Introdução
Em razão de mudanças sociais e epidemiológicas, a saúde da pessoa idosa no Brasil se tornou um dos problemas mais importantes para a investigação e o planejamento de políticas públicas (Romero et al., 2018; Bonfim et al., 2023). A partir da própria atualização no conceito de saúde impulsionada pela Constituição Federal (1988), o Brasil desenvolveu outros importantes marcos regulatórios na atenção ao idoso. A Política Nacional do Idoso (PNI) (Lei nº 8.842, 1994), a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) (Ministério da Saúde [MS], 2006b) e o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741, 2003) foram reflexões importantes em seus momentos históricos e políticos. A saúde da pessoa idosa também fez parte de importantes instrumentos de organização do Sistema Único de Saúde (SUS), como o Pacto pela Saúde (MS, 2006a) e o Contrato Organizativo de Ação Pública (COAP) (Decreto nº 7.508, 2011).
Ainda no que se refere à saúde do idoso, apesar de o Brasil ser considerado pioneiro na criação de leis e políticas públicas que visam à proteção social da pessoa idosa, um problema subjacente à consolidação dessas medidas é a falta de indicadores sensíveis para seu acompanhamento (Oliveira et al., 2023). Mesmo quando há produção regular de dados, não há equivalente regularidade de análise orientada para as necessidades da gestão para a população + 60.
Além dos aspectos demográficos, epidemiológicos e de políticas públicas, é importante destacar que, nessa conjuntura, os aspectos sociais, psicológicos, culturais, econômicos e institucionais também podem ser moderadores da saúde do idoso. A promoção da saúde e a qualidade de vida são alvos de interesse para diferentes programas e serviços voltados ao idoso, com o objetivo de regular e compensar as perdas funcionais e cognitivas associadas ao processo de envelhecimento (Chariglione et al., 2020), sendo este relevante em uma proposta de desenvolvimento do idoso.
O envelhecimento saudável é entendido na atualidade como a manutenção das habilidades físicas e cognitivas na velhice, sendo o objetivo de importantes estudos no campo da gerontologia (Baltes & Smith, 2003; Bauermeister et al., 2018; Chariglione et al., 2020; Smolarek et al., 2016). Parte desses estudos busca entender os fatores que estão associados ao desenvolvimento cognitivo saudável, indicando que estilo de vida, relações sociais, lazer, perfil ocupacional, estado nutricional e aptidão física têm sido associados a fatores cognitivos (Hertzog et al., 2009; Robinson & Lachman, 2018; Mazo et al., 2023). Nessa premissa, a concepção de saúde extrapola os indicadores biológicos e entende a importância de fatores ambientais e psicológicos.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022) apresenta, de forma expressiva, o contingente populacional da pessoa idosa, demonstrando variáveis de indicadores relevantes, em termos absolutos e de crescente importância no conjunto da sociedade brasileira, demandando, assim, novas exigências de políticas públicas de saúde e inserção ativa das pessoas idosas na vida social, cultural, entre outras. Entende-se que a saúde pode exercer forte impacto na qualidade de vida das pessoas idosas, na medida em que se oferta um amplo acesso aos serviços de saúde para esse público-alvo com qualidade, humanização e acolhimento de forma integral e integrada.
Desta maneira, a extensão das oportunidades que surgem do aumento da longevidade dependerá fortemente de um fator-chave: a saúde da população +60, +70, +80, e assim consequentemente. Não obstante, se os anos adicionais forem dominados por céleres e intensos declínios na capacidade física e mental do indivíduo, as implicações para os idosos e para a sociedade impactam de forma extremamente negativa. Promover e garantir uma saúde possível na velhice é, portanto, crucial para se alcançar o desenvolvimento sustentável (World Health Assembly, 2016).
O que se verifica nessas múltiplas dimensões sobre o processo de envelhecimento é a gerontologia em desenvolvimento contínuo, voltada para a longevidade e a qualidade de vida do idoso, com pesquisas pertinentes à área da saúde, ressaltando a independência, o estilo de vida, a qualidade de vida, além de abranger diversas áreas inseridas dentro de um contexto interdisciplinar (gerontologia, psicologia, enfermagem, educação física etc.) para uma melhor compreensão e acompanhamento do desenvolvimento do idoso (Oliveira et al., 2020b).
