A Analytica: Revista de Psicanálise, ao se dedicar à publicação de investigações com referencial psicanalítico, possibilita a divulgação de ampla diversidade em pesquisas nesse campo. Como veremos, esta edição apresenta artigos em que a Psicanálise dialoga tanto com outros campos do saber, quanto com a arte ao se propor o diálogo com obras não psicanalíticas e filmes que permitem uma rica articulação teórico-conceitual.
Destacamos também que esta edição conta com artigos que, em sua maior parte, foram elaborados por pesquisadoras, o que marca a importante participação das mulheres na construção do conhecimento psicanalítico contemporâneo.
Nesse sentido, esta nova edição reúne trabalhos que abordam temas de longa data à Psicanálise, tais como: a psicose, a violência e a religião. Por outro lado, contamos, igualmente, com relevantes discussões contemporâneas, como os efeitos e impactos da Covid-19 no sujeito, o espaço virtual e a busca desmedida por procedimentos estéticos. Podemos dizer que essas investigações vão ao encontro da célebre frase lacaniana: “deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época” (Lacan, 1953/1998, p. 322). Em outra linha, encontramos trabalhos que se dedicam à abordagem de períodos específicos da vida, como a adolescência e a terceira idade, assim como questões que as acompanham, como o corpo na puberdade e os quadros de demência, respectivamente.
O artigo de abertura desta edição, intitulado “O corpo púbere em cena: os ritos de passagem, a adolescência e a anorexia”, dedica-se à abordagem da angústia diante de um excesso de gozo que irrompe o corpo na puberdade. Além disso, a autora aposta na interlocução entre Psicanálise e Cinema ao articular o tema adolescência ao filme Tem um vidro sob minha pele (2014), da diretora brasileira Moara Rossetto Passoni.
Na sequência e dentre os temas que se dedicam à abordagem de um ciclo específico da vida, apresentamos “Velhice e quadros demenciais: que clínica podemos oferecer ao sujeito?”. Este artigo discute a respeito da escuta do sujeito em quadros de demência, pois, em geral, nesses casos, são ouvidos os familiares, cuidadores e os especialistas da área, o que mantém o idoso afastado de qualquer possibilidade de escuta. Logo, a proposta das autoras se encontra na aposta da escuta do sujeito do inconsciente em estado demencial.
O artigo “Judaísmo e Psicanálise: reflexões sobre a vida e a obra de Freud” aborda a construção da Psicanálise a partir da relação entre Freud e o judaísmo. Tal discussão surge da hipótese de o judaísmo ser um campo de trabalho a Freud, o que levaria a um deslocamento em sua relação ambivalente dirigida à figura paterna. Além do mais, a autora aproxima a Psicanálise e o judaísmo da ideia de não lugar e desterritorialização.
O próximo artigo se dedica ao debate dos impasses apresentados na adolescência. Intitulado “Suicídios na adolescência: efeitos psíquicos dos impasses no laço social”, trata-se de uma pesquisa que interroga o suicídio na adolescência e sua relação com impasses sociais contemporâneos. As autoras articulam a discussão à análise de dois casos clínicos de tentativas de suicídio em um ambulatório de saúde mental infanto-juvenil.
Nos dois artigos que se seguem são abordadas questões relacionadas à psicose. Em “Corpo e psicose na leitura de Lacan do caso Schreber”, os sintomas corporais são destacados, uma vez que compõem a sintomatologia de Schreber. Nesse sentido, os autores nos mostram como a leitura de Lacan sobre o caso nos leva a refletir sobre o trabalho do psicótico com o corpo, o que possibilita algum tipo de estabilização diante da falta do significante Nome-do-pai. Já em “O duplo no delírio paranoico: um comentário psicanalítico de O cisne negro”, os autores se dedicam à investigação do fenômeno do duplo como importante organizador do psiquismo na psicose. Para tal discussão, o filme O cisne negro foi escolhido para abordar a personagem principal, pois, haveria uma espécie de fusão entre sujeito e duplo que a leva à passagem ao ato.
O artigo “O terror da ruptura dos rituais fúnebres na pandemia de Covid-19” aborda como as restrições impostas pela pandemia interromperam ou dificultaram a realização de rituais fúnebres, o que levou ao impacto na maneira como as pessoas vivenciam o processo de luto.
Para o encerramento desta edição, contamos com três artigos frutos de pesquisas desenvolvidas na graduação. Iniciamos a seção Jovens Pesquisadores com a atual temática sobre procedimentos estéticos. Em “Harmonizações faciais: uma perspectiva psicanalítica do mal-estar contemporâneo”, as autoras questionam a respeito da função desses procedimentos, ou ainda, como atualmente o sujeito responde ao encontro com o processo de envelhecimento.
Uma importante reflexão é levantada sobre os efeitos da violência em “Guerra cotidiana: a escuta psicanalítica dos laços sociais ante a violência política”. Para abordar essa questão, as autoras propõem a escuta de jovens que participam de um pré-vestibular comunitário, moradores de regiões periféricas e que sofrem os efeitos da violência política na cidade do Rio de Janeiro.
No artigo “Nome próprio: a tela como uma (des)amarradura dos sintomas”, a discussão é marcada pela amarração entre o nome, o corpo e a virtualidade. As autoras analisam os atravessamentos da autonomeação no ciberespaço a partir da autobiografia Abzurdah (2015), escrita pela escritora argentina Cielo Latini que narra sua vivência em quadros de anorexia e bulimia.
Diante da diversidade e comprometimento com os temas selecionados nesta edição, desejamos a todos e todas uma boa leitura!














