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Revista do NUFEN

versión On-line ISSN 2175-2591

Rev. NUFEN vol.16  Belém  2024  Epub 25-Nov-2024

https://doi.org/10.26823/rnufen.v16i01.25548 

ENSAIO/TEÓRICO

O luto materno sob um olhar fenomenológico

Maternal grief from a phenomenological look

El duelo materno desde una mirada fenomenológica

Pedro Geraldo Luciano Gomes1 
http://orcid.org/0009-0007-7401-1991

Nathália dos Santos Dutra2 
http://orcid.org/0000-0003-4274-9100

1FUPAC

2FUPAC


RESUMO

Este trabalho tem como objetivo compreender o luto materno a partir da abordagem fenomenológica. Para sua compreensão foi necessário discorrer sobre a construção da maternidade bem como abordar as construções do vínculo entre mãe e bebê. No decorrer do texto serão abordadas as formas de lidar com a morte e também os tabus que envolvem o tema perda e luto, estes geralmente vem acompanhado de uma negação ou de preconceitos construídos culturalmente. Para construção foi utilizada a revisão bibliográfica de literatura exploratória e descritiva a partir de estudos já publicados sobre o assunto. Não existe aqui uma intenção de apresentar fórmulas definidas, mas ilustrar as possibilidades de um olhar frente ao desamparo enfrentado por essas mulheres, e como o luto pode se manifestar de formas diversas na vida de uma mãe. Para a fenomenologia, a possibilidade ou concretização da morte faz despertar no ente que ficou uma contemplação da sua finitude a partir do fim do outro, sendo este outro um filho, pode levar a mãe deparar-se com um dilema acerca da continuidade de sua maternidade.

Palavras-chave: Mulher; Maternidade; Morte; Luto; Fenomenologia

ABSTRACT

This work aims to reinterpret maternal grief from a phenomenological approach. For its construction, it was necessary to discuss the construction of motherhood as well as address the constructions of the bond between mother and baby. Throughout the text, ways of dealing with death will be addressed as well as the taboos surrounding the topic of loss and mourning, these are generally accompanied by denial or culturally constructed prejudices. For construction, the methodology was used based on the bibliographical review of exploratory and descriptive literature based on studies already published on the subject. There is no intention here to present defined formulas, but to illustrate the possibilities of acceptance in the face of the helplessness faced by these women, and how grief can manifest itself in different ways in a mother’s life. For phenomenology, the possibility or realization of death awakens in the remaining entity a contemplation of its finitude from the end of the other, this other being a child, which can lead the mother to face a dilemma regarding the continuity of her motherhood.

Keywords: Woman; Maternity; Death; Grief; Phenomenology

RESUMEN

Este trabajo pretende reinterpretar el duelo materno desde un enfoque fenomenológico. Para su construcción fue necesario discutir la construcción de la maternidad, así como abordar las construcciones del vínculo entre madre y bebé. A lo largo del texto se abordarán las formas de afrontar la muerte y los tabúes que rodean el tema de la pérdida y el duelo, estos generalmente van acompañados de negación o prejuicios construidos culturalmente. Para la construcción se utilizó la metodología basada en la revisión bibliográfica de literatura exploratoria y descriptiva a partir de estudios ya publicados sobre el tema. No se pretende aquí presentar fórmulas definidas, sino ilustrar las posibilidades de aceptación ante el desamparo que enfrentan estas mujeres, y cómo el duelo puede manifestarse de diferentes maneras en la vida de una madre. Para la fenomenología, la posibilidad o realización de la muerte despierta en el ente remanente una contemplación de su finitud desde el fin del otro, siendo este otro un niño, lo que puede llevar a la madre a enfrentar un dilema respecto de la continuidad de su maternidad.

Palabras-clave: Mujer; Maternidad; Muerte; Dolor; Fenomenología

1 INTRODUÇÃO

O pensamento de que o amor e o cuidado maternos são instintivos apontam que a maternidade carrega uma construção social e histórica onde a mulher é pré-determinada a gerar e cuidar dos filhos, e a partir dessa maternidade realizar seu destino biológico e natural, para só assim, se tornar feliz e completa19.

Sabe-se que a maternidade é uma construção sócio histórica, e que as motivações das mulheres, muitas das vezes, são motivações de seus familiares e genitores. O indivíduo surge daquilo que suas gerações passadas desejaram para ele (a), e o desejo de seus familiares tem grande nascimento. A manutenção influência antes mesmo de seu desse desejo é assegurada por meio das regras, rotinas e crenças que preservam aquela família27.

