Introdução
A humanidade resiste no tempo por meio da cultura e suas transmissões simbólicas datadas antes mesmo da concepção evolutiva do Homo sapiens. Seja por meio da arte, da ciência ou mesmo pelas vias religiosas, há uma inegável presença do caráter histórico que testemunha o esforço da espécie em se manter viva e unida, atestando sua cisão com a natureza e a constante luta entre a vida e a morte. A cultura surge desse processo como possibilidade de resguardar a vida e apaziguar o medo do encontro com o diferente, em contraste com a morte.
Sobre o meio pelo qual os homens se ligam em coletividade, Freud (1930/2020) utiliza o “poder do amor” para pensar um modo de evitar a desintegração da cultura e o retorno aos estados de barbárie. Para ele, a oposição entre natureza e cultura é algo insolúvel. De um lado, Eros nos lembra da promessa de uma gratificação frente ao adiamento das satisfações instintuais primárias; do outro, a realização social das necessidades e do trabalho não são suficientes para promover uma ligação libidinal nas massas, pois “esse programa de cultura opõe-se à pulsão de agressão natural dos seres humanos, a hostilidade de um contra todos e de todos contra um” (p. 304).
De modo geral, Eros e Ananke4 apontam para polos opostos, ainda que ambivalentes, de progresso ou desintegração da sociedade. Na constituição dos sujeitos, a própria cultura e a linguagem compõem-se também da pulsão – desviante, irrepresentável, situada na fronteira entre o somático e o psíquico (Freud, 1920/2010). Nesses termos, o conceito de pulsão articula-se à ideia de instinto, diferenciando-se mais deste do que constituindo uma entidade conceitual unívoca.
Freud (1920/2010) sugere que o desenvolvimento do psiquismo ocorreu em resposta às pressões externas ao organismo. Ao longo da evolução, o corpo encontrou formas mais frágeis e mortais de existir, o que exigiu uma organização capaz de se estruturar coletivamente, superando os desígnios neuroquímicos de satisfação e alívio individual das tensões. A pulsão seria, assim, uma perversão do instinto, que, ao não se realizar em sua meta – o completo alívio das tensões – se tornaria inibida, incapaz de alcançar total satisfação, mas ainda sim persistente. Em outras palavras, a desnaturalização da pulsão faria com que ela se tornasse para sempre parcial de maneira que apenas sua reminiscência fantasmática, sua representação, possa ser presentificada no psiquismo.
Segundo Freud (1920/2010), o psiquismo resulta de uma estratificação elevada do organismo frente ao adiamento das formas primordiais de satisfação. Em sua formulação sobre o dualismo pulsional, Freud sugere que a vida humana oscila entre a rememoração da satisfação absoluta e a eliminação das tensões conforme o princípio do prazer se transforma em princípio de realidade. Como acentua o autor, o funcionamento do psiquismo é inicialmente regido por um diferencial básico entre o princípio de Nirvana (ou constância), um estado de perfeito equilíbrio anterior à vida, e o princípio do prazer, derivado daquele, cuja exigência libidinal se forma por meio dessa primeira perturbação em reminiscência a um estado ausente de inquietações.
Conforme Garcia-Roza (1986), o avanço freudiano na segunda tópica da teoria das pulsões permite afirmar que, embora a pulsão se apoie no instinto, ela é anárquica por natureza, uma vez que o nirvana freudiano se opõe à própria vida e esta é assumida como “rompedora da paz”. “A pulsão de morte é, pois, a pulsão por excelência, ‘a primeira pulsão’” (p. 57), tendo em vista a persistência do organismo em retornar ao estado inanimado. Isso que se revela mais primitivo, elementar e pulsional que o próprio princípio do prazer é o que Freud (1920/2010) compreende como pulsão de morte.
Além disso, Garcia-Roza (1986) também ressalta o caráter metodológico em torno do modo como esse dualismo pulsional é pensado. Não se tratando de uma categorização ontológica entre uma pulsão ou outra, o autor nos convida a refletir acerca dos “modos de ser” da pulsão. Nessa perspectiva, Freud (1920/2010) concebe a compulsão à repetição como advinda qualitativa e quantitativamente do ponto diferencial entre prazer e desprazer. Em oposição a um estado pulsional de pura dispersão de energia, a repetição exercida pelos sujeitos constitui-se do que há de sexual nestes em uma tentativa de significação e integração disso que foi para sempre perdido e se situa, portanto, além do princípio do prazer.
Em suma, a pulsão de vida não busca evitar de todo a morte, mas se precaver para que esta não ocorra de modo não natural, resultando daí a máxima freudiana de que “o organismo pretende morrer apenas a seu modo” (Freud, 1920/2010, p. 150). Percebe-se, portanto, que o diferencial prazer-desprazer, a compulsão à repetição e os modos eróticos e destrutivos da pulsão emergem em seu caráter socialmente organizador.
Diante disso, este artigo tem como objetivo explorar a retomada do tema das pulsões na obra de Sigmund Freud, especificamente no contexto do advento da cultura, conforme exposto em “Além do princípio de prazer” (Freud, 1920/2010) e “O mal-estar na cultura” (Freud, 1930/2020), e sua releitura pelos teóricos da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse. Para isso, será realizada uma revisão bibliográfica detalhada dessas obras e das interpretações frankfurtianas além de uma análise literária do conto “Transformações”, de Caio Fernando Abreu (1982/2016), buscando identificar como a narrativa testemunha a reincidência dos temas das pulsões.
A metodologia adotada envolverá a utilização da literatura como testemunho da mediação entre a estrutura social e a dinâmica pulsional como argumentado por Viana e Franciscatti (2015), destacando o desencontro entre o universal e o particular, a fruição erótica e sua renúncia, e a experiência reificada versus o exercício da capacidade imaginativa. Ao final, pretende-se sintetizar os achados, comparando as ideias de Freud com as interpretações dos frankfurtianos e a representação literária de Abreu (1982/2016), discutindo o impacto dessas tensões na compreensão contemporânea das relações entre indivíduo e sociedade.
