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Analytica: Revista de Psicanálise

versão On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.12 no.22 São João del Rei jan./jun. 2023  Epub 05-Set-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v12i22.5185 

Artigo

A relação mãe-filho em Eu matei minha mãe: análise winnicottiana

The Mother-Child Relationship in I Killed My Mother: Winnicottian Analysis

La relation mère-enfant dans J’ai tué ma mère: analyse winnicottienne

La relación madre-hijo en Yo maté a mi madre: análisis winnicottiano

Gisele da Luz Freire Silva1 

Eriel Euller Messias Alves2 

Rafael Medeiros de Amorim Nobre3 

Paula Orchiucci Miura4 

1Graduanda em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas

2Graduando em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas

3Graduando em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas

4Professora adjunta na graduação e pós-graduação do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas


Resumo

Na adolescência, período de descobertas pessoais, ocorrem inúmeras mudanças e tensionamentos subjetivos. Nesse período acontece um considerável desinvestimento das relações familiares e um investimento nas relações exógenas. O presente artigo teve como objetivo analisar a relação ambivalente entre mãe e filho no filme Eu matei minha mãe, a partir do referencial teórico winnicottiano. Trata-se de um estudo qualitativo com base na análise fílmica, cujas fases foram: identificação (escolha da obra), decomposição (ou descrição) e interpretação (discussão do tema central presente na obra cinematográfica). No processo de análise, foram elaboradas quatro cenas emblemáticas para discussão acerca da relação ambivalente entre mãe e filho: em uma discussão com a mãe no jantar, Hubert a trata com desprezo; em um desentendimento, Hubert xinga a mãe; depois de uma discussão entre Hubert e Chantale, aparece a imagem dela no caixão, como se fosse fruto da imaginação do filho; a mãe abraça o filho, que retribui o gesto de carinho. Observou-se que os confrontos e ataques agressivos direcionados à figura materna dizem respeito não somente a uma agressividade, mas sobretudo ao caráter ambivalente dessa relação, em que o adolescente relaciona-se ora a partir de impulsos amorosos (elogios, demonstrações de afeto), ora a partir de impulsos agressivos (insultos, desprezo). No filme em questão, há o movimento, por parte do adolescente, de testar a capacidade da mãe de suportar e sobreviver a todo esse ódio e desprezo, em face da deprivação sofrida decorrente da separação dos pais.

Palavras-chave Relação mãe-filho; Adolescência; Análise fílmica; Teoria winnicottiana

Abstract

In adolescence, a period of personal discoveries, numerous changes and subjective tensions occur. During this period, there is a considerable disinvestment in family relationships and an investment in exogenous relationships. This article aimed to analyze the ambivalent relationship between mother and son in the movie I Killed My Mother, based on the Winnicottian theoretical framework. This is a qualitative study based on film analysis, whose phases were: identification (choice of work), representation (or description) and interpretation (discussion of the central theme present in the cinematographic work). In the analysis process, four emblematic scenes were elaborated for discussion about the ambivalent relationship between mother and son: In a discussion with his mother at dinner, Hubert treats her with contempt; In a disagreement, Hubert curses at his mother; After a discussion between Hubert and Chantale, her image appears in the coffin, as if it were the fruit of her son’s imagination; The mother hugs her son, who reciprocates the gesture of affection. It should be noted that confrontations and aggressive attacks directed at the mother figure relate not only to aggressiveness, but above all to the ambivalent nature of this relationship, in which the adolescent relates sometimes based on loving impulses (compliments, independent of affection) , sometimes from aggressive impulses (insults, contempt). In the film in question, there is a movement, on the part of the teenager, to test the mother’s ability to support and survive all this hatred and contempt, in the face of the deprivation suffered when her parents separate.

