Introdução
No campo psicanalítico, a pesquisa que Freud inaugura a respeito da dinâmica psíquica se dá, entre outros aspectos, acerca de identificações que permeiam a vida humana no processo “civilizatório” (Freud, 1930/2010). A partir da reflexão acerca da experiência de Freud com a religião judaica, buscamos conjeturar em quais sentidos a análise da sua herança judaica pode auxiliar em uma compreensão mais ampla e contextualizada da vida e da obra freudianas. Observamos que a apreensão singular da identidade judaica revela a insubmissão do autor, em um contexto declaradamente antissemita, e aponta para uma possível elaboração do luto pela morte do pai e da ambivalência afetiva a ele dirigida - pelo menos de uma parte dela.
Para construir tal reflexão, abordaremos o tema de forma ética e cuidadosa para não cair na armadilha, já apontada por Fuks (2000), de psicanalisar o judaísmo ou judaizar a Psicanálise. Por meio de revisão da literatura, encontramos alguns aspectos acerca da relação de Freud com o judaísmo registrados por Fuks (2000; 2014) e contemplamos as reflexões engendradas por artigos que buscam trabalhar os enlaces da vida de Freud com seus escritos sobre as religiões monoteístas e seus entrelaçamentos com o judaísmo (Birman, 2013; Fridman, 2015; Indursky & Kveller, 2017; Wels, 2021). Ademais, recorremos aos próprios textos de Freud (1939/2018; 1921/2011; 1930/2010; 1927/2006; 1920/2006). para articularmos as temáticas propostas.
A experiência de Freud com a religião judaica
Fuks (2000) faz uma análise cuidadosa das possíveis interações estabelecidas entre o criador da Psicanálise e o judaísmo. Em sua linha argumentativa, Fuks tece ideias tangentes à apropriação singular de Freud de alguns preceitos da religião judaica. Preceitos esses que estão intimamente relacionados com o estabelecimento de uma ética que norteou a existência do homem/cidadão Freud.
Fuks (2000) aponta que a familiarização de Freud desde a mais tenra idade com a história bíblica e o reconhecimento de sua pertença a uma minoria judaica, com histórico de discriminações e submissões a sacrifícios, contribuíram para que se fortificasse nele a resistência necessária para os futuros percalços enfrentados por sua criação. Freud identificou-se desde cedo como pertencente a esse grupo que, para ele, significava promessas de uma vida para além do comum, do ordinário. Como lembra a autora, Freud nos forneceu depoimentos a esse respeito em algumas passagens de sua obra.
Ele nos conta, no texto de 1900, A interpretação dos sonhos, que, na época do governo liberal de Viena, que estabeleceu a Constituição Austríaca de 1867, toda criança judia estudiosa carregava uma carteira ministerial na pasta de estudante. Guardava, portanto, uma esperança, quase utópica, de poder nadar na contracorrente de um antissemitismo latente e lançar-se na construção de uma nova “terra prometida” (Fuks, 2000, p. 28).
O estudante Freud se lançou na construção da “terra prometida”, erguida sobre os pilares dos mecanismos inconscientes. Ele trabalhou no sentido de universalizar a abrangência de seus achados e de constituir a Psicanálise como um campo inaugural, não pertencente a nenhuma esfera de saber científico já constituída e tampouco fruto de uma experiência de cunho religioso.
Para Freud, o judaísmo foi uma vantajosa fonte de energia para o enfrentamento dos obstáculos nessa fundação (Fuks, 2000) e parece ter sido uma das fontes que lhe possibilitaram enfrentar tanto a violência antissemita quanto as resistências aos achados psicanalíticos desde a sexualidade às releituras do monoteísmo. Ele utiliza as adversidades a seu favor, instrumentalizando-as para o aprofundamento crítico e teórico de suas descobertas. Em outra obra, Fuks (2014) afirma que “Talvez não tenha sido por acaso que o primeiro defensor da psicanálise tenha sido um judeu. Acreditar nessa nova teoria exigia determinado grau de aptidão para aceitar uma situação da oposição solitária, situação com a qual ninguém está mais familiarizado do que um judeu” (p. 47).