Desde “O poeta e o fantasiar”, Freud (1908/2015) já apontava para a literatura como um dos resíduos das fantasias de toda uma cultura. Posteriormente, em “O infamiliar” (Freud, 1919/2019), ela é assumida pelo psicanalista como um âmbito capaz de prover efeitos inquietantes às muitas possibilidades não encontradas na vida. Às vistas das elaborações do filósofo alemão Theodor W. Adorno, consonantemente, os desígnios opressivos à pulsão podem encontrar na arte um viés de testemunho ao sofrimento, uma vez que esta se revela como esfera privilegiada de mediação entre objetividade e subjetividade (Viana & Franciscatti, 2015).
Nesse contexto, o estudo da relação entre a potência erótica da criação literária e as forças que mobilizam o escritor permite explorar os imperativos contemporâneos de apreensão e experimentação da realidade objetiva. Além disso, ele elucida maneiras viáveis de recuperar as representações de Eros, enfrentando sua irreconciliável contradição com a pulsão de morte, que é uma grande responsável pelo mal-estar. Um excerto literário que ilustra o tema discutido é o conto “Transformações”, de Caio Fernando Abreu, presente na obra “Morangos mofados”, de 1982. O autor descreve esse conto como uma fábula, atribuindo características vivas e suficientemente humanas a uma coisa – no caso, a Grande Falta. Frente a essa figura, cujo fundo e superfície refletem o próprio protagonista, a narrativa revela os movimentos oscilantes do personagem entre enfrentar essa presença e tentar ocultá-la dos outros, escondendo o sangue e a ferida. Ao final de uma narrativa exaustiva entre esses dois seres, surge um terceiro elemento: a mão de Outra Pessoa, com veias cheias de sangue, tornando tudo mais difícil e palpável.
Desse modo, este trabalho se justifica pela necessidade urgente de compreender a complexa interseção entre a potência erótica da criação literária, as pressões da existência na cultura atual e o que insiste de humano na luta por liberdade e felicidade. Em um cenário no qual essa promessa é frequentemente eclipsada pelos mecanismos de dominação de um sistema social e político opressivo, é crucial que se pense a literatura como um refúgio; uma possibilidade de testemunho, resgate e transformação ao que escapou à violência da renúncia erótica. Dada a vida vacilante na busca por um equilíbrio entre as demandas pessoais e coletivas, pensar o impulso à liberdade é também pensar as maneiras de a humanidade reivindicar melhores condições de existência para si ao passo que esse mesmo impulso pode se revelar em contrariedade à própria cultura.
Assim, a teoria frankfurtiana, em conjunto com os insights psicanalíticos aqui discutidos, fornece uma estrutura teórica robusta para analisar a relação entre a criação artística e sua absorção pelos imperativos de sobrevivência. Ao explorar a renúncia erótica como um tema central, esta pesquisa busca não apenas entender as nuances psicológicas e culturais envolvidas, mas também destacar a capacidade transformadora da literatura. O conto “Transformações” (Abreu, 1982/2016) se torna, assim, um prisma através do qual se pode lançar luz às tensões entre a busca pelo prazer, a compulsão à repetição, o medo resignado da morte e seus efeitos adjacentes.
Entre vida e morte: a pulsão freudiana e a cultura em perspectiva
Baseando-se nas discussões apresentadas, pode-se afirmar que, assim como a filosofia frankfurtiana utiliza a epistemologia psicanalítica para examinar a cultura e, portanto, os sujeitos, o inverso também ocorre, considerando o caráter dinâmico da teoria psicanalítica e seu próprio aporte teórico a respeito da fundação da civilização e suas vicissitudes.
Em sua obra seminal “Além do princípio do prazer”, Freud (1920/2010) explora a ideia de compulsão à repetição como base para a pulsão de morte. Ele reconhece a presença de algo mais primitivo, elementar e pulsional que o próprio princípio do prazer, desafiando sua concepção inicial acerca da pulsão, que até então impelia o sujeito a mudanças e produção de diferenças. Nessa nova abordagem do tema, conforme Garcia-Roza (1986), a pulsão é vista em seu caráter conservador, tendendo ao retorno ao seu estado inorgânico.
Garcia-Roza (1986), ao abordar a reformulação freudiana da teoria das pulsões, evidencia que a pulsão, vista como um desvio do instinto (e, portanto, da ordem), precisa ser entendida como acaso secundário, e não como acaso original. Isso implica que, na teoria psicanalítica, há uma primeira tópica que se estende desde “A Interpretação dos Sonhos” – obra inaugural da Psicanálise, publicada em 1900 – até os escritos metapsicológicos de Freud, produzidos entre 1915 e 1917. Posteriormente, surge uma segunda tópica, na qual a noção de apoio deixa de ser uma referência central, sendo formalizada no texto “O Eu e o Id” (1923).
A evolução epistemológica da teoria das pulsões de Freud é explorada em maior profundidade na obra “Acaso e repetição em psicanálise”, de Garcia-Roza (1986). Nesse trabalho, são discutidos aspectos freudianos desde o conceito de pulsão em si até sua implicação frente à repetição, à fantasia, à morte e a outras ideias. Assim, o autor investiga os postulados freudianos sobre o que nos impulsiona a viver e morrer, destacando que a pulsão se encontra na interseção entre o psíquico e o somático, o que impede sua categorização como um conceito puramente metafísico. Isso implica que a pulsão não é inacessível à investigação científica; pelo contrário, pode ser analisada tanto do ponto de vista corporal quanto psíquico, pois sua origem e objetivo estão presentes em ambos os domínios.
Desse modo, sublinha-se o caráter simbólico da pulsão, entendendo-a como intrinsecamente capaz de se direcionar a uma vasta gama de objetos culturais, já que “a cultura não é um resíduo inútil da pulsão, mas a multiplicação de suas possibilidades de satisfação” (Garcia-Roza, 1986, p. 17).
Quanto ao seu caráter destrutivo na experiência subjetiva, Garcia-Roza (1986) reafirma as bases incongruentes ao princípio do prazer, ponto inicial do qual Freud concebe a ambivalência entre Eros e Tânatos. Circunscrita além dos limites da linguagem, a pulsão de morte justapõe-se à vida, não se referindo apenas à morte literal, porque “é do vivido humano que a psicanálise trata, e se há algo nesse vivido que impele o homem a sair dos limites da vida é ainda do vivido que estamos falando” (p. 94).