Um ponto também relevante nesse contexto interdisciplinar é perceber que a enfermagem deve participar efetivamente dessa compreensão gerontológica, baseando os seus estudos e avanços na compreensão de parâmetros físicos, emocionais e de ordem social, pelo qual a atuação da equipe interdisciplinar desmistifica o papel de cada profissional e deixa claras as especificidades de suas funções. É um processo que visa, fundamentalmente, a ações de forma educativa em ambas as atribuições, na assistência integral à pessoa idosa (Kletemberg et al., 2019).
O cuidado humanizado prestado pelos profissionais da área de enfermagem contribui de forma essencial na assistência qualificada, a qual permite, além de uma ampla visão das necessidades dos idosos, proporcionar um fortalecimento de laços de intimidade, familiaridade, credibilidade e confiabilidade que levam o idoso a aderir aos serviços especializados e cuidados de saúde, garantindo um processo de envelhecimento com maior autonomia e independência (Vieira & Almeida, 2020).
Nesse contexto, o presente estudo trata de uma pesquisa exploratória, cujo objetivo foi analisar aspectos psicossociais e físicos como promotores de saúde no idoso. Destaca-se que estudos longitudinais da saúde do idoso na perspectiva psicossocial e física são cruciais para desvendar a complexa interação entre mente e corpo no envelhecimento, mapeando trajetórias individuais e construindo modelos preditivos para uma velhice mais saudável e autônoma. Assim, buscar-se-á analisar esses constructos em função do tempo (follow-up de um ano), por meio de correlações entre essas suas variáveis para a proposição de um modelo estatístico que diferencie variáveis preditoras de qualidade de vida e saúde para o idoso.
Método
Esta pesquisa foi autorizada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Católica de Brasília, conforme a Resolução nº 466/2012 do Ministério da Saúde, pelo CAAE nº 67653517.4.0000.0029, e subsidiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), pelo Edital nº 03/2016, protocolo nº 10461.56.37123.10042016.
Delineamento e composição da amostra
Estudo quantitativo, do tipo exploratório e longitudinal. A coleta de dados foi realizada em três momentos (linha de base, critérios de exclusão, não ter participado de alguma variável analisada ou não ter dado continuidade ao estudo no primeiro ano de intervenções. Destaca-se que foram adotadas como critério para cálculo amostral as recomendações de Tabachnick e Fidell (2001), que apontam que o erro amostral adequado para pesquisas com efeito médio deve ser 0,05 com poder observado de 0,90. Assim, considerando que na presente pesquisa os sujeitos foram comparados ao longo do tempo conforme as intervenções propostas, o teste utilizado, segundo recomenda o protocolo de teste de Field, é o teste de amostras pareadas, resultando em uma amostra mínima de 45 sujeitos. Porém, para o protocolo que será detalhado a seguir, cumpriram todas as etapas apenas 25 sujeitos, conforme previamente informado.
Instrumentos
Foram utilizados instrumentos sociodemográficos (para a caracterização da amostra), psicológicos (para a caracterização psicológica e emocional da amostra) e físicos (para o acompanhamento das alterações físicas e de saúde), de acordo com a descrição a seguir:
a) Medidas Sociodemográficas: Anamnese – com aspectos sociodemográficos, familiares, comportamentais e de saúde.
b) Medidas Psicológicas: Segundo orientações dos autores, utilizaram-se: Escala de Ansiedade de Beck (Beck & Steer, 1990); Escala de Depressão Geriátrica (GDS), adaptada por Almeida e Almeida (1999) com base na escala original (Yesavage et al., 1983); World Health Organization Quality of Life Group (WHOQOL-OLD) (Fleck et al., 2000; Fleck et al., 2003), medida de qualidade de vida específica para o grupo de idosos; Avaliação da Funcionalidade Familiar (APGAR), como uma medida de satisfação dos membros da família em relação a cinco componentes considerados básicos na unidade e funcionalidade familiar (Duarte, 2001; Smilkstein, 1978); e Escala de Desenvolvimento Pessoal (EDEP) (Ryff, 2013).
