relação a 2008 (Cerqueira et al., 2020).

Segundo o Mapa da Violência, antes da pandemia do novo coronavírus, no Brasil, 55,3% dos casos de violência contra o público feminino ocorriam no âmbito doméstico e, desses, 33,2% foram ocasionados por companheiros ou ex-companheiros das mulheres, colocando o Brasil como o 5ª país que mais mata mulher entre 83 países do mundo (Waiselfiz, 2015).

Dados atuais da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH) do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) relevam que no Brasil houve um aumento significativo nas denúncias de violência contra mulheres desde que foram implementadas as medidas de bloqueio e distanciamento social, em consequência da pandemia Covid-19, registrando-se um crescimento de 18% nas denúncias (Brasil, 2021). Tal realidade não se limita apenas ao âmbito brasileiro, mas se estende pelo território internacional, em países como China, Itália, França, Espanha, Colômbia e África do Sul, que têm apresentado, durante a pandemia, um aumento no número de denúncias e atendimentos à mulher em situação de violência, quando comparados ao ano de 2019 (Wanqing, 2020; La Província, 2020; Euronews, 2020; Alencar et al., 2020).

É importante destacar que, para se enfrentar a violência doméstica contra as mulheres, principalmente durante a pandemia, as ações elencadas devem ultrapassar o registro de denúncias, sendo necessária a criação de estratégias voltadas para a busca e acolhimento das mulheres em situação de violência, de forma a proporcionar segurança e suporte social. Para tanto, faz-se necessário o conhecimento da real situação a que mulheres estão submetidas durante a pandemia Covid-19. Daí serem importantes e necessários os estudos nessa temática para que sejam discutidos e publicizados (Viera, 2020).

Assim, levando-se em consideração essa prerrogativa, este estudo objetivou descrever a relação entre pandemia Covid-19 e violência doméstica contra a mulher na literatura científica, a fim de elencar e destacar relações causais e estratégias de enfretamento que possam fornecer medidas de suporte e orientação psicológica, social e jurídica perante esse agravo.

Método

Trata-se de um estudo teóricoreflexivo, construído com base na leitura crítica de estudos científicos atuais que se propõem a discutir a relação entre violência doméstica contra a mulher e pandemia covid-19. Essa construção teórica aproxima-se da abordagem qualitativa, tendo em vista a interpretação e a análise dos elementos teóricos obtidos por meio do levantamento bibliográfico realizado (Minayo, 2006).

O percurso metodológico incluiu o levantamento bibliográfico, por meio do qual se realizou uma pesquisa exploratória de estudos, em formato eletrônico, presentes na plataforma Google – COVID-19 Research Explorer, um buscador do Google, de acesso gratuito, baseado em inteligência artificial, que reúne pesquisas científicas complexas relacionadas à Covid-19, a partir da utilização dos descrito-res em inglês ‘Coronavirus Infections’ (e termo correlato 'COVID-19') e ‘Violence Against Women’, consultados através do Medical Subject Headings (MeSH) e combinados entre si com o operador booleano AND. Optou-se pelo uso do descritor mais amplo „Violence Against Women’ (violência contra a mulher) na referida base de dados para ampliar o processo de busca dos artigos, uma vez que a violência doméstica contra a mulher necessariamente encontra-se inserida dentro de seu conceito mais amplo, que é a violência contra as mulheres.

O processo de coleta se deu de forma não sistemática, no período de dezembro de 2020 a janeiro de 2021. Foram adotados como critérios de inclusão para seleção dos estudos aqueles que versassem sobre violência doméstica contra mulher e pandemia Covid-19; produzidos no ano de 2020 e 2021 (até mês de janeiro); nos idiomas inglês, português e espanhol e com disponibilidade de acesso ao conteúdo na íntegra.

O banco de dados foi constituído inicialmente por 100 artigos. Foram excluídos 32 artigos por não se relacionarem à temática, 23 por não estarem disponíveis para acesso online e 1 por se tratar de comentário. Os 44 artigos restantes foram submetidos à leitura dos resumos e na íntegra, com inclusão de todos por atenderem ao objetivo do estudo.

