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Analytica: Revista de Psicanálise

versión On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.13 no.26 São João del Rei  2024  Epub 07-Jul-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v13i26.5059 

Artigos

O conceito de transferência de trabalho em psicanálise: uma revisão integrativa da literatura brasileira

The concept of work transfer in psychoanalysis: an integrative review of the Brazilian literature

Le concept de transfert de travail en psychanalyse: une revue intégrative de la littérature brésilienne

El concepto de transferencia de trabajo en psicoanálisis: una revisión integradora de la literatura brasileña

Alexandre James Ferreira1 

1

Doutorando em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB) – Brasília, DF, Brasil. Mestre em Psicologia pela mesma universidade. Graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás).


http://orcid.org/0000-0001-5715-6098

Juliana Ferreira da Silva1 

2

Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mestre em Psicologia pela mesma universidade. Graduada em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professora do Programa de Pós-graduação stricto sensu em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB) – Brasília, DF, Brasil.


http://orcid.org/0000-0002-2058-5486

1Universidade Católica de Brasília (UCB) – Brasília, DF, Brasil


Resumo

O presente trabalho corresponde a uma revisão integrativa da literatura brasileira, de natureza básica e abordagem qualitativa, com o objetivo de explorar o conceito de “transferência de trabalho” em psicanálise. A revisão integrativa foi estruturada em três categorias de análise, a saber: 1) o trabalho de transferência e a transferência de trabalho; 2) a transferência de trabalho e a transmissão em psicanálise; e 3) a formação do analista. A transferência de trabalho, enquanto o vínculo estabelecido entre os analistas, com a produção e transmissão de saber no campo psicanalítico, respeita uma condição possível a todos aqueles transferidos com a psicanálise. O processo de transferência de trabalho expressa uma operação inerente à coletividade dos que estão inseridos nesse cenário de percurso analítico. Diante da pertinência e operação que a transferência de trabalho exerce na produção, transmissão e prática da psicanálise, buscou-se investigar a implicação que o conceito – transferência de trabalho – exerce na produção psicanalítica, e não apenas o que a produção tem a dizer sobre o conceito.

Palavras-chave: Psicanálise; Transferência de trabalho; Freud; Lacan

Abstract

The present work corresponds to an integrative review of the Brazilian literature, of a basic nature and qualitative approach, with the objective of exploring the concept of work transfer in psychoanalysis. The integrative review was structured into three categories of analysis, namely: 1) transfer work and work transfer, 2) work transfer and transmission in psychoanalysis, and 3) analyst training. Work transfer, as the link established between analysts, with the production and transmission of knowledge in the psychoanalytic field, respects a possible condition for all those transferred with psychoanalysis. The work transfer process expresses an operation inherent to the collectivity of those who are inserted in this analytical path scenario. Given the pertinence and operation that work transfer has in the production, transmission and practice of psychoanalysis, we sought to investigate the implication that the concept – work transfer – has in psychoanalytic production, and not just what production has to say about the concept.

Keywords: Psychoanalysis; Job transfer; Freud; Lacan

Résumé

Le présent travail correspond à une revue intégrative de la littérature brésilienne, de nature fondamentale et d’approche qualitative, dans le but d’explorer le concept de transfert de travail en psychanalyse. L’examen intégratif a été structuré en trois catégories d’analyse, à savoir: 1) le travail de transfert et le transfert du travail, 2) le transfert et la transmission du travail en psychanalyse, et 3) la formation des analystes. Le transfert du travail, comme lien établi entre analystes, avec la production et la transmission des savoirs dans le champ psychanalytique, respecte une condition possible pour tous ceux qui sont transférés avec la psychanalyse. Le processus de transfert de travail exprime une opération inhérente à la collectivité de ceux qui sont insérés dans ce scénario de parcours analytique. Étant donné la pertinence et l’opération que le transfert de travail a dans la production, la transmission et la pratique de la psychanalyse, nous avons cherché à enquêter sur l’implication que le concept - transfert de travail – a dans la production psychanalytique, et pas seulement ce que la production a à dire à son sujet.

Mots clés: Psychanalyse; Transfert d’emploi; Freud; Lacan

Resumen

El presente trabajo corresponde a una revisión integradora de la literatura brasileña, de carácter básico y abordaje cualitativo, con el objetivo de explorar el concepto de transferencia del trabajo en psicoanálisis. La revisión integradora se estructuró en tres categorías de análisis, a saber: 1) trabajo de transferencia y transferencia de trabajo, 2) transferencia y transmisión de trabajo en psicoanálisis, y 3) formación del analista. La transferencia de trabajo, como vínculo que se establece entre los analistas, con la producción y transmisión de saberes en el campo psicoanalítico, respeta una condición posible para todos los transferidos con el psicoanálisis. El proceso de transferencia de trabajo expresa una operación inherente a la colectividad de quienes se insertan en este escenario de recorrido analítico. El concepto.

Palabras clave: Psicoanálisis; Transferencia de trabajo; Freud; Lacan

Introdução

Anteriormente à formulação do conceito de “transferência”, a sensibilidade de Freud à sua experiência transferencial, em referência aos seus objetos de estudo e a suas relações pessoais e profissionais, já se instituía como um fator determinante de seu percurso da neurologia à psicanálise, uma dimensão pouco estimada na história da psicanálise bem como na do próprio conceito de transferência. A elaboração dessa experiência foi um operador basilar que permitiu a Freud depreender e efetuar as teorizações e transformações que orquestraram sua passagem da pesquisa neurofisiológica e da clínica médica clássica à criação da psicanálise, enquanto método de intervenção terapêutica e corpo teórico (Volich, 2000).

Em uma carta escrita a Wilhelm Fliess, datada de 27 de abril de 1895, Freud (1895/1996a) descreve estar profundamente imerso em seu “Projeto para uma psicologia científica” – projeto de psicologia para neurologistas: “Sinto-me literalmente devorado por ela, a ponto de ficar exausto e me ver obrigado a interromper. Nunca passei por uma preocupação tão grande assim. E dará algum resultado? Espero que sim, mas é um trabalho difícil e lento” (pp. 212-213). Um mês depois, em uma carta com data de 25 de maio de 1985, essa “psicologia” se apresenta mais aparente: “Ela tem-me acenado à distância desde tempos imemoriais, mas agora que deparei com as neuroses, tornou-se muito mais próxima” (p. 213). As cartas de Freud a Fliess dão notícia do que seria concebido em seu famigerado A interpretação dos sonhos (Freud, 1900/1996b, 1900/2019a) – considerada a obra inaugural da psicanálise – ainda que, nesse livro, Freud trabalhasse visando a livrar-se de qualquer referência aos períodos de Fliess (Oliveira, 2005; Vidal, 2010). Uma passagem célebre, do prefácio à segunda edição3, da A interpretação dos sonhos, revela o quanto a sua escrita esteve inseparável de um percurso subjetivo que o nosso autor denomina “autoanálise”4 (Vidal, 2010):

Para mim, este livro tem ainda outro significado subjetivo, que só pude compreender após terminá-lo. Ele se revelou como parte da minha autoanálise, como minha reação à morte de meu pai, ou seja, ao evento mais significativo, à perda mais pungente da vida de um homem. Após reconhecer isso, senti-me incapaz de apagar os traços dessa influência

(Freud, 1900-1908/2019b, pp. 17-18).