Keywords Mother-child relationship; Adolescence; Film analysis; Winnicottian theory

Résumé

A l’adolescence, période de découvertes personnelles, de nombreux changements et tensions subjectives surviennent. Durant cette période, il y a un désinvestissement considérable dans les relations familiales et un investissement dans les relations exogènes. Cet article visait à analyser la relation ambivalente entre mère et fils dans le film J’ai tué ma mère, en s’appuyant sur le cadre théorique winnicottien. Il s’agit d’une étude qualitative basée sur l’analyse d’un film, dont les phases étaient : identification (choix de l’œuvre), représentation (ou description) et interprétation (discussion du thème central présent dans l’œuvre cinématographique). Dans le processus d’analyse, quatre scènes emblématiques ont été élaborées pour discuter de la relation ambivalente entre la mère et le fils: Dans une discussion avec sa mère au dîner, Hubert la traite avec mépris; Dans un désaccord, Hubert maudit sa mère; Après une discussion entre Hubert et Chantale, son image apparaît dans le cercueil, comme si elle était le fruit de l’imagination de son fils; La mère serre son fils dans ses bras, qui lui rend le geste d’affection. Il est à noter que les confrontations et les attaques agressives dirigées contre la figure maternelle relèvent non seulement de l’agressivité, mais surtout du caractère ambivalent de cette relation, dans laquelle l’adolescent raconte tantôt à partir de pulsions amoureuses (compliments, indépendants de l’affection), tantôt de pulsions agressives (insultes, mépris). Dans le film en question, il y a un mouvement, de la part de l’adolescente, pour tester la capacité de la mère à supporter et à survivre à toute cette haine et ce mépris, face à la privation subie lors de la séparation de ses parents.

Mots-clés Relation mère-enfant; Adolescence; Analyse de films; Théorie winnicotienne

Resumen

En la adolescencia, se produce un período de descubrimientos personales, numerosos cambios y tensiones subjetivas. Durante este período, hay una desinversión considerable en las relaciones familiares y una inversión en las relaciones exógenas. Este artículo tuvo como objetivo analizar la relación ambivalente entre madre e hijo en la película Yo maté a mi madre, a partir del marco teórico winnicottiano. Se trata de un estudio cualitativo basado en el análisis fílmico, cuyas fases fueron: identificación (elección de la obra), representación (o descripción) e interpretación (discusión del tema central presente en la obra cinematográfica). En el proceso de análisis, fueron elaboradas cuatro escenas emblemáticas para la discusión sobre la relación ambivalente entre madre e hijo: En una discusión con su madre en la cena, Hubert la trata con desprecio; En desacuerdo, Hubert maldice a su madre; Tras una discusión entre Hubert y Chantale, su imagen aparece en el ataúd, como si fuera fruto de la imaginación de su hijo; La madre abraza a su hijo, quien le corresponde el gesto de cariño. Cabe señalar que los enfrentamientos y los ataques agresivos dirigidos a la figura materna se relacionan no solo con la agresividad, sino sobre todo con la naturaleza ambivalente de esta relación, en la que el adolescente se relaciona a veces a partir de impulsos amorosos (piropos, independientes del afecto), a veces de impulsos agresivos (insultos, desprecio). En la película en cuestión, hay un movimiento, por parte de la adolescente, para poner a prueba la capacidad de la madre para soportar y sobrevivir a todo este odio y desprecio, ante la privación sufrida cuando sus padres se separan.

Palabras clave Relación madre-hijo; Adolescencia; Análisis cinematográfico; Teoría Winnicottiana

Introdução

A adolescência é um período de descoberta pessoal, uma etapa da vida em que cada indivíduo encontra-se empenhado numa experiência vital: o estabelecimento de uma identidade, existindo, somente, uma cura real para a adolescência, que é o amadurecimento. Esse processo e a passagem do tempo resultam, no fim, no surgimento da vida adulta. O processo não pode ser acelerado, embora possa, contudo, a depender do caso, ser interrompido e destruído por alguma condição inepta (Winnicott, 1984/1995).

Na adolescência, além de reeditar conflitos vividos na infância, o indivíduo passa por mudanças físicas, emocionais e sociais. Agora, a sexualidade, antes presente no mundo da fantasia, pode ser experienciada na realidade, por meio do corpo (Claro, 2010). Além disso, o modo como o adolescente enfrenta essas mudanças e lida com ansiedades decorrentes delas baseia-se, em grande medida, nos padrões organizados desde os primórdios da infância (Winnicott, 1984/1995).

