Introdução
Desde o início do surto de coronavírus (SARS--CoV-2) responsável pela Covid-19 iniciada em dezembro de 2019 em Wuhan, na China, algumas medidas foram divulgadas pelas organizações de saúde como alternativas importantes para a prevenção da doença, sendo o isolamento social uma das principais recomendações diante da velocidade de propagação do vírus (WHO, 2020).
Apesar de ainda ser pouco conhecido, dados de pesquisas científicas acerca do novo vírus, verificaram que embora o prognóstico seja favorável para maioria dos pacientes, condições crônicas, como hipertensão arterial, diabetes e comorbidades que afetam o sistema imunológico, tendem a agravar a situação e piorar os resultados. Pois, pacientes com estas condições crônicas podem evoluir para quadros de dispnéia e hipoxemia no período de sete dias (Wu et al., 2020; Ferreira et al., 2020).
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (2020), as primeiras informações sobre a letalidade estiveram associadas às pessoas idosas, e por isso, as ações de incentivo ao isolamento desta faixa etária foram tão difundidas nas mídias sociais. Porém, à medida que a divulgação de notícias sobre o novo coronavírus e as medidas de proteção ganhavam espaço, cresciam também as publicações de estigmatização relacionadas à imagem da pessoa idosa.
A noção de estigma define o indivíduo estigmatizado como aquele que tem uma característica diferente da que a sociedade prevê. O conceito de “estigma” está associado a uma conotação negativa e depreciativa (Goffman, 1998). Procura esclarecer a relação do estigma com a questão do desvio, visto que a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas, definindo os atributos comuns e naturais para cada uma dessas categorias (Goffman, 1998). Baseando-se nessas pré-concepções, estabelecem-se expectativas e exigências que se apresentam de modo rigoroso às pessoas.
Os estigmatizados são indivíduos com características que os tornem, aos olhos dos outros, diferentes, inferiores (Goffman, 1998). Como forma de estigma, encontram-se discriminações, preconceitos, ideologias que pretendem explicar a inferioridade e o perigo que ela representa, bem como a utilização de termos depreciativos para referir o estigma, tais como aleijado, bastardo, retardado, velho etc.
O estigma da idade insere-se em uma lista de características potenciais que reflete padrões e regras abertas às mudanças da história e da cultura, e a ideia de estigma não reside apenas em uma marca individual, pois também é culturalmente determinada na medida em que cogita os valores, padrões e normas do sistema social (Lewis, 2009).
O preconceito contra a pessoa idosa nos memes relacionados ao COVID-19 apresenta-se como uma tendência geral de marginalizar o risco de contaminação e propagação do vírus aos velhos e como tendência de associar indevidamente a velhice a algo negativo, pejorativo, e não como um grupo de risco como outro qualquer.
Compreendendo a noção de estigma como um atributo que implica desvalorização, inferioridade e que coloca a pessoa idosa em uma situação de desvantagem em relação aos demais grupos de risco para o COVID-19, o presente estudo tem por objetivo analisar as representações sociais sobre a imagem da pessoa idosa associadas a pandemia de COVID-19 nas publicações do Instagram.
A Teoria das Representações Sociais parte da fundamentação teórica do estudo que tem como principal objetivo, interpretar e justificar a realidade cotidiana da imagem da pessoa idosa associadas a pandemia de COVID-19 nas publicações do Instagram, a forma como ocorre a construção dos saberes, crenças e valores deste grupo tão singular.
A Teoria das Representações Sociais proposta por Moscovici (2011) e Jodelet (2001) é descrita como sistemas teóricos do senso comum nos quais atores sociais compreendem e interpretam seu ambiente natural e social e nele se situam. Ainda de acordo com Moscovici (2011) a representação social é um complexo de opiniões, atitudes, crenças e informações relativas a um dado objeto social que influencia os comportamentos sociais, conhecimentos e comunicação entre as pessoas, podendo influenciar diretamente na maneira de pensar e agir do indivíduo.
Assim, uma representação social é perspectivada a partir das experiências individuais, das informações, saberes e modelos de pensamento, que são recebidos e transmitidos pela tradição, educação e comunicação social, e que constitui o conhecimento do senso comum. Segundo Jodelet (2001) as representações sociais são tidas como objetos de estudo legítimo, pela sua importância na vida social e na elucidação possibilitadora dos processos cognitivos e de interações sociais.
