Introdução
O presente artigo foi desenvolvido a partir de um relato de uma análise institucional realizada no Corpo de Bombeiros Militar de um município do interior do Rio Grande do Sul (CBMRS), como tarefa obrigatória para a conclusão de Estágio Básico, disciplina da matriz curricular do curso de Psicologia. Para tanto, utilizamos o paradigma da análise institucional, nome dado, conforme aponta Santos (2002), a um movimento ocorrido na década de 1970, a partir da emergência de conceitos e instrumentos de análise, que tem o intuito de provocar os indivíduos nas instituições a promoverem sua autoanálise e, consequentemente, uma autogestão. Diante disso, a Análise Institucional tem como objetivo possibilitar o conhecimento da organização, bem como das relações interpessoais que lá ocorrem, do funcionamento entre os setores e também do desenvolvimento dessa frente à comunidade a qual pertence. Essa análise abrange um olhar muito mais amplo e sensível da instituição, voltando-se a ações que oportunizem autoconhecimento e transformações dentro da mesma. Portanto, para que a análise institucional aconteça, é necessário que haja a definição de um campo de análise e de um campo de intervenção.
Dessa maneira, destaca-se o campo de intervenção, o qual Baremblitt (2002) entende como sendo "o recorte'', o espaço delimitado para planejar estratégias, logísticas, táticas, técnicas para operar sobre este âmbito e transformá-lo realmente, concretamente” (p. 60). Ainda, este sempre será menor que o campo de análise, pois seria demasiado difícil realizar uma intervenção a nível nacional ou mundial, o máximo seria uma intervenção a nível organizacional. Desse modo, o campo de análise pode estar articulado com um campo de intervenção. Em outras palavras, “um campo de análise é pensável sem intervenção, mas um campo de intervenção é impensável sem um campo de análise. Pode-se compreender e não intervir, mas não se pode intervir sem alguma forma de compreensão” (Baremblitt, 2002, p. 61).
Para esse fim, a escolha do Corpo de Bombeiros enquanto campo de intervenção se deu pelo fato de existirem poucos trabalhos realizados, com enfoque na análise institucional da Segurança Pública, em especial no serviço dos bombeiros militares. Cabe, assim, caracterizar essa instituição como pública e governamental, que tem como missão constitucional a prevenção e combate a incêndios, buscas e salvamentos, às ações de defesa civil e na polícia judiciária militar.
O campo de análise estudado, portanto, se refere ao campo da Segurança Pública, o qual Carvalho e Silva (2011) apontam que emerge enquanto uma demanda da sociedade e necessita de organizações e estruturas estatais para se concretizar. Essas instituições são, portanto, entendidas como um todo, um sistema, que possui como "eixo político estratégico a política da Segurança Pública, ou seja, o conjunto de ações delineadas em planos e programas e implementados como forma de garantir a segurança individual e coletiva” (p. 60).
Entende-se como campo de análise o que Baremblitt (2002) descreve como “delimitar um objeto ou um campo e aplicar-lhe o aparelho conceitual do Institucionalismo para entendê-lo, para saber como funciona, como estão colocadas e articuladas suas determinações, suas causas, como se geram seus efeitos etc.” (p. 60). Contudo, o autor ainda ressalta que isso não implica necessariamente em uma intervenção concreta sobre o campo delimitado, mas uma forma de entendimento sensível que oportuniza autoconhecimento e transformações na instituição.
Ainda em relação ao atual sistema de Segurança Pública, Carvalho e Silva (2011) apontam que esse somente entrou em vigor a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, bem como apenas foi reconhecido enquanto “dever do Estado e responsabilidade de todos” (art. 144) (Constituição, 1988, p. 1) uma década depois da promulgação da Constituição Cidadã. A partir desse momento, autores como Carvalho e Silva (2011) afirmam que a Segurança Pública se constitui sob uma ótica democrática embasada nos direitos humanos, “em que o enfrentamento da criminalidade não significa a instituição da arbitrariedade, mas a adoção de procedimentos tático operacionais e político-sociais que considerem a questão em sua complexidade” (p. 62).