Gradvohl, Osis & Makuch (2014) fazem uma referência às brincadeiras de infância, as quais as mulheres são incentivadas a essa relação de maternidade e cuidado da prole através das bonecas, e como tal questão influencia na maneira de se construir a feminilidade. A representação social da maternidade como uma forma de realização de “ser mulher” ao longo do tempo, traz consigo uma potencialização da ideia de como deve ser a gestação e sobre o lugar de mãe. Pode-se dizer que esse filho passa a ser tão desejado que por diversas vezes se torna um projeto de vida único para a mulher4.

As mães, em sua maioria, tendem a projetar nos filhos a realização de sonhos que elas não puderam realizar, isso porque para elas esse filho é uma possibilidade de continuação de si mesmas. Durante a gravidez a mãe sente uma necessidade de construir um vínculo com o bebê, assim acaba por cuidar e dar nomes. Nessa preocupação e interação com o feto, o vínculo se torna mais forte lhe permitindo então tornálo real. Evidenciando que o vínculo entre mãe e filho inicia antes mesmo da concepção16.

Frente a toda essa vinculação e afeto construído, Amaral e Marciano (2015) fazem referência quanto à ansiedade em puérperas diante de uma possibilidade de separação do filho, uma vez que o envolvimento emocional é tão intenso que as mesmas não querem se separar desse bebê. Se somente o ato de se separar fisicamente do bebê com o mesmo vivo causa dor para as mães, ainda maior é o sofrimento quando o mesmo vem a óbito durante a gestação ou em qualquer momento depois de seu nascimento. A perda de um filho pode ocasionar na mãe uma vivência eterna do luto, como se esquecer do que é, para ela, uma perda de sua extensão?

Falar de morte nas sociedades ocidentais é quase que proibido, o tempo inteiro as pessoas vivem como se ela não existisse, porém frequentemente a temem. Esse tabu tanto no meio comum quanto no meio científico parece incomodar pela dificuldade em lidar com ele. Minayo (2013) apresenta uma crítica sobre como os médicos têm dificuldade em falar sobre o assunto morte, como se isso expressasse um fracasso em suas habilidades de salvar vidas.

Essa dificuldade tanto dos profissionais da saúde quanto dos familiares em falar e lidar com o luto, faz com que o acolhimento desse luto fique impossibilitado. Minayo & Afonso (2013) fazem uma releitura sobre a obra de Kubler-Ross (1998). Segundo as autoras, a morte do filho pode trazer dificuldades em compreender o evento e consequentemente desenvolver um sofrimento diante do luto mal elaborado. Não há como descrever a dor de uma mãe ao perder o filho, o que se pode dizer desse luto como sendo uma dor indizível e sem uma definição, que está ali invisível aos olhos da maioria, mas constante no ser daquela mãe.

O interesse pelo estudo das vivências do luto e seus impactos na vida dos familiares culminou em um maior número de publicações a partir do ano de dois mil e dezesseis, sendo anteriormente um assunto com baixa frequência de publicações, onde se via uma necessidade de mais pesquisas sobre o tema de luto materno3. No mesmo artigo ainda relatam que os estudos que anteriores acerca da compreensão do luto pela fenomenologia, eram mais relacionados a pacientes oncológicos, sendo o luto materno mais recente em publicações, sendo estas norteadas pela demanda de mães que perderam seus filhos. Deste modo, o presente trabalho busca então, através de uma revisão de literatura, compreender como o luto materno é percebido pela fenomenologia.

Antes de debruçar sobre o problema central desta pesquisa que é o luto materno sob um olhar da fenomenologia, serão apresentados tópicos importantes sobre o assunto de forma a construir uma ligação com o tema apresentado.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA / REVISÃO DE LITERATURA

Neste tópico o intuito é, de forma mais detalhada, discorrer sobre a construção da maternidade, como se forma o vínculo e a visão sobre a morte, o luto como tabu na sociedade e no meio cientifico.

2.1 A construção da maternidade

A forma de vivenciar a maternidade, bem como sua intensidade, está relacionada diretamente com as influências da cultura onde essa mulher está inserida, assim como a construção de sua história e afetividade. Ainda sobre esse papel de cuidado materno, ele será administrado conforme os valores relacionados socialmente ao que é ser mulher e mãe dentro do contexto cultural que ela vivencia13.

