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Analytica: Revista de Psicanálise

versão On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.12 no.22 São João del Rei jan./jun. 2023  Epub 05-Set-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v12i22.5189 

Artigo

Hélio Pellegrino: história de um inconformista radical

Hélio Pellegrino: The Story of a Radical Nonconformist

Helio Pellegrino : l’histoire d’un non-conformiste radical

Hélio Pellegrino: la historia de un inconformista radical Resumen

Larissa Leão de Castro1 

1Ex-professora substituta da Universidade Federal de Goiás (UFG/REJ). Doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB). Mestra em Educação pela Universidade Federal de Goiás (UFG/FE). Pós-graduada pelo curso de especialização “De Freud a Lacan: Teoria da Clínica Psicanalítica Para o Século XXI”, chancelado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Graduada em Psicologia, com ênfase em Processo de Avaliação, Clínicos e de Saúde e subênfase em Psicologia Clínica – Opção: Psicanálise pela PUC Goiás. Realizou estudos, principalmente, com as seguintes temáticas: subjetividade, cultura, Psicanálise, Psicologia Social, Educação, violência, fundamentos epistemológicos e projetos políticos de sociedade


Resumo

Este trabalho pretendeu construir uma cronologia que articule marcos da história de vida de Hélio Pellegrino – relacionados à sua inserção na Psicanálise – com uma contextualização panorâmica do conjunto dos seus escritos psicanalíticos. Isso foi feito a partir de marcos históricos mencionados nos documentos da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), de datas mencionadas em seus textos publicados, da biografia Hélio Pellegrino: a paixão indignada – elaborada pelo jornalista Paulo Roberto Pires (Pires, 1998) – a qual serviu de base para outra biografia sucinta elaborada posteriormente pelo mesmo autor, em 2004, para a lúdica coleção Arquivinho de Hélio Pellegrino, de resgate de autores esquecidos que fazem parte da memória cultural brasileira. Do mesmo modo, contou-se com a importante cronologia – elaborada por Antônia Pellegrino (2004), neta de Pellegrino –, que também consta nessa coleção, entre outras fontes. Faz-se o adendo dos limites dessa tarefa circunscrita ao presente trabalho, o qual não tem pretensão de escrever uma biografia do autor, até mesmo pelo fato de que seriam necessárias pesquisas dedicadas exclusivamente a esse objeto de estudo, como fora bem-descrito por Pires (1998, p. 11), diante de um psicanalista “[...] que, como poucos, mereceria o adjetivo larger than life, maior do que a própria vida.” Da mesma forma, certamente, construir memórias que busquem refletir sobre a articulação entre marcos cronológicos da vida do autor com uma periodização de sua produção é matéria de diferentes trabalhos por vir. Este é apenas um deles e se limita ao intuito de situar o leitor quanto à relação entre a trajetória de formação psicanalítica do autor e uma contextualização panorâmica de sua produção psicanalítica.

Palavras-chave Hélio Pellegrino; História da Psicanálise; Compromisso social; Clínica social; Brasil

Abstract

This work intended to build a chronology that articulates milestones in the life history of Hélio Pellegrino – related to his insertion in psychoanalysis – with a panoramic contextualization of the set of his psychoanalytic writings. This was done based on historical landmarks mentioned in documents from Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), dates mentioned in his published texts, biography Hélio Pellegrino: a paixão indignada – written by the journalist Paulo Roberto Pires (Pires, 1998) – which was the basis for another succinct biography written later by the same author, in 2004, for the ludic collection Arquivinho de Hélio Pellegrino, which rescues forgotten authors who are part of the Brazilian cultural memory. In the same way, we counted on the important chronology – elaborated by Antônia Pellegrino (2004), his granddaughter –, which also appears in this collection, among other sources. The limits of this task are limited to the present work, which has no pretension to write a biography of the author, even because it would be necessary to dedicate researches exclusively to this study object, as it was well described by Pires (1998, p. 11), before a psychoanalyst “[...] that, like few others, would deserve the adjective larger than life”. In the same way, certainly, building memories that seek to reflect on the articulation between chronological milestones of the author’s life with a periodization of his production is the subject of different works to come. This is only one of them and it is limited to the purpose of situating the reader as to the relation between the author’s psychoanalytic training and a panoramic contextualization of his psychoanalytic production.

Keywords Hélio Pellegrino; History of Psychoanalysis; Social commitment; Social clinic; Brazil

Résumé

Ce travail a voulu construire une chronologie qui articule les jalons de l’histoire de vie d’Hélio Pellegrino – liés à son insertion dans la psychanalyse – avec une contextualisation panoramique de l’ensemble de ses écrits psychanalytiques. Pour ce faire, il s’est appuyé sur des jalons historiques mentionnés dans des documents de la Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), des dates mentionnées dans ses textes publiés, la biographie Hélio Pellegrino: a paixão indignada – écrite par le journaliste Paulo Roberto Pires (Pires, 1998) – qui a servi de base à une autre biographie succincte écrite plus tard par le même auteur, en 2004, pour la collection ludique Arquivinho de Hélio Pellegrino, qui sauve des auteurs oubliés faisant partie de la mémoire culturelle brésilienne. De même, nous avons compté sur l’importante chronologie – élaborée par Antônia Pellegrino (2004), sa petite-fille –, qui figure également dans ce recueil, entre autres sources. Nous devons ajouter les limites de cette tâche circonscrite au présent travail, qui n’a pas l’intention d’écrire une biographie de l’auteur, même parce qu’il serait nécessaire des recherches consacrées exclusivement à cet objet d’étude, comme il a été bien décrit par Pires (1998, p. 11), devant un psychanalyste “[...] qui, comme peu d’autres, mériterait l’adjectif larger than life, plus grand que la vie elle-même”. De même, certainement, construire des mémoires qui cherchent à réfléchir sur l’articulation entre les jalons chronologiques de la vie de l’auteur avec une périodisation de sa production relève de différents travaux à venir. Ce n’est que l’une d’entre elles et elle se limite au but de situer le lecteur quant à la relation entre la formation psychanalytique de l’auteur et une contextualisation panoramique de sa production psychanalytique.

Mots-clés Hélio Pellegrino; Histoire de la psychanalyse; Engagement social; Clinique sociale; Brésil

Resumen

Este trabajo pretende construir una cronología que articule los hitos de la historia de vida de Hélio Pellegrino – relacionados con su inserción en el psicoanálisis – con una contextualización panorámica del conjunto de sus escritos psicoanalíticos. Esto se hizo a partir de hitos históricos mencionados en documentos de la Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), fechas mencionadas en sus textos publicados, la biografía Hélio Pellegrino: a paixão indignada – escrita por el periodista Paulo Roberto Pires (Pires, 1998) – que sirvió de base para otra sucinta biografía escrita posteriormente por el mismo autor, en 2004, para la colección lúdica Arquivinho de Hélio Pellegrino, que rescata autores olvidados que forman parte de la memoria cultural brasileña. Asimismo, contamos con la importante cronología – elaborada por Antônia Pellegrino (2004), su nieta –, que también aparece en esta colección, entre otras fuentes. Hay que añadir los límites de esta tarea circunscrita al presente trabajo, que no pretende escribir una biografía del autor, incluso porque serían necesarias investigaciones dedicadas exclusivamente a este objeto de estudio, como fue bien descrito por Pires (1998, p. 11), ante un psicoanalista “[...] que, como pocos, merecería el adjetivo más grande que la vida, más grande que la vida misma”. Del mismo modo, ciertamente, construir memorias que busquen reflexionar sobre la articulación entre hitos cronológicos de la vida del autor con una periodización de su producción es materia de diferentes trabajos por venir. Esta es sólo una de ellas y se limita a situar al lector en cuanto a la relación entre la formación psicoanalítica del autor y una contextualización panorámica de su producción psicoanalítica.

Palabras clave Hélio Pellegrino; Historia del psicoanálisis; Compromiso social; Clínica social; Brasil

1 Hélio Pellegrino: história de um inconformista radical

Em 64 anos de uma vida apaixonada, sempre a mil, desarrumou certezas em psicanálise, política e poesia. Tinha um único objetivo, quase obsessão: lutar pela libertação de tudo o que, sendo imposto ao Homem, o faz sofrer e apequena a sua vida. Da Igreja, exaltava seus valores fundadores e descartava o moralismo clerical. Na política, recusava com a mesma veemência a opressão social e o dogmatismo dos partidos. Da poesia, na qual não se realizou plenamente, queria o ímpeto e o derramamento, jamais a glória besta da vida literária. Na psicanálise, finalmente, tentava a síntese disso tudo, com a ideia de abrir o divã ao rico e ao pobre, unidos na sua generosa convicção de que libertar-se interiormente não é privilégio, mas direito fundamental, passo decisivo de uma existência digna. (Pires, 2004, pp. 7-8).

1.1 Uma síntese singular entre marxismo, Psicanálise e teologia da libertação

Hélio Pellegrino (1924-1988) foi um psicanalista brasileiro, escritor, poeta, ensaísta e articulista de diferentes jornais. Sua escolha pelo trabalho com a Psicanálise passa por concebê-la como uma ciência e um instrumento de trabalho, cuja essência libertária está envolvida com a luta pela existência digna de todos e contra o que oprime, tolhe ou mantém a vida humana em condições indignas. Essa perspectiva, presente em todos os desdobramentos da construção de seu trabalho e de sua produção psicanalítica, faz com que o autor possa ser considerado um pensador que radicaliza a dimensão do compromisso social da Psicanálise.

