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Revista Polis e Psique

versão On-line ISSN 2238-152X

Rev. Polis Psique vol.13 no.2 Porto Alegre  2023  Epub 25-Out-2024

https://doi.org/10.22456/2238-152x.128551 

Artigo

Sexualidade Feminina e os Usos de Sex Toys

Sex Toys and Female Sexuality

La Sexualidad Femenina y los Usos de Juguetes Sexuales

Rafael De Tilio1  , Conceitualização, Redação do manuscrito, Análise dos dados, Revisão e edição
http://orcid.org/0000-0002-4240-9707

Jaqueline Martins Pereira Alves1  , Conceitualização, Redação do manuscrito, Análise dos dados
http://orcid.org/0000-0003-0150-6495

1Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba, MG, Brasil


Resumo

Sex toys nem sempre foram utilizados visando prazeres sexuais, mas também como instrumentos terapêuticos e/ou de dominação. O objetivo dessa pesquisa foi compreender significados dos usos dos sex toys por mulheres. Quinze mulheres cisgêneras responderam a uma entrevista cujos conteúdos foram organizados em duas categorias analisadas a partir dos argumentos sobre contrassexualidade e sociedade farmacopornográfica. Os principais resultados destacaram aspectos positivos (produção do prazer, da saúde e do empoderamento; novas experiências sexuais; autoconhecimento) e negativos (custo; culpabilização; julgamentos) no uso dos sex toys. Destacam-se as potencialidades destes objetos enquanto produtores de transformações nos esquemas normalizadores do dispositivo da sexualidade.

Palavras-chave Sex toys; Sexualidade; Gênero; Feminismo; Contrassexualidade

Abstract

Sex toys have not always been used as objects of sexual pleasure, but also as therapeutic instruments of male domination. The objective of this research was to understand the meanings of the uses of sex toys by women. Fifteen cisgender women participated in this research and their answers were organized into two categories analyzed from arguments about counter-sexuality and pharmacopornographic society. The main results highlighted positive aspects (sexual pleasure, mental health, and female empowerment; new sexual experiences; self-knowledge) and negative aspects (high cost; guilt for masturbation; judgment by others) in the use of sex toys. We highlight the potential of these objects as producers of sexuality dispositive.

Keywords Sex toys; Sexuality; Gender; Feminism; Countersexuality

Resumen

Los juguetes sexuales no siempre se han utilizado como objetos de placer sexual, sino también como instrumentos terapéuticos y/o de dominación masculina. El objetivo de esta investigación fue comprender los significados de los usos de los juguetes sexuales por las mujeres. Quince mujeres cisgénero participaron de una entrevista y sus respuestas fueron organizadas a partir de un análisis de contenido temático en dos categorías analizadas a partir de argumentos sobre la contra-sexualidad y la sociedad farmacopornográfica. Los principales resultados destacaron los aspectos positivos (producción de placer sexual, salud mental y empoderamiento femenino; nuevas experiencias sexuales; autoconocimiento) y los negativos (alto coste; sentimiento de culpa por la masturbación; juicio de terceros y familiares) en el uso de juguetes sexuales. Destacamos el potencial de estos joguetes sexuales como productores de transformaciones en los esquemas de normalización del dispositivo de sexualidad.

Palabras clave Juguetes sexuales; Sexualidad; Género; Feminismo; Contrasexualidad

Introduzindo

Segundo Bayone e Burrowe (2021) nos últimos anos acompanhando uma tendência de pelo menos duas décadas, observa-se o aumento da produção, da comercialização e do consumo de objetos do mercado erótico destinados principalmente ao público feminino e, dentre eles, os sex toys – objetos ou dispositivos produzidos em série cuja função é incrementar o prazer sexual individual ou dos parceires1. Giddens (2003) e Preciado (2018; 2020) argumentam que essas modificações correspondem às transformações da sexualidade, especialmente a feminina, no capitalismo decorrentes das tensões produzidas entre os mecanismos de contenção impostos à produção dos prazeres e a incitação ao consumo de objetos sintéticos industrializados que visam a maximização da satisfação sexual.

Em outras palavras, a contemporaneidade sexual revelaria as tensões entre o dispositivo da sexualidade proposto por Foucault (1976/2020) e a recente sociedade contrassexual ou farmacopornográfica sugerida por Preciado (2018; 2020). Foucault (1976/2020) argumentou que a história moderna da sexualidade no ocidente pode ser compreendida comparando dois modelos. O primeiro deles teria início no século XVII e estava pautado nas proibições e nas restrições dos prazeres ao considerar que a sexualidade saudável e aceita era somente aquela praticada e restrita entre os adultos heterossexuais casados, sendo a população sistematicamente monitorada pelo Estado e pelos discursos médicos (questão de saúde e doença), jurídicos (crimes sexuais) e políticos (gestão dos nascimentos e casamentos etc. – a biopolítica). Naquele contexto, as punições (imputações legais e intervenções médicas) eram destinadas aos que subvertiam os privilégios dos homens frente às mulheres, que deveriam se dedicar aos cuidados domésticos e à geração da descendência, e aos que não se enquadravam nas normas que privilegiavam a cisheterossexualidade2. Neste sentido, a masturbação feminina (bastante abordada nos manuais confessionais e tratados penitenciais das igrejas cristãs) foi considerada pecado grave e/ou prática causadora de doenças físicas e mentais (Dantas, 2010).

