A originalidade do trabalho de Fernand Deligny (1913-1996) com crianças e jovens, e suas reflexões acerca da vivência com os autistas, suscita cada vez mais o interesse de pesquisadores de diferentes partes do mundo e em diversos campos do saber, como a Educação, a Filosofia, a Antropologia, a Psicologia, o Direito e as Artes. As possíveis ressonâncias do campo psicanalítico nos escritos desse autor acerca das noções de humano e de linguagem compõem nosso principal objeto de investigação; com isso, este artigo se inscreve numa tentativa de produzir uma discussão que não compete somente aos estudos em torno de Fernand Deligny, mas à própria Psicanálise.
A complexidade do nosso estudo se situa na flutuação permanente de aproximação e distanciamento de Deligny em relação ao campo psicanalítico ao longo de sua trajetória no acompanhamento de crianças fora da ordem (jurídica e simbólica). Deligny produziu críticas à Psicanálise ao apontar e atingir os limites da teorização e das práticas clínicas propostas por psicanalistas na reflexão sobre o funcionamento psíquico e o tratamento com autistas. No entanto, essas críticas não impedem que ecos dessa teoria compareçam em seus textos; assim como também não o impedem de dialogar e colaborar com notáveis psicanalistas implicados no movimento institucional e na criação de dispositivos psicanalíticos inovadores nos anos 1960-1980. Apesar de Deligny comumente não aparecer como parte da história da Psicanálise – por mais que seja evidente seu contato com algumas pessoas que integraram o movimento psicanalítico, como podemos perceber por sua correspondência (Deligny, 2018a) –, o reconhecimento por parcela de alguns psicanalistas do seu pensamento e suas práticas confirma a reciprocidade dessa relação paradoxal e uma proximidade ambígua entre algumas de suas noções e da Psicanálise.
Mas de qual Psicanálise estamos tratando? Sabemos que há uma ampla gama de possibilidades e de perspectivas no campo psicanalítico, mas aqui a tomaremos majoritariamente como Deligny a considerava: a partir de Jacques Lacan.4 Apesar de citar nominalmente Sigmund Freud e alguns outros poucos psicanalistas, e também de ter tido contato com alguns destes, o nome de Lacan “sintetiza, para Deligny, a psicanálise ou, mais ainda, a instituição psicanalítica que não cessa de visar em suas críticas”5 (Miguel, 2016, p. 444, tradução nossa). Não é nossa intenção relacionar diretamente a teoria lacaniana com as suas colocações, ou seja, fazer uma espécie de comparação entre concepções de ambas sobre conceitos semelhantes que trabalharam. Mais apontar do que propor, mais traçar do que interpretar.
Para lidarmos com nossa questão, fizemos levantamento de alguns textos de Fernand Deligny em que a Psicanálise (seja por meio de Freud, Lacan, Françoise Dolto ou qualquer outro psicanalista) aparece direta ou indiretamente nas suas discussões acerca dos modos de ser fora da linguagem,6 ou, nos seus termos mais frequentes, em torno dos autistas, do humano, do homem, do simbólico, do real, entre outros. Os textos selecionados datam do período de 1975 a 1982 – também consultamos algumas correspondências em que a nossa problemática está presente. Então, por meio de textos e cartas de Deligny (2007; 2015g; 2018a), compusemos nosso trabalho, mas também percorremos autores como Sandra Alvarez de Toledo (2001; 2007a; 2007b; 2007c; 2007d), Marlon Miguel (2016) e Noelle Resende (2016) como principais apoios à nossa discussão.
Em outros termos, inserimo-nos no método de pesquisa bibliográfica, sem a pretensão de elaborar uma revisão de literatura sistemática ou de fazer um mapeamento completo da presença da Psicanálise em Deligny, mas, sim, trazer a repercussão dessa presença. Diríamos, ainda, tomar o som (Psicanálise em Deligny) e fazê-lo repercutir, ressoar pelo texto, expor o que conseguimos escutar, e não reproduzir todas as ondas sonoras. Dessa forma, num primeiro momento dedicaremos a investigação aos primeiros contatos de Deligny com o campo psicanalítico e sua influência na gênese da rede em Cévennes (região montanhosa localizada ao Sul da França), lugar de acolhida destinado às crianças autistas. Em seguida, vamos nos deter nas noções que Deligny trabalha ao longo de alguns de seus textos, depois de sua instalação na rede, sem perder de vista a inventividade das apropriações que faz de ideias psicanalíticas.
Do castelo de La Borde à rede em Cévennes: encontros de Deligny com a Psicanálise
Fernand Deligny era conhecido como educador e pedagogo, clínico às avessas, poeta-autista ou poeta do autismo, artista, cineasta e escritor (Alvarez de Toledo, 2001; Aragon, 2018; Pelbart, 2016; Resende, 2016), mas preferia se intitular “poeta e etólogo”. A primeira designação o aproximava da literatura e da escrita; a segunda, das suas próprias concepções acerca do humano.
O nome “Deligny” vai além do próprio sujeito particular, “é o nome de uma tentativa concreta conduzida por um certo número de indivíduos” (Resende & Miguel, 2015, p. 141). A palavra tentativa indica as empreitadas que Deligny deu início durante sua vida em diferentes espaços, desde a década de 1930, como o asilo de Armentières (1933-1935, depois de 1939-1945), no Norte da França; a Grande Cordée (Grande Cordada, 1948-1956), fundada em Paris; e a rede em Cévennes (1968-1996), localizada no sul. Tentativa é um termo que caracteriza a singularidade da sua prática, assim como um traço seu: espírito de não conformismo às regras preestabelecidas pela sociedade.
