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Analytica: Revista de Psicanálise

versión On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.12 no.23 São João del Rei jul./dic. 2023  Epub 05-Sep-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v12i23.4977 

Artigo

As chaves de Dora, as chaves do texto

Dora’s Keys, The Text Keys

Les clés de Dora, les clés du texte

Las claves de Dora, las claves del texto

Pedro Fernandez de Souza1 

1Doutorando em Filosofia da Psicanálise na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Graduado em Psicologia pela Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (USP-RP). Docente de Psicanálise no Centro Universitário da Fundação Educacional Guaxupé (Unifeg)


Resumo

Na redação do caso Dora, Freud toma as devidas precauções para não fazer de sua narrativa um Schlüsselroman (roman à clef). O termo Schlüssel (“chave”) e outras palavras do mesmo campo lexical, porém, aparecem repetidamente no texto e é possível lê-lo tomando-as como palavras-chave. Tanto no caso como no texto, nota-se uma intrincada troca de chaves: a decisão (Entschluß) de Dora pela ruptura (Abschluß) do tratamento, ou seja, sua resolução em fechar-se (verschließen) a Freud, é a própria chave (Schlüssel) que permite abrir (aufschließen) portas futuras: a chave da transferência, dada por Dora a Freud ao encerrar o tratamento.

Palavras-chave Dora; Freud; Transferência; Chave; Texto

Abstract

When writing the Dora case, Freud takes the necessary precautions not to make his narrative a Schlüsselroman (roman à clef). The term Schlüssel (“key”) and other words from the same lexical field, however, appear repeatedly in the text, and it is possible to read it by taking them as keywords. Both in the case and in the text, an intricate exchange of keys can be noted: Dora’s decision (Entschluß) to break off (Abschluß) the treatment, that is, her resolution to close herself (verschließen) to Freud, is the very key (Schlüssel) that allows opening (aufschließen) future doors: the transference key, given by Dora to Freud when she ended the treatment.

Keywords Dora; Freud; Transference; Key; Text

Résumé

En écrivant le cas Dora, Freud prend les precautions nécessaires pour ne pas faire de sa narration un Schlüsselroman (roman à clef). Cependant, le terme Schlüssel (« clé ») et d’autres mots du même champ lexical apparaissent de façon répétée dans le texte, et il est possible de le lire en les prenant comme mots-clés. Tant dans le cas que dans le texte, on peut noter un exchange intriqué de clés : la décision (Entschluß) de Dora pour la rupture (Abschluß) du traitement, c’est-à-dire, sa resolution de se fermer (verschließen) à Freud, c’est justement la clé (Schlüssel) qui permet d’ouvrir (aufschließen) des portes futures : la clé du transfert, donnée par Dora à Freud à la fin du traitement.

Mots-clés Dora; Freud; Transfert; Clé; Texte

Resumen

Al escribir el caso Dora, Freud toma las precauciones necesarias para no hacer de su narrativa un Schlüsselroman (roman à clef). El término Schlüssel (“llave”) y otras palabras del mismo campo lexical, sin embargo, aparecen repetidamente en el texto, y es posible leerlo tomándolas como palabras-clave. Tanto en el caso como en el texto, se nota un intricado cambio de claves: la decisión (Entschluß) de Dora por la ruptura (Abschluß) del tratamiento, es decir, su resolución en cerrarse (verschließen) a Freud, es la propia llave (Schlüssel) que permite abrir (aufschließen) puertas futuras: la llave de la trasferencia, dada por Dora a Freud al encerrar el tratamiento.

Palabras clave Dora; Freud; Trasferencia; Llave; Texto

Mais, si quelqu’un venoit de la part de Cassandre, Ouvre-luy tost la porte, et ne le fais attendre, Soudain entre en ma chambre et me vien accoustrer.

Je veux tant seulement à luy seul me monstrer; Au reste, si un dieu vouloit pour moi descendre Du ciel, ferme la porte, et ne le laisse entrer. (Pierre de Ronsard)

No prefácio de seu Fragmento da análise de uma histeria, de 1905 – o famoso caso Dora –, Freud faz uma série de considerações a respeito das limitações intrínsecas ao relato de caso a ser apresentado, sobretudo no que concerne à chamada “discrição médica”, que impõe certas fraturas ao texto: as pessoas envolvidas no relato não podem ser reconhecidas pelo leitor e o escritor tem de velar por esse anonimato. Isso é ainda mais difícil, argumenta Freud, no caso de uma psicanálise, por cujo método se acessam – e têm de ser acessadas – as “intimidades” (Intimitàten) de seus pacientes. É então que Freud depara-se com o que podemos denominar o “risco da literatura” para a Psicanálise:

Sei que há muitos médicos – ao menos nesta cidade – que – de maneira bastante repulsiva – querem ler uma tal história clínica [Krankengeschichte] não como uma contribuição à psicopatologia da neurose, mas sim como um roman à clef [Schlüsselroman] destinado a seu divertimento. Asseguro a essa espécie de leitores que todas as minhas histórias clínicas a serem comunicadas posteriormente serão protegidas de sua sagacidade por meio de garantias semelhantes de sigilo, embora a disponibilidade do meu material deva sofrer, por meio dessa resolução, uma limitação extraordinária. (Freud, 1905a, p. 165).

