Em 1911, Lou Andreas-Salomé e Sigmund Freud conheceram-se no Terceiro Congresso da Sociedade Psicanalítica Internacional, na cidade de Weimar e, depois disso, mantiveram longo diálogo e intensa amizade durante anos (Riveras & Valverde, 2013). Os dois passaram a trocar correspondências sobre a teoria psicanalítica e suas vidas, passando Andreas-Salomé a contribuir não só para a elaboração da teoria psicanalítica, mas para Freud pessoalmente (Roazen, 1992).
Além da relação com Freud, Lou também conheceu outros grandes nomes masculinos com os quais teve vínculos muito fortes, como os filósofos Friedrich Wilhelm Nietzsche e Paul Rée, que conheceu em Roma, em 1882, e com os quais estabeleceu uma amizade repleta de afinidades intelectuais. Ambos se apaixonaram por ela e foram declinados. Posteriormente, em 1887, Lou casou-se com o linguista Friedrich Carl Andreas e em 1897 iniciou relacionamento com o poeta alemão Rainer Maria Rilke, embora continuasse casada (Peron, 2016). Em 1900, Andreas-Salomé terminou o relacionamento com o poeta, pois “Ele agarrava-se a ela com o desespero de alguém que se afoga. Por mais que o amasse, não renunciaria a sua vida para cuidar dele” (Riveras & Valverde, 2013, p. 95).
Tais relacionamentos com importantes contemporâneos marcaram a forma como foi apresentada às gerações posteriores e, “embora o seu nome seja familiar no meio psicanalítico, é preciso reconhecer que o interesse por Lou, em geral, foi mais impulsionado por questões de ordem biográfica, permanecendo, por vezes, em um plano mais superficial e caricatural” (Castro, 2021, p. 10). Podemos afirmar que “Ela sofreu o destino típico de uma mulher associada a grandes homens: ficar conhecida apenas como amiga de Nietzsche, Rilke e Freud, apesar de não ter sido submissa a eles ou tê-los imitado. Ao contrário, sua produção é intensamente original” (Peron, 2016, p. 78).
A psicanalista nasceu em 12 de agosto de 1861 em São Petersburgo, filha de uma família imperial e única mulher entre seis irmãos, sendo criada em uma “Atmosfera de amor e fidelidade que envolvia a família” (Riveras & Valverde, 2013, p. 29). Aos 19 anos ingressou na Universidade de Zurique, uma das poucas que admitiam mulheres na época, e depois morou na Alemanha, vivendo entre as elites intelectuais da Europa na virada do século XX.
Em nossas leituras, percebemos que a situação socioeconômica de sua família foi um dos fatores que permitiu a Lou Andreas-Salomé apostar em seu desejo de viver de um modo não convencional e refletir sobre essa experiência, traduzindo-a em sua obra literária, filosófica e psicanalítica. Não menos importante, contudo, foi o relacionamento familiar estável, inclusive com a mãe, não havendo rompimento do apoio financeiro e emocional da família, independentemente de suas escolhas. Destaca-se que os bons laços fraternais de Lou com os irmãos mais velhos podem ter influenciado seu percurso, dado que estabeleceu fortes vínculos intelectuais e pessoais majoritariamente com homens. O que permaneceu ao longo de sua vida foram os valores maiores que a psicanalista carregou: a liberdade pessoal e a não submissão.
Apesar da interessante produção teórica, pode-se questionar se a autora, por teorizar sobre temas que eram muito caros a sua história, – como amor, sexualidade, feminilidade e religião – tenha resvalado, por vezes, por um lugar de universalização da própria experiência, que era muito diferente do vivido pela maioria das mulheres, ainda que no mesmo contexto histórico. Assim, pelo fato de seus principais temas teóricos estarem sustentados na própria experiência, parece haver forte presença da experiência da autora contida na sua obra, o que ela aponta muitas vezes, alertando o leitor, como nesse trecho de Anal e sexual (1916): “Certamente, todo este tema nem deveria ser abordado com uma menção superficial como faço aqui. Estou consciente de que, com isso, ao invés de afirmações objetivas há muito caí em interpretações da teoria freudiana baseadas em premissas próprias” (Andreas-Salomé, 1916).
