Este artigo aborda a função da alienação na constituição subjetiva a partir da clínica do autismo. À medida que Lacan (1964/1985, p. 199) propõe as operações de alienação e separação como “uma topologia cuja finalidade é dar conta da constituição do sujeito”, alguns autores relevantes do campo da Psicanálise – como Angela Vorcaro (1999), Pozzato & Vorcaro (2014), Marie-Christine Laznik (2004) e Colette Soler (2007), entre outros – recorrem a essas operações para situar as posições subjetivas em jogo nas psicopatologias da infância. Neste trabalho, buscamos discutir particularmente as elaborações de Laznik (2004) acerca de um enodamento da alienação em suas formas imaginária, simbólica e real no intuito de explicitar as marcas constituintes do sujeito autista. A afirmação – recorrente até mesmo no meio psicanalítico – de que “o autista está fora do campo da linguagem” (Kupfer, 1999, p. 106) pode levar à interpretação de que esses sujeitos não seriam afetados pelo Outro, quando, na verdade, Lacan (1967/1992, p. 4) nos adverte que a criança que se “protege do verbo”, tapando os ouvidos, por exemplo, parece testemunhar as estruturas da linguagem.
A alienação está presente desde o início do ensino lacaniano. Em um primeiro momento, ela concerniria ao movimento em que a constituição de si ocorre por meio de uma passagem à exterioridade, na qual se perde algo do próprio saber para que este seja atribuído ao outro. O sujeito faz da imagem do outro a referência para constituir seu próprio eu, de forma que Lacan (1949/1998) caracteriza os processos imaginários de formação do eu como alienantes. O Imaginário seria o campo da alienação por excelência (Safatle, 2018).
No Seminário 11, Lacan (1964/1985) faz uso do termo alienação para nomear um conceito topológico indissociado da operação de separação. Portanto, verifica-se uma diferença no uso do termo “alienação”, que, num primeiro momento, é utilizado de forma descritiva e, em outro momento, ganha estatuto de conceito. Consideramos essa diferenciação relevante para abordar as considerações de Laznik (2004) acerca da alienação, na medida em que a autora propõe um enodamento de três modalidades de alienação: imaginária, simbólica e real. Cada modalidade se referiria a um processo distinto, mas, para serem articuladas no autismo, entende-se que suas funções constitutivas devem ser aproximadas, no caso, por meio do enodamento entre registros.
Fato é que, apesar de certa distância epistemológica entre as formas de alienação trabalhadas por Lacan, há uma função em comum entre ambas: circunscrever movimentos de passagem ao campo do Outro, em que a constituição do eu e a do sujeito se dão necessariamente por meio da alteridade. Isso permitiria aproximar a noção de alienação imaginária à topologia da alienação ao significante, uma vez que tanto na forma descritiva quanto na dimensão de conceito topológico trata-se de nomear a necessidade de que o sujeito tenha o outro como referência para se constituir. Com isso, torna-se possível uma extensão da categoria da alienação como a empreendida por Laznik (2004), que aborda o aspecto real da alienação ao articulá-la à dimensão pulsional.
Alienação Imaginária
Consideremos o registro Imaginário como o campo em que se dá a constituição do eu sob a forma de unidade corporal por meio de identificações à imagem do outro. Esse tempo constitutivo é formalizado pelo que Lacan (1949/1998) denomina estádio do espelho. Lacan (1949/1998, p. 100) é enfático ao descrever a condição de “pré-maturação específica do nascimento no homem”. Partindo de estudos etológicos, Lacan (1949/1998) observa que mesmo antes de ser capaz de realizar funções motoras e cognitivas fundamentais, como a sustentação da postura ereta e o controle da marcha, a partir dos seis meses de idade, a criança consegue se reconhecer no espelho, expressando júbilo ao fazê-lo. Dessa forma, a relação à imagem se coloca para a criança antes de outras funções orgânicas que do ponto de vista biológico seriam imperativas. Assim, ainda que os estudos mais recentes sobre as ditas competências dos bebês interroguem a vivência de um corpo despedaçado, o encontro com a linguagem marca a prevalência da função subjetiva em relação às manifestações orgânicas nos seres humanos, ou, em termos lacanianos, “a insuficiência orgânica de sua realidade natural, se é que havemos de atribuir algum sentido ao termo natureza” (Lacan, 1949/1998, p. 100).
Nos seres humanos, a relação com o meio (Umwelt) e a assimilação de funções cognitivas e corporais são mediadas pela função da imago – isto é, imagens que adquirem uma representação inconsciente (Roudinesco & Plon, 1997, p. 371) – e não simples efeito espontâneo de aquisições biológicas naturais. Como numa espécie de mimetismo, a criança reduplica os movimentos refletidos pela imagem do espelho. Podemos observar aqui que o espelho é mais uma função do que um objeto real, já que pode ser substituído por um outro, um semelhante, que restitua à criança o que ela faz aparecer no espelho (Dunker, 1996). Isso faz com que o estádio do espelho consista em uma identificação “no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” (Lacan, 1949/1998, p. 97). Essa identificação promove a constituição do eu como unidade corporal, permitindo que “a realidade desintegrada da experiência infantil em termos cognitivos, motor e perceptivos encontre sua unificação” (Dunker, 1996, p. 85). Trata-se de uma Gestalt do corpo próprio, a partir da qual se fabricam os objetos e a realidade de forma imaginária.