O comentador de Freud também adverte contra a interpretação dualista das pulsões que as separa como entidades distintas – uma favorável à vida e outra entregue ao seu oposto –, sugerindo que o dualismo possa ser compreendido sem necessariamente cair num dualismo ontológico. A distinção decorre apenas de uma conceituação organizacional acerca do campo pulsional, o que implica “modos de ser” da pulsão, e não uma expressão unívoca de um polo ou outro. Nas palavras de Garcia-Roza (1986),
É a partir do aparelho psíquico já constituído que Freud pensa esse estágio inicial anárquico. Tal como na física, onde a concepção de um estado caótico de pura dispersão de energia só pode ser feita recorrentemente a partir de um sistema já estruturado, também em psicanálise, esse momento inicial é uma ficção teórica, não tendo como referente um momento real da gênese do aparelho psíquico
(p. 48).
Frente a isso, Garcia-Roza (1986) aponta para um primeiro sinal da organização do id na teoria freudiana ao ressaltar que as ligações sobre as quais este se apoia são tão primárias quanto o momento anterior à transformação do prazer em princípio. Segundo o comentador, o interesse de Freud em “Além do princípio do prazer” reside, sobretudo, na maneira como tais ligações, face ao abandono do livre escoamento de energia, atuam na formação das fantasias primárias e, conquanto, na fixação sobre a qual a compulsão à repetição se apoiará. Ou seja, dado que a formação inicial do ego ocorre à medida em que essas sínteses passivas (ligações) se formam, pode-se dizer que a pulsão-erótica é anterior a ele: “essa repetição jamais é desnuda, ela não aponta para um primeiro termo, mas está irremediavelmente constituída pelo jogo interminável das máscaras. Não possuímos uma sexualidade que é mascarada; a sexualidade é constituída pelas próprias máscaras” (Garcia-Roza, 1986, p. 51). Em outras palavras, a compulsão à repetição e consequentemente a própria sexualidade não “representam” um objeto, mas “significam” algo.
De acordo com o “Vocabulário de psicanálise”, de Laplanche e Pontalis (1991), o conceito de compulsão à repetição assim como o próprio desenvolvimento da teoria psicanalítica passam por modificações conforme os diferentes contextos em que é observado, seja no contexto transferencial clínico, no sentido epistemológico ou até mesmo como resistência dos analisandos. Em qualquer caso, os autores destacam a visão predominante de Freud, que trata a compulsão à repetição como um reflexo do caráter conservador geral das pulsões, resultante da dinâmica conflitante entre o princípio de prazer e o princípio de realidade. Mais especificamente, em “Além do princípio do prazer”, Freud (1920/2010) explora a tese de que o que um aparelho psíquico experimenta como prazer pode se revelar desprazer para outro e que experiências repetidas podem ser tão dolorosas quanto agradáveis.
Freud (1920/2010) exemplifica que as brincadeiras infantis denotam o forte grau impulsivo do qual a repetição se vale para acontecer. Não contrariando o princípio do prazer, a revivescência de uma experiência primitiva através do brincar e mesmo da exigência de que o adulto repita fidedignamente uma mesma história permite às crianças um modo de recompor a experiência de maneira mais completa, ativa, em detrimento do sofrimento passivo. Diferentemente, no adulto, é preciso que haja novidade para que se obtenha alguma fruição. Em outras palavras, ainda que a repetição de experiências traumáticas, por parte dos adultos, mantenha seu caráter pulsional, não satisfaz em aspecto algum as demandas do princípio do prazer.
Diante desse retorno que escapa ao princípio de prazer, Laplanche e Pontalis (1991) encontram a pulsão de morte. As últimas formulações freudianas sobre essa pulsão apontam para a essência do inconsciente, caracterizada por sua natureza indestrutível e irreal. De acordo com os autores, isso também implicou uma mutação última ao que Freud atribui à sexualidade. Se, para Freud (1920/2010), os “guardiães da vida também foram, originalmente, guardiães da morte” (p. 150), isso ocorre porque a meta de Eros é buscar estabelecer ligações em unidades cada vez maiores, conservando-as. Em contrapartida, Tânatos, a pulsão de destruição, implica o oposto na dissolução dessas ligações agregadas.
Dado que o princípio de realidade não domina totalmente o psiquismo à medida que conserva o que lhe é por excelência prazeroso, sexual, erótico, o que se denota entre a intrincada luta entre Eros e Tânatos é que, seja pela via da destruição do organismo ou pela busca por um retorno ao estado zero de tensões, satisfação absoluta, esses modos de ser da pulsão devem se valer de seu caráter qualitativo e quantitativo para que a economia libidinal se realize em um viés indireto, vacilando frente à realização plena (Brumano, 2022).
Nesse sentido, naturalmente, a cultura não se isenta dos traços de conservação e destruição da vida. Acerca das suposições filosóficas em torno de uma natureza branda da humanidade, Freud (1930/2020) recorda-nos de que as relações entre as pessoas não se dão unicamente em vias de colaboração, realização sexual, mas, inclusive, como maneiras de satisfazer a tendência agressiva do psiquismo. Em posse do dito Homo homini lúpus (o homem é o lobo do homem), para o autor, o próximo pode ser alguém de quem se deva “explorar a sua força de trabalho sem uma compensação, de usá-lo sexualmente sem o seu consentimento, de se apropriar de seus bens, de humilhá-lo, de lhe causar dores, de martirizá-lo e de matá-lo” (p. 295). De acordo com o psicanalista, é daí que a pulsão de morte eclode como o mais poderoso obstáculo à cultura.
Em “O mal-estar na cultura” (Freud, 1930/2010), a tese freudiana retoma o sacrifício da fruição libidinal como fundamento para a existência da civilização mesmo que, quando praticado, um impulso selvagem proporcione maior prazer do que um impulso domesticado pelo eu (Brumano, 2022). Em contrapartida, se a proteção ao sofrimento pelas vias do princípio de realidade na comunhão aos pares lança-se em vias de sacrifício, persiste na própria cultura um impulso hostil a ela própria, visto que unicamente o trabalho ou a realização das necessidades não basta para promover a ligação das massas (Freud, 1930/2020).
