A partir do resultado das elaborações de nossa pesquisa de doutorado (Aita, 2020), o objetivo deste artigo é apresentar uma possibilidade de intervenção psicoterapêutica individual com adultos, fundamentada na Psicologia Histórico-Cultural.
Lev Semionovitch Vigotski1 elaborou, em conjunto com Alexis Leontiev e Alexander Romanovich Luria, a Teoria Histórico-Cultural. A psicologia de Vigotski deve ser compreendida como produto de seu contexto histórico, localizado no seio dos processos revolucionários da União Soviética, e do projeto coletivo de construção de uma sociedade comunista. Tal teoria é expressão do projeto coletivo pós-revolucionário da URSS, da luta pela superação do modo de produção capitalista e das relações de classe, e expressa tanto as necessidades enfrentadas neste período quanto as contradições que permeavam esta empreitada (Tuleski, 2008).
No Brasil as contribuições da teoria vigotskiana têm sido exploradas principalmente no campo da educação, desde a difusão dos textos de Vigotski, no início da década de 1980. Na área escolar (na Pedagogia e Psicologia Escolar) são amplamente estudadas as análises do autor acerca do desenvolvimento do psiquismo e do papel da aprendizagem neste processo. Apesar da difusão da teoria de Vigotski, ainda são poucos os estudos desta corrente teórica no que diz respeito à Psicologia Clínica como um todo, e especificamente, à psicoterapia.
Os textos publicados de Vigotski a qual temos acesso não versam especificamente sobre a psicoterapia, ainda que o autor tenha atuado como clínico (Delari, 2012). Todavia, o trabalho de Vigotski fundamenta uma concepção sobre o desenvolvimento humano, que é a base para a construção de um fazer psicológico em qualquer campo de atuação.
Defendemos a tese de que a psicoterapia pode atuar como promotora do desenvolvimento da consciência do sujeito, contribuindo para que ele possa constituir seu entendimento da realidade (individual e social) e de seu sofrimento psíquico, e desenvolver possibilidades de atuação social, de enfrentamento individual e coletivo de seu sofrimento. Uma tarefa tão abrangente como esta não poderia ser concluída em apenas um trabalho. Objetivamos, antes de tudo, ampliar o debate já iniciado por alguns autores, fomentando o diálogo sobre a psicoterapia de base histórico-cultural, para que os leitores e demais pesquisadores desta perspectiva teórica possam dialogar conosco, apontar os avanços e limites das nossas considerações e dar continuidade ao estudo aqui empreendido.
Muitas formas de intervenção terapêutica podem ser elaboradas a partir da Psicologia Histórico-Cultural, cada uma delas com um objetivo específico, com riqueza de conteúdo e potencialidade de ação. A possibilidade que abordamos nesse estudo se constitui como uma das diferentes opções terapêuticas possíveis de serem elaboradas a partir dos pressupostos básicos dessa concepção teórica.
A ação empreendida pelo psicólogo, em todos os contextos em que atua, é sempre produto da visão de mundo e de homem que sustenta sua prática. Atreladas às concepções historicamente constituídas de saúde e doença, e de acordo com a visão de homem e de mundo das teorias psicológicas, vão sendo constituídas as distintas teorias e técnicas psicoterapêuticas ao longo da história da Psicologia.
A Psicologia Histórico-Cultural oferece fundamento teórico para a compreensão do sofrimento e do adoecimento psíquico enquanto atrelado às condições concretas da vida e da atividade do sujeito, oferecendo fundamentos para o trabalho do psicólogo no campo da saúde mental. Silva e Tuleski (2015) discutem a necessidade de superação da exclusividade do modelo biomédico na determinação do processo saúde-doença e nas propostas interventivas do psicólogo no campo da saúde mental, o que inclui a psicoterapia. Silva (2019) ressalta que psicologia de fundamento histórico-cultural estabelece uma base sólida para a atuação em saúde mental, que visa a superação de explicações reducionistas e a-históricas que almejam adaptar o sujeito adoecido a uma realidade que não promove as condições necessárias para o desenvolvimento e a emancipação humana.
Nosso estudo sobre a psicoterapia se fundamenta nos pressupostos de Vigotski, que compreende o sujeito em sua historicidade, no entendimento da Psicologia Histórico-Cultural sobre o sofrimento psíquico, compreendido a partir do contexto social em que é produzido (Almeida, 2018; Silva, 2019), e nos pressupostos teóricos desenvolvidos no campo da saúde coletiva de orientação marxista, sobre a determinação social do processo saúde-doença.
Laurell (1983) analisa que o adoecimento é um processo socialmente determinado, e que as formas de sofrimento psíquico e as obstruções aos modos de conduzir a vida estão intrinsecamente relacionadas ao modo de produção da vida material. Assim, compreende-se que cada modo histórico cria determinado padrão de desgaste e reprodução, dentro do qual o sofrimento é gerado. Ou seja, os processos de saúde e doença envolvem aspectos biológicos e psicológicos, mas existe uma subordinação desses processos aos sociais, que os condicionam. Laurell (1983) destaca ainda que, em cada período histórico, a forma de organização social também estabelece o que é considerado normalidade e o que estaria fora dessa normalidade.
