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Analytica: Revista de Psicanálise

versão On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.12 no.22 São João del Rei jan./jun. 2023  Epub 05-Set-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v12i22.5184 

Artigo

Violência e Psicanálise: caminhos teóricos e possíveis modos de ruptura de ciclos de violências sexuais intrafamiliares

Violence and Psychoanalysis: Theoretical Paths and Possible Ways of Rupture Cycles of Intrafamilial Sexual Violence

Violence et psychanalyse : pistes théoriques et moyens possibles pour briser les cycles de la violence sexuelle intrafamiliale

Violencia y psicoanálisis: caminos teóricos y posibles formas de romper los ciclos de violencia sexual intrafamiliar

Maiza dos Santos Rodrigues1 

Anamaria Silva Neves2 

1Mestra em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Psicóloga graduada pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)

2Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP)). Professora associada do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)


Resumo

Este artigo apresenta possíveis interseções entre família, violência e trauma, buscando pensar possíveis modos de ruptura de ciclos de violências sexuais intrafamiliares. Essa busca se realiza por meio de um caminho teórico que aborda as considerações freudianas sobre as características do trauma inscritas no psiquismo e, posteriormente, acrescentam-se contribuições de Ferenczi sobre trauma e violência sexual infantil. A partir dessas considerações, nota-se a relevância do segredo familiar sobre a violência sexual cometida na família e como isso se desdobra na transmissão psíquica, culminando num ciclo de violências sexuais intrafamiliares entre gerações. Diante dessas articulações, destaca-se a importância da investigação sobre a história familiar dos envolvidos para que o tratamento psíquico se estenda à família e, também, o lugar do analista como testemunha sensível ao traumático como possíveis formas de ruptura do ciclo de violências sexuais intrafamiliares.

Palavras-chave Violência sexual intrafamiliar; Psicanálise; Trauma; Segredo; Família

Abstract

This article presents possible intersections between family, violence and trauma, seeking to think about possible ways of breaking cycles of intra-family sexual violence. This search is carried out through a theoretical path that approaches Freudian considerations about the characteristics of trauma inscribed in the psyche, and later, Ferenczi’s contributions about trauma and childhood sexual violence are added. From these considerations, the relevance of family secrecy about the sexual violence committed in the family is noted, and how this unfolds in the psychic transmission, culminating in a cycle of intra-family sexual violence between generations. In view of these articulations, the importance of the investigation of the family history of those involved is highlighted, so that the psychic treatment may extend to the family, and also, the place of the analyst as a sensitive witness to the traumatic as possible ways to break the cycle of intra-family sexual violence.

Keywords Intrafamilial sexual violence; Psychoanalysis; Trauma; Secrety; Family

Résumé

Cet article présente les intersections possibles entre la famille, la violence et les traumatismes, en cherchant à réfléchir aux moyens possibles de briser les cycles de la violence sexuelle intrafamiliale. Cette recherche s’effectue à travers un parcours théorique qui s’approche des considérations freudiennes sur les caractéristiques du traumatisme inscrites dans la psyché, auxquelles s’ajoutent les contributions de Ferenczi sur le traumatisme et la violence sexuelle envers les enfants. A partir de ces considérations, on note la pertinence du secret familial en ce qui concerne les violences sexuelles commises dans la famille et la manière dont elles se déploient dans la transmission psychique, aboutissant à un cycle de violences sexuelles intrafamiliales entre les générations. Face à ces articulations, on souligne l’importance de l’investigation de l’histoire familiale des personnes impliquées, afin que le traitement psychique s’étende à la famille, et aussi, la place de l’analyste en tant que témoin sensible du traumatique comme moyens possibles de rompre le cycle de la violence sexuelle intrafamiliale.

Mots-clés Violence sexuelle intrafamiliale; Psychanalyse; Traumatisme; Secret; Famille

Resumen

Este artículo presenta posibles intersecciones entre familia, violencia y trauma, tratando de pensar en posibles formas de romper los ciclos de violencia sexual intrafamiliar. Esta búsqueda se realiza a través de un recorrido teórico que se aproxima a las consideraciones freudianas sobre las características del trauma inscrito en el psiquismo y, posteriormente, se añaden las aportaciones de Ferenczi sobre el trauma y la violencia sexual infantil. A partir de estas consideraciones, se señala la relevancia del secreto familiar en relación con la violencia sexual cometida en la familia y cómo ésta se despliega en la transmisión psíquica, culminando en un ciclo de violencia sexual intrafamiliar entre generaciones. Frente a estas articulaciones, se destaca la importancia de la investigación de la historia familiar de los involucrados, para que el tratamiento psíquico se extienda a la familia, y también, el lugar del analista como testigo sensible de lo traumático como posibles formas de romper el ciclo de la violencia sexual intrafamiliar.

Palabras clave Violencia sexual intrafamiliar; Psicoanálisis; Trauma; Secreto; Familia

Introdução

O interesse em pensar sobre as possíveis interseções entre família, violência e trauma surge diante das numerosas denúncias e notificações de casos de violências sexuais intrafamiliares ocorridos entre uma ou mais gerações. Apesar de a violência fazer parte da experiência humana, nota-se o horror das pessoas quando o ato brutal é perpetrado por familiares por meio de agressões sexuais.