As cartas a Fliess assim como o “Projeto” estavam ambos interligados com transferência e preocupações clínicas. A interpretação dos sonhos tem origem no luto de Freud por seu pai, mas também com o término de sua amizade com Fliess. Com efeito, esse livro consiste no mais importante esforço já alcançado em autoanálise (Oliveira, 2005).

Mas, o que são as transferências? Freud (1895/2016) as define como falsas conexões, uniões equivocadas; reedições, reproduções das moções e fantasias que, durante o avanço da análise, soem despertar-se e tornar-se conscientes, mas com a característica (própria do gênero) de substituir uma pessoa anterior pela pessoa do analista. Ou seja, toda uma série de experiências psíquicas prévias é revivida, não como algo passado, mas como um vínculo atual com a pessoa do analista (Freud, 1901/1996c). Em sua conduta transferencial, o sujeito revivencia ligações emocionais que têm origem em seus primeiros investimentos objetais no período reprimido de sua infância (Freud, 1925/2011a). No entanto, o tratamento analítico não cria a transferência, simplesmente a revela, como tantas outras coisas subjacentes à vida anímica (Freud, 1901/1996c). Não se deve crer que a análise cria a transferência e que esta ocorre somente nela. A transferência é apenas desvelada e isolada pela análise. É um fenômeno humano geral, decisivo para o êxito de toda influência analítica, que, inclusive, governa as relações de uma pessoa com seu ambiente humano (Freud, 1925/2011a). A transferência consiste em uma parcela de repetição, repetição do passado esquecido – transferência – não só para o analista, mas para todos os âmbitos da situação presente (Freud, 1914/2010a). O sujeito é, antes, levado a repetir o reprimido como vivência atual, em vez de, como preferiria o analista, recordá-lo como parte do passado – essa reprodução invariavelmente se dá no âmbito da transferência (Freud, 1919/2010b). Em outras palavras, “a transferência é a atualização da realidade do inconsciente” (Lacan, 1964/1988, p. 139).

Operando uma divisão sobre a incidência da transferência, Lacan (1964-1971/2003a) fornece a distinção entre dois conceitos: “trabalho de transferência” e “transferência de trabalho” (Kupermann, 2009; Manso, Jorge, & Alberti, 2016). O primeiro refere-se ao trabalho exercido no curso do processo analítico, entre o analisando e o analista, rumo ao final da análise, enquanto o segundo diz respeito à relação estabelecida entre os analistas, com a produção e transmissão de saber no campo da psicanálise (Kupermann, 2009). “O ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (Lacan, 1964-1971/2003b, p. 242).

A psicanálise carrega uma especificidade que a difere dos demais saberes, requisita algo para além de um ensino, necessita uma “transmissão” estabelecida em relação de transferência. As vicissitudes da transferência nas práticas de transmissão colocam em pauta o destino da transmissão da psicanálise e, inclusive, a sua “transmissibilidade”. A transmissão psicanalítica significa a transmissão de marcas, marcas de desejo, à medida que o psicanalista transmite a sua relação “singular” com a psicanálise. Assim, ocorre a transmissão de uma herança, de uma filiação, de um nome – o de Freud. Um ensino digno do nome de Freud consiste em resgatar ou restaurar a enunciação de um “desejo singular”. Ao transmitir a psicanálise, o psicanalista apresenta a forma pela qual se permite afetar pela doutrina freudiana, possibilitando que a psicanálise seja recriada e transmitida por via de uma herança, uma sucessão, que coloca em ato o desejo do analista e do analisando implicados na experiência de transferência. A transmissão possibilita a “recriação” da psicanálise (Almeida, 2006), recuando de um ensino dedicado apenas à “reprodução”. O futuro da psicanálise é traçado por sua transmissão e desejo contínuo de ocupar o lugar de psicanalista (Birman, 1997). Mediante um ato de criação, o sujeito imprime àquilo que herdou: as suas próprias marcas de desejo – imprime um desejo em ato, um desejo em palavras, isto é, um “desejo de analista” (Almeida, 2006). Marca expressa de um ensino que exige originalidade e trabalho na medida em que não se sustenta como ordenação de conhecimento, mas como ato – analítico, na transferência (Campos, 2011).

O que move a transferência de trabalho é o “desejo de saber”, sustentado pela impossibilidade do saber absoluto, que, na mesma medida, fomenta o “desejo do analista” e lhe permite conduzir uma análise. Enlaçar essa impossibilidade é a própria essência da produção, endereçada a um interlocutor seguinte que prosseguirá, dando mais um passo, na direção desse impossível (Jimenez et al., 1994). “Os seminários, inclusive ... não fundarão nada se não remeterem a essa transferência” (Lacan, 1964-1971/2003b, p. 242). Nos seminários em psicanálise, o que efetivamente se transmite não é aquilo que sabe o emissor, mas, sim, o que se deseja saber (Jimenez et al., 1994). Disse Freud (1914/2012):

A ideia pela qual me fizeram responsável não havia se originado em mim absolutamente. Ela me fora passada por três homens cuja opinião contava com meu profundo respeito: por Breuer mesmo, por Charcot e pelo ginecologista de nossa universidade, Chrobak, talvez o mais notável dos médicos de Viena. Todos os três me haviam transmitido uma percepção que, a rigor, eles próprios não tinham. Dois deles negaram essa contribuição, quando posteriormente lhes recordei isso, e o terceiro (mestre Charcot) provavelmente teria feito o mesmo, se eu tivesse podido revê-lo. Mas essas comunicações idênticas, que eu recebera sem compreender, dormitaram em mim durante anos, até que um dia despertaram como um conhecimento aparentemente original

(p. 183).

o referenciar seus mestres, Freud (1914/2012) alega que “. . . haviam transmitido uma percepção que, a rigor, eles próprios não tinham” (p. 183). A transmissão psicanalítica, por via da transferência de trabalho, atribui aos sujeitos um valor absolutamente secundário ao desejo de saber que os mobiliza. Não se trata da transmissão de um saber, mas de um desejo de saber, que necessariamente nos leva à leitura dos textos de Freud e Lacan, e não para aprender o que sabiam os autores, mas para apreendermos a impossibilidade do saber absoluto com o qual se confrontaram os nossos autores. A transferência de trabalho não trata da possibilidade de escrever, mas do endereçamento dessa produção. O produto se endereça a um interlocutor que possa levar a questão mais adiante, que possa dar mais um passo na direção do impossível (Jimenez et al., 1994).

