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Analytica: Revista de Psicanálise

versión On-line ISSN 2316-5197

Analytica vol.14 no.27 São João del Rei enero/jun. 2025  Epub 28-Jul-2025

https://doi.org/10.69751/arp.v14i27.5194 

ARTIGOS

Suicídios na adolescência: efeitos psíquicos dos impasses no laço social

Suicides in adolescence: psychic effects of impasses in the social bond

Suicides à l'adolescence: effets psychologiques des impasses dans les liens sociaux

Suicidios en la adolescencia: efectos psíquicos de impases en el vínculo social

Luciana Gageiro Coutinho1 

Psicanalista. Doutora e mestra em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Graduada em Psicologia pela PUC-Rio. Professora Associada da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) (Rio de Janeiro, Brasil). Membra do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do LAPSE/UFF (Grupo de Pesquisa Psicanálise, Educação e Laço Social).

lugageiro@gmail.com
http://orcid.org/0000-0001-5535-5931

Rebeca Espinosa Cruz Amaral2 

Doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com bolsa da Capes. Mestra em Teoria Psicanalítica pela UFRJ. Graduada em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) (Rio de Janeiro, Brasil).

respinosacamaral@hotmail.com
http://orcid.org/0000-0001-5011-5226

Bruna Madureira3 

Doutora e mestra em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). Graduada em Psicologia pela PUC-Rio (Rio de Janeiro, Brasil).

bruna.madureira@hotmail.fr
http://orcid.org/0000-0002-8475-7670

Maria Varnier4 

Especialista em Psiquiatria e Psicanálise com Crianças e Adolescentes pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ipub/UFRJ). Graduada em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) (Rio de Janeiro, Brasil).

msvarnier@gmail.com
http://orcid.org/0000-0003-2155-702X

1 Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) (Rio de Janeiro, Brasil). Programa de Pós-Graduação em Psicologia. E-mail: lugageiro@gmail.com.

2 Universidade Federal Fluminense (UFF) (Rio de Janeiro, Brasil). E-mail: respinosacamaral@hotmail.com.

3 Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). (Rio de Janeiro, Brasil). E-mail: bruna.madureira@hotmail.fr.

4 Universidade Federal do Rio de Janeiro. (Rio de Janeiro, Brasil). E-mail: msvarnier@gmail.com.


Resumo

O presente artigo situa-se no âmbito de uma pesquisa maior que interroga o suicídio na adolescência e sua relação com impasses sociais contemporâneos, partindo do fato de que, atualmente, constitui a segunda principal causa de morte entre jovens no mundo todo. Partindo de uma revisão bibliográfica a respeito do tema, objetiva analisar dois casos clínicos envolvendo tentativas de suicídio na adolescência atendidos em um ambulatório de saúde mental infantojuvenil, a partir do referencial teórico psicanalítico. Sustentamos que os efeitos psíquicos dos impasses no laço social aos quais estão submetidos os jovens/adolescentes interferem no próprio sentido da vida e da existência, estando associados ao esmaecimento da alteridade, bem como à impossibilidade de narrar a angústia e o desamparo em que se encontram, que muitas vezes se manifesta em corpo e em ato. Os atos suicidas, tão recorrentes na adolescência, podem ser analisados conforme o paradigma do mal-estar do sujeito na contemporaneidade diante do declínio do Outro na cultura e na educação.

Palavras-chave: Suicídio; Adolescência; Contemporaneidade; Ato; Laço social

Abstract

This article is part of a larger research that interrogates suicide in adolescence and its relationship with contemporary social impasses, based on the fact that it currently constitutes the second leading cause of death among young people worldwide. Starting from a bibliographical review on the topic, it aims to analyze two clinical cases involving suicide attempts in adolescence treated at an outpatient clinic to children and teenagers, based on the psychoanalytic theoretical framework. We maintain that the psychic effects of impasses in the social bond to which young people/adolescents are subjected interfere with the very meaning of life and existence, being associated with the fading of otherness, as well as the impossibility of narrating the anguish and helplessness in which they find themselves, often manifests itself in body and in action. Suicidal acts, so recurrent in adolescence today, can be situated in the paradigm of the subject’s discomfort in contemporary times in the face of the decline of the Other in culture and Education.

Keywords: Suicide; Adolescence; Contemporaneity; Acts; Social bond

Résumé

Cet article fait partie d’une recherche plus vaste qui interroge le suicide à l’adolescence et sa relation avec les impasses sociales contemporaines, en partant du fait qu’il constitue actuellement la deuxième cause de décès chez les jeunes dans le monde. À partir d’une revue bibliographique sur le sujet, il vise à analyser deux cas cliniques de tentatives de suicide chez l’adolescent traités à une clinique externe pour enfants et jeunes, en s’appuyant sur le cadre théorique psychanalytique. Nous soutenons que les effets psychiques des impasses du lien social auxquels sont soumis les jeunes/adolescents interfèrent avec le sens même de la vie et de l’existence, étant associés à la disparition de l’altérité, ainsi qu’à l’impossibilité de raconter l’angoisse et l’impuissance dans qu’ils se retrouvent, qui se manifeste souvent dans le corps et dans l’action. Les actes suicidaires, si récurrents à l’adolescence aujourd’hui, peuvent être situés dans le paradigme du mal-être du sujet à l’époque contemporaine face au déclin de l’Autre dans la culture et l’éducation.

Mots-clés: Suicide; Adolescence; Contemporanéité; Acte; Lien social

Resumen

Este artículo es parte de una investigación más amplia que interroga el suicidio en la adolescencia y su relación con los impasses sociales contemporáneos, basándose en el hecho de que actualmente constituye la segunda causa de muerte entre los jóvenes en todo el mundo. A partir de una revisión bibliográfica sobre el tema, se pretende analizar dos casos clínicos de intento de suicidio en la adolescencia atendidos en uno ambulatorio para niños y jóvenes, a partir del marco teórico psicoanalítico. Sostenemos que los efectos psíquicos de los impasses en el vínculo social al que están sometidos los jóvenes/adolescentes interfieren en el sentido mismo de la vida y la existencia, asociándose al desvanecimiento de la alteridad, así como a la imposibilidad de narrar la angustia y el desamparo en que se encuentran, que muchas veces se manifiesta en el cuerpo y en la acción. Los actos suicidas, tan recurrentes en la adolescencia actual, pueden situarse en el paradigma del malestar del sujeto en la época contemporánea ante la decadencia del Otro en la cultura y la Educación.

Palabras clave: Suicidio; Adolescencia; Contemporaneidad; Actos. Vínculo social

Introdução

O suicídio é uma questão ainda cercada de inúmeros tabus, mas que vem sendo mais debatida nos últimos anos em virtude da grande quantidade de pessoas que tiram a própria vida todos os anos no mundo todo - cerca de 800 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) (“Suicide”, 2021). As taxas mundiais de suicídio, também de acordo com a OMS, estão diminuindo, embora na região das Américas estejam aumentando - entre 2000 e 2019 a taxa global diminuiu 36%, mas, no mesmo período, as taxas nas Américas aumentaram 17%. Calcula-se que mais de 700 mil pessoas morrem em consequência do suicídio anualmente - representando uma a cada 100 mortes -, mas estima-se que o número de tentativas possa ser 20 vezes maior. Destaca-se, entre esses índices, que entre jovens de 15 a 29 anos o suicídio é a quarta principal causa de morte. No Brasil, tais taxas continuam aumentando gradativamente - no período entre 2010 e 2019, ocorreram no país 112.230 mortes por suicídio, com um aumento de 43% no número anual de mortes, de 9.454 em 2010 para 13.523 em 2018 (Ministério da Saúde, 2017; 2019). Trata-se, pois, de um fenômeno que, ao longo dos anos, silenciosamente vem se expandindo no mundo todo e que, ainda que diga respeito a diferentes faixas etárias - a OMS registra suicídios de sujeitos a partir dos cinco anos -, e contextos socioeconômicos, têm nos jovens um dos grupos mais vulneráveis (“Suicídio”, 2020).