Na definição clássica, família é uma instituição fundamental para a formação e inclusão social do sujeito mediante relações interpessoais que incluem pessoas ligadas por parentesco. Lévi-Strauss (1976) afirma que a vida familiar está presente em todas as sociedades humanas, mesmo naquelas com hábitos mais distintos dos nossos.

Na teoria psicanalítica, a constituição do sujeito é ancorada em uma história familiar que o precede, da qual ele vai extrair a substância de suas fundações narcísicas e tomar um lugar de sujeito no mundo (Silva, 2003). Isso implica num entrelaçamento de gerações, ponto em que há a reatualização do narcisismo dos pais, a revivência de conflitos infantis e a reedição de histórias familiares. Desses encontros decorrem a herança psíquica, transmitida de geração em geração (Vasconcelos & Lima, 2015).

Nessas transmissões podem ser propagados conteúdos organizadores – como nomes, sobrenomes, costumes, histórias – ou infames – potencialmente capazes de causar angústias, conflitos e sofrimentos resultantes de histórias precedentes. Na segunda possibilidade, o sujeito pode herdar uma história que não lhe pertence, funcionando como hospedeiro de uma história inconsciente de outra geração e se tornando um corpo ausente de si, confuso ou enlouquecido (Silva, 2003).

Em vista disso, a família pode ser abordada como um cenário de versões controversas sobre confiança e abuso, respeito e invasão, amor e agressão, podendo funcionar como um depósito de heranças, medos e segredos (Neves & Romanelli, 2006; Comin & Santos, 2012).

Como forma de autopreservação, há entre os familiares pactos que sustentam os vínculos. Segundo Kaës (2000), esses pactos são acordos conscientes e inconscientes impostos para organização dos laços e satisfação dos sujeitos a fim de assegurar a continuidade de benefícios relacionados ao narcísico dos integrantes. Destaca-se entre estes o segredo, que na dimensão da transmissão é aquilo que é censurado e não dito.

Muitas vezes o conteúdo do segredo é vergonhoso e imoral, como as relações incestuosas, definidas por Cohen (1993) como violências sexuais intrafamiliares, com ou sem violência explícita, caracterizada pela estimulação sexual intencional por parte de algum dos membros do grupo que tem algum vínculo parental. Ressalta-se, segundo Azevedo e Guerra (2000), que tal relação entre as partes pode ser de consanguinidade, afinidade ou mera responsabilidade.

Entende-se, neste estudo, a violência como transgressão dos limites físicos e psíquicos das vítimas, impossibilitando qualquer forma de defesa. Por conseguinte, é possível relacionar essa terminologia ao conceito inicial de trauma – nas palavras de Freud (1892/1996, p. 114), “toda impressão que o sistema nervoso tem dificuldade em abolir por meio do pensamento associativo ou da reação motora”. Nessa relação entre tais concepções, a experiência traumática provém do excesso de excitação provocada pela violência, que ao invadir o psiquismo rompe com as defesas psíquicas e incapacita o sujeito elaborar psiquicamente o ocorrido.

Majoritariamente, as vivências traumáticas da violência sexual intrafamiliar são mantidas em segredo em função da união familiar, tornando-se um segredo inominável, algo que fica fora daquilo que pode ser inscrito no psiquismo e paira na memória como algo esvaziado de sentidos. Granjon (2000, p. 26) afirma que

Estes passados sob silêncio, ou mantidos em segredo, estes restos insensatos de um acontecimento inaceitável estão fora do alcance de um trabalho psíquico, mas vão obstruir a psique do sujeito e do grupo, permanecendo em estado bruto, consagrados à repetição e oferecidos às identificações da criança com a secreta esperança de que esta, herdeira e suplente narcísico, possa realizar este trabalho fracassado.

Em função do raciocínio brevemente apresentado, este estudo tem como premissa buscar possíveis modos de ruptura de ciclos de violências sexuais intrafamiliares sustentados pela repetição entre gerações. Essa busca será realizada a partir de um caminho teórico trilhado por leituras de obras clássicas da Psicanálise e de concepções de autores contemporâneos.

O trauma sob o olhar freudiano: o irrepresentável

Como uma ferida aberta, o trauma faz jus ao seu sentido etimológico grego – “palavra, originalmente em grego, significa ferida e deriva ainda de outra, que designa furar, uma ferida com efração” (Cidade & Zorning, 2016, p. 30) – sendo usualmente descrito como a rememoração crua e literal de experiências dolorosas, isto é, “as lembranças traumáticas implicam uma presentificação muito vívida da experiência que a originou” (Antonello & Gondar, 2016, p. 20). Ainda que rememorado de forma literal, é contraditoriamente aquém de representações psíquicas, colocando em xeque as possibilidades de elaboração.