Almeida (2018, p. 58) define sofrimento psíquico como um processo produzido “(...) na dinâmica da vida de uma pessoa – que vive num dado lugar, com certas relações interpessoais, que tem determinada atividade e rotina cotidiana, com certas necessidades, interesses e problemas – e que produz obstruções nos seus ‘modos de andar a vida’”. Para a autora, o sofrimento psíquico deve ser analisado a partir da dialética singular-universal-particular. Conforme Silva (2009), a singularidade se constrói na universalidade (o gênero humano), ao mesmo tempo em que a universalidade se concretiza na singularidade, por meio das relações sociais específicas do contexto em que o indivíduo está inserido (particularidade). Desse modo, compreende-se que a gênese do sofrimento psíquico está radicada nos processos críticos da vida social, no modo de produção capitalista, com suas regularidades gerais, econômicas, políticas e ideológicas.
O sofrimento se constrói também na singularidade, a partir das vivências específicas do sujeito, dialeticamente formadas a partir das particularidades de seu grupo social, familiar e escolar, ou seja, a partir das relações que estabelece no entorno social. O adoecimento se produz singularmente em estreita conexão com as particularidades que entristecem e destituem os indivíduos de sentido de vida (Almeida, 2018). A história de vida do sujeito é expressão singular da universalidade, relacionada à história social de modo singular.
Para a discussão do tema abordaremos o processo de formação da consciência, da personalidade e do sofrimento psíquico, tomando como referência a Psicologia Histórico-Cultural. Na sequência, apresentaremos pressupostos que fundamentam a prática psicoterapêutica, que visa atuar sobre o processo de formação de consciência do sujeito.
A Formação da Consciência à Luz da Psicologia Histórico-Cultural: A Unidade Dialética Afetivo-Cognitiva
Na Psicologia Histórico-Cultural o psiquismo humano é compreendido como historicamente constituído, a partir da dinâmica da atividade vital concreta que o homem realiza. A consciência é definida como reflexo psíquico da realidade, imagem subjetiva do mundo objetivo, conforme Leontiev (1984). Todas as funções psicológicas superiores atuam no complexo processo de captura da realidade; a formação da imagem mental está em estreita vinculação com as funções psíquicas superiores e o emprego de signos, de acordo com Martins (2015). Nesse sentido, Vygotski (2001) analisa que a consciência pode ser abarcada como o conjunto das funções psicológicas superiores.
O processo de apreensão da realidade pelo sujeito e de formação do reflexo psíquico desta, ou seja, a transmutação do objeto em imagem psíquica, ocorre a partir da mediação da linguagem, da transformação das informações sensórias em conceitos. A formação da imagem subjetiva é um processo de conhecimento da realidade, que se dá pela apropriação de signos. O sujeito capta a realidade, transformando-a em imagem mental, por mediação do pensamento conceitual, conforme Martins (2015).
Segundo Vygotski (2001), a palavra fixa as propriedades essenciais dos objetos percebidos, permitindo incluir um tipo de conteúdo que não é fornecido de forma sensorialmente imediata pelo objeto. Ao perceber um objeto, o sujeito não apreende apenas suas características sensoriais, mas também seu significado social e histórico. O pensamento verbal permite a análise, a síntese, a abstração e a generalização da realidade. A linguagem é o principal instrumento regulador do comportamento humano. Ela atua sobre a orientação, a regulação e o planejamento da atividade.
Tal como a consciência, a autoconsciência é construída na atividade social humana e tem relação com o desenvolvimento do pensamento conceitual. A autoconsciência é a capacidade de o sujeito manter uma relação consciente com a genericidade, rompendo com a identificação espontânea com ele mesmo, indo além de sua singularidade. A autoconsciência diz respeito ao processo de ir além de si mesmo, estabelecendo nexos entre o conhecimento sobre si e o sistema de relações sociais no qual está inserido. É o processo pelo qual o sujeito se reconhece na realidade mais ampla, ao mesmo tempo em que reconhece a realidade social em si mesmo, como propõe Leontiev (1984).
A transmutação do objeto em imagem psíquica pressupõe um contínuo processo de refletir, um movimento de superação da reprodução sensorial em direção à produção conceitual. Nesse sentido, a consciência não é um locus do psiquismo, ela é movimento, emergente da própria vida do homem, processo e produto da tomada de consciência. A consciência é reflexão e distanciamento, que possibilita que o homem se entenda como diferenciado do mundo, mas estritamente relacionado a ele, conforme Martins (2015).
Para Delari (2013), o processo contínuo de tomada de consciência, que se produz ao longo da história e do desenvolvimento singular de cada um, permite que o sujeito vá gradualmente se destacando do mundo, ao mesmo tempo em que se torna mais apto a conhecer os nexos e interdeterminações da realidade, o que lhe possibilita ter maior domínio sobre sua existência. Assim, o desenvolvimento da capacidade de abstração possibilita compreender mais profundamente a realidade, em sua essência, e não apenas em sua aparência.
