Introdução
Neste texto, relatamos e discutimos uma experiência de participação em um encontro de grupo de música, durante uma visita a um Organismo Comunitário em Saúde Mental (OCSM) na região metropolitana de Montreal, província de Quebec, no Canadá. Os OCSM são dispositivos de saúde mental de base comunitária que se colocam como alternativas aos modelos tradicionais de atenção, contrapondo-se à centralidade dada aos sintomas e ao privilégio quanto ao uso de medicamentos, atuando na defesa de direitos, no fortalecimento da participação dos usuários e na proposição de recursos terapêuticos localizados na comunidade onde as pessoas vivem (Frazatto & Bigatto, 2019).
Dentre a diversidade de recursos terapêuticos empregados pelos OCSM, encontram-se as atividades - organizadas por meio de grupos de ajuda-mútua, oficinas temáticas - desenvolvidas ao redor da culinária, da arte, da cultura e, também, como no caso da experiência que aqui relatamos, da música (Regroupement de Ressources Alternatives de Santé Mentale du Québec, 2019).
A música vem sendo utilizada e estudada em diferentes campos da saúde. Especialmente a partir do século XX, com a expansão do conhecimento científico, seus efeitos sobre o corpo e comportamento do homem passam a ser investigados e mais bem compreendidos. Estudos apontam para o uso da música como estratégia de cuidado em saúde em áreas como obstetrícia, cuidados paliativos, psiquiatria, para pacientes críticos e seus familiares, e em outros cenários. No campo da saúde mental, ela tem sido aplicada ao longo da história sob diferentes óticas e com objetivos diversos.
Além disso, conforme os saberes e práticas de cuidado em saúde mental se deslocam da doença para o sujeito, possíveis benefícios decorrentes do uso da música foram sendo observados em outros campos, como o social (Santee et al., 2019; Spolle, Machado, Bigatto, & Santos, 2013).
Com a mudança de paradigma de cuidado em saúde mental, na medida em que se começou a buscar a superação do modelo biomédico, atividades artesanais e artísticas abrem novas possibilidades de sentido, diálogos, inter-relação, aproximação com a comunidade, além do desenvolvimento de habilidades. Práticas artístico-musicais surgem como aposta na construção do cuidado que visa a produção de vida na relação com o território, na garantia da circulação e da cidadania. A arte vem sendo explorada, em serviços de base comunitária, ou a partir deles, na tentativa de construir saídas para problemas do dia a dia através da conexão com a clínica (Calsani, 2019; Ibiapina et al., 2019).
A utilização da música como recurso terapêutico atravessa os séculos e, atualmente, seu uso vem sendo explorado em diversas experiências em serviços de saúde mental de base comunitária, que têm se ampliado nas últimas décadas. A literatura já aponta para seu potencial terapêutico (Andrade Jr., 2018). Ainda assim, considera-se importante a exploração da música como estratégia numa perspectiva de cuidado interdisciplinar, pelas experiências advindas de diferentes contextos.
Este texto pretende dar destaque a uma dessas experiências. Consideramos que, para este relato, a presença das pesquisadoras se constituiu como um elemento chave, tendo em vista que suas sensações, percepções e memórias conduzem e orientam a narrativa e, portanto, o relato é empreendido na primeira pessoa do plural. Apesar do caráter pontual da experiência aqui descrita, a participação nesse encontro singular suscitou reflexões a respeito do lugar ocupado pela música no âmbito da saúde mental, permitindo discutir seu uso como estratégia terapêutica nas práticas de cuidado).
O contexto da experiência
Trata-se de um estudo qualitativo-descritivo, do tipo relato de experiência produzido ante a participação em um encontro de um grupo de música desenvolvido em uma das unidades do Les Impatients, um OCSM presente na cidade de Montreal no Quebec - Canadá. O nome de tal Organismo Comunitário, cuja tradução do francês para o português significa “Os Impacientes”, remete à palavra “pacientes”, fazendo um trocadilho com os possíveis significados do termo. O objetivo desse OCSM é promover ateliês de criatividade a pessoas em sofrimento psíquico. Entre as atividades oferecidas estão o desenho, a pintura, o artesanato e a música, coordenadas por um artista ou terapeuta. Para participar, os interessados precisam se inscrever previamente, mediante a indicação de um profissional de saúde. Durante a semana, mais de 600 pessoas são atendidas por este OCSM, em unidades localizadas em diferentes pontos da região de Montreal. Les impatients possui um acervo de mais de 15 mil obras. Periodicamente, são realizadas exposições das produções dos usuários (Les Impatients, 2019).