Já o segundo momento – aprofundado por Giddens (2003) – foi iniciado a partir de meados do século XX e pode ser caracterizado pela suavização dessas proibições e restrições, pela relativa tolerância das relações sexuais pré-nupciais e fora dos matrimônios, das relações sexuais não-cisheterossexuais e pela maior possibilidade da experiência dos prazeres – especialmente os femininos – desvinculados da reprodução biológica devido à difusão e comercialização dos métodos contraceptivos industrializados. Se Giddens (2003) denominou esse conjunto de mudanças de transformações da intimidade ou de sexualidade plástica, Preciado (2017; 2018; 2020) a denomina de contrassexual (aquela que não se organiza segundo o dispositivo de controle foucaultiano da sexualidade de produção do saber/poder) ou farmacopornográfica (amplo estímulo ao consumo de materiais sintéticos e de substâncias endócrinas industrializadas visando à satisfação sexual). Ademais, segundo Butler (1990/2019), Méllo (2012) e Guerrero e Despott (2015), além desta incitação ao consumo de produtos sexuais sintéticos, os movimentos feministas modernos contribuíram para o reposicionamento das demandas femininas tanto ao pressionarem pela maior inserção das mulheres no mercado de trabalho formal quanto ao conceberem o gênero não como espelho do sexo (biologia), mas como resultado das relações assimétricas de poder nas sociedades.

Felitti (2016) e Rodrigues (2016) discorrem que a proliferação e maior uso dos sex toys decorreram tanto dos ativismos teóricos e políticos feministas visando a liberdade sexual feminina quanto do estímulo mercadológico pelo consumo de serviços/objetos exclusivamente destinados às mulheres e seus desejos, incluindo os prazeres sexuais. Os autores também argumentam que o aumento do consumo dos sex toys participa de um movimento mais amplo de produção e circulação de objetos destinados ao incremento da sexualidade, tais como literatura erótica e de autoajuda, de cursos de educação sexual e da pornografia voltada para o público feminino. Todavia, neste reposicionamento é preciso considerar a longa tradição e história dos sex toys (Gregori, 2011).

Segundo Gregori (2011), se as origens dos sex toys podem ser encontradas nos dildos de diversos materiais que substituem o pênis, e sua utilização entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX esteve relacionada aos massageadores vibratórios (chamados de “instrumentos terapêuticos”) que pretendiam curar a histeria associada à infelicidade sexual feminina pelo discurso médico daquela época. Isso destaca a evidente opressão das mulheres que eram consideradas responsáveis tanto pelas suas insatisfações sexuais quanto as dos homens, devendo elas se ajustarem aos esquemas de normalização de gênero (passividade e objetificação das mulheres), que era compreendido como sinônimo de cura (Schmitz, 2021).

Para Gregori (2021) a partir da década de 1950 juntamente com a pílula anticoncepcional hormonal sintética feminina e com a crescente liberdade sexual feminina, os vibradores passaram a ser utilizados como objetos para a produção do prazer sexual, sendo deslocados do campo médico para o campo erótico/pornográfico. Assim, conforme esclareceu Comella (2017), a partir da década de 1970 estes vibradores passaram a ser desenvolvidos e receitados não por médicos ou sexólogos, mas em sex shops possibilitando sua compra direta por parte das mulheres com a finalidade de alcançarem seus orgasmos e/ou satisfazerem seus parceires.

A mercantilização dos sex toys pode ser compreendida tanto como uma tentativa de democratização do prazer sexual quanto uma possibilidade de desestabilização das supostas naturalidades dos esquemas cisheteronormativos (que pressupõem a formação de parcerias monogâmicas estáveis entre adultos, enquanto que os sex toys podem ser usados sem parceires). Além disso, a crescente incorporação dos sex toys no mercado de consumo para as massas possibilita, em parte, deslocá-los das denominadas sexualidades disruptivas, pois a suposta normalidade sexual seria a cisheterossexual, ou a da terapêutica medicalizada (massageadores para a histeria), que doravante pretende a produção dos prazeres solitários ou entre os parceires (Comella, 2017). Assim, mesmo que os sex toys possam ser utilizados para reforçar os esquemas tradicionais heteronormativos de subjetivação dos gêneros dos quais decorrem desigualdades entre homens e mulheres – Zanello (2018) argumenta que essa subordinação feminina decorre não de disposições individuais, mas de processos sociais, históricos e ideológicos denominados por ela de dispositivo materno e amoroso – eles podem ajudar a questionar os esquemas de normatização e da naturalização decorrentes da lógica cisheterocentrada e adultocêntrica do dispositivo da sexualidade foucaultiano e ampliar os prazeres e os direitos sexuais.

Diversos autores como Ríos, Amundaray e Arenas (2019), Braz (2012), Gregori (2014; 2016) e Pires (2018) concordam que os sentidos atribuídos a esses objetos – dominação ou libertação – dependem, portanto, dos seus usos. Longe, portanto, de romper totalmente com os esquemas de dominação sexuais generificados cisheteronormativos, os sex toys podem auxiliar a compreender as tensões de controle e de contra controle da sexualidade na contemporaneidade. Diante do exposto, o objetivo dessa pesquisa foi compreender os significados dos usos dos sex toys por mulheres.

