Introdução
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença do coronavírus (covid-19) é uma doença infectocontagiosa causada pelo vírus SARS-CoV-2. Em dezembro de 2019, foi reportado o primeiro caso de sintomas causados pela covid-19 em Wuhan, na China, e, em março de 2020, a OMS declarou a pandemia. Sobre os sintomas e efeitos, a maioria das pessoas infectadas terá sintomas respiratórios leves a moderados e se recuperará sem precisar de tratamento mais especializado. Entretanto, algumas ficarão gravemente doentes e necessitarão de cuidados médicos. Pessoas idosas e/ou com comorbidades, tais como doenças cardiovasculares, diabetes, doenças respiratórias crônicas ou câncer são mais suscetíveis a desenvolver a forma mais grave da doença (OMS, 2022).
Em janeiro de 2020, a covid-19 foi declarada pela OMS enquanto uma Emergência de Saúde Pública de Preocupação Internacional (PHEIC), considerado o índice de alerta mais alto da organização, e, em março do mesmo ano, a doença foi caracterizada como uma pandemia, no momento em que estava presente em 114 países. Medidas de quarentena e isolamento social foram recomendadas para diminuir o avanço das contaminações pelo vírus, o que pode ter colaborado para o aumento do estresse, do medo e da ansiedade na população (Barbosa et al., 2021).
A OMS define os transtornos mentais enquanto condições clinicamente significativas, caracterizadas por alterações no humor, nas emoções, no pensamento e no comportamento, as quais surgem associadas à angústia pessoal e/ou ao funcionamento deficiente. Estas condições podem caracterizar prejuízos psicossociais, pelo fato de causarem impacto no indivíduo e na sociedade. Os transtornos mentais são a causa principal do que a OMS chama de “anos vividos com incapacidade” (Years Lived With Disability, YLDs), contabilizando um em cada seis indivíduos globalmente. Segundo a Classificação Internacional das Doenças em sua 11ª Revisão (CID-11), um transtorno mental é caracterizado por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo, que reflete em uma disfunção no psicológico, no biológico ou, ainda, nos processos de desenvolvimento que estão na base de funcionamento mental e comportamental. Tais transtornos estão geralmente associados a uma angústia ou deficiência significativa nas áreas pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento (OMS, 2021).
O Estudo de Carga Global de Doença (GBD), em 2020, estimou que houve um aumento substancial de transtornos de ansiedade e depressão como resultado da pandemia da covid-19. Anteriormente, em 2020, estimava-se que um número de 193 milhões de pessoas tinham depressão maior; e 298 milhões de pessoas sofriam de transtorno de ansiedade. Com o avanço da pandemia, os transtornos depressivos deram um salto para um número em torno de 246 milhões de pessoas, enquanto os transtornos de ansiedade foram sentidos por 374 milhões, representando um aumento de 28% e 26% para tais transtornos, respectivamente, em apenas um ano (OMS, 2022).
Segundo o estudo de GBD, destaca-se a prevalência maior de transtornos de ansiedade e depressão em mulheres do que em homens, provavelmente, pois as mulheres eram mais afetadas pelos aspectos econômicos e sociais resultantes da pandemia da covid-19. De acordo com a GBD (2020), houve uma grande mudança na prevalência entre grupos etários mais jovens do que os mais velhos, possivelmente um reflexo de um grande impacto do fechamento de escolas e restrições sociais à saúde mental dos jovens, que têm corrido maior risco de comportamentos suicidas e automutilação.
A OMS define depressão como uma doença mental que se caracteriza por tristeza mais ou menos prolongada, desesperança, perda de interesse, ausência de prazer pela vida, perda de energia e/ou cansaço fácil, sentimentos de culpa ou baixa autoestima, sono e apetite alterados, cansaço e falta de concentração (OMS,2022). A depressão interfere nas atividades da vida diária, podendo inclusive causar sintomas físicos como dor, alterações no peso corporal, no sono e na energia. Indivíduos com depressão podem ter dificuldades para se concentrar, sentimentos de culpa excessiva e desvalor, além de pensamentos recorrentes de morte ou suicídio. A depressão é vista como o transtorno mental mais comum (American Psychology Association, n.d.).