Para o processamento dos achados dos artigos, realizou-se análise dos resumos no programa Interface de R pour L Analyses Multidimensionnelles de Textes L de Questionnaires (IRaMuTeQ), versão 0.7 alfa 2 (RATINAUD, 2009). Esse software, de instalação gratuita, permite a análise estatística clássica do texto. Foram processados nesse programa os resumos de cada artigo, em que foi utilizada, como forma de análise do corpus textual, a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que divide o corpus em classes, agrupando as palavras de acordo com a maior associação com a classe e apresentando o percentual de representação no corpus estudado (RATINAUD, 2009). Dessa forma, a partir da CHD, identificaram-se seis classes, convertidas em seis categorias que foram analisadas em consonância com a literatura científica pertinente.

No que se refere às pesquisas envolvendo documentos presentes em banco de dados secundários que contenham dados disponíveis e de domínio público, que não identifiquem participantes da pesquisa e sem envolvimento de seres humanos, não há necessidade de aprovação por parte do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).

Resultados e discussões

Após identificação e leitura integral dos 44 artigos elegíveis, buscou-se, após leituras, obter semelhanças em seus objetivos, conclusões apontadas e estratégias elencadas de enfrentamento à violência doméstica contra a mulher, conforme Tabela 1 Quanto aos objetivos dos estudos identificados, a maioria deles (n=29) objetivaram relacionar o isolamento social e a pandemia com o aumento dos casos de violência doméstica contra a mulher, estando em segundo lugar aqueles que objetivaram descrever o papel dos profissionais de saúde diante do agravo (n=13).

Objetivo Número de artigos Conclusão Número de artigos Estratégias encontradas Número de artigos
Relacionar o isolamento social e pandemia com o aumento da violência doméstica contra mulheres 29 Reafirmação da importância do combate à violência doméstica contra a mulher 22 Capacitação de equipes de saúde para combater a violência doméstica contra a mulher 09
Relacionar o aumento da violência doméstica contra a mulher ao impacto econômico gerado pelo isolamento social 09 Reforço à importância do empoderamento feminino no combate à crise econômica e violência doméstica contra a mulher 05 Divulgação dos serviços disponíveis para combate à violência doméstica contra a mulher no contexto da pandemia 14
Descrever o papel dos profissionais de saúde no combate à violência doméstica contra a mulher 13 Reafirmação da associação entre pandemia COVID-19 e aumento da violência doméstica contra a mulher 27 Investimento em políticas públicas e nas redes de apoio, segurança e educação para combater a violência doméstica contra a mulher 30
Destacar a necessidade de ações e políticas para segurança e dignidade das mulheres em situação de violência doméstica 07 Destaque à importância dos serviços e profissionais de saúde no combate a violência doméstica contra a mulher 14 Uso da telessaúde para identificação e combate à violência doméstica contra a mulher 10
Total 58* 68* 63*

Fonte: Google Covid-19 Research Explorer

* Informações extraídas após leitura dos artigos. Número de informações levantadas maior que a quantidade de artigos incluídos na revisão, uma vez que em vários artigos analisados havia informações relevantes.

As principais conclusões a que chegaram os estudos revelaram, em sua maioria (n=27), que existe associação entre a ocorrência de casos de violência doméstica contra a mulher e a pandemia Covid-19, apontando a importância do combate a esse agravo (n=22).

Em relação às estratégias elencadas para esse devido enfrentamento, a maioria (n=30) destaca a importância de investimento em políticas públicas e redes de apoio, segurança e educação como necessário à redução desse fenômeno, bem como, de suas sequelas. Em segundo lugar está a necessidade de maior divulgação desses serviços à população (n=14).

Quanto à análise qualitativa dos achados, essa se deu pelo acesso aos resumos dos estudos que foram extraídos e processados pelo software IraMuteQ. A análise pelo software resultou em considerável grau de aproveitamento (83,77%), visto que, dos 265 segmentos de textos oriundos dos resumos, foram retidos 222.

A Classificação Hierárquica Descendente (CHD) para os resumos dividiu o corpus textual em seis classes, tendo as palavras das classes p < 0,0001. A classe mais expressiva foi a classe cinco (22.5%), seguida da três (20.3%), dois (16.7%), seis (14%), um (13,5%) e quatro (13,1%), conforme Figura 1.

Fonte: IRaMuTeQ. Brasil, 2020

Figura 1 Classificação Hierárquica Descendente com as partições e conteúdo corpus da pesquisa para produções científicas sobre violência doméstica contra a mulher durante a pandemia de COVID-19 

O processamento dos dados qualitativos permitiu, pela identificação das classes e de suas palavras de destaque, extrair a relação entre violência doméstica contra a mulher e pandemia Covid-19, com suas relações de proximidade, impactos, desafios e estratégias de enfrentamento, que subsidiaram a elaboração de seis categorias temáticas, a partir de cada classe, sendo cada categoria apresentada em ordem decrescente das classes obtidas, ou seja, da maior para a menor em representatividade.