Estendendo a formulação pulsional à coletividade, Freud (1930/2020) assevera que “Eros e Ananke também se tornaram os pais da cultura humana” (p. 286) ao passo que os preceitos do tabu instituíram nela um duplo fundamento frente à pressão externa: a compulsão ao trabalho e o poder do amor. Conforme o psicanalista, a pressão, enquanto força que une as massas através da limitação das satisfações individuais, surge na exigência cultural de cumprimento de uma ordem legal, cujas normas não podem ser violadas em benefício de uma única pessoa. Por isso, como assevera Freud, “a liberdade individual não é nenhum bem cultural” (p. 283). Essa declaração salienta a preponderância da vontade coletiva sobre a do indivíduo, oferecendo uma alternativa ao uso da força bruta sob a ressalva de que não se trata de um valor ético individual, mas de uma luta constante por um possível equilíbrio entre as demandas pessoais e coletivas.
Nesse contexto, o impulso à liberdade poderia tanto dar suporte às reivindicações de melhores condições na cultura quanto se opor a ela. Enfatiza-se, então, um aspecto frequentemente observado em sociedades altamente desenvolvidas: a valorização de atividades, cujo foco não está nas necessidades biológicas primárias, mas em esferas psíquicas mais elevadas, como as realizações artísticas, científicas e ideológicas (Freud, 1930/2020). Assim como no desenvolvimento libidinal do indivíduo, o processo civilizatório muitas vezes se assemelha ao mecanismo de sublimação do psiquismo, considerando o desvio das metas pulsionais. Dessa forma, torna-se essencial questionar os meios pelos quais alguma compensação pode sustentar a vida castrada ainda que no contexto de um grupo. Afinal, esse mesmo impulso à liberdade possui uma raiz anterior à própria cultura, o que o torna insusceptível de completa domesticação.
Na obra “O tabu da virgindade”, Freud (1918/2018) já sinalizava uma hostilidade contagiosa pelo “narcisismo das pequenas diferenças” (p. 122). Em “O mal-estar na cultura” (Freud, 1930/2010), fica evidente que a regulação da repreenda pulsional, embora permita a produção de diferenças frente ao encontro com o outro, também pode gerar maior neurose ou até mesmo rebelião:
A existência dessa inclinação para a agressão, que podemos perceber em nós mesmos, e com razão pressupor nos outros, é o fator que perturba a nossa relação com o próximo e obriga a cultura a arcar com seus custos. Em consequência dessa hostilidade primária dos seres humanos entre si, a sociedade de cultura está constantemente ameaçada de se desintegrar. O interesse da comunidade de trabalho não a manteria unida; paixões pulsionais são mais fortes do que interesses sensatos. A cultura precisa tudo mobilizar para colocar barreiras às pulsões de agressão dos seres humanos, para suprimir as suas manifestações através de formações reativas
(pp. 295-296).
Para Freud, mesmo que a gratificação erótica favoreça a ligação entre os membros de uma cultura, caso seja substanciada sob a satisfação das tendências agressivas primárias, pode acabar resultando no retorno aos estados de barbárie – como o holocausto, visto que o elemento que promove a conservação é, em substância, o mesmo que recorda a felicidade estabelecida primariamente nas vias do princípio de prazer (Brumano, 2022).
Contra o medo, a favor do acaso: dominação e liberdade em eros e tânatos
Com base nas elaborações de Rouanet (1983), os postulados da psicanálise freudiana podem ser retomados pela filosofia crítica de Frankfurt, considerando a interioridade constitutiva de seu próprio objeto: a cultura e seus pertencentes. Em “O mal-estar na cultura”, Freud (1930/2020) assume a hostilidade primordial dos sujeitos como diretamente participante do desassossego que assola o íntimo dos seres humanos. Em suas palavras: “A questão do destino da espécie humana parece-me ser a de saber se, e em que medida, o seu desenvolvimento cultural será bem-sucedido em dominar a perturbação trazida à sua vida em comum através da pulsão humana de agressão e de autodestruição” (p. 327), visto que, dado o controle das forças da natureza aos homens, tornou-se possível o uso da força e do medo em favor do extermínio.
Com isso, a epistemologia frankfurtiana, de base materialista, utiliza a cultura como uma de suas principais categorias de análise para verificar tanto as potencialidades de preservação da vida quanto os componentes de destruição desta (Viana & Franciscatti, 2015). Embora o encontro erótico (com o outro) tenha o potencial de unir uma sociedade inteira, o que se observa na relação entre homem, natureza e história é, na verdade, uma trajetória de dominação. Isso porque “o progresso traz como marca a expropriação, uma das formas mais cruéis de dominação, e requer dos homens a reprodução de sacrifícios e atos embrutecidos” (p. 14). Sob essa perspectiva, o empobrecimento humano é revelado em uma sociedade que impede a realização plena das necessidades essenciais. Franciscatti (2005) destaca que, ainda que a cultura se realize calcada na promessa de liberdade e felicidade em detrimento da satisfação original, acontece na humanidade uma constante pressão ameaçadora em função de uma adaptação anacrônica a renúncias infundadas.
Na “Dialética do esclarecimento”, Horkheimer e Adorno (1947/1985) compreendem a cultura como natureza transformada, carregando em si a contradição de preservar e realizar a vida enquanto contém elementos de destruição (Viana & Franciscatti, 2015). Franciscatti (2005) recorda ainda que, para os autores frankfurtianos, o esclarecimento escapa ao sentido empregado nas filosofias iluministas – a respeito de um movimento histórico de determinada época –, mas indica, sobretudo, um processo pelo qual as pessoas podem vir a se libertarem do que há de mítico em sua apreensão da natureza. Nesse sentido, resgata-se a reincidência das pulsões na cultura e na constituição subjetiva dos sujeitos: enquanto a tensão impulsiona a emancipação humana em relação à natureza e à dominação, ela também aprisiona.
Assim, a cultura é ao mesmo tempo um produto e uma força que molda a natureza e a história, revelando tanto o potencial quanto os limites da constituição humana. Desse modo, sendo a história da humanidade marcada pela dominação, reflete a separação e a tensão entre o homem e a natureza:
Frente a uma natureza amedrontadora, o esclarecimento seria não um período histórico localizado, mas o processo de desencantamento do mundo, o qual liberta os homens do medo e os investe de poder. Em seus limites, quando se converte em mito . . . acaba fundamentando uma formação falseada: atrelado ao princípio da dominação, o esclarecimento serve à regressão e ao contrário da formação de uma subjetividade capaz de se constituir mediante interesses racionais e sensíveis. Nesse processo, a constante luta pela autoconservação transforma o que haveria de mais progressivo – a possibilidade de entendimento por meio da razão – em completa dominação da natureza
(Viana & Franciscatti, 2015, p. 17).