Nos Estudos sobre a histeria,Freud (1895, p. 227) dissera de seu estranhamento ante o fato de que “as histórias clínicas que eu escrevo podem ser lidas como novelas”, o que poderia lhes tirar o selo da “cientificidade”. Tanto em 1895 como em 1905, a justificativa desse caráter “romanesco” de seus relatos clínicos é posta na natureza mesma do objeto de estudo: no caso de sintomas psicogênicos, é impossível não tratar da biografia do enfermo, é impossível não adentrar nos meandros afetivos e ocultos de sua vida.

Em cada um de seus casos clínicos, Freud cuida de manter sigilosa a existência real, em carne e osso, do personagem cujos sintomas e intimidades ele narrará. Espécie de cautela lexical: entre o tratamento e o texto, é preciso que sejam apagados os rastros das pessoas reais, é preciso ocultar as chaves (Schlüssel) que permitam identificá-las. Como se sabe, um Schlüsselroman – ou roman à clef, na tradução que a tradição nos legou – é arquitetado de modo a ocultar as identidades das pessoas reais em que se baseiam seus personagens; ocultar, mas apenas parcialmente: num romance desse tipo, um leitor pleno de sagacidade pode farejar os rastros opacos deixados (de propósito) no texto, de forma a descobrir quem são, na realidade, as pessoas adulteradas na trama literária. Freud não deseja isso para suas Krankengeschichten, como vimos na primeira citação apresentada; ele se resigna a cercear a exposição do caso clínico, já se adiantando aos ardis vulpinos do leitor intrometido. “A leitura vulgar e perversa que Freud teme implicaria em procurar por ‘chaves’ em seu texto, assim como se faria em um romance”, como aponta Jane Gallop (1985, p. 206).

Neste estudo, nós faremos as vezes desse leitor importuno e caçaremos as “chaves” do texto freudiano. Como veremos (e como a própria Jane Gallop notou), não são poucas as “chaves” que nele comparecem. Procuraremos mostrar que, a despeito da recusa de Freud, o caso Dora é de fato um Schlüsselroman. Resta saber de que “chaves” se trata.

Dora, uma jovem de 18 anos, era uma histérica com sintomas ditos banais. Petite hysterie’ com os sintomas somáticos e psíquicos mais comuns: dispneia, Tussis nervosa, afonia, algo como uma enxaqueca, além de irritabilidade, insociabilidade histérica e um Taedium vitae que provavelmente não deve ser levado a sério” (Freud, 1905a, pp. 282-283).2 Esses sintomas, que Freud diz pouco atrair os leitores, são reconduzidos às relações familiares e afetivas de Dora (as suas chamadas Intimitàten): não somente o amor edípico pelo pai, mas a relação intrincada de sua família com um certo casal, o casal K. Aos poucos se desvenda uma trama adulterina e arrevesada: enquanto o pai de Dora mantinha uma “estreita amizade” com a sra. K (e Dora sabia de que natureza era essa “amizade”), Dora cuidava dos filhos do casal e era cortejada pelo sr. K. Na célebre cena do lago, o sr. K arrebata um beijo de Dora, que o repele, dá-lhe um tapa no rosto e vai-se embora. É nesse jogo entre ciúmes, desejos de vingança e amores velados que Freud entrevê a solução dos sintomas de sua paciente: Dora teria desejos (reprimidos) pelo sr. K, teria ciúmes da sra. K, teria desejos homossexuais pela sra. K (esta, a camada mais inacessível do inconsciente de Dora, que Freud diz ter-lhe aparecido apenas de relance durante a curta análise de 11 semanas de duração) e teria desejos de vingança contra todos eles: o pai, por oferecer-lhe como objeto de troca ao amor adúltero que mantinha com a sra. K, a sra. K, por tê-la traído e tratado como um objeto, delatando alguma das confidências confiadas a ela, e o sr. K, igualmente, por tê-la traído e caluniado, ao negar veracidade à cena do lago.3

Na análise de Dora, dois sonhos são centrais e ocupam cerca de 50 páginas do relato. No primeiro deles, Dora sonha que uma casa está pegando fogo; seu pai está diante da cama dela e a acorda, ao que Dora se veste depressa; sua mãe, porém, ainda quer pegar sua caixa de joias e o pai responde que não quer morrer queimado, junto com os dois filhos, por causa de uma caixa de joias; então eles correm para baixo e, estando fora de casa, Dora acorda (Freud, 1905a, p. 225). Freud interpreta esse sonho, grosso modo, como a expressão de um desejo edípico: Dora desejaria que o pai a salvasse de um perigo; no sonho, esse perigo é o fogo, elemento que, pela via das associações, conduz ao sr. K, ao seu cigarro, ao fogo da paixão e ao tema da enurese e masturbação.4 Numa das associações ao sonho, Dora se relembra de que, na tarde após o passeio no lago com o sr. K (ou seja, logo depois da cena do beijo), ela retornou à casa do casal K (onde estavam hospedados) e tirou um cochilo no quarto. Repentinamente, conta Dora, ela despertou, deparando-se com o sr. K à sua frente. Freud deduz, sob forma de pergunta, que o sr. K a despertou na realidade tal como o pai a despertou no sonho. A resposta de Dora:

Sim. Perguntei-lhe o que ele viera procurar ali. Ele respondeu que não seria impedido de entrar em seu quarto quando quisesse; além disso, ele queria pegar algo. Isso me fez tomar cuidado, e perguntei à sra. K se não existia nenhuma chave [Schlüssel] para o quarto, e na manhã seguinte [...] me tranquei [eingeschlossen] para fazer a toalete. Quando eu quis me trancar [einschließen] à tarde, para novamente me deitar no sofá, dei pela falta da chave [Schlüssel]. Estou convencida de que o sr. K a fez desaparecer. (Freud, 1905a, p. 228).