Essa experiência ocorreu durante a realização de nosso estágio de doutorado sanduíche, no ano de 2017, na cidade de Montreal, província de Quebec, no Canadá, quando estávamos engajadas na produção de teses, cujas temáticas se inscrevem no campo da saúde mental, atenção psicossocial e Reforma Psiquiátrica.
Interessadas em conhecer o funcionamento da rede e as práticas de cuidado em saúde mental, circulamos por diversos serviços e participamos de atividades realizadas por alguns OCSM. A utilização da música como possível ferramenta de cuidado na saúde mental é objeto específico de estudo de uma de nós. Dessa forma, foi feito contato com diversos OCSM para saber da realização, ou não, de atividades musicais, tendo sido visitados alguns deles.
Um desses OCSM foi o Les Impatients, onde, a convite do responsável do grupo e com permissão dos usuários, participamos do encontro de um grupo de música, em uma de suas unidades. O encontro, com duração de aproximadamente duas horas, contou com a presença de sete usuários, do músico responsável e das duas autoras. Nesse dia, os participantes eram homens e mulheres adultos com sofrimento psíquico grave, frequentadores desse serviço, especificamente do grupo de música que acontece na instituição semanalmente. Nossa participação consistiu em seguir a proposta do encontro, interagindo, cantando e nos movimentando, conforme os demais sugeriam. A experiência foi registrada em diário de campo, “fonte legítima de informação”, segundo Minayo (2012, p. 624). O registro foi realizado logo após a atividade, depois da saída das autoras do campo. A partir dos registros do diário, foi produzido o relato de experiência, apresentado a seguir. São utilizados codinomes para preservar as identidades dos sujeitos. Para a discussão, são retomados aspectos da literatura sobre o tema.
O encontro
Chegamos no horário marcado para o início do atelier musical. Do lado de fora, já conseguimos ver as obras de arte produzidas pelos usuários. Entramos e fomos recebidas pelo responsável por conduzir o atelier de música, que aqui chamaremos de facilitador, músico ou simplesmente de Pierre. Ele fez uma apresentação de si e dos usuários que ali estavam. Eram três ou quatro naquele momento. Havia instrumentos pelo ambiente: um teclado, instrumentos de percussão, chocalhos, pandeiros de vários tipos, violões, xilofones... Microfones. E muita, muita produção artística. Desenhos expostos nas paredes, pinturas, esculturas em argila, esculturas em outros materiais, arte, muita arte. Uma estante no canto cheia de materiais como tinta, pincéis etc. Uma cafeteira em outro canto. Algumas mesas pequenas e redondas nos cantos e cadeiras pela sala. Aos poucos, os outros usuários foram chegando e se sentando em frente de um instrumento. Percebemos não haver muito rigor no horário de chegada.
Sentamo-nos, as pessoas estavam dispostas em círculo. O atelier simplesmente acontecia. Não conseguíamos perceber de maneira direta a existência de método, começo, meio e fim, nem mesmo um objetivo claro. Aparentemente, naquele dia, a atividade foi direcionada a apresentar o grupo e seu trabalho para as visitantes. Sentíamos um entusiasmo contagiante. Pierre colocou uma música no aparelho de som e pediu que as pessoas se mexessem como quisessem, dançassem, o que foi feito por todos que ali estavam. Após esse momento de descontração e movimento, nos sentamos novamente. Pierre comentou que era aniversário de um dos presentes. Uma das usuárias começou a cantar parabéns, e o grupo todo foi no seu embalo. O facilitador propôs que o aniversariante cantasse uma música que ele mesmo, o aniversariante, havia composto, dizendo que era muito bonita.