Um dos aspectos interessantes a ser destacado na sua trajetória é a expressão de uma confluência até então atípica em um pensador na Psicanálise, que articula a leitura que tem dessa ciência com uma leitura do marxismo, do existencialismo e da teologia da libertação. Por curiosa e singular que seja a presença dessas três influências e sem desconsiderar as tensões entre elas, há uma coerência que se desenvolverá em seu pensamento a partir dessas escolhas. Isso decorre essencialmente dos fundamentos de um trabalho pela libertação humana e contra as formas de opressão que obstaculizam a possibilidade de ser sujeito e de humanizar-se.

O autor concebe o marxismo e a Psicanálise como instrumentos de desmistificação, trabalhos de resgate do poder de negatividade crítica, que nega a objetificação do homem – própria do capitalismo –, atestando ambas ciências como contrárias à negação do sujeito, à sua instrumentalização, à sua objetificação, à sua indiferenciação. A propósito, há um trabalho ilustrativo dessa perspectiva que discute o poder humano de negatividade crítica – o que possibilitaria se diferenciar e emergir como sujeito (A entrada do mercado – e do sistema, Pellegrino, n.d.-f).2

Em tom espirituoso, sua autocaracterização célebre como um “socialista histórico, eventualmente histérico” (Pires, 2004) é mais uma expressão do corte epistemológico da Psicanálise e do marxismo, os quais se mantiveram presentes no posicionamento teórico do autor por toda a vida. As descobertas que considera fundamentais nessas ciências, bem como o corte epistemológico que representam, formam a leitura teórica da qual o autor parte para pensar os problemas e desafios à altura de nosso tempo.

Nesse sentido, nas suas elaborações teóricas, notar-se-á a discussão que propõe acerca das descobertas fundamentais dessas duas ciências para o conhecimento da humanidade, desde as contribuições epistemológicas, ontológicas, teleológicas, até as implicações éticas e políticas que fazem parte de sua lógica interna. Ao mesmo tempo, a estruturação de seu pensamento se pauta na reflexão, na crítica teórica e prática dessas ciências, não as tratando de forma dogmática, descontextualizada ou a-histórica. Entende-se a importância de se refletir criticamente sobre elas para a superação dos elementos do pensamento cartesiano e que também se expressam em algumas concepções e desenvolvimento de conceituações do campo, mas, sobretudo, nos revisionismos posteriores a essas ciências.

Dessa forma, a partir de uma posição psicanalítica e marxista não ortodoxa, reafirma a importância da crítica epistemológica dessas ciências por expressarem problemas eminentemente teóricos, éticos e políticos das mazelas do nosso tempo, ancorados no movimento vivo da história. Portanto, essa leitura problematizadora é considerada constituinte do processo do desenvolvimento não dogmático de qualquer ciência viva, como a Psicanálise e o marxismo.

Além disso, Pellegrino manteve vivo o legado do pensamento crítico presente nessas ciências e é consciente do erro de generalizar uma teoria ou uma tese, descolada do seu contexto histórico. Assim sendo, a partir dessa perspectiva e da análise da realidade brasileira, tece sua revisão crítica sobre o marxismo e sobre a Psicanálise, reforçando a análise de que é a história que permite elaborar a teoria, e não o contrário.

Tomemos um exemplo para ilustrar essa perspectiva presente em seu pensamento. A profunda influência da teologia da libertação, na construção de seu pensamento e de sua crítica, é expressão de sua abertura aos fenômenos históricos como ponto de partida para uma reavaliação crítica da leitura freudiana e marxista a respeito da concepção de a religião ser necessariamente ilusória e alienante em relação à realidade, bem como uma crítica ao aforismo de a religião ser o ópio do povo, diferenciando a atitude religiosa libertária da alienante. Nesse sentido, reconhece a teologia da libertação como expressão do antiópio do povo, anti-ideologia religiosa, luta terrena pela fraternidade e justiça, desconstrução de qualquer ilusão mantenedora do status quo e assunção explícita da preferência pelos pobres, constituindo-se um patrimônio histórico-cultural do Brasil e da América-Latina na luta pela superação das desigualdades sociais, a partir de utopias caras – formadoras do ideal de eu de uma cultura – e fundamentais para a transformação social (Pellegrino, A consciência, n.d.-c).

Algo a se destacar no seu engajamento religioso é a disposição de não dividir o mundo em antagonismos maniqueístas, uma disposição para o diálogo com posições contrárias e uma abertura ao diferente e à complexidade. É a partir dessa tendência que se aproxima de Georges Bernanos (1988-1948) – escritor e jornalista francês –, que nunca foi de esquerda, mas se tornou crítico da direita e passa a reconhecer que “os ideais cristãos nos quais acreditava estavam, desde então, contaminados pelo autoritarismo e pela intolerância, resultando numa opressão inimaginável” (Pires, 1998, p. 24).

Pelo interesse por sua obra Sob o Sol de Satã, já se nota a importância do autor na relação que Pellegrino fará entre ele e um “[...] catolicismo de esquerda que resultou na teologia da Libertação” (Pires, 2004, p. 18), o que é coerente com os desenvolvimentos da sua concepção da liberdade como o centro da compreensão humana, conforme escrevera:

Não há cristandade verdadeira sem liberdade, uma vez que o centro da pessoa humana é sua condição de ser livre. A luta entre o bem e o mal – eixo da cogitação bernasosiana – só se torna possível na medida em que por debaixo de condicionamentos e compulsões, consciente ou não, fulge o mistério da liberdade, em cujo território se dá a oferenda superabundante da graça de Deus, a ser acolhida – ou rejeitada. (Pellegrino, citado por Pires, 2004, pp. 17-18).

A interrogação sobre o mistério do outro, da liberdade e da responsabilidade no centro da possibilidade humana é uma constante no pensamento de Pellegrino, traço que também aparece na sua escolha religiosa, ressaltado por Carlinhos de Oliveira (Pires, 1998, p. 26). Contudo, apresenta sua concepção de liberdade como possibilidade humana, articulada aos processos de transformação individual, social e à luta pela sua concretização na realidade coletiva, contudo obstaculizada na realidade social de opressão do capitalismo, cujos processos de dominação e exploração em curso tolhem a efetivação de uma vida plena.

É assim, em um diálogo afetuoso – frequentemente, a partir de posições contrárias –, que Pellegrino mantém um vínculo profundo com a teologia da libertação, com Frei Betto e Leonardo Boff, expoentes de sua expressão no Brasil. Os encontros com Frei Betto se intensificaram após o período que frade dominicano foi liberado da perseguição política e da prisão, em 1973, na ditadura, passando a acontecer duas vezes ao ano, coordenadas pelo ex-perseguido político, que “[...] resultaram na criação do grupo MIRE – Mística e Revolução, justamente com o objetivo de articular transformação espiritual e social. [...] Hélio defendia que a religião só pode ser considerada alienação quando separada da experiência material [...]” (Pires, 1998, p. 109).

[...] Para ele, o cristianismo lhe devolvia o sentido do corpo pela encarnação de Deus, que se fez matéria e corpo histórico. Nossa grandeza está menos na transcendência que na transdescendência. Quer dizer, nossa grandeza, na perspectiva da fé cristã, reside na capacidade de descer, de ir até os porões do humano, de submergir até o fundo dos infernos. É a kénose (processo de apequenamento de aniquilação de Deus para dentro do mundo e do outro) mediante a qual se chega à mais grandiosa altura e à mais alta grandeza. (Boff, 1988, pp. 217-218).

No plano teórico, Hélio Pellegrino expressa em seus trabalhos um debruçar-se sobre os fundamentos epistemológicos e práticos da teoria psicanalítica, bem como se nota uma preocupação constante em analisar os problemas que estruturam a sociedade brasileira, construindo uma leitura sobre a constituição da subjetividade, sobre o pacto edípico e social, em geral, e, no Brasil, em particular.

Seus trabalhos têm uma constante a preocupação de discutir a relação entre esquemas teóricos implícitos, conceitos psicanalíticos e suas implicações diante do sofrimento subjetivo, coletivo, dos projetos de sociedade em curso e dos problemas culturais mais amplos do nosso tempo. Acresce-se ao exposto a constatação de que, em seu trabalho, há a construção de um pensamento psicanalítico voltado para a análise da formação da subjetividade e da cultura brasileiras. Isso deixa explícito seu compromisso ético e político pela transformação dos problemas enfrentados no Brasil, preocupação indissociável da defesa das condições subjetivas e objetivas fundamentais para a construção de uma sociedade democrática.

Assim, na articulação entre plano teórico e político, viu na essência da Psicanálise os fundamentos de uma ciência, de uma ética da alteridade e de um trabalho radicalmente contrário a qualquer forma de autoritarismo e opressão.

De forma mais detida, a seção que se segue apresentará marcos cronológicos de sua trajetória e a relação com seus trabalhos psicanalíticos, cuja periodização pôde ser identificada, ou mesmo estimada, a partir das fontes mencionadas anteriormente, tendo em vista situar o leitor nos marcos de um pensamento psicanalítico que se construiu em sua trajetória.

1.2 Encontro com a Psicanálise como ciência da alteridade

Hélio Pellegrino nasceu em cinco de janeiro de 1924, em Belo Horizonte, Minas Gerais, filho do médico, tradicional e acadêmico, Braz Pellegrino e da mãe italiana Assunta Pellegrino. Sua “sensibilidade social”3 (Pellegrino, citado por Pires, 2004, p. 12) marca sua história desde as primeiras experiências infantis, como é descrito pela neta de Pellegrino, que se reporta a diversas lembranças registradas pelo autor.