Tendo como pano de fundo a contextualização histórica que marca a jornada de exílios do povo judeu, a autora vai caracterizar a prática da experiência judaica de Freud como um “fora-dentro”, marcada por uma produção intelectual que é perpassada por movimentos e dinamismos (Fuks, 2000). Essa movimentação incessante acompanhou toda a produção intelectual de Freud. Sua obra é o grande legado de suas idas e vindas, formulações, reformulações, contradições; enfim, uma busca contínua de ser o mais fidedigno possível à leitura da realidade psíquica que buscava elucidar. Como nos relembra Wels (2021), ao resgatar a fala do biógrafo de Freud, Peter Gay,
Quando de seu surgimento, a psicanálise é recebida como uma ciência judaica. Opõe-se à maioria. Foi inicialmente recebida, pela comunidade médica da época, como um sistema especulativo e de premissas pouco claras e precisas. Porém, enfrentar as coisas como elas são é o que caracteriza a vida de Freud. Ser o destruidor das ilusões humanas, como foi Freud pelas intenções e pelos resultados, significa transformar-se num alvo especial dos antissemitas. “Esteja certo”, escreveu Freud no verão de 1908 a seu brilhante discípulo Karl Abraham, “se meu nome fosse Oberhuber minhas inovações teriam encontrado muito menos resistência, apesar de tudo” (p. 307).
Assim como Freud não renunciou de suas descobertas psicanalíticas, observa-se uma postura semelhante na afirmação do seu lugar no judaísmo em um contexto histórico em que o ideal antissemita estava amplamente propagado. Ainda como aponta Wels (2021), a Viena da época freudiana caracterizava-se por ser um meio cultural conservador e hostil às audácias. A ética que fundamentara Freud transcendia a esfera de sua existência particular, assim, “para impor sua descoberta a uma sociedade que o hostilizava, Freud manteve uma atitude solidária e inabalável em relação à questão judaica e, ao mesmo tempo, afirmava-se judeu de uma forma absolutamente subjetiva e singular” (Fuks, 2000, p. 40).
Podemos pensar, portanto, no sentido da experiência religiosa de Freud, se assim podemos chamá-la. A religião, que pode ser vivenciada a partir de crenças, práticas, cultos e rituais específicos, parece ter sido ressignificada pelo criador da Psicanálise. A apropriação singular do traço judaico se deu em outro âmbito, sustentado pela perspectiva de marcar uma diferença em uma pretensa igualdade, assinalando a forte apropriação ética e filosófica de Freud, que optou por renunciar a sua pertença a um grupo majoritário.
No âmbito acadêmico e científico, houve uma postura semelhante. Tal como aponta Wels (2021), Freud rompeu com a ortodoxia acadêmica liberal-racionalista, desvencilhando-se das amarras biológicas e anatômicas predominantes no discurso biomédico. Desde o início, a investigação psicanalítica protagonizou elementos e pessoas que estão à margem do discurso hegemônico - crianças, mulheres, sonhos, mitos -, elementos que foram recalcados pela racionalidade e pela frieza da ciência tradicional (Wels, 2021).
De forma ambivalente - e talvez não poderia ser de outra maneira - Freud marca a sua diferença identitária em um contexto antissemita e, concomitantemente, procura desembaraçar a Psicanálise de particularismos políticos, nacionais, religiosos e étnicos (Birman, 2013). Para Freud, o judaísmo entraria mais no lugar de uma ética do que no lugar de uma religião, uma ética centrada no desejo, na responsabilidade do processo de produção e reprodução de sua singularidade (Birman, 2013).
Singularidade que se presentifica no seu modo de apreensão do judaísmo e na sua (im)postura ética quanto aos valores morais disseminados em Viena. Reafirmar-se judeu em um contexto antissemita revela a insubmissão freudiana ao modelo hegemônico, insubmissão que também se demonstra no deslindamento psicanalítico sobre a sexualidade, o estranho e o mortífero que constituem o humano. A vida - pessoal e profissional - de Freud foi, nesse sentido, marcada pela errância, pelo exílio, pela desterritorialização e marginalização.
Freud e a religião
Não é possível abarcar o tema de Freud e sua pertença a um grupo religioso e não falar de sua posição pública, registrada em diversas obras, sobre o seu pensamento acerca da religião. Por vezes, ele atribui à religião o caráter de ilusão, um estágio infantil da humanidade que viria a ser superado pelo conhecimento científico (Freud, 1927/2006). Explicita, assim, a sua esperança na supremacia de ideais científicos em uma realidade futura e acredita que a religião estaria gradativamente perdendo o seu lugar para o advento da ciência (Freud, 1927/2006).