c) Medidas Físicas: Avaliação da composição corporal: realizada pelo método dual energy X-rayabsorptiometry (DEXA). As medidas por DEXA (modelo DPX-L, LUNAR Radiation, Madison, WI) são em “scan” de corpo inteiro. Todos os “scans” foram analisados por um investigador especializado, utilizando o programa para análise de composição corporal LUNAR Radiation versão 1.2i DPX-L. Para o teste de ergoespirometria, foi realizada avaliação cardiopulmonar, na qual os gases expirados foram analisados por medição direta do consumo de oxigênio para determinar o limiar ventilatório, bem como a aptidão física do idoso avaliado. Foram utilizados cinco eletrodos em cada participante; posteriormente, foi posicionada uma máscara facial (Hans Rudolph Inc., EUA) para análise dos gases expirados. Em seguida, foi realizada a calibração do equipamento em questão.
Para além dos instrumentos aqui apresentados, também foram utilizados os instrumentos das intervenções, sendo elas: estimulação cognitiva (Stimullus), treino cognitivo (MEMO), psicoeducativas e físicas, conforme descrições de estudos previamente realizados (Chariglione et al., 2018a; Chariglione et al., 2018b).
Procedimentos Metodológicos
O procedimento metodológico seguiu quatro etapas, sendo elas: seleção e recrutamento, avaliação 1 (linha de base), avaliação 2 (6 meses após) e avaliação 3 (1 ano após). Para o processo de recrutamento e seleção para a composição dos participantes, foi realizada a divulgação da pesquisa em ambientes frequentados pela comunidade. As pré-inscrições foram realizadas individualmente, e o contato propondo o convite de participação foi realizado via telefone.
Antes da etapa das avaliações, todos os idosos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e estavam cientes da possibilidade de desistirem do estudo a qualquer momento. Para a avaliação 1, todos os idosos foram avaliados individualmente com a aplicação da Anamnese e de medidas psicológicas, físicas e cognitivas. Para cada uma dessas etapas, havia um pesquisador responsável da respectiva área (psicólogo, profissional de educação física ou gerontólogo) acompanhado por profissionais da medicina e da enfermagem (nas suas respectivas coletas de dados) e com apoio de auxiliares de pesquisa. Cada avaliação durava cerca de 60 minutos. As avaliações 2 e 3 seguiram os mesmos procedimentos da avaliação 1, com exceção da Anamnese e do Miniexame do Estado Mental (MEEM), em até 30 dias após a conclusão das intervenções nos grupos experimentais em intervalos de seis meses.
Procedimento de Análise de Dados
Para a análise do conjunto de dados, foram realizadas análises de variâncias (ANOVA), controlando o efeito do tempo e teste de correlação de Kendall para verificar a associação entre variáveis físicas e psicológicas. Por fim, com o intuito de avaliar o efeito que as variáveis físicas e psicológicas têm sobre a qualidade de vida dos idosos e entendendo a qualidade de vida como uma medida importante de associação com a saúde do idoso, foi proposto um modelo de regressão linear, utilizando a qualidade de vida geral do idoso como variável resposta. O software utilizado para as análises foi o R, versão 3.4.3, utilizando o nível de significância de p ≤ 0,05.
Para análise do tamanho de efeito (d), usou-se o pacote Effsize, conforme as seguintes orientações: valores, em módulo, menores do que 0,147 são desprezíveis, valores menores do que 0,330 são pequenos, valores menores do que 0,474 são médios e valores maiores do que 0,474 são grandes (Torchiano, 2017).
Resultados
A amostra foi composta por 25 idosos com idade média igual a 68,64 anos (DP = ± 4,40). A Tabela 1 apresenta os dados de caracterização sociodemográfica com destaque para a maioria dos respondentes ser do sexo feminino (80%), possuir menos de 73 anos de idade (84%) e com distribuição da escolaridade heterogênea. Quanto ao estado civil, 40% dos respondentes são casados, a metodologia de intervenção cognitiva mais realizada é a MEMO (64%), representando pouco menos de 2/3 da amostra. A respeito da realização de atividade física, 60% não faziam atividade física, contra 40% que praticavam exercícios físicos no momento do estudo.
