CORPO EDITORIAL
Editora-chefe
Magali Milene Silva, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Comissão editorial
Fuad Kyrillos Neto, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Douglas Nunes Abreu, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Maria Glaucia Pires Calzavara, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Roberto Pires Calazans Matos, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Wilson Camilo Chaves, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Comissão executiva
Ariel Campos Pinto, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Elizabeth Fátima Teodoro, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Helena de Almeida Cardoso Caversan, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Renata Cristina Gonçalves, Universidade Federal de São João del Rei, Brasil
Tatiane Regina Assis Sousa, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
Thales Alberto Fonseca Vicente, Centro Universitário Presidente Tancredo de Almeida Neves, Brasil
CONSELHO CONSULTIVO
Angélica Bastos, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Bianca Novaes, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Christian Dunker, Universidade de São Paulo, Brasil
Cláudio Oliveira, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Daniel Menezes Coelho, Universidade Federal de Sergipe, Brasil
Graciela Haydée Barbero, Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil
Ian Parker, University of London - Birkbeck, Reino Unido
Jacqueline Oliveira Moreira, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Brasil
João Luiz Paravidini, Universidade Federal de Uberlândia, Brasil
Léa Silveira, Universidade Federal de Lavras, Brasil
Maurício d’Escragnolle, Universidade Federal do Paraná, Brasil
Oswaldo França Neto, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
Raul Pacheco Filho, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil
Richard Simanke, Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil
Rosane Zétola Lustoza, Universidade Estadual de Londrina, Brasil
Suely Aires Pontes, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil
Susane Zanotti, Universidade Federal de Alagoas, Brasil
PARECERISTAS Ad hoc
Adriana Oliveira Rangel, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Brasil
Ana Carolina Afonso Lima Dias, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil
Carlos Eduardo Rodrigues, Faculdade Anhanguera, Brasil
Daniela Santos Bezerra, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Enzo Cléto Pizzimenti, Universidade de São Paulo, Brasil
Francisca Mariana Abreu Mayerhoffer, Universidade Federal Fluminense, Brasil
Jesio Zamboni, Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil
José Roney de Freitas Machado, Universidade Federal de São João del-Rey, Brasil
Júlia Roberta de Oliveira Carvalho Caetano, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
Luciana Cavalcante Torquato, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
Luísa Aparecida Costa, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
Marcela de Souza Rocha, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
Marcelo Gonçalves Campos, Faculdade Católica de Pará de Minas, Brasil
Marta Regina de Leão D’Agord, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Miguel Levi de Oliveira Lucas, Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil
Paulo Eduardo Viana Vidal, Universidade Federal Fluminense, Brasil (in memorian)
Paulo Emílio Pessoa Cabral, Universidade de São Paulo, Brasil
Renato Sarieddine Araújo, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Brasil
Rodrigo Otávio Fonseca, Universidade do Vale do Sapucaí, Brasil
Suely Teodora da Silveira, Universidade Federal de São João del-Rey, Brasil
Wilson de Albuquerque Cavalcanti Franco, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Brasil
APOIO
CONTATO
Endereço
Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ - Campus Dom Bosco), R. Padre João Pimentel, 80 - Dom Bosco, São João del Rei - MG, 36301-158
Site: http://www.seer.ufsj.edu.br/analytica/about
Email: analytica@ufsj.edu.br
A contenda entre psicanálise e ciência não é apenas antiga, mas profundamente evocativa, como uma corda tensa que ressoa ainda hoje. Nesse embate, a Analytica: Revista de Psicanálise sustenta, com rigor e delicadeza, o estandarte de uma revista científica comprometida com o que há de mais singular na psicanálise: a escuta do indizível. Vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (PPGPSI-UFSJ), a revista tem explorado, ao longo de treze anos, temos explorado as múltiplas facetas dessa relação, que é ao mesmo tempo complexa, controversa e instigante.
Como lidar com a questão lançada por Lacan (1965/1984): “O que é uma ciência que inclua a psicanálise?” (p. 28). Não apenas ecoamos essa pergunta em nossos esforços editoriais, mas nos permitimos habitá-la, como quem caminha em um terreno instável e, por isso mesmo, fértil. A singularidade da psicanálise, com sua crítica criativa ao saber científico, reside na própria natureza de seu objeto: um vazio eloquente, no qual os rastros de um desejo deixam marcas.