Partindo dessas conjecturas, Freud analisa aspectos da condição humana para culminar numa reflexão sobre os desígnios religiosos. Ele nos diz, portanto, que o ônus de se viver em sociedade associado às forças ferozes e intempestivas da natureza são um golpe no narcisismo humano. Ameaçado pelo incontrolável, o homem, desamparado e ansioso, necessita de algum tipo de consolação que permita a ele despir a natureza de seu caráter terrificante (Freud, 1927/2006).
Assim, ao refletir sobre a religião, Freud tece críticas sobre o que ele chamou de ilusão, calcada no desejo e no narcisismo humano, que despreza a relação com a realidade e não se presta à verificação (Freud, 1927/2006). A ilusão se entrelaça com a idealização de que os preceitos não científicos possam aplacar a angústia relacionada à condição de desamparo no humano. O autor critica também a possibilidade de um “sentimento oceânico”, que transcenderia a existência egoica, por meio de um sentimento de fusão, de unidade com o “todo” (Freud, 1930/2010).
Nessa linha argumentativa, aponta que os conflitos infantis ligados ao complexo paterno projetado na figura de deuses “universalmente” aceitos são os responsáveis pela criação de ilusões, tendo em vista que “o que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos” (Freud, 1927/2006, p. 39). A figura de Deus seria então uma projeção dos anseios humanos como algo divinizado e para além da matéria. Freud (1927/2006) aposta então que devido ao avanço do método científico a cultura poderá superar essa fase infantil do desenvolvimento, prescindindo da figura de um Pai todo poderoso, que dá amparo e sustentação perante a imprevisibilidade inerente à vida, “Afastando suas expectativas em relação a um outro e concentrando todas as energias liberadas em sua vida na Terra, provavelmente conseguirão alcançar um estado de coisas em que a vida se tornará tolerável para todos e a civilização não mais será opressiva para ninguém” (pp. 57-58).
Conforme apontado em trabalhos anteriores2, Freud idealizava uma certa noção de campo científico e, por vezes, pareceu colocar a ciência no mesmo patamar que as religiões cristãs colocam a figura de Deus, demonstrando uma fé inabalável nos seus achados. Contudo, observamos que essa confiança na ciência é fortemente abalada quando testemunha os efeitos nocivos que instrumentos científicos podem produzir - guerras, etnocídios - e acaba, nesse sentido, formulando a sua concepção de pulsão de morte (Freud, 1920/2006).
Fica ao leitor de Freud uma questão curiosa: de que forma esse autor que criticou veementemente e publicamente a religião foi capaz também de lutar pela dignidade e pelo reconhecimento de sua identidade judaica? Como aponta Birman (2013), Freud não criticou publicamente a religiosidade judaica, a ausência e o silêncio marcam a posição freudiana no que tange ao judaísmo como religião. Assim, o que aproximaria Freud da judeidade teria mais relação com uma ética do que com uma filiação religiosa, ética que impulsiona Freud a se posicionar perante a moralidade vienense. Se Viena não fosse tão marcada pelo conservadorismo e o antissemitismo, talvez Freud não tivesse sido tão impulsionado a ressaltar o seu pertencimento ao judaísmo. No exílio do antissemitismo, Freud não renegou a ancestralidade judaica.
Judaísmo e identificação
Freud construiu significados singulares em sua herança e identificação com o traço judaico, relacionados, sobretudo, à história do autor tendo como pano de fundo os contextos familiar, social e cultural específicos, reafirmando o devido cuidado para não psicanalisar o judaísmo ou judaizar a Psicanálise. Por isso, não entraremos nos méritos próprios e específicos da religião judaica ou do campo psicanalítico.
Fuks (2000) retoma fatos importantes acerca da história de Freud, abrindo espaço, sobretudo, para frisar o importante papel desempenhado pelo pai do autor, Jacob Freud, no ensino da religião judaica. Contudo, a relação de Freud com Jacob foi marcada por uma forte ambivalência, afetos tais como admiração e vergonha confluíram em direção à figura paterna. Freud (1990 citado por Fuks, 2000, p. 32), relata, em A interpretação dos sonhos, um episódio ilustrador nesse sentido, um diálogo estabelecido entre ele e seu pai, no qual este lhe conta o seguinte episódio:
Certa feita quando eu era jovem na cidade onde você nasceu, saí à rua num sábado, em vestido e com um gorro de pele novo. Surge um cristão e com um golpe joga o meu gorro na lama gritando: “Judeu, desça da calçada!” - “E o que você fez?” [perguntei]. “Apanhei o meu gorro”, disse meu pai com resignação. Isso não me pareceu heroico da parte daquele homem grande e forte que me levava, seu filho pequeno, pela mão.