Para ilustrar a operação posta pela transferência de trabalho, podemos recorrer ao processo exercido nos cartéis psicanalíticos. As autoras (Jimenez et al., 1994), ao abordarem a transferência de trabalho exercida nos cartéis, apontam que este, devido à sua estrutura, antecipa o que é consolidado apenas no momento final da análise, tratando-se do nascimento do “ser de saber”, sendo este o significante designado por Lacan para aqueles que reconhecem que a própria essência é o desejo e que o que é nomeável disso é o desejo de saber. Lacan nos dá como exemplo Freud e Marx, e as autoras acrescentam o próprio Lacan a essa lista. Os cartéis adquirem essa estrutura ao endereçarem o poder de agente à transferência de trabalho (Jimenez et al., 1994). A transferência de trabalho, como toda transferência, está fundada em uma demanda. Toda formação de cartel demanda, de maneira implícita, “ensine-me isto”, apesar de não a endereçar a um mestre. Devemos nos atentar para o fato de a existência dessa demanda ter maior importância do que sua resposta. O ensino da psicanálise é o que a clínica ensina, cada analista deve inventar sua própria clínica e tirar dela ensinamento. Assim, pode-se interpretar que a psicanálise não é transmissível. O cartel, enquanto lugar de uma transferência de trabalho, não constitui um lugar de ensino, mas um processo no qual se pode ensinar por acréscimo, por seu funcionamento em relação com o trabalho do inconsciente, informando sobre o ponto da transmissão do saber analítico e da formação de analistas (Attié, 1994). Cada cartelizante transfere seu trabalho com o estilo que lhe é próprio, com a sua relação singular com o trabalho. A proposta do cartel não é um “pronto-a-ensinar”, mas um produto inacabado, elaborado por cada um, posto em questão no e pelo cartel (Briole, 1994).

Através das colocações dos autores (Attié, 1994; Briole, 1994; Jimenez et al., 1994), relativas aos cartéis, é posta em cena a atividade da transferência de trabalho. Descrever a lógica de funcionamento dos cartéis é narrar a própria transferência de trabalho. Todavia, devemos nos relembrar que esse processo não se restringe aos cartéis, tratando-se, como aponta Kupermann (2009), da relação estabelecida entre os analistas, com a produção e transmissão do saber no campo psicanalítico. Logo, uma vez que a transferência de trabalho convoca um desejo de saber, sustentado pela impossibilidade do saber absoluto (Jimenez et al., 1994), os trabalhos transferidos são produtos inacabados, atravessados pelo estilo – singularidade – de quem os produziu, que demandam um passo a mais na direção desse impossível (Briole, 1994; Jimenez et al., 1994).

A transferência de trabalho, ao se referir ao vínculo estabelecido entre os analistas, com a produção e transmissão de saber no campo psicanalítico (Kupermann, 2009), respeita uma condição possível a todos aqueles transferidos com a psicanálise. O processo de transferência de trabalho expressa uma operação inerente à coletividade dos que estão inseridos nesse cenário de percurso pela doutrina freudiana. Diante da pertinência e operação que a transferência de trabalho exerce na produção, transmissão e prática da psicanálise, buscou-se investigar a implicação que o conceito – transferência de trabalho – exerce na produção psicanalítica, e não apenas o que a produção tem a dizer sobre o conceito. Ainda, considerando as especificidades inerentes à pesquisa psicanalítica, deparamo-nos com uma derradeira, e necessária, inquietação: onde, hoje, se produz efetivamente saber psicanalítico? (Kupermann, 2009).

Lacan (1964-1971/2003a, 1967/2003c) destaca as relações estreitas entre trabalho, formação, clínica, escola e transmissão. Para ele, a escola existe para garantir um trabalho, cujo objetivo encontra-se indissociável ao de uma formação. Com a máxima: “O ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (Lacan, 1964-1971/2003b, p. 242), testemunha-se as particularidades desse modelo de transmissão. Por que não bastar um ensino e o que permeia uma transmissão? Pergunta análoga ao porquê de transmitir-se apenas pelas vias de uma transferência de trabalho. Nessa locução “transferência de trabalho”, tensionam-se as articulações entre tratamento, formação, escola e transmissão tão íntimas à psicanálise. Nessa medida, ao trabalhar essa locução/conceito, inevitavelmente, desdobram-se tais articulações. Apesar da insistência na pertinência do conceito, interessantemente, Nominé (2016) aponta como Lacan (1964-1971/2003a) pouco falou em transferência de trabalho com essa possível única menção em seu “Ato de fundação”. Tendo isso em vista, como o conceito vem sendo trabalhado e como devemos acolhê-lo ao considerarmos sua relevância para questões fundamentais ligadas à psicanálise?

Método

Este trabalho diz respeito a uma revisão integrativa da literatura brasileira, de natureza básica e abordagem qualitativa, com o objetivo de explorar o conceito de “transferência de trabalho” em psicanálise.

Após buscas sem resultados significativos nas plataformas Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES –, Periódicos Eletrônicos de Psicologia – PePSIC – e Scientific Electronic Library Online – SciELO –, fez-se um levantamento bibliográfico a partir de busca avançada na plataforma Google Acadêmico. Foram utilizados como termos de busca “psicanalista”, “transmissão” e “transferência de trabalho”, com o operador booleano AND. O levantamento resultou em 437 artigos de periódicos acadêmicos. Como critério de inclusão, foram selecionados os artigos que tratavam das temáticas de trabalho de transferência, transferência de trabalho, transmissão em psicanálise e formação do analista em português brasileiro. Após a leitura dos resumos e removidas as duplicidades, foram demarcados 53 artigos. Com a leitura dos artigos, excluíram-se os que apontavam para a transferência de trabalho de maneira tangencial. Dessa forma, foram selecionados 31 artigos para a revisão.

A revisão integrativa foi estruturada em três categorias de análise: 1) o trabalho de transferência e a transferência de trabalho; 2) a transferência de trabalho e a transmissão em psicanálise; e 3) a formação do analista.

Resultados

O trabalho de transferência e a transferência de trabalho

O trabalho de transferência refere-se ao trabalho exercido no curso do processo analítico, entre o analisando e o analista, rumo ao final da análise, enquanto a transferência de trabalho diz respeito à relação estabelecida entre os analistas, com a produção e transmissão do saber no campo da psicanálise (Kupermann, 2009). A primeira incidência da transferência diz respeito ao “recordar, repetir e elaborar” (Freud, 1914/2010a) do analisante, à medida que a segunda se estabelece na articulação com os textos, entre pares, visando, coletivamente, ao que cada sujeito elabora de sua relação com a causa freudiana (Manso et al., 2016). Outrossim, Calazans e Neves (2010) fazem alusão ao trabalho de análise como trabalho de transferência e o trabalho teórico como transferência de trabalho. No entanto, a transmissão psicanalítica deverá estar sempre baseada na experiência clínica, a única transmissão analítica seria aquela que decorre da experiência baseada na transferência (Petry, 2006), pois, o que transmite uma análise é a própria psicanálise (Torres, 2016).

Há uma dupla referência do discurso freudiano – uma referência transferencial e uma referência ao saber – que firma a especificidade da psicanálise em relação a outros campos de conhecimento. Após o término da transferência na experiência analítica, os psicanalistas retomam o que foi neles depositado como transferência de trabalho e investem na teorização da psicanálise (Dör, 1993, Birman, 1997, citados por Petry, 2006). Não há uma “dissolução” da transferência, mas uma “transformação” do trabalho de transferência em transferência de trabalho, ou melhor, a transformação do amor em saber, em desejo de saber – desejo do analista (Pimentel, 2004, citado por Carlan, 2016).