Por não existir, ainda, a opção de cursar uma faculdade de Filosofia em Minas Gerais, opta pelo ingresso na faculdade de Medicina no ano de 1942, seguindo a carreira trilhada por seu pai e posteriormente por seu irmão mais velho. Ao mesmo tempo, um engajamento impulsionado pela sensibilidade social e a indignação de Pellegrino diante da opressão marcou sua trajetória de militância e de posição política contrária aos governos autoritários e antidemocráticos no Brasil e contrário à ditadura getulista desde moço, como é remontado por Pires (Pellegrino, 2004).

Em 1944, aos 20 anos, participa da fundação da União Democrática Nacional (UDN), da qual é dirigente, e discute a fundação de uma Liga Intelectual Antifascista (Pires, 2004). Ainda naquele ano, integra – junto com Darcy Ribeiro, Otto Lara, entre outros – o grupo de editores do jornal clandestino Liberdade, que se posicionava no combate ao fascismo, sob o risco de prisão num período de repressão à liberdade de expressão e à imprensa. Em 1945, quase ganha a eleição como candidato a deputado federal. Mas, por sua defesa da entrada da reforma agrária na agenda da UND ter sido negada, sai do partido e funda a Esquerda Democrática, em 1946, considerando o combate à fome do povo a maior premência a ser superada, bem como os problemas estruturais que assolam a estrutura desigual do capitalismo e que se expressavam em problemas sociais e políticos da época (Pires, 2004).

Em 1946, conhece Mário Pedrosa, a quem considerava um mestre da relação entre liberdade e socialismo, o qual teve forte influência em sua formação política, sobretudo, como editor da Vanguarda Socialista. Posteriormente, ele lhe apresenta o Partido dos Trabalhadores (PT), que começava a se formar e do qual Hélio Pellegrino será um dos fundadores, assinando o manifesto de fundação do partido, em 1980, junto com Antônio Cândido, Sérgio Buarque de Holanda, Lula, Apolônio de Carvalho, Henfil, Lélia Abramo, entre outros (Pires, 1998).

Importante destacar dessa trajetória a consciência que Hélio Pellegrino tinha de que a ação transformadora decorre da organização coletiva e política, desconstruindo a ilusão da liberdade associada à concepção burguesa de homem livre como aquele que vende sua força de trabalho, bem como a ilusão do voluntarismo individualista ou do apoliticismo, que fortalecem a continuidade dos processos de dominação existentes, ativa ou passivamente. A propósito, a respeito da posição apolítica, ele remonta um diálogo com Lula:

[...] a princípio – me disse Lula – tinha ele radical e vertical ojeriza à política e aos políticos. [...] Nesta medida, as reinvindicações proletárias, imantadas de justiça e encharcadas de fraternidade, deveriam transcorrer e desenvolver-se fora da área contaminada – e contaminadora – da política... É curioso ver de que maneira Lula, nos seus primeiros tempos de liderança, aderia sem o saber à ideologia das classes dominantes, para as quais a luta operária deve ser sempre apolítica [...]. Ao fim de pouco tempo, Lula, através de sua prática de luta sindical, conseguiu perceber e criticar a monstruosa impostura que significava a tese do apoliticismo das reinvindicações operárias. Assim nasceu o PT no ano de 1980. (Pellegrino, 2004, p. 71-72).

Esse engajamento pessoal contra as condições que objetificam, oprimem e tolhem a condição de sujeito do ser humano marcou a escolha do autor pela Psiquiatria e, em seguida, o desejo pela escolha do ofício da Psicanálise. Para ele, o apreço pela escolha dessa ciência se deve ao fato de ver nela a presença do reconhecimento do outro como totalidade, diferença, alteridade radical. É assim que passa a concebê-la, desde cedo, como é descrito por Pires (2004, p. 25).

Entender como Hélio Pellegrino virou Hélio Pellegrino é, em muito, entender a extensão e a gravidade dessa ideia de “encontro com o outro” [...] é tudo aquilo que escapa à nossa identidade e que, por isso mesmo, num ato primário de defesa, tendemos a rejeitar [...]. Aceitar esta diferença e sobretudo brigar por sua aceitação foi o fundamento das revoluções mais decisivas do século XX, do socialismo ao feminismo. Mas com minúscula e no plano da vivência mais imediata, o “outro” está mais ao alcance, é nosso próximo, a quem muito frequentemente negligenciamos atenção ou solidariedade.

Um marco dessa escolha, ocorrido em 1943, pode ser revisitado em suas lembranças de uma aula de Fisiologia Nervosa, da qual não se esquecerá:

O doente, com tabes dorsal, ao centro do anfiteatro escolar, era um velhinho miúdo, ex-marinheiro, vestido com o uniforme de Santa Casa, onde estava internado. Suas pernas, hipotônicas, atrofiadas, pendiam da mesa de exame como molambas inertes. Jamais me sairá da memória o antigo lobo do mar, exilado das vastidões marítimas, feito coisa, diante de nós... O velhinho, contrafeito, engrolava o seu depoimento, fustigado pelos gritos de – “fala mais alto” – com que buscávamos saciar nosso zelo científico. De repente, o desastre. Sem controle esfincteriano, o velho urinou-se na roupa, em pleno centro do mundo. Vejo-o pequenino, curvado para frente, tentando esconder com as mãos a umidade ultrajante. Seu pudor, entretanto, nada tinha a ver com a ciência neurológica. Esta lavrara um tento de gala e o sintoma foi saudado com ruidosa alegria, como um gol decisivo na partida que ali se trava contra a sífilis nervosa. O velho ficou esquecido como um atropelado na noite. A aula prosseguiu, brilhantemente ilustrada. Os reflexos e a sensibilidade cutânea do paciente foram pesquisados com mestria. Agulhas e martelos tocavam sua carne – essa carne revestida de infinita dignidade [...]. Meu colega Elói Lima percebeu juntamente comigo o acontecimento espantoso. “O marinheiro está chorando” – me disse. Fomos três a chorar. Entre lágrimas e urina, nasceu-me o desejo de me dedicar à Psiquiatria. O choro do velho, seu desamparo, sua figura engrouvinhada sobre a qual parecia ter-se abatido todo o inverno do mundo, tudo me surgiu de repente como grande tema de meditação, a partir de cuja importância poderia eu, quem sabe, encontrar um caminho. A meus olhos, a tabes dorsal integrou-se numa pessoa humana visada como um todo. Esta totalidade única e indissolúvel deveria poder tornar-se objeto de ciência. Já ouvira falar em Freud, nos abismos do inconsciente, na Medicina psicossomática, que dava seus primeiros passos. (Pires, 2004, pp. 25-27).

O período de sua formação em Psiquiatria se deu no manicômio Raul Soares, onde, depois de formado em Medicina em 1947, permanece trabalhando como psiquiatra até 1950, para se sustentar, após se casar em 1948 com Maria Urbana. Quando sai do hospital psiquiátrico, começa a trabalhar no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil e no consultório particular, que abre a partir de então (Pellegrino, 2004).

Com essa experiência, que o marcou, passa a escrever e a denunciar o sistema que estrutura os hospitais psiquiátricos no Brasil. Os arquivos da FCRB reúnem um conjunto de trabalhos que questionam a similaridade entre a violência instituída em diversas instituições no Brasil, cujos hospitais públicos psiquiátricos representam um retrato do atual grau civilizatório a partir de seus efeitos de um ressentimento e rancor social expressos na anulação objetiva e subjetiva dos excluídos. Posteriormente, criticará também uma Psicanálise complacente e elitista que dá importância teórica e prática à loucura dos ricos e é indiferente à loucura dos pobres.

No período da ditadura militar, a partir de sua leitura psicanalítica, irá denunciar a presença de laudos psiquiátricos de transtornos mentais para pessoas que eram vistas com potencial de protesto e transformação social, levantando não só a questão da estrutura paranoica do sistema, que projeta sua paranoia nos sujeitos para anulá-los e objetificá-los, como também a questão da perseguição política no período da ditadura no Brasil, que buscou a estigmatização dos que eram contrários ao sistema, aprisionando-os não apenas nas prisões, como também nos manicômios.

Assim, o autor definitivamente reafirmará o senso de urgência de transformação da catástrofe que os manicômios no Brasil representam, que figuram como verdadeiros campos de tortura e de violação dos direitos mais elementares. Dessa forma, em 1983, como participante da Comissão Teotônio Vilela para as Prisões do Grupo Tortura Nunca Mais, visita a Colônia Juliano Moreira e assim a descreve:

O lugar é dantesco, e as cenas que nele ocorrem constituem experiência traumática e inesquecível [...]. São todos depósitos de doentes ou, mais do que isto: campos de concentração e de tortura, onde o doente, sem qualquer significado social, já que não pode ser utilizado como produtor de mais valia, é lançado à lata de lixo como detrito inútil. (Pellegrino, citado por Pires, 2004, p. 68).4

O desejo de realizar formação em Psicanálise o fez mudar para o Rio de Janeiro, em 1952, com Maria Urbana e os três filhos, até então, com o apoio de uma bolsa em Psiquiatria recebida e da moradia no palacete dos familiares de sua esposa – que vinha de família rica (Pellegrino, citado por Pires, 2004).5 Então, a partir de uma “[...] severa crise pessoal que o levou diretamente à psicanálise” (Pires, 2004, p. 28), principia a análise didática com Iracy Doyle, fundadora do Instituto de Medicina Psicológica, a qual “[...] Incorporava diversas linhas de interpretação em busca de uma compreensão mais ampla do fenômeno psíquico, relacionando-o com variantes culturais e recusando todo tipo de universalismo. Nada mais natural que, por isso, recusasse de pronto as regras da IPA [...]” (Pires, 2004, p. 29), caracterizando sua escolha pelos seguintes motivos:

Escolhi-a como analista pela leitura de seu livro, Introdução à Medicina Psicológica – amplo, arejado, eclético. Já lera nessa época as principais obras de Freud e, embora fascinado pela imponência solar de seu edifício conceptual, opunha-lhe obscuras e tenazes resistências críticas. Foi para mim excelente que tivesse iniciado minha formação com um grupo não ortodoxamente freudiano. Dessa forma, pude sentir-me encorajado no esforço de reavaliação crítica da doutrina de Freud. Dentro de minha medida, fui assim tornando-me digno da formidável lição de independência e probidade intelectual que nos legou o criador da Psicanálise. (Pires, 2004, p. 29).