É típico dessa etapa a tentativa do jovem de separar-se dos pais. As figuras parentais sofrem um desinvestimento considerável, pois “Cada vez mais, a confiança e segurança depositadas anteriormente nos pais serão buscadas em novos espaços e em novos objetos de investimento” (Macedo, Azevedo, & Castan, 2012, p. 29). Perde-se, devido a um dos lutos vivenciados na adolescência, os pais infantis, idealizados e heroicos, uma vez que se direciona aos progenitores um olhar mais pautado na realidade, possibilitando, entre inúmeras coisas, a perda da sensação de proteção absoluta, fazendo com que os pais deixem de ser tão temíveis e poderosos (Macedo et al., 2012).

O período da adolescência poderia ainda ser definido como uma fase “entre”, visto que significa a passagem do mundo infantil para o mundo adulto, a saída de uma condição de dependência. Do mesmo modo, há o movimento oscilante entre se recolher para dentro de si e ir para o mundo – para a inserção social, para o grupo de iguais (Claro, 2010). Diante disso, surge, inclusive, o questionamento de Winnicott (1984/1995): como lidará cada um com algo que, na adolescência, é relativamente novo: o poder de destruir e até de matar (antes presente apenas no mundo da fantasia)?

E muito embora o adolescente conviva em um ambiente que facilite os processos de amadurecimento, é importante ressaltar que cada um pode enfrentar muitos problemas pessoais e muitas fases difíceis a transpor (Claro, 2010), como é o caso da relação ambivalente vivenciada com a mãe, evidenciada na medida em que Winnicott (1984/1995) situa o amor e o ódio como os dois principais elementos a partir dos quais se constroem as relações humanas, estando envoltos tanto por impulsos agressivos quanto amorosos. Coloca-se, inclusive, que “todo o bem e o mal encontrados no mundo das relações humanas serão encontrados no âmago do ser humano” (Winnicott, 1984/1995, p. 93).

O conceito de ambivalência em Winnicott faz parte do conjunto mais amplo da sua teoria da agressividade. Apesar de o psicanalista inglês usar pouco o termo “ambivalência”, nota-se, ao longo de sua obra, a presença de expressões como “integração dos impulsos amorosos e destrutivos”, “ódio e amor”, “fusão da agressão com o amor”, entre outros. Na teoria winnicottiana, a ambivalência refere-se a uma aquisição no desenvolvimento emocional, processo esse que ocorre “a partir do alcance da integração básica do si-mesmo no estágio denominado eu sou” (Costa & Ribeiro, 2016, p. 124).

Quanto à ambivalência no pensamento de Winnicott, podem-se deduzir alguns aspectos essenciais: a) é necessário que ela seja alcançada a partir da fusão do potencial agressivo com o potencial erótico, no estágio do concernimento; b) é preciso que ela seja tolerada em relação aos objetos significativos; c) é preciso reconhecer a exigência do ambiente facilitador para que essa conquista possa ser atingida. O alcance e a tolerância da ambivalência implicam um considerável grau de crescimento saudável e referem-se à emergência no indivíduo da capacidade de assumir a responsabilidade pelos sentimentos e ideias referentes ao estar vivo. Nesse sentido, a saúde encontra-se intimamente ligada ao grau de interação que torna a ocorrência de tal capacidade possível. Além disso, a ambivalência está na base para o relacionamento com a alteridade (Costa & Ribeiro, 2016).

A conquista da ambivalência pode ser compreendida como um refinamento na linha do amadurecimento humano, que se encontra altamente relacionada à capacidade para o concernimento. O que a teoria winnicottiana descreve como estágio do concernimento é o fato da gradual construção, na criança, da capacidade de criar um sentido de responsabilidade pela experiência instintiva e pelos conteúdos inerentes ao eu, compreendidos como a base para o sentimento da culpa (Costa & Ribeiro, 2016).

No estágio do concernimento, já é possível falar da raiva (ou ódio), resultante da frustração. Isso porque a criança já se constituiu como pessoa, ou seja, alcançou a capacidade de perceber não só a existência de si própria, como também a de outrem, podendo, por conseguinte, avaliar e responsabilizar-se por aquilo que se passa na relação (Costa & Ribeiro, 2016).