Ele poderia estar exagerando, poderia ser suspeito que ele elogiasse a composição de um usuário, na frente do usuário, no dia do aniversário dele. Mas ele não estava exagerando. A música era, realmente, muito bonita. O usuário cantou ao microfone, o músico acompanhou no violão, e também cantava. Os outros usuários entravam na música, cada um com um instrumento, e também cantando, fazendo daquele momento algo maravilhoso (Diário de campo).
Pierre, cuja língua materna é o português, procurava falar sempre em francês conosco, permitindo que os usuários fizessem parte da conversa. Muito raramente, para explicar algo que talvez não houvesse ficado claro, ele falava em português, pedindo a permissão do grupo.
Uma usuária propôs cantarem uma música Inuit tradicional, de ninar. Soubemos que os Inuits são um povo, chamado pelos canadenses de “autoctones”, ou seja, os nativos do Canadá. O que veio em seguida foi uma canção deliciosa de se ouvir, familiar a uma de nós, que costumava cantar aquela canção quando criança, no coral da escola. Em algum momento, uma das usuárias disse: “A energia circula. Dá pra sentir” (Diário de campo).
O músico propôs apresentar uma composição do grupo. Antes de começar, ele disse que a música havia sido composta de forma espontânea, cada um contribuindo com uma frase, uma palavra, uma imagem, que remetesse ao bem-estar e à felicidade. Pierre procurou a letra da música em uma pasta, para que pudéssemos acompanhar sua execução pelo grupo. Falava de um cavalo. O cavalo era quem guiava. Falava das luzes de Porto Rico. Percebemos que ele cantou um trecho diferente de como estava escrito na letra. Uma usuária também percebeu e comentou. Ele esclareceu que o grupo havia concordado, outro dia, que daquela forma ficaria melhor. Ela se levantou e foi fazer alguma anotação em algum papel. Provavelmente, estaria fazendo a alteração na letra.
Pierre comentou que o grupo pretendia fazer um videoclipe dessa música. Uma das usuárias - a que havia comentado sobre a mudança na letra da música e que, pelo que vimos em suas produções, trabalhava com esculturas em material derivado do papel - já havia se adiantado e construído a cabeça do cavalo. Ela servia na cabeça de uma pessoa e nos pareceu uma proposta muito interessante para representar aquilo que eles comentavam.
Três usuários chegaram. Todos eles eram parecidos entre si, e tinham uma aparência bem específica. Muito altos, grandes, todos usavam bigode. Um deles, aqui denominado Charles, tinha o bigode feito de forma bastante peculiar. Ele sentou-se atrás do teclado. O outro sentou-se ao seu lado e o terceiro, que chamaremos de Jean, sentou-se do outro lado da roda. Ele já conhecia uma das autoras, pois ambos haviam participado de uma atividade de teatro juntos, em outro OCSM.
Os usuários começaram a fazer algumas propostas e Pierre as acolheu. Uma das usuárias gostaria de recitar algo que ela havia composto. Alguns comentam que Jean improvisava muito bem e que era um bom rapper. O facilitador, então, propôs que o grupo criasse um clima sonoro para o recital da usuária e, em seguida, Jean improvisaria uma história sobre os verdadeiros heróis. Esse assunto tinha sido foco da conversa momentos antes quando foram contrapostos dois tipos de heróis: os verdadeiros, que querem mudar o mundo iniciando por revolucionarem a si próprios, e os super-heróis, que querem manter a ordem em um mundo de desordem e, na realidade, não pretendem mudar o mundo, mas salvá-lo diariamente.
Pierre começou a tocar o violão e a usuária começou a recitar. Ele então pediu a ela que esperasse, para que o clima estivesse propício. Que ela relaxasse, enquanto isso. Continuou com o violão, e o grupo, cada um com seu instrumento, alguns com a própria voz, foi criando um clima, sentido por nós como agradável e acolhedor. A usuária recitou algo sobre um trem. Segundo ela, o trem era a vida dela, conforme explicou a uma das autoras, em particular, logo após o recital. Em seguida, Jean começou a improvisar. Ele era muito expressivo e intenso. Na mímica, na voz. Ele falava de Macbeth (personagem de Shakespeare) e repetia que o personagem havia ficado louco e se perguntava: - “e agora?” - em um monólogo que nos emocionou. Sua participação foi intensa, diferente da participação dos outros dois que haviam chegado com ele. Até então, eles haviam participado muito pouco, e por vezes pareciam cochilar. Após o encontro, Pierre comentou o fato de eles estarem sob efeito de medicação.