Em relação a esse último dado, uma cartilha da OMS (2001) para profissionais da educação afirma que pensamentos suicidas são comuns na adolescência em função de os adolescentes tentarem, nessa fase, compreender o sentido da existência. Um documento elaborado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2013) sobre o suicídio no contexto brasileiro, porém, critica uma possível normalização do suicídio na adolescência difundida pela OMS. Nesse documento, discute-se a problemática de trazer essa discussão para o campo da normalidade/anormalidade e, assim, justificar os pensamentos desses jovens como parte de seu desenvolvimento, desconsiderando as questões sociais relacionadas.

Dito isso, os pontos a serem trabalhados neste artigo integram uma pesquisa5 mais ampla, que surge no bojo dessa problemática já mapeada pelos órgãos de saúde nacionais e internacionais, mas também a partir da constatação do impacto que a questão do suicídio na adolescência vem trazendo para as instituições educativas e de saúde que atendem a essa população. Tomamos como pressuposto que pesquisar o fenômeno global relativo ao crescente número de suicídios na adolescência é também pesquisar os impasses no laço social que hoje se apresentam, incluindo-se aí o laço educativo como expressão das relações intergeracionais na atualidade. Sendo assim, a pesquisa tem como objetivo interrogar o que o agir suicida que prolifera entre adolescentes no mundo todo pode dizer sobre o estado do laço social vigente no seu entorno; bem como especificamente também abarcar as seguintes questões: Que impasses no laço social e na educação o suicídio dos adolescentes presentifica? Como eles se inscrevem (ou não se inscrevem) psiquicamente?

Em 1897, Durkheim já havia feito uma discussão sobre a questão do suicídio, tirando-o do campo moral em que era abordado até então e enfatizando sua relação com os laços sociais que o sujeito estabelece (Coutinho, 2010). Assim, fica marcado que, apesar de o ato suicida se situar como aquele que é mais extremamente individual, ele não deixa de apontar sempre para os laços sociais nos quais se situa aquele que o comete. Já aí se anuncia uma grande questão acerca do suicídio e sua relação com o universo social: o suicídio é a ruptura total do laço social ou a tentativa desesperada de nele se inserir? Tomamos essas questões como ponto de partida para este artigo, juntamente com algumas observações de pesquisa provenientes da escuta clínica de adolescentes que passaram por tentativas de suicídio e que estão em atendimento em um ambulatório público de saúde mental para crianças e adolescentes. Inicialmente, tentaremos trazer alguns apontamentos importantes a respeito do que nos indicam os dados trazidos anteriormente e as contribuições de alguns autores que trabalham essa temática a respeito do suicídio na adolescência. Em seguida, vamos fazer uma análise da temática pela perspectiva da psicanálise, cujo argumento central se articula a uma precarização da dimensão da alteridade, tanto no campo psíquico quanto no campo social, as quais, porém, só podem ser singularmente analisadas caso a caso.

Vale considerar que, em psicanálise, a questão do laço social remonta a Totem e Tabu, obra na qual Freud (1913[1912-1913]/1996) escreve acerca do mito de origem do laço entre os homens a partir da passagem da horda primeva para o totemismo, o que representa uma mudança de paradigma que demarca um corte entre a barbárie e a instituição social. Nesse sentido, entendemos que, a partir da psicanálise, o laço social é entrelaçado à cultura, ao modo como as sociedades se organizam coletivamente para estabelecer renúncias e pactos que norteiam as possibilidades de satisfação pulsional e contornar o desamparo. Assim, há laço social porque não há laço natural, na medida em vivemos em um mundo de cultura, ou, ainda, de linguagem, como acentuou Lacan (1969-1970/1992), definindo o laço social como discurso que assume as modalidades de uma época e marcas de uma cultura determinada.

No recorte da pesquisa feito para este artigo, serão utilizados registros escritos dos atendimentos clínicos feitos pelas pesquisadoras/psicólogas responsáveis pelos casos no ambulatório, com autorização dos pacientes e seus responsáveis, tendo sido a pesquisa aprovada pelo comitê de ética, CAAE n. 20131119.6.0000.8160. No intuito de manter o sigilo e o anonimato, todos os nomes utilizados nos casos citados no artigo são fictícios.

Como metodologia de pesquisa, foi utilizado o paradigma da pesquisa em psicanálise, pautada pelos princípios éticos que norteiam a sua clínica. Em psicanálise, pesquisa e clínica coincidem em sua execução, o que Freud (1912[1969]) considerava favorável para o avanço do conhecimento nesse campo. A pesquisa clínica, a partir da psicanálise, parte do desejo do analista (pesquisador) como desejo de pesquisa que se dá com a fala sob transferência (Alberti & Elia, 2000) como motor de produção de um saber. Assim, a ética da psicanálise presente na pesquisa é aquela que instaura a possibilidade de um bem dizer no qual o sujeito tenha lugar. Não busca um saber prévio, mas sim visa possibilitar ao sujeito formulá-lo de forma singular, a partir de um laço transferencial que permite que o inconsciente, que inclui o campo relacional com o analista/pesquisador, possa se expressar (Costa & Poli, 2006). Poli (2008) indica, ainda, a importância e a necessidade de interrogarmos o lugar e a função do caso clínico em um trabalho de pesquisa em psicanálise; dessa forma, com base em Freud, relembra que, desde o início, a psicanálise se dá pelo laço entre cura e pesquisa, sendo impossível tratar um paciente sem aprender algo de novo. Destarte, reafirmamos que, mais do que uma ciência, a psicanálise é uma ética. Também na prática de pesquisa, ela produz o sujeito, não apenas o descobre.

Para tentar pensar sobre as questões levantadas, faremos um percurso pela psicanálise, desde Freud até autores contemporâneos, para abordar as relações entre o desamparo e o ato na adolescência. Exploraremos os diferentes estatutos do ato na clínica psicanalítica e refletiremos sobre as implicações em jogo nos atos suicidas de adolescentes contemporâneos, ilustrando-os com vinhetas clínicas de dois casos atendidos no ambulatório. Em alguns casos, temos o ato como um acting out quando o sujeito tenta convocar o Outro, endereçando-lhe uma demanda; em outros, parece-nos que o ato diz respeito a uma passagem ao ato, que pode estar relacionada à degradação do laço social e à ruptura com o Outro. Defendemos que, ainda que os suicídios consumados ou não devam ser analisados caso a caso, já que exigem uma análise cuidadosa quanto à singularidade das situações nas quais se dão, o aumento do agir suicida na adolescência pode apontar para algo que diz sobre o mal-estar de nossos tempos.