No que se refere à ansiedade, segundo Frota et al. (2022), é tanto uma manifestação normal de um estado afetivo quanto um sintoma encontrado em vários transtornos. Enquanto manifestação natural, possibilita ao indivíduo estar preparado e atento aos perigos e agir de maneira a sobreviver a ameaças ou, ainda, adaptar-se a circunstâncias que lhe são desconhecidas. A ansiedade e o medo são fenômenos relacionados, conforme a CID 11 (2021). O medo representa uma reação à percepção de ameaça iminente no presente, enquanto a ansiedade é mais orientada para o futuro, referindo-se à percepção de ameaça antecipada. A ansiedade é considerada patológica quando causa sofrimento e afeta áreas funcionais na vida do indivíduo (OMS, 2022).
Outra variável que também pode concorrer para o adoecimento é o estresse, que é a resposta física do organismo, gerada a partir de acontecimentos traumáticos e estressores. De forma prática, tudo que entra em contato com o corpo é um potencial estressor, permeado por uma série de processos psicológicos, sociais e biológicos que envolvem a interação pessoa-ambiente e a forma como a pessoa avalia o evento estressor (Hirschle & Gondim, 2020). Ainda que nem todos os indivíduos expostos ao mesmo estressor desenvolverão uma desordem, as desordens neste grupo não teriam ocorrido se o estressor não tivesse ocorrido (OMS, 2022).
A ansiedade, a depressão e o estresse são influenciados pela interação do indivíduo com o ambiente. A pandemia de covid-19 trouxe diversos fatores que contribuíram para a intensificação dos sintomas desses transtornos. A saúde mental de alguns grupos foi afetada de forma mais incisiva. No caso dos estudantes universitários da área da saúde, enquanto alguns necessitaram se adaptar ao ensino remoto, outros foram mantidos em atividades acadêmicas que mantiveram contato com público durante os momentos de pico da doença. Em ambos os casos, houve mudanças significativas na rotina dos estudantes universitários, grupo que tem uma prevalência maior de sintomas de ansiedade, depressão e estresse (Souza et al., 2021).
Existem diversos fatores que podem influenciar uma maior prevalência de sintomas de ansiedade, depressão e estresse em estudantes universitários em geral. Estudos com acadêmicos de diversos cursos têm mostrado que gênero, idade, autoestima, consumo de álcool e cigarro, uso problemático da internet, qualidade de sono, relacionamentos, fatores so-cioeconômicos, familiares e sociais, entre outros, estão relacionados com sintomas desses transtornos (Ramon-Arbués et al., 2020 e Othman et al., 2019).
Os estudantes de cursos da área da saúde têm algumas especificidades que podem agravar esses quadros. Kumar et al. (2019) aponta que, no caso dos estudantes de Medicina de último ano, a pressão de cumprir as expectativas familiares e o medo de adentrar como médicos no mundo real foram fatores que influenciaram nos resultados encontrados, ressaltando-se que é uma profissão com altas demandas e responsabilidades, que requer foco e conhecimento.
Jardim et al. (2020) observaram que, apesar de seus resultados não apontarem o ambiente acadêmico, por si só, como adoecedor, a associação com outros fatores pode servir de gatilho para sintomas de ansiedade, estresse e depressão. Guimarães et al. (2020) demonstra uma diferença entre as preocupações de estudantes de Psicologia do início para o final do curso, sendo que, ao início, as preocupações giram em torno de questões acadêmicas, enquanto, ao final, há predominância de cansaço e preocupação com o mercado de trabalho. Essas preocupações refletem em sintomas de transtornos psicológicos, que impactam a vida desses estudantes. Cabe observar que vários estudos demonstraram comorbidade de sintomas de mais de um transtorno psicológico nessa população (Guimarães et al. 2020, Ramon-Arbués et al., 2020 e Brandtner & Bardagi, 2009).
Portanto, tendo em vista que a literatura aponta a necessidade de mais estudos sobre a saúde mental de estudantes universitários, a presente pesquisa mostra-se necessária para corroborar outros estudos existentes e verificar a prevalência de transtornos psicológicos na população específica que se propõe a pesquisar, levando em consideração o momento da pandemia de covid-19.