Tal passagem é fundamental para destacar a repulsa do menino Freud ao comportamento resignado de seu pai diante de um episódio de discriminação. Essa narrativa possibilita-nos antever a postura do homem Freud, que vai reafirmar tanto quanto necessário a identidade judaica e a pertença a um grupo minoritário e diverso. Outro fator importante na relação de Freud com Jacob é o empenho deste na transmissão peculiar do judaísmo. A identidade judaica de Freud vai além dos limites de uma religião que se centraliza na concepção de um Deus transcendente. Nesse aspecto, o pai parece ter desempenhado papel decisivo
[...] quando Freud, numa carta a Dwossis, escreve que seu pai deixara-o crescer “em plena ignorância de tudo o que se referia ao judaísmo”: é forçoso supor que ele queria dizer com isso, sobretudo, que não tivera familiaridade com as dimensões religiosa, ritualística e mística do judaísmo em sua formação (Fuks, 2000, p. 19).
O contato de Freud com os textos bíblicos desde os primeiros anos parece ter contribuído de forma decisiva para a apreensão afetiva e intelectual nos anos posteriores do contexto próprio em que sua pesquisa se desenvolvia. A especificidade da leitura das Escrituras relaciona-se à possibilidade de interpretação dos textos, que comportam uma multiplicidade de sentidos, por meio dos quais o leitor é convocado a construir, desconstruir e reconstruir as questões abertas numa tentativa de significar as lacunas presentes “Na leitura judaica de um texto, é o signo ausente que dá vida ao discurso. O texto hebraico, em sua forma original, não está totalmente dado, e a palavra só pode ser lida por aquele que a reconhece no contexto em que ele, leitor, se encontra situado” (Fuks, 2000, p. 13).
Esse aspecto interpretativo foi um marco no desenvolvimento da técnica freudiana, que possibilitou a escuta das palavras para além de seu sentido manifesto, aparente, superficial. Há diversas aproximações possíveis entre os campos e, a partir disso, podemos conjecturar alguns traços identificatórios que permeiam a relação de Freud e Jacob. Observamos que Freud assimilou a religião judaica não ortodoxa transmitida pelo pai desde a tenra idade e ressignificou sua relação com ela, atribuindo-lhe sentido particular.
Em carta a Martha Bernays, na época sua noiva, Freud deixa claro o desejo de sustentar uma apropriação subjetiva do judaísmo, que aponta para a internalização da herança paterna, “ainda que o modo de viver em que os antigos judeus se sentiam felizes já não proporcione proteção, algo do núcleo, da essência desse judaísmo cheio de sentido e de vontade de viver não estará ausente do nosso lar” (Freud, 1882, citado por Fuks, 2000, p. 22). Nesse trecho, podemos observar que o modo de Freud se relacionar com o judaísmo transcende a esfera da normatividade, há a presença de uma forma própria de significação, como já apontado.
Freud conheceu de perto os infortúnios de assumir tal identidade em um contexto antissemita, pessoal e profissionalmente, mas o zelo para desenvolver um trabalho científico rigoroso norteava a busca pelo reconhecimento de seus achados, que transcendiam ideais “raciais”.
Se, como ele próprio revelou, quando menino, foi preso do horror ao constatar a resignação paterna diante dos insultos de uma cultura que exclui aquilo que não encontra lugar em suas representações identitárias ideais, foi este mesmo horror que o levou a procurar na tenacidade e na tolerância, que identificava como traços marcantes da história do povo judeu, um caminho de ação e de prática (Fuks, 2000, p. 40).