Entender o modo pelo qual as coisas se formam, em seus nexos e processos constitutivos, leva o homem a compreender melhor a realidade e a si mesmo. De acordo com Toassa (2006), a partir da tomada de consciência, ao perceber a realidade de modo diferente, o sujeito também ganha novas possibilidades de agir. Em seus estudos sobre o livre-arbítrio, Vygotski (1996b) expõe que o homem se torna mais livre à medida que conhece os múltiplos determinantes de suas ações.
Para Toassa (2004), o conceito de liberdade em Vigotski está estritamente relacionado ao conceito de tomada de consciência. A liberdade está relacionada com a construção de um conhecimento ativo sobre as determinações humanas e, dialeticamente, com a transformação da realidade objetiva (natural e/ou social). A liberdade de escolha supõe uma ação na realidade, baseada no conhecimento sobre a natureza (exterior e interior).
Segundo Delari (2013), a tomada de consciência em relação ao mundo e a si mesmo cria novas formas de reflexão e distanciamento, processo que pode conduzir o homem a um maior domínio sobre a realidade e sobre suas próprias ações no mundo. No processo de formação da consciência e do pensamento por conceitos, a significação imbrica pensamento e linguagem e, também, razão e afeto. Para Vygotski (2001) os sentimentos carregam um sistema de ideias pelo qual eles se expressam; o pensamento é cognitivo e afetivo ao mesmo tempo, em sua origem e percurso. O sistema de conceitos engloba a atividade afetiva do indivíduo em face da realidade que representa.
Monteiro (2015) analisa que os aspectos cognitivos e afetivos compõem uma unidade dialética, que se forma do plano interpsicológico para o intrapsicológico, a partir das condições históricas e sociais de construção da vida. A unidade afetivo-cognitiva se firma pela compreensão de que a emoção é um dado inerente ao ato cognitivo, e vice-versa. O desenvolvimento da consciência e do pensamento verbal está profundamente unido à formação dos estados emocionais. Conforme Leontiev (1984), os estados emocionais dependem das condições concretas de vida do sujeito, da atividade e das relações sociais que lhe conferem sustentação. Os estados emocionais se originam na atividade, que é essencialmente mediada. A partir de Vigotski (2004), compreendemos que as emoções e os sentimentos são dependentes do desenvolvimento cultural e estão situados no campo das funções psicológicas superiores. Os sentimentos se desenvolvem ao longo da história, a partir das necessidades e motivos que são construídos socialmente (Martins, 2015).
Vigotski (2018) afirma que a vivência é a unidade da personalidade e o meio da relação interior do sujeito com um ou outro momento da realidade. Conforme Toassa e Souza, (2010), para Vigotski a vivência é uma unidade dinâmica da vida, marcada pela referência tanto à realidade interna (ao corpo, às representações e ideias singulares ao sujeito) quanto à realidade externa (aos objetos externos). Compreende-se, então, que realidade interna e externa são processos distintos, dialeticamente articulados, pelos quais o indivíduo se conscientiza de si próprio no mundo.
Segundo Vigotski (2018), a forma como uma pessoa vivencia uma situação está intimamente relacionada com a forma como ela compreende esta situação. A vivência de um sujeito depende fundamentalmente da situação social de desenvolvimento, do desenvolvimento da linguagem e das funções psicológicas superiores. Para compreendermos a vivência de um sujeito em determinada situação, devemos analisar como ele toma consciência, atribui sentido e se relaciona afetivamente com aquele acontecimento.
Tais pressupostos de Vigotski se ancoram sob o entendimento de que o sujeito é ativo no processo de formação de sua personalidade. Na teoria vigotskiana, de acordo com León e Calejon (2017), a vivência inclui tanto os aspectos subjetivos apropriados a partir da cultura quanto os aspectos criados pelo próprio sujeito. Isso porque o sujeito tem uma postura ativa e criativa em sua relação com a realidade. Nesse sentido, o desenvolvimento ontogenético não é entendido como um processo mecânico, em que determinado conteúdo cultural produzirá necessariamente um dado desenvolvimento singular.
Conforme Beatón (2017b), o sujeito vivencia a cultura de forma ativa e mediada pelas experiências que vai adquirindo ao longo da vida. A consciência é produto da maneira como a atividade do sujeito é vivenciada e atribuída de sentido, em razão dos significados sociais e do desenvolvimento psíquico singular do sujeito até aquele momento. As vivências atuais do sujeito são mediadas pelos sentidos construídos a partir das vivências individuais, sociais, culturais e históricas anteriores.
Ao discorrermos sobre a psicoterapia, além do conceito de consciência o de personalidade adquire evidência. Leontiev (1984) discute sobre o conceito de personalidade atrelado aos conceitos de atividade e consciência. Na Psicologia Histórico-Cultural a personalidade é entendida como o conjunto das relações sociais encarnadas na pessoa, uma objetivação da individualidade, intrinsecamente relacionada ao desenvolvimento da consciência enquanto reflexo afetivo-cognitivo da realidade.