Entre 1953 e 1954, é convidado pelo escritor e jornalista Joel Silveira, que reconhecia em Pellegrino características de um “repórter científico”, para ser colunista e escrever sobre as descobertas da ciência, na seção Ciência sem mistérios, do famoso semanário Flan, trabalhando na escrita jornalística com colegas como Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi. Com carta branca para escrever em formato livre, abarcava a expressão de descobertas científicas, inquietações políticas, escrita psicológica sobre perfis de artistas etc. (Pires, 2004). Seu engajamento, sensibilidade social e talento para o jornalismo foram assim caracterizados:

Essa vocação singular para o jornalismo do homem-comício tem seu ápice no episódio descrito por Zuenir Ventura em 1968 – O ano que não terminou. Ainda mais exaltado do que o normal – que não era pouco, aliás – pelo clima de inquietação política que tomava conta do país em 1968, Hélio envia um de seus célebres artigos políticos para o Quarto Caderno do Correio da Manhã, então uma das principais resistências à ditadura na imprensa. O editor, Paulo Francis, tem que dar-lhe uma lição elementar de jornalismo para prever os problemas com o governo que fatalmente viriam: “Ô Hélio, assim não dá, arranja um ‘gancho’. Vê se descobre um escritor marxista que acabou de morrer, um pensador que esteja lançando algum livro, enfim, arranja um gancho, porra”. (Pires, 2004, p. 39).

O fato é que, a partir da escrita engajada e livre, em 1953, nesse espaço do Flan, já se identifica a função que Pellegrino começa a desempenhar de transmissão e popularização da ciência e da Psicanálise, retirando esta dos redutos elitistas e fechados aos problemas urgentes do seu tempo. Dessa forma, mantinha, ao mesmo tempo, uma escrita reconhecidamente brilhante, sintética, rigorosa – do ponto de vista da coerência teórica que partia –; problematizadora e acessível, sem ser reducionista; preocupada com os desafios à democracia postos pela realidade social.

As publicações em jornais e revistas formam um universo à parte em sua trajetória, a ponto de ser possível desenvolver pesquisas específicas sobre o vasto conjunto delas. A partir de uma pesquisa exploratória desse universo, nota-se um panorama de publicações em diversos jornais e revistas, como O Globo, Jornal da República, Revista Pasquim, Labor do Brasil, Gradiva, Playboy, Percurso, entre outras.

Esse conjunto, por sua vez, deu origem a uma seleção, realizada por Pellegrino, de 59 artigos publicados entre 1968-1988, no Jornal do Brasil e Folha de São Paulo, para formar o livro A burrice do demônio (Pellegrino, 1988) – editado meses após a morte do autor. Nele perpassam a sua preocupação social na análise sobre diferentes problemas da estrutura social do capitalismo e sobre os problemas sociais, políticos, psíquicos, filosóficos, teóricos e literários; a partir da leitura não ortodoxa que tinha, sobretudo, da Psicanálise, do marxismo e da teologia da libertação.6

A partir deles, no que tange à Psicanálise e ao marxismo, por exemplo, há um apreço pelo processo liberador de não ocultar as contradições e dominações vividas; ademais, há a concepção de que tornar consciente o inconsciente implica também revelar as mazelas sociais na luta de classes que a sociedade resiste e nega reconhecer. É a partir desse lugar que analisa o valor dos testemunhos dos que tiveram sua integridade e sua humanização negadas por uma força social que obstaculiza as possibilidades de ser sujeito, o que é representado, por exemplo, pela obra literária discutida A metamorfose, de Franz Kafka, entendendo-a como expressão de uma metáfora da coisificação do homem no capitalismo (Pellegrino, 1988).

A propósito, com respeito à literatura, o interesse contumaz de Hélio Pellegrino em desvendar os processos civilizatórios em curso o leva a reforçar o valor de obras fundamentais da literatura brasileira, o que pode ser ilustrado, exemplificativamente, pela seguinte descrição que faz da obra de Jorge Amado:

Se não entendermos a grandeza da obra de Jorge Amado e, principalmente, a importância de seu último romance, estaremos cuspindo para cima. Jorge Amado é nosso Homero. Sua obra, numerosa e rumorosa, faz dele um arauto – um intérprete – das grandes forças telúricas que dão espessura e dinamismo ao processo civilizatório brasileiro. (Pellegrino, 1988, p. 31).

Depois de abrir sua clínica nos fins de 1953, junto com Ivan Ribeiro e Hélio Tolipan, estabiliza-se financeiramente e se muda com a esposa e filhos para um apartamento no Rio de Janeiro (Pires, 2004). Em 1956, Iracy Doyle morre. Ele vai em busca da continuidade à sua formação analítica na SPRJ. Após conversa com Kemper, decide-se por realizar análise didática com Katrin Kemper, com duração de aproximadamente seis anos, período de cuja centralidade e a experiência fundamental à qual se reporta é a noção de encontro analítico:

Dona Catarina, por sua conduta terapêutica, ampliou e profundou minha convicção de que a análise, mais do que um processo técnico interpretativo, é a construção e um encontro humano para o qual o conhecimento científico é necessário, mas não suficiente. Não basta interpretar o paciente: é preciso salvá-lo e convertê-lo à realidade, dar-lhe a profunda aceitação de que precisa para assumir a responsabilidade existencial de ser si-mesmo. (Pellegrino, n.d., citado por Pires, 2004, p. 31).

Em contraposição à noção de neutralidade na Psicanálise, própria do sectarismo de uma mistificação da técnica no apreço à interpretação pela interpretação, bem como na postura de frieza conservadora e tradicional presente nas instituições psicanalíticas – o que não tem relação com fundamentos da ciência psicanalítica –, reafirmará a importância que dá ao encontro na prática analítica:

Quando você resolve tratar, cuidar de uma pessoa, você já tomou o partido dela, ou seja, aquilo que você acha que seja a sua saúde. Não existe neutralidade nem distanciamento, o que existe é discrição, silêncio, um silêncio que significa consentimento. Consentimento com a existência da pessoa e isto é uma posição de amor. A pessoa adoece por carência de verdadeiras relações pessoais; se você lhe der impessoalidade e neutralidade, você dá exatamente aquilo que causou a doença. A tarefa da Psicanálise é a construção de um encontro, e não há encontro que seja impessoal; impessoal é o desencontro. (Pellegrino, n.d., citado por Pires, 2004, p. 32).

Em um importante congresso latino-americano de Psicanálise, no Chile, apresentará uma tese que elabora em 1962 – um de seus trabalhos psicanalíticos síntese mais importantes. A originalidade de sua interpretação fora reconhecida nesse congresso, no qual apresentou a tese de que Édipo não padeceu do incesto e parricídio pelos pais que o amaram e o cuidaram, padeceu de vicissitudes pré-edípicas, referentes aos pais que o condenaram a um desamor fundante e à morte, dos quais não conseguiu se libertar. Neste e em vários outros trabalhos e tratados – aos quais se reporta no texto Vamos falar de Édipo, herói de uma velha legenda tebana (Pellegrino, n.d.-by), fará uma reavaliação minuciosa do complexo de Édipo freudiano e apresentará sua análise sobre o pacto edípico e o pacto social, levando às últimas consequências a plenitude de significações que advêm dessa nova leitura.

1.3 Defesa da democracia e prisão na ditadura militar

A defesa de Hélio Pellegrino pela relação entre Estado Democrático de Direito e liberdade de expressão, bem como a luta contra a ditadura no Brasil (1964-1985) e a tortura, se expressou em artigos, inúmeros protestos, passeatas, comissões, assembleias e manifestações. Pellegrino sempre se posicionava politicamente contra a violência do cotidiano, as iniquidades brutais da desigualdade social que se aprofundavam, a violação de direitos e a tortura na prática contumaz da ditadura militar – culminando na sua prisão por agentes da ditadura militar do país. Apesar das ameaças e riscos de morte, sua coragem e senso de urgência não permitiam outra ação que não a de participar de organizações coletivas para superar as condições aviltantes e desumanas às quais a população brasileira era submetida. Para ele,

O mundo – tal como está – não presta. Os povos subdesenvolvidos morrem de fome, mas, pelo menos, têm a chance de transformar essa fome numa bandeira revolucionária de luta. A fome nos obriga a forjar o homem novo – e nessa medida, ela se torna mestra do humanismo novo. Os outros – os povos ricos – morrem de uma fome pior. Eles não sabem para onde ir, nem o que fazer [...] Esse mundo, tal como está, precisa explodir. Os jovens, os artistas, os marginais que não se alinharam, os que teimam em ser pessoas precisam explodi-lo. Para que o homem sobreviva. A crise, hoje, é uma crise radical. O ser humano busca um sentido para a sua vida. O artista pode ser tudo o que quiser, menos bem comportado. Sua tarefa consiste em dar um testemunho ardente da sobrevivência do homem. Essa sobrevivência, hoje, só pode ser afirmada através de um inconformismo que chegue às últimas consequências. A respeitabilidade, em nosso tempo, é pior do que o pior palavrão. (Pellegrino, citado por Pires, 1998, pp. 60-61).