A tese de Winnicott é a de que o concernimento surge na vida do indivíduo como uma experiência complicada da integração, no si-mesmo do bebê, de dois aspectos do cuidado: a mãe-objeto, que pode satisfazer suas necessidades instintivas; e a mãe-ambiente, que afasta o imprevisível, cuidando de forma viva e ativa, sendo alvo de toda afeição do bebê (Costa & Ribeiro, 2016).

A ambivalência encontra-se na base de um aspecto central da natureza humana: o aspecto destrutivo e, ao mesmo tempo, construtivo dos relacionamentos e o consequente suportar da coexistência do amor e do ódio em relação a um mesmo objeto. É, também, uma conquista da saúde que nem todos conseguem alcançar (Costa & Ribeiro, 2016).

A relação ambivalente do adolescente com a mãe é evidenciada no filme Eu matei minha mãe, dirigido por Xavier Dolan (2009), escolhido para análise neste artigo. O drama canadense conta a história de Hubert, um adolescente que tem graves problemas no relacionamento com a mãe, Chantale.

A justificativa para a escolha da análise fílmica de Eu matei minha mãe reside não somente na possibilidade de discutir algumas questões específicas da teoria de Winnicott, a saber, a relação mãe-filho, mas também porque o recurso cinematográfico representa a expressão visual e imediata de todos os sentidos humanos, capaz de emocionar a todos por se tratar de uma linguagem universal, que coloca em tela não somente o mundo exterior, mas também o mundo interior (Penafria, 2009). O cinema não é apenas uma forma de expressão cultural, mas também um meio de representação. Com um filme, representa-se algo, seja uma realidade percebida e interpretada, seja um mundo imaginário livremente criado pelos autores (Barros, 2007).

A relevância social do estudo pauta-se na possibilidade de, por meio da análise fílmica, obter espaço para pensar o recurso cinematográfico como algo capaz de aprofundar e propor novas formas de questionamento, que perpassem diversas áreas do conhecimento relativas à cultura, permitindo, assim como propõem Martins, Imbrizi e Garcia (2017), indagar sobre diversos aspectos voltados à constituição das subjetividades no mundo contemporâneo. A relevância científica consiste na viabilidade de observar e discutir, por meio de um filme semiautobiográfico, o conceito de ambivalência em Winnicott e entender como se desenvolve e afeta a vida de um indivíduo.

Sendo assim, este trabalho teve como objetivo geral analisar a relação ambivalente entre mãe e filho no filme Eu matei minha mãe, a partir do referencial teórico winnicottiano.

Método

Trata-se de um estudo qualitativo com base na análise fílmica, procedimento amplamente utilizado, uma vez que a integração do som e as imagens em movimento contribuem para a elaboração de uma complexa rede de sentidos e significados acerca de um mesmo fenômeno (Dias, Castilho & Silveira, 2018). No intuito de realizar uma análise winnicottiana do filme Eu matei minha mãe (2009), a estratégia metodológica utilizada neste artigo foi a de análise fílmica, o que, de acordo com Penafria (2009), tem o sinônimo de decomposição. Embora não exista uma metodologia universalmente aceita para o desenvolvimento da análise de um filme, comumente aceita-se o seguimento de duas etapas importantes: em primeiro lugar, decompor, ou seja, descrever; em seguida, estabelecer e compreender as relações entre esses elementos decompostos, isto é, interpretar (Penafria, 2009).

A análise de filmes, cabe ressaltar, não é uma atividade recente, pois pode-se dizer que ela nasceu com as primeiras projeções de imagens em movimento. Além disso, o objetivo da análise fílmica é o de explicar, esclarecer o funcionamento de uma determinada produção cinematográfica e propor-lhe uma interpretação. A aplicação de tal análise implica, em primeiro lugar, em identificar o tema do filme. Em seguida, traz-se um resumo da história e a decomposição do filme, destacando, portanto, cenas que remetam ao tema central da produção cinematográfica (Penafria, 2009).