Categoria 1: Caracterização da violência doméstica contra a mulher como violência de gênero

Nos artigos analisados que compõem a classe 5, com maior representatividade (22.5%), observa-se a prevalência dos termos “gênero”, “urgente” e “vulnerabilidade”. Essas palavras demonstram que os estudos reforçam a origem da violência doméstica contra as mulheres, apontando que as raízes para a opressão do público feminino têm base patriarcal e machista, em decorrência das desiguais relações de gênero. Portanto, corresponde a um problema urgente que necessita de ações articuladas para seu efetivo enfrentamento, sobretudo durante a pandemia Covid-19, conforme abaixo:

(...) esses resultados detectam atitudes do pessoal de saúde social e seus sentimentos de impotência em relação aos perpetradores baseados no gênero devido ao surgimento de uma repetitividade inevitável do comportamento violento, bem como, a normalidade da violência em uma cultura patriarcal e sua transversalidade (...) (res_44, score: 114.14).

(...) a covid 19 afeta as mulheres de maneiras únicas em relação aos impactos das desigualdades estruturais relacionadas a gênero, sexualidade, deficiência, raça e status socioeconômico, neste artigo refletimos sobre nossas próprias experiências da pandemia (...) (res_16, score: 94.000).

(...) portanto os governos nacionais e regionais devem trabalhar para melhorar a igualdade de gênero juntamente com a abordagem dos fatores de risco em vários níveis, usando abordagens baseadas na comunidade e na instituição para prevenir a VPI e atingir especificamente o ODS5 de eliminação da violência contra as mulheres até 2030 (...) (res_04, score: 88.075).

A desigualdade de gênero se mantém ao longo da história e se fortalece nos discursos patriarcais e machistas, culturalmente socializados e opressores sob os corpos femininos. Ressalta-se que uma das mais brutais exteriorizações dessa desigualdade é a violência contra a mulher, a qual gera grandes repercussões em sua vida e, principalmente, em sua saúde (Souza & Cintra, 2018).

De um modo geral, a violência tem crescido demasiadamente nos últimos tempos, constituindo-se em grave problema de saúde pública. Particularmente, a violência de gênero apresenta singularidades, sendo um fenômeno mundial em ascensão que fere a dignidade humana, contrariando a igualdade entre os povos, com desfechos desastrosos ocorrendo em todas as classes sociais e preferencialmente no âmbito doméstico (Brilhante et al., 2016).

O gênero é uma condição criada para demonstrar que a grande maioria das diferenças entre os sexos são formadas socialmente e culturalmente com base nos papéis sociais diferenciados que, na ordem patriarcal, criam polos de dominação e submissão (Ali & Naylor, 2013; Adeyemo & Bamidele, 2016). Assim, o gênero engloba as diferenças socioculturais existentes entre o sexo feminino e o masculino e a violência contra a mulher é uma das consequências das desigualdades oriundas dessas relações. Trata-se de um ato baseado nas relações entre os sexos, que provoca danos físicos e psicológicos ou sofrimento para a mulher (Lucena & Tristáncheever, 2018).

A Declaração sobre Eliminação da Violência contra a Mulher define essa forma de violência como qualquer ato de violência baseada no gênero que resulte, ou possa resultar, em sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, incluindo ameaças de tais atos, coerção ou privação de liberdade, seja na vida pública ou privada (Souza & Cintra, 2018).

Em meio às crises sanitárias, econômicas e sociais, como aquelas envolvidas com a pandemia Covid-19, elevam-se as chances para ocorrência do agravo, especificamente em ambiente doméstico. Assim, a violência doméstica contra a mulher, resultado das relações desiguais de gênero, distanciamento social, estreita relação com os parceiros íntimos (agressores), restrições de movimento, redução ou ausência de contato com a rede de apoio social e familiar, limitações financeiras e insegurança generalizada (ONU, 2020), tem sofrido súbito aumento de casos no contexto da pandemia, sendo o lar, muitas vezes, um lugar de medo e abusos constantes (Marques et al., 2020).