Como está pesquisa foi realizada

Essa é uma pesquisa descritiva e transversal em Psicologia (Creswell, 2010) da qual participaram quinze mulheres que foram recrutadas a partir da rede de contatos dos pesquisadores considerando alguns critérios de inclusão (ser mulher3, usar sex toys, ter mais de 18 anos de idade) e de exclusão (não usar sex toys, ter menos de 18 anos de idade). Para o recrutamento de participantes foram observadas as recomendações da estratégia bola de neve ou cadeia referenciada proposta por Vinuto (2014) – uma participante (semente) indicava outras possíveis participantes adequadas aos critérios de inclusão que, por sua vez, indicavam outros possíveis participantes.

Para a definição do tamanho da amostra foi considerado o critério de saturação dos dados proposto por Fontanella, Luchesi, Saidel, Ricas, Turato e Melo (2011). A coleta de dados ocorreu entre setembro e outubro de 2020, sendo que doze participantes foram entrevistadas pela plataforma Google Meet devido às necessidades de distanciamento social no contexto da pandemia de COVID-19, e três participantes ao invés de entrevistas à distância solicitaram responder por escrito o mesmo roteiro de questões, devolvendo-as por e-mail para os pesquisadores. O roteiro de perguntas da entrevista/questionário continha duas partes: a primeira versava sobre a caracterização das participantes (idade, nível de escolaridade, gênero, orientação sexual), cujas principais informações estão descritas adiante; a segunda versava sobre os históricos e hábitos de usos dos sex toys como, por exemplo, tempo de uso, motivações e entraves para o uso e suas influências para a vida sexual, função dos sex toys e como concebem o uso desses objetos na sociedade contemporânea.

As participantes foram identificadas por letras do alfabeto e seus assentimentos de participação foram obtidos mediante declaração verbal de concordância após leitura por parte da entrevistadora do termo de consentimento livre e esclarecido – nos casos das entrevistas à distância – ou mediante devolução do termo de consentimento livre e esclarecido assinado pela participante remetido previamente por e-mail ao envio das respostas para entrevistadora.

Os principais dados de caracterização das participantes são os seguintes: A, 22 anos, mulher cisgênera bissexual; B, 28 anos, mulher cisgênera lésbica ; C, 24 anos, mulher cisgênera bissexual; D, 26 anos, mulher cisgênera lésbica; E, 35 anos, mulher cisgênera heterossexual; F, 28 anos, mulher cisgênera bissexual; G, 19 anos, mulher cisgênera bissexual; H, 28 anos, mulher cisgênera heterossexual; I, 24 anos, mulher cisgênera heterossexual; J, 28 anos, mulher cisgênera bissexual; K, 28 anos, mulher cisgênera bissexual; L, 28 anos, mulher cisgênera bissexual; M, 26 anos, mulher cisgênera heterossexual; N, 22 anos, mulher cisgênera lésbica; O, 22 anos, mulher cisgênera lésbica.

A coleta dos dados foi iniciada após a aprovação da pesquisa pelo comitê de ética em pesquisa da instituição de origem dos pesquisadores (número CAAE 18369519.0.0000.5154 na Plataforma Brasil). O conjunto de dados obtidos (entrevistas transcritas literalmente e na íntegra com auxílio de um programa de edição de textos e as entrevistas respondidas por escritos) foi organizado por meio de uma análise de conteúdo temática de critérios semânticos observando as recomendações de Turato (2008). As duas categorias são: Ganhos (congregando conteúdos referentes aos aspectos positivos) e Dificuldades (congregando conteúdos relacionados aos aspectos dificultosos) no uso dos sex toys. Ambas foram analisadas a partir do escopo argumentativo da contrassexualidade e da sociedade farmacopornográfica de Paul Beatriz Preciado e autores da área.

Ganhos no uso dos sex toys

As participantes citaram vários aspectos positivos, por elas designadas como ganhos, decorrentes do uso dos sex toys. Esse foi o assunto mais relatado e debatido pelas participantes no qual elas apresentaram diversas perspectivas sobre como o uso dos sex toys influenciou suas experiências e as de outras mulheres.

O assunto mais citado neste tema foi como a utilização dos sex toys possibilitou o incremento do prazer sexual feminino, transfigurando-se de tabu para a liberdade/autonomia sexual feminina. Isso foi referido em alguns trechos das entrevistas: “mas nós já começamos a caminhada pra começar a desconstruir isso, sabe, porque isso tá sendo mais falado” (A); outra participante relatou: “nossa, eu encaro como revolucionário, maravilhoso” (F); e outra participante: “eu ando vendo com mais frequência a construção de liberdade da mulher em cima do próprio corpo sabe, então eu acho que é algo a se pensar assim, pro lado positivo sabe” (D); por fim, uma das participante disse que:

É uma ferramenta mesmo de conseguir ficar bem comigo mesma, e aí depois que eu passei a me entender através dele, que na verdade veio mais coisa, né... eu estudo um pouco tantra e veio também junto com a leitura de alguns livros e terapia também né... pra mim é difícil dissociar o sex toy, porque meio que ele fez parte de um combão... hoje acho que é liberdade total (L)