Nesse sentido, o campo da Segurança Pública abrange algumas instituições vinculadas, as quais auxiliarão, conforme Louzeiro (2016), a efetivar a segurança como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos. Assim, segundo a Secretaria da Segurança Pública (2021), são elas: Brigada Militar, Polícia Civil, Instituto Geral de Perícias, Departamento de Trânsito do Estado do Rio Grande do Sul (Detran-RS) e o Corpo de Bombeiros Militar, o qual é o enfoque deste trabalho. Conforme a Academia de Bombeiros Militar, o CBMRS está vinculado administrativamente à Secretaria de Estado responsável pela Segurança Pública no Estado do Rio Grande do Sul, devendo exercer as atividades de polícia judiciária militar no âmbito de sua competência, além de promover a segurança, a prevenção, a proteção e o combate a incêndios, realizar os serviços de busca, salvamento e resgates aéreo, aquático e terrestre no Estado e planejar e aplicar as ações de proteção e defesa civil no Estado.
Referente a vinculação do Corpo de Bombeiros à Secretaria de Segurança Pública, cabe salientar, ainda, que embora realize atividades diferentes dos Policiais, a Constituição Federal aponta, no art. 144, §5º, que “aos Corpos de Bombeiros Militar além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil” (Constituição, 1988, p. 1).
Entendida a relação do profissional Bombeiro Militar com a Segurança Pública, Natividade (2009) busca a reflexão de que, no exercício de sua atividade, o Bombeiro Militar é, assim como os demais policiais, aquele que coloca sua vida em risco em prol da segurança de terceiros ou de bens públicos. É comum, então, que no senso popular
[...] a palavra “bombeiro”, na maioria das vezes, aparece carregada de um sentido de heroísmo e salvação. De fato, ao ser tarefa de um bombeiro todo e qualquer tipo de salvamento – entre eles, o combate e resgate de vítimas em incêndios, primeiros socorros e resgate em situação de acidentes de trânsito, buscas e salvamentos terrestres e aquáticos, ajuda em situações de calamidades como destelhamentos e desabamentos, salvamento em altura, captura de animais, corte de árvores, vistorias contra incêndios, palestras preventivas, e até mesmo partos de emergência a caminho do hospital - fica subjacente ao título um certo brilho de “super-herói”, um “super-homem” invencível, a solução nas piores tragédias, quando tudo está perdido (Monteiro et al., 2007, p. 560, citados por Prado, 2011, p. 14).
É evidente que, no decorrer da história do Corpo de Bombeiros, muitos momentos foram simbólicos, sendo inúmeros os legados e, por isso, tornou-se necessário destacar alguns. Dentre esses eventos, é importante salientar, também, que somente em 18 de março de 2014, anos depois da lei que vinculou o Corpo de Bombeiros à Brigada Militar, o governador do Estado do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, assinou a PEC 282, que se referia a desvinculação dessas duas instituições. Essa independência foi decorrente de anos lutando por uma separação administrativa e operacional. Desse modo, a Academia de Bombeiro Militar aponta que “a Emenda Constitucional n. 67, de 17/06/14, estabeleceu a separação constitucional do Corpo de Bombeiros Militar da Brigada Militar” (Lei Complementar n. 14.920, 2016, p. 1).
Embora a separação já tenha sido devidamente efetivada, o Corpo de Bombeiros ainda não possui uma legislação própria. Portanto, conforme o CBMRS (2022), o Art. 18 da Lei Complementar n. 15.008, de 13 de julho de 2017, aponta que, até que seja promulgada uma legislação para o Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, estes devem seguir o Estatuto dos Militares Estaduais e os critérios da Brigada Militar. Sendo assim, deve-se compreender que esta história ainda não está finalizada, pois ela segue se constituindo na medida em que a identidade dos Bombeiros Militares está cada vez mais forte, especialmente após a sua independência da Brigada Militar, fato que pode ser entendido como um divisor de águas na história dessa instituição.
Oferta, encomenda, demanda e encargo na análise institucional
Após estabelecidos os campos de análise e de intervenção a serem estudados, uma análise institucional contempla, ainda, demandas inconscientes encontradas na instituição, bem como a oferta que justifica o trabalho dos analisadores. Em uma primeira instância surge a “oferta”, a qual, conforme Baremblitt (2002), deve ocorrer antes da “demanda”, para que haja uma melhor compreensão do funcionamento e das relações presentes na instituição. No caso apresentado, a “oferta” foi a própria análise institucional proposta no Corpo de Bombeiros em questão. No que se refere à análise da oferta, é imprescindível salientar que a instituição em questão não ocupa um lugar de “cliente”, mas de participante.
A encomenda, conforme apresenta Lourau (1975), desdobra o pedido de análise realizado pela instituição, e assim gera a demanda como o seu desdobramento problemático, expondo o emaranhado de forças presentes no pedido de análise. De maneira sucinta, a análise da encomenda consiste no que é esperado dos interventores pela instituição, ou seja, por quem requisitou o serviço.