Apesar disso, Franciscatti (2005) aponta que, ao se pensar a história como instaurada através do advento da cultura e, portanto, resultando numa perversão da natureza, torna-se possível uma libertação das imposições da autoconservação ao voltar as pulsões para finalidades históricas e sociais. Para a pesquisadora, nesse cenário, seria possível considerar liberdade e felicidade não como um retorno à integração primitiva, mas como realização dos próprios propósitos da cultura. Dessa maneira, a repressão seria mantida apenas na medida necessária para a formação de um eu diferenciado e autônomo (Franciscatti, 2005).
Em sua investigação em torno de natureza, cultura e indivíduo, Franciscatti (2005) identifica, na obra freudiana, indícios de como a pulsão de vida é absorvida quando confrontada com a (im)possibilidade de suportar o outro, especialmente diante do medo da morte e do ódio, que atuam como forças de desligamento das potências de expressão e representação. Se, para Freud (1930/2020), a dominação aparece como o principal representante da pulsão de morte, para os teóricos de Frankfurt, esta deriva da própria renúncia erótica imposta pelos mesmos mecanismos de dominação e castração da vida.
Também, Brumano (2022) busca na interseção entre a teoria das pulsões e a releitura frankfurtiana os aspectos constitutivos e destrutivos presentes no embate entre Eros e Tânatos. Para ele, a dessexualização do organismo e a repressão da sexualidade tornam-se exigências sociais para explorar os corpos como instrumentos de trabalho, tendo o princípio de prazer sido subjugado não “somente porque era incompatível com o progresso da civilização, mas porque era incompatível com um modelo de civilização orientado pelos interesses de dominação e exploração do trabalho” (p. 122). Assim, a energia libidinal é desviada para tornar a pulsão de morte inofensiva, canalizando-a para objetos externos, enquanto o componente sádico de Eros e o masoquismo no organismo são acentuados: “as restrições sociais impostas à sexualidade enfraquecem a pulsão de vida, fortalecendo, como resultado, a pulsão de morte” (p. 123).
Em sua interpretação da obra de Marcuse (2009), Brumano (2022) denota uma apreensão da vida psíquica interior dos sujeitos pelas exigências da vida externa, pública e categorizada. De acordo com Marcuse (2009), o princípio de realidade não altera apenas a forma e o tempo relativos ao prazer, mas a sua própria substância. Dessa forma, ao observarmos a transformação do princípio de prazer em princípio de realidade, mediada pela materialização da cultura e suas instituições, notamos um maior distanciamento dos desejos humanos em relação a si mesmos à medida que buscam se adequar às exigências culturais. Como a produção dos meios materiais necessários à sustentação da vida segue a lógica econômica do princípio de realidade, as metas gratificantes das pulsões ligadas à manutenção da vida são capturadas pelos imperativos sociais de trabalho e desempenho:
O desenvolvimento do organismo vivo na terra só foi possível porque a pulsão de vida subjugou a pulsão de morte . . . . Como a repressão excessiva das pulsões primitivas gera distúrbios nos indivíduos que impossibilitariam o funcionamento habitual da sociedade organizada, parte da energia daquelas pulsões foram desviadas para atividades que não afetem a performance produtiva dos indivíduos. No entanto, ao serem sublimadas as pulsões eróticas perderam seu poder de subjugar as pulsões agressivas, logo, perderam sua mais eficiente ferramenta para inibir o ímpeto destrutivo
(Brumano, 2022, p. 124).
Esta cisão entre natureza e cultura revela que a realização da humanidade só ocorre na convivência entre os indivíduos. Os frankfurtianos destacam a alienação como um movimento formativo da alteridade, permitindo a introjeção do outro em si para reconhecimento e reconciliação (Franciscatti, 2005). A tensão entre o particular e o universal emerge na apropriação subjetiva da objetividade e na expressão da subjetividade como objetividade humana, indicando que o singular deve se conscientizar de si perante o outro, e vice-versa, movimento crucial para a formação de uma sociedade sem escravos e sem desigualdade na apropriação dos bens culturais.
Por outro lado, se a civilização progride regredindo, o elemento mais progressivo contém o mais regressivo (Franciscatti, 2005). A persistência da barbárie reflete o fracasso da cultura, na qual faltam satisfação e segurança nela mesma. A violência não se instala apenas contra o homem, mas contra seus interesses racionais, aderindo-se a essa realidade psíquica. Assim, torna-se necessário compreender como a realidade objetiva, danificada em sua introjeção ao particular, transforma a repetição diferencial em mera repetição. Entender a dinâmica entre prazer e medo permite elaborar a barbárie e reconhecer maneiras de transformar estados de mera sobrevivência em experiências verdadeiramente humanas e realizadas.
Mas, qual movimento desvela ou esclarece o que é falseado na repetição compulsória (pulsão sem objeto)? Se mesmo a pulsão de vida em suas vicissitudes de contenção apreende-se em morte, como tornar a inibição das metas primárias unicamente inibição da destruição, considerando a potência construtiva existente no traço da agressividade?
Em Freud (1930/2020), verificam-se três grandes fontes de sofrimento para a humanidade: a hostilidade do mundo exterior face à natureza; a frágil mortalidade do corpo e – a saber, a que mais escapa ao controle tecnológico – a persistente dificuldade no agenciamento das relações entre família, comunidade e Estado. É neste ínterim, em que a inevitabilidade das relações sociais se eleva, que se faz imperativa uma aposta no enlace não dominante sobre o outro; no fortalecimento das pulsões sexuais através de uma organização social orientada por Eros em detrimento de um sistema de dominação altamente sofisticado, cuja aparência é mascarada sob a lógica subserviente da “ordem natural das coisas” (Brumano, 2022, p. 126). Uma elaboração do “narcisismo de pequenas diferenças” (Freud, 1918/2018, p. 122) permitiria não somente a criação de laços afetivos mais solidários, mas provocaria também o desvelamento dos elementos que mantém os sujeitos escravizados aos conjuntos de relações de trabalho politicamente impessoalizadas.