Sobre esses aspectos é possível retomar algumas das argumentações de Preciado (2017; 2018; 2020) sobre a contrassexualidade e sobre a sociedade capitalista farmacopornográfica. Segundo o autor, a utilização de sex toys pode auxiliar na desconstrução dos modelos sexuais e de gênero normalizados nos moldes cisheteronormativos, propagando a equidade entre os sujeitos diante dessa tecnologia sociossexual. Além de Preciado (2017), Gregori (2011) também argumenta que os dildos (objeto em formato de pênis) – o sex toy mais referido pelas participantes – estão associados à plasticidade e polimorfismos dos corpos visando a extração dos prazeres. Duas respostas das participantes se referiram a esse assunto: “o que me motiva a usar [o dildo] hoje em dia é o interesse em descobrir prazeres diferentes no nosso corpo, entendeu? Se eu botar no meu pé, se vai ser legal e botar em várias partes do meu corpo” (B); e “estou cansada, vou colocar [o sex toy] no pescoço [para massagear]” (L). Essas utilizações dos sex toys em partes do corpo que não são consideradas zonas erógenas usuais reflete o argumento dos autores supracitados de que os pontos de prazer dos corpos não estão limitados aos genitais, mas se estendem ao corpo inteiro.

A partir destes dois últimos relatos fica patente o argumento de Gregori (2011) de que os dildos não são meros substitutos do pênis e das relações cisheterossexuais e da dominação patriarcal, mas sim são objetos produtores do prazer corporal – e, por vezes, sexual – feminino. Isso pode ainda ser ilustrado a partir das respostas de algumas participantes: “não é algo que falta, mas é algo que completa” (B); ou “quando a gente pensa nesses sex toys, cosméticos e etc. eles trazem um requinte assim pro negócio, ele consegue fazer você ir mais fundo, se conectar” (I); e “eu comecei a chegar no orgasmo de um jeito que antes eu só chegava com alguém, sabe, aí com o vibrador eu senti que eu consegui chegar sozinha o mesmo tanto que eu chegava com outra pessoa” (F). Essas respostas reforçam o argumento proposto por Gregori (2011) de que os objetos sexuais são tanto complementos como produtores autônomos do prazer sexual feminino.

Além destes, um relato muito interessante sobre o tema foi proferido por uma das participantes: “o brinquedo [sexual] foi muito importante para mim num momento da minha vida... Eu tive muito problema com candidíase e aí foi com o brinquedo [sexual] que eu comecei a voltar para minha atividade sexual” (C). Esse trecho ilustra o referido por Felitti (2016) sobre a importância dos sex toys como produtores do autoconhecimento, do prazer sexual e da saúde sexual aos usuáries.

Outro assunto destacado pelas participantes foi o empoderamento feminino em busca do prazer e da satisfação sexual mediante a utilização dos sex toys: “o empoderamento passa muito pelo corpo sabe, muito, não tem como” (L) – trecho de entrevista de uma participante que significou o vibrador como liberdade e objeto que ajudou a lhe trazer autoconfiança e autonomia sexual. Outra participante relatou:

Eu abri um sex shop atualmente. Coloquei os cartazes, assim, no negócio de aviso de cada prédio. Aí uma senhora de 70 anos me interfonou falando que ela nunca tinha se masturbado na vida. Aí eu vendi um vibrador, uns géis e umas coisinhas, aí ok, fui lá na casa dela, ensinei pra ela... e aí ontem de manhã ela me ligou, me interfonou de novo, falando assim “menina, eu tô ligando pra te agradecer, porque eu achei que eu sabia (I)

O que essas participantes disseram refletem os relatos de Comella (2017) sobre mulheres quea partir da década de 1970 abriram sex shops como forma de permitir e facilitar o acesso a esse mercado erótico para o público feminino. Ou seja, essa atitude pode ser compreendida como ações realizadas por e para as mulheres com a intenção de ser um ambiente confortável, elegante, educativo e, principalmente, de liberdade e de empoderamento para que as clientes pudessem explorar suas mentes e corpos na produção do prazer sexual sem a necessária dependência dos seus parceires.

Outro tema recorrente nas entrevistas foram as referências às práticas de bondage/amarrações, disciplina/dominação, submissão/sadomasoquismo e masoquismo (BDSM) com a utilização de diferentes e diversos sex toys. As participantes relataram a utilização de outros tipos de sex toys além dos dildos e dos vibradores (ambos geralmente com formatos fálicos), tais como fantasias, géis, chicotes, amarras e algemas. Pires (2018) esclarece que essas práticas se referem às atividades eróticas historicamente consideradas desviantes da (cishetero) normalidade, a partir das quais há junção de dor física ou psíquica com o prazer sexual. Por isso, elas são experiências/atividades consideradas tabu, principalmente porque o sadomasoquismo é concebido pela medicina como um transtorno parafílico (American Psychiatric Association [APA], 2014). Mas Amundaray e Arenas (2019) e Gregori (2016) destacam que essas práticas não devem ser confundidas com violência (desde que observe o consentimento entre os participantes), e podem ser inclusivas e inovadoras ao conterem outras formas de expressão e produção dos prazeres sexuais.

Nesse sentido, um aspecto significativo a ser considerado são as maneiras pelas quais esses objetos foram e ainda são designados na atualidade (sex toys, toys, dildos, objetos sexuais, acessórios sexuais e brinquedos sexuais etc.), sugerindo certo refinamento devido ao uso de estrangeirismos linguísticos ao mesmo tempo em que são destinados para o divertimento sexual – atualmente são considerados brinquedos, e não instrumentos terapêuticos. Para Gregori (2011) essas nomenclaturas e propósitos são significativos em vários sentidos, dentre os quais as estratégias mercadológicas e publicitárias, ainda mais quando se considera que em outros momentos históricos o dildo era denominado de consolo, remetendo à carência e falta de um pênis, falo ou homem – o que não foi referido pelas participantes.