Partindo desse ponto de vista podemos entender que esse papel irá variar de acordo com o momento histórico de cada cultura em específico. Dentro desse movimento da cultura a religião vem como ponto crucial nesse contexto de divinização da maternidade, tendo a Virgem Maria como uma referência desse amor incondicional e puro, livre de qualquer questionamento e de total devoção ao filho, característica como um estado abençoado da maternidade, discurso movido pela moral e religião. Todavia, chega a ser um grande pecado a negação do amor de mãe ao filho4.

Badinter em seu livro “Um amor conquistado: O mito do amor materno” (1985) traz de uma forma bem ilustrada e informativa essa construção do amor de mãe. A autora relata que a partir dos anos de 1760 e 1770 surgiram muitos discursos nos quais convocavam os pais a novos sentimentos em relação aos filhos, principalmente a mãe, e em particular ao amor materno, amor esse que antes não era muito cultivado nos lares. Como a Europa se apresentava diante de uma crise econômica na época, a perda dessas crianças resultava numa futura perda de mão de obra, esse discurso se devia a um interesse imperativo do estado por causa das altas taxas de mortalidade infantil, o intuito era que as mães passassem a cuidar diretamente dos filhos, lhes amamentando desde o nascimento, o que antes era realizado pelas amas-de-leite.

O discurso era tão forte que as mulheres se sentiram na obrigação de assumir a maternidade sem de fato desejá-la, vivendo assim sob um sentimento de culpa e frustração. No entanto, a partir desses segmentos de regras, as mulheres passaram a ocupar lugares distintos dentro da sociedade e do lar, passando a ser chamadas de “rainhas do lar”, chegando a ter mais poder sobre os filhos e dentro de casa. Uma vez que dotava da condição de protetora e mãe, teria, portanto, o direito a obediência4.

Em seu artigo Andrade et. al. (2017) relata que a partir de entrevistas com puérperas e gestantes o discurso materno é fortalecido pela apropriação desse lugar de progenitora, e algumas chegaram a relatar sobre uma pressão por parte do companheiro em ter um filho. Durante os séculos posteriores não ocorreu uma transformação nos discursos quanto às obrigações referentes ao papel da mãe, mesmo nos tempos atuais e principalmente em países desenvolvidos, a amamentação nos primeiros anos de vida e o convívio com a mãe ainda é muito recomendado pela comunidade científica, e poucos se arriscam a criticar19.

Apesar de todos os avanços e conquistas de direitos, a mulher ainda não consegue se distanciar desse lugar de mãe, apenas muda a narrativa, ou os narradores do discurso, e novamente a mulher tem o papel de mãe sendo reescrito e lhe colocado à frente como forma de se portar. Na atualidade, dentro dos próprios movimentos feministas, quando se fala do parto humanizado e natural, de empoderamento da mulher, de amamentar e poder ter trocas mais vivas e verdadeiras de afetos ou ligações entre mãe e bebê, é uma involução silenciosa, disfarçada de um discurso naturalista e humano, ainda há uma tensão em meio aos nós que se deram ao longo do tempo, uma diferença entre o que a cultura sócia histórica construiu e o que a subjetividade que cada mulher deseja viver19.

Compreende-se que as vivências das mulheres no período após o parto são permeadas pela coexistência de sentimentos ambivalentes em relação ao (à) filho (a), e que o amor materno é construção advinda desta relação, e não algo próprio dela, ou inerente à natureza feminina. (RESENDE, 2017, p. 58)

Apesar de tal ambiguidade, a mulher gestante se vincula ao filho e tal conexão aponta o afeto que se instala nesse período gravídico-puerperal, no próximo tópico será abordada tal relação.

2.2 Vínculo mãe-bebê

O ser humano nasce com a necessidade de criar vínculos afetivos e íntimos, esses vínculos são uma construção desde a fase do feto até a sua velhice8. Quando se trata do vínculo mãe-bebê, o período da gestação ao puerpério se tornam os momentos ideais para se observar, isso porque é nessa fase que a mulher passa por diversas mudanças físicas e emocionais. Os papéis são trocados, sua rotina muda constantemente, as escolhas e as abdicações feitas pela mãe, sua atenção e seu afeto para com o filho fazem parte dessa fase que está relacionada à qualidade do vínculo que será formado7.