A psicologia contemporânea tem buscado responder a questões que desafiam os limites do método científico tradicional. Conforme apontam Kyrillos Neto e Melo (2019), esse campo se consolidou pela interlocução com áreas como filosofia e sociologia, permitindo diálogos que potencializam a compreensão das demandas subjetivas. Essa perspectiva ressalta a relevância de abordagens que, como a psicanálise, acolhem o singular e o subjetivo, além de tensionarem os limites das ciências naturais.
Nesse contexto, é pertinente refletir sobre a crítica ao método científico, que, ao seduzir-se pelo ideal de evidência objetiva, muitas vezes negligencia a complexidade do saber humano. Como muito bem destacou Calazans (2023), no artigo “O canto da sereia do método científico”, a ciência baseada em evidências, ao prometer respostas seguras e controláveis, corre o risco de obscurecer dinâmicas subjetivas que escapam à mensuração. Essa crítica torna-se ainda mais evidente em situações como o manejo do sofrimento psíquico, em que diagnósticos padronizados e intervenções normativas frequentemente deixam de considerar as narrativas individuais, resultando em tratamentos desumanizados.
Nos dias de hoje, o campo psi vê-se tomado pelo fascínio do termo evidência, esse bilhete dourado que promete legitimar saberes e práticas sob o manto da objetividade. Importado da medicina baseada em evidências (MBE), tal vocabulário molda a psicologia baseada em evidências (PBE), priorizando intervenções que se pretendem eficazes, mensuráveis e rigorosas. Contudo, é legítimo perguntar: a quem serve essa hegemonia?
É Christian Dunker (2022), em suas reflexões no “Lutz Podcast #211”, quem nos ajuda a ver que os ideais normativos desse modelo frequentemente obscurecem a complexidade do sofrimento humano. No campo biomédico, a circunscrição de questões patológicas em diagnósticos objetivos é, de fato, funcional. Mas e no domínio do psíquico? Aqui, os contornos borram-se, as fronteiras entre normal e patológico tornam-se instáveis, e o que emerge é a singularidade de cada sujeito, profundamente enraizada em sua história, cultura e laços sociais.
Dunker afirma que a noção de “doença mental”, longe de ser uma entidade fixa, é uma metáfora que busca emprestar ao psiquismo os métodos da biologia. Contudo, essa metáfora desmorona diante do sofrimento, que se apresenta não como desvio ou falha, mas como expressão legítima da condição humana. O que antes era melancolia ou histeria, hoje pode ser lido como resistência, como gesto de um sujeito que luta para afirmar-se contra a normatização do desejo.
Um exemplo prático dessa resistência pode ser visto nas intervenções psicanalíticas em dispositivos institucionais, como os CAPS ou as Unidades de Acolhimento Institucional. Nesses espaços, em vez de buscar padronizar as experiências dos sujeitos, a prática psicanalítica se organiza em torno da escuta singular, criando possibilidades de reconstrução subjetiva e laços sociais significativos.
A crítica ao cientificismo também pode ser aprofundada ao considerar a dimensão ética da pesquisa psicanalítica. Como apontado por Calzavara et al. (2019), a responsabilidade ética do pesquisador-psicanalista reside em preservar o desejo de saber no ambiente acadêmico, mesmo em face das demandas normativas e burocráticas. Essa ética, fundamental na clínica, transcende os limites da quantificação e reafirma a singularidade da psicanálise como um saber comprometido com as experiências subjetivas.
Nesse ponto, Freud nos oferece uma imagem que é ao mesmo tempo ciência e arte: um método que escreve o impossível. Ele recorre a mitos, metáforas e à literatura, moldando a metapsicologia como uma “bruxa” que dá contorno ao que se recusa a ser dito. Essa figura híbrida da metapsicologia é um convite ao encanto de transformar o singularíssimo do inconsciente em narrativas que encontram eco no desejo do outro.