A transferência restaura sua forma completa ao reportar ao “sujeito suposto saber” (Torres, 2016). No decorrer de uma análise, uma das funções do analista, enquanto sujeito suposto saber, consiste em permitir que o analisante continue desejando saber. Saber cada vez mais, ao passo que todos preferimos ignorar. Ao analista, compete-lhe querer saber. É um sujeito a quem se supõe que deseja saber. Mas, o que ocorre quando tropeçamos com o equívoco do sujeito suposto saber? Lacan postulou o equívoco do sujeito suposto saber como ponto fundamental a ser alcançado com o desenlace de uma análise – funda-se nisso o desejo do analista e o seu ato. Portanto, digamos que, com o final da análise, observamos que o analisante já não requer a presença de seu analista para vedar o equívoco do sujeito suposto saber. Ou seja, já não carece da presença de seu analista para pôr em ato a realidade do inconsciente, para escutá-lo, levá-lo em conta (Nominé, 2016).

A transferência de trabalho indica a transmissão de trabalho do analista para o analisando que, ao final da análise, não requer a presença do analista para prosseguir com seu trabalho analisante. Logo, a transferência de trabalho não aponta para que todos trabalhem na mesma direção, perpetuando um trabalho ideal, figura do Outro da transferência (Nominé, 2016). Com o final da análise, ocorre a queda do sujeito suposto saber (Torres, 2016). Dessa forma, o término da análise de um analista, em termos de atravessar identificações com o seu analista, com uma teoria, com um grupo ou com uma instituição, é um requisito para que se instaure uma transferência de trabalho (Fainstein, 2015).

No caso particular da análise do analista, cabe questionarmos a exigência de algumas instituições de que esta seja realizada somente com analistas dela. Assim, é feita a análise na maioria das instituições da IPA, apontando, em muitos casos, para a modulação da transferência com a instituição, com uma teoria e ainda com seus próprios valores e ideais (Fainstein, 2015). A psicanálise possibilita a superação da transferência do analista com a sua instituição de origem – escolas, instituições e sociedades onde se exerce a formação (Neto, 2010, citado por Cárdenas & Guerra, 2018). Lacan defendia que qualquer análise é uma análise didática, afirmando que toda análise produz um analista. Localiza o fim da análise como a passagem de analisante a analista apesar de isso não ser tudo o que está em jogo na formação (Torres, 2016). Todavia, se de uma análise resultará um analista, em outras palavras, se será didática, não saberemos antes de interrogar o sujeito, pois não há ensino sem sujeito (Gageiro, 2017), visto que “. . . o ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (Lacan, 1964-1971/2003b, p. 242).

A transferência de trabalho e a transmissão em psicanálise

Quais dispositivos estão em jogo na transmissão da psicanálise e quais efeitos isso traz para o campo psicanalítico? Na transmissão da psicanálise, acentua-se a figura daquele que podemos chamar de transmissor, como é visto nos bordões “Freud explica” ou “disse Lacan” (Vitorello, 2017). Isso revela tanto a origem da formação analítica quanto o seu próprio malogro de modo que a transmissão do saber psicanalítico é regulada pela transferência (Kupermann, 1996, citado por Vitorello, 2017). A transferência sustenta o trabalho analítico, assim como o andamento da comunidade psicanalítica e formação de analistas. O dispositivo analítico carrega um paradoxo, pois, como se tornar analista estando alienado ao Outro? (Vitorello, 2017). A transmissão psicanalítica pode ser vista como a maior ameaça para a própria psicanálise, caso o transmissor fortaleça a transferência ao invés de “dissolvê-la” (Roustang, 1987, citado por Vitorello, 2017), “liquidá-la” (Gageiro, 2017; Vitorello, 2017), ou melhor, “transformá-la” (Pimentel, 2004, citado por Carlan, 2016). Ou ainda, um possível “desenlace” da transferência, tal como o desenlace de um drama ou uma comédia. Desenlace da transferência em transferência de trabalho (Nominé, 2016). Em toda relação de mestre e discípulo, há uma relação de transferência (Roustang, 1988, citado por Vitorello, 2017). É o saber que está em causa na transmissão de modo que o discípulo possa se desvencilhar do mestre através do próprio saber, para não se tornar um eterno discípulo. Lacan buscou resolver o paradoxo, fazendo-o passar do terreno do trabalho de transferência para o da transferência de trabalho. Mas, qual transferência de trabalho se impõe? Aquela que trabalha para o mestre e perpetua a sua vontade e ensino, que se seduz na transferência e a alimenta? Caso seja, o efeito não seria outro senão o de transmissão dele e a perpetuação do discurso do mestre. Em uma psicanálise, a transferência deve se desenlaçar pela “dessuposição” de saber atribuída ao analista, para que a transferência de trabalho se torne o meio de acesso ao saber psicanalítico e seu fundamento ético (Nominé, 2016; Vitorello, 2017). O ensino em psicanálise coincide ou se une ao trabalho do psicanalista, pois trata de se colocar em uma posição distinta do mestre, que detém o saber e transmite conhecimento. Se há um ensino que transfere conhecimento, a psicanálise deve ir para além desse ensino e alcançar um ensino que transfira um trabalho (Oliveira & Neves, 2013). A transferência de trabalho é o verdadeiro laço entre os psicanalistas (Jorge, 2003, citado por Fontenele, Escudeiro, Nascimento, & Sousa, 2019).

O que move a transferência de trabalho é o desejo de saber que comparece com a aceitação da impossibilidade de saber absoluto – totalização do saber. Os sujeitos ocupam um valor absolutamente secundário ao desejo de saber que os move (Campos, 2011; Jimenez et al., 1994, citado por Lima & Paravidini, 2011). Deveria falar-se em transmissão e ensino “em” psicanálise, e, nunca, em ensino “da” psicanálise dada a impossibilidade de fechamento do seu discurso (Campos, 2011). A psicanálise resulta da lógica da transferência bem como do analista como sujeito, e não como um mero aplicador ou seguidor de técnicas. Qualquer um que se desafie a um ensino da teoria psicanalítica em instituições psicanalíticas ou universidades deve dispensar qualquer estratégia de sujeição dos alunos ao seu saber e sustentar a construção de uma transferência de trabalho (Petry, 2006).

A transmissão em psicanálise é o que articula o “saber ao não saber”, não se reduz ao mero ensino (Fontenele et al., 2019), remete o analista, ora à análise pessoal, ora ao ensino teórico, e, em ambos os casos, estabelece algo que é da ordem do singular (Jorge, 2006, citado por Fontenele et al., 2019). Em psicanálise, não há um saber prévio a ser aplicado em todos os casos, este se dá de um a um (Quinet, 2009, citado por Alves et al., 2017). Não há saber prévio, nem no campo teórico-clínico, nem sobre a questão de como se estabelece um analista. Trata-se sempre de um saber a ser construído (Quinet, 2009, citado por Vogelaar, 2018). Portanto, o saber psicanalítico não se dá por via do ensino didático. É sempre singular, constituído por aquele que o recebe, o produz e o sustenta. Sua transmissão ocorre na presença da transferência na escuta do outro (Alves et al., 2017). O ensino é sempre voltado para o enfoque de um saber sistematizado – teórico, dogmático ou pragmático – a ser preservado e passado às novas gerações em forma de estudo e pesquisa de conceitos da teoria e/ou de técnicas de saber fazer, enquanto a transmissão da psicanálise envolve, absolutamente, algo além do conceito e das técnicas do saber fazer (Castro, 2013). O que se transmite é um estilo, faz-se do sintoma um estilo (Figueiredo, 2008). O estilo marca um modo de transmissão e produção do sujeito (Vogelaar, 2018). O que se pode transmitir onde o estilo comparece inclui o sintoma do professor: ensinar. Deixar-se ensinar pela psicanálise, já que é esta quem nos ensina (Figueiredo, 2008).