Método
A pesquisa caracteriza-se como um estudo exploratório, descritivo, de abordagem qualitativa, com a estratégia de investigação pautada no estudo de caso. Os dados desta pesquisa consistiram em memes publicados na internet na rede social Instagram. A rede social Instagram foi escolhida pelo fácil acesso e por relevância entre os meios de comunicação.
Foi utilizada a ferramenta NCAPTURE do QSR NVIVO 12 Plus, versão para Windows para a coleta de dados. A busca do material de análise se deu por seleção aleatória do maior número possível de memes, a partir do buscador “idoso” e “quarentena”, foram capturados 23 (Vinte e três) memes. Meme é um termo grego que significa imitação. O termo é bastante conhecido e utilizado no “mundo da internet”, referindo-se ao fenômeno de “viralização” de uma informação, ou seja, qualquer vídeo, imagem, frase, ideia, música e etc, que se espalhe entre vários usuários rapidamente, alcançando muita popularidade (Castro & Camargo, 2017).
Os memes foram selecionados a partir dos critérios de inclusão: possuir temática do idoso no período da quarentena pelo COVID-19 e ter sido publicado entre os meses de março e abril do ano de 2020, e após aplicação de tais critérios permaneceram 19 (dezenove) memes, sendo 8 (oito) imagens e onze vídeos.
Findado o processo de seleção dos memes, realizou-se um trabalho de transcrição na íntegra de todo material, seja a descrição contida nas imagens, ou o conteúdo dos vídeos. Para a análise dos dados recorreu-se a Técnica de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (Bardin, 2009). Os memes do Instagram foram analisados com o auxílio do software NVIVO 12 Plus para Windows (Bazeley, 2013; Bazeley & Jackson, 2013)
Na análise de conteúdo, Bardin (2009) propõe um conjunto de técnicas de análise que busca, por meio de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, os indicativos que permitem inferir os conhecimentos relativos às condições de produção/recepção dessas mensagens. Bardin (2009) sugere três etapas na fase de planejamento de uma análise de conteúdo: (1) a pré-análise; (2) a exploração do material e (3) o tratamento dos dados.
A pré-análise é a primeira etapa do planejamento de uma análise de conteúdo. No presente estudo os pesquisadores selecionaram os memes a serem analisados e formularam as questões de pesquisa e as hipóteses de trabalho. A segunda etapa consiste na exploração do material e é o processo mais demorado. Os pesquisadores codificaram os dados e agregaram em unidades. Por fim, a terceira fase consiste no tratamento dos dados - inferência e interpretação. Nessa etapa os pesquisadores confrontaram seus resultados com a teoria utilizada, ou seja, tornou os resultados significativos.
Resultados e Discussões
As representações sociais reveladas através dos memes expressam a percepção do envelhecimento como algo limitador. De acordo com Moscovici (2003), as relações sociais que estabelecemos no cotidiano são fruto de representações que são facilmente apreendidas. Portanto, a Representação Social, para Moscovici, possui uma dupla dimensão, sujeito e sociedade, e situa-se no limiar de uma série de conceitos sociológicos e psicológicos. Todas as publicações estiveram associadas à imagem da velhice como uma fase que retira da pessoa idosa a independência (estado, condição, caráter do que ou de quem goza de autonomia, de liberdade com relação a alguém ou algo) e sua autonomia (capacidade de governar-se pelos próprios meios).
Esta tendência em estigmatizar a velhice vem sendo apontada por muitos estudos. A velhice, já denunciava o posicionamento da sociedade que reserva as pessoas idosas um espaço de subordinação, por compreender que diante das perdas biológicas, econômicas e até mesmo sociais sofridas com o avançar da idade a margem da sociedade seria o lugar adequado para eles (Beauvoir, 1990). O julgamento social da pessoa idosa como indivíduo que já não tem o que perder estabelece e reforça esta condição de inferioridade.
É o sentido que os homens conferem à sua existência, é seu sistema global de valores que define o sentido e o valor da velhice. Inversamente: através da maneira pela qual uma sociedade se comporta com seus velhos, ela desvela sem equívoco a verdade – muitas vezes cuidadosamente mascarada – de seus princípios e de seus fins (Beauvoir, 1990, p. 108).