Andrade et. al. (2017) revela em seu artigo realizado com 06 (seis) puérperas, utilizando do método qualitativo descritivo em modelo clínico de estudo de caso, que há um estabelecimento do vínculo, mesmo que algumas mulheres revelem não planejar a gravidez, levando a considerar, que o vínculo pode se estabelecer mesmo entre sentimentos ambivalentes. Portanto, mesmo que essa gravidez não tenha sido inicialmente uma escolha da mulher, ao apropriar-se do lugar de mãe o afeto se apresenta.

A ligação entre a mãe e o bebê inicia antes mesmo da sua concepção. No entanto, o parto é um momento muito importante para materialização desse vínculo entre os dois, é um momento crítico que simboliza uma passagem de um estado para o outro. Essa característica representa a irreversibilidade, onde não se pode mais voltar atrás, a partir desse momento se tem que enfrentar a situação16. A mãe começa a perceber o filho realmente a partir do parto, através dos sentidos, do toque, cheiro e observação. Esse ato resulta no desenvolvimento da consciência da sua maternidade e com isso o apego ao bebê8.

A hospitalização de um filho que acabou de nascer gera uma dificuldade de assimilação para as mães, onde relatam uma dificuldade de assimilação entre o bebê que imaginaram e aquele que está adoecido. As intercorrências que ocorrem durante um nascimento ou logo após, podem fazer com que o primeiro contato entre mãe e bebê ocorra dentro de uma UTI. O desconhecimento sobre como o bebê reagirá devido a sua imaturidade orgânica, a falta do contato e trocas afetivas dificulta a construção do vínculo. Constatouse que algumas mães, ao reconhecerem a fragilidade dos bebês, acabaram por se distanciarem, diante uma mistura de medo e insegurança para se relacionar com o filho6.

Em seu estudo Rodrigues et. al. (2005), relata que durante as entrevistas realizadas inicialmente com 05 (cinco) mães utilizando os conceitos da fenomenologia interpretativa e existencial, foi constatado que o medo é o sentimento mais recorrente, este possuindo grande amplitude. As mães relacionam esse medo ao universo desconhecido que representa o hospital, a uma piora do quadro dos filhos e até mesmo da morte do mesmo, seu temor é falhar como cuidadora. Essa hospitalização surge nos discursos como um momento difícil de ser enfrentado, o que inflige um sofrimento tanto para o filho quanto para os familiares, em especial à mãe. Outro ponto é a problemática na área da saúde pública, que permite uma superlotação dos hospitais, sucateamento dos serviços, pouco número de profissionais, fazendo aumentar a problemática da hospitalização que a família vivencia.

Em 2019, a Organização Mundial de Saúde estimou em mais de 1,5 milhões o número de mortes no mundo, o que dá cerca de 5.000 mil por dia, esses óbitos se referem a adolescentes e adultos jovens com idade entre 10 e 24 anos. Entre as causas se encontram a violência interpessoal, causas externas (acidentes com transporte), uso de álcool, doenças infecciosas. Algumas dessas causas muitas vezes são evitáveis. Segundo os autores nos últimos 30 anos o número de mortes permaneceu alto, com cerca de 50 mil mortes por ano de adolescentes e adultos15.

Mesmo diante de tantos números, que ainda são altos para os dias atuais, a morte segue sendo ignorada ou evitada de se mencionar no cotidiano, seja no meio comum ou científico ela sempre encontra barreiras como será demonstrado a seguir.

2.3 A morte como tabu

Como no olhar da mãe o filho é uma extensão de si mesma, ao se deparar com a morte do filho, há uma perda desse mundo compartilhado, morre também a possibilidade de sua continuação3. Mesmo em hospitais, onde há um investimento no cuidado, ainda existe uma possibilidade do óbito, diante da notícia percebe-se por parte dos profissionais uma fase de entorpecimento da mãe, gerando uma negação da realidade causada pela dificuldade em nomear os sentimentos e como tentativa de evitar a dor psíquica6.

Nos consultórios de psicoterapia, o desafio surge diante daquela que busca por fugir do sentimento que lhe angustia, essa fuga traz consigo mais dor, o que cronifica e amplia a dor. O sofrimento por não aceitar aquilo que de alguma maneira macula a existência de um ente querido, gera maior sofrimento. É uma luta insana para escapar de uma situação incontornável, e diante da impossibilidade de sair dessa situação pelas próprias forças o ser constitui seu próprio sofrimento10.