Ainda assim, a psicanálise não escapa ao desafio da evidência. Desde Freud, ela é alvo de críticas sobre sua cientificidade. Críticas como as de Karl Popper, que a classificou como pseudociência devido à suposta impossibilidade de falseabilidade de suas hipóteses, ainda ressoam no meio acadêmico, com concepções como as de Natalia Pasternak e Carlos Orsi (2023), no livro Que bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério. No entanto, abordagens contemporâneas, como as de Sisson e Winograd (2010), Mariano (2018) e de Carvalho e Coelho (2024) buscam situar a psicanálise como uma ciência natural, enfatizando sua capacidade de oferecer explicações histórico-narrativas para os fenômenos psíquicos.
Um exemplo claro de como a psicanálise contribui para além do paradigma tradicional está nos estudos sobre trauma e memória. Fonagy (2015) demonstrou que a abordagem psicanalítica tem eficácia sustentada em intervenções voltadas ao tratamento de traumas, mesmo quando essas transformações não podem ser integralmente traduzidas em métricas objetivas. Essas intervenções revelam que o impacto subjetivo muitas vezes transcende os limites das evidências quantitativas.
É nesse debate entre a hegemonia da ciência tradicional e os saberes alternativos que encontramos a importância da crítica ao “canto da sereia” da objetividade científica (Calazans, 2023). Reconhecer os limites desse modelo é abrir espaço para outras epistemologias, como a da psicanálise, que acolhe contradições, lapsos e silêncios como partes fundantes da experiência humana.
Assim, no cuidadoso trabalho realizado por Christian Dunker e Gilson Iannini, Ciência pouca é bobagem: por que psicanálise não é pseudociência, publicado em 2023 pela editora Ubu, lemos que “a psicanálise é a ciência de escutar o que não é evidente no interior da própria evidência, a partir de rastros ou indícios, no vazio da própria evidência” (p. 220). Essa perspectiva ressalta a singularidade da psicanálise: uma prática que se debruça sobre o que escapa à objetividade, explorando as lacunas e os silêncios que permeiam a experiência humana.
Como isso se manifesta na prática? Estudos como os de Shedler (2010), Leichsenring et al. (2014) e Fonagy (2015) demonstram que intervenções psicanalíticas produzem resultados sustentáveis. Contudo, é necessário reconhecer que esses resultados nem sempre cabem nos moldes tradicionais da ciência, o que exige a criação de novas formas de validar os efeitos da escuta psicanalítica. Nesse sentido, a psicanálise desafia o pesquisador a escutar não apenas o visível, mas o invisível – aquilo que só pode ser apreendido nos lapsos, nas contradições e no silêncio.
Alguns autores defendem que a psicanálise deve dialogar com campos como as neurociências e a psicofarmacologia, buscando estabelecer conexões com o modelo biomédico sem abdicar de sua essência. Um exemplo desse esforço é a neuropsicanálise, proposta por Mark Solms, que articula conceitos freudianos com descobertas neurocientíficas. Por outro lado, iniciativas como as propostas por Fontes e Sales (2020) destacam que o diálogo interdisciplinar deve ocorrer sem que a psicanálise perca sua especificidade. Não se trata de adaptar-se às ciências naturais, mas de enriquecer o debate a partir de sua própria epistemologia.
Além disso, há quem, como Leite e Couto (2024), problematize a relação entre psicanálise e práticas baseadas em evidências, destacando os limites de metodologias que priorizam a quantificação. Esses autores ressaltam a importância de uma abordagem mais ampla e inclusiva para avaliar a eficácia de intervenções terapêuticas, reconhecendo que o valor da psicanálise está em seu compromisso com as nuances do sofrimento humano e a transformação subjetiva, muitas vezes invisíveis aos métodos tradicionais.
Nesse sentido, a escuta psicanalítica não apenas acolhe o sofrimento humano em sua singularidade, mas também transforma esse sofrimento em um espaço potencial de reinvenção. Essa transformação, que muitas vezes escapa à racionalidade imediata, é um dos principais argumentos para a relevância da psicanálise em contextos contemporâneos.