Neste contexto, a velhice é uma produção social e, como tal, os entendimentos e acepções sobre ela são definidos pela sociedade, pelas memórias produzidas e evocadas que influenciam diretamente na percepção que as pessoas idosas têm de si mesmas. Beauvoir (2018) assevera que a velhice é condicionada pela sociedade da qual ela faz parte. Dessa maneira, os grupos sociais instituem a visão em torno da velhice e ela está envolta de discursos que funcionam e que se expressam nas ações rotineiras, nas práticas sociais, na língua e nas materialidades discursivas como resultados das ideologias que atuam em cada conjuntura histórica e cultural. A ideologia se materializa nas práticas, nos dizeres e está entre os sujeitos e suas atitudes (Cruz, 2018).
Em conformidade com essa premissa, diversos outros trabalhos verificaram que as representações sociais sobre a pessoa idosa estiveram concentradas em torno da inatividade e da velhice como algo negativo (Castro & Camargo, 2009; Magnabosco-Martins et al., 2009). O que reforça e alimenta, simultaneamente, os estereótipos negativos do processo do envelhecimento nos espaços sociais através de uma concepção da velhice como decadência (Rocha, 2016; Jodelet, 2001). Ademais, na perpetuação da exclusão, muitas pessoas idosas são afastadas das tomadas de decisões sobre a sua vida nas mais variadas dimensões, sejam elas familiares ou sociais (Ibias & Grossi, 2001).
Assim, a partir da análise dos memes emergiram duas categorias analíticas: Categoria 1. Recolhimento/enclausuramento da pessoa idosa (52,63%) e Categoria 2. Impedimento/limitação da mobilidade das pessoas idosas fora de casa (47,37%).
Categoria 1. Recolhimento/enclausuramento da pessoa idosa
Nesta categoria foram identificados dez memes cujos conteúdos apresentavam algum tipo de serviço para impedir que as pessoas estivessem nas ruas. As imagens constavam de cartazes com o teor da propaganda para recolhimento das pessoas idosas nas ruas por intermédio de telefonemas ameaçadores e alguns vídeos em que as pessoas idosas estavam na frente de casa e ao ouvirem o anúncio do serviço de recolhimento, se dirigiam ao interior do domicílio bastante assustados. A descrição dos conteúdos desses memes pode ser observada no Quadro 1.
Quadro 1: Categoria 1. Recolhimento/enclausuramento da pessoa idosa.
| Anúncios | F | % | |
|---|---|---|---|
| Sentido | Ofertas de serviços para manter as pessoas idosas em casa | 7 | 70,0 |
| Postagens sobre pessoas idosas nas ruas | 3 | 30,0 | |
| Total | 10 | 100,0 | |
| Conteúdo | Cartaz com oferta de serviço recolher pessoas idosas das ruas | 8 | 80,0 |
| Maneiras de impedir as pessoas idosas de saírem | 2 | 20,0 | |
| Total | 10 | 100,0 | |
| Forma de apresentação | Serviço do “cata véio” | 4 | 40,0 |
| Ameaças | 3 | 30,0 | |
| Objetos para contenção ou restrição | 3 | 30,0 | |
| Total | 10 | 100,0 | |
| Condição do idoso | Irritação | - | |
| Satisfação | 2 | 20,0 | |
| Medo | 2 | 20,0 | |
| Não há imagens de pessoas idosas | 6 | 60,0 | |
| Total | 10 | 100,0 | |
Fonte: Dados da pesquisa.
No cenário atual, as orientações para prevenção do COVID-19 sugerem que as pessoas se mantenham em suas casas, e endossam a necessidade desta recomendação, principalmente para os grupos de risco, como a população idosa.
As medidas de distanciamento adotadas durante este período de pandemia pelo COVID-19 vêm sendo comprovadamente eficazes na redução do número de pessoas infectadas (Duczmal et al., 2020). Compreendendo que a prioridade das ações tem como objetivo a proteção da população, o achatamento da curva epidêmica enquanto meta a ser alcançada pelo isolamento constitui uma ferramenta de prevenção do colapso dos sistemas de saúde (Kalache et al., 2020).
Diante disso, os olhares se voltaram para a população idosa tendo em consideração alguns fatores de risco que lhes são comumente atribuídos em decorrência da senescência e da senilidade (Brasil, 2019; Valença et al., 2017). É sabido que condições como idade avançada e comorbidades subjacentes, como hipertensão, diabetes e doenças coronárias, aumentam as chances de hospitalização e complicações pelo COVID-19 (Walker et al., 2020). E considerando os achados clínicos e a imunossenescência que acentua a vulnerabilidade, o prognóstico da doença nesta faixa etária da população vem se mostrando de maneira desfavorável (Hammerschmidt & Santana, 2020; Lloyd-Sherlock et al., 2020).