Desta forma, o presente estudo teve como objetivo analisar a prevalência de depressão, ansiedade e estresse em universitários da área da saúde que estudaram durante a pandemia de covid-19. Para isso, buscou-se caracterizar sócio, demográfica e economicamente a amostra do estudo; caracterizar a amostra quanto aos hábitos de vida e saúde; identificar os indicadores de depressão, ansiedade e estresse na amostra total de participantes e relacionar as variáveis sociodemográfica e econômica e os hábitos de vida e saúde com os resultados apresentados na Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21).
Método
Trata-se de um estudo do tipo transversal, descritivo e exploratório, com análise de dados quantitativos. A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) com Certificado de Apreciação ética (CAEE) 67710423.7.0000.5169., em consonância com as Resoluções 466/12 e 510/16 do Conselho Nacional de Saúde-BR. O estudo foi desenvolvido nos cursos de graduação na área da saúde do Centro Universitário do Estado do Pará. Participaram da pesquisa estudantes universitários da área da saúde (Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Medicina, Nutrição, Odontologia e Psicologia), de ambos os sexos, sendo uma amostragem probabilística por conveniência.
Foram utilizados os seguintes instrumentos para a realização do estudo: o Questionário Sociodemográfico e Econômico e a Escala de Ansiedade, Depressão e Stress (EADS-21). O questionário aplicado foi criado pelas pesquisadoras com base nos itens estudados em Othman et al. (2019), que investigou determinantes contextuais como possíveis influências no bem-estar percebido de estudantes universitários. Foram aplicadas 20 perguntas quantitativas, tendo em vista que a aplicação foi on-line, por meio do Google Forms.
As perguntas versavam sobre área de estudo, gênero, idade, com quem o estudante mora, renda familiar, se já teve sintomas de covid-19, se teve perdas na família em razão da doença, se tem relacionamento amoroso fixo, consumo de álcool, cigarro e outra drogas ou medicamentos, prática de exercícios físicos, prática de atividades de lazer, entre outras.
A EADS-21 (Martins et al., 2019) trata-se da versão reduzida da EADS, que objetiva mensurar sintomas de depressão, ansiedade e estresse. A escala é composta de 21 itens, que se dividem em três fatores (depressão: 3, 5, 10, 13, 16, 17, 21; ansiedade: 2, 4, 7, 9, 15, 19, 20 e estresse: 1, 6, 8, 11, 12, 14, 18). A escala de respostas é do tipo Likert, que possui 4 pontos, sendo estas variáveis de 0 (não se aplicou de maneira alguma) a 3 (se aplicou muito ou na maioria do tempo). A versão escolhida para aplicação foi a conciliada por especialistas da psicometria e da saúde com adaptações culturais, para melhor compreensão dos participantes (Martins et al., 2019).
A coleta de dados foi virtual, por meio da ferramenta Google Forms. O formulário online continha o TCLE, o questionário sociodemográfico e econômico e a EADS-21.
Após a coleta, foi ofertada uma devolutiva via e-mail aos participantes, acerca dos resultados individuais de cada um, com a possibilidade de encaminhamento ao Serviço de Atendimento ao Estudante (SAE) de acordo com o interesse do participante e caso fosse necessário.
As informações da caracterização amostral foram digitadas em planilha do software Microsoft® Office Excel® 2016.
Na aplicação da Estatística Descritiva, foram construídos tabelas e gráficos para apresentação dos resultados.
A estatística analítica foi utilizada através dos testes G e Qui-Quadrado Aderência para tabelas univariadas. A correlação das variáveis sociodemográficas e dos hábitos de vida com o valor total da escala EADS-21 foi verificada através do Coeficiente de Correlação de Spearman.
As estatísticas descritivas e analíticas foram realizadas no software BioEstat 5.4. Para a tomada de decisão, foi adotado o nível de significância α = 0,05 ou 5%, sinalizando com asterisco (*) os valores significantes.