Freud responde: “esse é, portanto, o tema do trancar ou não trancar [das Thema vom Verschließen oder Nichtverschließen] o quarto, que aparece na primeira associação ao sonho e que, por acaso, também desempenhou um papel no novo ensejo para o sonho” (Freud, 1905a, p. 228).5 A esse trecho, é anexada uma nota de rodapé explicitando o sentido sexual subjacente à associação: “‘quartos’ [Zimmer], em sonhos, amiúde representam ‘mulheres’ [Frauenzimmer], e não pode ser indiferente, é claro, se uma mulher está ‘aberta’ ou ‘fechada’ [verschlossen]. Também é bem conhecido qual a ‘chave’ [Schlüssel] que abre nesse caso” (Freud, 1905a, p. 228).

Essas são as duas primeiras vezes em que uma chave (literal) aparece no texto de Freud. A conexão com o sonho é lógica: Dora queria se trancar para fazer a toalete, furtando-se ao olhar do sr. K; no sonho, é preciso fugir de um lugar fechado, onde há perigo de vida. No simbolismo usual dos sonhos, a chave para abrir um quarto-mulher (Frauenzimmer) é evidentemente o membro masculino. Esse sentido simbólico é sublinhado por Freud cerca de 30 páginas adiante, quando da discussão do segundo sonho. Nele, Dora passeava por uma cidade desconhecida e, chegando ao seu quarto, encontra uma carta de mamãe noticiando a morte de papai; em seguida, Dora sai para a rua e pergunta umas 100 vezes onde fica a estação de trem, ao que sempre lhe respondem: cinco minutos (Freud, 1905a, p. 256). Numa primeira associação ao sonho, Dora se recordou de uma caixa que ganhara de um jovem engenheiro, que lhe parecia querer cortejá-la; nessa caixa, Dora guardara um álbum de fotos que quis mostrar no dia anterior aos parentes que estavam em sua casa. Por isso, fizera a pergunta à mãe: “onde está a caixa [Schachtel]?” (Freud, 1905a, p. 258). Essa pergunta, indica-nos Freud, foi substituída no sonho pela pergunta “onde está a estação de trem?”, que foi repetida umas 100 vezes por Dora.

Em associação a esse número hiperbólico, Dora se lembra de um outro acontecimento da noite anterior: após o serão com os familiares, seu pai lhe pedira que pegasse a garrafa de conhaque e Dora “solicitou à mãe a chave [Schlüssel] do aparador, mas ela estava envolvida numa conversa e não deu nenhuma resposta” (Freud, 1905a, p. 259). Foi então que a filha exclamou, exagerando: “já te perguntei cem vezes onde está a chave [Schlüssel]” (Freud, 1905a, p. 259). É então que a chave novamente entra no jogo do abrir e fechar uma mulher, já que Schachtel (caixa) é termo pejorativo em alemão para “mulher”: “onde está a chave [Schlüssel]? me parece a contrapartida masculina da pergunta: onde está a caixa [Schachtel]? (ver o primeiro sonho [...]). Elas são, portanto, perguntas – a respeito dos genitais” (Freud, 1905a, p. 260).

A indicação ao primeiro sonho é importante: nele, a mãe quisera salvar sua caixa de joias. Como associação a isso, Dora lembra que o próprio sr. K lhe dera de presente uma caixa para guardar suas próprias joias. O perigo, no primeiro sonho, é ser morto pelas chamas ao tentar salvar essa caixa; a qual, sabemos agora, representa para Freud a genitália feminina. A pergunta pela caixa encontra uma contrapartida masculina na pergunta pela chave: ou seja, trata-se da chave para a intimidade corpórea e, em última instância, afetiva da mulher, que lhe possa abrir a caixa genital a ser salvaguardada e mantida trancada (verschließen). Dora se situa, pois, na seguinte problemática: abrir ou fechar as portas de sua intimidade (Intimität). No primeiro sonho, é o irmão quem pode ficar trancado em seu quarto (in seinem Schlafraum eingeschlossen blieb) (Freud, 1905a, p. 255), correndo risco de vida; lembremos que Dora tentou trancar-se para fazer a toalete sozinha, mas o sr. K – assim presume ela – surrupiou a chave que lhe fora dada pela sra. K. No caso do armário que continha o conhaque do pai, é a mãe quem sabe onde está a chave. As chaves para os quartos e caixas, elas estão sempre em questão: onde é que estão elas? quem as possui?6

Trancar-se no banheiro para fazer a toalete, escapando aos olhares (e às invectivas) do sr. K, ou abrir-se para ele? Eis a questão central de Dora. A chave (Schlüssel), então, assume nessa conjuntura um papel incontornável e ambíguo: a mesma chave que tranca uma porta é a chave capaz de abri-la. Uma genitália, uma caixa, um quarto, uma mulher: é preciso saber quem detém as suas chaves, é preciso saber onde estão elas para decidir se e quando as portas ficarão abertas ou fechadas.

No Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache, de Friederich Kluge (1989, p. 641), lemos que Schlüssel (“chave”) é uma forma instrumental (Instrumentalbindung) do verbo schließen. Trata-se de um importante e polissêmico verbo alemão, cujo sentido primário é “fechar, cerrar”. O próprio Kluge nos informa que o verbo tem relações etimológicas com o claudere latino, que igualmente significa “fechar”, verbo este, por sua vez, do qual derivou uma importante palavra-chave latina: clavis, que significa “chave” (Kluge, 1989, p. 639).

Schloß é palavra derivada de schließen e pode significar “fechadura” ou “castelo”. Conforme Kluge, novamente, significava primariamente apenas a fechadura, mas com o passar do tempo passou a denotar também um Burg (“castelo”), já que castelos serviam para vetar o acesso a alguma cidade, país ou uma região qualquer. Por isso, Schloß é hoje qualquer Palast (“palácio”) (Kluge, 1989, p. 640). Além de “fechar, cerrar”, contudo, o verbo schließen também tem outros significados, a depender do contexto em que é empregado. Pode significar “concluir, inferir, deduzir”, donde o derivado Schluß, “fim”, “desfecho” ou mesmo “conclusão”, no sentido cognitivo ou lógico. O verbo ainda pode ser usado para se referir ao estabelecimento de relações: die Ehe schließen é “contrair matrimônio”, Freundschaft schließen é “fazer uma amizade”, e assim por diante. Freud (1905a, p. 183) emprega o verbo nesse sentido logo no início de seu relato: o pai de Dora lhe contara “ter feito uma íntima amizade com um casal” (intime Freundschaft mit einem Ehepaar geschlossen hàtten). É como se Dora estivesse cercada, encerrada nesse círculo de relações afetivas estabelecidas pelos seus pais.

Como muitos verbos alemães, schließen tem vários derivados a partir de prefixações preposicionais. Nós vimos Freud dizer sobre das Thema vom Verschließen oder Nichtverschließen, isto é, “o tema do trancar ou não trancar”. Verschließen é quase sinônimo de einschließen: ambos significam “trancar à chave”. Foi einschließen o verbo utilizado por Dora para se referir ao seu desejo de fechar-se no quarto com a chave dada pela sra. K. Foi verschließen o verbo empregado por Freud para dizer da pergunta sobre a mulher: está aberta (offen) ou fechada (verschlossen)? Em todos esses trechos, a chave (Schlüssel) está entrevista não apenas semântica, mas também etimológica e morfologicamente. Na tradução para o português, isso inevitavelmente se perde: entre “chave”, “trancar” e “fechado”, não se vislumbra mais nenhum parentesco etimológico. É preciso recuperar os rastros que as palavras germânicas deixam durante o percurso do texto.

É famosa a interpretação dada ao “ato sintomático” de Dora, que expressava, por meio de um gesto irrefletido, desejos onanistas: a paciente traz uma bolsinha à sessão – coisa que não costuma fazer – e, enquanto fala, enfia e tira o dedo dela. Segue a interpretação: “a bolsinha bivalve de Dora não é outra coisa senão uma representação dos genitais”, e “seu brincar com ela” é uma “inconfundível comunicação pantomímica daquilo que ela gostaria de fazer com eles, da masturbação” (Freud, 1905a, pp. 239-240). Essa interpretação é amplamente conhecida pelos leitores de Freud, mas vejamos a descrição primeiramente fornecida por ele desse ato: Dora “brincava com ela [a bolsinha], enquanto falava deitada ao divã, abrindo-a, enfiando um dedo, e fechando-a [schloß] novamente, e assim por diante” (Freud, 1905a, pp. 238-239). Eis ali o verbo schließen no pretérito (schloß), eis ali a chave (Schlüssel) uma vez mais entrevista, chave esta que se perde na tradução para o português. Caso não nos atentássemos às minúcias etimológicas do texto, não coligiríamos a conexão7 entre as “chaves”, o desejo de “trancar-se no quarto” e o “ato sintomático” de Dora.

Isso é ainda mais marcante em palavras derivadas do verbo schließen cujo sentido parece estar longe do primário “fechar”. No início do tratamento, diz Freud, era difícil chamar a atenção de Dora para sua relação com o sr. K: “ela afirmava estar tudo acabado [abgeschlossen] com essa pessoa” (Freud, 1905a, p. 190). Abschließen, lemos no dicionário, pode significar não só “fechar, trancar à chave”, mas também “rematar, acabar, encerrar”. Com o tabefe desferido no rosto do sr. K, Dora julgava ter terminado tudo com ele – essa porta estaria fechada, trancada à chave com muito vigor. Nós sabemos o desfecho do tratamento de Dora: no último dia do ano, Dora comunica a Freud sua decisão (Entschluß)8 de não mais comparecer às sessões no ano vindouro. Logo no início do texto, Freud se referiu a esse rompimento abrupto com uma palavra significativa: Abschluß (“encerramento, fim, conclusão”) (Freud, 1905a, p. 165). Entre o tabefe no sr. K e o encerramento abrupto do tratamento, não se dá uma repetição apenas funcional, por assim dizer, mas também lexical: Dora repete atos, Freud repete palavras.