Ante a isso, buscar direções que mobilizem o sentimento de perda primordial em direção a outros objetos de satisfação faz “realizar o eu como um outro de si. . . . viabiliza a realização da promessa de ser indivíduo” (Franciscatti, 2005, p. 124). Para tanto, conforme destacado, além das atividades superiores em termos de distanciamento da realização das necessidades meramente fisiológicas, como a experiência estética, o desenvolvimento tecnológico e o intelectual, também o riso pode vir a resguardar uma dimensão de contato seguro frente à barbárie:
Talvez quem possa entrar em contato com isso, elaborar e até em alguns momentos brincar, se mostre um pouco melhor do que está sendo possível. Não sofre menos. Mas admite o que está acontecendo. E, entre um certo humor, se permite ficar triste pelo fruir da vida negada. Nesse sentido, seria possível afirmar que a capacidade para o humor e para a tristeza guarda potencialidades para a contenção e para a superação da barbárie?
(Franciscatti, 2005, p. 128)
A nossa aposta é de que sim. Há recursos humanos suficientemente capazes de rememorar a promessa de gratificação não cumprida, preservando o curso naturalmente difícil da vida enquanto se reivindica da cultura seu legítimo papel de proteção e satisfação.
Eros, destruições, transformações: a grande falta ou a outra pessoa na literatura de Abreu
Perante o exposto, a literatura se revela como de grande importância para as questões abordadas tanto na psicanálise quanto na teoria crítica de Frankfurt. Seja pela via de um prazer preliminar proporcionado pela experiência estética ou pelo aspecto sociocultural, a expressão literária se destaca como um dos elementos capazes de preservar o contato privilegiado e a reflexão durante o momento de individuação, pois atua como testemunho da mediação entre as pulsões e a estrutura da sociedade (Viana & Franciscatti, 2015). Assim como ao expressar as antinomias sociais, a arte se manifesta em mimese à realidade enquanto recorre à fantasia para transcender o existente. Ela exercita a capacidade imaginativa como um meio de conferir à memória aquilo que não se encontra na experiência direta. Tal como no brincar infantil e mesmo no riso5, a fruição advinda da literatura revela um precioso triunfo do princípio do prazer sobre os impasses da realidade objetiva.
Freud (1930/2020) propõe que a sublimação – desvio das metas instintuais – permite direcionar as pulsões primitivas à cultura. Já Horkheimer e Adorno (1947/1985) desvelam a arte como a contenção de um golpe: preservando o objeto em detrimento de sua destruição, ele condensa as tensões e contradições do mundo externo:
Tal fúria se manifesta em uma concentração precisa, cujo objetivo é revelar o segredo dos objetos. Mesmo desconhecendo a motivação de tal fúria ou que esta não seja de todo clara/consciente, o artista, por meio da expressão e na forma, realiza uma obra que se torna um atalho para (re)conhecer o sofrimento e a violência objetiva socializada: diferente do crime, que, ao destruir os objetos, se apresenta como um atalho que reproduz a violência, a arte é negação determinada; como negação e resistência, ela expõe, mesmo sendo aparência, o corte no desejo, a subjetividade danificada
(Horkheimer & Adorno, 1947/1985 como citados por Viana & Franciscatti, 2015, p. 20).
Em síntese, para Franciscatti (2005), a literatura acontece em três dimensões concomitantes: 1ª) “testemunho”, em que o escritor dá voz às “expressões” do contraste entre a vida e as possibilidades que ela encontra na realidade social; 2ª) “resistência”, uma vez que, em sua constituição, não se alia com a pulsão de morte (destruição dos objetos); e 3ª) “transformação”, por permitir ao existente a possibilidade de vislumbrar a vida para além da realidade objetiva.
Esta tentativa de aproximação literária com a discussão teórica aqui apresentada não se dá, contudo, em vias de análise propriamente dita. Não se pretende traçar uma patografia do autor ou supor suas intenções sobre a obra, mas verificar nela o “testemunho” de um existente do qual se escreve sobre. Como afirma Freud (1908/2015) acerca do trabalho da escritura, “na técnica da superação desta repulsão [ao caráter desprazeroso do sonho diurno], que certamente tem a ver com as limitações existentes entre todo o eu individual e os outros, consiste, verdadeiramente, a Arspoética” (p. 41). Diante disso, busca-se, sobretudo, entender como o escritor revela e comunica o saber inconsciente.
Nesse contexto, a escolha do conto “Transformações”, de Caio Fernando Abreu (1982/2016) – referido pelo autor como uma fábula –, justifica-se pelo fato de o enredo centrar-se na relação do personagem principal com “a Grande falta”, como ele a denominou. Nessa curta prosa, Abreu nos apresenta o posicionamento de um personagem sem nome confrontado com o que lhe falta. Utilizando significantes que evocam monotonia e repetição, as estratégias de esquiva do personagem diante desse aspecto fantasmático tornam-se mais evidentes à medida que o autor explora temas como prazer, medo e gozo, revelando como o eu-lírico se relaciona com o que lhe é faltoso.
A princípio, o personagem central de “Transformações” experimenta uma sensação de imobilidade e estagnação, associada a uma “densa certeza viscosa” de que nada dará certo em sua vida. Essa Grande Falta é descrita como uma presença translúcida e gelada, que ele tenta tornar invisível e até devolver-lhe palavras, mas “não as tinha ou não queria tê-las” (Abreu, 1982/2016, p. 78). Com o passar dos dias e a insistência dela em retornar, ele passou a identificar-se com ela. Comparando-a à memória, a Grande Falta era como um caco de vidro encontrado à beira-mar: translúcida e gelada, podia ser espremida contra os dedos, proporcionando um efeito anestésico. Daí em diante, “Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela” (p. 79). Então, quando ela vinha, ora ele se amenizava ao decorrer do dia, ora “adensava-se feito céu cada vez mais escuro” (p. 79), buscando concentrar-se na manhã seguinte, mas “concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos” (p. 79).
A prosa de Abreu (1982/2016) retrata o personagem como alguém preso em um ciclo de repetição e monotonia, no qual suas tentativas de controlar ou nomear a Grande Falta falham repetidamente, resultando em uma vida marcada pela introspecção e pela falta de realizações concretas, embora, “no intervalo da ausência, distraia-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida . . . na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la” (p. 81).