Depois da morte de Edson Luís de Lima Souto, em março de 1968 – estudante pobre assassinado pelos militares por protestar contra o aumento do preço da comida no restaurante Calabouço –, irrompe um ciclo de protestos e indignação em busca da democratização do Brasil. Nesse contexto, Hélio Pellegrino é escolhido como um dos porta-vozes da luta contra a ditadura, sobretudo no ano de 1968. Um dos episódios desse período se deu em protesto contra a sequência de prisões arbitrárias, espancamentos, humilhações de estudantes, que culminaram em violenta repressão e no massacre que ficou conhecido como sexta-feira sangrenta, em 21 de junho, quando 28 estudantes foram assassinados pela polícia militar (Memorial da Democracia, n.d.).

Hélio Pellegrino foi escolhido para integrar uma comissão de intelectuais, artistas e estudantes para entrevista coletiva com o governador Negrão de Lima, representando uma média de 300 pessoas que o acompanharam até o palácio Guanabara (Pires, 1998, p. 58). Nessa ocasião, Pellegrino ressaltou para o governador que havia sido eleito por eles, por isso precisava apoiá-los; exigiu que se manifestasse publicamente repudiando a violência e que demitisse o chefe de polícia (Pellegrino, citado por Pires, 2004), além de dar ultimato para que ele cumprisse o que se esperava desse cargo político ou que se demitisse (Pires, 1998). Sua coragem e destemor de lutar contra a ditadura o fizeram se expor e desconstruir a arbitrariedade do regime de diferentes formas, inclusive corajosas e espirituosas, zombando da repressão, como a descrita por Pires (1998, p. 59): “Entrou para o folclore a manifestação no Largo de São Francisco em que, diante de uma falha no blindado que dispersava os manifestantes a jato-d’água, Hélio gritava pra multidão: – Gente, o brucuto broxou!”7

As reinvindicações democráticas por educação, direitos políticos, direitos civis e sociais e combate à fome eram cada vez mais reprimidas pelo governo ditatorial com prisões abritárias, assassinato, tortura, mas só aumentaram o inconformismo de grande parte da população na busca libertária e democrática de direitos. Esse contexto culminou na histórica Passeata dos Cem Mil – o maior protesto convocado pelos estudantes registrado após o golpe de 1964 –, na qual se reivindicava o fim da ditadura, da censura, da violência, mais verbas para as universidades e a reabertura do restaurante Calabouço [Memorial da Ditadura, n.d.]. Dentre os diversos discursos no palanque, Pellegrino discorre sua fala antes da fala da principal liderança estudantil da passeata, Vladimir Palmeira, assim reiterando o direito de protesto da população: “O povo está na praça pública, logo está na sua casa. Este é um direito de propriedade que precisa ser respeitado”. (Pellegrino, citado por Pires, 1998, p. 61).

Acompanhando os detalhes bem-descritos por Pires (1998), a respeito desse período, registra-se que no fim da manifestação é eleito para liderar a comissão dos 100 mil e segue para reunião marcada para a semana seguinte, em Brasília, acompanhado dos líderes estudantis, um advogado, um padre e um professor. Lembra ao ditador Costa e Silva que Pellegrino passou por eleição direta para estar ali capitaneando a comissão e que estavam em busca da libertação dos estudantes presos nas manifestações anteriores. Ainda tenta expor a necessidade de mudança do pacto perverso que estava em curso, de forma paciente e conciliadora, não usual pelo autor diante da barbárie do período:

Presidente, vamos supor que, a gente aqui conversando, um daqueles soldados tire o cassetete e venha pra cima de mim. O diálogo será impossível. Se sou agredido fisicamente, como posso conversar? É mais ou menos o que está havendo: o governo diz que quer conversar com os estudantes – eu acredito, e isso é meritório, é excelente. Mas as forças da repressão continuam espancando os estudantes no meio da rua. Não pode haver repressão, presidente. É preciso que os ânimos se acalmem. (Pellegrino, citado por Pires, 1998, pp. 60-61).

Costa e Silva faz a proposta de substituir um pacto perverso por outro. Acompanhando os fatos descritos por Pires (1998), em troca de libertar todos os estudantes, o ditador propõe o acordo pelo fim de qualquer protesto e passeata. Diante da proposta indecorosa e aviltante ao direito fundamental de protesto, não há acordo e Hélio Pellegrino vai elaborando uma experiência e um pensamento, junto com os que lutam com ele e/ou acompanham sua produção intelectual, de que é preciso acabar com um governo despótico, bem como “[...] acabar com o mito de um Governo majestático e isento de porosidade.” (Oliveira, n.d., citado por Pires, 1998, p. 64).

Hélio segue fazendo depoimentos e escrevendo nos meios de comunicação que, à época, expressavam a maior resistência à ditadura; segue denunciando as prisões arbitrárias de quem representava a luta pelos direitos políticos no Brasil e de oposição de classe – o que se expressa em diferentes artigos como em “Os efeitos da ditadura e a ditadura dos fatos” (Pellegrino, citado por Pires, 1998, p. 65). Contudo, a decretação do sangrento Ato Institucional Número 5 (AI-5), da Lei de Segurança Nacional, faz com que ele tenha de permanecer por um período de dois meses na clandestinidade por saber da perseguição dos militares, que haviam decretado sua prisão devido aos artigos publicados no Correio da Manhã. Esta, por sua vez, durou três meses, no início do ano de 1969 e, graças a Maria Urbana e ao amigo Nelson Rodrigues, é liberado. O autor de Vestido de noiva, por sua vez, estava com remorso por saber que aderira de forma reacionária à ditadura e, naquele momento, testemunhava a arbitrariedade e violência que o regime empreendia contra os que eram seus opositores e contra o seu amigo (Pires, 1998). Contudo, tinha trânsito entre os militares e, com isso, tentou todos os recursos de que dispunha para a liberação de Pellegrino. Pires (1998, p. 69) descreve os detalhes desse período, associando-o aos danos à sua saúde: “Em toda a sua vida, Hélio Pellegrino assumia essas causas como um obstinado, muitas vezes sacrificando-se além de seus limites físicos. Em 1970, acabou tendo um enfarte que assumiu sérias proporções e lesou definitivamente seu coração”.

A propósito, é um período no qual o psicanalista faz um pedido para a SPRJ escrever-lhe um documento no qual “[...] ficasse dito – sem mais nada – que a minha prisão poderia causar ansiedade aos meus pacientes. O documento me foi negado, sob o pretexto de que a Sociedade não poderia imiscuir-se em assuntos políticos.” (Pellegrino, n.d., citado por Pires, 1998, p. 80).

Contraditoriamente à defesa do apoliticismo da SPRJ, a instituição se vale do véu da neutralidade de forma oportunista para aceitar e manter, na condição de candidato a analista de seus quadros, um agente da tortura na ditadura militar: “[...] médico militar Amílcar Lobo, que logo seria denunciado por seu envolvimento com sessões de tortura, atendendo aos prisioneiros para mensurar sua resistência em meio aos ‘interrogatórios’” (Pires, 1998, p. 81). Pior que isso, a sociedade já tinha consciência da denúncia muitos anos antes, quando Helena Besserman Viana já o havia denunciado e, obviamente, seu analista também tinha ciência da sua participação em equipe de tortura (Pires, 1998, p. 91).

1.4 Defesa da democratização da Psicanálise e expulsão da SPRJ

A democratização da Psicanálise, o sentido de urgência em retirá-la da estranha atmosfera de torre de marfim na qual vinha se constituindo na história de sua institucionalização, alheia aos temas e problemas de seu tempo, apesar dos infinitos seminários sobre outros temas apartados da realidade social (Pellegrino, Consequências do apoliticismo, na prática, n.d.-q), fez com que Hélio Pellegrino debatesse e trabalhasse com realidades ou temas tabus e/ou silenciados, até então – como a violência do cotidiano no Brasil, a anistia, a tortura –, bem como uma reflexão crítica sobre a epistemologia, os fundamentos, os pressupostos, os conceitos fundamentais da Psicanálise, além da propositura de uma prática psicanalítica que visasse democratizá-la.

Assim, a aposta no trabalho para democratizar e tirar a Psicanálise da torre de marfim tem início quando Hélio Pellegrino e Katrin Kemper criam e passam a mediar os Encontros Psicodinâmicos, que consistiam em sessões públicas de análise de grupo, de duas horas, na faculdade Candido Mendes. O público era constituído pela classe média: “[...] advogados, médicos, artistas, engenheiros e, é claro, muitos analistas curiosos com a experiência pioneira.” (Pires, 1998, p. 82).

O fim dos atendimentos se deu quando “[...] a ideia de tirar do pedestal a Psicanálise daria frutos mais duradouros.” (Pires, 1998, p. 84) com o surgimento da primeira Clínica Social de Psicanálise do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1973, cujo projeto de trabalho foi de democratizar o acesso da psicoterapia psicanalítica que atenda “[...] favelados, lixeiros, carteiros e outros profissionais que em situação normal jamais sonhariam em fazer análise [...]. Ao falar sobre ela, Hélio não perdia a chance de provocar, afirmando que o preço de cada sessão era o mesmo ‘de um lanche no botequim da esquina’” (Pires, 1998, p. 85).