As participantes também relataram suas experiências e motivações quando dos primeiros usos dos sex toys que, no caso, decorreram das influências de outras pessoas – parceires sexuais ou amigues. Isso foi referido por duas participantes: “na verdade, não tem algo que me motivou no começo. Eu tinha uma namorada e ela falou: vamos experimentar” (B); e: “então, quando eu comecei lá com 17 anos, que eu tinha começado a namorar, meu ex me incentivava muito, assim, ele achava super legal e tal” (I). Ainda, as participantes relataram que o contato com sex toys ocorreu de uma forma que não as favorecia, como relatado por C: “no início eu até me machucava e achava que era meu problema, porque a minha vagina que não dava conta do brinquedo”; a participante I também referiu esse aspecto ao dizer que: “durante o tempo todo que eu namorava, como namorava à distância, eu meio que só usava quando eu ia mostrar pra ele, eu me sentia meio que na obrigação de fazer e mostrar pra ele”.

Segundo Gregori (2016) o mercado erótico se estrutura com base e segundo os padrões normativos da sociedade e, assim, todos os produtos eróticos e pornográficos destinados às mulheres priorizaram, de certa maneira, a satisfação (mesmo que voyeurista) dos homens. Disso decorreu, segundo a autora, uma das principais permanências deste sistema mesmo após a feminização do mercado erótico moderno: a responsabilização das mulheres pela satisfação e felicidade sexual dos parceires, reforçando o sistema cisheteronormativo e o dispositivo da sexualidade.

Mesmo que a maioria das participantes tenha relatado que o interesse inicial pelo uso dos sex toys tenha sido dos seus parceires, elas rapidamente se aperceberam das possibilidades de prazer e de autoconhecimento decorrentes destes objetos. Isso foi citado por praticamente todas as participantes quando, por exemplo, foram inquiridas sobre a motivação atual em utilizá-los: “hoje em dia, claramente, é assim, é amor com o meu corpo, o prazer que eu tenho, é conhecimento... você precisa contar pro outro o que você gosta né” (I); “eu senti que com o vibrador eu comecei a explorar coisas assim... eu comecei a conhecer melhor o meu corpo” (F); “eu já fui casada, hoje não sou mais, eu não sabia me tocar [masturbar-se]... recentemente que fui descobrir” (E); “autoconhecimento, vontade de conhecer mais o meu corpo e sentir prazer comigo mesma” (J).

Comella (2017) relata que os movimentos feministas nem sempre consideraram os dildos como objetos que deveriam ser utilizados e valorizados pelas mulheres devido aos perigos de serem considerados simples substitutos do pênis e do falo, além de serem relacionados à primazia das relações sexuais cisheterossexuais com penetrações e à dominação patriarcal – principalmente quando se consideram suas utilizações como instrumentos para o tratamento das histerias. Porém, seguindo a autora e Felitti (2016) e Gregori (2011), atualmente, os vibradores sexuais são amplamente reconhecidos como tecnologias feministas visando à autonomia sexual feminina que não pretendem substituir os pênis e os homens, mas sim proporcionar prazeres autônomos para as usuárias visando melhorar a saúde física e mental, além de proporcionar bem-estar, autoconhecimento e possibilitar rompimentos com o dispositivo da sexualidade.

Dessa forma, considerando o conjunto de respostas das participantes, a masturbação (praticada solo ou com parceires) com a utilização de sex toys ocupou um espaço ambíguo nas respostas das participantes: se no momento da coleta dos dados ela foi referida como importante para o autoconhecimento e para o prazer sexual, todavia, na infância/adolescência a masturbação foi significada como pecaminosa – esse aspecto será retomado na próxima categoria temática. Essas concepções sobre a masturbação possuem uma longa tradição que, de acordo com Dantas (2010), a situava tanto como pecado e volúpia individualista desde a Idade Média nos manuais confessionais e tratados penitenciais religiosos quanto como causadora de adoecimentos físicos e mentais pelas ciências médicas desde o século XIX. A masturbação – ou o onanismo – era um mal a ser combatido por causar a degenerescência do corpo individual (vício) e do corpo social (despreocupação com a reprodução biológica e geração da prole).

Dantas (2010) relata que somente a partir de meados do século XX que a masturbação como possibilidade de produção de prazer começou a ganhar relevância e atenção, movimento inserido nos questionamentos das práticas repressivas da sexualidade. Assim, alguns instrumentos e objetos originalmente produzidos para o controle da sexualidade passaram a ser utilizados como produtores dos prazeres sexuais – alguns exemplos possíveis dessas alterações são os dildos vibradores (tornados objetos de excitação), as pílulas hormonais anticonceptivas (que permitem desvincular a reprodução biológica daspráticas sexuais com penetração) e a cinta de castidade (que antes impedia as penetrações e agora serve de acessório de suporte para encaixar dildos e possibilitar novas posições e dinâmicas entre os parceires).

