Introdução
Em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a Covid-19 como pandemia mundial, consequentemente diversas estratégias foram necessárias para combater a disseminação do vírus, como a reclusão de indivíduos por meio da quarentena e o isolamento social (Monteiro & Souza, 2020). Essa situação resultou em influências notáveis no contexto social, político, econômico e educacional, impactando a vida e a rotina de milhões de indivíduos em todo o mundo (Huckins et al., 2020). Entre os jovens universitários foram exigidas adaptações na área educacional e social, desafios esses que são mais difíceis de enfrentar por aqueles com maior fragilidade emocional, tornandoos vulneráveis ao desenvolvimento de problemas de saúde mental durante a pandemia (Chen, Sun, & Feng, 2020).
No contexto educacional, as instituições de ensino superior (IES), embasadas na Portaria nº 345/2020 do Ministério da Educação (Brasil, 2020), aderiram ao ensino remoto para dar continuidade ao ano letivo. Por conseguinte, tiveram que se adequar por via de novas metodologias e estratégias pedagógicas para que fosse possível o cumprimento da carga horária e dos conteúdos didáticos (Spalding et al., 2020). De modo abrupto, os discentes precisaram afastar-se de suas atividades acadêmicas presenciais, como os estágios, projetos de extensão e de pesquisa. Da mesma forma, distanciaram-se do convívio diário com seus colegas e professores, restringindo suas interações sociais (Coelho et al., 2020).
Os indivíduos extraem significado de sua rotina, e o impedimento de ir e vir causa frustação, o que provoca reflexões a respeito do que de fato importa em nosso sistema de valores, no trabalho e em nossos relacionamentos (Naqvi, 2020). A interação social é indispensável na condição humana, e a falta de contato pode afetar o estilo de vida e produzir efeitos negativos, ao passo que “as consequências da privação do contato com outras pessoas podem suprimir os estímulos fundamentais do desenvolvimento cerebral” (Coelho et al., 2020, p. 5). Assim, o impacto da privação social foi intenso entre os estudantes, devido à fase da vida em que se encontram, juventude ou adolescência, na qual usualmente se dispõe de maior necessidade de interação social (Coelho et al., 2020).
Ao ingressar no ensino superior, o universitário passa a experienciar o que os autores denominam de vivência acadêmica (Andrade et al., 2016; Borzone Valdebenito, 2017; Matta, Lebrão, & Heleno, 2017; Soares et al., 2014). Segundo Andrade et al. (2016), a vivência acadêmica refere-se às experiências advindas do cotidiano e do ambiente universitário, que influenciam a motivação, dedicação, desempenho acadêmico, trocas sociais e qualidade de vida do discente.
Juntamente a esses aspectos, segundo a Organização Mundial de Saúde (2013), os jovens são considerados grupo de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais e comportamentos suicidas, visto que esse período do desenvolvimento implica certa imaturidade cognitiva. Nesse sentido, vivenciar eventos estressores pode ser algo desafiador, intensificado pelas dificuldades em identificar os próprios recursos adaptativos, o que pode facilitar o desenvolvimento de transtornos mentais. Dentre esses, os mais frequentemente identificados na comunidade acadêmica são os Transtornos Depressivos. De acordo com o DSM-5 (2014), as síndromes depressivas são caracterizadas pela presença de humor triste, anedo-nia e alterações somáticas e cognitivas que inferem no funcionamento do indivíduo.
Nesse sentido, estudos internacionais investigaram a saúde mental na comunidade acadêmica durante a pandemia, constatando que o efeito do isolamento social impactou a saúde mental dos jovens universitários (Kecojevic, Basch, Sullivan, & Davi, 2020; Li, Cao, Leung, & Mak, 2020). Em um estudo conduzido na China com estudantes universitários nesse período, verificou-se maior nível de estresse, ansiedade, sintomas depressivos, dificuldade de concentração e na rotina acadêmica, insônia, frustração e tédio (Li et al., 2020). Outro estudo conduzido nos Estados Unidos observou que os universitários apresentaram grau de moderado a grave de depressão e ansiedade, como também pensamentos suicidas (Wang et al., 2020).