Assim, essa Gestalt, cuja pregnância deve ser considerada como ligada à espécie, embora seu estilo motor seja ainda irreconhecível, simboliza, por esses dois aspectos de seu surgimento, a permanência mental do [eu], ao mesmo tempo que prefigura sua destinação alienante; e também prenhe das correspondências que unem o eu à estátua em que o homem se projeta e aos fantasmas que o dominam, ao autômato, enfim, no qual tende a se consumar, numa relação ambígua do mundo de sua fabricação. (Lacan, 1949/1998, p. 98).
Tendo isso em vista, nota-se que o “Eu” não é uma instância independente, que se desenvolve de forma autônoma a partir de uma individualidade inerente à maturação; ao contrário, a condição para a estruturação do “Eu” é o acesso ao campo do outro. O reconhecimento da imagem do corpo como pertencente ao próprio sujeito não está dado, é preciso uma construção. Para que o sujeito tome sua imagem refletida no espelho como sua própria, podendo referir-se a si mesmo como “Eu”, isto é, para que o “sujeito possa estabelecer uma relação à sua imagem enquanto Urbild do eu” (Lacan, 1953-54/1986, p. 91), é necessária uma alienação imaginária à imagem do semelhante, de forma que “essa disposição a unificar-se pela imago do outro leva à aproximação entre o ego e a paranóia, a alienação, o transitivismo e o desconhecimento” (Dunker, 1996, p. 85).
Assim, o corpo até então despedaçado é unificado por meio dessa identificação “ortopédica” (Lacan, 1949/1998, p. 100). Há uma fragilidade na unidade corporal sob forma de eu, de modo que o caráter despedaçado do corpo nunca é totalmente superado. Para essa unificação corporal incidir, como mencionado anteriormente, não basta a maturação orgânica, é preciso uma antecipação subjetiva: “o estádio do espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação” (Lacan, 1949/1998, p. 100). Podemos entender essa antecipação como uma imaginarização do real do corpo da criança, demonstrada no Seminário 1 por Lacan (1953-1954/1986) por meio de reflexões acerca do experimento do buquê invertido. Nesse experimento, um buquê de flores é anexado embaixo de um vaso de plantas colocado diante de um espelho côncavo cuja superfície esférica reflete a imagem do buquê de forma invertida, como se estivesse plantado no vaso de plantas, sem deixar aparecer que na verdade o buquê se encontra na parte de baixo do vaso. Assim, dependendo do ângulo de onde se olha, o que aparece no espelho é a imagem de um buquê de flores dentro de um vaso de plantas, isto é, uma ilusão. Acontece que, para ser iludido por essa imagem, é preciso que o olhar esteja posicionado num ângulo específico; caso contrário, a realidade de que o vaso não contém nenhum buquê é desvelada, sem que a imagem do buquê apareça no espelho de forma invertida. Trata-se de uma metáfora para demonstrar como se dá uma primeira imaginarização do real (Lacan, 1953-1954/1986).
Partindo dessas considerações apontadas por Lacan, Laznik (2004) considera a cena representada pelo experimento do buquê invertido como um tempo logicamente anterior ao estádio do espelho, que coloca condições para que este se efetue. Nesse primeiro momento, o Outro por meio de seu olhar toma o corpo da criança de forma imaginária, para além de sua consistência real. Na analogia do buquê invertido, o corpo da criança é o vaso e o Outro, ao olhá-lo a partir de seu próprio imaginário, tem seu olhar situado no ângulo necessário para conseguir ver o buquê de flores aparecer onde na dimensão real não existia nada além de um vaso, pois trata-se de um “olhar justamente no que ele se opõe à visão, avista não o que está aí, mas um vir a ser, um advir” (Laznik, 2004, p. 55). Isso permite ao Outro ver “His Majesty the Baby”, em termos freudianos, onde há apenas o real do corpo pré-maturo (Laznik, 2004).
Essa imaginarização do real pelo Outro faz a passagem da insuficiência para antecipação em jogo no estádio do espelho. Trata-se de “um primeiro reconhecimento, este não-demandado, mas que fundaria a própria possibilidade da imagem do corpo” (Laznik, 2004, p. 50), condição para que a própria criança possa em seguida se reconhecer na dimensão do “eu ideal”. Com efeito, ao inserir a criança no lugar simbólico em que ela pode se situar perante o outro, o “Ideal do eu” atesta a “dupla incidência do imaginário e do simbólico” (Lacan, 1960/1998, p. 682). A imaginarização do real do corpo da criança por parte do Outro que a ela se endereça e que lhe fala produz como efeito o traço unário, signum, precursor do “Ideal do eu”, ao mesmo tempo em que permite a estruturação imaginária do “eu ideal”. É importante notar que Laznik (2004) entende que esse reconhecimento pode ser registrado como presença original do Outro:
Trata-se aqui do olhar no sentido da presença. Mas esta experiência da presença pode também se manifestar por um barulho, uma voz. Isso permite definir a ausência enquanto concretização particular da presença. A ausência supõe uma presença original reenviando ao ser olhado e ao ser que olha, o eu e o corpo tendendo então a se definirem como efeitos do olhar. (Laznik, 2004, p. 50).