Com seu famoso “pôr em ato” (agieren) derradeiro, Dora repete com Freud o que fizera com o sr. K: impede que o médico adentre nas suas intimidades e encerra o tratamento à força. Pondo em execução sua decisão (Entschluß) de ruptura (Abschluß), Dora se mantém fechada (verschlossen), trancada (eingeschlossen), e usa a mesma chave (Schlüssel) com que abrira a análise para fechá-la irreparavelmente.

No posfácio ao caso clínico, Freud afirma o que recém-afirmara nos seus Três ensaios: a sexualidade está na origem dos sintomas das neuroses, e estes são a “atividade sexual dos enfermos” (Freud, 1905b, p. 63). Mas aqui, no caso Dora, há uma diferença fundamental: Freud não se limita a dizer isso, como fizera nos Três ensaios, na ordo naturalis, mas sim se valendo de uma verdadeira figura de pensamento (para usar os termos da retórica escolar).9 Que imagem é essa empregada por Freud? Muito precisamente a chave:

Os fenômenos da doença são, para dizer francamente, a atividade sexual dos doentes. Um único caso nunca será capaz de demonstrar uma tese tão geral, mas devo somente repetir de novo, pois nunca encontrei algo diferente disso, que a sexualidade é a chave [Schlüssel] para o problema das psiconeuroses e das neuroses em geral. Quem despreza essa chave jamais conseguirá abrir essa porta [aufschließen]. (Freud, 1905a, p. 278).

A tradução do verbo aufschließen é particularmente truncada, pois Freud o emprega sem seu objeto direto (por elipse, esse objeto, subentendido, é o “problema das neuroses”). Aufschließen significa “abrir com chave”, o que nos impõe de certa forma a inserção da palavra “porta” ali onde ela não existe. Como não é raro em sua escrita, Freud está jogando sutilmente com as palavras: a porta de entrada ao “problema das neuroses” deve ser aberta com uma “chave” muito específica, o conceito de sexualidade. Num caso em que as “chaves” são tão importantes e frequentes, em que “abrir”, “fechar”, “encerrar”, “rematar” estão sempre em questão, em que o campo semântico e etimológico do verbo schließen é central, Freud emprega precisamente a palavra Schlüssel e o verbo aufschließen para tratar de um dos principais problemas teóricos com que lidava na época.

No caso Dora, tudo parece ser questão de achar as chaves que possam abrir as portas que barram – e direcionam – o caminho. Está sempre em jogo quem possui a chave, está sempre em jogo o ato de dá-la, de fornecê-la ao outro para que o outro acesse um interior, uma intimidade ainda por desbravar. Nós vimos que Freud escreveu sobre a pergunta Wo ist der Schlüssel? (“onde está a chave?”) identificando-a como uma questão sobre a genitália masculina. Isso se encontra à página 260 do caso Dora. Não pode ser uma coincidência textual que duas páginas adiante ele escreva: Ich teilte ihr meine Schlüsse mit (“eu lhe [à paciente] comuniquei minhas conclusões”) (Freud, 1905a, p. 262). Schlüsse, o plural de Schluß, é praticamente uma chave abstrata: Freud comunica a Dora as chaves para a intelecção de seus sintomas. Essa não é uma atitude isolada. O que se vê no caso Dora é um analista loquaz, que não deixa de dizer à sua paciente as mais variadas hipóteses e interpretações que fizera a respeito dela.

Mas, como sabemos, apesar de tantas chaves concedidas pelo analista à paciente, o tratamento deparou com um rompimento (Abschluß) por decisão (Entschluß) da própria Dora. Freud se surpreende com tal desfecho, mas percebe retroativamente que Dora lhe dera sinais de que poderia fugir e se vingar de seu analista, tal como gostaria de fazer com o sr. K. No posfácio ao caso, Freud confessa que deveria ter chamado a atenção da paciente a esses avisos que vinham dela mesma:

Então sua atenção se teria direcionado para algum detalhe de nossa relação, em minha pessoa ou em minha situação, por trás do qual se escondia algo análogo [etwas Analoges], mas deveras importante, relativo ao sr. K, e por meio da solução dessa transferência a análise teria conquistado o acesso a novo material, provavelmente de recordações reais. Mas eu ignorei esse primeiro aviso, achei que havia bastante tempo, pois não apareceram outros níveis da transferência e o material para a análise não se esgotava. Assim fui surpreendido pela transferência, e, por causa do X em que eu lhe lembrava o sr. K, ela se vingou de mim, tal como ela queria vingar-se do sr. K, e me abandonou, tal como ela acreditou ter sido enganada e abandonada. Ela assim atuou [agierte] uma parte importante de suas memórias e fantasias, em vez de reproduzi-las no tratamento. O que era esse X, naturalmente, eu não posso sabê-lo. (Freud, 1905a, pp. 282-283).