O que se destaca é a capacidade de Freud de se apropriar e de elaborar uma identidade judaica peculiar. Evidencia-se em seu processo investigativo o primor pelo rigor científico na busca de uma verdade que ultrapasse qualquer tentativa simplista de circunscrição - e tal característica se presentifica também na construção de sua identificação judaica. Como apontam Indursky & Kveller, (2017), em análise sobre Freud e judeidade e seus entrelaçamentos com o trauma, o luto e a transmissão da herança paterna:
Sustentamos que uma das chaves de compreensão para o Moisés de Freud encontra-se na assinatura desse traço de transmissão, no qual a elaboração da perda de seu pai se dá pari passu com a apropriação - não ortodoxa, mas psicanalítica - de sua herança judaica. Não há como ler Moisés sem Totem e tabu, um pressupõe o outro. Mais ainda, Freud “cria” a fórmula teórica para poder aplicá-la a sua vivência pessoal. Reaproximar-se do judaísmo não é um movimento religioso, mas sua reapropriação cultural frente ao movimento desenraizante e, portanto, traumático, do exílio (Indursky & Kveller, 2017, p. 410).
A judeidade se aproximaria da Psicanálise nos aspectos também da errância, do não lugar, do estranho, das lacunas que dão margem para coconstrução de sentidos (Fuks, 2000). Freud se esforça para afirmar a força de resistência do povo judeu, que de tão perseguido ao longo dos séculos parece que o mundo realmente acreditou que eles são o povo escolhido de Deus (Freud 1939/2018). A transmissão da herança paterna proporcionou a Freud, desde cedo, o enraizamento ao “movimento desenraizante” (Indursky & Kveller, 2017, p. 410) do judaísmo, ambivalência que marca, também, os achados psicanalíticos em suas investigações clínicas acerca do psiquismo.
Nesse sentido, Indursky & Kveller (2017) apontam que com a obra Moisés e o monoteísmo, Freud (1939/2018) teria elaborado a morte de seu pai, por intermédio de um retorno à religião da qual ele anteriormente se afastara. Ao reler as origens da religião monoteísta, Freud parece ter demonstrado a coragem que, aos seus olhos, o pai não teve. Nesse sentido, o retorno à herança paterna acontece concomitantemente à superação da resignação paterna.
Parece possível pensar então que uma das soluções de compromisso realizada por Freud, no que tange à ambivalência afetiva dirigida ao pai, foi consolidada com uma apropriação efetiva e singular do traço judaico, que implicou na (re)afirmação dessa identidade em quaisquer circunstâncias que lhe demandassem um posicionamento a esse respeito, superando aquilo que para ele parecia ser uma postura covarde e complacente do pai.
Levando em consideração essa perspectiva, Freud (1939/2018) fez uma releitura no mínimo ousada do monoteísmo cristão. Ele propõe que a origem do monoteísmo judaico teria sido marcada por um parricídio que seria reatualizado nas origens do cristianismo, de acordo com a lógica da repetição do trauma. Freud (1913/2012) reafirma a narrativa do assassinato do pai tal como havia apontado em Totem e Tabu em uma sociedade pudica e hipervigilante quanto à moralidade, um contexto em que o próprio autor sofria perseguições e retaliações do antissemitismo então disseminado.
Acompanhando a sequência de parricídios, teríamos, assim, a morte do pai da horda (Freud, 1913/2012), a morte de Moisés (Freud, 1939/2018), a morte de Cristo e, finalmente, a morte de Jacob Freud. Ao pensarem sobre os diversos parricídios, Indursky & Kveller (2017) apontam que somente a partir desse ato o desejo pode ser internalizado como herança. A herança paterna possibilita um destino possível à ambivalência afetiva freudiana e, concomitantemente, permite a superação de um “pai resignado”, visto que Freud não se silenciou diante dos ataques identitários antissemitas. Como apontado pelo próprio autor, “o que herdaste de teus pais, conquista-o, para que o possuas” (Goethe citado por Freud, 1913/2012, p. 155).
Na lógica edípica, Freud teria elaborado a fantasia de parricídio por meio de uma forma particular de apropriação e de resistência judaicas. Enfatizamos que a conquista da herança paterna não retirou Freud de uma “lógica monoteísta”, haja vista sua fidelidade ao judaísmo, mesmo que ele esteja mais para um judeu sem Deus (Wels, 2021). Podemos dizer que a “lógica monoteísta” - a possibilidade de um único “pai” - se presentifica também nas reivindicações de Freud como o fundador do conhecimento psicanalítico, bem como a sua correlativa necessidade de proteger esse campo de tudo aquilo que ele considerava um desvio de seus pressupostos fundamentais (Freud, 1914/2006). Observamos, assim, que a “lógica monoteísta” mantém afinidades com o clássico complexo edípico - o pai onipotente na fantasia da criança - e perpassa também o processo de construção do que seriam considerados os fundamentos da Psicanálise.