Tabela 1 Descrição das Variáveis Sociodemográficas
| Variável | Categoria | Frequência | Porcentagem |
|---|---|---|---|
| Idade | 61 a 66 anos | 9 | 36% |
| 67 a 72 anos | 12 | 48% | |
| 73 a 78 anos | 3 | 12% | |
| 79 a 84 anos | 0 | 0% | |
| Mais de 84 | 1 | 4% | |
| Sexo | Feminino | 20 | 80% |
| Masculino | 5 | 20% | |
| Escolaridade | Fundamental Incompleto | 7 | 28% |
| Fundamental Completo | 3 | 12% | |
| Ensino Médio Incompleto | 1 | 4% | |
| Ensino Médio Completo | 8 | 32% | |
| Superior Incompleto | 1 | 4% | |
| Superior Completo | 5 | 20% | |
| Estado Civil | Casado | 10 | 40% |
| Separado/Divorciado | 7 | 28% | |
| Outro | 6 | 24% | |
| Solteiro | 2 | 8% | |
| Intervenção Cognitiva | MEMO | 16 | 64% |
| Stimullus | 9 | 36% | |
| Intervenção Física | Não faz atividade física | 15 | 60% |
| Faz atividade física | 10 | 40% |
Por meio da Tabela 2, é possível analisar o valor médio das variáveis psicológicas ao longo do tempo, assim como seus respectivos intervalos de confiança. Desse modo, a maior parte das variáveis não aparenta mudança brusca de comportamento entre os tempos.
Tabela 2 Descrição das Variáveis Psicológicas nos Três Momentos
| Variável | Mínimo | 1º Q | Mediana | Média | 3º Q | Máximo | DP |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Medidas psicológicas – Tempo 1 | |||||||
| FS | 7 | 8 | 8 | 9,44 | 11 | 15 | 2,43 |
| AUT | 9 | 12 | 14 | 14,08 | 16 | 20 | 2,81 |
| PPF | 11 | 14 | 15 | 15,96 | 18 | 19 | 2,21 |
| PSO | 7 | 15 | 16 | 15,28 | 17 | 20 | 3,13 |
| MEM | 4 | 6 | 8 | 8,96 | 12 | 18 | 4,15 |
| INT | 8 | 13 | 16 | 15,52 | 18 | 20 | 3,28 |
| GDS | 0 | 2 | 3 | 4,12 | 6 | 12 | 3,03 |
| APGAR | 0 | 6 | 8 | 7,36 | 9 | 10 | 2,61 |
| EDEP | 85 | 102 | 111 | 109,56 | 118 | 127 | 11,35 |
| BECK | 0 | 2 | 3 | 5,84 | 8 | 18 | 5,54 |
| Medidas psicológicas – Tempo 2 | |||||||
| FS | 4 | 7 | 8 | 8,64 | 10 | 14 | 2,38 |
| AUT | 12 | 13 | 15 | 15,24 | 17 | 20 | 2,47 |
| PPF | 11 | 15 | 16 | 15,8 | 17 | 19 | 2,20 |
| PSO | 11 | 14 | 16 | 15,72 | 17 | 20 | 2,57 |
| MEM | 4 | 6 | 9 | 9,16 | 12 | 16 | 3,75 |
| INT | 10 | 14 | 16 | 15,44 | 17 | 20 | 2,89 |
| GDS | 0 | 1 | 2 | 2,64 | 4 | 8 | 2,25 |
| APGAR | 1 | 6 | 8 | 7,24 | 9 | 10 | 2,71 |
| EDEP | 91 | 104 | 105 | 109,72 | 113 | 136 | 12,15 |
| BECK | 0 | 2 | 5 | 6,92 | 10 | 25 | 7,18 |
| Medidas psicológicas – Tempo 3 | |||||||
| FS | 7 | 8 | 9 | 9,32 | 10 | 13 | 1,84 |
| AUT | 8 | 13 | 14 | 14,48 | 16 | 20 | 2,62 |
| PPF | 11 | 14 | 15 | 15,12 | 16 | 20 | 2,40 |
| PSO | 10 | 14 | 16 | 15,2 | 17 | 20 | 2,40 |
| MEM | 4 | 7 | 8 | 8,56 | 9 | 16 | 2,74 |
| INT | 4 | 13 | 15 | 14,36 | 16 | 20 | 3,60 |
| GDS | 0 | 1 | 2 | 2,68 | 3 | 11 | 2,63 |
| APGAR | 0 | 7 | 8 | 7,8 | 10 | 10 | 2,55 |
| EDEP | 91 | 100 | 106 | 112,2 | 125 | 159 | 16,69 |
| BECK | 0 | 1 | 3 | 4,44 | 7 | 16 | 4,28 |
Nota. Q = Quadrante; DP = Desvio-padrão; FS = Funções Sensoriais; AUT= Autonomia; PPF = Atividades passadas, presentes e futuras; PSO = Participação Social; MEM = Morte e Morrer; INT = Intimidade; GDS = Escala de depressão geriátrica; APGAR = Avaliação da Funcionalidade Familiar; EDEP = Escala de desenvolvimento pessoal; BECK = Escala de ansiedade de Beck.