Nossa atenção deve agora recair nesse etwas Analoges, nessa incógnita que conecta, pelas vias associativas do psiquismo de Dora, a pessoa de Freud com a pessoa do sr. K (é essa conexão – Anschluß – associativa mesma o fundamento da transferência). Freud usa a letra X, e não por acaso: trata-se de algo perdido, sem forma e sem nome, algo jamais descoberto no processo terapêutico e que escapou ao afã hermenêutico do psicanalista. A escrita de Freud deixa claro: esse X teria possibilitado o acesso a novo material, esse X era verdadeiramente uma chave para portas ainda por abrir. Essa chave, é Dora quem poderia tê-la dado a Freud. É isto, portanto, o que Freud descobre com o Abschluß que ela mesma lhe impôs: as chaves, são os pacientes que têm de oferecê-las aos seus analistas. Imerso que estava na procura pela chave universal ao problema das neuroses (a saber, a sexualidade), Freud aprendeu que a teoria é um palácio (Schloß) cujas portas se abrem com as chaves (Schlüssel) da singularidade. Ao atuar o brusco rompimento com Freud – que sabidamente espelha o rompimento com o sr. K –, Dora deu a chave da transferência ao pai da Psicanálise.

Afinal, é nesse texto que a transferência é pela primeira vez descrita por Freud com todas as letras, bem ao fim do relato clínico, como se não fosse um tema central em seu desenrolar (Freud, 1905a, pp. 279-280). Aliás, antes desse famoso parágrafo do posfácio ao caso, é somente numa nota de rodapé – ou seja, num local marginal do texto10 – que Freud comenta sobre a transferência. Freud interpreta o primeiro sonho, como vimos, como um impulso de Dora de voltar-se ao seu pai para que ele a salve de um perigo – no sonho, o fogo; na vida real, o amor ao sr. K (“O sonho confirma que você está despertando o antigo amor por papai para se proteger do amor ao sr. K”) (Freud, 1905a, p. 232). Após essa interpretação, Freud (1905a, p. 232) apõe esta significativa nota de rodapé:

Eu ainda acrescento: Além disso, devo concluir [schließen], a partir do reaparecimento do sonho nos últimos dias, que você considera que a mesma situação está ocorrendo novamente, e que você decidiu [beschlossen] afastar-se do tratamento, que apenas papai a leva a fazer. – A sequência dos fatos mostrou quão correta era a minha suposição. Minha interpretação toca aqui no tema altamente importante, tanto prática quanto teoricamente, da “transferência”, que encontrarei poucas oportunidades de abordar neste ensaio.

Essa nota de rodapé – pouco visada pelos comentadores, ao que nos parece – é crucial por mais de um motivo. Primeiro porque nela uma vez mais comparecem termos do campo semântico da “chave” (Schlüssel): Freud tira uma conclusão (Schluß), enquanto Dora toma uma decisão, uma resolução (Beschluß). Novamente temos chaves que são dadas, chaves que são furtadas (ou, ainda, portas que são fechadas). Essas aberturas e fechamentos estão no centro de nada menos do que a própria relação entre analista e paciente, na qual se intrometem, de repente, as “transferências” de que trata mais extensivamente o parágrafo do posfácio, mais de 40 páginas depois. Em segundo lugar, temos o fato de Freud dizer com todas as letras que, “neste ensaio” (isto é, no relato do caso Dora), ele terá pouca oportunidade de tratar do tema da transferência. Essa afirmação de Freud é no mínimo desconcertante: ora, se há um caso em que a transferência (ou sua má condução) é a questão central, esse é o caso Dora. Lacan (1966, pp. 217-218) notou isso em sua Intervenção sobre a transferência, ao dizer da importância do caso Dora para o debate sobre esse tema, “pelo que ele representa na experiência ainda nova da transferência, onde pela primeira vez Freud reconhece que o analista tem aí seu papel”. Mas se Freud reconhece o papel do analista no fenômeno da transferência, é apenas a partir de uma falha técnica sua,11 depois de dar com a cara na porta fechada do tratamento, trancada à chave por Dora em sua resolução (Beschluß) inapelável.

No tratamento analítico, assim preconizava Freud, o paciente deve comunicar suas associações ao analista, que deve por sua vez inteligir as relações entre elas, comunicando de volta ao paciente, no tempo justo, suas interpretações. O que Freud notou com Dora – da forma mais dramática possível – é que essa troca pacífica de chaves e conclusões é interrompida em seu seio mesmo, sob a forma de materiais inconscientes que, não podendo ser rememorados (e, portanto, comunicados) pelo paciente, são atuados na própria relação com o terapeuta. É o que lemos em Recordar, repetir e elaborar, publicado 9 anos depois do caso Dora: no caso da transferência, “o analisando não recorda absolutamente nada do esquecido e do reprimido, mas sim o atua [agiere]” (Freud, 1914, p. 129). Nesse artigo de 1914 – nesse trecho em especial –, ressoam ecos do caso Dora, do fato de ela, em vez de reproduzir e se lembrar de certos fatos e fantasias, tê-los colocado em ato na própria relação com o terapeuta (“ela assim atuou [agierte] uma parte importante de suas memórias e fantasias, em vez de reproduzi-las no tratamento”, como nós vimos há pouco).