À vista disso, no Brasil, nota-se escassez de pesquisas em relação ao tema, o que torna imprescindível investigar as reações emocionais e a forma com que os estudantes brasileiros experienciaram a vida acadêmica no contexto da Covid-19. Este estudo teve como objetivo verificar a presença de sintomas depressivos entre universitários e a vivência no ensino remoto durante o distanciamento social provocado pela pandemia de coronavírus. Dadas as circunstâncias inesperadas, é importante explorar no contexto local as complicações potenciais da saúde mental dos universitários, visando fornecer dados científicos e confiáveis para a elaboração e planejamento de ações de promoção da saúde, em busca do aumento da qualidade de vida e do bem-estar dos discentes.
Metodologia
Delineamento do estudo
Trata-se de um estudo de caráter exploratório e descritivo, de abordagem quantitativa. Foram analisadas as variáveis relativas à vivência acadêmica e a prevalência de sintomas depressivos dos discentes em ensino remoto durante o distanciamento social.
Participantes
Este estudo foi planejado mediante a declaração da OMS, em 11 de março de 2020, acerca do Covid-19 como pandemia mundial. Obteve-se a aprovação do comitê de ética em pesquisa envolvendo seres humanos, conforme parecer nº 30328620.0.0000.5539. A amostra investigada foi composta por 242 alunos dos cursos de graduação e pós-graduação que vivenciaram o ensino remoto durante o distanciamento social. Os critérios de inclusão foram: ser graduando ou pós-graduando em Instituição de Ensino Superior (IES), experienciar a modalidade de ensino remoto, possuir idade superior a 18 anos e aceitar participar deste estudo. Como critério de exclusão, enviar o questionário incompleto.
Instrumentos
Patient health questionnaire-9 (PHQ-9)
Para analisar os sintomas depressivos foi utilizado o instrumento PHQ-9, que avalia a existência de sintomas depressivos característicos da depressão maior e a sua gravidade. O PHQ-9 foi publicado pela American Psychiatric Association, sendo utilizado para diagnosticar sintomas depressivos baseando-se em 9 critérios definidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-IV) (Zhao, Kong, Aung, Yuasa, & Nam, 2020). Cada item foi classificado em uma escala Likert de 0 a 3 pontos, sendo avaliada a frequência pelo participante nas últimas duas semanas, que por sua vez correspondeu às respostas “nenhuma vez”, “vários dias”, “mais da metade dos dias” e “quase todos os dias”. No PHQ-9, os escores são somados e podem variar de 0 a 27 pontos; pontuações menores que 4 representam ausência de depressão, de 5 a 9 pontos significa grau leve, de 10 a 14 indica grau moderado, de 15 a 19 moderadamente grave e acima de 20 pontos, grave (Zimmerman, 2019). Além disso, o instrumento também avaliou a interferência desses sintomas no desempenho cotidiano, na décima pergunta (Keum, Miller, & Inkelas, 2018; I. S. Santos et al., 2013). O PHQ-9 é bastante utilizado em pesquisas e tem-se mostrado excelente em suas propriedades psicométricas (Tang et al., 2020), sendo confirmada a sua confiabilidade do estudo com α de Cronbach de 0,89 (Kroenke, Spitzer, & Williams, 2001). Para este estudo, o instrumento foi utilizado de modo a mensurar o nível do risco em relação aos sintomas depressivos entre os universitários em contexto de ensino remoto.
Questionário estruturado da vivência acadêmica no ensino remoto durante o distanciamento social
Para analisar a vivência acadêmica dos universitários durante o distanciamento social, foi desenvolvido um questionário estruturado composto por oito questões de múltipla escolha, dentre as quais, quatro utilizaram a escala Likert. Nesse questionário foram abordados assuntos referentes aos sentimentos, desempenho acadêmico, motivação, assim como aspectos da percepção do espaço disponível e equipamentos utilizados durante as aulas remotas.
Questionário estruturado do perfil sociodemográfico
Para identificar o perfil sociodemográfico, foi desenvolvido um questionário estruturado contendo 13 questões, das quais oito eram fechadas e cinco abertas. Essas perguntas objetivaram caracterizar a amostra, obtendo informações gerais sobre os participantes, como idade, sexo e religião, modalidade do curso, área de graduação, frequência e universidade pertencente.