Contudo, apesar do reconhecimento de tais fatores de risco e até mesmo o destaque para este grupo populacional representarem uma estratégia do plano de atenção e cuidados, também denota as fragilidades nas políticas públicas existentes previamente para pessoas idosas principalmente em situação de isolamento e relacionados a redes sociais de internet. A importância de as políticas de enfrentamento à pandemia observarem e considerarem as evidências e os achados científicos que foram produzidos acerca do envelhecimento ao longo dos anos (Kalache et al., 2020). Os resultados das investigações neste campo constituem um aparato fundamental para que as respostas sejam efetivas, e como sinalizam os próprios autores, a falta de conhecimento gerontológico tende a agravar a situação.
O conteúdo das publicações veiculadas nas mídias sociais fez referência às indicações de prevenção ao vírus da COVID-19 utilizando a estratégia como um recurso de humor, entretanto foi possível constatar que as mensagens possuíam teor pejorativo que fortalecem a estigmatização em torno da pessoa idosa.
A referência constante dos memes a esta concepção anuncia o pensamento compartilhado pela sociedade em relação à pessoa idosa de fragilidade e incapacidade na tomada de decisões, exigindo que alguém assuma esta responsabilidade, seja na supervisão ou na determinação de suas condutas e comportamentos (Floriano et al., 2012).
O sentido imbuído nos memes emite uma mensagem que legitima a retirada de autonomia do idoso, por vezes igualando-os às crianças. Segundo resultados de estudo (Floriano et al., 2012), a tendência em infantilizar o idoso como um traço de cuidado se deve a compreensão de fragilidade e dependência física que ele pode vir a desenvolver nas atividades diárias. Entretanto, há uma discussão na literatura que refere como este tipo de conduta assume um caráter prejudicial, pois aumenta a estigmatização e pode resultar em abusos (Nelson, 2005; Santos et al., 2016).
Em um levantamento de pesquisas no qual analisaram a imagem da pessoa idosa em publicações diversas, um dos resultados foram evidenciadas as representações das pessoas idosas na imprensa através de análises do diário de notícias do estado de São Paulo, e foi constatado que em grande parte das edições o depoimento direto do idoso não foi sequer solicitado, ficando a cargo de um membro da família a entrevista (Vieira & Lima, 2015). Outro destaque revelado pelo trabalho exprime a análise sobre o Estatuto do Idoso, que apesar de considerar a garantia do idoso como cidadão e os seus direitos, ressalta como há uma retração do mesmo com fragilidade e impotência para gerir sua própria vida (Vieira & Lima, 2015).
Nota-se que há uma evidente proibição da pessoa idosa em estar em espaços públicos, e como estratégia de correção, há um sentido de ameaça, que não só fere os seus direitos, como também alimenta os estigmas de incapacidade e fragilidade. Com isso, os discursos que aparecem nos memes tratam de forma jocosa a imagem da pessoa idosa e os consideram incapazes de perceber a gravidade da situação, em face da pandemia, e permanecerem em suas residências durante tempo determinado pelo Poder Público.
Em 1969, o gerontólogo Robert Butler utilizou em seu artigo “Age-Ism: another form of bigatry” pela primeira vez o termo idadismo (ageism) para definir como uma forma de “preconceito por um grupo etário em relação a outras faixas etárias” (Butler, 1969). E nesta circunstância, três atitudes podem caracterizar ações idadistas, sendo elas: ações cognitivas, afetivas e comportamentais (Marques, 2011). Sendo assim, Idadismo ou etarismo referem-se à práticas e atitudes negativas em relação a alguma pessoa unicamente por conta de sua idade. No caso do velhismo ou ageismo, tradução adaptada do inglês Aging, que significa envelhecimento, refere-se ao preconceito contra as pessoas idosas só pelo fato de serem idosas.
Nas ações cognitivas, a autora apresenta a tendência em padronizar as pessoas de um grupo, constituindo um estereótipo que vem a ser construído e compartilhado sobre as pessoas idosas, como, exemplo, concepções de incapacidade atreladas a imagem do idoso, conforme foi verificado nos memes e explicitado no Quadro 1.