Para compreender o cerne do pensamento de Deligny, é preciso contextualizar suas práticas e noções na conjuntura sociocultural da época, inscrita no cruzamento de importantes reivindicações e transformações societais, segundo Igor Krtolica (2010): a transformação do campo psiquiátrico e as críticas ao isolamento de doentes mentais, a emergência do conceito de criança inadaptada e a crise dos modelos pedagógicos, assim como a mutação da problemática institucional no combate político dos anos 1960. Influenciando essa reviravolta institucional, a Psicanálise aparecia na frente do cortejo, produzindo uma ruptura definitiva com o antigo modelo asilar, responsável por estigmatizações e exclusões sociais dos doentes mentais. É também por meio dela que figuras dos campos psiquiátrico e pedagógico se aproximam entre elas para discutir o tratamento e a acolhida de crianças em forte inadaptação ao sistema escolar.
É nesse contexto que Deligny e sua trupe, em meio a uma situação material e financeira preocupantes, instalam-se em La Borde em 1965 a convite de Jean Oury e Félix Guattari. Lá, ele entra em contato direto com a Psicanálise, que ritmava os dias dessa instituição psiquiátrica movida, principalmente, pela Psicoterapia Institucional (que teve François Tosquelles como figura pioneira) e pelo ensino de Lacan. Ele fora encarregado por parte da redação do jornal da clínica e por mimeografar os seminários de Lacan durante o período de estada na Instituição.
De qualquer modo, Deligny não entrou totalmente nessa corrente de ideias, pois tinha uma série de críticas em relação aos tratamentos e ao próprio funcionamento da Instituição, que, apesar de propor e praticar um modelo alternativo às Instituições Psiquiátricas então vigentes, ainda representava um modelo institucional rejeitado por ele. Como aponta Alvarez de Toledo (2007a), passa a não suportar a Psicanálise, recusa a ideia de inconsciente, não compartilha o fascínio que os “Labordianos” têm pela linguagem da psicose e à ênfase que dão aos discursos e delírios.
Apesar de ter tomado contato com a obra de Lacan durante o período em que estava em La Borde, iniciou a leitura de seus textos a partir de 1975, mas não chegou a ser um grande conhecedor de sua obra, e conheceu menos ainda a de Freud. Miguel (2015, p. 444) afirma ser difícil reconhecer com segurança o que efetivamente Deligny leu de Lacan, mas sabe-se que ele leu de perto os Seminários 1 (1953-1954, publicado em 1975) e 2 (1954-1955, publicado em 1978), além de outros textos, possivelmente O estádio do espelho como formador da função do eu (1966) e Televisão (1974), no entanto, sua leitura é muita incompleta. Acerca do ano de 1980, ano de lançamento de mais um livro, Alvarez de Toledo (2015, p. 9) esclarece que este
[...] deveria ter atraído atenção para as afinidades entre a escrita e o pensamento de Deligny e o pensamento de Lacan. [...] Mas em 1980 [...], Deligny estava identificado demais à sua rejeição da linguagem, e a Psicanálise, diluída demais na vulgata psicológica – ou, ao contrário, enrijecida na caricatura da teoria lacaniana – para que fossem percebidas essas novas ressonâncias.
Seguindo com Miguel (2015), as críticas de Deligny restam, então, parciais, e é curioso que ele não cesse de retomar definições psicanalíticas (mais estritamente as noções de simbólico e real) para falar dos autistas.
Com sua maneira típica de bricoleur, Deligny utiliza os conceitos como materiais que podem lhe ser úteis, mas se ele pega emprestado frequentemente de Lacan seus termos, é também porque visa que sua língua-teoria ressoe no campo discursivo clínico.
Lacan é, portanto, bem mais o nome de um fantasma. [...] Se a discussão Deligny-Lacan é muito restrita do ponto de vista do debate teórico, nos parece que o primeiro traz elementos bem interessantes e importantes ao debate clínico-psicanalítico.7 (Miguel, 2015, pp. 444-445, tradução nossa).
Em La Borde, Deligny fora também delegado a acompanhar “os pacientes mais ‘incuráveis’, mais agitados, esses cuja equipe de cuidados não sabe o que fazer”8 (Alvarez de Toledo, 2001, p. 247, tradução nossa), e encarregado de uma “pequena escola” para os pacientes, oficinas de teatro e confecção de brinquedos de madeira. Nesse sentido, Deligny se aproximava das ideias centrais da psicoterapia institucional que nutriam a luta contra a exclusão social de doentes mentais, inaugurando lugares de vida “sem muros”, de curas livres para esses pacientes. Em 1966, Jean-Marie J. (“batizado” depois como Janmari), diagnosticado como “encefalopata profundo”, é confiado a Deligny pela mãe, passando ele a pensar ainda mais em questões que perdurarão pelo resto de sua jornada: uma nova tentativa que livre Janmari e outras crianças e jovens fora da ordem de um destino trágico de encarceramento manicomial. Muitas coisas mudam a partir desse encontro com essas crianças definidas pela vacância da linguagem que colocam em cheque a imagem do Sujeito consciente de si mesmo.