Outra canção entoada pelo grupo, composta pelo músico, trazia as seguintes frases:
“Cenoura torta, mas não torta de cenoura”.
“Cenoura torta não se vende”.
“Cenoura torta vira torta de cenoura. Cenoura torta vira sopa de cenoura.” (Diário de campo).
Ao mencionar a “cenoura torta”, eles faziam apologia às pessoas em sofrimento psíquico e à forma como socialmente são consideradas. Conversamos sobre esse assunto por alguns minutos. Foi dito que, assim como a cenoura torta, tais pessoas têm uma trajetória carregada de estigma e que, de maneira geral, da mesma forma que não se investe em cenoura torta, para ser vendida como cenoura, não se investe em saúde mental. A cenoura torta teria finalidades pré-determinadas: virar torta de cenoura, sopa de cenoura, ou ser processada em mini cenouras. Em seguida, a canção foi entoada pelo facilitador em português, que explicou o trocadilho, “cenoura torta, mas não torta de cenoura”, como uma forma de recusar o estigma destinado à pessoa em sofrimento psíquico.
Perto do horário do fim da atividade, Charles, que passara a maior parte do encontro quieto e cochilando, pediu que fosse tocada uma música. A sugestão, aceita por Pierre, foi a canção The Wall, da banda de rock britânica Pink Floyd. Com o início da canção, o usuário se levantou e dançou. Fazia movimentos largos. Passos largos, saltos largos, tudo largo. Todos ficamos em pé, em volta. A dança dele convocava todos a dançar. Por fim, ele e Pierre se abraçaram, e as pessoas começaram a se despedir para ir embora. Uma usuária nos presenteou com desenhos de sua autoria.
Durante o encontro descrito, cantamos, tocamos, dançamos, conversamos, refletimos. Todos, entre todos. Os usuários participavam e colocavam-se de forma horizontal entre si, em relação ao responsável do grupo e, inclusive, conosco. As pessoas pareciam gostar da nossa presença. Dirigiam-se a nós, tinham o cuidado de nos explicar coisas, e propunham atividades que, provavelmente, apreciaríamos.
Saímos dali com a sensação de que tínhamos vivido algo diferente; sentíamos que, de algum modo, havíamos sido acolhidas por aquele grupo. Ao longo dos próximos meses, essa experiência foi foco de muitas conversas entre nós, em diversos contextos; voltávamos, por meio do diálogo, ao que tinha sido vivenciado ali, naquele encontro. De algum modo, ele reverberava em nós como algo vivido, experienciado e apreendido.
Algumas reflexões
Voltando o nosso olhar, agora mais distante e reflexivo, para a experiência vivida, lançamos alguns apontamentos sobre potencialidades que puderam emergir no que tange à contribuição da música para as práticas em saúde mental. Partindo da pergunta “que lugar era aquele?”, a vivência nos indica que não se tratava de uma aula de música, cujo objetivo principal seria o ensino de técnicas de manejo da voz ou de instrumentos musicais. Também não se tratava de um espaço de terapia no sentido de tratar um diagnóstico. Citando Aires, Vianna e Tsallis (2021, p. 214), era um lugar de “... acolhimento e trabalho subjetivo [...] a partir de uma atividade criativa [...] que possibilitava à palavra circular”.
O ensino da música não era o objetivo do encontro. Trata-se mais da valorização dos saberes de sujeitos que são frequentemente desacreditados pela sociedade, possibilitando ressignificação (Ibiapina et al., 2019, 2018). Aliás, esse é o modelo proposto pelo Les Impatients, descrito por Lamontagne e Palardy (2015) como original, único, capaz de oferecer às pessoas a possibilidade de criar em total liberdade.