Já em relação aos comportamentos idadistas de cunho afetivo, o que a autora destaca são os sentimentos envolvidos que refletem o preconceito, como o desdém ou a piedade. O último componente da ação idadista exposta pela autora, diz respeito a ação discriminatória em si, e no caso do presente estudo, é possível identificar esses dois últimos elementos característico da conduta idadista no próprio compartilhamento dos memes, que exemplificam de maneira prática o escárnio pela condição do ser idoso.
O peso desse processo camuflado de estigmatização possui consequências importantes que incidem, inclusive, na internalização do estigma pela pessoa idosa, induzindo ao sentimento de inferioridade e isolamento por conta do julgamento inadequado de suas necessidades. Ademais, essa compreensão errônea limita os recursos e o acesso das pessoas idosas às respostas políticas e sociais (Rocha, 2016; Koch-Filho et al., 2012).
Cabe destacar também que a imagem das pessoas idosas em propagandas publicitárias televisivas também reforça os estereótipos apresentados anteriormente. Segundo os resultados de pesquisa (Ribeiro, 2012), as pessoas idosas representam o grupo etário de menor representação nas propagandas televisivas portuguesas. A autora revela ainda quando da participação das pessoas idosas, que os aspectos em destaque estiveram associados a negativa dos significados do envelhecer, em que sua presença transmitia um discurso acompanhado do prefixo “anti”. Isto é, a aparição do idoso é utilizada como recurso de negação do próprio sentido do que compõe o ser idoso.
Nesta imagem “pode ser que as pessoas idosas não sejam representados de uma forma extremamente negativa, mas eles são, todavia, retratados de forma menos positiva do que as pessoas jovens” (Harwood, 2007).
Em pesquisa que investigaram a imagem da pessoa idosa nas relações de consumo e na publicidade buscando problematizar as representações que dominam neste campo, e demonstraram que o humor constitui a principal estratégia discursiva, destacando a hipérbole como recurso linguístico que possibilita utilizar a figura da pessoa idosa para endossar os estereótipos. Retratando as pessoas idosas em atividades consideradas joviais como, por exemplo, pilotar moto ou fazer uma tatuagem, ou o sentido oposto, ações consideradas tipicamente esperadas de pessoas idosas, como uma avó que cozinha para seus netos (Fernández et al., 2020).
Categoria 2. Impedimento/limitação da mobilidade das pessoas idosas fora de casa
Os resultados identificados por estes estudos ratificam o sentido utilizado na publicação e no compartilhamento dos memes. As construções sociais em torno do envelhecer e do lugar da pessoa idosa continuam a influenciar e perpetuar a representação social da pessoa idosa na sociedade como indivíduo sem voz e estigmatizado.
As ações de divulgação e as próprias medidas de distanciamento social para prevenção da contaminação pelo COVID-19 foram enfáticas e destacaram a figura do idoso por conta do potencial risco desta faixa etária (Hammerschmidt & Santana, 2020). Nesse sentido, há uma crença generalizada na verticalização do distanciamento social, que consta na restrição de contato social apenas com a população que possui maior risco, e as pessoas idosas compõe em grande parte este grupo (Duczmal et al., 2020).
Essa concepção denunciada pelos autores justifica que as pessoas com idade inferior a 60 anos poderiam circular normalmente para suas atividades cotidianas de trabalho ou estudo, pois não sofreriam com sintomas graves da doença. Pensamentos desta natureza acentuam a discriminação com a população idosa neste período e refletem os comportamentos negativos observados, tanto pelas atitudes registradas, quanto pela partilha do conteúdo como um tipo de humor.
Nesta categoria os 9 (nove) memes identificados revelam situações opressoras no próprio cotidiano da pessoa idosa e seus familiares. Os flagrantes revelados pelos memes em vídeo revelam o sentido de humor atribuído às tentativas de fuga por parte das pessoas idosas.
O conteúdo revelado apresenta duas circunstâncias: pessoas idosas em situações constrangedoras ao tentarem ir para a rua saltando portões ou janelas, expondo-se, inclusive, ao risco elevado de danos físicos; e uma outra parte com pessoas idosas sendo impedidos de sair de casa por terceiros através de portas trancadas e privação da chave ou mesmo contenção física. A descrição dos conteúdos pode ser observada na Quadro 2.