Assim começa sua saída de La Borde rumo à instalação permanente em Cévennes, onde desenvolve, conjuntamente com outros, uma rede, de cuidado, diríamos, voltada principalmente a crianças autistas. A figura evocada, por Deligny, do “autista”, se pensada no âmbito da psicopatologia, engloba uma série de diferentes formas psicopatológicas, então devemos entendê-la como um ponto de atração entre elas. O diagnóstico e a discussão psicopatológica não estavam em primeiro plano, não se tratava de especificar ou especializar uma conduta diante, ou melhor, ao lado, das crianças. Apesar disso, como aponta Miguel (2020) ao levar em consideração teorizações de Georges Canguilhem, Deligny não ignorava a diferença (qualitativa) entre normal e patológico, porém o patológico apresentaria uma normatividade própria e por isso não seria algo a ser destituído do indivíduo a qualquer custo.
Lacan est donc bien plutôt le nom d’un fantôme. [...] Si la discussion Deligny-Lacan est très restreinte du point de vue du débat théorique, il nous semble que le premier apporte des éléments bien intéressants et importants au débat clinico-psychanalytique (Miguel, 2015, pp. 444-445).
A rede em Cévennes funcionava em várias pequenas unidades em diferentes lugares, mas que compunham um território relativamente próximo, podendo as presenças próximas (adultos que acompanhavam as crianças e os jovens) serem agricultores, operários, trabalhadores sociais, filósofos; em suma, pessoas que não precisavam ser especializadas, pois não era o caso de um tratamento, mas, sim, de como viver com essas crianças e jovens e de como tornar o lugar habitável a eles e com eles. Esse é um ponto importante, pois Deligny procurava se distanciar de toda a ideia de “reabilitação”, “adaptação”, “cura”, como podemos já notar em pelo menos uma de suas empreitadas antes de Cévennes (Deligny, 2018b). No entanto, reconhecemos que a prática da rede tinha uma função terapêutica, podemos dizer clínica também, apesar de sua esquiva desse campo.
Durante o período em Cévennes, Deligny trocou correspondências com muita gente, incluindo alguns psicanalistas, como Jacques Nassif, Josée Manenti, Mario Cifali, Franck Chaumon, Jacqueline Lanouzière, Roger Dadoun, François Gantheret e Marie Bonnafé, além de Félix Guattari, Louis Althusser, Maud Mannoni e Françoise Dolto9 (Deligny, 2018a). Nessas cartas estão presentes assuntos quanto a crianças que passavam períodos na rede, à Psicanálise, a ideias sobre política, sobre escrita, mas aqui não temos como analisá-las. O importante é demonstrar a troca que havia entre nosso autor e psicanalistas, apesar de que até hoje, sabendo que Deligny e Lacan nunca chegaram a se encontrar, ignora-se se Lacan tomou conhecimento dos textos de Deligny, como pontua Alvarez de Toledo numa nota de rodapé em uma das cartas de Deligny10 (Deligny, 2018a, p. 318).
Perpassado isso tudo, é possível notar um impacto paradoxal entre ele e os psicanalistas, e de como num distanciamento das ideias desse campo conseguiu criar, ou melhor, descrear,11 “que pode querer dizer esquivar as crenças, sobretudo as mais difundidas, ou criar algo distinto daquilo que tem lugar” (Deligny, 2015a, p. 165). É essa ressonância ruidosa da Psicanálise em Fernand Deligny que nos interessa, ao pensar que há uma aproximação distante da parte dele e uma distância inquietante quanto àquela.
Encontrando a Psicanálise em Deligny: um passeio pelo “O aracniano”
O ensaio “O aracniano”, escrito no período de 1981-1982 e publicado após a morte de Deligny, oferece-nos um relato e reflexão acerca da rede em Cévennes, com algumas anedotas autobiográficas e escrito em aforismos. Priorizaremos as questões que nos ajudam a apresentar sumariamente o tom, digamos, de sua prática e escrita, focando no lugar que a Psicanálise o ocupa.
Deligny (2015c), logo no início, coloca que “a rede é um modo de ser” e que “tem por projeto a presença próxima de crianças autistas” (Deligny, 2015c, p. 15). Esse projeto, segundo ele, talvez fosse um pretexto para o que realmente importava, a rede em si. Projeto que ele coloca ao lado da figura da aranha, “mas será possível dizer que a aranha tem o projeto de tecer sua teia? Não creio. Melhor dizer que a teia tem o projeto de ser tecida” (Deligny, 2015c, p. 16). Desde então, é do aracniano que ele trata, que serve para evocar a figura do humano e do autista, figuras que conservam uma certa distância em relação à palavra, à consciência, ao inconsciente e a toda intencionalidade. Assim, é a dimensão do fora que toma importância, a “rede cria uma espécie de fora que permite ao humano sobreviver” (Deligny, 2015c, p. 18), e essa é uma das dimensões constantes e necessárias à sua existência. É preciso ter clareza de que Deligny evita a saturação das exigências do ser consciente de ser e do homem-que-somos, perante os modos como a consciência é refratária, a-consciente. Voltando à rede, Deligny (2015c, p. 20) assevera:
Se uma rede era assim tramada, tratava-se de capturar o quê? Tratava-se de usar as ocasiões e, além disso, o acaso – isto é, as ocasiões que ainda não existiam, mas que em ocasiões se transformariam pelo uso que faríamos da “coisa” encontrada.
Uma pesca assim, que cria coisas onde não existia nada, requer uma rede cujo esquema dificilmente – isso seria de espantar – se faz ao acaso.