Sua criação é expressão de uma aposta de Pellegrino e de um conjunto de psicanalistas de que ela possa ser uma saída contra a distorção das descobertas e da teoria freudiana e contra o elitismo da Psicanálise. Nas palavras do autor,

[...] conversávamos, d. Cataria Kemper e eu, na casa dela, em São Conrado. D. Catarina tinha sido minha analista didata e, depois disto, nos havíamos tornado amigos. Falávamos sobre Reich, sobre a perseguição por ele sofrida em Berlim, no tempo do nazismo. D. Catarina o havia inclusive escondido, certa vez, no sótão de sua casa [...]. A propósito da Policlínica Psicanalítica de Berlim, que oferecia assistência psicoterápica a paciente sem recursos, ocorreu-me de repente a pergunta: por que não faríamos, aqui, um atendimento às pessoas de baixa renda [...]. Num país como o Brasil, nós, psicanalistas, somos por definição privilegiados [...]. Propus à dona Catarina que organizássemos um banco de horas psicanalíticas, a serem oferecidas, de graça, pelos colegas que quisessem participar. D. Catarina, com seu prodigioso poder de liderança, tomou o pião na unha e mobilizou o grupo fundador. (Pellegrino, Elitismo e Psicanálise, n.d.-u, p. 1).

Dessa forma, pioneiro na criação da Clínica Social de Psicanálise no Brasil, junto com Katrin Kemper, tece uma reflexão sobre essa experiência em alguns textos abrigados na FCRB, como no escrito Elitismo e Psicanálise (Pellegrino, n.d.-u, par. 12), no qual apresenta um problema que para ele é central de pensar a partir da pergunta: a Psicanálise é elitista? Desenvolve afirmação de que é certo que isso não diz respeito a sua essência, mas a um dado mais geral de que os benefícios da cultura são privilégios de poucos no capitalismo. Além disso, interpreta que ela vem sendo praticada com um uso ideológico para manter privilégios, o que também está presente no processo de formação pelas instituições psicanalíticas.

Em oposição a essa tendência, discute a proposta da Clínica Social e faz referência aos Grupos terapêuticos de análise, sob liderança de Jurandir Freire Costa, estruturando um serviço hospital-dia com o objetivo de evitar ao máximo a internação. Analisa o momento que a clínica entra em crise e que precisa mudar, assinalando que irão tentar essa mudança inserindo a pesquisa científica articulada com o trabalho assistencial já realizado. Além disso, descreve a clínica como local de agitação cultural, de fórum de debates, mencionando o ciclo de palestras Psicanálise e política, organizado em 1981, e as reações da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. Reafirma a necessidade de desinstitucionalizar o processo de formação psicanalítica, analisando que a Internacional Psycoalytical Association (IPA) corre o risco de se tornar uma “multinacional psicanalítica”. Critica essa forma ideológica de praticar a Psicanálise, interpretando que ela não só não se assemelha com a forma como Freud tratava seus casos, como também não caracteriza e perverte a Psicanálise, pois se caracteriza pela essência de um “apaixonado esforço de leitura do inconsciente” (Pellegrino, Elitismo e Psicanálise, n.d.-u) e não numa hipertrofia do instituído ou numa subordinação a meras exigências burocráticas.

Nesse e em outros textos, reitera a questão da necessidade de realizar um trabalho de reflexão crítica na Psicanálise que diferencie o que é exigência e o que é recomendação da práxis psicanalítica. É um tema que irá perpassar a maior parte de seus escritos e está relacionado com a defesa da urgência de se pensar uma Psicanálise brasileira. Pellegrino (Elitismo e Psicanálise, n.d.-u) desenvolve uma análise crítica sobre o desenvolvimento da ciência psicanalítica ao longo da história na relação com o momento histórico em que se insere, contextualizando que a necessidade de realizar a tarefa de uma reflexão interna sobre os fundamentos da Psicanálise deparava-se com uma forma de praticá-la no país que a defende como ciência pura, neutra e apolítica. Contudo, desenvolve a análise de que já há uma política feita na própria escolha do interlocutor que pode entrar no consultório de um psicanalista e se interroga sobre o sentido dessa política na manutenção de privilégio, não naturalizando essa prática de exclusão dos pobres. Nas palavras do autor,

Melanie Klein queria ver a Psicanálise, ou seus benefícios, invadindo as escolas para prevenir as crianças das neuroses. Franco Baságlia sonhou com a socialização do atendimento à doença mental. Há sonhadores que, teimosamente, sonham com uma NOVA ORDEM, sobretudo para o Terceiro Mundo. É utopia, impostura ou loucura? (Pellegrino, 1985, par. 46).

O outro texto, A Clínica Social de Psicanálise (Pellegrino, n.d.-a, par. 4), por exemplo, foi escrito quando havia um ano dessa experiência e busca refletir sobre ela, discutindo os efeitos da modificação do critério de cobrança no setting grupal e no consultório privado. Retoma a análise de que o preço cobrado nesse trabalho é um divisor de águas que não tem a ver com princípios científicos da Psicanálise, mas é expressão de um gesto político e social ideológico de acumpliciamento de interesses e privilégios da classe dominante. Uma hipótese que demanda reflexão é exposta pelo autor ao se indagar se esse pacto expressa “[...] um acumpliciamento de interesses e privilégios capaz de, quem sabe, filtrar e modelar a própria fisionomia da neurose que irá aparecer em meu consultório, bem como o ritmo e a técnica por mim utilizados para tratá-la” (Pellegrino, A Clínica Social de Psicanálise, n.d.-a, par. 4). Passa então à análise do que é plenamente levado em conta no projeto de mudança do critério de pagamento ser o direito de o paciente receber o trabalho prestado pela clínica, assim como as suas condições econômico-sociais. Levanta uma hipótese importante de que há um elemento ideológico por trás da prática clínica costumeira. As psicoterapias psicanalíticas consideram que o valor a ser pago pelo sujeito deveria “[...] pesar-lhe, duramente, no orçamento, sem o que não iria ele valorizar o trabalho do analista [...]” (Pellegrino, A Clínica Social de Psicanálise, n.d.-a, par. 4).

Uma curiosidade a respeito desse período é mencionada no texto História para debate, com o subtítulo Luxo no lixo – a psicanálise tem lugar fora do asfalto? (Pellegrino, 1985), no qual propõe uma reflexão sobre a experiência da Clínica Social de Psicanálise no morro do cabrito, no Rio de Janeiro, fazendo referência a outras experiências de trabalho de clínicas sociais no mundo, citando a que foi fundada por Karl Abraham, em Berlim; por Reich, em Viena; por Schultz, no pós-guerra; por Anna Freud; além de se reportar à fala de Freud, de 1918, em Budapeste. A propósito, Pellegrino se reporta a uma mensagem que Michel Foucault lhe enviou de encorajamento desse trabalho da Clínica Social de Psicanálise que estava sendo realizada no Brasil.8 Contudo, era de se esperar que,

Ao trabalhar pela transformação na difusão da Psicanálise, Hélio trabalhava também, inevitavelmente, contra a orientação da IPA, que norteava a atuação da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, à qual ele e outros membros da Clínica Social eram filiados. Menos de um ano depois da criação da Clínica, os confrontos começaram, com a SPRJ pedindo que o grupo fosse rebatizado como “Clínica Social de Psicoterapia”, no que não foi atendida. (Pires, 2004, p. 46).

A partir do rigor da perspectiva teórica e psicanalítica que parte, continua a escrever corajosamente sobre os problemas prementes da realidade do país. Assim escreverá, em 1978, um “Artigo corajoso, que nenhum jornal da época quis editar, sobre o caso Lourenço Diaféria – Jornalista enquadrado na Lei de Segurança Nacional, preso e torturado.” (Pellegrino, 1976a, p. 59). O artigo se intitula A dialética da tortura: direito versus direita (Pellegrino, n.d.-b) e também está abrigado na FCRB. Nele, o autor faz uma importante interpretação psicanalítica sobre o uso da tortura no período da ditatura militar no país, entendendo-a como um sintoma que expressa a filosofia política da direita radical, cujo estudo e denúncia são de suma importância para a compreensão do Brasil e de outras manifestações do fascismo da direita no mundo. Questiona o dado de que em nosso país essa prática não se institucionalizou, ao mesmo tempo que caracterizou o surgimento e a prática da polícia militar na ditadura, o que é próprio de situações de clivagem e de um processo de solução de compromisso. Analisa que sua teleologia é o arbítrio, é não aceitar a condição humana de não ser perfeito e poder errar, não dando espaço, portanto, à soberania da Lei, já que afirma para si um estatuto de infalibilidade, exercendo o arbítrio em ações de impunidade e silêncio. Identifica e analisa alguns elementos que caracterizam esse sintoma. Um deles é a presença de uma forte negação do conflito e negação do pensamento dialético, projetando para fora de si tudo o que denuncia a própria contradição ou dificuldade, o que é base para a necessidade de construção de um projeto político em torno de uma ideologia anticomunista – fenômeno que caracteriza a direita radical em vários cantos do mundo. Assim, analisar a estrutura ideológica da direita está em idolatrar um polo como justo e bom e demonizar o outro tido como absolutamente mau; idolatrar a instância repressora e repudiar absolutamente o que é reprimido. Outra característica é que não há encarnação de nenhum vínculo de substância concreta de virtudes nas figuras idolatradas, diferenciando o significado de se cultuar um herói de uma mera expressão de idolatria. Analisa que é sob essa base que se funda o ódio à liberdade de imprensa, aos jornais livres e a tantas perseguições, como denunciara pela ilustração do caso de perseguição ao cronista Lourenço Carlos Diaféria – interpretando que a crise não estava na crônica do autor – que fora tida como problema manifesto –, mas nos depoimentos de três presos políticos veiculados anteriormente em dois jornais de grande circulação. Nesse sentido, assume a posição de que a direita radical e a tortura são sintomas de uma doença social, política, filosófica e de pensamento que não consegue suportar a contradição e cuja necessidade é a manutenção de privilégios.