Falar de morte é um assunto que tanto a população em geral quanto os profissionais da saúde têm dificuldades em tratar, quando se fala da morte de uma criança, isso se torna ainda mais difícil de ser mencionado. Apesar da empatia dos profissionais da saúde, seus estudos e esforços estão para o salvamento da vida, e ao se deparar com a morte, o sentimento é de derrota, causando assim uma falta de preparo, que tem como consequência o desamparo à essa mãe14.

Há uma incapacidade e negação dos médicos e enfermeiros para lidar com a morte, mesmo para aqueles que trabalham diretamente em unidades de terapia intensiva e cuidados paliativos. Essa questão está relacionada à deficiência ocorrida na graduação, bem como no negacionismo social, ocorrendo uma falta de atributos psicológicos para fornecerem apoio diante da finitude26;25.

Estudar sobre a morte é tão necessário quanto estudar sobre a vida, no entanto, este assunto ainda soa como se tivéssemos o poder de atraí-la, é como se atribuísse ao ser humano um poder imaginário sobre ela. Ignorando-a o ser humano busca desesperadamente não sofrer14.

Feijoo (2022) relata esse desejo que a humanidade tem de driblar a condição de finitude que nos permeia desde os períodos históricos. Na contemporaneidade procuram a todo custo uma forma de controlar os riscos, com isso seguem orientações precisas daquilo que deve ser feito para que a morte seja evitada, assim pode se obter uma vida saudável e segura, no entanto, como são seres falíveis e mortais, o modelo descritivo também se mostra falho.

Diante do medo, os indivíduos vivem em busca de maneiras para encarar a morte. Podem lhe dar uma mitologização, encobrir uma ideia indesejada acreditando ser imortal. Atualmente, a sociedade reforça uma crença na imortalidade, encobrindo e afastando a ideia indesejada da morte. Há também uma terceirização da morte quando seu cenário é movido para os hospitais, dessa forma ela se torna asséptica, silenciosa, isolada, tendo o silêncio sobre ela reforçado através desse deslocamento. Existem progressos para se enfrentar a morte como avançados tratamentos quimioterápicos, CTI’s e UTI’s para casos graves, mas não para dialogar com ela9;22.

Há uma incapacidade de dialogar com a morte e os sentimentos que dela decorrem. Ao longo das edições do DSM a patologização do luto prolongado se deu a partir do DSM III, isso o fez se caracterizar com um processo depressivo, uma vez patologizado, poderá em consequência ser passível de medicalização. Um reflexo da sociedade atual onde a felicidade tem se tornado como um dever e deixado de ser uma aspiração, daí a criação de tecnologias a fim de controlar e/ou eliminar o sofrimento10.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A metodologia utilizada para o presente trabalho foi uma revisão bibliográfica de literatura exploratória e descritiva, a partir de estudos já publicados sobre o tema. Esta proposta de modelo proporciona uma maior familiaridade com a problemática em questão, bem como traz uma descrição de características do fenômeno do luto e como ele afeta a maternidade12.

A análise do estudo foi a partir da abordagem fenomenológica existencial, portanto, os materiais utilizados para elaboração do mesmo se encontram dentro da abordagem. Para a pesquisa foram utilizadas as seguintes plataformas acadêmicas: Portal BVS, Google Acadêmico e PEPSIC. Foram encontrados 71 artigos, no entanto, ao final, analisaram-se nove artigos conforme os critérios definidos a seguir:

Critérios de inclusão Aplicação
Data de publicação Apenas artigos publicados de 2018 a 2023.
Idioma Apenas artigos em português (BR).
Abordagem teórica Artigos que utilizem abordagem fenomenológica existencial.
Tipo de método Artigos de revisão.
Assunto chave Artigos sobre abordagem do luto materno e fenomenologia.

Na primeira pesquisa realizada no site da BVS utilizando a díade luto materna e fenomenologia, foram encontrados 07 (sete) artigos, destes, utilizou-se 03 (três), sendo os outros 04 (quatro) descartados por não estarem de acordo com a proposta, abordando temas sobre nutrição, ludoterapia e sobre a experiência de profissionais da saúde. Na segunda pesquisa agora com a tríade maternidade, morte e fenomenologia, foram encontrados apenas 02 (dois) resultados onde ambos se enquadram na abordagem.