Essa característica, bem como sua experiência de vida atípica, pode ter levado Andreas-Salomé a não necessariamente se identificar com grupos específicos que discutiam o lugar da mulher na época, que, embora carregassem ideias que representassem os mesmos objetivos da autora – a liberdade e a não submissão –, não despertavam seu interesse. Nesse sentido, Andreas-Salomé não se debruçou mais diretamente nas questões políticas e sociais de seu tempo, focando seus estudos no âmbito filosófico e psicológico dos sujeitos (Pereira, 2016), mas sem deixar de se posicionar pela liberdade para as mulheres, especialmente no que dizia respeito aos estudos e também às relações amorosas.
Lou iniciou suas publicações literárias em 1885, muito antes de conhecer Freud e a Psicanálise – é importante destacar que grande parte da sua produção nunca foi traduzida para o português. Entre as obras anteriores à sua entrada na Psicanálise, destacamos: Nietzsche em suas obras (1894) e Reflexões sobre o problema do amor (1899). Andreas-Salomé debruçou-se sobre o tema das pulsões humanas e publicou In the Twilight Zone (1902) e O Erotismo (1900), no qual a autora “analisa a dupla natureza das pulsões do inconsciente do homem” (Riveras & Valverde, 2013, p. 102). Em 1914 publicou Sobre o feminino como resposta a Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de Freud, e em 1916 Anal e sexual, ao qual Freud faz menção em rodapé posterior, em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade:
Num trabalho que aprofunda enormemente a nossa compreensão do significado do erotismo anal, Lou Andreas-Salomé explicou que a história da primeira proibição imposta à criança – a de obter prazer com a atividade anal e seus produtos – é decisiva para todo o seu desenvolvimento. Nessa ocasião, o pequeno começa a vislumbrar o meio ambiente hostil a seus impulsos instintuais, a diferenciar entre seu próprio ser e esse outro mundo e, depois, a efetuar a primeira “repressão” de suas possibilidades de prazer. A coisa “anal” fica sendo, a partir de então, o símbolo de tudo a ser rejeitado, afastado da vida. A nítida distinção entre processos anais e genitais, posteriormente requerida, é dificultada pelas estreitas analogias e relações anatômicas e funcionais entre os dois. O aparelho genital permanece vizinho da cloaca, “no caso da mulher, é inclusive alugado desta”. (Freud, 1905/2016, p. 93).
Entre os 67 e 73 anos, Lou publicou seus três últimos livros, Rainer Maria Rilke, sobre Rilke; Carta abera a Freud, sobre Freud; Minha vida, e sobre si mesma. Para Livingstone (1984), os livros sobre Rilke e Freud são retrospectivas compostas de gratidão pela contribuição que tiveram em sua vida.
Há ainda pequena receptividade dos escritos teóricos de Lou Andreas-Salomé no Brasil. Encontramos, contudo, a tradução de alguns dos livros, entre os quais a Correspondência Completa – Freud & Salomé (1966), Minha vida (1934), Carta aberta a Freud (1931), Reflexões sobre o problema do amor e o Erotismo (1900) e, mais recentemente, Narcisismo como dupla direção (1921), publicado em português em 2021, o que provavelmente fomentará a discussão acerca de suas contribuições. Entretanto, pode-se afirmar que há um acesso restrito para os falantes da língua portuguesa aos 20 livros, além dos artigos, que Lou escreveu entre 1892 e 1931, e de publicações póstumas, pois há relativamente poucas traduções das suas obras.