Nesse sentido, o olhar do Outro se coloca entre a criança e o espelho, de forma que a criança só pode reconhecer-se em uma imagem no espelho de forma jubilatória se anteriormente essa imagem tiver sido situada simbolicamente pelo Outro. Reconhecendo-se em um lugar simbólico por meio do efeito da captura imaginária do olhar do Outro que a investe libidinalmente, em seguida, a criança reconhecerá sua imagem no espelho, expressando júbilo ao fazê-lo, pois o que vê no espelho depende do lugar simbólico que a posiciona para ocupar, “co-incidir” com o olhar imaginário dos pais, agentes da função simbólica. Dessa forma, o estádio do espelho seria representado como a inclusão de um espelho plano no experimento do buquê invertido (Laznik, 2004), como se assim o próprio vaso pudesse ver no espelho sua imagem refletida de forma ilusória, isto é, contendo o buquê de flores, tendo acesso à imagem observada por uma perspectiva externa. A presença do Outro como “lugar que corresponde, em nosso modelo, o espaço real ao qual se superpõem as imagens virtuais” (Lacan, 1960/1998, p. 684) permite que a criança possa capturar o “Ideal do eu”: “uma formação que surge neste lugar simbólico” (Lacan, 1960/1998, p. 684). Desde 1949, Lacan (1998, p. 98) já sublinha que a “assunção jubilatória de sua imagem especular” parece “manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro”.
Em 1960, em sua retomada da questão da formação do eu a partir do relatório de Daniel Lagache, Lacan (1960/1998, p. 684) localiza a constituição do sujeito numa elisão significante como efeito estrutural. O lugar simbólico demarcado pelo olhar do Outro situa o sujeito no espaço da linguagem que enquadra o imaginário para que o “eu ideal” possa ser exercido, desdobrando o traço simbólico ou a insígnia do “Ideal do eu”. Isso remete à presença do Outro como terceiro na relação do sujeito ao outro, a presença do Outro sendo propriamente o lugar do espelho, “conotado com um A maiúsculo, e é a esse lugar que corresponde, em nosso modelo, o espaço real no qual se superpõem as imagens virtuais ‘por trás do espelho’” (Lacan, 1960/1998, p. 684).
A presença do Outro como função simbólica, como lugar do discurso, coloca-se como referência para o engendramento do imaginário, o que se vê “no gesto pelo qual a criança diante do espelho, voltando-se para aquele que a segura, apela com o olhar para o testemunho que decanta, por confirmá-lo, o reconhecimento da imagem, da assunção jubilatória em que por certo ela já estava” (Lacan, 1960/1998, p. 685, grifos do autor). É isso que Laznik (2004) situa como um reconhecimento original não-demandado, ao qual a criança se situa quando volta seu olhar para um outro que confirma sua imagem.
Diante disso, a matriz simbólica que institui o “Ideal do eu” é o lugar em que se precipita o “eu ideal”, ou seja, é preciso uma referência simbólica, um suporte que sustente que a criança está referenciada no Outro, para que ela assuma o “eu ideal” e os engodos das identificações propriamente imaginárias. Partindo de uma referência simbólica, a criança também pode apreender na imagem algo para além do real, acessando a dimensão imaginária do “eu ideal”, expressando júbilo ao fazê-lo.
Sob essa ótica, Marie-Christine Laznik (2004) coloca a hipótese de que poderia haver uma falha em nível dessa presença original do Outro em jogo no autismo. Isso teria consequências para a inscrição dos registros simbólico e imaginário. A falha na inscrição dessa presença original do Outro comprometeria o registro da alternância entre estados de ausência e presença, estrutura mínima do significante. A obstrução dessa inscrição simbólica impede que a criança em um momento lógico posterior reconheça sua imagem no espelho de forma jubilatória, pois ela não consegue reenviar a imagem do espelho àquela investida imaginariamente pelo olhar do Outro. Nesse caso, a criança teria um acesso direto ao espelho, sem que sua imagem passasse pelo Outro. Sem conseguir alienar-se de forma imaginária, a própria criança não conseguiria ver algo que estaria para além do real.
O que nos chama a atenção já nessas primeiras formulações é que, mesmo nos casos em que o investimento do Outro não produziu o efeito do “Ideal do eu”, há a presença de um imaginário e também de uma marca simbólica. Rosine e Robert Lefort (1982) privilegiaram o campo especular proposto por Lacan (1960/1998) e focalizaram o espelho plano que ali situa a função do Outro para asseverar que, no autismo, esse espelho não faria função, pois a projeção da imagem virtual que ele franquearia não estaria contemplada: ao espelho plano do Outro teria faltado a camada de estanho que opera a reflexão, limitando-se a um vidro transparente insuficiente para assumir a identificação simbólica que localiza e posiciona a criança previamente às identificações imaginárias.
Preso a uma imagem real, de um vaso sem flores, um vazio, o autista fica sem o suporte para a construção de seu corpo fragmentado. De toda forma, “o bebê autista sofre um impacto parasitário de lalíngua4 e nele se opera uma mutação de real em significante. Mesmo mudo, o autista não é um sujeito fora-da-linguagem” (Maleval, 2020, p. 15). Cabe, portanto, investigar que tipo de alienação se produz no autismo.