A análise do modelo ANOVA para as variáveis psicológicas verificou as variáveis afetadas pelas intervenções cognitivas, pelo tempo e pela combinação de ambos. Ao analisar a interação, percebe-se que não existe alteração do efeito simples das intervenções cognitivas nos três diferentes tempos, ou seja, as intervenções cognitivas ao longo do tempo não alteraram de forma significativa os resultados encontrados nas medidas psicológicas (p ≥ 0,05). Foi verificado apenas um efeito entre FS e P-valor Intervenção Física (p=0,04). O tamanho do efeito, medido pelo d de Cohen, foi d = 0,310, indicando um efeito pequeno.
Também foi realizada ANOVA para as variáveis psicológicas afetadas pelas intervenções físicas. De forma geral, não aparenta haver discrepâncias fortes entre os dois grupos, o que pode ser observado pela sobreposição dos intervalos de confiança. Porém, a variável EDEP (p=0,00) apresenta comportamento diferente, o grupo que passou por intervenção física tem valores médios maiores, em todos os tempos, que os do outro grupo estudado, destacando que o tamanho do efeito, medido pelo d de Cohen, d = 0,230, indica um efeito pequeno. Ademais, a GDS obteve valores muito semelhantes nos dois grupos, mas característica de queda nos valores após o tempo 1, cenário similar ao que foi vislumbrado na análise por subgrupo de intervenção cognitiva.
A Tabela 3 mostra as mudanças do valor médio, das variáveis físicas no decorrer do tempo e seus respectivos intervalos de confiança. Assim, nota-se que, para a maioria das variáveis, há um comportamento semelhante para os dois tipos de intervenção cognitiva, com exceção da pressão arterial sistólica (repouso), na qual o grupo com intervenção do tipo Stimullus teve queda no valor médio durante o tempo 2. Ademais, percebe-se que, para a variável Massa Magra (g), o grupo com intervenção Stimullus obteve média maior em todos os três tempos, e para a variável IMC, o grupo com intervenção MEMO teve média maior nos três tempos observados.
Tabela 3 Descrição das Variáveis Físicas nos Três Momentos
| Variável | Mínimo | 1º Q | Mediana | Média | 3º Q | Máximo | DP |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Medidas físicas – Tempo 1 | |||||||
| P.A.S. repouso | 88,00 | 116,00 | 127,00 | 125,56 | 134,00 | 162,00 | 16,68 |
| P.A.D. repouso | 58,00 | 65,00 | 68,00 | 73,64 | 84,00 | 96,00 | 11,17 |
| DMO g/cm² | 930,00 | 1.075,00 | 1.141,00 | 1.127,60 | 1.190,00 | 1.334,00 | 98,68 |
| DEXA (%G) | 20,00 | 32,20 | 36,50 | 36,08 | 38,20 | 53,50 | 6,77 |
| Massa gorda (g) | 12.737,00 | 21.287,00 | 25.700,00 | 25.295,96 | 27.927,00 | 45.511,00 | 7.101,49 |
| Massa Magra (g) | 36.322,00 | 38.445,00 | 43.166,00 | 44.130,20 | 46.165,00 | 63.504,00 | 7.011,29 |
| VO² ml/kg, min | 6,71 | 18,72 | 21,72 | 21,51 | 24,63 | 29,41 | 4,77 |
| IMC | 21,59 | 25,79 | 28,38 | 27,89 | 29,20 | 34,15 | 3,17 |
| Medidas físicas – Tempo 2 | |||||||
| P.A.S. repouso | 83,00 | 113,75 | 125,50 | 123,71 | 133,50 | 149,00 | 16,21 |
| P.A.D. repouso | 45,00 | 64,00 | 72,00 | 74,68 | 81,00 | 126,00 | 15,72 |