Pensando na Psicanálise especificamente – uma vez que esse é nosso interesse principal e foi também eleito como nosso recorte (dada a proficuidade de interlocuções de Andreas-Salomé) –, apesar de sua produção vasta e grande intimidade com Freud, ela é pouco conhecida pelos estudantes e pesquisadores de Psicanálise, especialmente quando comparada a outros pensadores, como Jones e Rank, também íntimos de Freud e frequentemente estudados para melhor compreensão da teoria freudiana. No entanto, a produção psicanalítica de Lou é extremamente importante para a compreensão da obra freudiana, uma vez que Andreas-Salomé teve direta influência em boa parte dos grandes temas discutidos pelo psicanalista, como narcisismo e teoria das pulsões.
Entre os psicanalistas, o nome de Lou Andreas-Salomé é familiar, mas ainda de forma restrita, como femme fatale, e não no que diz respeito a suas contribuições para a teoria psicanalítica (Castro, 2021), para a qual contribuiu com reflexões importantes em muitos sentidos, inclusive para pensar o erotismo anal.
Sobre o narcisismo, conforme tematizado por Andreas-Salomé, destaca-se que, enquanto o narcisismo pensado por Freud permite a constituição de um Eu, para Andreas-Salomé permite transpor os limites do Eu. Nesse sentido, o narcisismo está presente sempre que houver investimento objetal remetendo ao excedente de investimento no Eu (Pereira, 2016). Outro ponto importante nos diálogos entre a teoria de Andreas-Salomé e Freud é o questionamento da hipótese freudiana da inveja do pênis. A autora destina aos homens uma inveja da capacidade de procriar limitada às mulheres, o que a coloca nos debates contemporâneos, pontos que aprofundaremos a seguir.
Consideramos uma perda para a compreensão desses e outros temas psicanalíticos a forma como a psicanalista teve seus escritos invisibilizados, como comenta o tradutor Fabio Caprio Leite de Castro na introdução que escreve para a primeira edição de Narcisismo como dupla em português, traduzida apenas em 2021.
É na esteira da concepção freudiana do narcisismo que se encontra o ensaio de Lou, o qual pode ser considerado seguramente como uma das contribuições mais originais sobre o tema. Aproximadamente sete anos distanciam a publicação do ensaio de Lou e do artigo de Freud. Como veremos, muito cedo ela percebeu a importância central desta questão, a qual lhe permitia compreender diversos fenômenos, como a escolha do objeto de amor, a formação dos valores (por exemplo, éticos e religiosos), e a criação artística. Ou seja, para Lou, aquilo que pode parecer um parêntese na obra de Freud, talvez seja, na verdade, o eixo que permite realizar uma leitura transversal de toda a teoria psicanalítica. (Andreas-Salomé, 2021, p. 10).
Destaca-se um importante aspecto que diferencia as teorias de Andreas-Salomé e Freud, qual seja, a forma da escrita. Enquanto Freud é conhecido por ser didático em seus ensinamentos, os textos psicanalíticos de Andreas-Salomé apresentam elucubrações filosóficas, bem como um estilo de linguagem que traduz seu percurso na literatura e poesia. Em seu diário – The Freud Journal of Lou Andreas-Salomé (1964) –, Lou tece críticas à forma de escrever dos psicanalistas da época, como se o “estilo de linguagem” usado “falhasse ao representar as sutilezas das tão complexas experiências afetivas” (Pereira, 2016, p. 83).
Como mencionado, sua produção está estreitamente relacionada com suas principais experiências, e em sua produção psicanalítica isso não deixa de ocorrer. Segundo Pereira (2016), Andreas-Salomé posicionava-se respeitosamente em relação a Freud, que estava em posição de mestre, sem deixar de usar suas próprias experiências como “critério para a validação das descobertas do criador da Psicanálise” (Pereira, 2016, p. 82). Além disso, talvez pelo fato de o pai da Psicanálise não ter a mesma rivalidade com Lou que tinha com outros psicanalistas, ela pôde trazer sua bagagem prévia – que impacta muito em sua compreensão do feminino –, além de elaborar de forma própria.