Resultados
A amostra foi composta por 55 alunos com maioria estatisticamente significante (*p < 0,0001) do sexo feminino (80,0%). As idades variaram de 18 anos até 50 anos, com média aritmética de 23 anos, sendo a faixa etária entre 20 e 21 anos a mais prevalente (38,2%) e estatisticamente significante entre as demais (*p = 0,0012).
A maioria estatisticamente significante (*p < 0,0001) da amostra é solteiro(a) (90,9%) e mora com a família (72,7%). A renda familiar média dos discentes foi de 2,6 salários-mínimos, variando de 1 a 4 salários-mínimos, como mostra a Tabela 1.
Tabela 1 Perfil dos Discentes Participantes da Amostra, Belém, 2023
| Variáveis | Frequência | %(N = 55) | p-valor |
|---|---|---|---|
| Gênero | < 0.0001* | ||
| Feminino* | 44 | 80,0% | |
| Masculino | 10 | 18,2% | |
| Não-binário | 1 | 1,8% | |
| Faixa etária (anos) | 0.0012** | ||
| < 20 | 4 | 7,3% | |
| 20 a 21* | 21 | 38,2% | |
| 22 a 23 | 16 | 29,1% | |
| 24 a 25 | 7 | 12,7% | |
| > = 26 | 7 | 12,7% | |
| Estado civil | < 0.0001* | ||
| Solteiro | 50 | 90,9% | |
| Casado/União estável | 5 | 9,1% | |
| Com quem mora | < 0.0001** | ||
| Família | 40 | 72,7% | |
| Esposa/filhos | 4 | 7,3% | |
| Sozinho | 3 | 5,5% | |
| Outros | 8 | 14,5% | |
| Renda familiar (SM) | 0,1197 | ||
| 1 a < 3 | 11 | 20,0% | |
| 3 a < 6 | 17 | 30,9% | |
| 6 a < 8 | 8 | 14,5% | |
| 8 ou mais | 19 | 34,5% |
Nota. Protocolo aplicado; *Teste Qui-Quadrado Aderência; **Teste G Aderência.
Não foi observada diferença estatisticamente significante nas proporções em relação a ter relacionamento amoroso fixo (54,5%). Em relação aos hábitos de vida, o uso de bebida alcóolica frequente ou às vezes representou a maioria estatisticamente significante (*p < 0,0001) dos alunos (60,0%). A maioria estatisticamente significante dos discentes declara não fazer uso de cigarro ou outro produto com nicotina, assim como o uso de drogas ilícitas (74,5%- *p = 0,0005 ambos).
Houve proporção estatisticamente significante (*p = 0,0040) de alunos que relataram realizarem exercícios físicos frequentemente (43,6%), A realização frequente de atividades relacionadas ao lazer também se mostrou mais frequentes na amostra (61,8%) e estatisticamente significante (*p < 0,0001), conforme Tabela 2.
Tabela 2 Perfil dos Discentes Participantes da Amostra, Belém, 2023
| Variáveis | Frequência | % (N = 55) | p-valor |
|---|---|---|---|
| Relacionamento amoroso fixo | 0,5896 | ||
| Sim | 30 | 54,5% | |
| Não | 25 | 45,5% | |
| Uso de bebida alcoólica | < 0.0001* | ||
| Frequentemente | 5 | 9,1% | |
| Às vezes* | 28 | 50,9% | |
| Quase nunca | 15 | 27,3% | |
| Nunca | 7 | 12,7% | |
| Cigarro ou outro produto com nicotina | 0.0005* | ||
| Faz uso | 14 | 25,5% | |
| Não faz uso* | 41 | 74,5% | |
| Drogas ilícitas ou medicamentos | 0.0005* | ||
| Faz uso | 14 | 25,5% | |
| Não faz uso* | 41 | 74,5% | |
| Exercícios físicos | 0.0040* | ||
| Frequentemente* | 24 | 43,6% | |
| Às vezes | 13 | 23,6% | |
| Quase nunca | 13 | 23,6% | |
| Nunca | 5 | 9,1% | |
| Atividade relacionada ao lazer | < 0.0001* | ||
| Frequentemente* | 34 | 61,8% | |
| Às vezes | 14 | 25,5% | |
| Quase nunca | 6 | 10,9% | |
| Nunca | 1 | 1,8% |
Nota. Protocolo aplicado; *Teste Qui-Quadrado Aderência.