Coleta de dados
Para a coleta de dados, empregou-se a técnica de SnowBall, no período de 16 de julho a 16 de agosto de 2020, conhecida como bola de neve virtual, que consistiu no compartilhamento dos instrumentos de pesquisa por canais midiáticos, como Instagram, Facebook e WhatsApp. A técnica SnowBall compreende uma amostra não-probabilística de coleta de dados, ao passo que esse método de encaminhamento dos questionários pressupõe que o mesmo se torne uma cadeia de referência visando coletar o máximo de informações e alcançar um grande número de participantes (Baldin & Munhoz, 2011). No corpo da mensagem, é pedido que o instrumento de pesquisa seja compartilhado para outros indivíduos de sua rede de contato, de modo que esses tornem-se igualmente participantes do estudo.
Análise de dados
A média e o desvio padrão foram usados para apresentar os resultados de níveis de depressão (PHQ-9). O Teste t não pareado foi utilizado para comparar os níveis de depressão do PHQ-9 entre dois grupos, de acordo com as características sociodemográficas e da vivência acadêmica. Utilizou-se também o ANOVA de uma via com pós teste de Tukey, quando comparado entre três grupos ou mais. Todas as análises estatísticas foram realizadas utilizando o software GraphPad Prism 8.4, adotando-se 95% (p<0,05) como nível de significância estatística.
Resultados
Este estudo, que teve como objetivo verificar a presença de sintomas depressivos e a vivência dos universitários no ensino remoto durante o distanciamento social provocado pela pandemia de coronavírus, buscou, inicialmente, caracterizar o perfil sociodemográfico dos discentes, bem como identificar a prevalência de sintomas depressivos e caracterizar a vivência acadêmica com o distanciamento social. Por fim, analisou a influência dos fatores sociodemográficos e ambientais na dedicação, motivação, desempenho e sentimento de conforto dos discentes durante as aulas.
Referente ao perfil sociodemográfico da amostra, identificouse que os participantes são predominantemente do sexo feminino (82,2%), com idade de 18 a 24 anos (61,2%), e estado civil solteiro (77.3%). Os discentes, em sua maioria, estão matriculados em cursos de graduação (76,3%) em instituições de ensino privadas (69,8%), e cursando o primeiro ano (34.8%), no período noturno (36.0%). Durante o distanciamento social, parte perceptível da amostra (91,7%) afirmou estar acompanhada no período de isolamento, em sua maioria morando com os pais (56,6%), conforme apresentado na Tabela 1.
Tabela 1 Perfil sociodemográfico dos participantes em número e frequência absoluta (n=242).
| Variáveis | N | % |
|---|---|---|
| Sexo | ||
| Feminino | 199 | 82,2 |
| Masculino | 43 | 17,8 |
| Idade | ||
| 18-24 anos | 148 | 61,2 |
| 25-34 anos | 60 | 24,8 |
| 35-44 anos | 22 | 9,1 |
| 45 anos ou mais | 12 | 5,0 |
| Estado Civil | ||
| Solteiro | 187 | 77,3 |
| União Estável | 14 | 5,8 |
| Casado | 35 | 14,5 |
| Divorciado | 6 | 2,5 |
| Modalidade do curso3 | ||
| Graduação | 183 | 76,3 |
| Pós-Graduação | 57 | 23,5 |
| Universidade | ||
| Privada | 169 | 69,8 |
| Pública | 73 | 30,2 |
| Mora com quem | ||
| Sozinho | 20 | 8,3 |
| Acompanhado | 222 | 91,7 |
| Pais | 137 | 56,6 |
| Cônjuge | 52 | 21,5 |
| Amigos | 16 | 6,6 |
1 n=242; 2 n=173; 3 n=65.