O termo trauma foi visto pela primeira vez nos textos psicanalíticos quando Freud (1886/1996) descreve seu percurso prático-teórico com Charcot no artigo “Relatório sobre meus estudos em Paris e Berlim”. Nesse primeiro contato científico, trauma e histeria estiveram intimamente interligados e ambos os termos ainda não eram bem-definidos. A princípio, os autores se referiram ao trauma como causador da histeria, de ordem fisiológica. Adiante, somada à técnica de hipnose, chegaram a “uma espécie de teoria da sintomatologia histérica” (Freud, 1886/1996, p. 18).

Imerso na teoria dos ataques histéricos e se interrogando sobre as hipóteses de Charcot, Freud (1892/1996) passou a analisar os sintomas histéricos não mais a partir do evento traumático em si, mas de sua rememoração. Isso é anunciado como elemento essencial dos ataques histéricos, segundo Freud (1892/1996, p. 112): “há o retorno de um estado psíquico [...] em outras palavras, o retorno de uma lembrança”, posteriormente citada como “trauma psíquico” (p. 112). Causadoras de irrupções psíquicas, as recordações traumáticas sobrevinham de sustos, ofensas, humilhações, frustrações, assombrando tanto homens quanto mulheres. Os entrelaçamentos entre os estudos já anunciavam a ideia de trauma como um choque enérgico que retornava via memória e tinha efeitos devastadores.

Além do retorno de fortes emoções, Freud (1892/1996, p. 114) observou características recorrentes dos ataques histéricos e as classificou como “impressões que não conseguiram encontrar uma descarga adequada”. A partir disso, anunciou a primeira definição de trauma psíquico: “transforma-se em trauma psíquico toda impressão que o sistema nervoso tem dificuldade em abolir por meio do pensamento associativo ou da reação motora” (Freud, 1892/1996, p.114). Dessa forma, prenunciou-se o trauma como energia excessiva culminante na efração do aparelho psíquico.

Sob ponto de vista econômico, as representações advindas de fortes impressões tornam-se patológicas e persistem com tamanha nitidez e intensidade afetiva quando assolam os processos normais de desgastes por meio da ab-reação3 e ficam fora da cadeia associativa, vagando como uma energia incontrolável (Freud, 1892/1996). As recordações traumáticas tornam-se ainda mais extraordinárias por permanecerem como corpos estranhos que, muito tempo após a entrada, ainda continuam agindo sobre o psiquismo e são vivenciadas como afetos estrangulados de intenso desprazer (Freud, 1892/1996).

Ainda na década de 1890, Freud (1985/1996), implicado em sustentar a ideia de que todo fenômeno histérico tinha origem traumática, supôs que o âmago traumático era essencialmente de natureza sexual: “a sexualidade parece desempenhar um papel fundamental na patogênese da histeria, como fonte de traumas psíquicos e como motivação para a ‘defesa’ – isto é, para que as ideias sejam recalcadas da consciência” (Freud, 1985/1996, p. 17).

Nesse contexto, a abordagem do trauma tornou-se ainda mais percuciente e um novo rumo conceitual surge, agora pautado na teoria da sedução. No artigo “A hereditariedade e a etiologia das neuroses”, Freud (1896/1996) – baseado em extensas pesquisas clínicas – observou que a etimologia traumática se enraizava na experiência infantil de um atentado sexual, isto é, acreditava-se que os sintomas neuróticos fossem causados por defesas psíquicas mediante a sedução da criança pelo adulto.

A causalidade traumática foi remontada no caso Emma, descrito no artigo “Projeto para uma Psicologia para neurólogos”. Nesse caso, Freud (1895/1996) complementou a ideia de que o trauma é fonte de recordação penosa, implementando que a trama é composta por duas cenas: na primeira, a criança é seduzida pelo adulto, mantém essa lembrança como um corpo estranho que vaga pelo limbo pré-consciente. Anos depois, na puberdade, quando há uma prontidão à sexualidade, essa mesma cena é rememorada de forma sexual e, ao ressignificá-la, o recalque é promovido. O sintoma, nesse caso, é o retorno do recalcado. É a partir dessa postulação que Freud se distanciou da teoria da sedução, em que o ato sexual em si que importava, e passou a considerar a realidade psíquica, ou seja, reconhecer as fantasias sexuais como percussoras de traumas.

Na “Carta 52 a Fliess” (1896/1996), o trauma passou a ser associado aos processos de memória, reforçando o caráter de energia excedentária que se desdobra em várias cenas. Freud (1896/1996, p. 175), a partir do copilado sobre os processos de memória e estratificação do aparelho psíquico em camadas, ressaltou que “a memória não se faz presente só uma vez, mas se desdobra em vários tempos”. Dito de outro modo, o psiquismo se comporta de forma análoga a uma engrenagem de registros, simbolizações e representações de toda a energia que o adentra.