Alienação simbólica
No item anterior, discorremos sobre a importância do simbólico na alienação imaginária. Não obstante, as operações de alienação e separação só foram sistematizadas por Lacan (1964/1985) no Seminário 11, dedicado a trabalhar os quatro conceitos fundamentais da psicanálise: a repetição, o inconsciente, a transferência e a pulsão. Até então, a estratégia lacaniana de privilegiar o sujeito e o inconsciente considerando as formações da linguagem que comparecem no discurso e na fala (como a metáfora e a metonímia), por meio do estruturalismo, colocou limitações à teoria do sujeito (Dunker & Assadi, 2004).
Nesse sentido, a despeito de já ter dedicado um seminário ao estudo da angústia (Seminário 10 de 1962-1963), Lacan vinha sofrendo críticas que partiam da noção de que a primazia da linguagem em seu pensamento de certa forma negligenciava o ponto de vista dinâmico da sexualidade na constituição do sujeito (Fink, 1997), tão central na teoria freudiana. Diante desse contexto, no Seminário 11, “o uso da linguística por Lacan passa a ceder lugar à lógica e à topologia” (Dunker & Assadi, 2004, p. 86). Ao abordar o campo do Outro e o retorno sobre a transferência, Lacan (1964/1985) descreve o funcionamento do inconsciente em termos de abertura e fechamento, pulsações temporais que demonstram alienação (como na associação livre) e separação (hiância), e indica coordenadas para a interpretação no manejo da transferência. Tal explicitação possibilitou conjugar a causação do sujeito como efeito do significante ao campo da pulsão e da sexualidade por meio da topologia da alienação e da separação, “à medida que permite representar logicamente a relação entre o sujeito, o objeto que lhe dá causa e a cadeia significante” (Dunker & Assadi, 2004, p. 86). No entanto, isso não significa dizer que ao introduzir a lógica e a topologia em suas construções epistemológicas Lacan tenha abandonado a perspectiva do estruturalismo linguístico, mas viabilizou a passagem à estrutura topológica do ser falante que ganhou corpo nos anos posteriores.
Pois bem, na medida em que a estrutura que interessa à psicanálise inclui o sujeito, as manifestações do bebê são apreendidas por meio do funcionamento significante (Vorcaro, 2004), verificando-se que “nenhum sujeito tem razão de aparecer no real, salvo por nele existirem seres falantes” (Lacan, 1964/1985, p. 854). Afinal, ao atribuir um sentido às manifestações do neonato, tomando-as como encenações de um sujeito, o agente materno o insere na estrutura da linguagem (Vorcaro, 2004), de forma que o “sujeito é colocado sob o vel de um sentido a ser recebido” (Lacan, 1960/1998, p. 855). Trata-se da operação de alienação.
Essa incidência inevitável do significante que fixa o sujeito em uma posição condena-o a só poder surgir a partir de uma divisão (Lacan, 1964/1985). Essa divisão fundamental coloca-se sob a forma de uma escolha forçada entre e o ser e o sentido, na qual “se ele aparece de um lado como sentido, produzido pelo significante, do outro lado ele aparece como afânise” (Lacan, 1964/1985, p. 206). Se levarmos em consideração que o termo “afânise”, derivado do grego, significa desaparecimento, o sujeito aparece desaparecendo, ele deixa de ser no momento mesmo em que se define. Ele comparece como sentido na trama significante do discurso do Outro e para o Outro que fala. Entremeado na língua materna por meio de um significante que o fixa sem ter sentido. Como qualquer ser falante, fora do campo significante ele não é nada, não é reconhecido.
Na lógica da reunião da teoria dos conjuntos, o vel impõe a condição do ou, implicando que dois conjuntos se juntem sem que seus termos sejam somados como operação de adição. Assim, a reunião dos dois conjuntos implica uma subtração, ou seja, uma perda, pois os termos que se repetem em cada conjunto, ao serem reunidos, não podem ser recontados. Os termos que pertencem aos dois conjuntos são unidos por meio de uma subtração, de forma a restar apenas o termo que pertence a ambos. Assim, a função do ou implica necessariamente uma escolha e uma perda, pois só é possível ir ou para lá ou para cá, não é possível ir para dois lugares ao mesmo tempo (Lacan, 1964/1985), nem mesmo escolher não ir nem para cá, nem para lá. A especificidade que Lacan atribui à função do ou considera uma escolha já previamente definida do tipo perder a plenitude da vida ou evitar a morte, em que só se escolhe o grau de perda. Sendo sem escolha perder, a escolha não é verdadeiramente uma. A divisão a que o sujeito está submetido pode ser lida nesses termos, posto que se impõe uma escolha forçada entre o ser e o sentido. Na junção do campo do sujeito ao campo do Outro, não há acréscimo, uma soma, mas sim uma perda.
O vel da alienação se define por uma escolha cujas propriedades dependem do seguinte: que há, na reunião um elemento que comporta que, qualquer que seja a escolha que se opere, há por consequência um nem um, nem outro. A escolha aí é apenas a de se saber se a gente pretende guardar uma das partes, a outra desaparecendo em cada caso. (Lacan, 1964/1985, p. 206).