Para identificar a prevalência de sintomas depressivos, utilizou-se a escala PHQ-9, na qual os escores são somados e podem variar de 0 a 27 pontos, com o ponto de corte > 9 (Zimmerman, 2019). Então, considera-se que escores maiores que 9 já sinalizam a presença de sintomas depressivos e, quanto maior for a pontuação, maior a gravidade dos sintomas. Desse modo, conforme a Tabela 2, e considerando o ponto de corte da escala, observa-se que a pontuação média e mediana dos participantes foi de 15,4 e 16 pontos, respectivamente, apresentando assim grau moderadamente grave de sintomas depressivos. Em relação à dispersão, obteve-se desvio padrão de 7,56 pontos, e coeficiente de variação de 49.09%, indicando uma dispersão moderada dos dados em torno da média.
Tabela 2 Resultados gerais dos participantes das avaliações do PHQ-9
| Variáveis | PHQ-9 |
|---|---|
| Média | 15,4 |
| Desvio padrão | 7,56 |
| Pontuação mínima | 0 |
| 25% | 9 |
| 50% (mediana) | 16 |
| 75% | 22 |
| Pontuação máxima | 30 |
| Alfa de Cronbach | 0,890 |
Além dos fatores sociodemográficos, buscou-se verificar a vivência acadêmica dos universitários em distanciamento social, em decorrência das medidas restritivas de ensino remoto emergencial, considerando os fatores ambientais e as reações emocionais evocadas durante as aulas, conforme apresentado na Tabela 3. Nesse sentido, relativo aos fatores ambientais, identificou-se que os universitários, em sua maioria, possuíam um equipamento de uso pessoal para acessar as aulas online (96,7%) e espaço reservado e silencioso para assistir as aulas (75,6%). Referente às reações emocionais, percebeu-se que os universitários autodeclaram que sua dedicação (33,1%), desempenho (36%), motivação (26,9%) e sentimento de conforto (26,9%) durante as aulas caracterizam-se como nem boa e nem ruim. Apesar desses resultados, enfatiza-se a alta frequência de respostas ruim e muito ruim, que, somadas, apresentam-se como: dedicação (31,8%), desempenho acadêmico (31,4%), sentimento de conforto (34,3%) e motivação (48,2%).
Tabela 3 Vivência acadêmica durante o distanciamento social (n=242)
| Variáveis | N | % |
|---|---|---|
| Você possuiu um equipamento de uso pessoal para acessar as aulas online? | ||
| Sim | 234 | 96,7 |
| Não | 08 | 3,3 |
| Durante as aulas online, você dispôs de um espaço reservado e silencioso para assistir as aulas? | ||
| Sim | 183 | 75,6 |
| Não | 59 | 24,4 |
| Como você avalia sua dedicação nos estudos com as aulas online? | ||
| Muito Boa | 33 | 13,6 |
| Boa | 52 | 21,5 |
| Nem Boa/Nem Ruim | 80 | 33,1 |
| Ruim | 49 | 20,2 |
| Muito Ruim | 28 | 11,6 |
| Como você avalia seu desempenho acadêmico nas aulas online? | ||
| Muito Bom | 28 | 11,6 |
| Bom | 51 | 21,1 |
| Nem bom/Nem Ruim | 87 | 36 |
| Ruim | 48 | 19,8 |
| Muito Ruim | 28 | 11,6 |
| Em geral, como você se sente durante as aulas online? | ||
| Muito confortável 5 | 17 | 7 |
| Confortável | 53 | 21,9 |
| Nem confortável/Nem desconfortável | 89 | 36,8 |
| Desconfortável | 44 | 18,2 |
| Muito desconfortável 1 | 39 | 16,1 |
| Como você avalia o seu nível de motivação para participar das aulas diante do cenário atual? | ||
| Totalmente Motivado | 14 | 5,8 |
| Motivado | 42 | 17,4 |
| Nem Motivado/Nem desmotivado | 65 | 26,9 |
| Desmotivado | 64 | 24,6 |
| Totalmente desmotivado | 57 | 23,6 |
Conforme apresentado na Tabela 4, procurou-se analisar também a influência dos fatores sociodemográficos e ambientais na dedicação, motivação, no desempenho e sentimento de conforto dos discentes durante as aulas. Assim, referente a tais fatores, verificou-se associação significativa entre a idade, motivação, desempenho acadêmico, e sentimento de conforto, apontando que quanto mais jovem melhor o desempenho; entretanto, os mais jovens sentem-se mais desconfortáveis e desmotivados durante as aulas. Quanto aos fatores ambientas, percebeuse associação significativa entre ter espaço reservado e silencioso com os níveis de dedicação. Nesse sentido, os universitários que contavam com esse espaço tiveram maior dedicação para assistir às aulas online. Por fim, relacionado aos sintomas depressivos, observou-se associação significativa entre sintomas depressivos, dedicação, motivação, desempenho e sentimento de conforto, visto que, quanto maior os escores de sintomas depressivos, maior a pontuação de dedicação e desempenho; entretanto, menor a pontuação de motivação e sentimento de conforto. Conclui-se, assim, que, quanto maior a presença de sentimentos depressivos, maior é a dedicação e o desempenho dos discentes durante as aulas, porém menor é a motivação e o sentimento de conforto nas aulas remotas.