Nesse sentido, a Analytica: Revista de Psicanálise se posiciona como um espaço de reflexão crítica e criativa. Nosso objetivo é estimular debates que fortaleçam a psicanálise enquanto campo de saber singular, promovendo diálogos fecundos com outras disciplinas e perspectivas. Publicamos trabalhos que não apenas defendem a psicanálise, mas também a interrogam e a transformam à luz das questões científicas contemporâneas.
Ao acolher contribuições que transitam entre o clínico, o teórico e o institucional, a Analytica reafirma seu compromisso com a pluralidade de vozes e perspectivas que enriquecem o campo da psicanálise. Essa pluralidade reflete não apenas a complexidade do humano, mas também a potência criativa de um saber que permanece aberto ao novo.
Nessa perspectiva é importante compreender que a metodologia de pesquisa com base psicanalítica se constrói no entrecruzamento entre a leitura da teoria, que nos antecede, e a análise que se desdobra como possibilidade, surpreendendo-nos na escuta clínica. Tal dinâmica – leitura-escuta – manifesta-se em ambientes clínicos tradicionais, como na prática com crianças, onde o brincar é revelado como uma função essencial e estruturante.
Contudo, essa abordagem não se restringe à clínica convencional. Ela se expande para ambientes institucionais, como os dispositivos de saúde mental – CAPS III, CAPSij e as práticas de Acompanhamento Terapêutico (AT) –, as instituições totais – como as APACs –, as Unidades de Acolhimento Institucional, que recebem adolescentes com vínculos familiares fragilizados ou rompidos, além de ONGs que desenvolvem projetos de apoio social. Nesses contextos, a escuta psicanalítica assume um papel transformador ao oferecer uma abordagem que prioriza o sujeito, contrastando com modelos normativos e massificadores de cuidado. São espaços que, além de acolher, fomentam atividades de pesquisa e extensão, gerando os artigos publicados nesta edição.
Os autores do volume 13, número 26, também lançaram as lentes da leitura-escuta sobre a cena contemporânea, explorando o impacto das mídias digitais na cultura e investigando o papel do olhar nessa nova dinâmica. Nesse sentido, é interessante notar como a psicanálise se adapta às mudanças culturais e tecnológicas, abordando questões como a fragmentação da subjetividade e os novos modos de estabelecer laços sociais mediados por plataformas digitais. Destaca-se, ainda, que uma postura clínica se sustenta em trabalhos de revisão bibliográfica, nos quais o pesquisador, em um movimento semelhante ao clínico, trata os textos como espaços a serem escutados. Ele identifica significantes que, de um lado, provocam um ato de sujeito, e de outro, constroem uma rede de saber clinicamente relevante, apta a ser interrogada cientificamente.
Seja em uma revisão bibliográfica sobre o conceito de transferência nas obras de Freud e Lacan ou sobre regressão em Winnicott e Klein, o pesquisador levanta questões que são discutidas e apresentadas dentro das exigências do discurso universitário. Ao fazer isso, ele não apenas dialoga com o saber acumulado, mas também renova a psicanálise, reafirmando sua capacidade de interrogar o sujeito e as condições culturais que o atravessam. Assim, tanto entre experientes quanto em jovens pesquisadores, o vazio no interior da evidência – que caracteriza o objeto da psicanálise – não deixa de abrir espaço para o desejo. Aqui, esse desejo é, ao mesmo tempo, desejo de pesquisa e de escrita científica.
Não sem razão, Freud, com sua teia tecida entre o visível e o invisível, não busca decifrar o enigma do sujeito ou mensurar seu sofrimento, mas criar um espaço para que ele fale, tropece, reinvente-se. Ao invocar os mitos antigos, o mestre de Viena compreendia que o sofrimento humano encontra, na repetição histórica e nas narrativas coletivas, um espelho no qual vislumbrar suas próprias sombras. Sua abordagem, que entrelaça ciência, arte e literatura, lembra-nos que o humano é indissociável de sua condição simbólica e de sua capacidade de ressignificar o indizível. Mais do que um manual de respostas ou um checklist de diagnósticos objetivos, sua obra nos convida a explorar o desconhecido que habita em cada um de nós, com a ousadia de quem sabe que, em cada tentativa de dizer o impossível, algo novo sempre pode nascer.