Aqui, vê-se a importância que dá à dimensão do acaso, provavelmente numa tentativa de esquivar ao que ele chama de projeto pensado, associado ao querer e ao fazer. O acaso, tornado ocasião posteriormente, está vinculado ao vagar, “infinitivo que não requer complemento” (Deligny, 2015c, p. 20), e a partir daí começa a aparecer no texto a estratégia de escrita de Deligny de usar infinitivos “para adaptar metaforicamente a linguagem à não-linguagem do autismo, e o sujeito falante ao modo de ser do autista12” (Alvarez de Toledo, 2007d, p. 680, tradução nossa). Com isso, desviemos rapidamente a um trecho de uma entrevista que nosso autor concedeu a Isaac Joseph em maio de 1975, na qual ele diz que “a Psicanálise desconhece os infinitivos; ela se ocupa da pessoa instituída. A Psicanálise se ocupa e se preocupa da pessoa conjugável para não dizer conjugal, ao passo que nós somos fabricados de verbos ao infinitivo13” (Deligny, 2007, p. 932, tradução nossa). Esses verbos o permitiam desviar do pronome reflexivo, que não serviria às crianças autistas, já que estas seriam refratárias à condição de Sujeito e estariam mais próximas dos verbos impessoais, sem sujeito. Então, passou a falar “com frequência do infinitivo [...] visto que não há sujeito para arrematar” (Deligny, 2015c, p. 109) e, assim, cria e se utiliza de uma série de verbos, como traçar, agir, camerar, entre outros.
Voltemos ao texto em questão. Os primeiros ecos psicanalíticos começam a soar, vinculados à ideia do inato.
O homem é feito de tal modo que a galáxia do intencional consciente ou inconsciente, no sentido freudiano da palavra, oculta aquelas outras galáxias que teriam direito ao termo de inatas, algo com o que o ser consciente de ser só conseguiria comover-se em detrimento da importância predominante que ele atribui a esse querer no qual deposita todas as suas esperanças. (Deligny, 2015c, p. 21).
Já podemos esboçar que o homem, em Deligny (2015c), aparece como essa imagem que faz sucumbir, “oculta”, outros modos de ser, “outras galáxias”, que pertenceriam a outra ordem não capturada pelo “querer”, “que não passa de função de si” (Deligny, 2015c, p. 59), dotado de intencionalidade e consciência. Em contraposição a essa imagem, evoca o aracniano como “uma estrutura, embora essa palavra tenha sido recentemente monopolizada, assim como inconsciente o foi” (Deligny, 2015c, p. 22), quase sempre associado à rede. O fazer implica uma finalidade pensada, direcionada a algo, fazer para alguma coisa, e está associado ao projeto pensado, que seria uma aplicação desse fazer. Um projeto implica num objetivo, tem uma finalidade – apesar de Deligny usar essa palavra no começo do texto para caracterizar sua rede, logo demonstra que não é bem isso que quer dizer. É preciso tomar distância do fazer e do projeto para que a rede se trame e o aracniano (ou as crianças autistas) sobreviva como tal, sem ser semelhantizado (assimilado) ao homem.
Se o projeto é claro, nítido e preciso, em outras palavras, se o fazer predomina, trata-se de um esforço premeditado, e é bem possível que o aracniano então desapareça – quebrado, esburacado, despedaçado.
A rede não é um fazer; é desprovida de todo para; todo excesso de para reduz a rede a farrapos no exato momento em que a sobrecarga do projeto é nela depositada. (Deligny, 2015c, p. 25).
Tendo colocado isso, podemos passar, com o autor, ao que ele começa a evocar acerca do humano.
[...] Era ao homem, portanto, que eu era refratário, o que me punha na necessidade de ser humano.
Como o acaso persistiu em manifestar para comigo uma espécie de mansidão, acabei nomeadamente responsável por uma rede em que crianças ditas autistas vinham viver, daí a necessidade de eu me perguntar o que humano quer dizer, sendo a resposta: nada. Humano é o nome de uma espécie, tendo a espécie desaparecido daquilo pelo quê o homem se toma. (Deligny, 2015c, pp. 27-28, grifos nossos).
Atentemo-nos à citação: de início, uma diferença entre homem e humano; das crianças autistas chega-se ao tema do que seria o humano, que seria nada, de algum modo, desviando de concepções essencialistas (apesar de evocar o inato, o imutável, o humano de natureza, como veremos mais tarde), mas também daquelas ligadas ao pressuposto de que o humano seria marcado pela linguagem e pelo símbolo, numa diferenciação precisa com o animal; então, define que humano seria uma espécie, extinta pelo que o homem fez dela, pelo modo como este se toma, se concebe. Vemos alinhados humano, autista e espécie, de um lado, e o homem, do outro. Em vez de se manter, como muitos, inclusive psicanalistas, em um pensamento que concebe uma descontinuidade e ruptura bem-marcada entre animal e humano (a partir da linguagem e faculdades simbólicas), expande os termos para a dessemelhança entre humano homem, parecendo apontar algo próximo a uma “continuidade descontínua”.
Seguindo o texto, Deligny (2015c) começa a avançar na questão do inato e coloca alguns pontos interessantes à nossa discussão.
Nas últimas linhas de Architecture animale, Karl von Frisch volta ao mistério: “O problema dos elos entre o homem e o animal é de infinita complexidade [...]. O autor, por sua vez, [...] está convencido de que sempre suscitará, nesse âmbito, uma parcela de inexplicável, de insondável, de mistério, diante da qual devemos nos inclinar com respeito e humildade”.