Tabela 4 Associação entre perfil dos participantes e vivência acadêmica
| Dedicação | Motivação | Desempenho | Sentimento | |||||
| r (95% IC) | p | r (95% IC) | p | r (95% IC) | p | r (95% IC) | p | |
| Idade | -0,1078 (-0,2308; 0,01851) | 0,0941 | 0,2064 (0,08246; 0,3241) | 0,0012* | -0,171 (-0,2908; -0,0458) | 0,0077* | 0,1596 (0,0342; 0,2801) | 0,0129* |
| Espaço reservado e silencioso | 0,1708 (0,04568; 0,2906) | 0,0077* | -0,0702 (-0,1946; 0,05640) | 0,2767 | 0,05608 (-0,07053; 0,1809) | 0,3851 | -0,07132 (-0,1957; 0,0553) | 0,2691 |
| PHQ-9 | 0,2006 (0,07639; 0,3186) | 0,0017* | -0,4161 (-0,5151; -0,3060) | <0,0001* | 0,2243 (0,1011; 0,3408) | 0,0004* | -0,2974 (-0,4082; -0,1779) | <0,0001* |
*valor p < 0,02.
Podemos inferir que os discentes apresentaram grau moderadamente grave de sintomas depressivos. Na vivência acadêmica durante a pandemia, percebeu-se que os universitários autodecla-ram que sua dedicação, desempenho, motivação e sentimento de conforto durante as aulas caracterizavam-se como nem boa e nem ruim, porém, enfatiza-se a alta frequência de respostas ruim e muito ruim, as quais, somadas, apresentam uma porcentagem significativa. Entretanto, quando analisada a influência dos fatores sociodemográficos e ambientais nas reações emocionais dos discentes, verificou-se que quanto mais jovem, melhor o desempenho, contudo, sentem-se mais desconfortáveis e desmotivados durante as aulas. Quanto aos fatores ambientais, percebeu-se que os universitários que contavam com esse espaço tiveram maior dedicação para assistir as aulas online. Por fim, relacionado aos sintomas depressivos, observou-se que quanto maiores os escores de sintomas depressivos, maior a pontuação de dedicação e desempenho, entretanto, menor a pontuação de motivação e sentimento de conforto.
Discussão
Ao verificar a relação entre sintomas depressivos e vivência no ensino remoto de universitários, durante o distanciamento social provocado pela pandemia do coronavírus – objetivo desta pesquisa –, alguns resultados relevantes foram constatados. Por exemplo, verificou-se, nessa população, a predominância do sexo feminino, o que confirma os resultados identificados em estudos anteriores que avaliaram a saúde mental da comunidade acadêmica (Almeida, 2014; Carlos Izaias Sartorão et al., 2020; Fonseca, 2020; Tang et al., 2020; Wang et al., 2020). Isso sugere que, eventualmente, as mulheres podem ser mais receptivas e engajadas na participação desses estudos, visto que elas são mais propensas a responderem questionários online (Porter & Whitcomb, 2005). Conforme exposto por Fonseca (2020), essa mesma tendencia do público é esperada em estudos nessa área, uma vez que contemplem a população descrita e tendem a refletir as características sociodemográficas dos estudantes universitários.