Por essa razão, autores como Caio Fernando Abreu, Luigi Pirandello e Eça de Queiroz ganham corpo nas páginas desta edição, desvelando a condição humana em toda sua profundidade psíquica e estética. Nas narrativas de Abreu, o espaço da transformação é tecido com dor, desejo, desaparecimento e reconstrução. Suas personagens habitam as margens, tanto do real quanto do simbólico, desafiando e, por vezes, submetendo-se às estruturas normativas da civilização. Há, em sua escrita, um eco freudiano que ressoa na destrutividade pulsional: um compasso em que criação e morte dançam juntas, expondo aquilo que a cultura tenta recobrir. É o movimento incessante de Eros contra Tânatos, registrado por Abreu com uma beleza cruel, própria de quem entende que a vida, em sua essência, nasce da falta.
Pirandello, por sua vez, oferece ao leitor um espelho que jamais reflete o esperado. Em Uno, nessuno e centomila, o sujeito desmorona diante das imagens que os outros constroem dele, até restarem apenas fragmentos. Esse espelho, mais do que metáfora, transforma-se em dispositivo que captura o olhar e revela a ilusão da unidade. Sob a lente da psicanálise, podemos ver nele a pulsão escópica descrita por Lacan, que atravessa o sujeito com o peso de ser visto, não como é, mas como poderia ser. Nesse jogo de espelhamentos, o leitor também é convocado a projetar-se, confrontando-se com o desconcerto de não saber quem é.
Eça de Queiroz, em seu conto “Civilização”, pinta com ironia um quadro do vazio existencial, evocando a estética freudiana do mal-estar. Seu protagonista, Jacinto, cercado por todas as comodidades da modernidade, descobre-se vazio, um sujeito sem raízes que busca na fartura o que a fartura jamais poderá oferecer. Essa crítica permanece atual, apontando como o excesso de consumo e o avanço tecnológico, longe de satisfazer, podem intensificar o esvaziamento subjetivo.
Vemos, portanto, que entre a literatura e a psicanálise desenham-se caminhos que conduzem a territórios nos quais a lógica se dissolve e o que resta é a pulsação do desejo. Esse desejo, contudo, não se perde no caos, pois o rigor da psicanálise é científico na medida em que permanece fiel ao seu objeto: o que escapa às tramas próprias do discurso científico tradicional. Na psicanálise, o rigor não reside em mensurar o indizível, mas em escutá-lo em sua complexidade, acolhendo as lacunas e os rastros que o inconsciente deixa pelo caminho.
A estética, seja na palavra escrita, no quadro pintado ou na escuta analítica, dá forma ao informe: captura o olhar apenas para devolvê-lo transformado, outro. Assim como a literatura e a arte evocam dimensões da experiência humana que escapam à razão instrumental, a psicanálise convoca o sujeito a olhar para o que há de mais singular em si, transformando sua relação com o mundo.
Na presença dos artistas, a psicanálise parece inclinar-se sobre si mesma, reconhecendo na arte um saber que a antecede, que a excede, que a desafia. Seu objeto, como o espelho de Velásquez ou as palavras de Abreu, recusa-se a ser fixado. Ele desliza, convoca, cintila, deixando rastros que apenas a pulsão estética pode capturar. É um testemunho daquilo que é impossível dizer, mas que, pela arte, pode ser vislumbrado e, quem sabe, tocado.
E na presença dos pesquisadores, a psicanálise encontra um diálogo fértil, enriquecendo-se sem jamais abandonar sua singularidade. Enquanto os cientistas naturais buscam leis gerais e mensuráveis, o pesquisador psicanalítico acolhe contradições, lapsos e silêncios como elementos fundantes da experiência subjetiva. Mais do que explorar o que não se presta à quantificação, ele nos ensina a escutar as sutilezas nas quais se inscrevem o desejo, o trauma e a história de cada sujeito. Nesse sentido, a investigação psicanalítica transcende o método tradicional e propõe uma epistemologia que legitima o inapreensível como parte essencial do saber.