No “Ato de fundação” de sua Escola, Lacan (1964-1971/2003a) propõe um sintagma de vasto interesse para essa questão: “. . . o ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (p. 242) – há lugar para a transferência de trabalho como prolongamento da própria transmissão da psicanálise, sendo esta o único meio de ensiná-la (Alberti, 2004). A transmissão da psicanálise se faz a partir da formação analítica e da análise pessoal, seja em uma escola de psicanálise, clínica, instituição ou universidade (Chatelard, 2016). A transmissão em psicanálise é única e tão somente a transmissão de uma experiência analítica e, portanto, pertence ao campo do testemunho (Pimentel, 2004, citado por Carlan, 2016). O analista que transmite a teoria psicanalítica tem de ser causado, fisgado pela psicanálise, mas, simultaneamente, deve dispor de uma transferência esclarecida com o autor, cujo pensamento pretende transmitir, pois, sem isso, a transmissão se esvazia. É só com a transferência com o autor e com a psicanálise que surgirá a transmissão, não de um saber enquanto consolidado, mas da emergência de questões subjetivas e clínicas. Isso posto, a transmissão privilegia a causa ao invés de um saber constituído (Motta, 2016).

É imprescindível que a escolha pela docência, quando feita pelo analista, seja marcada pelo desejo; escolha prudente, capaz de construir um trabalho exercido a partir do desejo e orientado por uma ética. É indispensável que o analista, uma vez transmitindo da posição de docente, torne isso o seu “dever desejante”, como gostava de assinalar Emílio Rodrigué, para que promova a transferência de trabalho, sabendo que a sua função é conceder as condições para que o outro aprenda, para que o outro assuma o obstáculo de, por sua vez, convocar o seu desejo e se permitir mobilizar (Andrade Filha, 2012). Ensinar se inclui, ao lado de governar e curar – analisar – entre os três ofícios impossíveis indicados por Freud (Andrade Filha, 2012; Ferreira, 2018; Freud, 1925/2011b). Atuar como professor é um exercício que se torna muito árduo se feito sem a motivação advinda do desejo, se feito apenas sob o imperativo de ser uma prática como “outra qualquer”, pela qual se pode conquistar algum dinheiro para viver (Andrade Filha, 2012).

Os seminários, inclusive, não fundarão nada se não remeterem a essa transferência (Gageiro, 2017; Lacan, 1964-1971/2003b). O analista que propõe o seminário assim como os participantes se encontra na posição de analisantes causados pela teoria. Para que a proposta vá além da expectativa de transferência de saber, convoca-se a produção de todos os que compõem o seminário. Não se trata da transmissão – por mestria – de um saber consolidado, com todos os riscos de fascínio e identificações imaginárias, mas de uma transmissão passível de suscitar questões singulares e clínicas, que levam a um estado de livre associação e perlaboração conceitual. Os seminários são vividos em uma relação horizontal de espaço de trabalho com o texto, enquanto transferência de trabalho dos sujeitos com os conceitos fundamentais (o que não exclui momentos de ensino formal). Permitem, em uma instituição, um lugar de questionamento da hierarquia institucional – superação do “supereu” institucional – contribuindo, assim, para a elaboração de um processo que busca, ao contrário do assujeitamento, a singularidade. Essa transmissão por uma transferência de trabalho com o texto, exige de cada sujeito, inclusive daquele que coordena o seminário, um se deixar causar pelos conceitos. É essa função de causa que faz do texto uma matéria-prima aberta a renovadas leituras, que o convoca a ser inquirido e reinquirido. Logo, não se trata apenas de uma elaboração conceitual, mas de um trabalho, uma perlaboração, que possa fornecer aos conceitos um potencial teórico-clínico (Motta, 2016).

A formação do analista

A psicanálise não se utiliza de um universo de conhecimento a ser ensinado – no sentido universitário – e nem permite a noção de formatura do psicanalista (Campos, 2011). O tripé da formação analítica corresponde à análise pessoal, ao debate teórico e à supervisão de casos clínicos. Uma escola de psicanálise interessa ao seu ensino, à sua transmissão (Chatelard, 2016). Essas instituições, desde Freud constituídas como responsáveis pela transmissão da psicanálise, desempenharam e continuam desempenhando um papel fundamental não apenas no que se refere à formação de novos analistas, como na promoção de debates, encontros e desencontros que mantêm a psicanálise viva (Lhullier et al., 2018). A instituição é onde a psicanálise em intensão – prática analítica – está em continuidade com a psicanálise em extensão – transmissão da psicanálise (Pimenta, 2012). Retira-se a psicanálise do lócus restrito dos consultórios, oferecendo sua prática e ética do “bem-dizer” aos demais dispositivos. O inconsciente singular de cada sujeito perpassa pelo laço social através de uma estrutura discursiva, na qual a experiência psicanalítica se apoia (Chatelard, 2016). A transmissão da psicanálise em uma sociedade de formação de analistas, exige, de seus membros, uma contínua elaboração dos impasses inerentes à relação do discurso psicanalítico com a institucionalização da psicanálise. Igualmente, deve-se considerar que todas as instâncias da formação analítica são atravessadas por identificações, idealizações, resistências, injunções superegoicas e tantas outras questões pertinentes ao próprio processo de transmissão (Motta, 2016). A transmissão ultrapassa o ensino ao passo em que se dá mais adiante, na análise de cada sujeito, na supervisão em que o analista dá testemunho de sua clínica (Figueiredo, 2008); portanto, “a psicanálise não se aprende só na escola” (p. 241).

A transmissão de saber em psicanálise tem em vista a dimensão da falta, do que escapa, de modo que acaba por romper com o ideal universalizante da ciência (Miller, 1999, citado por Freire & Bastos, 2010, citados por Coutinho et al., 2013). O saber construído na universidade orienta-se pelo discurso científico, pela aposta da ciência de que o conhecimento é capaz de revestir a verdade da experiência. A psicanálise, por sua vez, acentua, a todo instante, uma outra lógica, direcionando-se sempre para a incompletude do saber, para o reconhecimento de que a verdade tem valor de mito, uma vez que não pode ser toda dita (Andrade Filha, 2012). Ela propõe que trabalhem a partir de seu “não-saber” de modo que, na transferência de trabalho, a participação na falta é o que incita o trabalho (Soler, 2016, citado por Ferreira, 2018). Logo, o que movimenta a formação de um analista não é a insistência da transmissão de um saber dado, um saber posto, mas a transmissão de uma experiência sustentada por um furo no saber (Torres, 2016). A dimensão do discurso universitário convencional propõe um saber universal e possível de ser alcançado, insistindo sobre um conhecimento independente do sujeito que o produz e, consequentemente, do desejo que o orienta (Ferrari, 2010, citado por Coutinho et al., 2013). No entanto, o ensino em psicanálise nas universidades assim como em instituições psicanalíticas deve ser marcado pela transferência de trabalho. O ensino é transmitido através da transferência, passível de ocorrer em uma universidade, ainda que não substitua a instituição psicanalítica (Alberti, 2004, citado por Coutinho et al., 2013). O psicanalista pode prescindir completamente da universidade, mas a universidade só tem a ganhar com a inclusão da psicanálise em seus currículos (Andrade Filha, 2012; Freud, 1919/2010b).