Conforme Leontiev (1984, p. 137), “(...) a personalidade não nasce, a personalidade se faz”. Ao mesmo tempo em que conserva sua constância, a personalidade é mutável como a própria vida. A forma como o contexto histórico e social é vivenciado pela pessoa produz certa regularidade em seu modo de autoconstrução e em sua relação com o gênero humano. A personalidade vai se construindo a partir da apropriação da cultura, das relações sociais e da atividade dominante de cada período do desenvolvimento.
Segundo Leontiev (1984), em cada período do desenvolvimento a atividade dominante possibilita o surgimento de novas atividades, no interior da sua própria estrutura, bem como a constituição de novos processos psíquicos (neoformação) e/ou reorganização destes, produzindo as principais mudanças na personalidade. Moro-Rios (2015) e Carvalho e Martins (2017) afirmam que a atividade dominante da idade adulta, foco de nosso estudo, é o trabalho.
Na sociedade de classes o trabalho tem um aspecto duplo de humanização e alienação. O trabalho, que é atividade originária do psiquismo humano, ainda que concomitantemente alienante, promove o desenvolvimento de novas capacidades e a complexa reconfiguração da estrutura motivacional (Moro-Rios, 2015). Sob as relações capitalistas de produção, o trabalho também acaba por limitar a formação do indivíduo, por apartar o ser humano das objetivações intelectuais e materiais produzidas pela humanidade, gerando empobrecimento, tanto na esfera do trabalho social quanto da vida pessoal (Carvalho & Martins, 2017).
Leontiev (1984) expõe que o conceito de atividade está relacionado ao conceito de motivo. A atividade humana é complexa e polimotivada, respondendo a mais de uma necessidade. Conforme a atividade se torna mais complexa, as relações do sujeito com o mundo vão gerando novos motivos, que não podem ser apenas somados uns aos outros, já que muitos deles são contraditórios ou não coincidentes. Na realização da própria atividade, o sujeito vai fazendo um movimento vertical de reorganização de seus motivos, tornando alguns motivos hegemônicos e subordinando outros a eles.
Para Leontiev (1984) esse é o movimento de gênese da própria personalidade, orientado pelo grau e organização da hierarquia de atividades em relação aos motivos. Ainda segundo o autor, os motivos que impulsionam a atividade nem sempre são conscientes para o sujeito, manifestando-se de forma indireta, como vivência do anseio, desejo ou tendência. Os motivos não-conscientes, entretanto, possuem a mesma determinação que qualquer outro, ou seja, são construídos na atividade social do sujeito. Leontiev (1984) destaca que, conforme um motivo se torna consciente, é possível mudar sua influência sobre a conduta.
Tomando como referência os pressupostos teóricos da Psicologia Histórico-Cultural debatidos sobre a formação da consciência e do sofrimento psíquico, na sequência discorreremos sobre a psicoterapia como possível promotora do desenvolvimento da consciência do sujeito.
Psicoterapia Fundamentada na Psicologia Histórico-Cultural
Defendemos neste estudo, conforme apresentado anteriormente, que uma possibilidade de intervenção psicoterapêutica para adultos é a de atuação sobre o processo de formação de consciência. Tomamos como referência os estudos de Vygotski (1996a, 1997, 2000), os pressupostos de Echemendía-Tocabens (2014), Beatón (2017a) e Chávez (2017), de Delari (2006, e . Essa proposição se fundamenta nos construtos teóricos da Psicologia Histórico-Cultural, tais como os apresentados no item anterior deste artigo.
Uma abordagem psicoterapêutica baseada na perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural, segundo Echemendía-Tocabens (2014), Beatón (2017a) e Chávez (2017), precisa se basear nos conceitos fundantes dessa teoria, como a lei genética fundamental do desenvolvimento psicológico, o conceito de mediação cultural, de zona de desenvolvimento proximal, de vivência, de situação social de desenvolvimento, das idades psicológicas e do diagnóstico dinâmico-causal de desenvolvimento. O psicólogo deve partir do entendimento histórico de desenvolvimento do psiquismo, da visão integral e dialética de desenvolvimento humano, da unidade dialética entre indivíduo e sociedade e entre cognição e afeto.
Almeida et al. (2008) compreendem que a intervenção pautada na Psicologia Histórico-Cultural deve se constituir como uma proposta que promove o desenvolvimento mais pleno da autonomia do sujeito, buscando contrapor-se ao modelo médico de psicopatologia que fragmenta o indivíduo. A intervenção do psicólogo, então, pode se constituir a partir da investigação das estruturas da atividade e da consciência do sujeito, que são condicionadas pelas relações históricas e sociais. Ela visa possibilitar que o indivíduo conheça a realidade em que vive e a hierarquia de motivos que orientam sua atividade. Ademais, objetiva, a partir disso, que o sujeito possa elaborar ações que possibilitarão mudanças nas estruturas de sua atividade e em suas relações com o mundo.