Desamparo e ato suicida: impasses da adolescência na contemporaneidade

Tal como tem sido promulgado pelas agências competentes (“Suicide”, 2021), no que concerne aos fatores de risco e proteção de suicídio em crianças e adolescentes, além dos serviços de saúde, a família, a escola, a comunidade e fatores sociais estão sempre implicados de alguma maneira, de modo que um trabalho fundamental de promoção de saúde mental deve ser feito nesses espaços e no coletivo social. Infelizmente, na maioria dos casos, por inúmeras razões, isso não vem ocorrendo e as instituições vêm se mostrando despreparadas para lidar com essa temática. Fazendo considerações sobre as escolas, Freud (1910/1996) pode nos ajudar a pensar sobre isso no campo da psicanálise:

uma escola secundária deve conseguir mais do que não impelir seus alunos ao suicídio. Ela deve lhes dar o desejo de viver e devia oferecer-lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os compelem a afrouxar seus vínculos com a casa dos pais e com a família. Parece-me indiscutível que as escolas falham nisso, e a muitos respeitos deixam de cumprir seu dever de proporcionar um substituto para a família e de despertar o interesse pela vida do mundo exterior (p. 218).

O trecho citado, apesar de ter sido escrito em 1910, parece-nos de uma atualidade impressionante, quando Freud aponta para a centralidade da questão dos laços sociais e afetivos na adolescência na discussão sobre o suicídio, e implica a escola e as instituições sociais de modo geral no acolhimento às novas gerações.

A adolescência é compreendida pela psicanálise como um período de redefinição no campo das identificações e do desejo, no qual frequentemente vemos o relançamento dos sujeitos à situação de desamparo como marca da passagem da vida infantil à adulta, sem prescindir de pensar sobre as particularidades dessa passagem na contemporaneidade. Situando a adolescência no mundo pós-tradicional, Saggese (2015) e Coutinho (2009) ressaltam que ela é marcada pela indefinição, pois a construção de trajetórias e de lugares sociais não são mais ofertados pela tradição por meio dos ritos de passagem, mas tornam-se responsabilidade individual do jovem em um meio em que as referências coletivas se desestabilizam. No mundo ocidental contemporâneo, o trabalho da adolescência parte da interrogação do sujeito sobre como obter uma estabilização de seu lugar no laço social, já que lhe falta um caminho predeterminado para a travessia da família para o mundo público, quando a referência ao Outro se fragmenta e se virtualiza, o que impõe ao adolescente uma condição inescapável de desamparo.

O conceito de desamparo (Hilflosigkeit) em Freud (1926[1925]/1996) ganha centralidade na segunda teoria da angústia, quando o autor articula a angústia com a dimensão do traumático. O desamparo diz respeito à experiência de absoluta dependência e submissão do bebê, que, por sua imaturidade orgânica e psíquica, é inteiramente dependente dos cuidados de outrem e incapaz de sobreviver sozinho. No artigo “Inibição, sintoma e ansiedade” (Freud, 1926[1925]/1996), a angústia não é mais vista pelo pai da psicanálise como consequência do recalque, mas como causa, e remonta ao trauma, desamparo, limite do simbolizável pelo aparelho psíquico. No artigo, Freud menciona que a perda do objeto pode ser vivida de modos distintos em diferentes momentos da constituição do sujeito. Quanto mais precoce, maior o desamparo, a angústia é vivida como angústia de morte e as defesas perante ela também são mais frágeis e falhas.

Portanto, se a angústia sinal implica o recalque, o esquecimento e as marcas psíquicas de uma situação vivida de desprazer, a angústia automática invade o eu e o fragiliza, já que fica submetido ao id, rendido a sua posição de objeto, sem recursos para ligar as intensidades, repetição da experiência inaugural de desamparo. Experiência que será relida por Lacan (1958-1959/2016), atrelada ao fato de o sujeito ser fruto de um encontro faltoso com o Outro, quando afirma que, para além da condição biológica que marca o sujeito como desamparado, isso também se deve a sua condição de alienação perante o desejo do Outro, sempre enigmático.

A clínica com adolescentes nos coloca desafios, já que a adolescência é um trabalho psíquico a partir do excesso pulsional e do novo encontro do sujeito com o Outro sexo e o Outro da cultura, o que muitas vezes é perpassado pela dimensão do agir em suas múltiplas formas (Lesourd, 2004). A marca do desamparo está sempre presente, remetendo à dimensão trágica da existência, ao vazio estrutural que habita o sujeito e a sua necessária referência ao Outro e à cultura. É pela via da linguagem que o sujeito se constitui, tece bordas em torno dos fluxos pulsionais, a partir do desejo do Outro e da transmissão da cultura. Bordas que dão contorno à angústia e ao traumático que, de certa forma, sempre se fazem presentes na adolescência, ainda que marcada singularmente por experiências subjetivas distintas.

Não podemos desconsiderar a singularidade de cada caso em que se dá uma tentativa de suicídio ou um suicídio consumado, pois essa travessia particular da adolescência é também única para cada um que a vive, de modo que é imprescindível analisar o lugar desses agires e o que eles dizem da relação de cada sujeito com os objetos. Desse modo, faz-se essencial que analisemos por um momento a questão do ato na psicanálise de orientação freudo-lacaniana, com maior atenção para as problemáticas concernentes à diferenciação entre os conceitos de passagem ao ato e acting out, para que possamos ter mais elementos para pensar sobre os casos de suicídio na adolescência.

Inicialmente, trazendo um breve panorama sobre os apontamentos referentes aos atos na psicanálise, eles já presentes nas primeiras obras de Freud. Em “Psicopatologia da vida cotidiana”, Freud (1901/1996) traz observações referentes aos atos falhos, esquecimentos e movimentos repetitivos como atos sintomáticos passíveis de interpretação em análise. Em seguida, as concepções dos atos sintomáticos são novamente abordadas - e de forma ilustrativa - em “Fragmento da análise de um caso de histeria” (Freud, 1905[1901]/1996), o famoso caso Dora, escrito no mesmo ano do primeiro texto citado, mas publicado apenas quatro anos depois. Quase dez anos depois, porém, Freud (1914/1996) retoma a questão dos atos trazendo uma nova dimensão destes, aqueles que se opõem à interpretação em uma análise, como aparecem em “Recordar, Repetir e Elaborar”, em que o pai da psicanálise afirma que o paciente não recorda do que esqueceu e reprimiu pela via da palavra, mas o expressa pela atuação reproduzindo-o e repetindo sem saber o quê. Aqui se dá o primeiro aparecimento do termo acting out, o que melhor abordaremos a seguir. Já em 1920, ao trabalhar o caso da jovem homossexual - “A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher” -, Freud (1920/1996) aponta outra modalidade de ato como resposta possível, o que, porém, não fica ainda tão claro aqui.