Nesse sentido, percebe-se que a encomenda no local se voltava para a questão de uma psicoterapia com os bombeiros, como um meio de aliviar os sentimentos reprimidos. Segundo Natividade (2009), esse pedido é característico de instituições militares, pois a identidade desses sujeitos vai para além das questões do trabalho, afetando significativamente sua individualidade, visto que esses estão vulneráveis diariamente a tragédias, o que acaba por interferir significativamente na vida familiar e profissional. Tal fato não deve, contudo, impossibilitar a atividade desses profissionais Bombeiros Militares, pois isso poderia impedir um salvamento de acontecer com o sucesso esperado. Diante disso, surgiu em meio às falas dos bombeiros soldados, o aspecto de “utilizar um escudo que protegesse essa fragilidade”, o que emergiu como possibilidade de demanda inicial para a análise institucional proposta.
No que diz respeito a análise da demanda, essa é a análise e deciframento que se faz do “porquê” do aceite da instituição em relação à análise proposta. Dessa maneira, a “demanda” em questão no Corpo de Bombeiros em que a análise foi realizada, como já foi citado anteriormente, manifestou-se a partir da forma como o trabalho afeta a saúde mental dos bombeiros. Isso posto, foram encontrados autores como Cremasco, Constantinidis e Silva (2008), que corroboram a demanda que surgiu, afirmando que o militarismo, por padronizar os comportamentos e condutas, tende a dificultar a expressão do que é individual e subjetivo de cada indivíduo. Esses ideais difundidos, frequentemente desencadeiam um sofrimento para os Bombeiros Militares, refletindo em sintomas de estresse e problemas psicológicos.
É importante destacar que a “demanda” foi produzida em conjunto com os servidores-bombeiros. Isso significa que, apesar da iniciativa de proposta de análise institucional ser relacionada à uma atividade acadêmica uma concordância por parte da instituição, que reconheceu a necessidade dessa modalidade de intervenção. Neste sentido, se poderia pensar em um processo de identificação de uma demanda latente em que não houve o pedido formal de análise, mas que em discussão com as equipes pode ser formulada.
Outro fator de influência é que, novamente pelo fato da instituição ser embasada pela disciplina e hierarquia, Natividade (2009) aponta que há uma “invasão” do treinamento militar na vida pessoal do sujeito, fazendo com que o comportamento continue padronizado em ambientes não militares, como por exemplo em festas familiares. Dessa maneira, muitas vezes é visível que “esses sujeitos vivem a profissão não só durante seu horário de trabalho, mas em toda sua vida” (p. 418). A autora Louzeiro (2016) ainda ressalta que, quando os bombeiros estão atuando nas ocorrências, por mais que possuam conhecimentos e preparo técnico para agirem, é impossível que seus sentimentos sejam desvinculados do evento. No entanto, a diferença incide na forma de cada profissional interagir psicologicamente com o desfecho de cada chamado, o que afeta diretamente a saúde mental desses indivíduos.
Após dissertar sobre a demanda, cabe também teorizar sobre o “encargo”. Conforme Baremblitt (2002), de modo geral, pode-se dizer que este conceito remete aos sentidos não explícitos, não- manifestos, dissimulados, ignorados ou reprimidos, e que comporta uma demanda de bens ou serviços. Além disso, o encargo nunca coincide com a demanda, por isso deve ser decifrado a partir dela, sendo que seu sentido varia segundo o segmento organizacional que a fórmula. Nesse sentido, percebeu-se, a partir das análises e observações, que o encargo pareceu estar intimamente vinculado com o atual processo de transição que o Corpo de Bombeiros Militar vem passando desde o ano de 2014, quando ocorreu a separação desta instituição da Brigada Militar. Esse marco histórico justifica as atitudes que os bombeiros têm apresentado ao longo das visitas, nas quais estão quase sempre tentando mostrar a importância da profissão, como forma de reconhecer o seu papel na sociedade e sua identidade enquanto bombeiros militares.