Quadro 2: Categoria 2. Impedimento/limitação da mobilidade das pessoas idosas fora de casa
| Cotidiano | F | % | |
|---|---|---|---|
| Sentido | Tentativas de fuga por parte das pessoas idosas | 9 | 100,0 |
| - | - | - | |
| Total | 9 | 100,0 | |
| Conteúdo | Flagrantes de pessoas idosas em situações de fuga | 4 | 44,4 |
| Pessoas idosas sendo impedidos de sair de casa | 5 | 55,6 | |
| Total | 9 | 100,0 | |
| Forma de apresentação | Contenção física | 2 | 22,2 |
| Portões trancados | 3 | 33,4 | |
| Pessoas idosas saltando portões, janelas e telhados | 4 | 44,4 | |
| Total | 9 | 100,0 | |
| Condição da pessoa idosa | Irritação | 6 | 66,6 |
| Satisfação | 3 | 33,4 | |
| Medo | - | - | |
| Não há imagens de pessoas idosas | - | - | |
| Total | 9 | 100,0 | |
Fonte: Dados da pesquisa.
Considerando que “a comunicação social, sob seus aspectos interindividuais, institucionais e midiáticos, aparece como condição de possibilidade e de determinação das representações e dos pensamentos sociais” (Jodelet, 2009), as circunstâncias evidenciadas nesta categoria revelam os sentidos das relações de poder entre a pessoa idosa e os demais membros da família.
Quando o compartilhamento de situações em que a pessoa idosa é impedida de sair de sua casa por alguém que exerce a função de cuidador é interpretado com sentido de humor, este tipo de partilha exerce um papel de legitimidade dos estigmas e naturalização do discurso violento. A perpetuação de ações como estas se dá pelo que Bourdieu (1989) define como poder simbólico: “[...] poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário”.
A definição da velhice parece ser mais rígida quando comparada a outras fases da vida. Segundo a autora, esta solidez determina as permissões e os papéis que cabem ao idoso, já que por estar “velho demais para exercer determinadas atividades ou ter acesso, de forma legítima, a certas categorias de bens ou posições sociais” (Motta, 2013).
Estes preconceitos, ainda que pouco considerados por serem sutis, acarretam prejuízos na vida das pessoas idosas, pois como já mencionado, podem se configurar ou resultar em violência contra a pessoa idosa. Essa violência considerada simbólica é perversa, cruel e desumana, pois, está implícita na fala, nos memes e pode transparecer como um elemento natural da comunicação social.
Mas, ela está travestida de gracejo, aparenta se manifestar sem intenções de provocar sentimentos de humilhação e, por vezes, passa despercebida. Ela se manifesta no linguajar dos memes e do cotidiano envolvendo a fragilidades das pessoas idosas e se apresenta como expressões sem dolo, porém são efetivamente nocivas e estigmatizadoras. Afinal. “[...] as atitudes sociais em relação à velhice influenciam as práticas sociais em relação aos idosos” (Neri, 2006, p. 36).
O campo de estudo da violência é complexo, multifacetado e constantemente revela o entrave das ambiguidades e significações das relações interpessoais no fenômeno. Os autores defendem que há no ser humano a capacidade de amar e odiar e que as ações e os sentimentos representam um desafio nas relações, e por isso, o ambiente familiar é um espaço favorável para que as ambivalências das relações sejam expostas. Ademais, o fato das situações divulgadas nos memes terem ocorrido no domicílio, acentuam a invisibilidade do problema, já que um dos principais efeitos dessa condição é o subdiagnóstico da problemática (Wanderbroocke & Moré, 2012).
A violência simbólica que acontece no seio familiar é difícil de ser diagnosticada, uma vez que, parece ser tratada como natural e até mesmo sem a intenção de ofender e ofuscar a autonomia do idoso. No entanto, é necessário desmistificar a ideia de que esse tipo de violência seja menos prejudicial ou até mesmo invisível. Para tanto, Bourdieu (1989, p. 7-8) a define como sendo: “[...] violência simbólica, violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento”.
A violência doméstica “consiste no abuso físico, sexual ou emocional de um indivíduo que coabita no mesmo domicílio do agressor, independentemente da existência de parentesco” (Cunha (2007, p.44). Nos memes analisados o que se constata é o exercício do poder implicando em violência e justificado pela compreensão da pessoa idosa como alguém que perdeu comando para outros membros da família. Ou seja, apresenta a pessoa idosa como seres inativos, incapazes de dar respostas aos desafios que enfrentam em seu dia-a-dia, que não conseguem avaliar as situações adversas e, com isso, justifica-se o uso de estratégias maléficas, constrangedoras, como as imagens dos memes para os fazerem compreender, por exemplo, a necessidade do distanciamento social na atual conjuntura.