Na conjunção entre arte e pesquisa, a psicanálise não apenas se reinventa: ela cria mundos, encontrando no vazio e no fragmento a possibilidade de um novo sentido. Por isso, a advertência de Mefistófeles em Fausto, citada por Freud em seu texto autobiográfico, ressoa com tamanha pertinência: “É em vão que vagais entre as ciências: cada qual aprende somente aquilo que pode aprender” (Goethe citado por Freud, 1925/2011, p. 79). Nesse gesto, Freud nos lembra que é preciso escutar o que está para além do mensurável, o que insiste nos interstícios do discurso.
Assim, a Analytica: Revista de Psicanálise reafirma seu compromisso com a pluralidade e a singularidade, convidando leitores e autores a pensarem o humano em toda a sua profundidade. É nesse espírito que convidamos nossos leitores a juntarem-se a essa discussão. Enviem artigos, ensaios e reflexões que enriqueçam a compreensão da psicanálise em seu entrelaçamento com a ciência. Acreditamos que fomentar esse debate é fortalecer a psicanálise e, ao mesmo tempo, expandir as fronteiras do conhecimento científico.
Como aponta Lacan, a ciência com a qual trabalha a psicanálise é aquela que não ignora a presença do sujeito no campo do saber. É no reconhecimento do vazio constitutivo que enlaça o saber e a verdade que reside sua potência. Esse saber não se funda na evidência plena, mas na falta que move o desejo e possibilita que algo possa ser construído.
SUMÁRIO/Summary
Editorial/Editorial
Oficinas terapêuticas com mulheres vítimas de violência sexual – atendimento a refugiadas africanas/ Therapeutic workshops with women victims of sexual violence – support for African refugees
O conceito de transferência de trabalho em psicanálise: uma revisão integrativa da literatura brasileira/ The concept of work transference in psychoanalysis: an integrative review of Brazilian literature
A regressão na clínica psicanalítica: um estudo comparativo entre Klein e Winnicott/ Regression in Psychoanalytic Practice: A Comparative Study between Klein and Winnicott
Perspectivas de Eça de Queiroz e Sigmund Freud sobre civilização e a felicidade/ Perspectives of Eça de Queiroz and Sigmund Freud on Civilization and Happiness
Seção: Jovens Pesquisadores/ Section: Young Researchers
Interseções entre a psicanálise e esquizoanálise: o que pode o brincar na clínica com crianças?/ Intersections between Psychoanalysis and Schizoanalysis: What Can Play Offer in Child Therapy?
A agressividade em laço no tratamento psicanalítico de crianças/ Aggressiveness in the bond in the psychoanalytic treatment of children
A prática psicanalítica em uma instituição total: complexidades e possibilidades/ Psychoanalytic practice in a total institution: complexities and possibilities
Escuta psicanalítica a adolescentes em acolhimento institucional: uma experiência de extensão/ Psychoanalytic Listening to Adolescents in Institutional Care: An Extension Experience
Psicanálise, reforma psiquiátrica e acompanhamento terapêutico: uma articulação possível/ Psychoanalysis, Psychiatric Reform, and Therapeutic Accompaniment: A Possible Articulation
A relação entre o brincar e o trauma em D. W. Winnicott/ The relationship between play and trauma in D. W. Winnicott
Rastros do traumático: reverberações da violência sexual infantil no sujeito adulto/ Traces of the Traumatic: Reverberations of Childhood Sexual Violence in the Adult Subject
Corpos entre telas e espelhos: a primazia do olhar e da imagem na cultura digital/ Bodies Between Screens and Mirrors: The Primacy of the Gaze and Image in Digital Culture
Eros, destruições, transformações: sobre a renúncia erótica em uma fábula de Caio Fernando Abreu/ Eros, Destruction, Transformation: On Erotic Renunciation in a Fable by Caio Fernando Abreu
Entre Velásquez e Pirandello: o olhar descentrador de subjetividades/ Between Velásquez and Pirandello: The Decentering Gaze of Subjectivities