Esse conjunto de modificações, segundo Guerrero e Despott (2015) e Preciado (2017; 2018; 2020) permitiram – porém, não determinam – que o dispositivo da sexualidade pode ser transformado, e a produção do prazer sexual pode questionar as hegemonias da sociedade cisheteronormativa. Além disso, Comella (2017) argumentou a importância dos workshops sobre masturbação de mulheres cisgêneras nas quais elas veem ilustrações ou reflexos dos próprios órgãos sexuais tanto para conhecerem seus corpos quanto para não sentirem vergonha deles. A autora também relata o quanto foi e ainda é importante para as mulheres e seus parceires conhecerem a anatomia das vaginas utilizando os sex toys, especialmente os vibradores, como um primeiro passo para a produção do autoconhecimento e dos prazeres compartilhados.

Em suma, essas respostas das participantes destacam que os ganhos e as repercussões positivas na utilização dos sex toys estão relacionados às descobertas de sensações e prazeres no próprio corpo além dos genitais e da penetração, pois eles permitem o incremento da autonomia e do empoderamento, tal como relatado pela participante E sobre o uso do vibrador:

Ele me ajuda a potencializar a busca pelo prazer muitas vezes... é essa necessidade de explorar de uma forma diferente né... o toy que eu tenho, ele não é de penetração, ele é de estimulação clitoriana, é algo que a gente descobre muito que a sexualidade e tudo vai além de penetração.

Por fim, os relatos dessas participantes corroboram os argumentos de Preciado (2017) de que o dildo e quaisquer sex toys compõem uma tecnologia de resistência contrassexual que pretende escapar da lógica hegemônica do dispositivo da sexualidade.

Dificuldades no uso dos sex toys

As respostas e comentários das participantes também mencionaram as dificuldades e as limitações dos usos dos sex toys. Por exemplo, algumas destacaram o barulho que os sex toys vibradores fazem, permitindo alguém escutar seu funcionamento. Isso pode ser ilustrado nas seguintes respostas das participantes: “o principal fator que me desmotiva ao uso do toy é a sensação de que alguém pode estar me escutando ou preocupações externas” (E); “fui deitar e resolvi usar. Primeiro fiquei um pouco desconfortável, pois a luz do quarto da minha irmã, que é do lado do meu, estava acesa” (E); “existe uma coisa que me desmotiva é o barulho... e não porque me incomoda, mas porque eu moro com meus pais e não fico confortável” (I).

A qualidade do produto e ou as dificuldades de aquisição devido ao elevado custo dos sex toys foram exemplificados por algumas das participantes como entraves para sua utilização quando perguntadas se havia algo que as desmotiva a usar os sex toys: “tem sim, qualidade ruim do produto, qualidade ruim da borracha, do plástico” (C); “falta de dinheiro, porque as coisas que eu quero são caras e aí não para comprar tenho que juntar [dinheiro] um tanto antes” (J).

Porém, o assunto mais citado dentre as dificuldades e limitações foi o receio e o medo dos julgamentos realizados por terceiros, isto é, de como a sociedade ainda significa tanto o prazer sexual feminino quanto o uso desses objetos de uma forma pejorativa e negativa como, por exemplo, relatado por algumas das participantes: “é o tipo de coisa que eu não me sinto confortável conversando com qualquer pessoa, porque eu sei que uma mulher utilizando e falando sobre a sexualidade é algo julgado” (J); “resumindo, medo do julgamento alheio” (E); “muitas vezes as mulheres são julgadas por usar esses tipos de sex toys” (A).

Méllo (2012) e Preciado (2017) destacam que historicamente o corpo, especialmente o das mulheres, pode ser compreendido como produto de uma cultura fortemente influenciada pelo catolicismo. Assim, sua materialidade não deveria ser mostrada/exposta e deveria, devido aos esquemas de dominação do dispositivo da sexualidade, ser contido em esquemas de dominação binários (ou feminino ou masculino) cisheterossexuais. Essa concepção começou a ser problematizada com mais afinco a partir dos movimentos feministas e LGBTQIA+ de meados do século XX ao questionarem as supostas superioridades e privilégios dos homens heterossexuais e as violências as quais as mulheres e outras minorias sofriam – e ainda sofrem. Ao discorrer sobre essas alterações, Preciado (2018; 2020) destaca a importância de formalização/utilização (o que não significa a pacificação e uniformização) do conceito de gênero como operador teórico e político de estruturação das relações de poder que produzem desigualdades entre homens e mulheres e entre heterossexuais e não heterossexuais.

Assim, para Preciado (2018; 2020), se gênero não é a extensão ou a decorrência no plano das subjetividades e das atitudes das características biológicas (sexo) dos corpos, mas sim uma tecnologia que causa desigualdades e violências devido as suas pressões pela normalização em esquemas binários, isso significa que os gêneros são efeitos e não as causas das desigualdades. Nesta concepção a utilização do conceito gênero permitiu, dentre muitas consequências, deslocar o reconhecimento tradicionalistas das mulheres-objetos destinadas à dominação masculina e ao deleite e desfrute sexual por parte dos homens para – resgatando as palavras de Felitti (2016) – mulheres-sujeitos que possuem capacidade para fazer suas próprias escolhas e pode se empoderar por meio delas.