Há conteúdos, por conseguinte, que o paciente não consegue comunicar com palavras ao seu analista; em vez disso, uma “compulsão à repetição” (como diz o texto de 1914) o leva a repeti-los em ato, na relação mesma com seu analista, a expressá-los no campo do comportamento, fora da linguagem articulada. E, como lemos ainda em 1914, são esses os conteúdos mais vigorosamente reprimidos, são essas as memórias e fantasias mais delicadas para aquele determinado paciente: “quão maior for a resistência, tanto mais abundantemente o recordar será substituído pelo atuar [Agieren] (repetir)” (Freud, 1914, p. 130). Ou seja, ali mesmo onde o paciente esconde a chave da comunicação, ali mesmo onde há uma porta sem a chave da palavra – é aí que se situa o potencial terapêutico da Psicanálise. Lemos no caso Dora: “a transferência, que é destinada a tornar-se o maior obstáculo para a Psicanálise, torna-se o seu mais poderoso recurso, quando é possível notá-la a cada vez e traduzi-la para o doente” (Freud, 1905a, p. 281). Numa psicanálise, as chaves que não são dadas de graça são as mais importantes de todas. Foi isso que Dora mostrou a Freud.

Assim, o caso Dora, além de ser um caso modelo, a partir do qual se nota “como do múltiplo chegamos a uma unidade teórica, confiável e útil para entender o funcionamento da enfermidade”, segundo as palavras de Soria (2008, p. 93), é também o fracasso técnico12 que testemunha o parto da técnica psicanalítica, ainda in statu nascendi em 1899. Ao contrário do tipo psicológico descrito pelo pai da Psicanálise em 1916 (dos indivíduos que fracassam com o próprio êxito), Freud é aquele que tem êxito no fracasso.13

Não se trata, no entanto, do velho lugar-comum do “levantar-se após a queda”, ou do “aprender com os próprios erros”. Nada disso: não foi após o erro que Freud pôde aprender com ele; no próprio erro é que estava a chave do insucesso terapêutico em questão. Afinal, a chave do caso Dora é que a transferência, a difícil chave de todos os tratamentos, mal fora inteligida por Freud. Ao contrário de Pandora, que abriu a caixa maldita e libertou todos os males dos homens, Dora não abriu completamente sua caixa, mas foi justamente ao furtar à análise uma chave importante de sua intimidade que ela forneceu a Freud a chave que abriria muitas outras intimidades no futuro.

“Os gregos contam que Teseu recebeu de presente de Ariadne um fio. Com esse fio Teseu se orientou no labirinto, encontrou o Minotauro e o matou. Dos rastros que Teseu deixou ao vagar pelo labirinto, o mito não fala” – assim se abre o livro O fio e os rastros, do historiador Carlo Ginzburg (2007, p. 7). Do caso Dora muito se falou após a morte de Freud: desde as investigações sobre as pessoas “reais” envolvidas no caso (o pai de Dora, sua mãe, seu irmão, seu futuro marido etc.) até as leituras fora do campo psicanalítico propriamente dito, o caso Dora é revisitado com cerca constância. Exemplo de opressão do desejo feminino numa sociedade maciçamente patriarcal, exemplo do mau manejo da transferência, e assim por diante, Dora é o modelo para mil e uma leituras e releituras. O fio usado por Freud em sua investigação, dessa forma, continua a ser tecido e ramificado por meio das reverberações do caso.

Mas esse fio, que vai desde a entrada do labirinto da histeria até o assassinato do Minotauro da terapia, esse fio também deixou rastros. No caso Dora, os rastros que nos permitem abrir as portas do texto orbitam em torno da palavra Schlüssel. O vocábulo “chave” é a palavra-chave desse texto de Freud. Coincidência? Talvez. O que importa é que, à medida que Dora fornecia a Freud suas chaves-associações e Freud reciprocava a oferta, dando-lhe em troco suas chaves-conclusões, a chave principal da transferência, que passa ao largo da mera comunicação por palavras, ia-se perdendo para o analista. Mas a perda absoluta de uma chave (“O que era esse X, naturalmente eu não posso sabê-lo”) se deu num ato radical de duas direções, que decretou (bechloß) o fim do tratamento, mas lançou luz retrógrada em seus vários sinais negligenciados. Essa ruptura do tratamento não é, portanto, inócua, ela acaba por forçar a introdução, no texto que sintetiza o tratamento e sua falha, das marcas de sua emergência. As lacunas do caso, por fim, tornam-se as marcas mesmas do texto que trata de comunicá-lo. É assim que aquilo que faltou ao tratamento se torna o rastro no texto; nesse caso específico, os rastros do texto não são marcas opacas do real no qual ele inevitavelmente se ancora – como é de se esperar num Schlüsselroman típico –, mas sim as marcas do que não pôde ser apreendido durante a realidade mesma dos acontecimentos. Essa é a chave dada a nós por Freud – pelo Freud escritor, em cuja escrita transpassam não somente as conquistas do Freud terapeuta, mas sobretudo as lacunas jamais sanadas por ele.