Basta haver a crença da subordinação por um dos lados para que se instale o desequilíbrio no poder e na força. A violência resultante dessa concepção “implica relações desiguais de poder e de condições sociais que negam a vida, a autoridade legítima e a diferença, destroem a tolerância, transgridem o pacto social ou legal de convivência, violando direitos e negando-se o outro” (Faleiros & Brito, 2010, p.109).
É imprescindível destacar que as recomendações de distanciamento social divulgadas pelas entidades de saúde e pela mídia intencionam a proteção (Hammerschmidt & Santana, 2020). Contudo, é necessário que o caminho para alcançar tais medidas seja acordado entre os membros da família e o idoso, discutindo quais são as estratégias que se adequam melhor a sua realidade, buscando respeitar a autonomia e a independência do idoso em sua rotina.
Neste contexto, atenta-se para a heterogeneidade da velhice, pois existem pessoas idosas que rotineiramente apenas tinha acesso à rua, às praças, às igrejas como fonte de lazer e subitamente lhes foram negadas as entradas a eles. Outros têm acesso a celular e a internet em casa e isso os conduzem a experimentarem o período de maneira diferente. Alguns estão confinados com muitos familiares em uma casa pequena sem as condições necessárias para essa aglomeração dentro do próprio lar. São situações diversas e mudanças abruptas a que foram submetidos. As imagens dos memes apontam, na sua maioria, um discurso de homogeneidade da velhice e do comportamento do idoso que não reflete necessariamente a realidade vivida nem as complexidades do processo de envelhecimento.
A concepção de uma velhice única no sistema capitalista tem a pretensão de anular a visão de heterogeneidade no percurso do envelhecimento. A velhice é multiforme, uma vez que não se envelhece de maneira unívoca, portanto existem velhices essas estão envoltas das dimensões sociais, biológicas, econômicas, culturais, políticas, geográficas e ideológicas. Para Beauvoir (2018, p. 14) “[...] a luta de classes determina como o homem é surpreendido na velhice; um abismo separa o velho escravo e o velho eupátrida, um antigo operário que vive com uma pensão miserável e um Onássis”.
De forma geral, o isolamento neste momento representa um ato de cuidado, que reflete, ou ao menos deveria refletir zelo, cuidado e amor. Entretanto, situações negativas também são evidenciadas pelo cotidiano, e eventos de ridicularização, idadismo e preconceitos ganham maior visibilidade neste período, conforme possível verificar através dos memes, e reforçado por estudo (Hammerschmidt & Santana, 2020).
Considerações Finais
As representações sociais acerca da pessoa idosa publicadas nas redes sociais relacionadas ao caso da COVID-19 desvelaram um sentido negativo atribuído ao envelhecer. Os memes analisados conferem um sentido de humor às situações que retiram da pessoa idosa sua independência e autonomia. E o compartilhamento desse conteúdo com o caráter de diversão e chacota resulta em desprezo pela situação real por trás das publicações.
A análise dos memes permitiu verificar que com a justificativa de garantir a recomendação de distanciamento social os conteúdos partilhados desrespeitam direitos das pessoas idosas. Os anúncios com conteúdo ameaçador, a prestação de serviços para recolhimentos das pessoas idosas das ruas e as situações de retirada da liberdade veiculadas nas publicações demonstram como há um processo de naturalização da estigmatização e invisibilidade da violência contra as pessoas idosas.
O pensamento social construído em torno do que é o envelhecer fica evidente neste material, que endossa as representações sociais da velhice como alguém frágil e incapaz e legitima o preconceito e a violência contra esta população em busca da proteção e cumprimento do isolamento. Além disso, as representações sociais reveladas por estes conteúdos denunciam a precariedade e insuficiência de políticas públicas que garantam promoção à saúde, mas também proteção social e participação cidadã por parte das pessoas idosas.
Como limitação do presente estudo destaque-se o número reduzido de memes e o fato de ter sido investigado apenas um tipo de rede social. Assim, faz-se necessário a preparação para uma real inclusão do idoso na sociedade, seja em tempos, ou não, de pandemia.