No contexto internacional, sob a perspectiva epidemiológica, ressalta-se que alguns países vêm se destacando com o aumento nos índices de violência contra a mulher, desde o início da pandemia COVID-19, dentre eles China e Itália, cujos registros policiais de violência doméstica triplicaram e duplicaram, respectivamente, quando comparados ao mesmo período em 2019 (Wanqing, 2020; La província, 2020); a França, que anteriormente à pandemia já possuía uma das maiores taxas de violência da Europa, teve aumento de 36% em Paris e 32% no restante do país após a implementação da quarentena domiciliar (Euronews, 2020); a Espanha registrou um aumento de 47% e as denúncias online no país subiram 700%; a Colômbia registrou aumento de 163% no número de emergência às mulheres em situação de violência e, na África do Sul, as linhas telefônicas do disque-denúncia tiveram o dobro de ligações (Alencar et al., 2020). No Brasil, o aumento foi de 18% nas denúncias aos serviços Disque 100 e Ligue 180, segundo a Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH) do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), entre os dias 1 e 25 de março de 2020 (Brasil, 2020).

Mediante esse cenário e considerando que a violência doméstica contra a mulher está imbricada às desigualdades de gênero, presentes desde muito antes da pandemia, percebe-se que os estudos mencionam estratégias de enfrentamento a longo prazo, a exemplo de Tadesse et al. (2020), ao sugerir que governos nacionais e regionais trabalhem para melhorar a igualdade de gênero, juntamente com a abordagem dos fatores de risco em vários níveis, usando intervenções baseadas na comunidade, ou seja, levando em consideração as particularidades de cada população para prevenir esse agravo.

Categoria 2: Impactos da violência doméstica na saúde mental das mulheres

Nos resumos avaliados que compõem a classe 3, com 20.3% de representatividade, observase a prevalência dos termos “ansiedade” e “depressão”, que identificam a relação entre os impactos na saúde mental em decorrência da violência doméstica contra a mulher durante a pandemia Covid-19. Assim, identificou-se a manifestação de sintomas de transtorno mental nas mulheres, sobretudo gatilhos de ansiedade e depressão, conforme os trechos abaixo:

(...) conduzimos uma série de regressões logísticas multinomiais, multivariadas para avaliar as associações entre tempo desde a ordem de permanência em casa e exposição à violência sexual do parceiro e sempre com nossos resultados de interesse sintomas de depressão e ou ansiedade nas últimas 2 semanas (res_33, score: 170.007).

(...) o número de famílias com qualquer nível de insegurança alimentar aumentou 51.7 por cento, os sintomas de depressão e ansiedade das mães aumentaram durante o bloqueio entre as mulheres que sofreram violência emocional ou física moderada (...) (res_38, score: 161.65)

(...) em modelos ajustados para gênero, história de violência sexual e de parceiro e outros dados demográficos, o tempo foi significativamente associado a maior gravidade dos sintomas de saúde mental, assim como VPI e violência sexual (...) (res_30, score: 137.089)

A violência doméstica contra as mulheres apresenta impactos negativos em sua saúde mental, como resultado da opressão, agressão e ameaças dentro de um relacionamento, associados à perda da interação social decorrente da pandemia (Mendonça, 2020).

O surgimento de enfermidades de origem mental, como depressão, insônia, ansiedades e outros tipos favorecem que as mulheres em situação de violência sejam mais propensas a maior risco para adoecimento (Amaral et al., 2016; Trigueiro et al., 2017; Sedri et al., 2020). Sousa, Lucena e Lucena (2018) sinalizam em sua pesquisa que problemas mentais como transtornos de ansiedade, distúrbios do sono e alimentação, depressão, stress e comprometimentos da sexualidade, além de problemas cardíacos, vasculares, assim como vida social prejudicada, encontram-se presentes em mulheres acometidas por violência.

Estudos como o de Avdibegovic, Brkic & Sinanovic (2017) demonstram que a violência doméstica contra a mulher se apresenta como um fator de risco para distúrbios de saúde mental, afirmando a necessidade de um suporte psicológico nesses casos. O estudo de Batista e Braz (2017) demonstra a relação da violência doméstica contra esse público com aumento da incidência de síndrome do estresse póstraumático, transtornos do espectro da depressão, maiores chances de sofrer por abuso de álcool e/ou drogas ilícitas, transtornos de ansiedade generalizada e aumento nas tentativas de suicídio, revelando assim que esse agravo tem efeitos danosos para a saúde mental das mulheres.