De Dora para Freud, de Freud para nós. Assim é que o caso Dora se torna o Schlüsselroman freudiano por excelência: entre as chaves de Dora e as chaves do texto, é aí que se situa Freud, o terapeuta-escritor. Fecha-se uma porta, abre-se uma janela; fecha-se um tratamento, abre-se um texto; fecha-se um texto, abre-se a Psicanálise.

2“Pétite hysterie” (“pequena histeria”) está em francês no original, entre aspas e em itálico; optamos por deixar os termos em latim (“Tussis nervosa”, “tosse nervosa”, e “Taedium vitae”, “estado permanente de desânimo, desgosto”) tal qual foram grafados: com maiúscula e sem itálico.

3Colocamos aqui esse breve (e evidentemente incompleto) resumo do caso clínico como mera introdução, importante – assim parece – para que o leitor compreenda os raciocínios aqui expostos. Ele se baseia principalmente na primeira seção do texto (O quadro clínico); é com os dois sonhos e o posfácio, porém, que a ânsia de vingança de Dora se torna patente e é esmiuçada por Freud.

4Essa análise se encontra na segunda seção do texto, intitulada O primeiro sonho (Freud, 1905a, pp. 225-255), e é muito mais detalhada e completa do que o resumo que fizemos aqui, é claro.

5A primeira associação a que se refere Freud foi a lembrança de Dora de que o pai e a mãe haviam brigado recentemente: o pai reclamava que a mãe sempre trancava o quarto do irmão; se algo de ruim ocorresse à noite, ele não poderia sair do quarto.

6É no mínimo interessante notar aqui uma informação contida no artigo de Arnold Rogow, de 1978, intitulado A Further Footnote To Freud’s “Fragment Of An Analysis Of A Case Of Hysteria”. Nele, Rogow nos dá um relato precioso sobre o irmão de Dora, que veio a se tornar um dos principais nomes do socialismo na Áustria; mas o que nos interessa aqui é a seguinte informação: quando jovem, ele estava sempre lendo em seu quarto com as janelas fechadas, para evitar que a poeira entrasse; eram ordens da mãe, a quem o próprio Freud atribui uma “psicose de dona de casa”, isto é, a condição patológica de limpar incessante e obcecadamente a casa. “Outros quartos, como o salão onde Philip Bauer [o pai] mantinha seus charutos, estavam trancados o tempo todo para assegurar limpeza. A única chave para esses quartos estava na posse de Kãthe Bauer [a mãe]” (Rogow, 1978, p. 343).

7Notemos que um dos verbos alemães para “conectar” ou “ligar” é anschließen e que uma “conexão” (inclusive a de internet, por exemplo) é em alemão um Anschluß.

8Wann haben Sie den Entschluß gefaßt? (Freud, 1905a, GW 5, p. 268) – “quando você tomou a decisão?”, pergunta Freud a Dora.

9Sobre isso, consultar Lausberg (1990, pp. 27-80).

10Ou, para usar o termo de Gérard Genette (1987), no paratexto do texto, cujo estatuto editorial e semântico é sempre ambíguo: dentro e fora do texto, em suas margens pouco definidas, a nota de rodapé autoral “é um desvio local ou uma bifurcação momentânea do texto, e a esse respeito ela lhe pertence quase tanto quanto um simples parêntese. Nós estamos aqui numa fímbria muito indecisa entre texto e paratexto” (Genette, 1987, p. 342). Não é em vão, então, que essa nota de rodapé de Freud contenha uma das chaves do texto a que se apende: na margem indecisa (feito uma porta movediça), ela abre a teorização freudiana para um de seus temas principais (a transferência), ao utilizar-se da chave que lhe fora dada por Dora.

11“Eu não fui capaz de dominar a transferência” (Freud, 1905a, p. 282) – confessa Freud nesses passos de sua argumentação.

12Talvez convenha notar aqui o futuro de Dora, tal como nos relatou Felix Deutsch em 1957. Em 1923, Dora procurou-o para iniciar um novo tratamento: casada, com um filho único, “Dora” (Ida Bauer) ainda sofria de sintomas histéricos e deles sofreria pelo resto de sua vida.

13Em outros dois relatos de caso, a incompatibilidade entre “êxito terapêutico” e “progresso científico” é afirmada. No caso do Homem dos Lobos, lemos que as análises exitosas e de curta duração são praticamente inúteis para a Wissenschaft: “não se aprende nada de novo a partir delas”; “chega-se a saber algo novo somente a partir de análises que oferecem dificuldades especiais, para cuja superação é preciso consumir muito tempo” (Freud, 1918 [1914], p. 32). Já no caso do Homem dos Ratos, é o próprio “fracasso terapêutico” que é posto como uma espécie de condição propiciadora à pesquisa científica. Numa extensa nota de rodapé – novamente! –, Freud diz que não foi possível desfazer fio a fio o emaranhado de fantasias do paciente, precisamente porque o paciente se restabeleceu, e o processo psicanalítico foi interrompido. “A pesquisa científica através da Psicanálise é hoje, de fato, apenas um resultado paralelo do esforço terapêutico, e por isso o proveito é maior justamente nos casos em que o tratamento fracassou” (Freud, 1909, p. 428).

Referências

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