Método
Dentro das instituições, em geral, ocorrem momentos em que se torna necessário uma reorganização a fim de promover mudanças. Frente a isso, Baremblitt (2002) compreende “analisador espontâneo” (p. 103) como um fenômeno divisor de águas, que ocorre naturalmente, ou seja, sem a intervenção de um analista institucional. Como consequência, a emergência desse fenômeno específico provoca na instituição uma mobilização, fazendo com que o(s) grupo(s) repensem a realidade em que atuam, bem como suas relações interpessoais, buscando transformações na organização. Isso posto, retomando o panorama histórico feito anteriormente da instituição analisada, pode-se compreender como um evento importante a separação ocorrida entre o Corpo de Bombeiros Militar e a Brigada Militar no Rio Grande do Sul. Esse analisador espontâneo reflete diretamente no Corpo de Bombeiros analisado, pois esse estabelecimento necessitou se reorganizar enquanto uma nova e independente instituição.
Baremblitt (2002) aponta que, para além de analisadores espontâneos, existem maneiras artificiais de provocar a instituição a reorganizar-se e promover uma mudança. Esse dispositivo, denominado “analisador artificial” (p. 103), é um operador de intervenção construído pelo analista institucional, que pode ser aceito ou não pela instituição. Frente a isso, entende-se que a principal estratégia de intervenção utilizada para realizar a Análise Institucional no Corpo de Bombeiros, também compreendida como um analisador artificial, se deu pelo simples fato de duas estagiárias estarem inseridas na instituição durante quatro meses, visto que isso, por si só, já causou uma mobilização- interferência na instituição.
Assim sendo, no decorrer de todas as visitas foram feitas intervenções, por meio do diálogo com os diferentes setores, sempre questionando o que cada um pensava a respeito do seu trabalho. Essas intervenções “informais” se deram de forma recorrente, pois os bombeiros se dispunham a falar abertamente sobre diversas questões, visto que não estão habituados a ter alguém para escutá-los de maneira livre, sem julgamentos ou preconceitos.
Dentre as intervenções disponíveis, foi escolhida como principal estratégia a realização de rodas de conversa com as guarnições em plantão, visto que a demanda emergente na instituição é voltada para a escuta de questões relativas à saúde mental. Ao todo foram realizadas treze visitas ao local, dentre as quais foram feitas visitas aos diferentes setores da instituição, observação participante, conversas com os gestores e, em dois encontros específicos, ocorreram duas rodas de conversa com alguns bombeiros soldados. Participaram das rodas de conversa em torno de 12 pessoas, sendo que a média por encontro foi de 10 profissionais.
Como técnica para manejar esses grupos, foi utilizada uma pergunta norteadora: “O que significa ser bombeiro para você?”. A partir disso, pôde-se perceber como resultado da indagação, o quanto esses trabalhadores anseiam por espaços semelhantes aos que foram construídos durante o período de análise institucional, ficando explícita a confiança e a seriedade que trouxeram para as rodas, ressaltando a importância da presença de intervenções institucionais com enfoque psicossocial nesse meio.
Resultados e discussão
É compreendido que uma Análise Institucional tem como finalidade provocar os indivíduos dentro de instituições a promover mudanças a partir de uma autoanálise e uma autogestão. Tendo isso em vista, as instituições devem estar dispostas a receber as propostas sugeridas pelos analistas durante o processo de construção dessa análise, para que esse trabalho se dê satisfatoriamente. Para que isso ocorra, o estabelecimento de um vínculo com os indivíduos do local é importante, pois permite aos analistas vivenciar a realidade na qual estão inseridos, resultando na possibilidade de realizar intervenções que mobilizem a instituição.
Desse modo, no decorrer das treze visitas realizadas no Corpo de Bombeiros, a organização como um todo se mostrou receptiva com a proposta de Análise Institucional, se dispondo a participar ativamente das atividades provindas dessa. Assim, a partir da inserção no local, percebeu-se uma boa relação intersetorial, em que há um respeito mútuo entre as diferentes posições hierárquicas, bem como um cooperativismo entre os indivíduos, o que vai além da postura rígida do militarismo. Portanto, o diálogo é algo frequente e permitido, reafirmando a transversalidade entre as relações e promovendo uma constante autoanálise e consequente autogestão. Entretanto, ressalta-se de que se trata de uma intervenção de curto prazo, podendo ter propiciado uma percepção superficial das relações.
À vista disso, as relações em todo o CBMRS são baseadas no militarismo, o qual traz consigo as questões da hierarquia e da disciplina. Prado (2011) relata que a hierarquia militar serve como um mecanismo superior de observação e controle, pois é capaz de superar a individualidade. Assim,
O binômio “hierarquia-disciplina” rege o cotidiano administrativo da Brigada Militar, a partir de um sistema de relações hipercodificado, com uma série de prescrições, comandos, regulamentos, cerimonial e protocolos estabelecidos não só para ocasiões solenes, mas para os fatos triviais da vida. No cotidiano da Brigada Militar, chamam-se “formaturas” os momentos em que o pelotão se reúne em posição de sentido para receber as orientações diárias ou semanais do comando (Bassani, 2020, p. 75).