Um importante adendo é o de que esse problema social será pensado e denunciado por Pellegrino em outros graves episódios sintomáticos da paranoia, violência e ódio de classe no período militar do país; por exemplo, na constante denúncia e busca por descortinar a verdade que o autor travara a respeito do conhecido episódio do Riocentro, no qual “30 mil jovens assistem a um show de música e seriam vitimados num atentado terrorista promovido pela extrema direita. A revolta contra o arquivamento do processo será campo de batalha, e objeto do último artigo a ser escrito por Hélio – a um tempo seu primeiro texto póstumo – ‘A verdade e a honra militar’” (Pellegrino, citado por Pires, 2004, p. 67).

Em 1979, surge a demanda para desenvolverem “[...] grupos de apoio à comunidade do Morro dos Cabritos. Junto à associação, promovem dinâmicas onde violência, toxicomania, pais e filhos eram as pautas.” (Pellegrino, citado por Pires, 2004, p. 61), trabalho ao qual a Clínica Social não se furta e que compunha a diversidade de atividades promovidas por ela.

Ainda Nesse campo de atuação, cumprindo uma função de difusão da psicanálise, de ações públicas e de debate crítico sobre suas experiências de trabalho, surge uma sequência de debates promovidos pela Clínica Social, na Pontifícia Universidade Católica, sobre Psicanálise e política, que entraram para a história do movimento psicanalítico e explodiram uma grande crise na Psicanálise. O primeiro deles, em setembro de 1980, contou com a presença de Hélio Pellegrino, Eduardo Mascarenhas e Wilson Chebabi para discutirem o tema A Psicanálise e sua inserção no modelo capitalista (Pellegrino, n.d.-ba).

O texto original – base para a fala de Pellegrino na mesa-redonda mencionada, bem como outros textos que versam sobre esse tema –, se encontra no acervo da FCRB. Nele, o autor parte da constatação de que aparentemente não há relação entre Psicanálise e política, contudo constrói uma argumentação no sentido de pensar que essa é uma grande ilusão e que essa relação existe de forma substantiva. Retoma a afirmação de que toda prática social é política, parafraseando Sartre na afirmação de que estamos condenados a fazer política, mesmo quando trabalhamos pelo conformismo. Para desenvolvê-la, trabalha com a metáfora do trem de ferro em movimento constante para afirmar a presença da política para todos os ocupantes, embora haja os que mantêm a ilusão de que estão parados. Nesse sentido, faz uma análise correlata à prática clínica psicanalítica, discutindo sua relação substantiva com a política, a começar pelo preço que o psicanalista cobra pelo trabalho, poderoso impeditivo estabelecido pelo mercado, pela realidade política e social, que insere o psicanalista no modelo capitalista, permitindo a uma minoria entrar e participar de um trabalho que põe seus benefícios a serviço dos privilegiados, que pagam o privilégio do analista. Ele discute as várias consequências desse dado político de reprodução da estrutura e ideologia do capitalismo no consultório. Levanta uma discussão acerca da diferença entre o modelo a-político de abstinência necessário à prática clínica – na medida em que transforma tudo em significante da escuta do campo do desejo – e a injustificável posição de levar esse modelo para fora do consultório e generalizá-lo no campo da realidade política e social. Interpreta esse segundo movimento de um apoliticismo do psicanalista, entendendo-o como ausente de fundamentos da ciência psicanalítica e como uma forma de fazer política numa posição de má-fé e de acumpliciamento com o status quo vigente, trabalhando pela inserção da Psicanálise no modelo capitalista, a ponto de não se aceitar algumas pessoas que tenham militância política de esquerda em algumas instituições de formação psicanalítica. Nesse contexto, Pellegrino defende a tese de que “A Psicanálise é um pensamento libertador, de esquerda. A favor da igualdade e da justiça” (Pellegriono, Psicanálise e sua inserção no modelo capitalista, n.d.-ba, par. 29), e de que a posição apolítica retira o caráter desmistificador, libertador e revolucionário presente na Psicanálise freudiana. Para desenvolver essa tese, vale-se da análise do mito fundador em Totem e Tabu, do tema edípico, da dimensão igualitária e libertária presente na teoria da libido – em termos da concepção da passagem do autoerotismo para a procura do objeto “alteritário”; da teleologia de liberdade do processo de evolução psicossexual do ser humano no reconhecimento do Outro, de sua palavra e integridade. Analisa que as verdades que fundamentam as teorias psicanalíticas de Freud são incompatíveis com a exploração do homem pelo homem e que o apoliticismo conformista da instituição psicanalítica nega todos esses fundamentos.

Analisa como o apoliticismo parte de uma visão entitativa e nosolizante da doença mental, retirando todo o seu contexto histórico-social, não chegando sequer a questionar o sistema nosocomial ou os 12.500 doentes cadastrados nos hospitais psiquiátricos do país, abandonados numa estrutura semelhante aos campos de concentração. Identifica que esse mesmo apoliticismo das sociedades psicanalíticas é o que não se interroga sobre a tortura, problema eminentemente psicanalítico, além de ser expressão de sexualidade e de crueldade no campo social. Denuncia o escândalo desse apoliticismo a partir de vários exemplos, entre eles a presença de um “Sistema Nacional de Informações (SNI) psicanalítico” – referindo-se ao fato de que a sociedade psicanalítica lhe negou pronunciamento quando foi preso na ditadura, além dos meandros do escândalo da formação empresarial promovida pelas sociedades. Defende que elas hipostaseiam a Psicanálise em uma mercadoria rentável, deformando o que a caracteriza como conhecimento, bem como o que denomina por integridade do pensamento freudiano e das verdades teóricas dessa ciência que legitimam a prática da luta pela democracia (Pellegrino, Psicanálise e sua inserção no modelo capitalista, n.d.-ba).

O até então jornalista Roberto Mello – que posteriormente se tornou psicanalista e cofundador da Fazenda Freudiana de Goiânia, Goiás – estava no auditório e buscou valorizar a palavra de Hélio Pellegrino, reproduzindo a fala dos três analistas no artigo intitulado Barões da Psicanálise, publicado em 23 de setembro no Jornal do Brasil.

No dia seguinte ao da publicação do artigo, houve o segundo debate com o tema Psicanálise e fascismo, interposto pelo professor Rômulo Noronha de Albuquerque, que “[...] relata as torturas que sofreu e confirma, em público, o que Helena Besserman Vianna já havia denunciado anonimamente, em 1973, na revista argentina de Psicanálise Cuestionemos: Amílcar Lobo, candidato a analista da SPRJ, atendia aos presos torturados com o codinome de Dr. Carneiro.” (Pires, 1998, p. 91). Pires (1998) destaca que esse problema passa a ser uma causa pessoal de luta que Hélio Pellegrino levará adiante, a começar pela solicitação formal, no dia 2 de outubro, para que a SPRJ se posicionasse e tomasse providências diante das graves denúncias sobre Amílcar Lobo.

De fato, essa será uma causa pessoal do psicanalista, levada às últimas consequências. Na FCRB, há todo um conjunto de documentos que permitem reconstruir parte dessa história do movimento psicanalítico do Rio de Janeiro e da IPA, referentes à exclusão de Hélio Pellegrino do quadro de membros da SPRJ.9

Esses episódios, somados à gota-d’água que o decisivo artigo de Roberto Mello representou, foram – em vez de motivo suficiente e necessário para uma busca pela verdade, justiça, providências e reparação – suficientes para a comunidade psicanalítica mais reacionária usá-lo como pretexto para expulsão do psicanalista da SPRJ, episódio que é relatado por Pellegrino (1996, p. 97).

Nós participamos de uma mesa redonda da PUC e um repórter, o Roberto Mello do Jornal do Brasil, que é um sujeito brilhante, inteligente, fez uma reportagem sobre essa mesa-redonda por conta dele. Ele não me consultou, ele não falou comigo, ele não me mostrou previamente o texto. Ele fez a reportagem porque a mesa-redonda foi rica, curiosa, pitoresca. Foi uma coisa boa. O Jornal do Brasil publica uma página inteira e teve uma repercussão grande. Bom, os burocratas nos chamam, a mim e ao Mascarenhas e nos dizem simplesmente o seguinte: “Olha, por causa dessa matéria vocês estão excluídos da sociedade. Se vocês quiserem, vocês façam o seguinte: para não enfrentarem o vexame da exclusão, vocês se demitam, porque fica tudo bem”. Aí eu tive a maior crise de cólera da minha vida... (risos), e eu sou um sujeito colérico. Então eu tive uma crise de cólera gigantesca, eu falei aos brados durante quase uma hora, eu desmascarei, eu mostrei minha indignação.

Como se não bastasse, esse era só o início da sequência sintomática de uma série de fatos que expressam o pacto perverso pelo poder arbitrário, sem limites e pelos privilégios que estruturavam a instituição, que são minuciosamente descritos na biografia de Pires (1998). Essa realidade institucional sintomática fez com que o autor escrevesse uma série de textos sobre o problema, abarcando as outras expressões que ele tomava, por exemplo, na ausência de sentido da categoria sacerdotal de analista didata nas instituições psicanalíticas, entre tantos outros temas tabus, propondo um debate amplo e crítico sobre a formação psicanalítica.

Assim, devido ao seu posicionamento em defesa da democracia e à sua coragem de romper o silêncio diante de temas e problemas tabus em um regime autoritário, foi expulso da SPRJ, de maneira análoga ao procedimento pelo qual foi preso no regime militar. Diante do arbítrio, muitos psicanalistas integrantes da SPRJ foram contrários a essa decisão tomada pela cúpula da instituição e formaram, junto com Hélio Pellegrino, o Fórum de Debates, que promoveu importantes discussões sobre temas tabus da formação psicanalítica.