Ampliando esta perspectiva, entende-se que a ressignificação é a transfiguração a partir da invenção, exercício este que é fundamental e libertador tanto no cuidado em saúde mental, quanto na prática musical. É ousar apontar para possibilidades de transformação. Exemplo da potencialidade transformadora do encontro com o Les Impatients é o caso de Charles, que passa a maior parte do tempo cochilando e, ao final, a partir de uma música, consegue se expressar e se relacionar.
Ao analisar os resultados do uso da música para a melhora em saúde mental, é possível observar a existência de uma comunicação verbal e não verbal durante o encontro musical, que gera e libera energia em um espaço de conexão, onde se facilita a expressão de sentimentos de pertencimento, aceitação, segurança e cuidado, e novas interações sociais (Perkins, Ascenso, Atkins, Fancourt & Williamon, 2016).
Assim, a arte e a cultura não se apresentam somente como terapêuticas, mas como reconstrução de possibilidades de vida dos sujeitos em sofrimento psíquico. Na experiência aqui relatada, não importava a técnica musical correta, mas a sensibilidade proporcionada pela música (Amarante & Torre, 2017). Havia lugar, então, para afetos, fortalecimento de vínculos, prazer na interação, valorização dos aspectos saudáveis e exercício da criatividade livre de julgamentos, tal como relata Silva et al. (2022) em seu estudo a respeito da vivência em uma oficina de arte no Brasil. Com isso, tem-se lugar para a singularidade e para a diversidade, de modo que no mesmo encontro a música autóctone foi bem-vinda, assim como a chilena, as composições próprias e a da banda Pink Floyd.
Nesse sentido, a composição da música Lumières de Porto Rico, pelos integrantes do grupo, também é uma expressão de escuta e acolhimento de cada participante que frequenta os encontros de música, na medida em que cada um deu sua contribuição para a canção autoral. Representa, ainda, uma produção criativa, no sentido da produtividade, da realização de algo bonito, aceito e reconhecido socialmente.
Os estímulos para criação em uma oficina podem ser de diversos tipos, como uma imagem, um tema, um acontecimento, uma palavra; o importante é a espontaneidade de quem está criando e a escuta, respeito e sensibilidade de quem coordena. Assim, o ponto de partida para a realização das atividades pode envolver as experiências anteriores do usuário com a música, suas necessidades de expressão, bem como seu contexto cultural e social (Guerra, 2008).
Todos esses aspectos contribuem para uma relação horizontal entre os participantes, independente de suas funções, ou seja, não é o facilitador o responsável por compor a música, nem por estruturar a ordem dos acontecimentos. Ao considerar que por meio de uma atividade musical é possível construir uma relação livre de hierarquia, na qual a pessoa em sofrimento psíquico não é mera reprodução daquilo que o outro lhe impõe, podemos inferir que o exercício da música nesses moldes é capaz de romper com o paradigma psiquiátrico, tal como defende Amarante e Torre (2017), uma vez que estamos descrevendo características opostas aos moldes psiquiátricos tradicionais de cuidado. Portanto, no cuidado em saúde mental, é primordial recusar a postura de saber do profissional, bem como intervenções que visem somente a cura e adaptação ou que se centram no sintoma, no biológico e no diagnóstico.
A música, ou a arte de modo geral, permite que a loucura saia do seu tradicional lugar de receber tratamento e transforma a própria concepção do que significa “tratar” no campo da saúde mental (Amarante & Rangel, 2009). Ou seja, as pessoas que participaram do encontro relatado nesta experiência poderiam, em outros contextos, estar fadadas ao isolamento, a longas internações em hospitais psiquiátricos. Mas, ao terem a oportunidade de ser cuidadas em liberdade, puderam participar de uma atividade musical e, por meio dela, foram capazes de se expressar, se integrar, ocupando um lugar de participação social, compartilhando momentos de troca e construção. Esses foram aspectos levantados por meio da observação direta e imediata do encontro, porém, pode haver benefícios que vão além desses, que nem sempre são observáveis e que têm um alcance longitudinal na vida das pessoas.