Nesse contexto, os desafios impostos pela pandemia (número crescente de contaminados e medo do vírus, crise econômica, desemprego), por si sós, já podem impactar negativamente na saúde mental e, quando aliados à violência e adoecimento mental prévio, dificultam ainda mais o cuidado emocional, principalmente considerando que, durante o distanciamento social, o apoio de familiares e amigos, bem como das redes formais de enfrentamento à violência estão comprometidos (Raj et al., 2020; Hamadami et al., 2020).

Estudo realizado em 2020, com 7.053 pessoas na Espanha, identificou que a saúde mental das mulheres foi mais afetada em comparação com a dos homens, em que de 31,2% e 28,5% das mulheres relataram ansiedade e depressão, respectivamente, enquanto essas morbidades foram relatadas apenas por 17,7% e 16,7% dos homens (Jacquesaviño et al., 2020), o que reflete uma vulnerabilidade de gênero ao adoecimento mental que, quando associada à violência sofrida, coloca a mulher em situação de duplo sofrimento.

Entre as estratégias identificadas nos estudos para lidar com o impacto na saúde mental pela relação pandemia e violência doméstica, destaca-se o incentivo da oferta de ações voltadas à atenção psiquiátrica, como: i) abordagem de fatores de risco para a perpetração da violência doméstica como a identificação do uso indevido de substâncias; ii) prestação de serviços de apoio, defesa e tratamento das mulheres em situação de violência doméstica, incluindo programas de apoio social virtuais; iii) trabalho intersetorial entre serviços médicos e sociais; iv) desenvolvimento de intervenções psicológicas para as mulheres identificadas em situação de violência e v) criação de capital psicológico (incentivo a posturas positivas em vez de reativas), por meio da resiliência, esperança e otimismo (Raj et al., 2020; Gulati & Kelly, 2020; Sediri et al., 2020; Sharma & Borah, 2020).

Categoria 3: Aumento da violência doméstica contra a mulher e crise econômica

Nos resumos avaliados que compõem a classe 2, com 16.7% de representatividade, observase a prevalência dos termos “doméstico”, “aumento”, “crise” e “econômico”. Os trechos a seguir revelam que a crise econômica instalada durante a pandemia Covid-19 potencializou o aumento de casos de violência doméstica contra a mulher, no entanto, evidencia-se que o aumento dos índices de violência doméstica contra a mulher também retroalimenta negativamente a crise econômica. Destaca-se, dessa forma, uma interrelação entre violência doméstica e crise econômica.

(...) Além disso esses aumentos da violência doméstica estão gerando crises econômicas e sociais devido à forma e gravidade da violência ao fardo imposto ao governo à crise de recursos e à diminuição da produtividade da força de trabalho (...) (res_13, score: 193.26).

(...) a crise covid 19 resultou em uma variedade de problemas de saúde física e mental, além da própria infecção viral conforme indicado por um aumento na violência doméstica (...) (res_32, score: 149.10).

(...) a crise criou fatores de estresse e isolamento que se intensificaram, o que criou um ambiente para aumento da violência doméstica (...) (res_36, score: 133.48).

No que diz respeito ao aumento da violência doméstica contra as mulheres durante a crise econômica, destaca-se que o principal gatilho para o agravamento das condições sociais e da situação de saúde é o aumento da taxa de desemprego, que gera estresse e precipita conflitos entre o casal (Bright, Burton & Kosky, 2020; Abuhammad, 2020). A perda do emprego leva à redução da renda das famílias, às perdas financeiras e ao aumento do endividamento, resultando em empobrecimento, aumento dos divórcios, da violência e, consequentemente, das desigualdades sociais (Vieira, 2016).

Com a crise econômica (Sharma & Borah, 2020), muitas casas de proteção à mulher foram fechadas temporariamente ou reduzidas em percentual de atendimento, e delegacias de defesa da mulher sofreram redução do número de profissionais, pois os custos se voltaram principalmente para a área da saúde e econômica, visando atender às necessidades básicas da população (Silva et al., 2020; Buttel & Ferreira, 2020; Dahal et al., 2020).

No tocante às estratégias de enfrentamento à crise econômica imposta, Haq, Raza & Mahmood (2020) destacam que, levando em consideração o papel do desemprego na incidência da violência doméstica contra a mulher, os formuladores de políticas públicas devem distribuir maiores recursos para aumentar a renda e combater o desemprego crescente, impactando positivamente na redução da violência e permitindo o empoderamento das mulheres, o que leva a uma retroalimentação positiva na economia, uma vez que menos gastos com a saúde das vítimas serão dispensados.