Isso ocorre porque na obra de Freud não é evidente a diferenciação feita por Lacan alguns anos depois entre passagem ao ato e acting out, de modo que ele se refere às atuações utilizando um único termo: agieren, que é traduzido pelo acting out. Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Lacan (1958/1998) afirma que o campo da ação no acting out, derivado do agieren de Freud, é sobretudo simbólico, sendo este uma demanda endereçada ao Outro por meio de um agir que, na análise, aparece como uma convocação ao analista. Após esse primeiro momento, ele retoma a temática em seu seminário A angústia (Lacan, 1962-1963/2005), no qual a diferenciação entre o acting out e a passagem ao ato é delineada, principalmente, a partir de sua postulação do objeto a e da posição do sujeito em relação à cena fantasmática. O autor afirma que enquanto na passagem ao ato se trata de uma queda do sujeito para fora da cena, em que este se precipita e despenca, no acting out temos uma sustentação da cena em que o sujeito faz uma demonstração intencional, apesar de inconsciente, cuja orientação ao Outro deve ser destacada.

Lacan (1962-1963/2005) afirma também que “o momento da passagem ao ato é o do embaraço maior do sujeito” (p. 129). Segundo ele, na passagem ao ato, os lugares do sujeito, objeto, Outro e angústia se confundem, no que ele chama de um curto-circuito entre sujeito e o objeto, perante um encontro com a dimensão pulsional e real do objeto a. O autor esclarece que aqui se trata de uma identificação ao objeto a, resto da operação da castração, que atinge o sujeito com imensa angústia e, diante desta, a passagem ao ato impensado, imediato, se precipita como um sair de cena, que visa a um tratamento dessa angústia, embora menos elaborado. Aqui, portanto, o “agir é arrancar da angústia sua certeza” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 88) pela ruptura com a cena mediante o ato, em que o sujeito visa se desvencilhar da posição de identificação ao objeto a, evadindo-se da cena, caindo junto com o objeto, o que implica na dissolução desses lugares diferenciados. A passagem ao ato, assim, encerra uma cena e não se dirige a ninguém, não intenciona uma decifração, mas é uma retirada do sujeito da cena num ato de ruptura com a cadeia significante.

Nesse sentido, segundo Lacan (1962-1963/2005), o acting out, “é o oposto da passagem ao ato” (p. 136), pois tem uma exuberância performática, veicula uma cena que se dirige ao Outro, demandando decifração, interpretação e indicando um movimento de alienação. Não objetiva, portanto, uma separação, mas é um modo de responder ao Outro onde este é necessário como espectador, onde o sujeito não se deixa cair como na passagem ao ato, pelo contrário, endereça-se ao Outro num movimento que ele afirma ser de uma “transferência selvagem” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 136). Em 1967-1968, em seu seminário sobre O ato analítico, Lacan retoma a questão do ato e destaca a relação entre o acting out e a transferência afirmando que “o ato é, por sua própria dimensão, um dizer. Um ato diz algo” (Lacan, 1967-1968, p. 93). Sobre isso, é possível pensar então que enquanto o acting out vem sob a forma de um dizer endereçado ao Outro, a passagem ao ato pode ser vista mais como um “eu não quero dizer”, visando à separação do sujeito em relação ao Outro (Dutra, 2000). Com isso, em ambos, pode haver um caráter pacificador momentâneo em alguns casos, mas também há com frequência a repetição, quando novos atos se dão numa busca incessante por novos momentos de apaziguamento, sempre que há irrupção de angústia.

A partir dessas definições, supomos que o agir suicida pode ser concebido tanto como acting out, em que o sujeito endereça um apelo ao Outro, quanto como passagem ao ato, quando, atingido por um excesso pulsional que lhe causa angústia, o sujeito evade-se da cena numa tentativa de separação. Em ambos os casos o que está em jogo é o estatuto do laço ao Outro, como trabalham diversos autores (Araújo et al., 2016; Coutinho, 2009; Fonseca et al., 2018; Fortes & Macedo, 2017; Gauthier, 2007; Jucá & Vorcaro, 2018; Lesourd, 2004; Rosa, 2002; Rosa, Vicentin, Catroli, 2009). Importante dizer também, para esclarecer, que ambos não são redutíveis a uma estrutura clínica específica e, mesmo, podem estar presentes em diferentes momentos em um mesmo caso, como se deu no caso da jovem homossexual analisada por Freud (1920/1996), como comenta Lacan (1962-1963/2005).

No entanto, tal como constatamos em consonância com outras experiências de trabalho em ambulatórios e Centros de Atenção Psicossocial Infantis/Capsis (Fonseca et al., 2018; Jucá & Vorcaro, 2018; Rosa, 2002; Rosa, Vicentin, Catroli, 2009) nos últimos dez anos, houve crescimento no quantitativo e na gravidade de casos de adolescentes encaminhados aos serviços de saúde mental por atuações, nas quais se incluem autolesões, tentativas de suicídio, fugas, colocar-se em situação de risco, atos impulsivos e heteroagressividade. Tais atuações, como enunciam Jucá e Vorcaro (2018), muitas vezes se configuram como um circuito fechado de repetições difícil de romper, no qual os adolescentes atuam e encontram uma grande dificuldade de narrar seus sofrimentos. As autoras se alinham ao exposto aqui ao afirmarem a importância de se refletir sobre tais atos, desencadeados pelo real que atinge o sujeito na adolescência, mas sem deixar de notar que os impasses vividos por eles trazem denúncias em relação ao campo social.

Pensando no trabalho psíquico exigido dos adolescentes na construção de novos enlaçamentos ao Outro, a partir do que observam Jucá e Vorcaro (2018), podemos supor que alguns atos apresentam um caráter enodador, enquanto outros são marcados por um caráter desmantelador. Quando os atos são apelativos ao Outro, consistem em modos de o sujeito questionar o valor de sua existência e remetem a situações nas quais um Outro “preponderantemente faltou na articulação de sua presença com sua ausência e não era possível saber o que esperar dele, daí as tentativas de fazer com que, na adolescência, o lugar que se ocupa perante o Outro seja novamente indagado através das demandas amorosas” (p. 250).

Já no caso dos atos como resposta à angústia sem apelo ao Outro, “o adolescente está posicionado como objeto de um gozo mortífero do Outro . . . [e] se manifesta em resposta a uma angústia aniquiladora através da agressividade dirigida a si mesmo ou a outro” (p. 250).

Depois desse breve percurso acerca do agir na adolescência, que se articula às tentativas de suicídio e aos suicídios consumados, em que podemos notar tanto a presença de acting out quanto das passagens ao ato, continuamos nos indagando como a alta frequência de suicídios na adolescência contemporânea enquadra-se nesse panorama mais amplo relativo aos impasses no laço ao Outro e na tendência ao agir. E mais, o que o ato suicida traz de singular para essa discussão? Qual a especificidade desse ato que ameaça romper o laço com a vida e com o Outro? Para dar sequência, remetemo-nos agora a duas vinhetas clínicas que nos permitirão avançar em nossas construções teóricas a respeito da temática.

Michele e o acting out: a tensão entre a alienação e a separação

Michele (nome fictício) é uma adolescente de 15 anos encaminhada ao atendimento ambulatorial no serviço infantojuvenil de saúde mental no ano de 2017 por uma médica de família em virtude de uma tentativa de suicídio por meio do uso de medicamentos. A jovem pegou cartelas de remédio da mãe e tomou todos os comprimidos de uma vez e, em seguida, foi para o atendimento com a médica, que a encaminhou para fazer lavagem estomacal no hospital. Posteriormente, veio para o atendimento psicológico no ambulatório, onde foi atendida por três anos pela mesma psicóloga/psicanalista. Ao ser indagada como foi a tentativa de suicídio da filha, a mãe respondeu que “normal” [sic], porque a filha já havia tentado antes, e justificou o comportamento da filha devido ao pai da jovem, Michel (nome fictício), tê-la abandonado depois da separação conjugal. Segundo ela, mesmo morando na mesma rua e cruzando com Michele quase diariamente, Michel não falava com a filha.