[...] Existe o nível superior do projeto pensado e existe aquilo que o inato é capaz. Os elos? Haveria ao menos um: estar disposto a perceber que o inato humano existe e persiste, depois de ultrapassado o momento do mamar; persiste ou persistiria, se... (Deligny, 2015c, p. 43).
Então, diante da problemática acerca das espécies, ele insiste na consideração pela parte inata do humano, que persiste em alguns e que persistiria em outros “se...”. Fiquemos com o “mistério” do elo entre o homem e o animal, assim como entre o humano e o homem, “com respeito e humildade”. O respeito a que se refere Deligny (2015c) remete a algo que ele coloca mais ao fim do ensaio, ao escrever sobre a importância de que “respeitar o ser autista não é respeitar o ser que ele seria na condição de outro” (Deligny, 2015c, p. 109), ou seja, na condição de homem. Eis o que ele nomeia como semelhantização, essa atitude de supor o humano à imagem do homem-que-somos, este que é resultado de uma longa domesticação simbólica.
A continuação da citação anterior nos chama ainda mais atenção:
A humildade a que Von Frisch se refere [...] encontraria de saída um emprego mais útil do que impelir-nos à reverência: não situar o projeto pensado num nível superior, a pretexto de que ele é a estrutura, o esqueleto de “nosso” modo de pensar, estrutura essa cujos efeitos nos fascinam, e nos fascinam mais ainda porque, quanto a nós, o inato que nos impeliria se... é reduzido ao estado de sobrevivência e, portanto, mesclado a características de nosso comportamento tais como a agressividade ou a sexualidade, que, curiosamente, não aparecem quando se trata de sociabilidade, afabilidade ou capacidades artísticas. A bem dizer, o instinto nos constrange, assim como pessoas de certa casta podiam ficar constrangidas com seus antepassados de baixa extração; como sempre, a questão do “nível”. Foi preciso que o homem-que-somos chegasse a extrair-se de sua ganga animal. Mas que estranha visão das coisas e dos seres, sejam eles de espécie animal, sejam eles de espécie humana; e por que o ocorrido depois seria superior ao ocorrido antes? [...] E quanto aos homens que somos, se não houvessem os inferiores, como poderia haver os superiores? (Deligny, 2015c, p. 43).
Aqui, Deligny (2015c) questiona a imagem do homem (“projeto pensado”) como estrutura única, modelo de humanidade, que emana superioridade em relação a outras espécies (outros modos de ser), deixando o inato, o instinto, marcado por uma inferioridade expressa por agressividade ou sexualidade (numa bem possível referência a Freud) e questiona o porquê do instinto se expressar por tais características e não por outras. Por exemplo, por que a agressividade seria inata e não o brincar? Pensando nos (e vivendo com) autistas, Deligny se coloca questões do que seria a espécie humana. Enfim, ele se questiona sobre por que o instinto aparece como algo que tem de ser afastado, que “constrange” um certo modelo de civilidade, feito efetuado pelo ser consciente de ser, afastando de si sua parte impura, não desejável.
Um trecho da carta de Freud a Albert Einstein (conhecida sob o título “Por que a Guerra”, de 1933) é citado por Deligny (2015c),14 que logo faz um comentário provocativo:
“O humano não pode se furtar à desigualdade, que é parte integrante do inato e o divide em líderes e liderados...”
Eis o entorno designado como promotor da desigualdade: “Os liderados são a grande maioria, precisam de uma autoridade que tome as decisões por eles, decisões estas que, de modo geral, eles aceitam incondicionalmente”.
[...]
O inato? Freud sabe muito bem de que se trata; aliás, sempre houve dominantes e dominados; portanto, certamente existe aí algo de inato. (p. 61).
[...]
Se nos fiarmos, porém, em Freud ou Kant – e quantos outros –, a violência é natural, e o querer está todo infiltrado do inato que impele alguns a dominar e leva a maioria dos outros a ser dominada incondicionalmente; só resta a cada um detectar se nasceu na pele de um dominado ou na pele de um dominador; (p. 64).
Deligny (2015c) usa essa argumentação para tratar acerca do não querer e da não violência, colocando-se a distância de Freud, Kant e outros, segundo o modo como os toma. Ele escreve que “o inato não está no querer, mas noutro lugar” (Deligny, 2015c, p. 65), o que podemos pensar no deslocamento de posições em que o querer do homem é que se constituiria como uma violência, e não o inato, como ele concebe na citação anterior. Deligny (2015c) tomou Freud para se contrapor à ideia de que “a violência é natural”, deslocando-a do inato e jogando-a ao homem, no qual o inato já não reina, mas o simbólico. Deligny (2015c) alonga a reflexão sobre o não querer, contestando a interpretação (psicanalítica?) como uma violação quando posta como modo de querer pelo outro, quando preenche o resto, o refratário à compreensão, numa saturação de sentido, ainda mais àqueles para quem nossa linguagem é mais um elemento e não “o” elemento, entre tantos.
Foi-nos necessário abordar certa prática do não querer, nem que fosse por respeito ao que aparecia como uma evidência: que todo querer era um forçar, no sentido de que querer no lugar do outro, pelo modo da interpretação, é uma violação, assim como é uma violação pensar no lugar de – colocando-se no lugar, tomando o lugar, ocupando – uma aranha ou uma tartaruga ou tudo o que se quiser para quem nossa linguagem não é mais que um ruído entre os ruídos. (Deligny, 2015c, p. 82).