Categoria 4: Violência doméstica contra a mulher: em destaque o parceiro íntimo

Nos resumos dos manuscritos analisados que compuseram a classe 6, com 14% de representatividade, observa-se a prevalência dos termos: "Íntimo", "Parceiro" e "Relatório", conjunto de palavras que reforça a ideia de que a violência doméstica contra a mulher praticada por parceiros íntimos, embora já existente, teve um aumento durante a pandemia Covid-19, fato comprovado pela análise de relatórios sobre violência doméstica contra a mulher em todo o mundo, levantados e analisados pelos estudos.

(...) este tem como objetivo explorar duas questões relacionadas aos impactos da pandemia covid 19 sobre a violência familiar na China, sendo a violência praticada pelo parceiro íntimo sua forma mais comum (...) (res_37 - score: 184.12)

(...) a violência por parceiro íntimo VPI é uma pandemia global e muitos foram vítimas dela muito antes da covid 19 e organizações internacionais documentaram um aumento nos relatórios de VPI durante a atual pandemia, aumentando a conscientização sobre as causas potenciais para tal aumento (...) (res_09 - score: 181.58)

(...) os relatórios iniciais indicam aumentos generalizados nas taxas de violência por parceiro íntimo VPI durante a pandemia da doença coronavírus 2019, covid 19, mulheres veteranas correm um risco particular de sofrer VPI e a pandemia de covid 19 e as ordens de permanência em casa resultantes podem estar exacerbando esse risco (...) (res_21 - score: 178.04)

A violência praticada contra as mulheres, ou violência por parceiros íntimos, teve um aumento expressivo durante a pandemia. Essa violência, fruto de um sexismo arcaico ainda presente na sociedade e aliado ao racismo e ao classismo (Forester & O'brien, 2020), acomete mulheres em todo o mundo. Em decorrência da pandemia, estar restrita ao domicílio em companhia constante com agressores possibilitou uma exacerbação das violências física, patrimonial, moral e, principalmente, psicológica (Campos, Tchalekian & Paiva, 2020). Além disso, o distanciamento de outras pessoas e dos serviços de apoio, como os de saúde, pode dificultar a procura e resgate das mulheres em situação de violência (Santos & Nascimento, 2020).

Para o enfrentamento e combate da violência doméstica contra as mulheres serão necessários investimentos, sobretudo em políticas públicas mais eficazes; sabendo que esse não é um problema recente, torna-se crucial políticas a longo prazo e não soluções apenas para esse momento atípico. Necessita-se de soluções a fim de eliminar a desigualdade de gênero e tornar as mulheres mais protagonistas e responsáveis por suas vidas, tornando-as independentes, sobretudo financeiramente (Gomes, 2020).

Como estratégia mais imediata, tendo em vista a invisibilidade da violência contra a mulher por parceiro íntimo e diante do isolamento social e da dificuldade de se denunciar por parte das mulheres, o Conselho Nacional da Justiça (CNJ) e a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) no Brasil lançaram a Campanha Sinal Vermelho para a violência doméstica contra a mulher, tendo como foco ajudar mulheres em situação de violência a solicitarem ajuda de modo silencioso em farmácias, através da sinalização de um “X” desenhado na mão (Bandeira, 2020).

Outras estratégias abordadas nos estudos sobre violência doméstica contra a mulher por parceiro íntimo, caracterizadas como de longo prazo, envolve trabalhar com os perpetradores através da realização de: i) atividades como monitoramento ou supervisão de perto, principalmente dos parceiros que foram libertos das detenções durante a pandemia; ii) intervenções psicossociais para lidar com a violência e/ou questões relacionadas, como saúde mental e vícios; e iii) maior atenção ao gerenciamento de riscos como o estresse e frustração pelas dificuldades financeiras (Moffit et al, 2020).