Freud (1919/2010c) alerta para o fato de que ensinar a psicanálise na universidade não é a mesma coisa que formar um psicanalista, mas, sim, fazer com que o estudante aprenda algo a partir da psicanálise (Lhullier et al., 2018). Aprender na universidade algo da psicanálise pode ser pensado em termos de uma oportunidade para a ocorrência de uma transferência de trabalho com um professor, resultando, talvez, em um interesse do aluno pelo seu próprio inconsciente (Fontenelle et al., 2011, citados por Lhullier et al., 2018). Isso seria o primeiro passo para a transmissão, que se inicia sempre com o reconhecimento da existência do inconsciente, a começar pelo seu. O contato com o material que a psicanálise traz pode vir a instigar o aluno ao estudo e ao acesso a uma verdade subjetiva, que tenha a ver com a dimensão do desejo (Lhullier et al., 2018). A psicanálise na universidade imprescinde a incidência da transferência e o fato de que há o impossível. Psicanalistas, professores e pesquisadores que trabalham na universidade não podem dispensar o trabalho de transferência, a transferência de trabalho e a insurgência do impossível. Caso contrário, não transmitirão o que pode a psicanálise na universidade (Manso et al., 2016).

Embora alguns autores coloquem em xeque esse posicionamento, há um consenso de que a formação em psicanálise deve ser exercida nas instituições (escolas) psicanalíticas (Coutinho et al., 2013). Todavia, a universidade é um lugar de subversão das estruturas discursivas de modo de que o analista pode fazer valer o sujeito em sentido contrário ao discurso universitário (Alberti, 2010, citado por Coutinho et al., 2013) assim como, nas instituições psicanalíticas, o discurso universitário pode fazer-se presente, tal como nas análises didáticas e na titulação outorgada pela instituição, o que foi combatido por Lacan em sua época. A transferência de trabalho permite que a produção da psicanálise persista como discurso que subverte o discurso dominante (Alberti, 2010, citado por Cárdenas & Guerra, 2018), possibilitando o advento do discurso do analista, para que se insira o sujeito do desejo nas amarrações com o saber presente na transmissão (Alberti, 2004, citado por Coutinho et al., 2013). Ainda, a psicanálise se constrói na dimensão da pesquisa, reformulando-se continuamente, como atesta o extenso legado de Freud e dos que vieram posteriormente e sustentaram a possibilidade de transmissão da psicanálise, dentro e fora da universidade. Seu caráter inacabado permite dizer que, na universidade, lócus tradicional da pesquisa, a psicanálise pode aí também ser reformulada e reinventada (Fonteles, Coutinho, & Hoffmann, 2018).

A princípio, para praticar a psicanálise, bastava instruir-se pela leitura dos trabalhos publicados por Freud. Com a fundação da International Psychoanalytical Association – IPA, Ferenczi defende a ideia de que quem buscasse ser analista deveria submeter-se à análise. Posteriormente, em 1923, com o diagnóstico do câncer de Freud, houve certo pânico no meio dos analistas por suporem que Freud pudesse morrer logo. Assim, apressou-se em formalizar o processo de formação dos analistas, cabendo à clínica de Berlim propor o famigerado tripé: análise didática, supervisão e cursos até hoje mantidos pela IPA. Apenas em 1964, com a “excomunhão” de Lacan e a fundação de sua Escola, surgiu uma nova proposta em termos da formação do analista. Lacan propôs que um analista só se produz a posteriori, ao final de sua análise, caso emerja o “desejo de analista” – que de forma alguma se confunde com o desejo de “ser” analista (Pimenta, 2006).

Após ser impedido de ser analista didata na IPA, Lacan desprendeu-se desta. O impedimento que lhe foi imposto não o restringia de frequentar as aulas e os eventos que lá aconteciam, mas o proibiam de se envolver com o elemento fundamental de uma escola de psicanálise: a formação de analistas (Prado, 2018), em um momento que tornar-se psicanalista consistia praticamente em ser e pensar como um analista didata (Azevedo, 2008, citado por Prado, 2018). A interdição de ser analista didata expressa uma posição política da IPA, que o impossibilitava de ocupar-se do futuro da psicanálise. Envolto por isso, Lacan decidiu eclodir-se de seu vínculo com a IPA e, em junho de 1964, escreveu o “Ato de fundação” de sua Escola. Nesse movimento, propôs que, no âmago da Escola, estariam duas formas singulares de vivenciar e transmitir a experiência psicanalítica: o passe e o cartel (Prado, 2018). Com a fundação de sua Escola, Lacan criou os dispositivos do cartel e do passe como pilares de sustentação ainda que o dispositivo do passe – dispositivo institucional criado para a verificação do final de análise e do desejo de analista – não tenha sido aceito unanimemente entre os lacanianos (Pimenta, 2006; Vogelaar, 2018).

Sua noção de formação do analista é marcada por um ineditismo provocativo, uma vez que os dois dispositivos por ele propostos partem da premissa de que “. . . o ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (Lacan, 1964-1971/2003b, p. 242; Prado, 2018). O cartel, esse dispositivo de transmissão, é descrito como “órgão de base” do funcionamento de sua Escola (Ferreira, 2018). É uma concepção de formação radicalmente distinta da que até então era imposta. Em sua Escola, o trabalho seria sustentado por pequenos grupos circulares e sem uma hierarquia presente. Advertido do que não gostaria em que sua Escola se transformasse, Lacan estabeleceu algumas premissas para o funcionamento de um cartel com o intuito de evitar os efeitos grupo, mestria e unidade, que tendem a ocorrer quando pessoas trabalham juntas (Prado, 2018). Para a atividade do trabalho, adotou-se o princípio de uma formação apoiada em um pequeno grupo. Cada um deles é composto por, no mínimo, três sujeitos e, no máximo, cinco, sendo quatro a justa medida, no qual mais um é encarregado da seleção, da discussão – provocação – e do destino do trabalho de cada um. Após um certo tempo de funcionamento, os componentes do grupo terão como proposta a partilha de seus trabalhos (Lacan, 1964/2003d, citado por Prado, 2018).