Isso impacta outro tema relacionados às dificuldades e entraves nos usos dos sex toys mencionado pelas participantes: não se sentirem completamente à vontade para utilizar os sex toys com os parceires, principalmente com homens, pelo fato de esses objetos sexuais ainda serem compreendidos por parcela significativa da população a partir de uma perspectiva cisheteronormativa. Esse argumento pode ser exemplificado pelas respostas de duas participantes: “muitas vezes as mulheres são julgadas por usar esses tipos de sex toys... como se a mulher não tivesse essa liberdade sexual para incrementar coisas na relação, se assim ela achar que deve” (A);

Que homem acha muito que é um competidor... não interessa o tamanho, não interessa a função... eu já tive várias conversas com amigos meus do tipo, vocês acham mesmo que um negócio de plástico vai substituir pele, beijo, corpo...? aí a conversa vai no sentido de que de fato eles acham (I)

Gregori (2011) argumenta que o uso dos dildos e dos objetos sexuais por um lado suplementa, expande e amplia os limites dos corpos e dos prazeres humano e, por outro lado, potencialmente reestrutura os corpos e os molda conforme novas configurações diante das produções de prazer. Porém, a participante B relatou o quanto o mercado erótico ainda está majoritariamente destinado ao público cisheterossexual: “o fato de que muita coisa é heteronormativa né, é tudo muito voltado para o público hetero e tudo mais, tem as coisas lésbicas, mas é tudo muito heteronormativo ainda”. A partir desses relatos das participantes é possível considerar, em concordância com Preciado (2017; 2018), como o processo de desconstrução normativa do dildo e dos sex toys é necessário para não o significar como réplica plástica do membro sexual masculino ou como tentativa de reestabelecer uma relação cisheterossexual (que enfatiza a penetração), mas sim como símbolo de potência e excitação sexual que pode se deslocar para diversos pontos de prazeres nos corpos.

Se a masturbação com utilização de sex toys foi considerada pelas participantes como uma possibilidade de produção de autoconhecimento e de prazeres sexuais, porém, ela também foi mencionada a partir do sentimento da culpa. A participante F relatou uma história de sua infância em que participou de um encontro de grupo de jovens da igreja no qual havia “saquinhos de pecados” (sacos de tecidos nos quais eram depositados relatos escritos de pecados cometidos por aqueles jovens), e um dos pecados mais relatados era a masturbação; dessa forma, ela começou a ficar muito preocupada e passou a achar que seria errado/pecaminoso se masturbar. Por outro lado, outra participante relatou de maneira irônica que “não faz sentido Deus ter dado mão pra gente, que alcança, ter dado um clitóris que é só pra prazer... pra mim, o conceito de que Deus não quer que você se masturbe está super distorcido” (I). Estes relatos destacam a polarização que a masturbação adquiriu, segundo Preciado (2017), na sociedade ocidental: durante muito tempo foi considerada pecado (discurso religioso) ou doença (discurso médico), segundo os quais o sujeito que se masturbava era considerado agente contaminador que não se interessava pela reprodução biológica e ameaçava o futuro da espécie, até que recentemente foi incorporada às práticas de autoprodução do prazer e do cuidado de si.

Essa dicotomia da masturbação é recorrentemente destacada pela literatura da área. Por exemplo, Butler (1990/2019), Gregori (2011) e Preciado (2017) discorreram sobre o sujeito que se masturba e que inicialmente foi considerado perigoso e/ou risco potencial aos corpos, às relações heterossexuais e às famílias nucleares monogâmicas cujo propósito era a reprodução biológica, e só mais recentemente nas últimas décadas foi considerado à luz da produção do prazer sexual. Em suma, era necessário repreender a atividade masturbatória. A partir disso foram sendo estabelecidos instrumentos ou tecnologias de repressão da sexualidade, tais como o cinto de castidade e outros objetos (luvas e amarras etc.) que dificultavam ou impossibilitavam a masturbação. Todavia, segundo estes autores, a masturbação se mostrava paradoxal para as ciências médicas do final do século XIX e início do século XX: se por um lado havia a repressão moral e médica à masturbação, por outro lado, conforme mencionado, os médicos utilizavam os vibradores mecânicos (masturbadores) como instrumentos científicos para curar a histeria e outras afecções mentais. Preciado (2017) acertadamente situa a problemática da masturbação não em torno do reconhecimento de existência e da utilização dos objetos sexuais, mas sim em relação aos propósitos dessas utilizações.

As relações com os membros das famílias também foram citadas como entraves para a utilização dos sex toys. Algumas das participantes relataram o fato de não terem onde guardar ou mesmo onde esconder os sex toys, haja vista que a simples referência à sexualidade feminina era tabu para suas famílias e parentes. Estes relatos podem ser exemplificados a partir de um trecho de entrevista de uma das participantes: “a educação que foi passada para mim, essa questão muito de ‘ai’, a mulher não pode se tocar [masturbar], etc., e a minha família é um pouco, no caso meu pai é mais assim, é bem machista, então acho que isso de certa forma interfere” (D).