O amor e a feminilidade
Apesar de não ter pertencido aos movimentos políticos e sociais que abordavam o feminismo do seu tempo, Lou chegou a discorrer sobre como era vivida a feminilidade na sua época, indo de forma contrária à visão das mulheres como mais inconsequentes que os homens. Caracterizou as mulheres como mais seguras de si, o que é uma teorização claramente baseada na experiência pessoal. É essa plenitude intrínseca que, segundo a autora, levaria as mulheres a terem mais facilidade no entendimento de assuntos abstratos.
Nesse sentido, certa vez a russa escreveu em seus diários que concordava com o livro Woman and Economics (1898), escrito pela socióloga feminista Charlotte Perkins Gilman, que foi um poderoso ataque à visão vitoriana da mulher ocupando um papel exclusivamente maternal. Ressaltou, porém, que discordava com algumas partes do livro em que a autora “deixava de fora o especial mundo instintual das mulheres” (Livingstone, 1984, p. 134). Nessa perspectiva, cabe ressaltar que, embora não pertencesse ao movimento feminista do seu contexto, a autora acreditava na procura por igualdade de direitos entre os gêneros. Posicionava-se de tal forma, como em 1928, quando fez uma afirmação importante nesse sentido: que a inveja do pênis na obra freudiana era uma forma de representar o desejo por igualdade das mulheres (Peron, 2016), apresentando como foi capaz de ponderar sobre a presença das estruturas patriarcais no psiquismo da mulher. Como vimos, ela não fixava as mulheres em uma posição de falta, de incompletude em relação aos homens, como Freud propôs e coroou a partir da noção de inveja do pênis, ainda que isso possa ser visto como um reflexo da época sobre a qual Freud trabalhou.
Entendemos seu posicionamento contrário à desconsideração das diferenças sexuais, pois compreendia as mulheres como tendo diferenças favoráveis instintuais, apesar de evidenciar o lugar social desfavorável da mulher. Como muitos autores e autoras de sua época, vemos em Andreas-Salomé certa naturalização da posição subjetiva da mulher. Em vários momentos, nota-se como Lou considera as diferenças sexuais naturais e aceitáveis, não compactuando com a visão feminista crescente na época, que defendia a crença das distinções como negativas, nem tampouco atribuindo as características femininas exclusivamente às influências sociais.
A psicanalista sugere, ainda, alguma superioridade à mulher, que, apesar de abrigar as “qualidades mais inconciliáveis” (Pereira, 2016, p. 89), viveria em harmonia com seus impulsos, além de ser possuidora do “dom do recomeço” (Pereira, 2016, p. 89), referente à maternidade, mas também à renovação.
Além disso, Andreas-Salomé destaca que as mulheres são mais capazes de satisfazer metas referentes ao erotismo por meio de objetivos diferentes, o que no caso dela pode ter sido sua produção literária e teórica, que parecem tê-la feito não se interessar por metas diretamente sexuais em vários momentos da sua vida. Entre essas possibilidades de satisfação, a psicanalista destaca a grande exaltação do amor maternal, que seria, na realidade, um processo de idealização constante. É interessante ressaltar que, apesar de nunca ter passado pela experiência da maternidade, Lou em vários momentos se refere a esta como algo muito importante na vivência de ser mulher.
A autora considera que a feminilidade se caracteriza pela plenitude, usando, para essa descrição, a metáfora do óvulo, que não necessita de movimentação para encontrar sua totalidade (Livingstone, 1984). A partir dessa comparação, Lou procura mostrar que mulheres não necessitam dos homens, não precisando de imprevisibilidade para a satisfação. Nesse sentido, a psicanalista acredita que a genialidade das mulheres se apoia na ausência de ambição; já os homens, procuram sempre por um argumento lógico, não por serem mais inteligentes, mas pela sua volatilidade, que faz com que eles almejem se ancorar a verdades absolutas. As mulheres, por sua vez, já estão firmemente ancoradas e, por isso, apenas sentem necessidade de aceitar verdades que condizem com elas próprias. Entretanto, essa generalização também coloca a totalidade unitária conferida à feminilidade como geradora de certa passividade; em contraponto, o masculino é caracterizado pela constante procura e insatisfação, ou seja, uma posição de mais atividade.