Obviamente, para o autor, a cumplicidade das instituições psicanalíticas com o governo ditatorial se reporta aos interesses da elite do país, ao que nada tem a ver com uma essência psicanalítica ou um fundamento psicanalítico, por excelência, mas tem a ver com interesses de classe e de manutenção de privilégios.

Da mesma forma, a estrutura elitista das instituições psicanalíticas, que busquem guarida numa suposta neutralidade, foi pensada por Hélio Pellegrino não só na sua expressão no Brasil, mas na forma elitista, autoritária e subserviente de estruturação de diversas instituições psicanalíticas no mundo, que precisam ser repensadas, de forma democrática, com abertura para o pensamento crítico e de forma livre. Diante, por exemplo, do caso Amílcar Lobo, Hélio Pellegrino solicitou diversas vezes um posicionamento da International Psychoanalytic Association (IPA), a qual só se posicionou sobre o caso muito tardiamente, em 1986, muitos anos depois de Pellegrino ser expulso e reintegrado por mandado judicial, em 1981.

Assim, percebemos o caso como uma expressão sintomática de um problema maior, conforme já fora reconhecido por Pires (1998, p. 91), pois, “Realmente, seus pares engajados na mesma luta eram pouquíssimos”. Com efeito, é reconhecido como um caso particular em um dado maior no desenvolvimento das instituições psicanalíticas internacionais. Nesse sentido, Stephen Frosh e Belinda Mandelbaum (2017) retomam os exemplos da Sociedade Psicanalítica Alemã (DPG), que atendeu às demandas do regime nazista ao retirar analistas judeus de seu quadro para encerrá-los no “Instituto Goring”; além da ausência de posicionamento e conivência de instituições reconhecidas pela IPA diante da desigualdade e da repressão política no país. Estas estavam arvoradas num culto à neutralidade, numa perspectiva adaptativista e conformista que nada tem a ver com o compromisso com a prática social da Psicanálise, com seu caráter libertador, histórico, democrático e subversivo, esvaziando a essência dos elementos radicais do pensamento psicanalítico.

Em vista da trajetória descrita, é notável a importância de Hélio Pellegrino para a Psicanálise, não só pela expressão da defesa da relação entre Psicanálise e democracia em sua prática ou como figura que rompeu o silêncio e a adesão ao autoritarismo na ditadura militar e em diferentes instituições, a partir de uma base crítica de uma perspectiva psicanalítica, mas também porque um dos focos centrais da contribuição da sua produção psicanalítica está na reflexão crítica sobre os fundamentos epistemológicos, conceituais e práticos da teoria psicanalítica.

Em suma, em vista da trajetória do autor, constatamos que outras áreas do conhecimento – como as Artes, a Literatura, o Jornalismo e a esfera política – reconhecem a contribuição de Hélio Pellegrino para o Brasil; sobretudo para a Psicanálise, referindo-se a ela como “[...] uma das mais notáveis sínteses intelectuais de sua vida” (Pires, 2004, p. 43). Até mesmo a morte de Pellegrino – causada por ataque cardíaco, aos 64 anos, e seu enterro expressaram “[...] uma síntese, mais uma, de sua militância pelo Outro: amigos, mulheres, filhos, companheiros do PT, psicanalistas, religiosos.” (Pires, 2004, p. 51).

Não obstante este estudo faça parte de uma pesquisa maior de estado da arte que apresenta praticamente uma ausência de estudos sobre o autor no mapeamento da produção científica em Psicanálise no Brasil, é estranho constatar que, após mais de 30 anos da morte de Pellegrino, há um silenciamento sobre sua contribuição, sendo parcos ou inexistentes os estudos, na Psicanálise, dedicados à análise da sua produção intelectual, o que reforça a justificativa científica, política, histórica e social de estudá-lo e construir uma memória de seu pensamento, de sua produção no campo da Psicanálise e repor a questão do que se silencia ao silenciar sua contribuição.

2A título de explicação de como os documentos manuscritos e datilografados serão referenciados ao longo da pesquisa, a FCRB ofereceu uma orientação de como citá-los pelas normas da ABNT, mas não encontrou previsão pelas normas da American Psychological Association (APA). A pesquisa pôde contar com o serviço do setor de referência da biblioteca central da Universidade de Brasília (UnB) e solicitar orientação específica, devido ao fato de as normas da APA não preverem a situação de citação de documentos sem títulos. Ao entrar em contato com o autor das regras da APA, ele confirmou que não há previsão dessa situação e sugeriu que se atribuísse um título e colocasse a informação nas referências bibliográficas entre colchetes: [Título atribuído]. Quanto às fontes sem número de paginação, foi recomendado substituí-la pelo número do parágrafo. A sigla n.d. (não datado) refere-se aos documentos nos quais não consta nenhuma data, conforme pode-se consultar em https://apastyle.apa.org/style-grammar-guidelines/references/missing-information.

3Depoimento de Antônia Pellegrino, neta de Hélio Pellegrino, a Pires (2004).

4Depoimento de Antônia Pellegrino, neta de Hélio Pellegrino, a Pires (2004).

5Citação indireta com base no depoimento de Antônia Pellegrino, neta de Hélio Pellegrino, a Pires (2004).

6Esse dado expressa sua intenção contumaz de tornar pública a perspectiva epistemológica e teórica da qual parte para a análise de problemas que estruturam a realidade social, sem nenhuma ilusão da possibilidade de um lugar neutro para a análise científica dos fenômenos históricos. Dessa forma, nota-se no livro a recorrência das seguintes discussões: a relação entre Psicanálise e Literatura; Psicanálise e instituições; sexualidade humana; Psicanálise e religião; Psicanálise e política; Psicanálise, teologia da libertação e marxismo; religião e marxismo; análise psicanalítica de temas filosóficos; Botânica e Psicanálise; mitologia e Psicanálise; além de diversos textos que se detêm especificamente na relação entre Psicanálise e marxismo.

7Com efeito, quebrar o silêncio com espirituosidade, humor e interesse caloroso pelo outro era uma marca também da sua posição psicanalítica no tratamento com seus analisantes; e uma característica contrária a uma tendência de frieza, neutralidade e impessoalidade que considera deformante no campo psicanalítico. Alguns episódios que expressam essa posição são lembrados por Pires (1998).

8Importante também mencionar que Hélio Pellegrino e Foucault tinham uma divergência fundamental, a qual foi exposta e desenvolvida no debate que compõe as célebres conferências de Foucault no Brasil, em 1973, publicada com o título Mesa-Redonda com Michel Foucault, parte do livro A verdade e as formas jurídicas (Foucault, 2013). A divergência se dá em torno das interpretações sobre a tragédia de Sófocles Édipo Rei e da concepção freudiana do complexo de Édipo; a partir da qual Pellegrino discorre sobre sua posição teórica de que Édipo representa uma estrutura constitutiva fundamental do psiquismo humano, do desejo e do inconsciente; e Foucault irá se contrapor a essa interpretação, a partir de uma concepção deleuziana de que Édipo não representa um estágio do desenvolvimento do ser humano, mas apenas uma imposição do poder que o psicanalista e a sociedade em geral “[...] estabelecem sobre os indivíduos.” (Foucault, 2013, p. 129).

9Para se ter uma dimensão do valor historiográfico desses documentos, é possível mencionar alguns deles, entre o vasto conjunto abrigado no acervo. Há a solicitação de Hélio Pellegrino ao psicanalista Serge Lebovici de posicionamento em relação às denúncias feitas sobre Amílcar Lobo e sua ligação com a SPRJ (1981); bem como correspondência na qual Lebovici diz que Edward D. Joseph lhe responderá (1981). Há também a Assentada de Inês Etiene Romeu contra Amílcar Lobo (1981). Convocações para reuniões da SPRJ, propondo que Pellegrino explique as denúncias de Amílcar Lobo como membro de equipe clandestina de torturas das Forças Armadas Brasileiras. Há a recusa à proposta de que Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas se demitissem antes que a SPRJ os expulsasse, escrita por ambos que fundamentam a incompatibilidade entre Psicanálise e autoritarismo. Há o pedido de Pellegrino da inclusão da reportagem que deu origem à exclusão no calendário científico da instituição negado por Vítor Andrade. Há cartas entre o psicanalista e o posterior presidente da SPRJ, Víctor Manuel de Andrade. Há a cópia do processo de Werner Walter Kemper com comentários (1983); abaixo-assinado sobre o caso Amílcar Lobo; documentos assinados por Vítor Manuel Andrade – à época, presidente da SPRJ; recursos de Pellegrino contra suas exclusões da SPRJ. Além de solicitação a esse presidente, feita pelo Fórum de Debates, de carta anônima que rotulava Hélio Pellegrino de comunista (1981). Somam-se a esses documentos diversos textos de combates teóricos no que consiste à falsidade da defesa do apoliticismo e tantos outros que expressam argumentos sobre a incompatibilidade entre autoritarismo e Psicanálise. Mais do que isso, compõem um testemunho de que, por trás da mentira da defesa do apoliticismo e da neutralidade, há a defesa da manutenção da prática concreta do autoritarismo e da violência para a manutenção do status quo e do poder perverso fundado em privilégios. Entre os documentos, encontramos ainda uma carta assinada por Vítor Manuel Andrade, informando a suspensão dos direitos de membro de Ernesto La Porta por ter assinado carta publicada no Jornal do Brasil, em 1981. Fora alguns artigos sobre as denúncias contra Amílcar Lobo, sobre o apoliticismo das instituições psicanalíticas, a resistência a Freud e correntes do pensamento psicanalítico da América Latina, entre outros importantes documentos.

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