[...]
E assim é com o ser autista, algumas vezes tachado de surdo mental, quando ele simplesmente não seleciona os mesmos ruídos que nós. (Deligny, 2015c, p. 103).
O inato apresentado por Deligny (2015c) – que não é sinônimo de “estático” e está relacionado à espécie, que é caracterizada por um comum entre tudo o que vive – nos coloca a questão de porque é preciso que, em todo direito (menciona a carta dos direitos humanos, que estaria mais para “direitos do homem”), surja a necessidade de separar o homem da espécie. Isso emboca na caracterização do inato, “o conjunto de comportamentos específicos” (Deligny, 2015c, p. 93), como “em intenso movimento, conforme as circunstâncias” (Deligny, 2015c, p. 82), e assim também se relaciona o agir, que, diferentemente do fazer, é para nada, “agir é sem finalidade” (Deligny, 2015c, p. 47), modo de ser da rede e dos autistas. Deligny trata do imutável como uma das características do aracniano, no entanto, esse imutável “é dotado de uma maleabilidade, de uma destreza, de uma virtuosidade” (Deligny, 2015c, p. 94). São concepções estranhamente curiosas que ele desenvolve em torno do inato, do imutável, da espécie, que se entrelaçam e que não nos estenderemos aqui.
Chegando ao fim do ensaio, Deligny (2015c) coloca mais diretamente que de acordo com um pensamento mais vigente “a ordem simbólica é própria do humano, ao passo que, para mim [Deligny], é suficiente dizer que a ordem simbólica estrutura o homem-que-somos”, restando, aí, “o humano dotado de maneira inata para o modo de ser em rede” (Deligny, 2015c, p. 104), que não é da ordem simbólica, “e o humano aparece então como aquilo que resta – um tanto em farrapos – do aracniano atravessado por essa espécie de meteorito cego que é a consciência” (Deligny, 2015c, p. 94).
Assim, o termo indivíduo fica ligado ao humano, aracniano, autista, já sujeito se mantém em ligação com o homem, a ordem simbólica, e, como veremos depois, ao dentro. É interessante notar como Deligny, quando se refere a Freud, vai a pontos diferentes àqueles quando se refere a Lacan (e aos lacanianos). Naquele, como vimos, surge a questão do inato, do instinto, do inconsciente; já neste a questão gira em torno dos autistas em relação à linguagem, ao real, simbólico, ao fora e ao dentro. Mas, como pano de fundo, nos textos que lidamos aqui podemos ouvir as “zoadas” da Psicanálise.
“E se o real [...] E se a linguagem...”
Os sons dos ruídos ressoam também em outros textos, acerca de questões parecidas, mas não iguais e com outro tom. Agora nos deteremos em momentos em que Fernand Deligny discute mais diretamente com Lacan e os lacanianos, ou melhor, com a Psicanálise como ele a tomava, utilizando algumas palavras do vocabulário psicanalítico francês à tona na época.
Numa carta a Louis Althusser em 7 de agosto de 1976, há uma passagem que nos faz atentar à sua posição quanto à questão da diferença entre humano e homem. Ele se coloca no campo de investigação do humano, de um lado, e, de outro, a Psicanálise como investigação do homem, apesar de que o que ela caracteriza como humano ele chama de homem. “Freud parte à descoberta do humano e é o homem que ele descobre. O que já não é mau. Certamente, mas então é preciso falar do homem, não do humano. Não se deve batizar “humano” isso que é (apenas) da ordem da hominização”15 (Deligny, 2018a, p. 559, tradução nossa).
O que é da ordem do homem está no campo das palavras em S (Sujeito, Simbólico, Signo, Sexualidade), “que são ‘do âmbito’ do sujeito falante-falado” (Deligny, 2015b, p. 129), e dos pronomes ELE (IL) e SE (ON).16 Já as palavras em N (NÓS – NOUS) estão no campo do humano, da rede, da linguagem vacante. Esse Nós não é o mesmo que o conjunto de presenças próximas (“nós”), que juntas formariam um conjunto; na verdade, evoca um único indivíduo indivisível, um único corpo comum.17 Indivisível porque os modos de ser fora da linguagem não se constituem como um sujeito repartido, com consciência e diferenciação nítida entre os objetos (por isso Deligny evoca as “coisas” em vez de “objetos”). O grande Nós no lugar do grande Outro (Krtolica & Sibertin-Blanc, 2019).
No texto “Esse ver e o olhar-se ou O elefante no seminário” (1976), discute diretamente com Lacan, cita trechos do Seminário 1 (1953-1954), toma o termo real como simples oposição ao simbólico e faz suas pontuações quanto aos autistas e à linguagem. Nesse momento, os mapas18 realizados na Rede são muito sistemáticos, o que se torna um dos motivos ao fim dessa prática, e o mapa apresentado por Deligny nesse texto está mais próximo dos grafos de Lacan do que de uma transcrição dos percursos pelo território (Alvarez de Toledo, 2001).