Para tanto, escolheu-se o filme canadense Eu matei minha mãe, dirigido pelo cineasta Xavier Dolan (2009), mediante os seguintes critérios: a) presença do adolescente no cartaz do filme; b) período retratado do filme ser a mesma década que o ano de produção; c) diretor deveria ser da mesma nacionalidade que as pessoas retratadas no filme; d) ter, na sinopse do filme, o termo “mãe”, “relação ambivalente” ou “relação de amor e ódio”; e) gênero drama. Tais critérios foram estipulados com o intuito de encontrar um filme capaz de ilustrar a ambivalência da relação mãe-filho na teoria winnicottiana e, por meio da obra cinematográfica, realizar uma reflexão mais voltada à realidade e às complexidades inerentes ao viver humano.

Destarte, após o filme ter sido visto e discutido posteriormente por todos os autores do trabalho, foram escolhidas as cenas emblemáticas, isto é, descritos os momentos marcantes que mais possibilitam a discussão acerca da relação ambivalente do adolescente com a mãe. Tais cenas foram, a posteriori, interpretadas psicanaliticamente, à luz do referencial teórico winnicottiano.

Análise e discussão teórica sobre o filme

O filme Eu matei minha mãe, lançado em 2009, sob a direção do canadense Xavier Dolan, conta a história do adolescente Hubert (Xavier Dolan) e Chantale (Anne Dorval). Na trama, mãe e filho demonstram relações de afeto e de intensos conflitos, nas quais ataques verbais e o desprezo são recorrentes, ao passo que o afeto, o respeito e as expressões de carinho e amor são menos frequentes.

Hubert mora sozinho com a mãe, pois o pai está não somente ausente da casa, como também da sua vida (visto que se eximiu da responsabilidade de ter um filho). Embora os dois ainda mantenham contato, quando o filho recorre ao pai, parece ser para mais uma decepção. Desse modo, Hubert e sua mãe habitam a mesma casa, mas aparentam viver realidades completamente distintas. Mãe e filho estranham-se e desencontram-se a maior parte do tempo, seja nos projetos, anseios, seja nos (des)contentamentos. Vive-se, de fato, uma relação mãe-filho que não é nem de perto, nem de longe, um paraíso.

Nesse sentido, foram escolhidas quatro cenas emblemáticas do filme, aquelas em que o caráter de ambivalência existente na relação mãe-filho aparecem de forma mais evidente, tendo sido elas: uma cena, logo no começo do filme (8min7s), em que Hubert discute e trata a mãe com desprezo; uma cena em que Hubert xinga Chantale (23min48s); outra cena em que, após mais uma discussão entre ambos, Chantale aparece em um caixão – algo decorrente da imaginação do filho (24min10s); e, por fim, uma cena em que mãe e filho demonstram afeto um pelo outro, abraçando-se (01h32min30s).

Em uma discussão com a mãe no jantar, Hubert a trata com desprezo

A cena inicia com os dois, mãe e filho, jantando. Chantale tenta estabelecer um diálogo de forma cordial com Hubert, perguntando como havia sido seu dia e o rapaz responde de maneira grosseira, o que provoca uma breve discussão entre eles. Após um momento de silêncio e com Chantale visivelmente irritada, Hubert elogia o bife preparado pela mãe em uma aparente tentativa de apaziguar as coisas; entretanto, esse esforço para tentar criar uma atmosfera mais amistosa não surte resultados, causando mais um desentendimento que se estenderá até o fim da cena.

Hubert avisa para Chantale que seu namorado iria visitá-los no sábado, mas a mãe o informa imediatamente que nesse dia ela e ele iriam para a casa de Denise (uma amiga). Hubert, então, se revolta, argumentando que já havia combinado na manhã daquele dia com sua mãe a visita do namorado e a acusa de ter Alzheimer. A discussão prossegue com os dois lançando acusações um para o outro até que, após fantasiar que desconta sua raiva daquele momento quebrando toda a louça dos armários jogando tudo no chão, Hubert fala que odeia a mãe e esta demonstra não se importar, respondendo “pode odiar”.

Para pensar a relação ambivalente com a mãe, podemos destacar uma característica da adolescência, que se soma a esse processo e é colocada por Winnicott (1986/2021) quase de maneira dogmática: a imaturidade do adolescente. Esta é encarada pelo autor como um elemento essencial da saúde, que encontra a única possibilidade de cura com a passagem do tempo e a maturidade que o crescimento pode trazer. A ambivalência também se faz necessária no processo de individuação e independência do adolescente em relação às figuras parentais, que precisam ser odiados e morrer, inconsciente e fantasiosamente, para que a separação e o desinvestimento nos laços de dependência narcísica tornem-se possível.