Freud (1896/1996) afirmou que nessa engrenagem existem pelo menos três (ou mais) registros. Antonello e Gondar (2012, p. 128), numa releitura da “Carta 52 a Fliess” (Freud, 1896/1996), descrevem tais registros no seguinte esquema:

1) A percepção – responsável pela recepção dos estímulos que são sentidos como sensações pelo aparato. A consciência se liga à percepção, e não retém nenhum traço do que aconteceu, pois Freud considera memória, percepção e consciência excludentes; 2) Signo ou índice de percepção – é o primeiro registro mnêmico (impressão) dessas percepções, ainda inacessíveis à consciência e orientadas pelas associações por simultaneidade; 3) Registro da inconsciência – ocorre a inscrição dos signos de percepção (impressões) como traços mnêmicos, ordenada por associações de causalidade, também inacessíveis à consciência; 4) Pré-consciência – nele ocorre a transcrição dos traços mnêmicos que permite ligá-los à representação de palavra, tornando o acesso à consciência possível de acordo com certas regras.

É nesse sentido que a formação dos traços mnêmicos se destaca no pensamento freudiano. Considerando que a ideia de trauma se dá justamente na falha dessa formação, Antonello e Gondar (2012, p. 128) consideram que

Fazer traço é simbolizar, é transformar a energia livre que entra no aparato psíquico em ligada. Isso significa que a energia é, por assim dizer, amarrada em representações e tal amarramento permitirá a ligação com outras representações. A representação-lembrança referente a uma cena vivida ou fantasiada, não é, desta maneira, inscrita em uma única representação, mas faz parte de uma cadeia representativa, uma trama que pode ser rearticulada a cada nova evocação, denotando, também, a complexidade da memória proposta por Freud.

De acordo com Gaspar, Lorenzutti e Cardoso (2006), as impressões psíquicas dos eventos externos têm dois destinos: serem inscritas no sistema inconsciente formando os traços mnêmicos, e para isso a energia de tais impressões precisa ser dominada e passar pelos processos de transcrições; ou formar marcas psíquicas, isto é, considerando a intensidade do evento, a energia gerada excede os limites de domínio psíquico e não pode ser inscrita, impossibilitando a simbolização e ligação com outros traços mnêmicos.

Para Antonello e Gondar (2012, p. 130), há uma forte implicação no segundo destino descrito: “as marcas, não formando representação, não são passíveis de recalcamento e persistem no psiquismo como um instante congelado”. Desse modo, as marcas psíquicas representam o trauma substancial, uma energia livre instalada no nível mais arcaico da memória.

Fora do campo de representação, essas impressões são criptografadas por outro campo, o da figurabilidade. Segundo Hanns (1999), essa ação consiste em atribuir um formato captável (de ordem do sensível, ou seja, pela linguagem sensorial, pictórica, sinestésica e/ou auditiva) a algo irrepresentável, ou melhor, que não foi metabolizado pela engrenagem do psiquismo. Por esse motivo as lembranças traumáticas, apesar de irrepresentáveis psiquicamente, assumem aspectos literais, com presentificações aterrorizadoras.

Décadas depois de suas descobertas acerca do trauma, Freud (1937/1996) destacou, no artigo “Construções em Análise”, possíveis vestígios do traumático em seus casos. Sob a sugestão da construção analítica, Freud notou a evocação de um fenômeno surpreendente e incompreensível, “tiveram [pacientes] evocadas recordações vivas – que eles próprios descreveram como ultraclaras” (p. 172).

Essas recordações foram anunciadas por Freud (1937/1996) como semelhantes às alucinações constituídas sob o mecanismo familiar dos sonhos traumáticos. Partindo de releituras freudianas, Antonello e Gondar (2016, p. 21) afirmam que “Se encontram [recordações] em um nível muito mais concreto (literal) do que as lembranças comuns, apresentando uma vivacidade sinestésica muito acentuada do que é figurado. Ainda assim, Freud considera que existe aí uma memória, a memória dos signos de percepção, que se mantém pouco alterada e ultraclara”.

As ocorrências de memórias traumáticas literais são sustentadas pela proposição freudiana de que a percepção (parte do aparelho de memória descrito na “Carta 52 a Fliess”) encontra-se no mesmo polo que a consciência, formando um único sistema perceptivo. Nesse sistema são reproduzidas percepções do mundo externo e os sentimentos de prazer e desprazer oriundos do mundo interno, ou seja, do interior psíquico. Sendo assim, essa parte do aparelho encontra-se na linha fronteiriça entre os dois mundos. Por esse intermédio, o trauma como impressão perceptiva muito forte pode alcançar a consciência sem ser representado (Antonello, 2012; Freud, 1920/1966).

Conforme apontado, “as marcas caracterizam-se por não sofrer nenhuma tradução, pois desde o início elas permanecem inalteradas, como um instante fotografado” (Antonello, 2012, p. 132). No trauma, o passado é cravado no presente, provocando sofrimento por sua natureza ilógica.

Em busca de ampliar o aporte teórico sobre eventos traumáticos, o próximo tópico abordará as obras de Sándor Ferenczi acerca das cenas incestuosas, vistas como violências sexuais intrafamiliares.

Ferenczi sobre o trauma: família, confusão e violência

Há diferentes teorias que versam sobre os efeitos do trauma e suas funções na fundação psíquica, revelando a pluralidade do campo psicanalítico. Neste estudo buscamos associar o conceito de trauma e violência sexual na infância; dessa forma, recorremos às contribuições de Sándor Ferenczi (1873-1933), autor que aborda tais temas de forma polêmica para a época.