Para Andreas-Salomé, a mulher é a base e o topo da pirâmide da vida. Em O Erotismo (1900), Lou discorre sobre duas figuras femininas, a virgem e a prostituta, e afirma que ambas são caracterizadas pelo altruísmo, isto é, seu comportamento é focado em algo maior que a individualidade. A autora coloca a sexualidade feminina como algo mais precioso do que a masculina, afirmando, em El ser humano como mujer (1899, p. 13), que a mulher vive o sexual como se fosse algo “guardado por cem portas de ouro”, o que possivelmente se relaciona diretamente tanto com o contexto sociotemporal quanto com a vivência da sexualidade por ela própria. Ao analisar o sentimento erótico, Lou Andreas-Salomé se refere a este como algo capaz de intoxicar e que carrega um egoísmo legítimo; porém, ela aborda o bom efeito que a felicidade sexual pode ter no trabalho mental, tomando o impulso sexual diferente de todos os outros impulsos.
Ainda sobre como a autora diferencia a sexualidade de homens e mulheres, ressalta que para as mulheres o erotismo é algo que envolve da mesma forma o corpo e a alma, diferentemente dos homens, que experienciam a vida erótica de uma maneira mais corporal. Além disso, os homens experienciam o sexual de uma maneira mais pontual, já as mulheres totalizam a sexualidade em vivências cotidianas, o que as possibilitaria estabelecer conexões mais profundas.
Ademais, em O Erotismo(1900), Andreas-Salomé trata a sexualidade não como algo que se limita ao prazer corporal, mas como uma atividade que flutua entre os campos físico e espiritual. Assim, a autora destaca a possibilidade de levar o erotismo a diferentes partes da essência humana e, dessa forma, surge também uma análise muito pautada na sua vivência com a religião, com Deus.
O amor é compreendido por Lou como tendo um caráter paradoxal, apresentando contradições como egoísmo que emerge com altruísmo e finitude que é sentida como eterna. A partir disso, argumenta que essas sensações não são ilusórias, uma vez que, quando se está intoxicado eroticamente, percebem-se coisas que não seriam percebidas de outra forma, processo que ela chama de idealização, por meio do qual criamos novos valores e realidades. Para a autora, algumas coisas podem ser sentidas apenas de maneira idealizada, como a fantasia desenvolvida pela pessoa apaixonada, que traz sentimentos reais, fazendo com que a fantasia possa ser mais desejada do que a pessoa à qual é direcionada a paixão. Dessa forma, a idealização é o que move o processo de apaixonamento por inteiro, como também qualquer processo de interesse em algo ou alguém.
Por fim, no âmbito da feminilidade, mesmo após o contato com a Psicanálise, Lou segue trabalhando alinhada ao que havia escrito previamente, em textos como O Erotismo (1900), não se estabelecendo um diálogo direto entre seus escritos nessa temática e os textos freudianos. Consultamos os textos Organização genital infantil (1923), A dissolução do complexo de Édipo (1924), Algumas consequências psíquicas das diferenças anatômicas entre os sexos (1925), Sobre a sexualidade feminina (1931), A Feminilidade (1933), em que Freud trabalha diretamente o tema e faz menção explícita a psicanalistas mulheres, como nesse trecho de A Feminilidade (1933), mas não a menciona:
Sendo a mulher o tema, tomo a liberdade de mencionar o nome de algumas mulheres a quem esta investigação deve contribuições de relevo. A dra. Ruth Mack Brunswick foi a primeira a relatar um caso de neurose que remontava a uma fixação no estágio pré-edípico, não tendo chegado à situação de Édipo. Tinha a forma de uma paranoia de ciúmes e revelou-se acessível à terapia. A dra. Jeanne Lampl-de Groot constatou, em observações seguras, a tão inverossímil atividade fálica da garota em relação à mãe, e a dra. Helene Deutsch mostrou que os atos amorosos das mulheres homossexuais reproduzem as relações mãe-filha. (Freud, 1933/2010, p. 287).