Os estudos de Vygotski (1997) a respeito do diagnóstico do desenvolvimento contribuem para debatermos sobre o trabalho psicoterapêutico, suas possiblidades e encaminhamentos. Nessa oportunidade o autor discute a diferença existente entre o diagnóstico sintomatológico e o diagnóstico clínico, estabelecendo primazia a este último. O diagnóstico sintomatológico está fundamentado nas características dos sintomas e busca classificar as doenças a partir destas características. O diagnóstico clínico, ou método clínico, por sua vez, busca compreender e desvelar o que subjaz ao sintoma, visa apreender o processo que desencadeou a patologia. Ele é genético-causal, no sentido vigotskiano do termo, e visa analisar a gênese dos processos de desenvolvimento que desencadearam os sintomas. Assim, tem um caráter interpretativo e analítico.
Vygotski (2000, p. 112) afirma que “explicar um fenômeno significa esclarecer sua verdadeira origem, seus nexos dinâmico-causais e sua relação com outros processos que determinam seu desenvolvimento”. Isso abrange a análise do processo e não do objeto ou dos indícios externos fossilizados, bem como a análise explicativa e não apenas descritiva e, por fim, a análise da gênese, de seu ponto de partida e dos caminhos de desenvolvimento percorridos até a presente manifestação fenomenológica.
Conforme Vygotski (1996a), um sintoma é um indício externo. Para o autor, a verdadeira tarefa da Psicologia é investigar o que se oculta por trás deste indício, ou seja, os processos de desenvolvimento que os condicionam, suas leis internas de desenvolvimento. A análise deve ir para além dos indícios externos, buscando descobrir o sentido e o significado dos sintomas manifestos, os processos que deram origem ao que está estabelecido e se manifesta externamente.
No processo de intervenção psicoterapêutica, busca-se ir além das manifestações externas e sintomáticas, desvelando sua essência, ou seja, os processos internos de desenvolvimento que originaram tais sintomas. Entendemos aqui, por nexos e processos internos, os fenômenos não aparentes do desenvolvimento. Isso não significa que tais processos se estabelecem apenas a partir da subjetividade do indivíduo. Ao contrário, compreendemos que tanto a personalidade do sujeito quanto as suas formas de sofrimento se constroem a partir da dinâmica singular-particular-universal, no movimento de internalização das relações sociais de produção. Nesse sentido, a história de vida do sujeito e o sofrimento psíquico manifesto são tomados em suas especificidades, mas também como expressão singular da universalidade. A compreensão diagnóstica deve estar a serviço do processo de intervenção, buscando a compreensão da essência do fenômeno para poder transformá-lo.
O diagnóstico de desenvolvimento não envolve somente a compreensão da história individual de cada pessoa, mas sim a análise desta história inserida no interior das relações sociais do indivíduo enquanto pertencente a uma dada sociedade. Moraes (2019) ressalta que os sintomas materializam em si a história da atividade do sujeito, suas funções psicológicas, bem como suas necessidades e motivos, que, sob dadas alterações, transformam o conjunto de sua personalidade.
Vygotski (1997) afirma, ainda, que o diagnóstico deve ser posto a serviço do processo de intervenção, devendo ser dinâmico-causal, buscando a compreensão da essência do fenômeno para poder transformá-lo. O diagnóstico clínico, portanto, é fundamental no processo psicoterapêutico que estamos apresentando neste artigo.
Guiamo-nos pelo pressuposto de que a psicoterapia pode se estabelecer sobre a atividade de compreensão dinâmico-causal do processo de formação da consciência e do sofrimento psíquico do sujeito. A análise da história do indivíduo, em estreita conexão com a história da sociedade capitalista, pode se constituir como proposição interventiva que possibilita que o sujeito tome consciência das relações que o determinam e que contribuíram para a formação de sua consciência e do sofrimento psíquico que apresenta. Psicoterapeuta e sujeito buscam compreender os processos sociais e individuais essenciais que culminaram no desenvolvimento da consciência e da personalidade deste último, e os determinantes que atuaram sob a formação de seu sofrimento psíquico.
A possibilidade psicoterapêutica busca explicitar como as relações sociais, que se estabelecem no contexto da sociedade capitalista, formam a maneira de o sujeito ver o mundo e a si mesmo, ou seja, sua consciência e autoconsciência. Além disso, visa relacionar o sofrimento psíquico com a totalidade da história de desenvolvimento individual e social da pessoa, situada no interior da sociedade de classes. Esse processo possibilita que o sujeito tome consciência das relações históricas e sociais que o determinam, que constituíram sua forma de compreender o mundo e a si mesmo, sua forma de agir sobre a realidade, e sobre os determinantes que atuaram para a construção de seu sofrimento psíquico.