Já em relação à disciplina, o mesmo autor a define como sendo uma “rigorosa observância e o acatamento integral das leis, regulamentos, normas e disposições que fundamentam o organismo policial - militar” (Prado, 2011, p. 17). Embora aqui estejamos falando de policiais militares, devemos relembrar a Lei Complementar n. 14.920 (2016), a qual dispõe sobre a Organização Básica do Corpo de Bombeiros Militar. Conforme o que está disposto no art. 1º da referida lei, “o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio Grande do Sul – CBMRS – é instituição permanente e regular, organizada com base na hierarquia e na disciplina” (Lei Complementar n. 14.920, 2016, p. 1).
É interessante compreender, também, que a responsabilidade aumentará de acordo com o grau hierárquico que cada sujeito se encontra. Temos, então, os seguintes cargos e postos:
Coronel - mais alto posto; Tenente-coronel; Major; Capitão - oficial intermediário; 1º Tenente; 2º Tenente; Praças especiais de polícia: Aspirante a oficial, e Alunos da escola de formação de oficiais da Polícia; Praças de polícia: Subtenente, 1º Sargento; 2º Sargento, 3º Sargento; Cabo e soldado, o posto de maior subordinação (Thomazi, 2008, citado por Prado, 2011, p. 18).
Prado (2011) ainda aponta que a disciplina militar serve como um poder que possibilita a sujeição de todos, pois é quem dita as atitudes, regras e comportamentos que devem ser estritamente seguidos. Assim, “a aplicação da hierarquia e disciplina militares começa pela interiorização de suas regras, tão logo o futuro militar ingresse na carreira, e se concretize pela aceitação ou não das práticas disciplinares [...]” (Mayer, 2006, citada por Prado, 2011, p. 19).
No que se refere a transversalidade, que conforme Baremblitt (2002) significa uma “dimensão do devir que não se reduz à ordem hierárquica da verticalidade nem a ordem informal da horizontalidade nas organizações” (p. 170), foi observado que a dinâmica de relações na instituição é harmoniosa de maneira geral, pois apesar de existir uma forte hierarquização de cargos e funções, percebeu-se que o diálogo entre as partes é algo permitido e frequente. A partir disso, em diversos momentos, foi possível perceber nas falas dos profissionais uma dinâmica de grupo muito bem estabelecida, com a presença da cooperação nas relações de trabalho nos diversos setores. Se tratando do eixo vertical, cabe mencionar que o Tenente- Coronel, sendo a autoridade máxima é quem direciona os processos de trabalho dentro da instituição. No entanto, mesmo possuindo muito poder pelo seu posto, esse pareceu receptivo e aberto a trocas e ao diálogo.
Uma vez compreendidos os conceitos de disciplina e hierarquia dentro do Corpo de Bombeiros Militar, pode-se considerá-lo um “grupo sujeitado”. Segundo Bock, Furtado e Teixeira (1999), um grupo sujeitado é aquele que se submete às normas institucionais que, neste caso, é o militarismo. Esse grupo, conforme Guattari (1987), se protege das informações externas e fortalece a lei local. No entanto, desde a separação efetiva do Corpo de Bombeiros Militar da Brigada Militar, esse também pode ser visto como um “grupo sujeito”, o qual, de acordo com Bock, Furtado e Teixeira (1999), tem uma capacidade maior de crescimento por meio da mudança. Fica evidente que essa separação possibilitou uma liberdade aos Bombeiros Militares, que mesmo que ainda não possuam uma legislação própria, já têm um caráter de autogestão, uma vez que não estão mais submetidos aos comandos da Brigada Militar.
À vista disso, por se tornar uma nova instituição, a partir da separação mencionada, percebe-se que o Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul passa por um processo de reorganização e ressignificação de seu trabalho. Baremblitt (2002) compreende esse fato como uma autoanálise, que consiste na construção de instrumentos que produzam uma reflexão e, consequentemente, uma manutenção de questões emergentes na instituição.
Outro ponto importante encontrado nessa instituição, diz respeito à busca do reconhecimento do papel de bombeiro dentro da comunidade, em virtude da separação da Brigada Militar. Essa identidade, no senso comum, está atrelada a uma ideia de herói, o que, indiretamente, introjeta nos próprios bombeiros uma carga de responsabilidade no exercício da profissão, ao mesmo tempo em que gera um orgulho por poder prestar esse serviço à população.