Como foi dito, Lou não muda muito suas concepções acerca do feminino, que já apareciam em 1900 depois do contato com a Psicanálise. Há alguma ampliação de suas ideias com o embasamento psicanalítico, mas principalmente a reafirmação do que a autora já defendia a partir da experiência empírica (Pereira, 2016). Desse modo, as ideias a respeito da temática da feminilidade na obra de Andreas-Salomé se distanciam do que é discutido por Freud, especialmente em relação a outras psicanalistas da primeira geração, que partem dos mesmos pressupostos teóricos do pai da Psicanálise para pensar o feminino. Levantamos, assim, a hipótese de que essa divergência o teria levado a consultar outras psicanalistas a respeito do tema, e não sua correspondente tão próxima, Lou Andreas-Salomé, com a qual ele não chegou a estabelecer discussões teóricas diretamente sobre o tema da feminilidade da maneira que fez sobre vários outros temas durante sua longa correspondência, como sexualidade anal, narcisismo e pulsões. Além disso, Freud não considerava Lou uma mulher típica, pelo menos não como as mulheres que tratava em sua clínica e que embasavam sua teoria da feminilidade, como fica claro no obituário que escreve para a amiga:
Aqueles que lhe foram mais íntimos tiveram a mais forte impressão da genuinidade e da harmonia de sua natureza, e puderam descobrir com espanto que todas as fraquezas femininas e talvez a maioria das fraquezas humanas lhe eram estranhas ou tinham sido por ela vencidas no decorrer de sua vida. (Freud, 1937/1996, p. 315).
O Eu, o Narcisismo e a pulsão de morte
Lou debruça-se em diversos momentos sobre a questão da constituição do Eu, destacando o papel do primeiro recalcamento que rompe a simbiose com a mãe e o mundo. Em Anal e sexual (1916), a psicanalista discorre sobre o papel da recusa do anal, bem como de tudo que a ele se refere, no recalque originário, e sobre a função das primeiras proibições em uma delimitação das pulsões, que antes agiam quase que ilimitadamente entre o corpo do bebê e o ambiente. Em Narcisismo como dupla direção (1921), ela usa uma recordação própria de seu primeiro questionamento da imagem de Deus que, para ela, impacta a forma como percebia seus próprios limites na sua imagem no espelho.
Outra diferenciação importante da obra freudiana é a recusa que Lou faz do conceito de pulsão de morte, atendo-se ao uso da primeira tópica. Lou compreende um movimento de retorno do sujeito, mas este é sempre direcionado à tentativa de retorno ao momento mítico de indiferenciação – algo que é muito caro à psicanalista. Essa busca pela volta ao estado de fusão com a mãe, com o mundo, e com a natureza, é uma das tendências do narcisismo, o que poderia ser lido como um retorno para o estado de ausência de falta e, portanto, falta de desejo. No entanto, ela não relaciona isso à pulsão de morte.
Lou Andreas-Salomé deixa importantes e originais contribuições para pensar sobre o Narcisismo. A temática, exaustivamente elaborada pela psicanalista, já aparece em correspondências com Freud de 1915, logo após a publicação de Introdução ao Narcisismo (1914), e também é trabalhada em Anal e sexual (1916), até o ensaio especificamente destinado ao tema, em 1921. Apesar do conceito remeter ao termo freudiano, Lou entende o narcisismo como um núcleo permanente, que se faz presente na escolha de objeto de amor, nas criações artísticas e outras formas de sublimação. Esse posicionamento parte de sua interpretação de Introdução ao Narcisismo (1914), no qual o termo já aparece como um componente de todas as fases do desenvolvimento (Andreas-Salomé, 1916), bem como de suas próprias ideias sobre temas como amor e arte.