Beauvoir (1949/2016) argumenta que as mulheres no decorrer da história até a contemporaneidade nunca constituíram uma sociedade autônoma – isto é, nunca assumiram posições de privilégios tal como os homens – pois sempre foram delegadas às posições submissas em sociedades masculinizadas e patriarcais. Para a autora, essa submissão não é o reflexo dos traços da personalidade e ou das características biológicas das mulheres, mas sim é sistematicamente organizada e transmitida entre as gerações por meio de instituições repressivas e esquemas de socialização primária (a que ocorre nas e pelas famílias e pessoas próximas das crianças) e secundária (aquelas que ocorrem em instituições e espaços que não os familiares como as escolas, espaços de lazer e grupos diversos etc.). Em suma, e parodiando o famoso mote da autora, não se nasce mulher submissa, torna-se. Sendo a dominação por parte dos homens e a submissão por parte das mulheres resultado de uma história das relações entre os gêneros, também é perceptível movimentos de resistência promovidos pelos ativismos feministas visando a autonomia e liberdade das mulheres. Por exemplo, no escopo desta pesquisa, a participante F, em relação à experiência do “saquinho de pecados” e da masturbação, relatou que tentou falar com sua mãe quando tinha aproximadamente oito anos para explicar o que estava fazendo – isto é, que achava que era um pecado e tentou entender o que estava acontecendo. Disse ainda o quão difícil foi conversar com sua mãe sobre esse assunto, e que a mãe não falou em momento algum que era errado ou correto, mas sim que era um processo de descoberta do próprio corpo, apenas respondendo que também fazia isso quando pequena e que a avó de F também ficava brava.

De acordo com Dantas (2010) o século XIX foi repleto de estudos e de produção do conhecimento sobre a sexualidade feminina, cuja conclusão geral foi a de que as mulheres não eram insensíveis aos desejos sexuais, porém, por influência dos tradicionalismos e dos moralismos da igreja católica e de seus apoiadores predominaram os argumentos de que elas os vivenciavam com menor intensidade do que os homens. Em outras palavras: a sexualidade das mulheres era reconhecida, desde que submissa aos homens. Dessa forma, segundo Foucault (1976/2020), a livre expressão da sexualidade feminina e do interesse sexual por parte das mulheres passaram a ser considerados elementos desviantes e anormais, fator transmitido entre as gerações e entre os gêneros – como é possível destacar dos comentários das participantes D e F.

Apontamentos finais

A sexualidade feminina por muito tempo foi concebida como destinada exclusivamente para a reprodução biológica da espécie e/ou para a satisfação sexual dos homens, e não para a produção da autossatisfação sexual. Disso decorreram gerações de mulheres consideradas subordinadas, submissas e dependentes dos homens inseridas numa cultura e sociedade patriarcal que prevalece até os dias atuais. Porém, com o avanço dos movimentos feministas e das comunidades LGBTQIA+, a sexualidade e o prazer sexual feminino foram progressivamente ganhando destaque e as mulheres passaram a reivindicar sua posição como sujeitos políticos e sujeitos de prazer.

Tendo em vista esse cenário, torna-se importante discutir a utilização dos sex toys (utilizados inicialmente para o tratamento de doenças mentais e sexuais, mas que foram assimilados ao mercado capitalista farmacopornográfico de produção e de circulação de objetos eróticos) que visam em parte, mas não exclusivamente, a produção do prazer sexual para e por parte das mulheres. Assim, os principais resultados desta pesquisa destacaram que os usos dos sex toys participam de uma construção de autoconhecimento e da produção de prazeres sexuais por parte das participantes, destacando a relevância desses objetos, visando o empoderamento e a autonomia das mulheres. Todavia, restrições e dificuldades quanto aos usos dos sex toys também foram relatados, tais como a vergonha, a culpa, o elevado custo financeiro de aquisição destes objetos, as influências da socialização familiar, da religião e da cisheteronormatividade. Mas de maneira geral e segundo as participantes, os sex toys são potencialmente revolucionários ao permitir às mulheres estabelecerem outras relações – que não as de simples subordinação e repressão – com sua sexualidade.

Essa pesquisa possui alguns limites, dentre os quais ter entrevistado apenas mulheres jovens, cisgêneras e com níveis elevados de escolaridade – outras participantes com marcadores sociais distintos destas certamente podem produzir conteúdos diferentes sobre o assunto; além disso, entrevistar homens que utilizam sex toys consigo e/ou com seus parceires também podem fornecer outros elementos de compreensão do tema. Apesar desses limites, os resultados desta pesquisa são potencialmente contributivos para a compreensão dos diversos usos dos sex toys e suas relações com o dispositivo da sexualidade e seus questionamentos na sociedade farmacopornográfica contemporânea.

Notas

1Para designar as parcerias afetivas e sexuais optamos por recorrer à escrita segundo preceitos das linguagens não-binárias para produzir um efeito de maior inclusão e diversidade.

2Cisgeneridade e transgeneridade são termos referentes ao sexo (aspectos biológicos) e ao gênero (atitudes socialmente orientadas), mas não são utilizados por Foucault, que centralizou suas investigações em torno da orientação sexual.

3Contudo, mulheres transgêneras não foram incluídas devido a não indicação destas pelas outras participantes considerando o modelo de recrutamento utilizado nesta pesquisa

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Recebido: 17 de Novembro de 2022; Revisado: 08 de Agosto de 2023; Aceito: 16 de Agosto de 2023

Rafael De Tilio. Doutor em Psicologia. Docente Permanente do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Líder do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Sexualidades e Gêneros (LEPESEGE) da UFTM. ORCID:https://orcid.org/0000-0002-4240-9707E-mail:rafal.tilio@uftm.edu.br

Jaqueline Martins Pereira Alves. Psicóloga. Pesquisadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Sexualidades e Gêneros (LEPESEGE) da UFTM. ORCID:https://orcid.org/0000-0003-0150-6495E-mail:jaque.martinspa@gmail.com

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