Segundo Mézsaros (2011), Ferenczi provocou mudanças no paradigma da teoria do trauma ao ampliar o modelo intrapsíquico com a introdução da perspectiva relações de objeto. Além disso, o psicanalista enfatizou a complexa dinâmica psíquica envolvida no trauma revelada nas cenas de violências sexuais infantis.

Autodescrito como “um especialista de casos particularmente difíceis” (Ferenczi, 1931), Sándor Ferenczi elaborou suas obras caracterizadas por vinhetas clínicas de pacientes arruinados por traumas. Desde seu primeiro trabalho, sustenta o pressuposto da dissemetria relacional entre sujeitos. Mais especificamente, quando se aproxima da conceituação do trauma, essa dissemetria se desponta entre o adulto e a criança e torna-se elemento do complexo traumatogênico. Apesar de esse aspecto aparecer desde seu primeiro texto, “Do alcance da ejaculação precoce” (Ferenczi, 1908/1991), é a partir de 1928 que Ferenczi vai aprofundar suas produções e a conceituação do trauma.

Antes de aprofundar nas reflexões sobre o trauma desestruturante, é válido ressaltar que “o trauma se produz mediante a incidência de um acontecimento capaz de mobilizar todo o aparelho psíquico” (Pinheiro, 1995, p. 65), isto é, o que Ferenczi denominou de trauma aborda também eventos que, apesar das perdas e desconfortos psíquicos, fazem parte da construção psíquica: “Podemos, então, dividir os traumas em dois grandes grupos: o primeiro, composto por traumas que propiciam a reorganização psíquica e que contribuem para o desenvolvimento e a estruturação; o segundo compõe-se de traumas em que a violência soma-se a um efeito surpresa” (Pinheiro, 1995, p. 66).

Na obra O desenvolvimento do sentido de realidade e seus estágios (Ferenczi, 1913/2011), Ferenczi enfatizou a existência da relação originária traumática e sedutora com a mãe. As primeiras relações, com a introdução de limites ao bebê, configuram-se como traumáticas e fundamentais, pois a onipotência incondicional do recém-nascido se mostra insustentável e ele passa a reconhecer nele próprio sentimentos de desprazer. Dessa forma, são apresentados indícios de que a constituição do psiquismo está atrelada ao domínio das pulsões que, por sua vez, participam do processo de memória e constituem a subjetividade. Em suma, “alguns traumas não são apenas inevitáveis, como também necessários à estruturação psíquica. A castração é o exemplo máximo disto” (Pinheiro, 1995, p. 65).

No artigo “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte” (Ferenczi, 1929/2011), a partir de sua experiência como médico-chefe e o contato com soldados epiléticos durante a guerra, Ferenczi assimilou a percepção de aversão materna na infância desses pacientes e determinadas manifestações sintomáticas. É sinalizada a importância da relação materna nos primeiros anos de vida e suas consequências na vida adulta do sujeito acometido pela rudez e falta de carinho maternos. Sob a releitura de Baracat, Abrão e Martínez (2017, p. 75), nesse trabalho

Ferenczi aponta para a relação entre doenças psicossomáticas graves associadas a relatos que traziam à tona a percepção infantil do desprezo materno. Estes sujeitos, assim abalados em fase tão prematura pelo desejo de morte oriundo da própria mãe, viriam a desenvolver doenças que plasmariam o desejo de morte uma vez internalizado.

Mais adiante, no trabalho “Análise de crianças com adultos”, Ferenczi (1931/2011) introduziu a gênese da autoclivagem narcísica e o mecanismo de traumatogênese amparadas nas constatações teórico-clínicas de sujeitos adultos acometidos por sofrimentos infantis cristalizados na memória. Os pacientes entorpecidos por sentimentos de abandono e decepção sofrem uma “clivagem da personalidade” (Ferenczi, 1931/2011, p. 76), como se o ego fosse divido em duas partes, “numa parte sensível, brutalmente destruída, e uma outra que, de certo modo, sabe tudo, mas nada sente” (Ferenczi, 1931/2011, p. 77). Em outras palavras, a autoclivagem narcísica é uma defesa contra o desamparo, já que o mesmo sujeito que sofre é aquele que cuida de si mesmo.

Por meio de vivências infantis, Ferenczi (1931/2011) observou em seus pacientes, de forma muito cautelosa, o mecanismo da traumatogênese: a paralisia do trabalho de pensamento, o estado de choque, ou até mesmo de coma, como se o paciente induzisse a agressão contra si mesmo. Nessa vívida cena, estende-se a reprodução da agonia física e psíquica que acarretam uma dor incompreensível e insuportável. Essa cena enquadra e corrobora a descrição dos pacientes freudianos sobre o trauma como uma “imagem ultraclara” (Ferenczi, 1931/2011; Freud, 1937/1996).