Foi possível observar, ainda, que a maior parte da amostra deste estudo atingiu pontuação média na escala PHQ-9, a qual é indicativa de grau moderadamente grave de sintomas depressivos, conforme proposto na investigação normativa de Zimmerman (2019). É notório que os jovens universitários possuem certa vulnerabilidade emocional no ambiente acadêmico e no período do desenvolvimento em que se encontram, podendo acarretar inclusive comportamentos de risco à saúde mental e física, culminando em ideação suicida (Adelino & Francisco, 2015; Lima et al., 2017; H. G. B. dos Santos, Marcon, Espinosa, Baptista, & Paulo, 2017). Já em estudos realizados durante a pandemia, foi constatada a presença de ansiedade, depressão e comportamentos de risco entre os jovens universitários, o que vai ao encontro do presente estudo, que identificou a prevalência de sintomas depressivos na comunidade acadêmica (Kecojevic et al., 2020; Li et al., 2020). Além disso, destacou-se a mesma tendência da pontuação média dos indicadores depressivos, entre moderadamente grave (15-19) e grave (20-27), atribuídos a 64,41% e 48,14% da amostra, respectivamente, nos estudos de Sartorão et al. (2020) e Wang (2020).
Percebeu-se que quanto mais jovem, melhor foi o desempenho acadêmico do estudante, todavia, a vivência acadêmica online foi percebida como desconfortável, culminando em desmotivação nas aulas. Em um estudo brasileiro que avaliou aspectos motivacionais e de desempenho acadêmico entre iniciantes e concluintes, constatou-se que os iniciantes se mostraram motivados intrinsecamente pelo prazer de estudar assuntos que lhe são de interesse, apresentando maior engajamento durante as aulas (Souza, 2017). Não obstante, outro estudo recente avaliou o desempenho acadêmico dos iniciantes do Curso de Odontologia no período da pandemia, no qual se identificou desempenho promissor e satisfatório (Spalding et al., 2020). Isso indica que os iniciantes possuem tendência ao maior engajamento acadêmico, considerando que a entrada na universidade demarca uma fase importante na vida dos deles.
Outro aspecto relevante foi a associação significativa entre ter um espaço reservado e silencioso e a dedicação às aulas online. Isso sugere que estar em um ambiente adequado oportuniza melhor rendimento acadêmico, o que vai ao encontro de um estudo anterior que avaliou o impacto dos fatores ambientais no desempenho de universitários durante a pandemia (Realyvásquez-Vargas et al., 2020).
Constatou-se também que a presença de sintomas depressivos se relacionou à percepção de baixa motivação e impactou no sentimento de bem-estar dos discentes. Dada a importância das trocas sociais no ingresso à universidade, para a adaptação e o bemestar do discente, sugere-se que a privação social emergencial possa ter fomentado sofrimento psicológico (Carlotto, Teixeira, & Dias, 2015; Oliveira & Dias, 2014). Além disso, os resultados desta pesquisa mostraram intensidade dos sintomas depressivos que, somados ao desconforto e desmotivação na comunidade universitária, podem ter dificultado a adaptação à metodologia de ensino online no período pandêmico.
A pandemia ocasionou mudanças no contexto educacional, no período de 2020 a 2021. Os discentes voltaram gradativamente ao formato presencial, conforme Resolução sesa nº 860/2021 (2021) para o Estado do Paraná. Essa retomada acadêmica implica um novo processo adaptativo à vida social e acadêmica dos universitários, portanto, se faz relevante a continuidade dos estudos com essa população.
Os achados desta investigação apontam a necessidade da elaboração e planejamento de ações de promoção da saúde e de estratégias de enfrentamento, em busca do aumento da qualidade de vida e do bem-estar dos discentes. É necessário que as Instituições de Ensino Superior (IES) e a equipe pedagógica estejam atentas aos níveis de motivação, conforto, desempenho, depressão e ansiedade, oferecendo escuta e acolhimento, considerando que a vivência acadêmica e o contato com outros colegas podem servir como fator de proteção (Oliveira & Dias, 2014; Souza, 2017). Além disso, torna-se importante discutir com os universitários sobre as reações emocionais e a capacidade de lidar com mudanças. Nesse contexto, as intervenções no campo da Psicologia e das práticas interdisciplinares na Promoção da Saúde constituemse um recurso importante para dar suporte emocional a esses jovens.