No decorrer das consultas, a adolescente diz que não havia espaço para ela na casa em que morava com a mãe, a avó, e o irmão mais novo. Diz também que não gostava de dormir com a mãe e o irmão porque se sentia sufocada pela mãe. Refere-se a se sentir vigiada por todos na casa e ter a sensação de que todos esperavam que ela fizesse algo errado e que até torciam para que isso acontecesse. Sentia que a vigiavam até quando ela estava dormindo. Por isso, diz que preferia estar na escola, conversando com amigos, com a coordenadora ou pegando livros na biblioteca, os quais lê incansavelmente, fazendo menção a eles em suas sessões. Ao descrever a tentativa de suicídio que a fez chegar para o atendimento psicológico, contou que estava “farta” [sic] de toda a família, principalmente da mãe. Por isso, queria esquecer de tudo, queria “dormir para sempre” [sic], com o objetivo de “não mais sentir” [sic]. Sentia que não podia confiar em ninguém, porque tudo era usado contra ela. Compartilha então com a analista a vontade de não querer mais viver, pois, segundo ela, sua vida “não tinha sentido”, dizendo que “Queria mudar de vida ou desistir de tudo”.

Diante do cenário de angústia trazido pela jovem à análise, uma pergunta importante se colocou já de saída: como escutar o ato suicida da jovem que ameaçava romper o laço com a vida e com o Outro? Imersa em um contexto de vida de enorme desamparo familiar, vulnerabilidade social e com muita dificuldade de estabilizar o seu lugar no desejo dos pais e, com isso, construir um laço social, a jovem estava imersa em uma vida sem sentido de existência. Em suas tentativas de conversar com a mãe, dizia sentir que a genitora não queria escutá-la, por isso se sentia tão sozinha na própria casa. Na relação analítica, a jovem pôde ser ouvida e pôde ter alguém que validou o seu sofrimento, de modo que a transferência se estabeleceu sob a forma de apelos constantes por parte da jovem - que sentia muita dificuldade de expressar verbalmente o que sentia, mas conseguia, de alguma forma, dizer por escrito com as cartas que trazia consigo para as sessões. Essas missivas consistiam em anúncios de sua morte e narravam a dificuldade que era estar viva sendo filha de seu pai e sua mãe, para os quais não se sentia importante. Pedia para a analista ler em voz alta e, em seguida, podia dizer algo do que escreveu. Assim, notamos uma demanda endereçada ao Outro por meio de um agir que, na análise, aparece como uma convocação à analista, e que, destarte, nos faz pensar tanto na demanda feita na sessão quanto nas tentativas de suicídio ocorridas até aqui como acting out.

É notório e afirmado por diversos autores que, em muitas tentativas de suicídio, o sujeito não deseja a morte, mas a vê como solução quando a vida se torna insuportável, uma tentativa de fuga de um sofrimento que geralmente não se coloca em palavras e que porta uma mensagem de angústia, dor, desespero, medo, autodepreciação (Cassorla, 1991). Nesse sentido, como enuncia Rosa (2002), os atos dos adolescentes hoje, incluindo o suicídio, são vistos por eles como uma solução - inútil, apesar de eles não se darem conta disso a priori -, “para provar a existência - faço, logo sou” (p. 7). Diante disso, afirma e se questiona: “Ato heróico (Antígona) ou o máximo da alienação? Ato extremo de quem quer autodeterminar-se ou mais um apelo ao pai?” (p. 8).

Sendo importante aqui trazer o conceito lacaniano de alienação, é preciso que nos detenhamos por um breve momento a esclarecê-lo. Lacan (1964/1985), no Seminário 11, explica a constituição do sujeito em termos de alienação e separação, duas operações que podemos compreender como reguladoras das relações do sujeito e do Outro. A alienação, segundo Lacan (1960/1998), é própria do sujeito, na medida em que ele nasce por ação da linguagem enquanto operada pelo Outro - primordialmente a mãe - que lhe oferece vários significantes, entre os quais ele se submeterá a um, embora seu ser não possa ser totalmente coberto por esse sentido, já que há sempre uma perda em jogo. Ou seja, colocado na posição de objeto pela mãe, o sujeito se identifica com o traço significante aportado por esse Outro, é capturado por ele, assujeitando-se a sua primazia. A partir disso, nota-se que, para que do objeto possa advir o sujeito, falante e desejante, é preciso que essa operação esteja remetida a uma outra, a de separação. Nesta, pelo movimento de ausência-presença do Outro, se experiencia uma dupla falta: a falta no Outro - também produzida por sua própria perda como objeto - e a produzida pela perda de “ser”. Questionando-se, pois, se o Outro pode perdê-lo, é que o sujeito se confronta com a dimensão do desejo, irrompendo na cadeia significante e advindo enquanto tal.

A partir disso vemos que, entre a alienação ao Outro e a separação, as tentativas de suicídio de Michele mostram-se paradigmáticas dos dilemas da adolescência hoje, marcados também nesse caso pelo apagamento de seu lugar no desejo do Outro, fundamental para a reafirmação das ancoragens simbólicas do sujeito adolescente. As várias tentativas de suicídio feitas por Michele, bem como os anúncios prévios a respeito delas, como no caso das cartas endereçadas à analista, mostram seu apelo ao Outro, visando tentar amarrar, construir bordas para sua dor de existir que não encontra palavras nem acolhimento nas relações familiares e sociais.

Acreditamos que no caso de Michele as tentativas de suicídio apresentam-se predominantemente como episódios de acting out, apelos ao Outro a partir de sua vivência recorrente do desamparo. Pelas constantes não respostas tanto por parte do pai quanto por parte da mãe, somadas ao contexto de precariedade social em que vivia a adolescente e a família, o agir suicida denota a vulnerabilidade de seu laço ao Outro e à vida. Vulnerabilidade tanto remetida a essa problemática relativa ao seu lugar no desejo dos pais quanto aquela em que a própria família se encontra pela condição de desamparo social em que vive - sem deixar de considerar as questões psíquicas do pai e da mãe sobrepostas a tal condição. De todo modo, fica explícito nesse caso que os pais não conseguem fazer uma aposta em Michele, no sentido de uma transmissão de desejo que aponte para um futuro possível.

Destarte, não descartamos a possibilidade de pensarmos na última tentativa de suicídio de Michele durante o tratamento como uma passagem ao ato, quando ela ingere grande quantidade de medicamentos e fica desacordada por mais de 12 horas, assustando-se quando acorda ainda viva no hospital. A ida ao pronto-socorro se deu depois de uma ligação telefônica que a analista fez para os pais da adolescente, falando da necessidade de buscar auxílio médico para a filha naquele momento, já que ambos não estavam dando crédito à gravidade da situação. Assim, pelo fato de estar em análise, acolhemos tal agir de Michele como “não-sem endereçamento”, fazendo uma aposta em Michele a partir do lugar de desejo do analista e trabalhamos a partir dele na transferência. O trabalho analítico realizado com ela consistiu em grande parte em viabilizar um espaço para falar de sua dor, colocá-la em palavras para permitir elaborações e giros para além da repetição e atuação. Tal trabalho caminhou junto com sua abertura a novas possibilidades de enlaçamento com outras pessoas e lugares que surgiram na cena ao longo do acompanhamento.