Como em toda profissão que trabalha diretamente com as relações humanas, os bombeiros precisam se utilizar de uma espécie de blindagem emocional, para que isso não prejudique a tomada de decisões racionais durante os resgates solicitados, visto que se deparam com situações extremas. Nesse contexto, a demanda encontrada ao longo das visitas no local remete ao modo como o trabalho afeta diretamente na saúde mental e na subjetividade dos bombeiros militares. Tal fenômeno se exemplifica na fala dos próprios trabalhadores, quando trazem a dificuldade de separar sua vida pessoal das angústias vivenciadas no ambiente de trabalho, ao relatar que, por vezes, “acabam descontando em suas próprias famílias”, descarregando todo o estresse emocional que os acompanha.
É importante ressaltar, também, que durante os relatos dos bombeiros, esses trazem a questão da falta de bem-estar psicológico, devido ao treinamento que recebem para estar sempre alertas a uma possível ocorrência, e prestar socorro sempre que necessário. Em razão dessa complexidade e do peso que exige a profissão, ficou evidente que os bombeiros buscam proporcionar um ambiente saudável e harmonioso entre si, evitando apegarem-se a pequenas discussões e assim comprometer a dinâmica do grupo. Durante as visitas, o chimarrão emergiu como símbolo desse cooperativismo, pois os bombeiros em seus momentos de intervalo costumam ter muita interação, através de rodas e conversas sobre assuntos triviais, desviando o enfoque da tensão que o trabalho produz.
Por outro lado, por mais que ocorram esses momentos de descontração fica claro que tal fenômeno não dá conta da carga emocional reprimida que surgiu enquanto demanda. Percebe-se isso, pelo fato de que há um estigma muito forte de que, ao ser bombeiro, não se pode falar sobre questões emocionais, pois isso representa fraqueza ou incapacidade de executar as tarefas. Em diversos diálogos, os próprios trabalhadores mencionaram o preconceito que se tem em buscar um profissional da Psicologia, pois remete a uma noção de loucura, culpabilizando o indivíduo como se não fosse permitido sentir-se dessa maneira.
Considerações finais
A partir desta intervenção, a instituição considerou a possibilidade de o Corpo de Bombeiros buscar um profissional da Psicologia que se disponha a realizar um trabalho institucional com os bombeiros. Esse profissional poderia construir um espaço destinado à promoção da saúde mental e bem-estar dos trabalhadores, tanto no setor administrativo quanto no operacional, oferecendo espaços de escuta de modo individual, conforme as necessidades de cada sujeito. Outra possibilidade também se referiu à abertura de grupos que promovam a troca de vivência e sentimentos provindos do exercício da profissão, enfatizando a ideia de não abordar somente o sofrimento, mas buscar um apoio mútuo constante. Além disso, a presença de um profissional da psicologia permitiria o desenvolvimento de análises institucionais mais frequentes, tensionando as relações que já existem, além de provocar rupturas nas práticas cristalizadas e que nem sempre fazem sentido na atualidade.
Esta experiência institucional provocou espaços de reflexão e compartilhamento de vivências entre os bombeiros, fazendo com que estes profissionais pudessem repensar o seu fazer laboral. Proporcionar momentos de fala e escuta aos trabalhadores é uma importante estratégia de atenção à saúde mental, já que nestas ações encorajam a abordagem dos fatores que causam sofrimento no trabalho (Dejours, 1992). Além disso a estratégia de compartilhamento coletivo de adversidades nos espaços de trabalho permite a criação em conjunto de novos modos de trabalhar.
Desse modo, a experiência vivenciada poderá valer-se como porta de entrada para futuras atividades acadêmicas e profissionais nessa instituição, possibilitando um crescimento tanto do Corpo de Bombeiros quanto do campo da Segurança Pública no meio acadêmico. Tendo isso em vista, acredita-se que a realização desse trabalho será capaz de disparar provocações, tanto na sociedade, quanto nos bombeiros, buscando um olhar mais sensível sobre as dificuldades encontradas na profissão de Bombeiro Militar. Cabe considerar, ainda, que todo profissional que trabalha diretamente com o contato humano enfrenta situações delicadas que afetam diretamente sua subjetividade. Portanto, aqueles que cuidam, também precisam ser cuidados, a partir da construção de espaços institucionais de simbolização.