Não foi identificada diferença estatisticamente significante (p = 0,2807) entre as proporções de discentes que testaram positivo para covid-19 (58,2%) em relação aos que negaram a testagem positiva (41,8%). A maior parte dos alunos (63,6%) relatam não terem perdido amigos ou pessoas da família em decorrência da covid-19.
A classificação da escala EADS-21 alcançou diferença estatisticamente significante para a Depressão e Ansiedade (*p = 0,0004 e *p = 0,0002 respectivamente). Em relação à Depressão, a normalidade foi identificada em 1/3 dos discentes, sendo a maior proporção de discentes com classificação Moderada (32,7%).
Na classificação da escala de Ansiedade, a maior proporção foi de alunos com classificação Normal (38,2%), sendo a segunda maior proporção a extremamente severa (25,5%). A escala de Estresse não apresentou diferença estatisticamente significativa (p = 0,7692) nas proporções da classificação entre os discentes, conforme Tabela 3.
Tabela 3 Perfil dos Pacientes em Relação ao EADS-21, Belém, 2023
| Escala EADS 21 | Depressão | Ansiedade | Estresse | |||
|---|---|---|---|---|---|---|
| N | % | N | % | N | % | |
| Normal | 17 | 30,9% | 21 | 38,2% | 14 | 25,5% |
| Leve | 3 | 5,5% | 4 | 7,3% | 10 | 18,2% |
| Moderado | 18 | 32,7% | 13 | 23,6% | 11 | 20,0% |
| Severo | 4 | 7,3% | 3 | 5,5% | 8 | 14,5% |
| Extremamente severo | 13 | 23,6% | 14 | 25,5% | 12 | 21,8% |
| p - valor | 0.0004* | 0.0002* | 0,7692 | |||
Nota. Protocolo aplicado; *Teste G Aderência.
A correlação do valor total alcançado na escala EADS-21 foi avaliada em relação a variáveis socioeconômicas e hábitos de vida. A correlação estatisticamente significante foi identificada somente com a variável “Uso de drogas ilícitas ou medicamentos”, que alcançou um coeficiente de correlação de 0,4027 ou 40,27% e *p = 0,0023 ou 0,23%, conforme Tabela 4.
Tabela 4 Correlação Quanto ao Valor Total da Escala EADS-21, Belém, 2023
| Variáveis | Coeficiente de Correlação | p-valor |
|---|---|---|
| Dependente: Valor total da escala EADS-21 | ||
| Independentes | ||
| Idade | 0.0466 ou 4.66% | 0,7357 |
| Gênero | 0.0154 ou 1.54% | 0,9109 |
| Com quem reside | 0.1718 ou 17.18% | 0,2096 |
| Renda familiar | 0.0957 ou 9.57% | 0,4869 |
| Relacionamento amoroso fixo | 0.0990 ou 9.90% | 0,4721 |
| Uso de bebida alcóolica | 0.2099 ou 20.99% | 0,1239 |
| Uso de cigarro/nicotina | 0.2100 ou 21.00% | 0,1237 |
| Drogas ilícitas ou medicamentos | 0.4027 ou 40.27% | 0.0023* |
| Exercícios físicos | 0.1965 ou 19.25% | 0,1504 |
| Atividades relacionadas ao lazer | 0.1252 ou 12.52% | 0,3623 |
| Positivo para covid-19 | 0.1443 ou 14.43% | 0,2932 |
| Perda na família ou de amigos por covid-19 | 0.1095 ou 10.95% | 0,4261 |
Nota. Protocolo aplicado; *Teste de Correlação de Spearman
Discussão
O objetivo deste estudo foi investigar a prevalência de sintomas de depressão, ansiedade e estresse em estudantes universitários da área da saúde que passaram pela pandemia de covid-19. Para alcançar esse objetivo, foi realizada uma caracterização socioeconómica e demográfica da amostra do estudo, bem como a análise dos hábitos de vida e saúde dos participantes. Além disso, foram identificados os indicadores de depressão, ansiedade e estresse na amostra total, através da EADS-21, e foi analisada a relação entre variáveis sociodemográficas, econômicas, hábitos de vida e saúde com os resultados obtidos da escala.