Do jovem Werther ao jovem Pedro: a passagem ao ato e a construção de um dizer em análise

O jovem Pedro (nome fictício) chegou ao ambulatório aos 16 anos, acompanhado da mãe Selma (nome fictício). A queixa trazida foi que o filho não queria mais ir à escola e, por isso, o Conselho Tutelar foi acionado, encaminhando Pedro para atendimento em um serviço de saúde mental e determinando o obrigatório retorno do jovem à escola, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A mãe de Pedro relatou que ele desejava abandonar a escola para poder se dedicar a um jogo on-line, no intuito de se tornar jogador profissional. Apesar disso, dizia estar tudo bem com o filho e afirmou que ele apenas ficava muito tempo sozinho em casa e que era um pouco quieto, mas que esse era o “jeito dele” [sic], repetindo que estava tudo bem com ele. Pedro interrompeu a fala da mãe para dizer que esse não era o único motivo que o trazia ao atendimento e que só iria falar sobre isso se ela não estivesse presente, ao que ela respondeu com uma expressão surpresa.

Os atendimentos de Pedro giraram majoritariamente em torno de sua dificuldade de falar com outras pessoas, o que o deixava desanimado e o fazia sentir-se diferente dos outros, “estranho” [sic], segundo ele. Com o passar das sessões, passou a demandar menos que a analista lhe fizesse perguntas, como fazia no início, e se questionava sobre o sentido de estar ali. Certo dia, em vez de fazer uma pergunta direta à analista, perguntou: “Qual é a pergunta que eu deveria me fazer?”. Na sessão seguinte, contou que sua dificuldade em falar com as pessoas podia se relacionar com três coisas que pensou: 1. Uma memória: conta que quando precisa começar um assunto com alguém se lembrava de uma cena que aconteceu na escola quando leu um texto em voz alta e todos riram muito dele e de como ele se sentiu mal naquela ocasião. 2. O fato de a mãe sempre responder por ele: disse que por um tempo gostou muito disso, pois era mais fácil não precisar responder, ela sempre respondia por ele. Mas ultimamente estava pedindo para que ela parasse com isso, porque, como nunca se esforçava para responder, acreditava que isso dificultava suas habilidades e, portanto, deveria se esforçar mais, e estava tentando fazer isso. 3. Achava que era um pouco introvertido mesmo, lembrava-se de que desde criança sempre tinha sido mais quieto e que gostava muito de ficar em casa sozinho, brincava muito sozinho, mais do que com outras crianças.

No dia do seu aniversário, Pedro contou que aquele mês era diferente, pois era seu aniversário e completava um ano que o pai estava preso. Relatou, então, que o pai havia sido preso por tentar estuprar uma mulher que trabalhava como babá de Pedro quando ele era criança. Contou que os pais se separaram quando ele ainda era muito pequeno e que depois de um processo de separação muito difícil passou a ver o pai apenas nos fins de semana. Disse também que há dois anos não tinha mais interesse em falar com ele, então decidiu não mais encontrá-lo. Com um sorriso, disse que gostaria que o pai morresse na cadeia, porque era uma pessoa muito ruim e assim ficaria com a herança, o dinheiro e os apartamentos que o pai possuía. Continuou dizendo que o pai era muito controlador, que controlava tudo que a mãe fazia, do horário que ela poderia ou não sair de casa até a roupa que ela iria usar, que ele a proibia de trabalhar e era muito violento e grosseiro com ela. Pedro ficou alguns minutos em silêncio e então disse que nunca havia pensado em algumas coisas, até o dia em que a analista falou sobre elas com ele, e que agora essas coisas tinham feito todo sentido para ele. Disse que quando ela falou com ele sobre o controle que talvez ele gostaria de ter sobre as coisas ficou pensando muito e concluiu que: “pode ser que isso eu tenha puxado do meu pai” [sic].

No último atendimento antes de um recesso do serviço por 15 dias, Pedro contou que o pai havia falecido na cadeia por causa de insuficiência cardíaca, no fim de semana anterior. Disse que o pai tinha muitos defeitos, mas que ele não era uma pessoa completamente ruim e relembrou diversos momentos bons que viveu com ele. Pedro se emocionou e disse que não queria que o pai morresse de verdade quando falou “aquilo”. Ele estava visivelmente muito triste e abalado e, ao se despedir da analista, ela se dispôs a falar com ele por telefone, caso ele precisasse, já que não haveria atendimento nas próximas duas semanas.

Na semana seguinte, durante o recesso, Pedro enviou uma mensagem de WhatsApp para a analista, de madrugada, perguntando: “Você consegue me dizer três motivos para viver?”. Na manhã seguinte, antes que ela pudesse ter contato diretamente com o paciente, recebeu a ligação de uma médica pediatra de um hospital geral particular informando que recebera Pedro no pronto-socorro e que ele havia dado aquele número para que ela entrasse em contato. A médica informou que na noite anterior Pedro havia ingerido grande quantidade de comprimidos, tentando suicidar-se. Entretanto, ainda que a analista tenha confirmado que acompanhava o caso, a médica não permitiu que ela falasse com o paciente e disse que seguiria o protocolo do hospital nos casos de tentativas de suicídio. Desse mesmo hospital, Pedro foi encaminhado de ambulância diretamente para uma clínica psiquiátrica, onde ficou internado por cerca de seis meses. Durante esse período, o contato com a analista ficou bastante dificultado, e ela mantinha o vínculo com o caso principalmente por meio de atendimentos feitos com a mãe do rapaz, até que ela finalmente pôde se fortalecer para assumir a responsabilidade de tirar o filho da internação. Só então Pedro pôde retomar os atendimentos ambulatoriais com a analista.

O caso de Pedro nos faz recordar o texto sobre o caso da jovem homossexual, mais especificamente da cena em que a moça se joga em direção à linha do trem, quando Freud (1920/1996) afirma que o sujeito encontra a energia mental para se matar quando, fazendo isso, mata um objeto com o qual se identificou e volta contra si o desejo de morte antes dirigido a outrem. Em sua leitura desse caso, Lacan (1962-1963/2005) interpretará o ato da jovem como passagem ao ato, que pode ser pensado em relação à queda do objeto a, pois ele afirma que a condição para o ato da jovem de evadir-se da cena era sua identificação absoluta com o objeto a, ao qual ela se reduz.