Amarante e Torre (2017) afirmam que os projetos e intervenções artístico-culturais oferecem possibilidades para a construção de um novo lugar social. São capazes de romper com a visão dominante sobre a loucura, ampliar laços de cidadania e contribuir para a circulação social, sendo capazes de proporcionar um lugar de acolhimento para aqueles considerados diferentes.
Desse modo, entendemos que o grupo de música visitado carrega a potencialidade de acolhimento e de contribuir para o processo de reabilitação psicossocial daqueles que ali estão. Nagaishi e Cipullo (2017) asseguram que as atividades musicais, como as ofertadas pelo Les Impatients, são capazes de favorecer a comunicação e o vínculo, o desenvolvimento de potencialidades e a resiliência, contribuindo para a reintegração das pessoas na comunidade. Lamontagne e Palardy (2015) indicam que, por meio de melhora da autoestima, do estímulo à criatividade e da curiosidade, ocorrem a quebra do isolamento, o sentimento de pertencimento e a redução da frequência e duração da hospitalização.
Além disso, é capaz de proporcionar a crítica ao estigma que historicamente acompanha aqueles que sofrem psiquicamente. Sem negar que existe o sofrimento psíquico que requer cuidado e atenção, o grupo de música visitado nos auxiliou a reforçar a noção de que é possível aceitar a diferença que a loucura traz, sem, contudo, consentir com o lugar de isolamento e demérito que, por vezes, ainda lhe é reservado, tal como na canção: “Cenoura torta. Mas não torta de cenoura” (Diário de campo).
Para além das reflexões
A experiência aqui relatada permite vislumbrar a música como recurso em serviços de saúde mental de base comunitária, capaz de atravessar fronteiras e produzir efeitos positivos em diferentes contextos. Evidencia, também, que saúde mental não se faz só de ações técnicas, ou de estratégias tradicionais de cuidado, mas envolve lançar mão de novas tecnologias criativas, que permitam experienciar, vivenciar e, acima de tudo, estar e sentir com o outro.
Apesar do bom encontro e da potencialidade da experiência vivida, observamos pistas de que há desafios no campo da saúde mental, que não são novos, mas permanecem como pontos a serem superados. São exemplos os usuários submetidos a altas doses de medicação, o que dificulta seu contato com a realidade, bem como o estigma que ainda acompanha a condição daqueles que sofrem psiquicamente. Ou seja, embora a experiência nos aponte para a possibilidade de um novo lugar social para a loucura, ainda há questões a serem superadas e que devem permanecer na pauta daqueles que lutam por efetivar um cuidado em saúde mental que tenha como foco o sujeito, suas relações, seu território e sua liberdade.
Essa lógica de cuidado, presente no Brasil há mais de 30 anos no curso do processo de Reforma Psiquiátrica, tem transformado a vida de milhares de pessoas, proporcionando que sejam cuidadas em liberdade no território onde vivem, principalmente por meio da assistência ofertada em serviços extra-hospitalares. Contar com a música como uma ferramenta para garantir esse formato de assistência é não só uma possibilidade como uma necessidade.
Entendemos, por fim, que a manutenção e a ampliação de espaços que promovam bons encontros assim - livres e abertos, que permitam a expressão do diferente e oportunizem que usuários, profissionais, pesquisadores e visitantes possam não só observar, mas participar e experimentar a riqueza da experiência que vivemos - são essenciais para garantir o cuidado em liberdade àqueles que sofrem psiquicamente.
A ampliação desses espaços não significa apenas repetir experiências como estas em outros lugares, mas promovê-las de modo que seus efeitos sejam capazes de ultrapassar o “aqui e agora” dos encontros promovidos. O desafio é fazer com que esses efeitos se tornem permanentes, em diferentes cenários. Por um lado, que as pessoas em sofrimento psíquico possam existir tal como realmente são, exercendo verdadeiramente sua cidadania. Por outro lado, que a música possa ser um canal de comunicação com a sociedade, levando as mensagens e fazendo ouvir e refletir sobre o que aquelas vozes, nem sempre valorizadas ou compreendidas, têm a dizer.