Não se pode esperar que o adolescente tenha consciência das características da imaturidade, o que torna difícil indicar como se deve enfrentar os desafios da adolescência. Conforme Moraes (2010), amadurecer, para o estágio de concernimento, diz respeito à tarefa de integrar a destrutividade e a vida instintual como parte de si. Assim, o concernimento é experienciado como algo próximo da preocupação, já que essa capacidade de preocupar-se constitui uma condição de posse da noção de um si mesmo, o que propicia lidar com as dificuldades inerentes ao estar com o outro, o que é visualizado no filme quando Hubert tenta tecer um diálogo com a mãe, mas este não se concretiza de forma amigável.

Em seguida, Hubert diz odiar a mãe e ela responde que pode odiá-la: “Odeie quem você quiser e diga o que quiser, você tem razão. É melhor assim. Também odiei muita gente e não morri. Continuo viva”. A mãe responde à agressividade do filho com tom de indiferença e sinaliza que, apesar da raiva que a ela é direcionada, ela segue e permanece viva. De acordo com Londero e Souza (2016), esses comportamentos hostis do adolescente em relação aos pais são uma expressão geralmente não esperada e não aceita, o que resulta na incapacidade de lidar com eles e entendê-los, algo que é externalizado, no filme, mediante as falas da mãe e do filho, respectivamente: “muitos adolescentes falam com suas mães assim como você fala?”, “muitas mães educaram seus filhos como você educou?”.

Winnicott (1986/2021) assevera que, ao se falar em adolescência, também se fala em adultos, pois nenhum adulto permanece adulto o tempo inteiro, em alguma medida eles têm todas as idades, algo que é perceptível quando Chantale responde, no mesmo tom, às provocações do filho Hubert. Além disso, Winnicott (1986/2021) acrescenta ser fácil chegar à destrutividade existente em nós quando esta está ligada à raiva, ao passar por uma frustração, mas a dificuldade é revelada quando se precisa assumir responsabilidade quanto à destrutividade pessoal relacionada a um objeto sentido como bom.

Em um desentendimento, Hubert xinga a mãe

Após ter saído com o namorado para olhar um apartamento, Hubert chega a casa bastante empolgado querendo conversar com a mãe e dizer-lhe que foi olhar um apartamento e do seu desejo de morar sozinho. Chantale, entretida com o programa na televisão, escuta o filho dizer: “Eu vi o apartamento. É perfeito, nem posso acreditar. O quarto é grande, o banheiro está legal, com gás e luz incluídos”, e responde: “Ainda está pensando nisso. Viver sozinho aos 16 anos é ridículo. Espere até os 18, querido. Está bem?” Hubert parece frustrar-se com o comentário da mãe, pois no dia anterior o pensamento dela era diferente quanto a essa questão, ao que ele pontua: “Ontem você disse que era uma boa ideia”. Ele se irrita, fala que a detesta e que está de saco cheio dela. Além de derrubar todo o salgado que a mãe estava comendo, ele diz: “vai se foder”.

É possível relacionar essa cena, na qual Hubert manda a mãe se foder, com o conceito de agressividade em Winnicott. De acordo com o autor, criar bem os bebês não é, de modo algum, garantia de que, na adolescência, eles não apresentarão problemas; pelo contrário, se os filhos forem bem-criados e vierem, por conseguinte, a se constituir como pessoas inteiras, não se contentarão em descobrir qualquer coisa, e isso incluirá não somente os elementos amorosos, mas também a agressividade e os elementos destrutivos neles existentes (Winnicott, 1971/1975).

Pode ser que Hubert conseguisse passar esse período da adolescência sem se rebelar muito em casa, mas a questão é que a rebelião faz parte do amadurecimento. Essas questões que envolvem a agressividade acabam sendo muito difíceis, tanto para o adolescente quanto para os pais, para os professores ou para os adultos que se encarregam dele, os quais terão que ser mortos na fantasia e sobreviver à realidade (Garcia, 2009).