Essa divisão pode ser lida como uma escolha forçada, na qual há apenas duas possibilidades: ou o ser ou o sentido. Ao “escolher” o ser, não há sujeito possível, há apenas o funcionamento fisiológico da unidade orgânica. Ao “escolher” o sentido, isto é, ao aparecer como sentido no campo do Outro, a função significante força o desaparecimento do ser (Lacan, 1964/1985). Ao ser submetido ao funcionamento significante, o sujeito sofre a perda do seu ser, assim substituído pela suplência do fluxo de vida. O real do organismo, ao ser inevitavelmente alienado à linguagem, dada a precedência simbólica do Outro que viabiliza sua satisfação e sobrevivência (Vorcaro, 2004), está fadado a “escolher” o sentido, “que só subsiste decepado dessa parte de não-senso que é, falando propriamente, o que constitui na realização do sujeito, o inconsciente” (Lacan, 1964/1985, p. 206). Ao mesmo tempo, a incidência do significante sobre o real do corpo da criança “barra a necessidade e produz a pulsão” (Brousse, 1997a, p. 123). A admissão do significante deforma a necessidade, que em parte se satisfaz ao se formatar no modo significante. A perda exige, ao mesmo tempo, um ganho que compense a perda, um outro modo de satisfação, erógena. Dessa forma, a incidência do significante, demonstrada pela topologia da alienação, funda o inconsciente como realidade sexual (Lacan, 1964/1985), fazendo do sexual “aquilo no qual o conflito, o antagonismo do ‘ser’ e do ‘sentido’ está constantemente vivo” (Zupancic, 2008, p. 16). Pode-se entender com isso que a alienação à linguagem faz do ser vivo um ser sexual, de forma que “a relação ao Outro é justamente o que para nós faz surgir o que representa a lâmina – não a polaridade sexuada, a relação do masculino com o feminino, mas a relação do sujeito vivo com aquilo que perde por ter que passar, para sua reprodução, pelo ciclo sexual” (Lacan, 1964/1985, p. 194).
A necessidade orgânica tem um único objeto e uma única satisfação possível, como no caso da fome, que só pode ser saciada pelo alimento. A estrutura significante, no entanto, coloca-se de forma que um significante, por si só, é vazio de sentido, e para emitir alguma significação é preciso que esteja referido a outro significante, havendo uma hiância entre eles. Assim, dada a prevalência da linguagem em relação ao organismo, a necessidade orgânica será necessariamente apreendida pela palavra, pervertida pela estrutura significante ao ser tomada como uma demanda impossível de ser satisfeita, sem que exista um objeto que possa satisfazê-la, na mesma lógica que faz com que um significante jamais estabeleça equivalência plena a um significado. Isso de certa forma reitera não apenas a distinção entre a rede simbólica e as identificações imaginárias, mas também a noção freudiana de que “a pulsão é uma força constante” (Freud, 1915/2017, p. 146), pois é impossível aplacar sua insatisfação. A montagem da pulsão se articula à estruturação subjetiva por meio da linguagem, uma vez que a pulsão é resultado do funcionamento do significante (Brousse, 1997a). A perda do ser engendrada pela divisão subjetiva na alienação implica a passagem da necessidade orgânica à exigência pulsional impossível de ser saturada por um objeto, sendo apenas parcial, de forma que o desaparecimento em jogo na alienação ao significante produz a pulsão (Zupancic, 2008) que o excede.
Caso consideremos, no que Lacan depurou como lalíngua, que o primeiro efeito da linguagem sobre o organismo infans seja a ressonância de fragmentos justapostos da linguagem, ainda dissociados de qualquer gramática e de toda sintaxe, mas já passíveis de serem tomados como trama singular que franqueia a captura de elementos da língua de modo inusitado, concordamos com Maleval (2020, p. 16), para quem “não há dúvida de que o autista é sensível a certo impacto de lalíngua”. Nesse caso, a alienação não estaria vinculada à operação de separação. O autor sugere o termo “alienação retida” para aludir às marcas indeléveis da linguagem sobre o ser, que faz de qualquer humano diferente dos animais. Diferença essa que permite pensarmos um real que não equivale à realidade, bem como um modo de funcionamento corporal que só pode ser apreendido pelo conceito de pulsão.
Alienação real
A alienação simbólica à linguagem, a alienação imaginária no estádio do espelho e a incidência do funcionamento pulsional têm o mesmo ponto de partida: a consistência simbólica que precede a existência real do neonato (Vorcaro, 2004). O corpo orgânico é tomado como real e, por isso, tratado imaginariamente pelo agente do Outro, possibilitando, ao mesmo tempo, a localização simbólica e a imaginarização da forma narcísica. A incidência do significante já é desdobramento da marca simbólica primeira, sendo a pulsão o que insiste da transposição pela linguagem do corpo natural em corpo esquadrinhado e formatado pelo simbólico. Dele cai o resíduo, um objeto não apreensível nem objetivável, que Lacan nomeou objeto a (Lacan, 1962-1963/2005). Entretanto este insiste ultrapassando qualquer racionalidade partilhável, na singularidade de seu gozo pulsional, em alteridade tanto ao simbólico quanto ao imaginário.
No entender de Laznik (2004), a presença original do Outro imprime um reconhecimento não-demandado, cujo efeito, na criança, é a identificação primária ao traço implantado pelo Outro como signum. Portanto, uma falha na inscrição dessa presença original do Outro teria como consequência um comprometimento nas inscrições que essa presença possibilita, isto é, a articulação da alienação simbólica, a alienação imaginária e a dimensão do real encontrada no exercício da pulsão (Laznik, 2004). A autora toma essa hipótese da falha na presença original do Outro sob a forma de um olhar a partir de uma perspectiva clínica, na qual frequentemente se nota “pais que não se deixam enganar por nenhuma imagem real, e logo por nenhuma ilusão antecipadora: eles vêem o bebê real, tal qual, em seu desnudamento, e sua impossibilidade de antecipar torna impossível que qualquer coisa advenha” (Laznik, 2004, p. 56), isto é, o que estaria em jogo nesse caso seria um desejo excessivamente anônimo (Lacan, 1968/2003, p. 369).