Além disso, apesar de Freud também trabalhar com dois momentos do narcisismo, primário e secundário, a ideia de dupla tendência narcísica de Lou Andreas-Salomé parece expandir o modo como era compreendido o conceito por Freud, opondo a tendência de retorno ao momento de união com o todo, ao investimento do excedente de libido do eu para outras possibilidades.
A psicanalista também nos instrumentaliza para pensar a escolha dos objetos de amor. Em convergência com o pensamento freudiano, Lou entende que há sempre um valor simbólico inconsciente nos objetos escolhidos, que é atrelado àquilo no objeto que remete ao objeto primordial dos primeiros investimentos. Assim, a psicanalista vê o apaixonamento, com sua embriaguez e sua dificuldade de ver o objeto – que não é algo nele mesmo, mas uma representação –, como uma possibilidade de retorno a essa fase de fusão. Então, além de conceber uma inevitável decepção amorosa, que ocorre quando há uma dominação do objeto, perdendo a excitação conferida pelo mistério e pela idealização, compreende a busca pelas paixões como algo necessário para esse movimento de retorno. Daí deriva a ideia de que seria impossível a fidelidade nas relações amorosas.
Em O Erotismo (1900), ela descreve a individualização a partir de uma pirâmide conceitual que tem como base o amor, sendo esta compartilhada por todos os seres vivos, tendo como final a individualidade humana. Nesse sentido, ela confere, segundo ocorre o processo de individualização, uma maior necessidade de inovação e variedade, ou seja, para Lou, quanto mais individualizada maior a necessidade de mudança de uma pessoa; assim, ela defende a infidelidade como uma necessidade natural. Destarte, essa ênfase na impossibilidade de uma relação amorosa monogâmica, fiel e duradoura, aparece nos escritos de Andreas-Salomé desde antes de seu contato com a Psicanálise. Ela alega uma satisfação impossível e considera a insatisfação como motor. Nesse sentido, Lou prenuncia uma questão que será trabalhada posteriormente por Jacques Lacan, com as noções de objeto a, falta e desejo.
Considerações finais
O fato de Lou ter sido interlocutora de Freud, com acesso privilegiado à obra do pai da Psicanálise, da qual tinha profundo conhecimento, confere grande importância ao estudo de suas produções. Na correspondência entre os dois, misturam-se aspectos teóricos e pessoais, fazendo com que esta seja uma fonte extremamente relevante para a pesquisa acerca do desenvolvimento da teoria e da própria história da Psicanálise. Lou certamente contribuiu para diversas reflexões de Freud e, de suas trocas, surgiram desdobramentos posteriores, inclusive havendo o reconhecimento por parte de Freud que a psicanalista antecipou seu pensamento em certas questões. Ademais, Freud apoiou e orientou a formação prática de Lou como psicanalista e, embora haja influências de Freud, a produção de Lou Andreas-Salomé é extremamente original.
O estudo da vida e obra de Andreas-Salomé deu-se por interesse em um conhecimento mais profundo sobre as mulheres na história da Psicanálise; ademais, é incontestável que encontrar o nome dela relacionado a tantos grandes nomes despertou mais curiosidade. Ao aprofundarmo-nos mais sobre sua biografia, foi possível perceber o quanto a psicanalista destacou-se do seu contexto, levando a vida de sua maneira, conquistando lugares de respeito no campo intelectual, apesar das grandes restrições que as mulheres encontravam na época. Mais que isso, o modo como ela viveu fortemente alinhada com ideais de liberdade e não submissão é uma inspiração mesmo atualmente.
Conhecer a obra de Lou Andreas-Salomé é conhecer a visão de uma mulher extremamente envolvida com uma ciência em gestação. A partir de seu resgate, também resgatamos o início da teoria psicanalítica e seu desenvolvimento. A psicanalista dedicou-se também à prática clínica, analisando inclusive Anna Freud, e também sobre a teoria, nos instrumentalizando para pensar acerca de diversos fenômenos psíquicos, sempre de forma original.