Segundo os dados coletados, a amostra foi composta predominantemente por indivíduos do sexo feminino, sendo a maioria na faixa etária entre 20 e 21 anos, com média aritmética de 23 anos, solteiros e que moram com a família. Tais dados condizem com outros estudos de perfil sociodemográfico de estudantes da área da saúde (Freitas et al., 2022 e Othman et al., 2019) e de estudantes universitários em geral (Barros e Costa, 2019). A grande maioria dos estudos mostra a prevalência do gênero feminino nas universidades (Guimarães et al., 2020, Kumar et al., 2019 e Souza et al. 2021).
Em relação aos hábitos e ao estilo de vida, a maioria refere um modelo de vida relativamente saudável, apesar de a maioria estatística fazer uso frequente ou ocasional de bebidas alcoólicas. A amostra majoritariamente não fuma e nem utiliza drogas ilícitas e medicamentos, além de fazer exercícios físicos e atividades relacionadas ao lazer frequentemente. O uso de bebidas alcoólicas e a prática de exercícios físicos são condizentes com os achados em Freitas et al. (2022). Barros e Costa (2019) e também apontam para o consumo de álcool entre a maioria dos universitários, bem como para a falta do uso de drogas ilícitas e nicotina.
Quanto à atividade física, há divergências na literatura em relação à prática adequada de exercícios, como mostra o estudo longitudinal de Oliveira et al. (2021), em que 59,6% dos universitários da saúde não praticavam exercícios físicos, devendo ser ressaltado que a coleta deste estudo é anterior à pandemia. Outros estudos também apontam a falta da prática de atividades físicas em estudantes universitários (Jardim et al., 2020 e Souza et al., 2021).
Em relação ao lazer, em estudo similar realizado durante a pandemia, a maior proporção de estudantes relatou conseguir equilibrar trabalho e lazer (Amaral et al., 2021), o que corrobora os achados do presente estudo. Porém, em estudo anterior à pandemia, 78,4% dos universitários relataram deixar de fazer coisas prazerosas em razão da universidade (Jardim et al., 2020).
Portanto, é possível observar que a amostra estudada apresenta, em sua maioria, hábitos de vida saudáveis, inclusive em comparação com estudos anteriores à pandemia; logo, supõe-se que a amostra passou por uma reestruturação no período pós-isolamento social, voltando a ter hábitos benéficos para a saúde.
A maioria da amostra já testou positivo para covid-19 anteriormente e não teve perdas na família e de amigos pela doença, porém não foi uma diferença estatisticamente significativa. Um estudo similar realizado no início da pandemia aponta que a maioria dos estudantes teve pouco ou nenhum impacto da covid-19 em suas vidas, porém aqueles que consideraram o impacto alto apresentaram maior sofrimento psíquico (Gundim et al., 2020). Também foi observada, na literatura, a associação entre a infecção por covid-19 e maiores níveis de depressão (Guo et al., 2020), o que não foi observado no presente estudo.
No total da amostra, 1/3 apresentou depressão em nível moderado (32,7%), além de observar-se um número relevante de participantes com depressão em nível extremamente severo (23,6%). Os dados concordam com os resultados obtidos no estudo de Maia & Dias (2020), em que demonstram um aumento significativo dos efeitos deletérios na saúde mental em razão da pandemia de covid-19, em especial a ansiedade, a depressão e o estresse em estudantes universitários. Os resultados também condizem com o estudo de Gundim et. al., 2020) quando, por meio dos dados, foram observados sinais de depressão e estresse nos estudantes universitários participantes.
Na amostra, a maioria estatística estava dentro da normalidade em relação à ansiedade, entretanto a segunda maior proporção foi de ansiedade extremamente severa (25,5%), o que representa um risco para a amostra estudada, sendo essa proporção maior do que a encontrada no estudo que embasou o questionário utilizado nesse estudo (Othman et al. 2019). A maioria normal é condizente com outros estudos com universitários (Martins et al. 2019 e Ramón-Arbués et al. 2020) e diverge de outros na literatura que apontam maioria com sintomatologia moderada a alta (Jardins et al. 2020 e Kumar et al. 2019).