No que respeita à inscrição do imaginário em relação ao autismo, essa falha na presença original do Outro implicaria a não inscrição de um primeiro reconhecimento não-demandado, impedindo a criança de se localizar como objeto de desejo no olhar do Outro, como buquê de flor dentro do vaso, dificultando sua identificação a uma imagem no estádio do espelho (Laznik, 2004).
Assim, consideramos a importância do discernimento entre a falta (que é sempre simbólica) e o vazio (que tem a dimensão real de buraco). O vaso vazio ou o vazio no vaso é condição de qualquer sujeito. A questão está na modalidade pela qual o simbólico (que discerne, localiza e articula o buraco) e o imaginário (que dá consistência e encobre o vazio por meio das identificações) se enodam ao furo real. Consequências desse desenodamento são a desorientação e a desmantelação corporal da criança, bem como a impossibilidade de sustentar relações especulares, que tanto fragilizam a articulação entre imaginário e simbólico, necessária para a constituição do sujeito no laço social. À medida que o funcionamento imaginário fica comprometido sob a forma de ausência da imagem corporal, há impossibilidade de recursos imaginários e da fantasia, donde uma fragilidade no que o imaginário suporta o simbólico e possibilita sua inscrição. Isto é, há uma falha no entrecruzamento entre imaginário e simbólico. Sem o estágio do espelho e a matriz simbólica do “Ideal do eu” (Lacan, 1949/1998), não há o plano de fundo para inscrições simbólicas posteriores; e sem a confusão com o campo do outro e da resultante rivalidade, há dificuldades na primeira mediatização do desejo (Dunker, 1996), para além da imagem do corpo e da relação com o outro.
Dessa forma, uma falha na inscrição da presença original do Outro resultaria na “impossibilidade da instauração do tempo constitutivo do imaginário, e então do eu, através da relação especular com o Outro” (Laznik, 2004, p. 51). Nesse sentido, a autora indaga se isso teria como efeito uma “resposta não-assunção jubilatória diante de sua própria imagem, ou na não-demanda de reconhecimento (por exemplo, nessas crianças que evitam virar a cabeça para o adulto que as carrega)” (Laznik, 2004, p. 53), manifestações frequentes de bebês em risco de autismo. Ou, ainda, poderíamos aludir a uma dificuldade de estabelecer uma relação especular com os outros, em um “evitamento que lembra uma foraclusão, uma supressão dos signos perceptivos do que poderia se fazer olhar da mãe, no sentido de sua presença, de seu investimento libidinal” (Laznik, 2004, p. 53). A interrupção da inscrição do registro imaginário e, portanto, da constituição do eu e da unidade corporal no autismo também teria consequências, “deixando como futuro para a libido da criança somente o ensimesmamento no corpo próprio das automutilações” (Laznik, 2004, p. 56). Segundo Laznik (2004), a falha na presença original do Outro prejudicaria também a inscrição das dimensões de ausência e presença, alternância simbólica primordial.
A maneira como Laznik se refere à presença/ausência do Outro sugere uma materialidade que não condiz com a ideia lacaniana de uma “matriz simbólica” – o que pode ser mais bem apreendido a partir das considerações de Vorcaro (1999) acerca da forma como a alienação simbólica se coloca no autismo, em que haveria uma disjunção entre o campo do ser e do sentido:
Podemos supor que a criança entra na alienação significante, para, a seguir, destacar-se sem entretanto efetuar uma interpenetração entre os campos do ser e do Outro. Ela é, sem interpolação, ou puro ser vivo, ou pura máquina significante. Suas aquisições são reflexas, na medida em que, na maquinação significante em que se faz ventríloca, nada diz respeito ao funcionamento do corpo tomado pelo significante e, em suas funções orgânicas, nada diz respeito ao funcionamento significante. Há um funcionamento paralelo exclusivo do ser e do significante, demonstrado por uma exclusão ativa. (Vorcaro, 1999, p. 34, grifos nossos).
Dessa forma, apesar de a criança estar alienada por ser situada no discurso do Outro, ela se encontra paralisada diante da perda que a submissão ao significante exige. Na ausência dessa interpenetração entre o campo do ser e do Outro, é como se o sujeito não se confundisse com o campo do Outro para em seguida poder se separar. Ora, isso implica que a operação de separação é obstruída no autismo, na medida em que a separação só faz sentido pensada simultaneamente de forma circular e não-recíproca em relação à interpenetração do ser e do sentido que constitui a alienação, cujos efeitos são retroagidos pela separação. Ou seja, podemos dizer com isso que a criança autista não consegue se separar do Outro,5 no sentido de poder encontrar “o ponto fraco do casal primitivo da articulação significante, no que ela é de essência alienante” (Lacan, 1964/1985, p. 215). Ela não pode se deparar com o desejo que a hiância da estrutura significante coloca, pois é como se o significante unário (S1) não se colocasse de forma a remeter-se ao significante binário (S2), esgarçando entre eles o espaço do sujeito. O intervalo localizado entre a dupla de significantes é a hiância exposta pela operação de separação, na qual o desejo surge do recobrimento de dois furos, isto é, sem que o sujeito tenha acesso à dimensão do furo do Outro; ao passo que não consegue remetê-lo a seu próprio furo engendrado pela alienação, o desejo do Outro seria apresentado então como um gozo feroz que toma o sujeito como objeto capaz de obturá-lo. Pensamos que distinguir falta (simbólica) e furo (real) é uma questão importante a ser considerada ao refletirmos acerca das defesas em jogo na posição autística.