| DMO g/cm² | 951,00 | 1.047,00 | 1.120,00 | 1.122,64 | 1.182,00 | 1.364,00 | 100,43 |
| DEXA (%G) | 19,10 | 35,40 | 41,10 | 41,62 | 49,40 | 58,30 | 9,46 |
| Massa Gorda (g) | 12.194,00 | 24.678,00 | 29.901,00 | 29.691,28 | 34.486,00 | 50.407,00 | 8.780,45 |
| Massa Magra (g) | 31.175,00 | 35.946,00 | 37.951,00 | 41.045,08 | 43.188,00 | 68.619,00 | 8.323,79 |
| VO² ml/kg, min | 6,71 | 20,39 | 23,70 | 24,64 | 29,93 | 34,98 | 6,91 |
| IMC | 21,29 | 25,76 | 27,97 | 27,88 | 29,51 | 34,58 | 3,27 |
| Medidas físicas – Tempo 3 | |||||||
| P.A.S. repouso | 94,00 | 115,50 | 131,00 | 127,67 | 139,25 | 147,00 | 13,89 |
| P.A.D. repouso | 59,00 | 70,00 | 73,00 | 76,96 | 85,00 | 126,00 | 13,94 |
| DMO g/cm² | 980,00 | 1.086,00 | 1.130,00 | 1.153,16 | 1.238,00 | 1.311,00 | 110,63 |
| DEXA (%G) | 14,90 | 32,50 | 33,90 | 34.072,00 | 38,40 | 47,50 | 7,24 |
| Massa Gorda (g) | 9.490,00 | 19.280,00 | 25.730,00 | 24.611,84 | 31.230,00 | 38.901,00 | 7.301,96 |
| Massa Magra (g) | 36.940,00 | 40.082,00 | 43.188,00 | 47.176,44 | 53.790,00 | 65.420,00 | 10.070,03 |
| VO² ml/kg, min | 6,71 | 19,96 | 23,72 | 24,51 | 27,30 | 34,98 | 7,25 |
| IMC | 21,23 | 26,05 | 27,97 | 27,97 | 29,79 | 35,71 | 3,41 |
Nota. Q = Quadrante; DP= Desvio-padrão; P.A.S. = Pressão arterial sistólica; P.A.D. = Pressão arterial diastólica; DMO = Densidade Mineral Óssea; DEXA = Absorciometria de feixe duplo; VO² ml/kg, min (A) = Capacidade cardiorrespiratória; IMC = indicador antropométrico.
A análise do modelo ANOVA para as variáveis físicas não apresentou resultados significativos para a influência do tipo de intervenção cognitiva, tempo ou interação (p ≥ 0,05). ANOVA para as variáveis físicas diante da intervenção ou não de atividade física indicou que as variáveis DXO (p=0,00; d=0,161), DEXA (p=0,00; d=0,182) e Massa Magra (p=0,00; d=0,183) apresentaram influência do tipo de intervenção física. O tamanho do efeito das variáveis supracitadas também foi pequeno (d ≤ 0,330).
Para avaliar a correlação entre as medidas psicológicas e físicas, foi realizado o coeficiente de correlação Kendall. Observou-se que as variáveis físicas e cognitivas foram fracamente correlacionadas, de acordo com os p-valores. As medidas de p-valor indicaram que, dentre as medidas psicológicas, INT, AUT e APGAR não estão correlacionadas com nenhuma das medidas físicas. Analisando-se pelas medidas físicas, a Massa Magra e P.A.D. não se correlacionam com nenhuma medida psicológica. No geral, as únicas correlações são: QVG e VO² (p=0,04; d=0,260), PSO e DMO (p=0,00; d=0,182), PSO e Medicamento (p=0,05; d=0,152), PPF e Medicamento (p=0,02; d=0,230), MEM e DMO (p=0,01; d=0,162), MEM e Medicamento (p=0,00; d=0,282), GDS e IMC (p=0,01; d=0,174), GDS e P.A.S. (p=0,05; d=0,182), FS e DEXA (p=0,03; d=0,188), FS e Massa Gorda (p=0,01; d=0,232), FS e P.A.S. (p=0,01; d=0,294), EDEP e DMO (p=0,00; d=0,153), EDEP e IMC (p=0,04; d=0,167), Ansiedade Beck e DMO (p=0,01; d=0,155) e Ansiedade Beck e Medicamento (p=0,03; d=0,282). O tamanho do efeito das variáveis supracitadas também foi pequeno (d ≤ 0,330).