No caso da amostra estudada, os resultados são um sinal de alerta, pois mesmo que haja diversos fatores protetivos, como bons hábitos e estilos de vida, que foram demonstrados no questionário socioeconômico demográfico, uma quantidade considerável de discentes ainda apresenta sintomatologia extremamente severa para ansiedade.
No presente estudo, apesar de a minoria da amostra (25,5%) relatar utilização de substâncias ilícitas e medicamentos, esta foi a única variável que apresentou significância estatística no coeficiente de correlação com os resultados do EADS-21. Ou seja, ao observar a correlação positiva entre essa variável e o resultado do EADS-21, compreende-se que, quanto maior os indicadores na escala, maior a propensão ao uso de substâncias ilícitas e medicamentos.
Foram analisados estudos que correlacionam variáveis com o EADS-21, porém eles não incluíam substâncias ilícitas e medicamentos (Othman et al., 2019 e Ramón-Arbués et al. 2020). Foram encontrados estudos que também mostraram que a minoria dos estudantes utilizava medicamentos (Souza et al. 2021) ou drogas ilícitas (Barros e Costa, 2019).
No entanto, em Freitas et al. (2022), foi relatado que quase metade dos estudantes usam ou já utilizaram drogas ilícitas, e 15,2% intensificaram o uso após ingresso na universidade, sendo que 14,6% utilizavam antidepressivos, 9,66% usavam benzodiazepínicos e a maioria utilizava outros tipos de medicamentos, que incluíam analgésicos, codeína, fenobarbital, metilfenidato(ritalina) e morfina. Porém esse estudo não fez a correlação entre essas variáveis e o EADS-21.
Com base em outros estudos encontrados, foi colocado como hipótese que a maioria dos estudantes apresentaria um grau elevado de indícios de ansiedade, depressão e estresse. No entanto, a pesquisa apontou que a maioria dos universitários estava dentro da normalidade. Ainda assim, observou-se que uma parcela significativa, mesmo que a minoria, apresenta sinais de sofrimento psicológico grave.
As limitações do presente estudo estão relacionadas ao fato de não poder ser generalizado em razão da amostra, a qual foi de conveniência, realizada em apenas uma universidade particular. Por não terem sido realizados estudos anteriores ao período pandêmico com os participantes da amostra, não se pode inferir que eles tenham desenvolvido depressão, ansiedade e estresse por conta da pandemia, pois não há parâmetro para comparação.
Enquanto contribuições, o estudo permitiu a detecção precoce de ansiedade, depressão e estresse na amostra estudada; promoveu, ainda, auxílio para a instituição de ensino, no sentido de contribuir para o rastreamento desses sinais em seus estudantes da área da saúde, possibilitando que sejam realizadas posteriormente medidas de prevenção.
O estudo possibilitou o screening de indicadores de ansiedade, depressão e estresse, que podem ser comparados com outros estudos sobre o tema. É imprescindível que novos estudos sobre o tema sejam realizados para que possam ser aprofundadas as pesquisas sobre os impactos da pandemia nos universitários e os fatores relacionados.
Conclusões
Os resultados do presente estudo sugerem que, mesmo após o período crítico da pandemia, os estudantes universitários da amostra apresentam sinais de sofrimento psicológico. Dessa forma, entende-se que os transtornos estudados são multifatoriais, e embora uma grande quantidade de universitários apresente hábitos de vida e de saúde adequados, há necessidade de buscar outros recursos para enfrentar o adoecimento mental dos estudantes, como o fortalecimento da rede de apoio, o auxílio em situações adversas e a psicoeducação sobre competências socioemocionais, especialmente na área da saúde, em que os universitários estão se formando para atender a população em uma área essencial. É imprescindível voltar a atenção para a saúde mental desses futuros profissionais, tratando-se de uma questão de saúde pública.