No site Google Acadêmico foram encontrados 53 (cinquenta e três) resultados utilizando a díade luto materno e fenomenologia, sendo incluído apenas 01 (um) artigo e os demais descartados por abordarem assuntos referentes à postura de enfermeiros em casos de cuidados paliativos, utilização de outras abordagens como a psicanálise e Gestalt-terapia, temas que falam do luto, porém abrangendo toda família ou profissionais da saúde e artigos relacionados à legalização do aborto.

Devido à falta de materiais para revisões sobre o luto materno e a fenomenologia, a plataforma PEPSIC também foi utilizada. A díade luto materno e fenomenologia foi utilizada na primeira pesquisa, foram encontrados 02 (dois) artigos, incluído apenas 01 (um) deles e descartado o outro, pois, apresentava data fora dos critérios de inclusão. Em uma segunda pesquisa utilizou-se a díade maternidade e morte e foram encontrados mais 13 (treze) artigos, onde 01 (um) foi selecionado, sendo os demais descartados por não fazerem parte da data selecionada e com abordagem teórica divergente.

Título do artigo Autores Revista & Ano
Falando sobre presenças ausentes: vivências de sofrimento no luto materno Assis, Motta &
Soares
Revista do NUFEN - 2019
Morte de filhos por câncer: experiências de mães enlutadas sob a ótica Heidiggeriana Costa et. Al. Revista baiana enfermagem
- 2019
Luto materno no suicídio: a impotência e o desamparo frente às (im)possibilidades Serra & Freitas Revista do NUFEN - 2020
Mães adolescentes com bebês em UTI neonatal: reflexões fenomenológicas sobre a vida e a morte Silva & Melo Revista da abordagem gestáltica - 2020
O luto através de perspectivas da psicologia: uma revisão literária Alcântara & Silva Repositório institucional, unievangelica, GO - 2021
O tempo do luto materno pelo filho que morreu na infância Bezerra et. Al. Escola Anna Nery - 2022
Escuta clínica: Experiência de uma mãe enlutada em tempos de Covid-19 Feijoo Revista psicologia: teoria e pratica - 2022
O Imensurável da Experiência do Luto Materno Feijoo & Noleto Revista psicologia: ciência e profissão - 2022

Posteriormente, os 08 (oito) artigos foram lidos na íntegra e analisados a fim de perceber quais contribuições existem sobre a temática, após essa análise foi feita a construção dos resultados e discussões conforme proposta deste trabalho.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ainda há uma resistência em se falar sobre morte e perda, como apontam os estudos de Alcântara & Silva (2021). Eles revelam que abordar a temática ainda é tratar sobre temas muito enraizados na sociedade. Além das dificuldades em como nomear ou definir o luto e seus processos, os autores trazem sobre as diferentes formas de expressar o luto e a pluralidade como ele se manifesta no contexto social, seja por meio de símbolos, ritos ou manifestações de carinho pelas plataformas digitais, sendo essa uma forma muito utilizada atualmente. A diversidade do luto é um produto da construção social onde ele está inserido, o luto ajuda o indivíduo a expressar e manifestar sua dor.

Há mães que homenageiam os filhos viajando para lugares que eles gostavam, outras não querem esquecer e afirmam ter na dor uma forma de lembrar, há aquelas que buscam grupos de apoio para poder continuar e aquelas que seguem a vida pelos filhos que ficaram mesmo com a dor ali latente11;18.

Muitas mães relataram que tiveram de seguir suas vidas pois tinham outros filhos (as) para cuidar, marido ou trabalho, porém não se esqueciam daquele filho que se foi. Algumas relataram que não podiam ver o (a) filho (a) que partiu, mas podiam sentir sua presença ou conseguiam lhes ver em sonho, ou até mesmo que mantinham todos os pertences do ente que partiu e, ao anoitecer iam lhe cobrir como se ainda estivesse indo dormir5;11.

Existe nessa relação com a separação uma ambivalência de sentimentos e diferentes manifestações, pois há momentos que se consegue seguir a vida de forma mais evoluída, apenas com a saudade e boas lembranças, mas também existem momentos em que a perda parece ter ocorrido há pouco, é como se aquela vida não fosse suficiente para curar a ferida5;11.