É no trabalho “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (Ferenczi, 1933/2011) em que as cenas de violências sexuais na infância são apontadas e aproximadas do traumático. Mais do que Ferenczi esperava, a realidade das cenas de violências, principalmente incestuosas, eram marcantes e eclodiam em famílias de todas as classes socioeconômicas e intelectuais. Sobre as cenas incestuosas, ressalta-se: “São ora os próprios pais que buscam um substituto para suas insatisfações, dessa maneira patológica, ora pessoas de confiança, membros da mesma família (tios, tias, avós), os preceptores ou pessoal doméstico que abusam da ignorância e da inocência das crianças” (Ferenczi, 1933/2011, p. 101).

Em síntese, são esses os adultos que, na iminência de desejos eróticos, confundem a linguagem terna das crianças com a linguagem da paixão. A partir da releitura sobre a dinâmica da violência sexual infantil descrita por Ferenczi (1933/2011), Abrão e Martínez (2017, p. 76) sintetizam a cena incestuosa da seguinte forma:

A criança se aproxima do adulto com sua sexualidade infantil, perversa polimorfa e lúdica, enquanto o adulto responde a esta com sua sexualidade genital, francamente erótica e com fins sexuais. Aqui se encontra a confusão de línguas, a criança com a linguagem da ternura e o adulto com a da paixão. Nesta dissimetria, o evento sexual ocorre e, a partir deste, a relação de afeto existente entre a criança e o adulto muda completamente. Isto porque o adulto, sentindo-se culpado pelo ato, passa a destratar e a se distanciar da criança, que aí neste ponto passa a inferir que algo de errado acontecera.

O trauma se instala, não apenas pelo encontro entre corpos sob a coação do adulto, mas justamente na confusão e desarmonia que esse encontro gera a posteriori. Na iminência do mal-entendido “a criança se torna o porta-voz” (Baracat et al., 2017, p. 76) do ocorrido, ela sente o distanciamento do adulto (antes afetuoso) e percebe que algo de errado aconteceu, sem conseguir ao certo denominá-lo. Em vista disso, busca em outro adulto o acalento e compreensão daquilo que, em partes, ela sente que provocou. Todavia, diante de expressões e reações de incompreensão, silêncio e indiferença, como se o ato não houvesse acontecido, funda-se o rompante que Ferenczi (1931/2011) descreveu como o desmentido, elemento factual do traumatismo patogênico.

O desmentido culmina na desautorização subjetiva da vítima, descrita por Gondar (2012, p. 196) como “o não-reconhecimento e a não-validação perceptiva e afetiva da violência sofrida. Trata-se de um descrédito da percepção, do sofrimento e da própria condição de sujeito daquele que vivenciou o trauma”. Se é pela representação que o sujeito se torna capaz de elaborar, esse descrédito rompe com a possibilidade de apropriação do acontecido, retornando-o ao nível de percepção: o corpo sente que aconteceu, mas é desautorizado de reconhecer. A criança torna-se, além de vítima, refém da violência sexual.

Na lógica ferencziana, as traumáticas cenas incestuosas envolvem confusões intrafamiliares abafadas em nome do vínculo familiar. Sob a desautorização subjetiva, a percepção da cena incestuosa não se inscreve na rede de associações e preserva-se como um afeto indefinido que vaga e não se integra ao fluxo psíquico, podendo retornar de forma perturbadora e se configurar como trauma. Nessa dinâmica, aquilo que é negado é também silenciado. A trama é censurada, tornando-se um segredo familiar.

Segredo familiar: o inominável transmissível

Abraham e Torok (1995) destacam a relevância dos estudos acerca dos segredos, pois, em tornos destes, podem surgir as patologias da transmissão, isto é, quando um acontecimento traumático perturba e impede a integração congruente dos vínculos familiares, consequentemente, podem surgir lacunas na história familiar que será transmitida nas próximas gerações.

Azevedo (2012, p. 19) afirma que “a família é a matriz privilegiada para o trabalho de transmissão psíquica, pois nela são geradas não apenas as identificações significativas, como também as diversas modalidades de transmissão”. A transmissão intergeracional, considerada por Correa (2000) como herança positiva, é constituída de “vivências psíquicas elaboradas: fantasias, imagos, identificações que organizam uma história familiar, uma narração mítica” (Silva, 2003, p. 31). Esses conteúdos são fundamentais para a constituição psíquica do sujeito, pois são modificados e transformados a favor de uma organização intersubjetiva dos laços familiares.

Já a transmissão transgeracional, considerada defeituosa, inclui vivências não elaboradas, isto é, vivências vergonhosas, aterrorizantes ou traumáticas que foram escondidas ou caladas pelos ancestrais e, portanto, bloqueadas no processo de transformação psíquica (Correa, 2003). Essa transmissão não beneficia as próximas gerações, pelo contrário, é causadora de sofrimentos psíquicos, já que adentram a subjetividade de forma bruta e esvaziada de sentidos.

Sobre isso, Kupferberg e Rudge (2004) ressaltam que os traumas são terrenos férteis para o fenômeno da transmissão psíquica transgeracional, posto que são conteúdos que ficam fora da possibilidade de processamento psíquico, de simbolização e da linguagem. Nesse sentido, é possível afirmar que a violência sexual intrafamiliar, quando silenciada e tratada como segredo, tende a tornar-se tão traumática quanto o desmentido.

