Dunker, C., Maia, H., & Manoel, J. (Orgs.). (2022). Marxismo, Psicanálise e revolução. São Paulo: LavraPalavra.
“Marxismo, Psicanálise e Revolução” é um livro publicado em 2022 pela editorial Lavra Palavra, organizado por Christian Dunker; Heribaldo Maia e Jones Manoel e conta com textos de Dalila Freitas, Daniel Figueiredo, Gustavo Gaiofato, Filipe Campello, Raoni Machado e Thessa Guimarães. O livro apresenta como eixo central a articulação entre Marxismo e Psicanálise unidos – sem desconsiderar suas contradições – pelo horizonte comum da revolução.
O primeiro capítulo do livro consiste na transcrição de um episódio do podcast Revolushow, homônimo ao livro e que contou com a participação de Jones Manoel, Heribaldo Maia, Christian Dunker e Zamiliano. O tom descontraído com o qual o programa é a princípio apresentado não retira a profundidade e pertinência das críticas e questões levantadas; entre as quais algumas nos chamam especialmente atenção: a questão do sujeito que goza com seu sintoma; o fetiche social pela derrota, isto é, a fetichização do sofrimento e a dificuldade de recuperação da capacidade de imaginação política. Isso porque essas são questões atuais que perpassam a maneira de se articular os laços sociais no Brasil – quiçá no mundo –, inclusive aqueles formados a partir da militância.
O segundo artigo da obra apresenta, em um tom mais formal, mas extremamente acessível, um debate em torno da clínica do sujeito e do social. Escrito por Daniel Figueiredo, aborda o tema desde o debate teórico, elucidando os efeitos clínicos do social, isto é, a relação entre as condições sociais e determinada formação sintomática de uma sociedade, para, por fim, trazer um importante debate crítico sobre a clínica do social. Um ponto importantíssimo abordado por Figueiredo é o reconhecimento de que a clínica do social não consegue resolver contradições que são essencialmente estruturais e que a estrutura promove formas de despersonalização que compõem o contexto social no qual os sujeitos estão inseridos, de modo que é imprescindível o olhar direcionado ao social para todos aqueles que se propõem a fazer uma clínica do sujeito mais justa. A partir da elaboração apresentada pelo autor, evidenciamos a necessidade de um trabalho atento e crítico que reconheça justamente os limites e expectativas irreais que rondam a clínica.
“Para além de mitos e fantasias: amefricanidade, corpos-território e potência revolucionária”, intitula o artigo de Dalila Viana de Freitas e consiste em um dos artigos mais convocativos apresentados no livro. Freitas aborda, a partir do percurso de Lélia Gonzalez, algumas das contradições presentes em nossa história e se questiona a que essas contradições visam, convocando-nos a pensar o mito da democracia racial de outra perspectiva, dito de outra forma, a da população negra, em especial da mulher negra. A autora afirma ainda que o racismo como sintoma é capaz de apagar nossas origens africanas e que, quando aliado ao sexismo, observamos sua máxima expressão. Para ela, a potência revolucionária passa necessariamente pelo reconhecimento do corpo como corpo-território, portanto, corpos ladinos-amefricanos, na medida em que esses corpos cientes da origem comum de suas feridas históricas se apresentam como espaço de circulação de afeto.
O artigo de Thessa Guimarães e Raoni Machado M. Jardim debate um tema complexo e delicado a respeito das estruturas sociais e dos discursos que produzem e que concomitantemente as legitimam. Os autores apontam para a importância de um debate vindo do exterior da Psicanálise e a atualização desta, dado que é no atrito dialético que se dá o movimento. E trazem um debate central ao campo, qual seja, o inconsciente como política, a partir do reconhecimento do neoliberalismo como forma de colonizar desejos, modelo econômico que naturaliza a subalternização crônica e o sofrimento consequente. Horizonte crítico dessa articulação, seria a Psicanálise, posto que esta se apresenta como ferramenta dialética para pensar os processos humanos inconscientes e o tratamento de seus efeitos. Isso somente quando a psicanálise reformula sua tarefa social na direção da urgência histórica.
Em sequência, Dunker apresenta seu breve e importante texto “Oniropolítica e revolução”, que traz três dificuldade centrais para pensar a Psicanálise e seu lugar no mundo. Em primeiro lugar caberia revisitar as relações de comunidade e sociedade, criticando a noção de identificação; em segundo, questionar o lugar do complexo de Édipo; e, por fim, em terceiro lugar o enfrentamento da segregação, apontando-nos um caminho para pensarmos novos futuros por meio da oniropolítica como forma de dar figura ao desejo.