A implicação com a formação ocorre pela via do trabalho de modo que a singularidade seja levada em conta nesse processo. Essa implicação não se dá da mesma maneira para todos os cartelizantes assim como o atravessamento de cada um com essa prática. No cartel, a singularidade está em questão desde a inquietação – teórica e/ou clínica – de cada um quando decide se envolver com o tema que norteará o cartel pelo compromisso com o processo e no compromisso de compartilhar os trabalhos com a comunidade analítica (Prado, 2018). Para tanto, a proposta é de um arranjo lógico composto por 4+1, em que os componentes do cartel se reúnam em torno de um tema, que atuaria como elo entre o pequeno grupo, apresentando um fundamento de trabalho que simultaneamente particulariza a questão e circunscreve o grupo, uma vez que os membros estão articulados por uma tarefa, a produção de saber (Ferreira, 2018). No entanto, apesar de necessárias, as condições para que o cartel ocorra, não são garantia de determinado caminho ou determinada produção. Elas possibilitam a suspensão necessária para que algo de inédito possa acontecer, e essa, sim, aparenta ser a proposta de Lacan ao criar esse dispositivo (Prado, 2018).

Considerações abertas

Temos três formas lacanianas de se referir à transferência: “atualização da realidade do inconsciente”, “sujeito suposto saber” e, este dizer, “transferência de trabalho” (Torres, 2016). A locução “transferência de trabalho” merece esclarecimentos. Costuma-se abordar a transferência de trabalho como desenlace habitual da transferência e como laço entre colegas na comunidade psicanalítica. Lacan (1964-1971/2003a) pouco falou em transferência de trabalho, com uma possível única referência (Nominé, 2016), no “Ato de fundação” de 1964: “. . . o ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (p. 242). Acrescentando que os seminários, inclusive os seus, “não fundarão nada se não remeterem a essa transferência” (Lacan, 1964-1971/2003b, p. 242; Nominé, 2016). A transferência de trabalho, versada em âmbito lacaniano, não permite a submissão dos sujeitos a fenômenos de massa, como identificação ou sujeição a ordens superegoicas. A transferência de trabalho é outra coisa que a transferência às obras de Freud e de Lacan. Não basta supor o saber a Freud ou a Lacan e se apoiar em seus trabalhos para que haja uma transferência de trabalho. Deve-se, primeiramente, apoiar-se em seu próprio trabalho, fundado na transferência instituída em seu percurso na psicanálise (Nominé, 2016). São vastos os apelos que incitam uma expectativa de mestria e de sutura entre saber e verdade. Se a questão do “sujeito suposto saber” é uma ilusão por vezes necessária e constitutiva da transferência e do processo analítico, trabalha-se na direção de uma “dessuposição” de saber, que leve, por sua vez, a uma produção de saber mais que a um investimento de saber no Outro. São movimentos que consistem, de forma fundamental, da análise de quem se propõe a ocupar esse lugar de analista e que passa, de forma essencial, pela análise do desejo de ser analista (Motta, 2016).

Situação sublinhada por Lacan (1967/2003c) em sua “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, na qual afirma com todas as letras: “No começo da psicanálise está a transferência” (p. 252), para, em seguida, pontuar como “O sujeito suposto saber é, para nós, o eixo a partir do qual se articula tudo o que acontece com a transferência” (p. 253). Com a passagem pelo final da análise e “. . . desenlace de sua experiência pessoal” (Lacan, 1967/2003c, p. 261), para o futuro psicanalista, “. . . revela-se o inessencial do sujeito suposto saber . . .” (p. 259), por este reconhecer que a própria essência é o desejo (Jimenez et al., 1994), e, “Assim, o ser do desejo une-se ao ser do saber . . .” (Lacan, 1967/2003c, p. 260). União que aferimos a partir de Jimenez et al. (1994) como a significação do “desejo de saber”. Para Lacan (1967/2003b) “Tocamos aí na futilidade do termo liquidação com respeito a este furo, somente onde se resolve a transferência. Só vejo nisso, ao contrário das aparências, a denegação do desejo do analista” (p. 360). Pois, “. . . a transferência nunca foi senão o pivô dessa própria alternância” (p. 360). Portanto, quanto ao destino da transferência, não há liquidação, mas resolução que deixa um resto (Bittencourt, 2013). Aqui, Lacan (1967/2003b) aponta para o desenlace da experiência analítica, desenlace/alternância da transferência em desejo do analista. Tal como o desenlace da transferência em transferência de trabalho (Nominé, 2016). Não há liquidação da transferência, mas uma transformação do trabalho de transferência em transferência de trabalho, ou seja, transformação do amor em saber, em desejo de saber: eis aí o desejo do analista (Pimentel, 2004, citado por Carlan, 2016).

Mas, e o conceito de transmissão? Muitas vezes, supomos ensino e transmissão como se fossem sinônimos. Porém, o que assegura a transmissão quando se ensina? (Vogelaar, 2018). A transmissão em psicanálise é, antes de tudo, ética (Castro, 2013; Vogelaar, 2018). Transmite-se um estilo, que marca um modo de transmissão e produção do sujeito (Vogelaar, 2018). A ética da psicanálise não é ensinável, a transmissão da psicanálise é uma experiência singular que exige a colocação em cena do sujeito para, a partir daí, o percurso ser feito através do que ele se desfará durante o percorrer e, mais ainda, do que lhe restará a carregar (Castro, 2013). A transmissão em psicanálise e a formação do psicanalista compreendem uma dimensão, cujo lastro seria a ética decorrente do desejo de analista (Fontenele et al., 2019). Nesse sentido, é necessário recusar veementemente os vícios que acompanham o processo de institucionalização da psicanálise, esvaziando os sintomas que transformariam a liturgia acadêmica em um rebatimento dos compromissos que, usualmente, têm lugar nas associações psicanalíticas (Kupermann, 2009).

Quando o analista se mete ou se dispõe a ensinar o faz a partir da posição do sintoma, em posição correlata à do psicanalisante, daquele que demonstra o seu sintoma – ensinar – todavia, fazendo valer o seu estilo: “ao se oferecer ao ensino, o discurso psicanalítico leva o psicanalista à posição do psicanalisante, isto é, a não produzir nada que possa dominar, malgrado a aparência, a não ser a título de sintoma” (Lacan, 1970/2003a, p. 310); “Essa via é a única formação que podemos pretender transmitir àqueles que nos seguem. Ela se chama: um estilo” (Lacan, 1957/1998b, p. 460). Cada um deve inventar a sua solução enquanto agente desse destino singular que seu inconsciente determina (Bittencourt, 2013). Assim se transmite algo sustentado pelo real do sintoma (Fernandes, 2017).

A lição que o ensino lacaniano nos transmite é que um analista não se produz com a mera troca de informações ou em qualquer prática que não implique a construção de um saber. Essa operação, por se basear num saber mais do que em um conhecimento, devemos nomear, com Lacan, de transmissão. Portanto, preterimos todos os métodos de ensino, que buscam transmitir informações, aos métodos de ensino que buscam transmitir trabalho (Oliveira & Neves, 2013). A formação de novos analistas não é análoga à simples aprendizagem de conceitos psicanalíticos ou de uma técnica de trabalho. O ensino desses conceitos ou do que poderia ser considerada uma técnica psicanalítica nunca foi, nessa medida, considerado suficiente para a formação de analistas embora não tenha sido abandonado pelas instituições psicanalíticas – ensino necessário, porém insuficiente (Petry, 2006). Na formação em psicanálise, é importante que haja laço – laço entre analistas, laço de cada psicanalista com a sua própria formação e laço com quem se aproxima, que busca formação. Lacan deu um nome para isso: transferência de trabalho (Torres, 2016) ainda que não tenha tratado muito dessa forma de associação entre psicanalistas (Dunker & Kyrillos Neto, 2014; Torres, 2016). No “Ato de fundação” de 1964, Lacan (1964-1971/2003a) assinala: “Fundo – tão sozinho quanto sempre estive em minha relação com a causa analítica” (p. 235). Mas, se a relação com a causa analítica é solitária e singular, o discurso analítico requer o coletivo como consequência da transferência de trabalho (Pimenta, 2012).