O silenciamento da violência, assim como a compulsão à repetição, constitui o denominador comum que percorre a falta de inscrição do sujeito na sucessão das gerações, isto é, esse sujeito é impedido de acessar a simbolização do acontecimento, recebendo-o de forma desorganizadora, que, por sua vez, se incube em manifestações sintomáticas (Correa, 2003). Esse denominador pode obrigar os descendentes a tentar simbolizar e, de certa forma, reorganizar os afetos do acontecimento não elaborado. Sendo assim, na historicidade de famílias incestuosas, é possível se pensar a herança psíquica, ocupada por pactos de silêncio, segredo e, em alguns casos, o desmentido como um perigoso mecanismo de repetição.

Possíveis modos de rupturas dos ciclos de violências sexuais intrafamiliares

Segundo as articulações até aqui debatidas, o estudo sobre ciclos de violências sexuais intrafamiliares demanda a investigação sobre a história familiar dos envolvidos, para que o tratamento psíquico se estenda à família, com o intuito de amenizar os afetos exacerbados do trauma por meio das narrativas. O ciclo de repetições engrenado pela transmissão transgeracional deixa em cada geração zonas obscuras que podem vir a serem preenchidas por histórias contadas.

No entanto, há de se ressaltar que o enfretamento do traumático tem por obstáculo o conteúdo irrepresentável, isto é, não há um material inscrito sequer no inconsciente. Logo, a gênese do sofrimento psíquico se encontra no nível mais arcaico do aparelho de memória, regido pela percepção. Em vista disso, o trauma desafia o analista a tatear memórias penosas que ameaçam o bem-estar do sujeito numa parte profunda do psiquismo.

Ao passo que a análise, segundo Freud (1937/1996), busca reconstruir narrativas a partir das lembranças perdidas, nos casos de acontecimentos traumáticos, tais lembranças não são apreendidas pela linguagem, levando a uma urgência que não é totalmente suprida pela narrativa verbal. A partir desse aspecto, o analista é desafiado a assumir outras funções além da função interpretativa. Segundo Dias (2011, p. 17), com pacientes traumatizados há de se fazer um trabalho de reinvenção:

O trabalho clínico com estes pacientes parece requerer uma noção de experiência em que seja possível explorar, através das sintonias de afeto e ressonâncias, a possibilidade de traduzir, de transitar entre o visível e o invisível: fazer da clínica uma arte, uma experiência estética de percepções infinitesimais, que se deixa transformar ao mesmo tempo em que torna a transformação experiência.

Retomando Ferenczi (1934/2011) e suas reinvenções de técnicas em relação a seus casos difíceis – face a face com cenas incestuosas –, o autor afirma que o choque traumático (da confusão entre línguas e encontro dos corpos de forma erótica) é equivalente à aniquilação da capacidade de resistir, agir e pensar com vistas à defesa de si. Ainda suscita que “o comportamento dos adultos em relação à criança que sofreu o traumatismo faz parte do modo de ação psíquica do trauma” (Ferenczi, 1934/2011, p. 111). Diante da incompreensão e do desmentido, a dimensão inconsciente da criança violentada recorre à autoclivagem narcísica na tentativa de forjar uma figura de proteção que testemunhe o evento traumático e a salve da desautorização subjetiva. Essa figura é uma fragmentação de si mesma. Todavia, há uma falha nessa estratégia:

Ela é a própria bondade e inteligência, um anjo da guarda, por assim dizer. Esse anjo vê desde fora a criança que sofre, ou que foi morta (portanto, ele se esgueirou para fora da pessoa durante o processo de “fragmentação”), percorre o mundo inteiro em busca de ajuda [...] Mas, no momento de um novo traumatismo, muito mais forte, o santo protetor deve confessar sua própria impotência [...], e nada mais resta, nessa altura, senão o suicídio, ao menos que, no derradeiro momento, se produza algo de favorável na própria realidade. (Ferenczi, 1934/2011, p. 117).

Como um gancho do fracasso, o mais favorável nessa realidade é a presença de um terceiro sujeito, aquele que estabeleça uma ponte entre o presente e o passado insuportável que se repete de forma compulsiva. Esse sujeito pode ser o analista quando assume a posição de testemunha do traumático: “Essa coisa favorável a que nos referimos em face do impulso suicida é o fato de que nesse novo combate traumático o paciente não está inteiramente só. Talvez não possamos lhe oferecer tudo o que lhe caberia em sua infância, mas só o fato de que possamos vir em sua ajuda já proporciona o impulso para uma nova vida” (Ferenczi, 1934/2011, p. 117).

O lugar do testemunho e o reconhecimento da literalidade do evento traumático funda a possibilidade de rememoração do trauma em condições mais favoráveis, e as impressões não inscritas, inacessíveis até mesmo ao inconsciente, poderiam ser levadas, pela primeira vez, à percepção e à descarga motora (Ferenczi, 1934/2011). Seguindo essa lógica, Antonello e Gondar (2016) afirmam que a abordagem do trauma exige o lugar da testemunha, já que, ao participar desse lugar, o analista ultrapassa tanto a função interpretativa quanto a função de continente para as quais a situação clínica o convoca, criando uma memória que vai ser experimentada pela primeira vez.