Todavia, vale ainda retomar o entender de Colette Soler (2002/2007) de que no autismo “a criança não consegue separar-se do Outro porque o Outro não é um objeto compensador de sua falta, e sim uma parte dela. Ao separar-se dele, seu corpo cai, inerte” (Soler, 2002/2007, p. 78). Dessa forma, segundo o pensamento de Soler (2002/2007), é como se no autismo a alienação do sujeito ao Outro do significante “se traduzisse, no nível do corpo, pelo fato de a libido também ser do Outro” (Soler, 2002/2007, p. 78), de maneira que algumas separações podem ser vividas de forma catastrófica por essas crianças, pois implicaria “perder uma máquina-libido que a sustenta” (Soler, 2002/2007, p. 78). A nosso ver, essa aderência do autista ao corpo libidinal do Outro pode nos informar sobre o movimento pulsional recrutado pela presença de um vazio real, um furo, bordejado pelo imaginário e simbólico no agente do Outro, mesmo que este possa atribuir ao bebê a condição de obturar uma falta.
Configura-se que a pulsão é relacionada à função de desaparecimento que o significante exerce sobre o ser na alienação e retomado em sua dimensão de furo na separação. E, para discutir sobre o conceito de pulsão em Lacan, é importante observar a forma como Freud (1915/2017) descreveu seu funcionamento em três tempos: ativo, reflexivo (autoerótico) e passivo. De acordo com Laznik (2004), a alienação real seria concomitante à instauração do terceiro tempo do remate pulsional:
É nesse terceiro tempo que o Ich [Eu] se faz objeto para um novo sujeito, e é nesse assujeitamento do Ich [Eu] que se vê surgir o sujeito, que não é Ich [Eu] mas o outro. Alienação real, já que, eis que o sujeito do meu circuito pulsional não é Eu mas o outro. Esta alienação real vem se enodar à alienação simbólica, que se sustenta no fato de que, quando Eu falo, é pelos significantes do Outro e portanto numa alienação inevitável. Enfim o assujeitamento a este outro da pulsão visa dar ao Ich [Eu] um corpo, através da enodação possível com a dimensão, imaginária desta vez, da alienação da qual falamos na primeira parte desse texto: aquela que se efetua no reconhecimento de seu eu através da imagem especular de seu semelhante. (Laznik, 2004, p. 64).
Lacan entende a dimensão do “se fazer” (se faire) como forma emblemática de satisfação da pulsão (Brousse, 1997b). Esse terceiro momento do circuito pulsional, considerado por Freud (1915/2017) a posição passiva, seria o momento em que o sujeito se faz objeto de um novo sujeito, sendo uma novidade aparecer um sujeito que, advindo da alteridade, pode ser reconhecido como semelhante. Imaginário e simbólico articulados suscitam a dimensão real do corpo a ser colocada em jogo na forma de objeto: algo que o sujeito oferece ao Outro na expectativa de receber mais sentido, mas, nessa separação, a perda se transmuta em sexualidade e pulsão.
A dimensão do se fazer arremata o circuito pulsional em forma de satisfação, de modo que a excitação sai da fonte somática e, ao enlaçar o outro na dimensão do se fazer, retorna agora não diretamente à fonte, mas à zona erógena estabelecida em torno daquela, num circuito não recíproco, não coincidente com a biunivocidade especular do arco reflexo (Vorcaro, 2022), que contorna o objeto a (Lacan, 1964/1985), sem dele se apropriar. Assim, da singularidade da pulsão, o sujeito não se sabe, é agido pela pulsão ao supor imaginariamente se fazer para o Outro. É o que permite considerar a identificação real à pulsão em heterogeneidade não apenas ao imaginário, mas, inclusive, ao campo simbólico. Aí o real do gozo se distingue da homeostase do prazer. No caso, a dimensão do se fazer ressalta o caráter sempre ativo da pulsão, mas não do sujeito, mesmo que seu exercício aconteça por meio do ato aparentemente passivo de se fazer objeto de um outro sujeito, o que é reforçado por Lacan (1964/1985) ao observar o que se passa no masoquismo.
O ato de se fazer objeto de um outro sujeito evidencia que “é somente com sua aparição a nível do outro que pode ser realizado o que é da função da pulsão” (Lacan, 1964/1985, p. 174). Isso se configura na forma como Lacan (1964/1985) descreve o exercício da pulsão escópica, na qual a introdução do outro nesse circuito faz com que o sujeito reencontre o olhar como objeto perdido. A presença de um outro no circuito pulsional é necessária, mas apenas quando esse outro apenas se coloca como suporte para que o sujeito reencontre um objeto como ausência (Lacan, 1964/1985), isto é, a presença do outro se faz necessária não por sua consistência concreta, mas por sua função de suporte para que o sujeito agente da pulsão faça uso de um vazio, ao contorná-lo estabelecendo sua borda.