Lição essa que marca a história de Lacan e de sua Escola, e, notavelmente, franqueia sua importância para a formação em psicanálise. Lacan, em 1964, fundou – tão sozinho quanto sempre esteve em sua relação com a causa psicanalítica – a Escola Francesa de Psicanálise, posteriormente renomeada Escola Freudiana de Paris (Lacan, 1964-1971/2003b). Na intenção lacaniana, este título – Escola Freudiana de Paris – representa o organismo em que deve realizar-se um trabalho, cujo objetivo é indissociável de uma formação. Para Lacan, a Escola existe para garantir um trabalho. Para ele “. . . a pior objeção que se pode fazer às sociedades da forma existente é a cessação de trabalho . . .” (p. 242). Seguidamente, declarou sua citada assertiva, na qual “O ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (p. 242), tal como que os seminários não fundarão nada se não remeterem a essa transferência. Dessa fundação, podemos sublinhar, sobretudo, a sua relação com o ensino. Diremos que, por mais competentes que sejam os que estiverem em condições de debater esse ensino, a Escola não depende dele, nem tampouco o dispensa, posto que ele se desenrola fora dela.

Todavia, em 1980, sem a menor esperança, especialmente de se fazer ouvir, Lacan (1980/2003a) redigiu a “Carta de dissolução” de sua Escola. Confessa: “Há um problema da Escola . . .” (p. 319): a Escola teria se instalado como Instituição. Declara bastar que um vá embora para que todos fiquem livres e ser preciso que seja ele em sua Escola. Em suas palavras:

Resolvo-me a isso pelo fato de que ela funcionaria, se eu não me colocasse de través, na contramão daquilo pelo qual fundei . . . Eu os abandono a fim de que eles me mostrem o que sabem fazer, afora me estorvarem e fazerem desandar um ensino em que tudo é sopesado. Farão melhor os que eu admitir comigo? Ao menos poderão prevalecer-se de eu lhes dar essa chance

(pp. 3019-320).

Em nome de um trabalho, Lacan (1980/2003a) declara a sua saída, para que seus discípulos lhe mostrem o que sabem fazer. Roudinesco (2011) nos indica como a súmula dos seus escritos funcionou como uma bíblia comentada oralmente por seus discípulos. Ainda assim, Lacan (1980/2003a) abraça integralmente a responsabilidade e insiste não ser obra de seus discípulos que sua Escola teria vindo a se tornar uma Instituição. Lacan dissolveu sua Escola para que o discurso esperado da experiência analítica prevaleça sobre o efeito de grupo, para que o trabalho prevaleça sobre o sintoma de assegurar a manutenção do pensamento em sua totalidade. Pois, Lacan (1956/1998) não pretendera um ensino que, por não passar de repeteco, é do ensino tradicional uma cópia supérflua.

Portanto, acolhe-se a afirmativa de que “O ensino da psicanálise só pode transmitir-se de um sujeito para outro pelas vias de uma transferência de trabalho” (Lacan, 1964-1971/2003b, p. 242) como um aceno para que a transferência se desvie de seu sentido clássico freudiano – reedição, reprodução, repetição (Freud, 1901/1996c) – e ganhe um novo trabalho. Não mais somente incumbida com o papel de ser o “veículo da influência médica” (Freud, 1925/2011a, p. 103), mas, ainda, de ser a “verdadeira mola impulsora do trabalho analítico em conjunto” (p. 103). Em sua “Autobiografia”, Freud (1925/2011a) está se referindo ao “trabalho analítico em conjunto” como o citado “trabalho de transferência”. Interessantemente, a frase se aplica acertadamente à transferência de trabalho introduzida décadas à frente por Lacan. A transferência de trabalho é a verdadeira mola impulsora do trabalho analítico em conjunto, verdadeira mola impulsora do trabalho de formação e transmissão.

Roudinesco (2011) disserta sobre a pretensão lacaniana de tornar-se porta-voz de uma reforma, uma revolução, uma renovação, reconhecendo o pensamento lacaniano como digno de tal renovação da doutrina freudiana. A transferência de trabalho posta em cena por Lacan, ainda que pautada em suas convicções sobre Escola, trabalho e formação, apresenta uma possível única menção, como é apontado por Nominé (2016), todavia desdobra-se na letra de seus sucessores pelo próprio exercício da transferência de trabalho. São testemunhadas as relações íntimas e indissociáveis entre transferência de trabalho e desejo de saber (Jimenez et al., 1994), transmissão, reinvenção e recriação da psicanálise (Almeida, 2006; Jorge, 1987), desenlace da transferência em transferência de trabalho (Nominé, 2016) e insubordinação ao discurso do mestre (Nominé, 2016; Vitorello, 2017). A transferência passa de mera reedição, reprodução, repetição, para um trabalho de reinvenção, recriação, renovação.

Lacan (1980/2003a) nos alerta sobre a lamentável possibilidade de o grupo psicanalítico vir a resultar-se em sintoma, de mesma natureza daqueles que achamos em grupos religiosos, incitada pela manutenção da soberania e completude do pensamento teórico. Roudinesco (2011), igualmente, adverte sobre os riscos do repeteco – comentar como bíblia – para o trabalho proposto por Lacan. Logo, podemos admitir, como a Escola, existente para garantir um trabalho (Lacan, 1964-1971/2003b), se dissolverá caso o efeito de grupo prevaleça em desfavor da transferência de trabalho, ou pior, resultará em mero sintoma desse mesmo efeito. À medida que Lacan (1964-1971/2003a) propõe a transferência de trabalho como a única via de transmissão da psicanálise, insiste na incessante renovação da letra freudiana, possível apenas pela insubordinação à repetição subserviente ao discurso do mestre e pelo incansável desejo de saber partilhado pela comunidade analítica. Nessa perspectiva, a transferência de trabalho é imprescindível para que a psicanálise continue a ter algo novo a dizer; para que suceda um “Para-além”, tal como aquele proposto por Freud e por Lacan.

Referências

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3Berchtesgaden, verão de 1908.

4 Lacan não era propriamente adepto quanto à análise de Freud: “A auto-análise de Freud era uma writing-cure , e eu creio que foi por isso que falhou. Escrever é diferente de falar. Ler é diferente de escutar. A writing-cure , não acredito nela” (Lacan, 1975, citado por Vidal, 2010 , p. 478). “Refiro-me ao próprio Freud, que com isso sanciona não ter feito uma auto-análise” (Lacan, 1967/ 2003c ).

Recebido: 03 de Abril de 2023; Aceito: 30 de Janeiro de 2024; Revisado: 05 de Janeiro de 2024

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