A formação do sofrimento é analisada em articulação com o processo de construção histórica da vida social. O desenvolvimento das funções psíquicas do sujeito, suas vivências e sofrimento são compreendidos como situados historicamente no tempo e no interior da sociedade capitalista, assim como mediados pelos modos específicos de relação do grupo social, familiar, comunitário e cultural no qual o sujeito está inserido.
A partir de Bien (2017) pode-se estabelecer que, ao longo do processo terapêutico, o sujeito relata sua história de vida, refletindo sobre quem é e de onde vem. A intervenção terapêutica busca conectar a história de vida singular do sujeito às particularidades e à universalidade, aos fatores históricos, sociais, econômicos e políticos, os quais dão sustentação à existência singular da pessoa.
É justamente nesse processo de reflexão que ocorre a tomada de consciência. As mediações do psicoterapeuta atuam sobre o processo de formação da consciência do sujeito, de sua autoconsciência, ou seja, sobre a formação de sua compreensão do mundo e de si mesmo, à medida que destacam os nexos e relações entre a formação singular da pessoa e os processos históricos e sociais, desvelando a essência dos processos de construção do sofrimento psíquico, para além de sua aparência. Como exposto, para a Psicologia Histórico-Cultural, a tomada de consciência está estritamente vinculada à constituição de um conhecimento efetivo da realidade objetiva em seus nexos e relações genético-causais.
Entendemos, então, que a intervenção do psicólogo possibilita que o sujeito construa novas formas de atuação social e de enfrentamento individual e coletivo de seu sofrimento. Desse modo, compreender o modo histórico pelo qual as coisas se formam, em seus nexos e processos constitutivos, e seu papel atuante nessa construção, dá ao sujeito a possibilidade de desenvolver maior domínio sobre sua vida, permite ter maior controle voluntário sobre seu comportamento, maior capacidade de planejamento e possibilidade de ações.
Como exposto, Vygotski (2000) afirma que o homem se torna mais livre à medida que conhece os múltiplos determinantes de suas ações. O conhecimento das determinações de sua conduta e do processo de formação de sua consciência e de seu sofrimento psíquico possibilita que o sujeito desenvolva uma ação no sentido de buscar transformar as condições individuais e sociais que geram sofrimento e/ou modificar seu comportamento e posicionamento diante dessas condições. Além disso, contribui para a elaboração de estratégias de enfrentamento, individuais e coletivas, dentro dos limites e das possibilidades historicamente determinadas, que visem transformar as condições que promovem sofrimento.
Em sua intervenção, da maneira como estamos discutindo aqui, o psicólogo busca construir paulatinamente um processo de diálogo e reflexão, analisando e explicitando a história do sujeito, apreendendo o movimento dinâmico de formação de sua consciência e seu sofrimento psíquico. As intervenções psicoterapêuticas realizadas podem objetivar que o sujeito estabeleça nexos entre seu desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento histórico e social da humanidade, bem como desenvolva uma relação consciente com a genericidade; visando estabelecer relações entre o desenvolvimento singular do indivíduo e as relações sociais, mediadas pela particularidade de seus grupos sociais, historicamente constituídos no interior da sociedade capitalista. Assim, a intervenção do psicólogo pode objetivar que o sujeito compreenda como as relações estabelecidas na sociedade de classes engendram a forma como vê o mundo e a si mesmo, e visar que se reconheça na realidade social e histórica mais ampla, compreenda como esta realidade social o constitui e como atuar ativamente frente a ela.
Ao longo do processo, o psicoterapeuta fundamentado na Psicologia Histórico-Cultural, transmite ao sujeito sua compreensão científica e teórica a respeito de como se forma a consciência e o sofrimento psíquico, como esses processos estão relacionados com a vida material e com o sistema de relações sociais, e sobre como o sujeito tem um papel ativo nesse processo de construção. Isso colabora, fundamentalmente, para que o sujeito compreenda que suas vivências têm relação com a cultura, com o contexto social no qual está inserido e com diversas vivências de outras pessoas situadas na história, além de corroborar para que compreenda que o sofrimento individual tem relação com a estrutura social vigente e que o sujeito tem um papel atuante nela.
O psicoterapeuta se fundamenta no pressuposto de que o homem se desenvolve a partir do contexto histórico, em um processo de internalização das relações sociais, das relações de classe. As formas complexas de comportamento são construídas do âmbito interpsicológico para o intrapsicológico, conforme o sujeito se apropria da cultura. As relações sociais e as vivências do sujeito são relações históricas, situadas no tempo e no interior da sociedade capitalista (Echemendía-Tocabens, 2014; Vygotski, 2000).
Conforme Leontiev (1984), ao longo da vida, e a partir do contexto social, se apresentam, para os indivíduos, necessidades sociais e afetivas que caracterizarão a especificidade de seu desenvolvimento enquanto sujeitos. Na psicoterapia busca-se explicitar ao sujeito que é nesse processo que se constroem as representações simbólicas e os motivos que orientam o comportamento humano, que existe uma formação histórica de nossas necessidades. Em outras palavras, o psicoterapeuta busca investigar quais são as necessidades e os motivos socialmente formados que orientam o comportamento do sujeito, assim como as respostas dadas pela realidade objetiva para a satisfação ou não dessas necessidades.