O que se olha é aquilo que não se pode ver. Se, graças à introdução do outro, a estrutura da pulsão aparece, ela só se completa verdadeiramente em sua forma invertida, em sua forma de retorno, que é a verdadeira pulsão ativa. No exibicionismo, o que é visado pelo sujeito é o que se realiza no outro, enquanto que forçado, para além de sua implicação em cena. Não é apenas a vítima que está envolvida no exibicionismo, é a vítima enquanto que referida a algum outro que a olha. (Lacan, 1964/1985, p. 179).
Esse circuito da pulsão escópica em jogo no exibicionismo é bem diferente do olhar não-demandado e constituinte da dimensão imaginária. Esse olhar que retorna na cena exibicionista escancara a dimensão real da pulsão, o vazio do vaso que tentamos preencher com flores. E não é desse olhar que o autista se desvia? Nesse sentido, podemos entender que um sujeito autista não consiga fazer da presença do outro suporte de um objeto que se presentifica por seu caráter de ausência, tornando a montagem da pulsão em forma de um circuito que contorna o objeto a. O objeto que aparece no campo do Outro é o próprio sujeito desnudado em sua dimensão real.
Com efeito, Freud (1915/2017) e Lacan (1964/1985) destacam que no terceiro tempo do circuito pulsional a grande novidade consiste no aparecimento de um novo sujeito a quem o sujeito agora se submete, busca ser alvo da pulsão do outro, se fazendo de objeto tal como tomava anteriormente tudo aquilo que entrava em seu circuito pulsional para satisfação autoerótica. A inserção no corpo do começo e do fim da pulsão define o campo do autoerotismo, que remete ao segundo tempo do circuito pulsional. Para Lacan (1964/1985), o autoerotismo não é uma ausência de objetos, mas o funcionamento da pulsão em relação ao próprio corpo. Na dimensão autoerótica, temos um sujeito do gozo, bem como um gozo autista (Lacan, 1962-1963/2005, p. 55), que não considera o outro como participante do circuito, diferentemente do masoquista, por exemplo.
Se acompanhamos Laznik (2004) na definição desse terceiro movimento como uma alienação real, isso permite considerar o masoquismo como uma forma de alienação, na medida em que “o asceta que se flagela o faz por um terceiro. Ora, não está de modo algum aí o que ele quer apreender. Ele quer apenas designar o retorno, a inserção no corpo próprio do começo e do fim da pulsão” (Lacan, 1964/1985, p. 180). Ao constatarmos o efeito que o sujeito autista produz no Outro, parece difícil recusar a existência de uma alienação real, referida ao que não passa apenas pelo simbólico e pelo imaginário, mas que retoma o que está fora do campo da representação apenas presentificando-se. Nessa via, em vez de alegar uma incompletude – no sentido de uma falha ou um fracasso na instauração do terceiro tempo do circuito pulsional –, sugerimos nos debruçar ainda mais sobre os modos como a presença original do Outro tem sido subjetivada na contemporaneidade.
Considerações finais
Aquilo que permite o funcionamento pulsional, a dimensão do se fazer que arremata o circuito da pulsão, se dá pela modalidade na qual o sujeito relaciona seu próprio vazio ao vazio do Outro, na forma imaginária em que “o primeiro objeto oferecido ao desejo parental é sua própria perda” (Lacan, 1964/1998, p. 857). O autista não cede onde poderia dissolver-se, perdendo-se, porque se encontra instalado plenamente, ou seja, congelado, refletido no espelho plano sem as bordas do espelho côncavo delineadas pelo olhar do Outro – que permitiriam a miragem do buquê de flores –, sem as bordas discernidas pelas nomeações discursivas e sem as bordas das zonas erógenas que regulam a abertura das fontes somáticas de excitação. Isso mostra que o autista tem sim uma imagem corporal, bem como é atingido pela alienação simbólica. O problema é que essa justaposição particular não admite que o real dos orifícios seja circunscrito pelas bordas simbólico-imaginárias constituídas pelas zonas erógenas; sem esse litoral, o real disforme inunda o organismo, que não delimita o furo em bordas para fazer corpo, operando como real o que se apresenta ao imaginário e ao simbólico. Isso impede o movimento de se fazer de objeto para o Outro, pois também não há distinção do objeto que oriente e antecipe o trajeto disparado a partir da fonte somática, referenciando a direção do retorno à zona erógena, no movimento pulsional do corpo (Vorcaro, 2022). Todavia, se elementos imaginários e simbólicos quase indistintos não estabelecem redes suficientes de concatenação, as considerações sobre o objeto autístico levam-nos a pensar em um tipo peculiar de alienação real em jogo no gozo autista. O objeto autístico (seja um elemento destacado do meio, um brinquedo ou a animação do outro) comportaria então a função do vazio ou do furo, em que as suplências das dimensões simbólica e imaginária do sujeito podem se apoiar e entrançar. Nessa lógica, real, simbólico e imaginário se atrelariam de uma forma específica no autismo, mostrando que a alienação rtiam da noção de que a primazia da linguagem em seu pensamento de certa forma negligen