Com o objetivo de estimar a força de relação entre as variáveis físicas e psicológicas dos idosos sobre sua qualidade de vida, um modelo de regressão linear foi proposto. Esse modelo é formado pelas variáveis GDS, APGAR, DMO, Massa Magra e IMC, como variáveis explicativas, e apresenta um R2 ajustado de 0,755, ou seja, 75,5% da variação da QVG é explicada pelo modelo.
As variáveis GDS (p=0,00), APGAR (p=0,00), Massa Magra (p=0,00) e IMC (p=0,00) são estatisticamente significativas, isto é, possuem efeito sobre a qualidade de vida do idoso. O aumento de uma unidade no GDS do idoso leva a uma diminuição esperada de, aproximadamente, 1,17 ponto na escala da qualidade de vida; já o aumento de 1 unidade no APGAR leva a um aumento esperado de 0,95 ponto na QVG. Por fim, o aumento de 1 unidade no IMC leva a um aumento de 1,18 ponto na QVG, aproximadamente. Apesar de a Massa Magra ser significativa para o modelo, sua variação tem um efeito muito próximo a zero na QVG.
Para avaliar se essas suposições são atendidas, utiliza-se a análise dos resíduos do modelo, isto é, a diferença entre os valores observados na amostra e valores estimados no modelo. Os resultados da análise de diagnóstico apresentaram normalidade (p=0,90) pelo teste de Shapiro-Wilk, independência (p=0,70) pelo teste de Durbin-Watson e homogeneidade (p=0,70) pelo teste de Breusch-Pagan. Portanto, o modelo atende às suposições iniciais básicas e pode ser utilizado para estudar o fenômeno em questão.
Discussão
Os resultados apresentados corroboram estudos nacionais anteriores, que apresentam uma população pesquisada majoritariamente feminina, com baixa escolaridade e casada (Aita et al., 2021; Chariglione et al., 2018b; Passos et al., 2020); Vale et al., 2019). Por meio das análises de variância, foi possível determinar se existe uma diferença significativa das intervenções físicas e cognitivas sobre as medidas físicas e psicológicas dos idosos. Das variáveis psicológicas, foi observado que apenas as funções sensoriais apresentam resultados diferentes para cada uma das intervenções cognitivas, sendo a intervenção Stimullus a que apresenta os melhores resultados. Essa associação entre o tipo de intervenção e sua medida de desempenho se explica pela intervenção Stimullus possuir atividades de estimulação visual e imagética, beneficiando, assim, os idosos nessa função cognitiva, como confirmado por Chariglione et al. (2018a).
Com relação às variáveis físicas, as intervenções cognitivas não apresentaram diferenças significativas entre si nos três diferentes tempos, indicando que o fator tipo de intervenção não possui associação com ganhos físicos. Esses dados devem ser verificados com parcimô nia, visto que o baixo número de idosos avaliados e a heterogeneidade da amostra podem diminuir o poder de predição de determinadas variáveis (Alvarenga et al., 2018; Guimarães et al., 2020; Souza et al., 2017), assim como o fato de os idosos melhorarem de maneira geral, independentemente do tipo de intervenção, que já se refere a um resultado positivo no processo do envelhecimento (Nazar et al., 2020).
Observou-se que duas variáveis psicológicas apresentaram alteração após a intervenção física, sendo elas PSO na WHOQOL-OLD e EDEP, em que se verifica que os idosos submetidos a atividades físicas apresentam maiores valores para essas duas escalas. Resultados anteriores corroboram essa associação de realização de atividades físicas e os seus benefícios em medidas de qualidade de vida (Azevedo Filho et al., 2019; Faustino & Neves, 2020) e desenvolvimento pessoal do idoso (Oliveira et al., 2020b).