No caso Pedro, podemos supor sua identificação a uma mãe frágil que se oferecia como objeto de modo masoquista ao pai, denunciando falhas na transmissão das perdas necessárias à subjetivação e à inscrição da falta. Diante da falência do Outro simbólico, Pedro parece expressar uma das facetas das patologias do excesso, trabalhadas por Cosenza (2024) como típicas do paradigma da desconexão do simbólico que caracterizam muitas adolescências no mundo contemporâneo. Tal quadro dificultava o laço com a escola e, por outro, lado facilitava a adesão ao videogame, que ele jogava o dia todo sem nenhuma intervenção suficiente da família para barrá-lo. Assim, notam-se falhas na transmissão da função paterna para garantir a construção de uma referência simbólica alteritária para Pedro que o permitisse se separar da mãe e fazer o luto dessa relação de alienação infantil ao desejo da mãe. Com isso, nota-se também que havia a oferta de uma identificação a ela como objeto masoquista do pai sádico, que, pelo contrário, o mantinha na repetição de uma degradação do desejo em favor de uma objetalização gozosa e da retirada dos investimentos em outros objetos. Por outro lado, a rivalidade edípica ao pai se fazia difícil de sustentar, já que a identificação amorosa a ele como suporte fálico era vacilante, de modo que prevalece no caso um empuxo ao gozo e uma adesão ao Outro primordial, em detrimento do tratamento do real pelo simbólico.

A análise de Caravelli (2017) a respeito do suicídio ordálico dos adolescentes contemporâneos nos ajuda a pensar o caso de Pedro. Ao abordar a temática do suicídio por uma leitura da obra O sofrimento do jovem Werther, de Goethe, e sua implicação social, Caravelli aponta que a obra expõe o mal-estar de uma época em que as organizações nucleares familiares e de trabalho foram afetadas pelos efeitos da Revolução Industrial de 1760, que teve ainda como consequência a modificação que os jovens tiveram de efetuar de suas marcas identitárias e seus ideais. De lá para cá, muita coisa mudou, aconteceu no mundo e impactou os jovens do século XXI, principalmente no que concerne à maior efemeridade que atinge os estabilizadores da cultura, que se tornam “imateriais, virtuais, fugazes, temperados por aditivos químicos artificiais, sintéticos, cada vez mais potentes, amplificadores de sensações” (p. 8). É por isso que Caravelli (2017) afirma que “os ritos de passagem se desvaneceram e volatilizaram, dando lugar a riscos de passagem. Passagens ao ato” (p. 11). Dessa forma, mergulhados nos gadgets, os adolescentes muitas vezes silenciam e são silenciados, não tendo mais por onde escoar o excesso pulsional que precisa se inscrever psiquicamente, o que não se dá sem a participação da cultura. Diante de mecanismos psíquicos para controlar a angústia e simbolizar a intensidade das transições dessa fase que parecem cada vez mais insuficientes, eles recorrem, segundo a autora, frequentemente às passagens ao ato como meio de dar vazão a isso que lhes invade, sentir no corpo o que não é possível inscrever, testando seus limites para tentarem se sentir existindo - e não para morrer, ao contrário do que o ato parece intencionar.

No a posteriori do atendimento ao jovem Pedro, é possível supor a importância da presença da analista com seu corpo e com empréstimo de seu desejo, numa aposta pela vida nesse caso. Apesar do frágil e duvidoso endereçamento feito pelo adolescente à analista minutos antes da tentativa de suicídio, a direção do caso pensada na rede da equipe de supervisão se sustentou na hipótese de que se tratava de um ato “não-sem-endereçamento”, já que Pedro estava em análise. Nesse sentido, a analista se preocupa em fazê-lo saber que permanecia acompanhando-o, mesmo durante a internação, seja mediante telefonemas e da única visita que lhe foi possível fazer na clínica diante das muitas dificuldades colocadas pela equipe médica de lá, seja por intermédio dos atendimentos feitos à mãe do adolescente. Com isso, faz-se uma aposta no futuro, em um laço possível com o Outro pela via da análise, sustentando um desejo de que a morte do pai não coincidisse com a morte de seu futuro. Para isso, a análise haveria de continuar depois da internação, possibilitando-o reeditar sua história e caminhar na direção da construção de novos referentes fálicos para o desejo, quer pela via do investimento narcísico materno, quer pela via do legado do pai, até então desvalorizado e abominado socialmente.

Suicídio e adolescências desenlaçadas: do desamparo ao desalento

Com as vinhetas apresentadas, podemos perceber como na adolescência certos impasses iniciais na relação ao Outro retornam agora na cena social e podem resultar no desenlaçamento pulsional e nas diversas formas do agir. Nesse sentido, a adolescência coloca em xeque a identificação primária com os primeiros objetos, que está na origem dos ideais e do próprio eu como eu ideal, e depende da possibilidade de perdê-los e transformá-los em traços simbólicos que dão origem ao ideal do eu (Coutinho, 2009). Isso coloca à prova a qualidade do laço ao Outro encarnado no objeto dos primeiros cuidados - se mais ou menos narcísico, mais ou menos onipotente ou capaz de suportar perdas e separações. Por isso, a qualidade da presença dos pais na adolescência é também tão decisiva, no sentido de facilitar ou dificultar a ressignificação desse processo de perdas e separações que exigem a elaboração da falta no Outro e a apropriação singular dessa referência simbólica por parte do sujeito adolescente na construção de novos laços sociais. A esse respeito, vale resgatar o alerta de Freud em 1910 da importância da escola e dos laços sociais extrafamiliares nesse momento de afrouxamento dos laços familiares.

Tendo em vista a singularidade dos casos anteriormente expostos, enquanto no caso de Michele vemos a adolescente clamando pelo olhar dos pais que não se faziam presentes, no caso de Pedro, esse apelo, inicialmente, nem mesmo se evidencia. Neste se transmutou em autoacusações diante dos difíceis desafios nas relações ao Outro/outros e na retirada de investimentos nos outros e na escola. Nesse caso, no lugar do apelo, predomina a desistência. Entretanto, em ambos podemos ler no ato suicida diferentes respostas dos adolescentes diante dos impasses no laço ao Outro, decorrentes das marcas dos investimentos/desinvestimentos narcísicos dos primeiros outros no sujeito. A partir dos dois casos, e levando em conta ainda a precariedade social dessas famílias e adolescentes, marcados por várias formas de vulnerabilidade e desinserção (escolar, econômica, jurídica), somos levados a nos interrogar: até que ponto é possível atravessar tais impasses iniciais na relação ao Outro na adolescência e de que forma as questões sociais nas quais a adolescência se dá podem reforçar essa condição?

Em um escrito, Birman (2006) já havia chamado atenção para a condição de desamparo juvenil diante das mudanças sociais que levam à impossibilidade em traçar as relações entre o presente e o futuro, com a perda de noção linear do tempo e os abalos na noção de espaço. O autor argumenta que os efeitos psíquicos dos impasses no laço social aos quais estão submetidos os jovens/adolescentes interferem no próprio sentido da vida e da existência. Birman (2012) introduz nesse cenário a dialética entre o desamparo e o desalento na condição subjetiva contemporânea. O autor ressalta que o mal-estar da contemporaneidade não se apresenta predominantemente como sofrimento, como prevaleceu na modernidade, mas como dor. Essa é uma experiência solipsista, na qual o sujeito se fecha sobre si mesmo, não se direcionando à dimensão alteritária, mas ficando imerso em um ressentimento narcísico em que o outro é visto sempre como rival e não passível de ser receptor de um apelo. Enquanto o sofrimento implica a condição de desamparo como possibilidade de simbolização e subjetivação a partir do apelo, na dor o sujeito fica entregue ao desalento, paralisado em seu solipsismo e entregue ao desolamento.