De maneira semelhante, pode-se pensar também em uma disposição masoquista, conforme Freud (1920/2010) a concebe como uma reversão do sadismo ao próprio Eu. Em outras palavras, “O masoquismo, a volta do instinto contra o próprio Eu, seria então, na realidade, um retorno a uma fase anterior dele mesmo, uma regressão” (p. 164). Ou, ainda, tal como na criança e em sua brincadeira, na literatura, o esforço da nomeação “também repete a vivência desprazerosa porque sua atividade lhe permite lidar com a forte impressão de maneira mais completa do que se apenas a sofresse passivamente” (p. 146). Falhando nisso, o personagem “frequentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior” (Abreu, 1982/2016, p. 80).
É que, na adultez, diferentemente da criança, há uma constante necessidade de novidade para desfrutar de algo (Freud, 1920/2010). A “continuação sem solavancos”, a imobilidade da “Coisa” dentro dele e seu oposto – mesmo quando “Sua casca partia-se e refazia-se” (Abreu, 1982/2016, p. 81) – levam o personagem ora a mergulhar na Grande Falta, ora a se exaurir dela. Em ambos os casos, ele se esforça para invisibilizar aquilo que lhe é tão íntimo. No entanto, ao falhar nesse esforço, revela-se novamente a repetição à qual está condenado: “Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos” (p. 81).
Em relação à Coisa (das Ding), Freud (1895/2003) a descreve como um conceito central na psicanálise, uma presença inassimilável que se situa no limite do que pode ser representado e que está intimamente ligada à pulsão de morte. A Coisa é algo que não pode ser plenamente capturado pela linguagem ou pelo símbolo, sendo constantemente evitada ou reprimida pelo sujeito. Contudo, ela insiste em retornar, manifestando-se nos sintomas e nas formações inconscientes, como visto no comportamento repetitivo do personagem que, embora tente evitar a Grande Falta, não consegue escapar de sua presença constante. Lacan (1959-1960/2008), ao retomar o conceito freudiano, relaciona a Coisa àquilo que está além do princípio do prazer, situada no centro do desejo, um vazio ao redor do qual orbita a vida psíquica. Essa Coisa inassimilável também pode ser associada ao conceito do jogo do for-da (vai-e-vem) descrito por Freud (1920/2010) em seus estudos sobre a repetição. Nesse jogo, o movimento de lançar o objeto e trazê-lo de volta é uma forma de o sujeito lidar com a ausência e a presença, simbolizando a luta contínua entre o afastamento e o retorno da Coisa, que nunca pode ser completamente integrada ao eu, mas que, paradoxalmente, estrutura o desejo e o funcionamento psíquico.
Apesar dessa relação titubeante, o protagonista temia seu próprio destemor. Sentindo-se inteiro, ele não carregava mágoas ou expectativas, memórias nem fantasias e, ainda assim, esforçava-se para manter a Grande Falta invisível através de pequenos gestos – falhando justamente por causa disso segundo o narrador. Mesmo “aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo” (Abreu, 1982/2016, p. 79), ele se sentia completo, “tão consciente estava dessa para sempre ausência” (p. 79). Sem saber a quem e como pedir ajuda, um dia houve, enfim, um marco:
Tocaram-lhe de leve no ombro . . . Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves. Alguma coisa explodiu, cheia de cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real
(p. 82).
Essa experiência de repetição, que é central no conto, encontra eco na teoria freudiana da compulsão à repetição. Freud (1920/2010) sugere que o desejo no estatuto freudiano jamais é saciado, o que gera a compulsão à repetição. No conto, a Grande Falta permanece como uma presença constante e repetitiva, que, mesmo na tentativa de encobrimento, revela o que lhe é mais íntimo: ele mesmo. Ora conduzindo-o a momentos de ímpeto, ora à completa introspecção, a personagem fantasmática parece testemunhar e expressar em primeira mão o funcionamento do psiquismo em sua economia libidinal. O ato de apertar um caco de vidro contra os dedos até sangrar, por exemplo, simboliza o esforço do personagem de confrontar sua própria existência e o estatuto do que é estar vivo.
Além disso, a narrativa reflete sobre a repressão da sexualidade e a dessexualização conforme discutido por Marcuse (2009). Frente às exigências sociais que transformam o princípio de prazer em princípio de realidade, mesmo a força de Eros fica à mercê da absorção da pulsão de morte na tentativa de apaziguar as ameaças externas. Abreu (1982/2016) ilustra isso ao mostrar como o personagem, mesmo quando deseja pedir ajuda, não consegue encontrar uma pausa para fazê-lo: “Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve” (p. 81). O resultado deste tensionamento entre as forças eróticas e os imperativos de sobrevivência é um personagem que se debate entre o desejo de viver e a inevitabilidade de uma existência dominada pela renúncia e pelo medo.
Ademais, a crítica ao princípio de realidade, conforme discutido por Marcuse (2009) e Brumano (2022), também é central na interpretação do conto. A transformação do princípio de prazer em um princípio de realidade sob o advento da dominação, mediada pela cultura e suas instituições, resulta em uma alienação dos desejos humanos, que são canalizados para satisfazer as exigências do trabalho e da produtividade. Isso gera um distanciamento dos indivíduos de seus próprios desejos, resultando em uma vida marcada pelo desligamento erótico e pela consequente compulsão a uma repetição mesma em detrimento da repetição diferenciada. Na narrativa de Abreu (1982/2016), lê-se: “Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos” (p. 81). Franciscatti (2005) esclarece:
Mover-se pelo precisar é estar no limite das pressões: a que impede e a que impele à vida; pressão para sair ou ficar na estagnação e na mera sobrevivência. Mas, se estando às portas do precisar, mesmo assim as pessoas não buscarem a vida, seria apatia, inércia? . . . Ou, encontrando com alguém também perceber que as coisas – apesar de não precisar ser assim, de poder ser diferente – não são fáceis?