Aproximações entre judaísmo e Psicanálise
Pensemos, finalmente, em alguns aspectos do judaísmo que dialogam com o campo psicanalítico. Fuks (2000) faz uma análise desses aspectos de forma pertinente e cautelosa. Ela aponta que um traço fundamental da religião judaica é a concepção de Deus. Um Deus marcado pelo signo da ausência, que não pode, em nenhum âmbito, ser representado. O abismo que separa os homens da divindade pode apenas ter seu sentido imaginariamente recuperado mediante narrativas construídas pelos humanos. A ausência e o abismo também são protagonistas no campo psicanalítico, quando observamos na clínica, podemos percebê-los, por exemplo, nos lapsos de memória, nos mecanismos de defesas, silêncios, não ditos e resistências que compõem o quadro do tratamento analítico.
Sobre o trauma do parricídio que funda o monoteísmo, Freud (1939/2018) teoriza que ele teria sido recalcado e passado por um período de latência, até o ressurgimento com o cristianismo. O trauma do parricídio seria tão intenso que não há possibilidades de ele e do povo judeu serem erradicados, por mais que sejam terrivelmente perseguidos - e exterminados - ao longo dos tempos. Como nos elucida Fridman (2015),
Constatamos que Freud elaborou um encaminhamento psicanalítico e, certamente, bastante judaico, ao mostrar que o essencial em uma tradição tão forte, isto é, o seu trauma (o que constitui o seu real) - aquilo a partir do qual a religião judaica foi (re)edificada, (re)inventada - se transmite por meios sobre os quais não se tem controle, não se delibera. O retorno desses sulcos históricos é o que explica as razões da sobrevivência de uma tradição atravessada desde sempre pela fuga dos pogroms e pela experiência, nos últimos anos de Freud, da ascensão do antissemitismo nazista (p. 303).
Interessante notar que, na hipótese freudiana, o próprio Moisés era um estrangeiro, assim, a identidade judaica teria sido forjada por meio de uma alteridade. Ao pensar em um processo de análise, pode ser possível traçar uma analogia. A alteridade radical que constitui o sujeito - o núcleo do inconsciente - talvez nunca possa de fato ser alcançado, contornado, circunscrito. Convivemos com essa alteridade radical e nos aproximamos minimamente de seus conteúdos mediante a análise das vicissitudes da pulsão, buscando compreender a história das representações às quais aquela se liga. O caminho que representa a história dos destinos pulsionais é (re)construído com a narrativa daquele que se dispõe, por exemplo, ao processo analítico. Por intermédio de narrativas, o objeto da ciência psicanalítica se volta então para aquilo que não é dito, que se presentifica no discurso como ausência, lacuna, falta de sentido ou de compreensão.
Freud lutou pelo reconhecimento da construção desse método investigativo e interpretativo inaugural, que não pôde ser categorizado e/ou reduzido às formas de conhecimento em voga em seu contexto. O saber psicanalítico é desterritorializado, condição sine qua non de seu nascimento. Freud tinha surpreendente clareza da originalidade dos fenômenos que lhe chegavam e trabalhou constantemente para que as especificidades de suas descobertas não fossem diluídas e aglutinadas a modos de saber já constituídos.
A radicalidade da afirmação de um saber fundado como diferença, alteridade parece dialogar com a postura do criador da Psicanálise perante a experiência judaica, no que se refere à sustentação do seu modo de ser judeu, ou poderíamos dizer, corroborando Birman (2013), a sua ética judaica. Tanto o judaísmo quanto a Psicanálise são perpassados pela errância, pelo exílio, pela desterritorialização, pelo lugar marginal, características que tornam ambos os campos alvos de ódio e violência, tendo em vista que sobre “estrangeiros” se projetavam o que mais temiam em si mesmas (Indursky & Kveller, 2017). Assim também aponta o próprio Freud (1921/2011) ao afirmar que a suposta hegemonia é garantida pela projeção, por vezes violenta, daquilo que lhe é estranho.