Em consonância com essa perspectiva, foram encontrados estudos que aplicaram ferramentas online com estudantes universitários durante o surto da Covid-19. Entre eles, um estudo avaliou a viabilidade de uma breve intervenção online baseada na atenção plena e na compaixão (González-García, Álvarez, Pérez, Fernandez-Carriba, & López, 2021). A intervenção teve duração de dezesseis dias e obteve uma redução significativa nos níveis de estresse e ansiedade e, também, aumento positivo nos níveis de autocompaixão. Igualmente, em um ensaio randomizado de intervenções de mindfulness em estudantes universitários, foi demonstrado que o grupo de intervenção, quanto comparado ao grupo controle, se tornou mais resiliente a um estressor universal (Lo Moro, Soneson, Jones, & Galante, 2020).
Um outro estudo, pautado na Terapia Cognitivo-Comportamental, expôs uma intervenção para redução da ansiedade em uma plataforma digital do Serviço de Aconselhamento e Consulta para estudantes universitários, em que foi realizado o planejamento de sessões de aconselhamento por vídeo com profissionais qualificados (Giusti et al., 2020).
Para além desses estudos que promoveram a saúde mental dos jovens na pandemia, foram identificados estudos anteriores ao período pandêmico que realizaram intervenções com técnicas de mindfulness, prática de ioga e grupo de psicodrama, visando promover o bem-estar psicológico de estudantes universitários (Falsafi, 2016; Galante et al., 2018; Kaya & Deniz, 2020). Assim, observa-se a relevância de promover com esses jovens estilos de vida saudáveis, bem como competências sociais e emocionais para lidar com eventos estressores futuros.
Nosso estudo apresenta algumas limitações, em primeiro lugar, devido ao desenho amostral de caráter heterogêneo e não probabilístico e por adotar corte transversal. Ou seja, o método de coleta de dados snowball (bola de neve) pode representar uma generalização dos participantes, assim como, por ser necessário o acesso à internet e ter algum conhecimento sobre a utilização do computador, pode não ter atingido algumas classes ou indivíduos. Entretanto, dadas as circunstâncias inesperadas, devido às medidas sanitárias para a contenção do vírus, tais como o distanciamento social, esse método e estratégia de amostragem foram os mais viáveis para a coleta de dados.
Em segundo lugar, o estudo foi realizado somente durante o período pandêmico e nenhum dado foi analisado antes da pandemia, o que mostra certa limitação pela impossibilidade de comprovarmos a relação existente entre sintomas depressivos e a pandemia. Pelo seu caráter atípico e emergencial, não foram conduzidos estudos anteriores que investigassem a saúde mental antes e durante o surto pandêmico. Assim, considerando a possibilidade de a prevalência dos sintomas depressivos desses jovens ser identificada antes deste estudo, não podemos atestar o prejuízo na saúde mental dos discentes. Apesar das limitações apontadas, este estudo é um dos primeiros que se ocupou em investigar a saúde mental dos discentes em território nacional, demonstrando a necessidade de estudos orientados a essa população.
Conclusão
Os dados obtidos nesta investigação mostram o distanciamento social e as aulas remotas podem interferir na forma com que o estudante experiencia a vida acadêmica, o que pode culminar em impactos à saúde mental, pois em geral, esses universitários apresentam vulnerabilidade emocional e necessidade de interações sociais nesse período desenvolvimental. Foi notável o índice sugestivo de sintomas depressivos moderadamente grave na população estudada. Outro aspecto relevante foi a percepção do nível de motivação e conforto durante as aulas online pelos estudantes, que se mostraram preocupantes, devido a se autodeclararem desmotivados e desconfortáveis. Salienta-se, portanto, a importância de as universidades oferecerem suporte emocional, bem como de promoverem o engajamento e a socialização dos estudantes.
Com base nos dados apresentados, evidencia-se a necessidade de dar continuidade aos estudos nessa área, na medida em que o novo cenário da pandemia influenciou significativamente a saúde mental e a vivência acadêmica dos universitários, uma situação atípica e emergencial que trouxe significativas mudanças aos jovens.