(p. 189)
Por fim, o encontro com “Outra Pessoa” no conto de Abreu (1982/2016) marca uma transformação significativa. Essa figura, que surge no final da narrativa, representa um ponto de inflexão na vida do personagem, sugerindo a possibilidade de um novo começo ou, pelo menos, de uma mudança na forma como ele lida com a Grande Falta. Franciscatti (2005) argumenta que a cultura, ao desviar as pulsões para finalidades históricas e sociais, pode permitir uma nova forma de realização humana, na qual a repressão é apenas o suficiente para a formação de um eu diferenciado e autônomo. No conto, é diante do contato com Outra Pessoa que o coração do personagem bate “cheio de sangue”, sinalizando uma retomada de sua vitalidade. É nas vias dessas transformações que o personagem deixa de olhar para o fantasma e dirige-se a um outro que não é mais uma Coisa. É, sobretudo, o ato de “desinvisibilizar”-se.
Esta dialética entre a Grande Falta e a Outra Pessoa pode ser vista como uma micro-história da civilização, na qual o progresso e a dominação caminham juntos, mas ao custo do empobrecimento das experiências humanas frente à perpetuação da barbárie. A ideia de que o progresso traz consigo a expropriação tanto material quanto psíquica, como destaca Franciscatti (2005), é fundamental para a compreensão do conto. O personagem, ao perder a capacidade de realizar plenamente suas necessidades essenciais, torna-se um exemplo vivo do impacto da renúncia erótica e da compulsão à repetição na vida cotidiana.
Assim, a narrativa de Caio Fernando Abreu (1982/2016) revela as maneiras pelas quais a renúncia erótica pode enfraquecer a pulsão de vida ao manter-se investida na meta de silenciar a pulsão de morte. Enquanto o esforço libidinal enfraquece o medo e as supostas ameaças, também desliga as potências de criação e expressão. A literatura, como demonstra Abreu, oferece um espaço para explorar essas tensões e para vislumbrar possibilidades de transformação que vão além das limitações da realidade objetiva. É nesse sentido que a arte se torna um veículo poderoso para a sublimação e para a resistência contra as forças de destruição que permeiam a cultura.
Considerações finais
Este estudo buscou analisar a relação entre Eros, pulsão de morte e cultura, explorando como esses elementos se manifestam e se entrelaçam na formação da subjetividade e nas dinâmicas sociais conforme reinterpretados pelos teóricos da Escola de Frankfurt. Através da análise da narrativa “Transformações”, de Caio Fernando Abreu (1982/2016), o trabalho identificou as tensões entre pulsões eróticas e destrutivas, ressaltando o papel da literatura como um espaço de resistência e transformação.
A partir do que foi exposto, compreende-se tanto a necessidade de aprofundar o tema em outras pesquisas quanto a verificação de que a literatura, em seu caráter testemunhal, manifesta e registra a procura pelo prazer diante do encontro com o outro em sua alteridade, livre do medo que aprisiona o encontro com a diferença. Como se pode perceber, há elementos teóricos suficientes entre as diferentes epistemologias aqui tratadas para pensar o mal-estar. Como afirmam Viana e Franciscatti (2015), “a superação das condições sociais vigora como seu conteúdo mais verdadeiro: não há nada na arte que não remeta ao que na objetividade aparece como falso” (p. 10). Essa reflexão aponta para o potencial da arte em revelar as contradições da realidade social e psíquica, transformando-se em um veículo de crítica e emancipação.
O conhecido por meio da consciência, nas palavras de Adorno (1995), “deve ser um algo, pois a mediação se refere ao mediado. Mas o sujeito, quintessência da mediação, é como é, enquanto contraposto ao objeto, nunca o que, postulado por qualquer representação concebível do conceito de sujeito” (p. 188). Esse trecho reflete a complexidade do sujeito na sua relação com o objeto e a realidade, sugerindo que o processo de mediação sempre deixa algo por ser conhecido, uma lacuna que a arte e a literatura tentam preencher.
Desse modo, se em Eros se encontra a chance de a sexualidade atingir a reprodução e a manutenção da vida, o medo propulsiona a apreensão do conhecimento a converter-se em explicação, calcando ainda mais a introjeção (ir)racional da realidade objetiva (Franciscatti, 2005). Nesse caso, os vestígios da cisão entre natureza e cultura marcam, na percepção sobre o medo da morte, um contraste resignado. A relevância desta investigação advém das bases materialistas firmadas pela teoria crítica de Frankfurt; as quais revisitam as vias do que foi e ainda pode ser feito da relação homem, natureza e história. Para Horkheimer e Adorno (1947/1985), as marcas da dominação apresentam-se tanto de maneira material quanto incidente na dinâmica pulsional, uma vez que o estabelecimento de modos opressivos na cultura torna cada vez mais escassa a possibilidade de alguma satisfação libidinal, indicando por meio do exemplo literário uma possibilidade de que se retorne ao humano as suas potencialidades de transformação, repetição diferenciada (Viana & Franciscatti, 2015).
Além disso, o desenvolvimento desta pesquisa também aponta para possibilidades de o testemunho literário ser averiguado em um teor clínico, explorando a relação do sujeito e um Outro e a chamada travessia da fantasia em análise. Isso sugere que temas lacanianos, como os nós borromeanos, a retificação subjetiva e a própria travessia, poderiam ser evocados para verificar na metáfora literária sua insurgência, expandindo, assim, o diálogo entre psicanálise e literatura.
Porém, como toda pesquisa, esta também possui seus limites. A análise foi centrada em um único conto de Caio Fernando Abreu (1982/2016), o que restringe a generalização dos resultados. Futuras pesquisas poderiam explorar outras obras literárias ou outras manifestações artísticas para verificar se as mesmas dinâmicas pulsionais se manifestam de maneira semelhante. Além disso, a aplicação mais detalhada de conceitos lacanianos, como a travessia da fantasia, poderia ser mais aprofundada em estudos subsequentes.
Por fim, para que as pulsões eróticas se fortaleçam, é importante que as sociedades não mais ignorem a sexualidade por séculos reprimida ou a reduzam à função do lucro. Como destaca Brumano (2022), o único viés pelo qual é possível estimular a produção de laços afetivos é por meio de uma transformação radical da estrutura social existente – buscar modos de operação em que as ordens política e social sejam orientadas por Eros. Ainda que Eros, sozinho, não possua o impulso para a agressividade contido na pulsão de morte, é precisamente essa pulsão de morte que deve ser mobilizada para desmantelar as estruturas opressivas, enquanto Eros canaliza essa energia explosiva para objetivos ligados à cultura e à construção de novas formas de convivência.