Ademais, o adolescente precisa de tempo para poder se responsabilizar por essa nova etapa da sua destrutividade pessoal, que é bastante carregada de potência. Em contrapartida, os pais, pensando na saúde do adolescente, precisam impor certos “limites”, que não incluam retaliação ou vingança, mas que tenham sua própria força (Garcia, 2009).

Depois de uma discussão entre Hubert e Chantale, aparece a imagem dela no caixão, como se fosse fruto da imaginação do filho

Nesta cena, Chantale aparece morta em um caixão. Minutos depois, vemos Hubert no seu quarto, sozinho, pensando, o que indica tratar-se de fantasiar a morte da própria mãe, depois de mais um desentendimento entre os dois. Em seguida, Hubert pega uma câmera, começa a se filmar e desabafa: “Vou dizer o que penso. No fundo eu a amo, mas não é o amor de um filho. É loucura, pois se alguém a ferisse, mataria esta pessoa, com certeza. Porém conheço centenas de pessoas que gosto mais do que a minha mãe”.

A partir da imagem retratada nessa cena, pode-se pontuar a questão da fantasia inconsciente adolescente de que crescer significa ocupar o lugar do adulto, da mãe (no caso de Hubert), por isso que crescer é intrinsecamente agressivo. Alcançar a maturidade e tornar-se um membro adulto da sociedade só é possível a partir da morte de alguém. Para a sobrevivência na realidade, é preciso que ocorra essa morte na fantasia (Garcia, 2009).

Dessa forma, o filme retrata o caso de Hubert, que vai experimentando na adolescência (com o desenvolvimento da capacidade sexual e da força física) aquilo que antes era expresso apenas na fantasia. O adolescente agora pode operar uma destrutividade real, fazendo com que a violência adquira um novo significado, podendo vir a tornar-se uma realidade concreta. Se nas fantasias infantis estava contida a morte, agora, devido a essa potência real da experiência adolescente, está contido o assassinato (Garcia, 2009).

Segundo Winnicott (1971/1975, p. 229): “Na fantasia inconsciente, crescer é inerentemente um ato agressivo. [...] Se a criança tem de se tornar adulta, então essa transformação se fará sobre o cadáver de um adulto”. No caso do filme, é o cadáver da própria mãe retratado dentro de um caixão, logo após uma discussão entre ambos.

A mãe abraça o filho, que retribui o gesto de carinho

Devido à série sucessiva de maus comportamentos de Hubert, os inúmeros atritos e desentendimentos entre ele e a mãe, ela e o pai decidem (sem levar em consideração a opinião ou o desejo do filho) colocá-lo num colégio interno, como se esse fosse o caminho ou a solução para todos os problemas e a relação conturbada vivenciada por Chantale e Hubert. Ele, por não querer estar no internato ou pela má adaptação, resolve fugir.

Em seguida, o diretor do internato liga para comunicar a mãe: “Não sei como lhe dizer isto, senhora, mas o seu filho, Hubert, fugiu”. “Como?”. “Esta manhã, na hora do café, sobrou uma maçã. Fomos procurá-lo e encontramos uma nota no seu quarto dirigida à senhora”. “O que estava escrito?” “Estou no meu reino se quiser falar comigo.” E o reino ao qual Hubert se refere é uma casa onde ele vivia, na infância, junto com a mãe e o pai, quando mais novo, antes de os pais se separarem. Chantale vai até Montmagny, cidade onde moravam logo no início, encontra Antonin, o namorado de Hubert, que é quem comunica onde ele está: do lado de fora da casa, sentado nas rochas, segurando, com lágrima nos olhos, um bonequinho de biscuit, que representa a mãe. Chantale, ao chegar perto do filho, o abraça e ele aceita sem revidar ou discutir.