Três das variáveis físicas sofreram influência da intervenção física, sendo elas: DMO, Massa Magra e DEXA. Acerca das duas primeiras variáveis, o grupo que sofreu intervenção apresentou valores mais elevados durante todo o tempo, a cada nova avaliação em relação à linha de base. Quanto ao DEXA, o grupo que sofreu intervenção apresentou valores mais baixos durante todo o tempo, corroborando os resultados dos estudos de Aita et al. (2021).
Com a análise de correlações entre as variáveis psicológicas com as físicas, notou-se que as únicas variáveis físicas que não apresentaram correlação com nenhuma medida psicológica foram Massa Magra e P.A.S. Todas as demais se correlacionam com pelo menos uma das variáveis psicológicas. Apesar desses resultados apresentarem semelhanças com outros estudos, sua interpretação deve ser realizada com cuidado, pois Massa Magra e P.A.S. não são capazes de avaliar as alterações nos compartimentos corporais em decorrência da idade (Borges et al., 2024).
O modelo de regressão linear identificou que GDS, APGAR e IMC são, estatisticamente, significativas para o modelo, ou seja, controlando as demais variáveis, elas possuem efeito sobre a qualidade de vida do idoso. Buscando uma estimativa para a saúde do idoso, entende-se o quão menos depressivo e mais funcional à família e com melhor IMC pode ser a saúde do idoso. Esse modelo confirma discussões anteriores que apresentam a saúde do idoso dentro de reflexões biopsicossociais (Ramalho et al., 2018; Sousa et al., 2020).
Dentre as limitações do estudo, destacam-se a representatividade da amostra de conveniência para a população idosa, o N reduzido, a amostra relativamente heterogênea, o tempo de seguimento de um ano e o efeito da replicação de testes que podem ter mascarado declínios e, talvez, superestimado incrementos nos testes avaliados. Além disso, medidas de correlação não fornecem evidências de dependência ou causalidade, sendo indicados estudos confirmatórios em pesquisas futuras. Porém, destaca-se que foram adotadas medidas de controle e redução de vieses na alocação da amostra que permitiram um avanço no controle metodológico, tempo de acompanhamento, verificação do efeito de aprendizagem e controle estatístico por meio das análises realizadas neste estudo.
Conclusão
Diante das reflexões realizadas, entendem-se os estudos relacionados à saúde do idoso, dentro de perspectivas das alterações psicossociais e físicas, como um campo importante de investigação ante um entendimento de saúde biopsicossocial. Discutir associações e correlações entre aspectos psicológicos e como esses se associam às próprias questões físicas comuns ao processo do envelhecimento se faz importante na atualidade, uma vez que os múltiplos aspectos que caracterizam o processo de envelhecimento da pessoa idosa necessitam de atenção integral e humanizada à saúde. Ações multidimensionais e multiprofissionais propõem-se, além do controle e da prevenção das doenças, a oferecer bem-estar físico, psíquico e social, impactando em um processo saudável e promotor de qualidade de vida para a pessoa idosa.
As perspectivas psicológicas e físicas permitem uma visão mais ampla da saúde do idoso e, neste estudo, buscou-se essa ampla reflexão, sob perspectivas multidisciplinares, especificamente focadas em uma compreensão gerontológica. Dentro dessas perspectivas, refletiu-se quanto à necessidade de intervenções preventivas voltadas para uma população de idosos (ainda saudáveis) que não se encontram em quadro de declínio cognitivo ou demencial, em que comumente os estudos nessa área são mais realizados. Assim, entende-se o cuidado gerontológico aos idosos como um processo de acompanhamento em todo o seu envelhecimento, objetivando não somente a qualidade de vida e a longevidade, mas também o envelhecimento saudável, perpassando por um processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional, propiciando o bem-estar, mesmo em idades mais avançadas.
Por meio do seu trabalho, o acompanhamento gerontológico pode contribuir para a promoção do envelhecimento saudável e ativo ao articular seus saberes com o de diversos profissionais, ao realizar a escuta ativa e estimular os idosos a desenvolverem suas atividades e colocarem suas habilidades e potencialidades em prática.