Como exposto, a atividade humana é complexa e poli motivada. De acordo com Leontiev (1984), na realização da própria atividade os motivos se entrelaçam e alguns deles vão se tornando primordiais. O psicoterapeuta busca investigar a construção dessa hierarquia de motivos e compreender como orientam o comportamento.
Entendemos que o psicoterapeuta deve buscar compreender as atividades principais que guiaram o desenvolvimento do sujeito ao longo de sua vida e a que guia seu desenvolvimento no presente momento. No caso da vida adulta, a atividade principal é a atividade de trabalho; e a atividade social de trabalho é a base dos atributos humanos. Conforme Viapiana et al. (2018), o trabalho tem um caráter ontológico, constituidor do ser social, sendo fonte de desenvolvimento das potencialidades humanas e do sentimento de participação nos objetivos da sociedade, de autoestima e identificação. O trabalho não é apenas fonte de subsistência, mas constituidor da dimensão psíquica do sujeito.
Como exposto, conforme Carvalho e Martins (2017), enquanto atividade-guia da idade adulta o trabalho tem um aspecto duplo, de humanização e alienação. No modo de produção capitalista o trabalho está descaracterizado de sua função de promover desenvolvimento, e isso se irradia para as outras esferas da vida. As possibilidades de desenvolvimento das capacidades humanas produzidas pelo trabalho ficam reprimidas e deformadas, visto que estão submetidas às necessidades que beneficiam o capital, em detrimento da pessoa.
Almeida (2018) analisa que o modo de produção capitalista demanda do sujeito altos níveis de energia biopsíquica, estabelecendo-se uma aceleração do ritmo de vida, que exige um crescente dispêndio e desgaste de energia vital. A atual fase capitalista, da acumulação flexível, impulsiona o polo do desgaste em detrimento do polo da restauração. Segundo a autora, a esse processo soma-se a diminuição dos espaços de restauração da energia despendida, a fragilização dos laços comunitários e a falta de projetos de futuro que possibilitariam o desenvolvimento e a realização pessoal e coletiva dos sujeitos.
No capitalismo o trabalho torna-se mero meio de garantia de sobrevivência, ao invés de espaço de realização e sentido de vida. Nesse modo de produção o sentido do trabalho não coincide com sua significação objetiva, porque as relações capitalistas cindem sentido e significado, gerando uma ruptura na estrutura interna da consciência, que pode originar uma experiência de fragmentação subjetiva e de sofrimento psíquico. Desse modo, o trabalho perde sua capacidade realizadora, agregando cada vez menos elementos que dão sentido à vida dos sujeitos, convertendo-se em trabalho imposto e fonte de sofrimento (Almeida, 2018; Leontiev, 1984; Viapiana et al., 2018).
Viapiana (2017) destaca alguns processos do atual modo de produção que podem estar relacionados ao surgimento de quadros depressivos, visto que são capazes de desencadear consequências significativas no modo de vida do sujeito, levando a um aumento do desgaste e à redução do tempo e das condições de reprodução da força de trabalho. Dentre eles, estão: precarização dos direitos trabalhistas, terceirização, informalidade, aumento da jornada de trabalho (com a adoção de horas extras), banco de horas, trabalho em domicílio e pagamento da força de trabalho abaixo do valor.
No atual modo de produção, a vida social fica reduzida à lógica do capital, e isso se expressa no empobrecimento da participação social, no estreitamento da vida familiar e comunitária, do círculo de amizades e de práticas de lazer. A intensificação do trabalho, o assédio moral, as políticas de gestão de cooptação e a flexibilização do trabalho geram maiores níveis de desgaste, podendo ocasionar vivências de fracasso, isolamento, perda dos laços sociais de suporte, descartabilidade, tristeza, raiva, desânimo, insegurança, medo e angústia (Viapiana, 2017). Tais pressupostos teóricos sobre a periodização do desenvolvimento explicitados pela Psicologia Histórico-Cultural, com destaque para a atividade de trabalho, na vida adulta, como os mencionados, auxiliam o psicoterapeuta na compreensão dos processos universais e particulares que promovem desenvolvimento e sofrimento psíquico no atual modo de produção da vida.
Considera-se, assim, a unidade dialética singular-particular-universal. Destarte, o sofrimento psíquico se produz também singularmente, em estreita conexão com as particularidades que entristecem os indivíduos e os destituem de seu sentido de vida (Almeida, 2018). Desse modo, para apreender a determinação social do sofrimento em sua dimensão singular, o psicoterapeuta investiga o papel da atividade principal e as contradições e os conflitos nela envolvidos, assim como a construção da hierarquia de motivos do sujeito especificamente, como afirma Leontiev (1984) e Zeigarnik (1981).