Categoria 5: Permanência em domicílio como fator de propagação da violência doméstica contra a mulher durante a pandemia

No tocante à classe 1, que corresponde a 13,5% de representatividade da análise realizada, destacaram-se como principais palavras: "permanência’’, "casa’’ e "distanciamento’’, que permitem associar a relação do isolamento social à elevação dos casos de violência doméstica contra a mulher devido à adoção de medidas de distanciamento social para a contenção do novo vírus. Destacam-se, nos achados, o fechamento das escolas e a restrição para a circulação social, o que impôs às mulheres conviveram por mais tempo com seu agressor em domicílio, contribuindo para o aumento nos casos de violência doméstica por parceiro íntimo. A seguir, alguns trechos retirados da análise do software corroboram com tal afirmação:

(...) em todo o mundo os bloqueios foram impostos como uma resposta pandêmica ao covid 19, esse bloqueio juntamente com o fechamento de escolas e pedidos de permanência em casa tornou as mulheres mais vulneráveis em termos de maior responsabilidade e de passar mais tempo com um parceiro abusivo se houver (...) (res_36 – score: 173.35)

(...) embora necessário para desacelerar a disseminação do coronavírus, covid 19, ações como distanciamento social, abrigo no local, viagens restritas e fechamento de fundações comunitárias importantes, provavelmente aumentam dramaticamente o risco de violência em todo o mundo (...) (res_36 – score: 148.78)

(...) um aumento estatisticamente significativo nas agressões foi encontrado durante o bloqueio do covid 19, particularmente durante o período após o fechamento das escolas; embora o volume geral do trauma tenha sido reduzido durante os mandatos de permanência em casa do covid 19, foi observado um aumento significativo nos ataques de violência doméstica (...) (res_19 – score: 131.84)

A permanência em domicilio tem intensificado a vulnerabilidade feminina à violência doméstica, condição reforçada por Buttel & Ferreira (2020) quando pontuam que, durante o distanciamento social, os índices de violência urbana caíram, enquanto os de violência doméstica aumentaram, o que leva a refletir sobre o perigo do lar e sobre o impacto das medidas restritivas para a segurança das mulheres.

Como pontuado em classes anteriores, a violência doméstica contra a mulher está intimamente relacionada às desigualdades de gênero que, muito antes da pandemia, já provocavam índices preocupantes. No entanto, o convívio forçado com o agressor (Dahal et al., 2020), aliado à potencialização de conflitos entre o casal, em decorrência do estresse pandêmico, da crise econômica e da sobrecarga da mulher, que passou a desempenhar funções produtivas e reprodutivas de forma ainda mais intensificada dentro do âmbito doméstico, aumenta a propensão de a mulher sofrer violência e se manter nessa situação (Rhodes et al., 2020; ONU, 2020).

Isso ocorre também em função do distanciamento da rede de apoio formal (serviços de saúde, serviços especializados no enfren-tamento da violência) e informal (amigos e familiares), o que resulta em um maior domínio do homem sobre a mulher, assim como limita o acesso da mulher à ajuda (ONU, 2020).

Sobre as estratégias mencionadas nos estudos para proteger as mulheres durante o distanciamento social, as quais, em sua maioria, estão restritas ao lar, destacam-se: i) aumento da atenção da mídia; ii) aumento da atuação dos sistemas de saúde; iii) promoção da segurança social e econômica; iv) esforços de longo prazo relacionados ao financiamento de ações e pesquisas para prevenção e manejo da violência; v) adaptação de protocolos de triagem sobre violência para o modelo da telessaúde, em que se deve priorizar a verificação da segurança ambiental, com perguntas simples tipo Sim e Não, garantindo questionamentos que identifiquem que o parceiro não está presente, e vi) criação de sites/aplicativos para informação e denúncia que possuam recurso de rápida saída, para o caso de o agressor surpreender a vítima no momento do acesso (Bright, Burton & Kosky, 2020; Rossi et al., 2020).

Categoria 6: Desafios enfrentados pelos profissionais de saúde na triagem e intervenção precoce perante a violência doméstica contra a mulher

No que diz respeito à classe 4, que apresentou a menor representatividade no estudo (13,1%), sobressaíram-se os termos: "desafio’’, "triagem’’ e "intervenção’’. Os vocábulos permitem inferir o destaque do profissional de saúde inserido nos serviços para reconhecimento e acolhimento de mulheres em situação de violência, ainda na triagem dos atendimentos. A classe destaca também as dificuldades vivenciadas para atendimento profissional devido à escassez de recursos e despreparo profissional, destacando-se a importância da prevenção e intervenção precoce, através de entidades governamentais, programas, redes de apoio e tecnologias digitais, em concordância com os seguintes trechos:

(...) discutimos os desafios potenciais que os provedores de saúde podem encontrar ao conduzir a triagem de rotina para VPI durante a pandemia de covid 19 e ao fornecer recursos e apoio a mulheres veteranas com VPI (...) (res_21 - score: 200.01)