Assim como na resistência, o luto que se inicia a partir da perda de um ente querido também enfrenta o desafio da patologização. Dentro do DSM-5 (2014) o luto recebe tempo de duração e formas de se manifestar, podendo ser um luto com comprometimento, o luto por trauma, aquele que se apresenta de forma persistente e complexa, sendo descritos da seguinte maneira: se dando a morte algum sintoma irá aparecer nos dias seguintes, persistindo, o prazo é de 12 meses no caso de um adulto em luto e 06 meses para uma criança enlutada11;18.

Outros autores como Kubler-Ross (1998), Bowlby (1980), Worden (2013) traçaram linhas de como o luto se manifesta e se padroniza. Mas o que se sabe atualmente é que não existe uma fórmula pré-determinada de manifestação. No que se refere ao luto materno, não há como colocá-lo com um padrão único para todas as mulheres, pois o mesmo se manifesta de várias maneiras e por tempos indeterminados18.

O ponto inicial da dificuldade em lidar com a perda de um filho vem da quebra de expectativa em relação à ordem natural e científica. É culturalmente esperado pelos pais que seus filhos lhes enterrem e não o contrário, e para algumas mães, essa inversão de papéis deveria ser proibida9.

O choque e a falta de perspectivas no momento da morte por parte da mãe é de certa forma esperado, pois naquele instante ao perceber a morte do filho lhe é imposto um novo sentido diante desta ausência, como também terá que reconfigurar sua vida. Outro fator complicador para o luto materno é a perda de um filho pelo suicídio, por ser acompanhando de preconceitos referentes a tabus impostos pela sociedade e crenças religiosas, essa jornada de luto para a genitora pode se tornar devastadora e excruciante9;21.

A visão de violência referente ao ato do suicídio faz com o enlutado tenha dificuldades ao tentar compreender o que levou o (a) filho (a) a cometer o ato. Há uma pressão social que remete ao suicídio como uma falha familiar, e no que diz respeito à saúde da mulher isso traz um grande impacto, principalmente nas questões ligadas a saúde mental. Existe na morte por suicídio uma singularidade para sua representação, o que torna mais doloroso um recomeço após a perda21;22.

O luto começa a apresentar-se antes mesmo da morte do (a) filho (a), por exemplo, nos casos de nascimentos prematuros com complicações, seguidos por internação em UTI, no aparecimento de neoplasias malignas entre outros diagnósticos que sinalizam uma iminência de morte. Heidegger (1927/2005) segundo Silva e Melo (2020) aponta que até essa possibilidade surgir, o ser lida com a morte de forma impessoal, apenas “morre-se”, porém, quando ela se torna próxima de você, ou pior, de alguém que se ama, essa evidência faz com que se rompa a impessoalidade manifestada para com o fenômeno da morte. A possibilidade de nãomais-ser-no-mundo ou de se tornar a mãe-de-filho-morto já é suficiente para angustiar e trazer sofrimento.

Perder um filho por acidentes domésticos, suicídio, neoplasias malignas ou de formas abruptas acarretam na mãe uma avalanche de sentimentos autodestrutivos, de efeitos depressivos fazendo que elas sejam tomadas por negação de sua existência como mãe, se culpabilizam pela morte do filho, cogitando também o autoextermínio. Nenhuma teoria científica é capaz de curar a dor pela perda do filho, o que faz com que trabalhos desenvolvidos por psicólogos abordando o luto sejam mais necessários do que nunca, indo além do construto técnico3;10;18.

Ainda sobre Heidegger (1927/2005), Silva e Melo (2020) fazem uma reflexão da morte como uma possibilidade de ser, ser-aí também é ser-para-a-morte. Diante desta informação, o homem se angustia por se dar conta de sua finitude e a consciência de não-mais-ser-no-mundo. Essa consciência se dá principalmente a partir da morte do outro, e sendo esse outro um filho, a possibilidade desvela um sentimento atormentador e doloroso. Sendo a UTI neonatal um lugar destinado para quem se está em risco, o fim/morte se torna uma possibilidade e por consequência o temor pela finitude do filho, uma constante na vida da mãe.

De um modo geral pode-se aprender a partir da analítica heideggeriana que para a mãe a experiência vívida de perder o filho começa no momento em que ela reconhece essa possibilidade, sendo assim perpassada pela angústia frente à fatalidade e sua aceitação da finitude. Em decorrência da morte do filho, o ser-mãe passa por uma transformação, agora é ser-mãe-sem-filho, atravessando assim a ruína de sua existência9.