Evidencia-se o retorno de Hubert a uma lembrança de um ambiente que, a princípio, lhe era suficientemente bom, mas que foi perdido devido à ruptura do casamento dos pais. Trata-se do que Winnicott chama de deprivação: essa quebra, falha nos cuidados à criança que, por algum motivo, parou de recebê-los, no período de dependência relativa (Londero & Souza, 2016). Hubert perdeu, portanto, algo bom. E essa perda talvez tenha ocorrido durante um período maior do que aquele capaz de ser suportado por ele quando mais novo. Todos os ataques agressivos dirigidos à mãe representam, em si, um comportamento de reação à deprivação sofrida, mais ainda, uma forma de saber se a mãe irá sobreviver a sua agressividade, já que o pai foi embora. Na ausência deste, o ódio é direcionado a Chantale.

Embora a mãe acolha os ataques a ela direcionados, respondendo, muitas vezes, no mesmo tom de hostilidade e indiferença do filho, e noutras vezes não, Chantale, no fim, parece acolher todo o sofrimento de Hubert, o que é fundamental para o estabelecimento da integração, na qual o indivíduo consegue responsabilizar-se plenamente por todas as ideias, sentimentos e comportamentos que constituem o “estar vivo” (Winnicott, 1986/2021).

Conforme Dias (2003, p. 236), “o adolescente é, tal como o bebê, essencialmente isolado. E, tal como no bebê, é apenas a partir desse isolamento que ele pode se lançar e vir a estabelecer alguma relação sentida como real”. Durante todo o filme, pode-se observar que Hubert procura isolar-se do contato de sua mãe e negar tudo o que tenha alguma relação com ela, mas no fim ele parece finalmente voltar a aceitar a presença dela.

Considerações finais

Este artigo analisou a relação ambivalente entre mãe e filho no filme Eu matei minha mãe, a partir do referencial teórico winnicottiano. Ao longo deste trabalho, foi possível observar, primeiramente, a importância e relevância que o recurso cinematográfico pode exercer na compreensão da experiência humana, a partir das representações criadas por seus autores; em seguida, com a análise da relação ambivalente entre mãe e filho, tornou-se possível uma compreensão mais qualificada de alguns conceitos importantes da teoria winnicottiana, como a ambivalência.

Na adolescência, período de descobertas pessoais, ocorrem inúmeras mudanças e tensionamentos subjetivos. A busca por uma identidade e saída de uma condição de dependência também se somam a esse processo, havendo, por consequência, considerável desinvestimento das relações familiares e investimento nas relações exógenas. Isso pode ser observado quando Hubert, aos 16 anos, distancia-se da mãe, ficando mais próximo do namorado e grupo de amigos, bem como demonstra vontade de alugar um apartamento e morar sozinho. Ao não receber apoio da mãe, surgem os confrontos e ataques agressivos direcionados a ela, externalizando não somente agressividade, mas sobretudo a ambivalência presente na relação mãe-filho; Hubert ora elogia e demonstra afeto, ora critica e destrata a mãe, experienciando na relação com ela os impulsos amorosos, bem como os agressivos.

Ao reconhecer que a adolescência é uma fase importante para o amadurecimento, a interpretação das cenas, por meio da análise fílmica, visa ampliar o debate sobre esse período da vida – caracterizado, sobremaneira, por um considerável desinvestimento das figuras parentais –, assim como exemplificar e relacionar com alguns conceitos winnicottianos, sem perder de vista a complexidade da experiência humana. O filme ajuda-nos a pensar que, mais do que mera agressividade e ambivalência presente na relação de Hubert e Chantale, há, na verdade, um movimento de testar a capacidade da mãe de suportar todo o ódio e desprezo que a ela é direcionado, em face da deprivação sofrida decorrente da separação dos pais. O caráter ambivalente permeia, portanto, o próprio comportamento de Hubert, na medida em que, de um lado, ele testa, provoca, despreza; de outro, demanda cuidado, proteção e, sobretudo, suporte emocional dessa figura materna.

A utilização da análise fílmica como método permitiu relacionar alguns pontos da teoria psicanalítica com aspectos da adolescência retratados no filme, prezando pelo rigor teórico e metodológico. Ao realizar a interpretação das cenas escolhidas, não se pretende finalizar o debate, mas ampliar as possibilidades de compreensão dos conceitos teóricos, bem como relacionar aos aspectos cotidianos que foram representados no filme. Para estudos futuros, aponta-se como relevante a investigação da relação de privação e ausência da figura paterna nesse núcleo familiar.

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