Nessa grade de leitura, podemos pensar que muitas vezes é o desalento que prevalece nas adolescências contemporâneas, quando o excesso pulsional transborda o psiquismo e toma o sujeito sob a forma de angústia. Assim, o sujeito permanece no registro da intensidade e da dor, quando se dá a reedição de seu desamparo em desalento, pela presença da angústia real e do seu efeito traumático diante do qual o eu se sente impotente, sem meios para antecipar e se defender com recursos simbólicos. Para tentar fazê-lo, muitas vezes recorre à compulsão à repetição e à atuação, na qual se incluem as tentativas de suicídio, nem esforço desesperado de circunscrever a experiência traumática que lhe tomou, o que, em última instância, diz respeito aos impasses na possibilidade de elaborar a passagem adolescente da família ao laço social.

Considerações finais

Depois desse breve percurso investigativo acerca do que os atos suicidas na adolescência revelam a respeito dos impasses no laço social contemporâneo, podemos situá-los no escopo das manifestações do esgarçamento do Outro na cultura e na educação, impulsionado pela hegemonia do discurso do capital aliado ao discurso da ciência. As ideias trazidas por Caravelli (2017), Cosenza (2024) e Birman (2012) corroboram essa leitura, quando defendem que o sujeito contemporâneo, desprovido dos referenciais que outrora o guiavam na modernidade, é relançado ao desamparo, à desconexão ao Outro e aos excessos, o que promove uma experiência de dor solipsista de difícil simbolização, em um mundo onde cada vez mais as ligações com a alteridade se desvanecem. Nesse sentido, o sujeito contemporâneo, diante de uma sociedade hoje regida pela lógica neoliberal aliada à superação dos impossíveis legitimada pela ciência, narcísica e imediatista, vive predominantemente no registro do desalento, o que dificulta sua ligação ao Outro e, consequentemente, que ele possa colocar a dor em palavras. Não podendo lançar mão de circuitos eróticos que outrora serviam de contorno à pulsão, o sujeito descarrega o excesso pulsional pelo ato, em intensidade, e muitas vezes no corpo, tentando assim dar um destino à angústia e enunciar sua existência por meio do agir. Tal cenário, consoante Birman (2012, 2021), aponta para o predomínio das passagens ao ato sob a forma das compulsões, adicções, sintomatologias psicossomáticas, entre outras manifestações, em detrimento do acting out. A análise dos casos nos faz lembrar, entretanto, que não é possível generalizar, quando nos situamos ao lado do sujeito, fazendo valer a ética da psicanálise no campo da pesquisa.

É possível pensar também que a situação de desvelamento da inconsistência do Outro no cenário social, que pode resultar também em discursos totalitários que tentam, de modo avesso, fazer o Outro consistir a todo custo, promove o desamparo discursivo de muitos adolescentes, tal como já trabalhou Rosa (2016). Isso se dá quando discursos segregacionistas, que podem até mesmo ser engendrados pela lógica da ciência aliada ao capital, ocupam o lugar do Outro polissêmico na constituição subjetiva de muitos jovens, de modo que estes perdem a potência discursiva e passam a só poder responder pela via dos atos violentos e disruptivos. Tal situação, como tem sido discutido por vários autores da psicanálise na interface com a política (Lebrun, 2004; Rosa & Vicentin, 2010; Rosa, Vicentin, Catroli, 2009), se articula à hegemonia do discurso capitalista, que promove um esgarçamento dos laços alteritários nos quais se sustentam o desejo e a fantasia, em prol da degradação do sujeito em objeto, ficando submetido aos imperativos de gozo que muitas vezes levam os adolescentes a ensaiarem uma inserção no laço social pela via da crueza do ato, em detrimento da palavra.

Nesse espectro maior, as novas configurações do campo educativo, marcadas pela lógica neoliberal e pelo tecnicismo, também têm reforçado o apagamento da referência ao Outro, requerida no que concerne a uma palavra que faz laço e faz sujeito. Assim, diversos são os autores (Coutinho & Andrade, 2017; Gurski; 2019; Lajonquière, 2018; Primo, Rosa, Carmo-Huerta, 2021) que vêm apontando que muitas instituições escolares não têm mais sido tomadas como lugares de enlaçamento e de transmissão de possibilidades para o futuro, pois com frequência universalizam os impasses vividos com diagnósticos e encaminhamentos e, assim, sem escutar os sujeitos, não lhes reconhecem um lugar singular de inscrição no laço social que sustente o desejo de viver.

Não podemos deixar de mencionar ainda o contexto traumático da pandemia do novo coronavírus, quando os atendimentos dos casos analisados aconteceram, mais agravado no Brasil pelo descaso com a saúde e com a educação do governo em exercício na época. Como ressalta Birman (2021), a precarização de instâncias coletivas de proteção e de garantia de direitos, a força do discurso médico e dos especialismos contribui para apagar ainda mais a presença já frágil das instâncias parentais e educacionais na adolescência de seus filhos. Mais uma vez, o que está em questão é o estatuto do Outro no laço social e no sujeito, que assume uma dimensão mais dramática, em se tratando da operação da adolescência, já que as instâncias sociais de apelo tendem a se desvanecer num cenário político regido pelo neoliberalismo e pelos neofascismos.

Diante disso, a presença de um/a analista atento às demandas de seu tempo pode favorecer ao sujeito adolescente e às instituições que dele se ocupam a possibilidade de inscrever o excesso pulsional psiquicamente e socialmente, evitando os aspectos destrutivos da pulsão de morte, barrando o gozo e permitindo que o sujeito se confronte com seu desejo. Acolhendo o desamparo perante a falta de sentido, a escuta analítica permite que o sujeito elabore os impasses e as transformações em curso na sua relação ao Outro e possa ressignificar sua história e sua vida. E o faz dando vida às palavras, possibilitando que elas rompam o silêncio e possam inscrever o mal-estar, fazendo borda ao real da puberdade.

Por fim, não podemos deixar de apontar uma interrogação que resta no fim deste escrito, mas que se faz imprescindível em pesquisas futuras. Trata-se de questionar a dimensão sociopolítica (Rosa, 2016) do sofrimento juvenil manifesto nos atos suicidas tão recorrentes no Brasil contemporâneo, posto que não se trata de um fenômeno isolado, mas de escala nacional e crescente. Se pensarmos, com Safatle (2015), que ele remete à precariedade de laços solidários e alteritários próprios ao estado do laço social hegemônico nas sociedades neoliberais, não seria esse um sintoma social condizente com os modos de governar próprios do nosso tempo?

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5 O artigo deriva do projeto de pesquisa Educação para a vida: adolescência, suicídio e vulnerabilidades sociais, coordenado por Luciana Gageiro Coutinho, em andamento no âmbito do Grupo de Pesquisa Psicanálise, Educação e Laço Social, da Universidade Federal Fluminense (Lapse/UFF). As coautoras deste artigo são membras da equipe responsável pela pesquisa, que, em parte, foi desenvolvida no ambulatório do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência/Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Spia/Ipub-UFRJ).

Recebido: 26 de Setembro de 2023; Revisado: 25 de Março de 2025; Aceito: 25 de Março de 2025; Publicado: 12 de Junho de 2025

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