O ineditismo da Psicanálise se dá pela inauguração de uma ciência de tratamento do sofrimento psíquico por meio da fala. Uma ciência que, fundamentada em achados clínicos e desenvolvimentos teóricos, investiga as idiossincrasias das existências e coloca a realidade psíquica da história subjetiva em evidência. Também nesse aspecto podemos traçar afinidades entre a Psicanálise e a experiência freudiana da religião judaica. Fuks (2000) aponta que o autor Yossef Hayim Yerushalmi, ao pensar esses aspectos tendo como referência o texto de Freud (1939/2018) Moisés e o monoteísmo, destaca que nessa obra
Freud aponta um novo conceito de verdade que a historiografia e a ciência ocidentais têm dificuldade de pensar e que o judaísmo, segundo o historiador, carreia em seus fundamentos, decerto não como conceito, mas como uma modalidade de apreender o “passado como algo que não apenas subjuga; também nutre” (Fuks, 2000, p. 61).
Freud empenhou-se em ser fidedigno aos seus achados clínicos: fazendo uma investigação crítica e criteriosa, ele trabalhava a fim de descrever a realidade - ou melhor, a realidade psíquica - da forma mais rigorosa possível, reformulando-a sempre que julgava necessário. O criador da Psicanálise buscou contribuir para decifrar alguns mistérios em torno do sofrimento humano de seu contexto, evidenciando seus atravessamentos subjetivos e culturais. Assim, “[...] é apenas dentro da transferência - considerando os diferentes lugares de onde se estuda e se é estudado, bem como as dinâmicas projetivas e as implicações políticas intrínsecas a esse processo - que se torna possível, de fato, escrever a história como trauma” (Indursky & Kveller, 2017, p. 411).
Reescrevendo costuras históricas, Freud garante o lugar e (re)existência de um passado traumático, seu e de seus antepassados, que não cessa de se (re)inscrever. O vínculo que Freud sentia com o judaísmo, tal como aponta Wels (2021), se afinava com a percepção de um destino comum em um mundo hostil. Se o judaísmo não ligou Freud a Deus, parece ter lhe dado a “paz de espírito” de não precisar pertencer a uma hegemonia.
Somos testemunhas da história de vida e da obra de um homem que, a despeito das inúmeras críticas pertinentes que possamos fazer, não titubeou em encarar e expor suas estranhezas e ambivalências e esmiuçar publicamente seu passado, contribuindo, com o passar de mais de um século, para a busca de promoção de saúde mental das subjetividades que vivem no exílio da lógica de mercado, marca intrínseca da cultura contemporânea. Ao defender judaica e psicanaliticamente as vicissitudes da errância e o nomadismo do desejo (Wels, 2021), Freud presentifica sua ancestralidade judaica no campo da ética e das pesquisas clínicas e teóricas da Psicanálise.
Observamos que, na constituição do campo psicanalítico, houve um esforço de Freud em retirar a Psicanálise do círculo judaico, evitando, dessa maneira, que ela fosse rechaçada pelo antissemitismo da época. Após mais de um século de avanços nas pesquisas e nas atuações clínicas psicanalíticas, podemos reconstruir as afinidades entre os campos, sem a necessidade de submetê-los um ao outro ou desvalidar suas prerrogativas.
Se Freud tivesse rompido com o que chamamos aqui de “lógica monoteísta” no campo psicanalítico, talvez pudéssemos estudar mais amplamente nas instituições de ensino e de formação as contribuições de Carl Jung para a Psicanálise, que apontam, por exemplo, que o inconsciente não é constituído por um registro estritamente biográfico. Tal como demonstrou com uma ampla pesquisa sobre a repetição de determinados padrões e símbolos que atravessam os séculos e permeiam diferentes contextos culturais (Jung, 1933-1955/2016); contudo não desenvolveremos esses aspectos na presente reflexão.
Por ora, destacamos a coragem de Freud em fazer uma ousada releitura de um dos pilares da sociedade moderna ocidentalizada, o monoteísmo cristão. Apostamos, corroborando os autores com os quais dialogamos, que tal releitura o ajudou no processo de elaboração de seus próprios complexos edípicos. Freud conjecturou e descortinou, nesse sentido, o trauma que inaugura e perpetua a necessidade de adorarmos, todos, a um único Deus. O monoteísmo cristão perpetua, dessa forma, o caráter traumático que o constitui desde a sua fundação e busca erradicar toda as diversidades possíveis que não comungam da ideia de Um Deus Pai Criador.