(...) é importante que nesse contexto de pandemia sejam ampliadas as redes de apoio à mulher em situação de violência conjugal, com destaque para o uso de tecnologias digitais como possíveis ferramentas para triagem de casos de violência em tempos de pandemia (...) (res_01 – score: 116.78)

(...) finalmente ele enfatiza os novos desafios enfrentados pelos profissionais de saúde ao assistir as vítimas de VPI durante a pandemia e fornece possíveis recomendações sobre ações a serem implementadas durante e após a pandemia de covid 19 para prevenir tais casos (...) (res_41 – score: 86.90)

Os profissionais de saúde que estão prestando serviços direta ou indiretamente no combate a pandemia Covid-19 desenvolvem importante papel na triagem de mulheres em situação de violência, na identificação e notificação de casos, nos cuidados e manejo em relação às agressões físicas, sexuais, entre outras, bem como na prevenção e orientação dos direitos das mulheres e locais de atendimentos, tornando-se indispensáveis no atual contexto (Procentese, 2020).

Johnson e seus coautores (2020) reforçam a importância de se garantir a manutenção e integralidade dos serviços de apoio às mulheres em situação de violência, fortalecendo os serviços multidisciplinares de saúde, tornando-os mais acessíveis e capacitando os profissionais para identificarem tais situações, além de produzir e ofertar recursos que permitam o reconhecimento, segurança, acolhimento, respeito e abordagem adequada para essas mulheres, contribuindo para o enfrentamento da violência doméstica.

Sgarbi (2021) aborda em seu estudo a necessidade de as autoridades judiciais considerarem esses serviços essenciais – para que suas portas não se fechem, assegurando a eficácia dos atendimentos – além de a redes de enfrentamento à violência oferecerem alternativas, cenários e maneiras diversas de acolhimento a essas mulheres, de forma a facilitar a decisão delas, caso queiram sair do lar, através de campanhas e projetos de conscientização, informatização e educação permanente, garantindo amparo e segurança.

Além disso, outras estratégias foram sugeridas para enfrentar os desafios impostos aos profissionais de saúde para triagem e intervenção precoce no trato da mulher em situação de violência doméstica durante a pandemia, tais como: i) treinamento dos profissionais de saúde para implementação de aconselhamento online por telefone e telessaúde sobre violência doméstica; ii) sensibilização dos profissionais de saúde a respeito da violência doméstica praticada pelo parceiro íntimo para que apoiem a mulher; e iii) investimento em metodologia inovadora de simulação de alta realidade que trabalhe a abordagem da mulher em situação de violência doméstica, incentivando o desenvolvimento de habilidades não técnicas (escuta ativa, habilidades de comunicação, empatia e geração de confiança) (Barbara et al., 2020; Matoori et al., 2020a; Matoori et al., 2020b; Jimenez-Rodriguez et al, 2020).

Considerações finais

Os estudos permitiram reforçar que a violência doméstica contra a mulher é uma realidade cuja causa se relaciona às desigualdades de gênero, que estão ainda mais exacerbadas nesse período de crise, em que a mulher se encontra ainda mais sobrecarregada. Como agravamento, destacase ainda a crise econômica que impacta não somente na economia doméstica como também na macroeconomia, repercutindo, dessa forma, no subfinanciamento de serviços essenciais para enfrentamento da violência doméstica contra a mulher. Nesse sentido, a pandemia não configura fator causal do fenômeno, mas um fator que intensifica as vulnerabilidades femininas, incutindo à mulher maior propensão para sofrer e se manter em um ciclo de violência.

A intensificação das vulnerabilidades femininas à violência associa-se não somente ao fato de a mulher se manter em convivência forçada com o agressor, mas também à crise econômica que provoca estresse tanto na mulher quanto no parceiro, fomentando conflitos. Somam-se ao quadro as limitações que a rede de enfrentamento tem sofrido desde o início da pandemia, tanto pelo distanciamento da mulher, quanto pelos investimentos reduzidos.

Além disso, é digno de preocupação o impacto mental que a pandemia e a violência têm acarretado para a mulher, dificultando ainda mais a quebra do ciclo de violência. Nesse sentido, percebese que as estratégias de enfrentamento propostas nos estudos são de curto e longo prazo, variando entre ações globais, que envolvem toda a sociedade, até ações de treinamento do pessoal da saúde para otimização do atendimento virtual.

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Recebido: 26 de Março de 2021; Aceito: 20 de Setembro de 2021

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