Aparece como possibilidade frente à iminência da morte e inaugura-se com a concretização da mesma, o luto é uma confirmação da nossa finitude e também da finitude do outro, é a certeza do irreversível. Assis, Motta & Soares (2019) acrescentam que de acordo com a fenomenologia existencial, seguindo o modelo Merleau-Pontyano, a interpretação do luto pode ser vista como uma nova possibilidade de existir e de condição existencial.

O luto gera na mãe que perdeu seu objeto de amor uma perda de sentido, o rompimento na relação amorosa mãe e filho (a) é a geradora do sofrimento. Diante da perda, muitas mães se interrogam, questionando assim o sentido de sua existência no mundo, para elas a maternidade era a única possibilidade de ser-nomundo, mesmo para as mulheres que têm outros filhos, aquela perda é irreparável. Diante do sofrimento indizível a fenomenologia reforça a necessidade de um espaço para manifestação e vivência do luto, com isso possibilitando àquela que sofre ser a mãe-de-filho-morto3;11.

É preciso abandonar modelos definidos de intervenção e de busca por respostas prontas visando a finitude do sofrimento, bem como devemos evitar estabelecer um tempo do luto conforme consta nos manuais sempre que ele se manifestar. Há uma concordância de que o luto materno pode ser amenizado, porém ainda não temos como estabelecer uma cura, e para a fenomenologia esse luto deve ser vivenciado e assim poderá surgir uma possibilidade de ressignificação conforme a possibilidade de cada mãe. É saber no silêncio acolher essa dor que na maioria das vezes nunca terá fim5;9.

Diferente de outras abordagens como a psicanálise e a análise do comportamento, na fenomenologia existencial entende-se que não há uma possibilidade de reconstrução por parte de quem está em luto pela pessoa que foi perdida, em outras palavras, ressignificar o luto indo de encontro a outro objeto, não é algo a ser superado. Por isso, para fenomenologia o luto é entendido como uma experiência humana a ser vivida e sentida, não existe uma sistematização para o mesmo, e em se tratando do luto materno, pode durar uma vida inteira, por isso é considerado uma dor imensurável9;18.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho não houve a intenção de selecionar a prioridade ou intensidade dos tipos de luto, mas, objetivou-se um estudo a partir da experiência da perda materna. Os resultados apresentados aqui são de longe a definição única de suas formas de se manifestar. Há também uma intenção em revelar os tabus que rodeiam o tema do luto e como eles podem impactar na vida da mãe enlutada, buscando assim uma forma de desmistificá-los e trazer um pouco de leveza para o enfrentamento no processo do luto. No que tange ao tabu sobre a morte pelo suicídio, por exemplo, uma das formas de se trazer uma nova possibilidade para elaboração da mãe enlutada é perceber que para o filho (a) o suicídio surgiu como “possibilidade” de se acabar com o sofrimento18;22.

A fim de se oferecer um melhor acolhimento frente à perda materna, destaca-se a necessidade de mais pesquisas sobre o tema. Durante os estudos o que se pode notar é que não há muitos artigos sobre o assunto a partir da abordagem fenomenológica, com isso, o presente trabalho buscou ilustrar um pouco mais sobre o luto materno. Sendo a maternidade uma construção, e ainda quase uma obrigação social, frente a sua abrupta interrupção faz-se necessário produzir material que ajude a atravessar sua problemática4;9.

É preciso lembra que no acolhimento de mães enlutadas não se está lidando apenas com rompimentos de vínculos, mas que ali houve uma perca do objeto de amor. Diferente de dores sobre a quebra de expectativas ou de relações onde ambos ainda estão vivos, na morte de um filho tem que se levar em conta a impossibilidade de uma reconstrução do vínculo com o mesmo.

Mais do que oferecer técnicas pré-determinadas sobre a construção, diante de uma mãe em luto fazse necessário oferecer um silêncio que acolhe e possibilita a manifestação que o ente enlutado apresenta, uma vez que na clínica lidamos com uma dor indizível, é preciso deixar que se manifeste da forma que a mãe consegue elaborar. Por meio dos artigos e pela ótica da fenomenologia Heideggeriana pode-se notar como a morte pode ser vivenciada. Os resultados obtidos neste texto possibilitam uma nova ótica para com o luto materno, oferecendo não somente aos profissionais da psicologia, como também para outras áreas da saúde, possibilitando um melhor acolhimento e diminuindo os desamparos enfrentados pelas mães.

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Recebido: Outubro de 2023; Aceito: Fevereiro de 2024

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