Assumindo uma tonalidade mais política, o artigo de Jones Manoel nos oferece ferramentas para pensar os modos sintomáticos de contrarrevolução de nossa época, modos esses que passariam necessariamente pela mobilização de afetos, entre os quais o medo, para gestão da derrota. O capítulo aponta brevemente as incongruências ideológicas do momento histórico atual, que reabre a possibilidade de debate sobre a estratégia socialista, abrindo também a possibilidade para o medo reinar absoluto. Jones propõe que consigamos, a princípio, elevar o nível das perguntas, buscando, só a posteriori, as respostas congruentes com um projeto político que abarque as pautas populares.
Mantendo os rumos do diálogo proposto pelo artigo de Jones, Campello nos apresenta as ambivalências entre a Psicanálise e a teoria social, isso porque mantém a linha de questionar a Psicanálise a partir de uma epistemologia externa, a da Sociologia. O autor se questiona essencialmente sobre o uso da Psicanálise no âmbito de uma análise social, pontuando que para a teoria crítica a articulação entre sujeito e sociedade consistiria no eixo central. O artigo gira em torno de quatro eixos, passando por autores como Freud, Adorno, Honneth e Lacan na tentativa de distinguir três níveis de sofrimento marcando uma delimitação entre Psicanálise e teoria social. Debate importante que propõe reconhecer os limites de cada teoria e, com isso, percebendo que há algo para além desse limite que seria em si impossível de se esgotar tanto do ponto de vista da teoria crítica quanto do ponto de vista da Psicanálise.
O artigo de Heribaldo Maia trata com propriedade do diagnóstico como identidade, sendo desenvolvido em quatro eixos que promovem um debate sobre a articulação neoliberal do sofrimento e sua articulação com a produção de uma determinada subjetividade e como essa subjetividade passa pela tecnologia de controle que nomeou de psicopolítica, apontando para o fato de que nem tudo vale como reconhecimento e que, de certa forma, nos sentimos mais reconhecidos por uns que por outros. Chamando atenção para as condições do reconhecimento, quais as normas de reconhecimento estaríamos assujeitados no neoliberalismo? Quais são as formas que legitimam certas hierarquias sociais de visibilidade e invisibilidade? Entre os pontos levantados por Maia, um nos parece especialmente interessante por dizer respeito a um empuxo a certo sofrimento de indeterminação, no qual os sujeitos estariam coercitivamente livres, sendo a liberdade de ser senhor de si forma de coação. Esse modelo organiza o social a partir da relação dialética entre determinação/indeterminação, sucumbindo os sujeitos, que agora seriam mais livres ao desamparo diante da “atmosfera de indeterminação”. Em outras palavras, poderíamos ler essa operação como forma de captura neoliberal dos sujeitos empreendedores de si, a partir da qual toda forma de fracasso recai sobre os próprios sujeitos. Por fim, o artigo nos direciona à articulação entre a gramática de reconhecimento ligada às relações pela qual produzimos o relato de nosso sofrimento.
Fechando o livro, que abre muitas questões, como deve todo bom livro, Gustavo Gaiofato apresenta o artigo “As coisas brutas e refinadas: materialismo histórico e Psicanálise”, trazendo luz a um debate importante: o da inscrição simbólica e as modificações que a linguagem sofre conforme a conjuntura histórica se altera, articulando Psicanálise e materialismo, cada um com suas particularidades, como as ferramentas para que possamos pensar os processos de emancipação. Ademais, atenta para o silenciamento que opera como aniquilador dos sujeitos. Gaiofato, por fim, propõe a articulação da Psicanálise e do marxismo como recurso para subverter a Ordem e possibilitar um novo horizonte a partir da análise do presente e ressignificação das palavras que compõem nossas narrativas.
O conjunto de peso que compõe o livro Marxismo, Psicanálise e revolução, tanto no que diz respeito aos autores quanto aos debates levantados, trazem à luz a importância de pautar-se essa articulação, seja interno à Psicanálise, lugar de onde parte essencialmente minha leitura, seja ao marxismo, na atualidade. É urgente, para o horizonte revolucionário brasileiro, a articulação desses dois campos, no qual ambos ganham a partir das críticas e questionamentos vindos de campos que são, a priori, externos. Isso porque se a pauta do dia é a construção de um novo mundo, a que somos, inconscientemente, coagidos a não imaginar, é preciso entender os mecanismos por meio dos quais operam essa limitação, e isso passa, pela articulação desses campos de saber, na construção de uma nova práxis que leve em conta a realidade brasileira e seus legados históricos.