A primeira parte do título já indica diferenças entre o ponto de vista do sujeito e o ponto de ver (o terceiro olho) dos autistas, há uma homofonia, na língua francesa, entre “Esse ver” [Ce voir] e “Olhar-se” [Se voir], aquele caracterizado pela ausência do S(e), mais próximo ao C(omum), mais próximo ao “zoiar” (Deligny, 2015a, p. 161), esse modo de ver sem olhar. O restante do título faz referência à capa do mencionado Seminário de Lacan, em que há um elefante, e Deligny (2015b) evoca uma passagem na qual Lacan diz:
Reflitam um instantinho sobre o real. [...] Só com a palavra elefante e a maneira pela qual os homens a usam, acontecem, aos elefantes, coisas [...] de qualquer maneira, catastróficas [...]. Aliás, é claro, basta que eu fale deles, não há necessidade de que estejam aqui, para que estejam aqui, graças à palavra elefante, e mais reais do que os indivíduos – elefantes contingentes. (Lacan, 2014, citado por Deligny, 2015b, p. 130).
E aqui nosso autor reflete sobre o caráter predominante da palavra, que é capaz de simbolizar a ausência (coisa que os autistas não conseguiriam), envolvida pelo simbólico, e que deixa de lado o real (o “fora”, a “natureza”, nos termos de Deligny). Deligny acompanha Lacan quanto ao caráter mortificador intrínseco à linguagem, no qual o símbolo se manifesta como resultado da morte da coisa, do real (Miguel, 2016), concebido como representação, ou seja, palavra/símbolo como presença de uma ausência. Nesse sentido, vê os autistas nesse fora e alerta para o perigo de nosso olhar sempre pressupor o sujeito, então seria preciso “mudar o alcance do nosso olhar, visto que lidamos com crianças que vivem a vacância (na vacância) do S, que consiste naquilo por meio de que o que se hominiza se distingue do real” (Deligny, 2015b, p. 133). A hominização (semelhante à socialização, entendida como passagem da natureza à cultura, digamos) negou fogo à criança autista.
Eis que, diante da celebração da linguagem e do abandono celebrante do real, ele indaga:
E se o real – aquilo por meio de que nós o somos, elefantes, mas sem termos a menor noção disso – não fosse esse caos pavoroso que acena como uma ameaça, um terror diante do qual os chocalhos da linguagem evocam a única salvação – eterna; e se a linguagem estivesse pouco ligando para “nós”, e não apenas ligando pouco, mas, pior que isso, pretendesse mesmo manter do outro lado do limiar tudo o que pertence à natureza? (Deligny, 2015b, p. 133, grifos nossos).
Assim, em meio às rejeições de uma natureza humana, Deligny evoca, de modo específico, o humano de natureza, que se assemelha ao que é humano, imutável, apesar de ter um “horror ao marasmo, estando bem entendido que aí existe de fato uma contradição latente entre o que se poderia qualificar de certa avidez do reiterado idêntico e um insaciável apetite do ‘novo’ [...] [que] só pode vir das circunstâncias” (Deligny, 2015b, p. 135), ou seja, de um meio que acolha os agires. Esse imutável não existe só na natureza, no inato, mas também na imagem do homem, que é hipoteticamente a mesma para todos. Assim, teríamos duas imagens do imutável e podemos nos perguntar se o que Deligny está questionando não seriam essas imagens, tanto do homem quanto do humano, que, existindo, conduziriam sempre ao mesmo lugar, seja pensando o inato como algo que não pode mudar, seja pensando o homem como imagem de um único modo de ser supostamente universal. Essa seria a violência da semelhantização.
É aí que o topos – lugar do resto (o que é refratário à compreensão), lugar do humano encarnado pelas áreas de estar – vem para desafogar essas crianças da pressuposição do SE. Ao contrário do inconsciente, que, segundo Deligny ouviu dizer, não tem lugar, o topos tem um lugar, não psíquico, mas concreto. Nosso autor cria um exemplo de um patinho que, provido de maneira inata de um nadar latente, precisa da água (do entorno, do meio) para nadar. Se não houver água – topos – o agir não tem lugar. Assim como para o pato essa água não é um objeto (completamente exterior a ele), é algo de real, o é também às crianças, em que esse agires afloram a cada dia, “sem sujeito, nem projeto, e sem objeto”19 (Deligny, 2015a, p. 164). É como se o topos fosse o dentro do fora, mas “um dentro aí que não está incluído no universo em que o símbolo opera” (Deligny, 2015f p. 247), e sim que permite o humano sobreviver, um dentro que mantém o fora (o real, o autista) acolhido.
Com isso, podemos perceber a importância que o autor dá às circunstâncias, ao meio circundante e ao que ele é capaz de germinar no humano. Assim, Deligny (2015b; 2015f) destaca dois infinitivos primordiais, o agir e o referenciar,20 e marca a palavra referência (repère) como uma das palavras-mestre da rede. Essa discussão traz à tona o que ele chama de aparelho a referenciar (appareil à repérer), comum às crianças autistas, à estrutura do NÓS, para contrapor ao aparelho a nomear21 (appareil à langage), localizado na predominância do S (Se, Subjetivo, Sujeito). Esse referenciar diz respeito à forma de funcionamento calcada na localização de pontos de referência no espaço, é um ver-rever-prever que está em jogo. O exemplo que Deligny (2015f) dá ilustra bem como a desorganização dessa ordem pode afligir as crianças autistas. Então, no vai e vem das estadas destas na Rede, muitas delas passam longos trajetos de carro, de casa até Cévennes. Numa primeira ida, constituía um trajeto e, muitas vezes, quando voltavam para suas casas e depois retornavam à rede uma aflição as tomava. Os pais imaginavam que a causa da aflição estava
[...] na intenção da criança, em seu não querer sair de casa, não querer afastar-se dos pais, ou em seu susto antecipado diante desse alhures aonde faziam voltar.