Acompanhando as pistas do reconhecimento, Antonello e Gondar (2016, p. 19) estabelecem que “testemunhar, da parte do analista, não implica apenas acolher ou conter. Implica, primordialmente, reconhecer”. Esse movimento faz contraste com a noção do desmentido de Ferenczi (1931/2011), relembrando que o trauma se faz também pela recusa do acontecido, na qual o sujeito é desmentido. Sendo assim, reconhecer é o avesso disso:

Implica dar crédito ao trauma, validando as percepções e sentimentos daquele que sofreu a violência. Disso nos falam nossos pacientes, quando desconfiam de suas próprias percepções ou da gravidade de seu sofrimento: “talvez eu esteja exagerando, não é possível que tenha ocorrido desse modo, isso não pode ter acontecido”. (Antonello & Gondar, 2016, p. 19).

Diante das peculiaridades que envolvem o traumático, Dias e Peixoto (2010) enfatizam como os dispositivos clínicos possibilitam o acesso à criação via experiência, permitindo uma reconfiguração de subjetividades nas quais o desarranjo traumático desorganizou estruturas. Sendo assim, há um importante destaque para a função do analista como testemunha e, também, como participante de uma nova construção subjetiva para o paciente.

Essas funções estão ancoradas no preceito teórico “sentir com”, em que Ferenczi (1933/2011, p. 161) diz: “O paciente deve sentir que o analista compartilha com ele da dor e que também faz de boa vontade sacrifícios para apaziguá-la”. Essa função cria a possibilidade do tão essencial reconhecimento para que a narrativa do inenarrável seja possível.

Ao assumir tais funções, o analista conquista o feito terapêutico de estar sensível para experimentar sensações e afetos vivenciados no encontro com a alteridade em decorrência da derrubada momentânea de fronteiras entre paciente e analista (Kupermann, 2008). Dessa forma, torna-se possível, junto com o paciente, encontrar fiapos deixados pelo trauma e torná-los fios que podem ligar os afetos, até então, vagos, às representações. E isso é o mais próximo de elaborar: transformar o volume excessivo de energia em algo possível de se dominar, derivar e ligar (Lapanche & Pontalis, 2001).

Considerações finais

A intrigante repetição de casos de violências sexuais intrafamiliares que perpassam gerações nos provoca a pensar sobre as diversas configurações familiares que ultrapassam as definições clássicas de família como uma instituição de plena segurança. O incesto é um fenômeno há muito tempo interditado, no entanto muito presente em sua forma velada pelo silêncio e o segredo.

No cenário familiar incestuoso, encontram-se as vítimas e os agressores, o segredo e a revelação, o pacto e a quebra de confiança, o traumático e, na melhor das hipóteses, a elaboração do sofrimento familiar. Essa estranha configuração é o material complexo dos casos clínicos que chegam em peso nos ambulatórios especializados em acolher as vítimas e famílias violentadas. Diante das subjetividades aterrorizadas pelas ressonâncias do traumático, o analista encontra o desafio de reinventar as práxis psicanalíticas em vista dos conteúdos psíquicos irrepresentáveis e à poderosa transmissão psíquica dos objetos engendrados pelo não elaborado.

O lugar do analista como testemunha promove o desmonte do desmentido e, finalmente, autoriza o sujeito a sofrer daquilo que o assombra. Em termos de violência sexual, são esperadas diversas formas de sofrimentos ancorados em sentimentos de traição, abandono, culpa, entre outros. Nessa possibilidade, é significativa a faculdade do “sentir com”, isto é, a participação do analista – ainda que de um outro lugar – dos efeitos dos afetos desencadeados.

Essa conjunção de práxis possibilita um vínculo entre analista e paciente que cria condições favoráveis e seguras para a rememoração de sensações e imagens dolorosas – por sua característica literal – que a violência e, por conseguinte, o trauma inscrevem no psiquismo. É mediante a passagem por essa superfície tão sensível, no entanto assegurada, que o paciente encontra o reconhecimento necessário sobre seu sofrimento e reorganiza sua subjetividade marcada pelo trauma, mas sustentada pela elaboração.

Por fim, as interseções entre violência, segredo familiar, trauma e transgeracionalidade se despontam como elementos substanciais do ciclo de violências sexuais intrafamiliares. Ao longo do caminho teórico, foi possível relacionar os efeitos desses fenômenos e como eles podem se encadear e instalar um ciclo de repetições que se propaga por gerações. Pensando nesse apontamento, é possível considerar a investigação da história familiar, o tratamento psíquico estendido à família e as funções alternativas do analista como testemunha e participante do processo de reconstrução subjetiva do paciente como possíveis rupturas do ciclo de violências sexuais intrafamiliares.

3Ab-reação: descarga emocional pela qual um sujeito se liberta do afeto ligado à recordação de um acontecimento traumático, permitindo assim que não se torne ou não continue sendo patogênico (Laplanche & Pontalis, 1991/1967, p. 1).

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