Mas o que se verificou, e praticamente a cada vez – e a cada vez a criança não era a mesma –, foi que o carro não havia feito um trajeto exatamente idêntico ao da primeira viagem. A partir do primeiro trajeto abandonado, por causa de congestionamento na estrada ou por algum outro desvio, ou para iniciar outro percurso, a aflição explodiu. (Deligny, 2015f, p. 231).
De qualquer modo, Deligny (2015f) alerta que isso não significa que é preciso fazer sempre o mesmo trajeto, apesar de não saber o que é preciso fazer, mas sustenta que romper com uma compreensão abusiva é o início de um posicionamento mais valioso para lidar com essas situações. O incômodo por essa compreensão abusiva (em seu sentido de semelhantização) é sempre reiterado por Deligny22 e “é um dos motivos de seu rechaço pela Psicanálise em sua forma vulgarizada23 (Alvarez de Toledo, 2009, p. 9, grifos e tradução nossos). Assim, também figura sua posição de manter certa distância quanto às crianças para não sufocar e fazer sobrepor um modo de ser em relação a outro.24 Há sempre o real a não ser compreendido, o que resta refratário a todo preenchimento, ou pelo menos é o que conclama nosso autor, com sua suspeita diante do efeito das nomeações (das estrelas, por exemplo, que provocam fixação delas para o homem SE situar), invocando o efeito de remoção do real efetuado pela linguagem.
Apesar de todas essas diferenciações, seria um equívoco deixarmos a impressão de que o humano e o homem estão em ordens completamente diferentes, seria utópico pensar que esses modos de ser que escapam “à tirania do simbólico” não estão em nós, “lá onde habita o inato, sob a marca do indivíduo”, no homem-que-somos esse inato “se atrofiou tanto que pode ser dado por desaparecido” (Deligny, 2015c, p. 108). O autista “não é o autismo em pessoa [...], algum de nós pode ficar inconsciente, nem que seja por ter levado um soco na cara, o que não quer dizer que ele seja o inconsciente em pessoa”, é ao “aspecto autista do ser humano” que ele se refere (Deligny, 2015e, p. 202). Deligny vai e volta sobre os termos que utiliza, apesar de não definir totalmente as coisas que escreve, o que nos deixa uma abertura para pensar e para exercitar reflexões sobre o que foi colocado.
Com todos esses elementos em campo, temos à disposição algumas noções que compunham a prática da rede em Cévennes, situados no território em que Deligny viveu e no espaço em que o foi possível continuar suas investigações. Podemos pensar que, como nosso escritor proclamava a rede como topos às crianças e jovens que lá estavam, elas também foram topos à sua escrita. Neste trabalho, ao pensar a Psicanálise em Deligny, inserimo-nos nessa tentativa de fazer emergir fecundas concepções a partir do encontro entre essas duas figuras aqui tratadas, com seus ruídos, palavras e reverberações entre si.
Considerações finais
A intenção deste trabalho foi refletir e colocar alguns pontos que podem – e puderam – ser tecidos no encontro entre Fernand Deligny e a Psicanálise, assim como apresentar o “espírito deligniano” a partir de suas palavras. Dessa forma, esperamos ter contribuído às investigações em torno desse debate.
Trazer as suas palavras nos foi de enorme importância, pois não se trata apenas de “ideias” ou “conceitos”, ele não se propôs a construir um sistema teórico em uma determinada área do conhecimento. O lugar de suas reflexões era a própria escrita, por isso nossa insistência em citá-lo, para suscitar a necessidade de Deligny no cuidado com a linguagem ao lidar com os modos de ser fora da linguagem.
Consideramos que os próximos passos deste trabalho possam ser uma discussão mais detalhada a partir dos textos de Lacan e Freud, com o propósito de estabelecer um diálogo com suas palavras e as de Deligny. Além destes, pensamos numa outra possiblidade, a de trazer à cena mais diretamente outros psicanalistas que trabalharam e deram importância teórico-clínica à questão do meio circundante, do ambiente, como Sándor Ferenczi, Donald W. Winnicott e Harold Searles, para mencionar alguns. Porém, fora esses possíveis desdobramentos, pensamos que talvez possa ser mais frutífero identificar e investigar os contatos mais concretos que Deligny estabeleceu com psicanalistas e com a prática de cuidado em outras instituições.
De qualquer modo, psicanalistas, principalmente desde a publicação de Œuvres (L’Arachnéen, 2007), vêm lendo a obra de Fernand Deligny, participando de debates, escrevendo e publicando25 textos que abordam o trabalho desse autor. Acreditamos ser de suma importância acompanharmos esse movimento de recepção e apropriação, não só por parte de psicanalistas, mas também de estudiosos que proponham uma discussão que envolva esses laços, para trabalharmos o que das reflexões de Deligny pode germinar na práxis analítica.
Além disso, acreditamos que é de suma importância inserir a tentativa de Deligny da rede em Cévennes no contexto das modificações de modelos e práticas institucionais (no campo da saúde mental) e das empreitadas de desinstitucionalização ao redor do mundo durante a segunda metade do século XX, principalmente relacionadas ao contexto francês da Psicoterapia Institucional e de instituições inspiradas pelo referencial psicanalítico.
Por fim, a imagem – tema caro a Deligny – que propusemos não se pretende total, mas fiquemos com ela para lidar com as ressonâncias do que pudemos alcançar desse ver.