Para León e Calejon (2017), a psicologia vigotskiana explicita que o sujeito é ativo no processo de formação de sua personalidade. O sofrimento psíquico depende também de como o sujeito age ativamente e atribui sentido pessoal à sua atividade e a cada momento de sua vida. Nas vivências, de forma dialética, estão imbricados os aspectos subjetivos apropriados a partir da cultura e os elementos criados pelo próprio sujeito. Conforme Beatón (2017b), o sujeito vivencia a cultura de forma ativa e mediada pelas experiências que vai adquirindo ao longo de sua vida. As experiências atuais são vivenciadas por meio dos conteúdos subjetivos que se formaram com as experiências anteriores, atribuídas de sentido. O sentido pessoal é construído a partir da significação partilhada por seu grupo social e do desenvolvimento psíquico singular do sujeito até aquele momento.
A partir da compreensão vigotskiana sobre a vivência, enquanto unidade entre personalidade e meio (Beatón, 2017b; León & Calejon, 2017; Vigotski, 2018), entendemos que o terapeuta, em sua intervenção, busca evidenciar dialeticamente tanto as relações concretas de vida do sujeito, a significação social e simbólica das vivências, dos conflitos e sentimentos relatados, quanto o sentido pessoal que construiu sobre elas. As mediações terapêuticas buscam destacar a singularidade das vivências, o sentido pessoal construído pelo sujeito na concretude de sua vida, vinculado à significação social e ao universo simbólico cultural do qual faz parte. O psicoterapeuta busca apreender o significado social de determinada vivência, compreendendo como ela se formou historicamente e o que representa socialmente, no interior da comunidade e das relações familiares, afetivas e de trabalho. Além disso, de forma dialética, apreender o sentido pessoal, a maneira como o sujeito se relaciona cognitiva e afetivamente com aquela vivência e que construção simbólica faz dela.
Vygotski (2001) explicita que cognição e afeto formam uma unidade, ou seja, o que sentimos está relacionado à forma como compreendemos o mundo e vice-versa. Afirma, ainda, que os pensamentos e sentimentos são históricos e se transformam de acordo com o contexto material e ideológico de cada grupo. O sentimento de ciúmes, por exemplo, está ligado à compreensão ideológica de fidelidade (Vigotski, 2004), a partir da cultura que atua como determinante sobre nossos sentimentos morais e estéticos e sobre a forma como lidamos com eles.
Entendemos, a partir de Almeida (2018), que o processo saúde-doença manifesto pelo sujeito não revela de imediato sua determinação social. O relato do sujeito não apresenta de forma aparente e imediata a universalidade, a particularidade e a singularidade que determinam a formação de seu sofrimento psíquico. Sendo assim, a análise do psicólogo precisa ir além da aparência da fala, buscando sua essência. Como postula Vygotski (2000), a análise deve ser genética, no sentido de descobrir a gênese, as bases dinâmico-causais dos fenômenos, apreendendo-os em seu movimento.
De forma geral, o processo de intervenção psicoterapêutica, que promove a reflexão sobre as determinações sociais de formação da consciência, da personalidade, das emoções e do sofrimento psíquico colabora para desculpabilizar o sujeito, que é hegemonicamente entendido como único responsável por seu sofrimento. Entendemos que esse movimento de tomada de consciência pode promover a possibilidade de o indivíduo procurar seus pares sociais e se organizar coletivamente. Conforme Bien (2017), o processo de desculpabilização, de tomada de consciência da totalidade e da universalidade envolvida no sofrimento psíquico pessoal redimensiona esse sofrimento, tendo um valor terapêutico à medida que viabiliza a construção de novas estratégias de enfrentamento do sofrimento.
O processo terapêutico, mediado pelas ferramentas teóricas da Psicologia Histórico-Cultural, pode colaborar para a apreensão dos mecanismos velados pela sociedade capitalista e das leis gerais de determinação histórica e social que não estão dadas imediatamente à consciência, contribuindo para o desvelamento da realidade em direção à sua totalidade. Conforme Vygotski (2000), a autonomia não consiste na independência das necessidades socialmente constituídas e dos motivos que nos conformam, mas na capacidade de tomarmos consciência deles e na possibilidade de agirmos para transformá-los.
Considerações Finais
A prática psicoterapêutica discutida neste artigo visa se constituir como uma das possibilidades de intervenção possível elaborada a partir da Psicologia Histórico-Cultural. No entanto, é somente a partir da avaliação cuidadosa da demanda do sujeito, de sua história e das características particulares e singulares de seu sofrimento que será possível estabelecer quais serão os objetivos a serem alcançados e as proposições psicoterapêuticas indicadas.
A intervenção terapêutica aqui proposta se ancora no entendimento específico sobre como se constitui o sofrimento psíquico (Almeida, 2018; Laurell, 1983; Zeigarnik, 1981). Para Laurell (1983), não se pode desvincular a análise do processo saúde-doença do contexto social em que ele é produzido. Sendo assim, é fundamental analisar o sofrimento psíquico como relacionado aos processos estruturais de cada sociedade, que estão relacionados ao grau de desenvolvimento das forças produtivas; o que para a teoria da determinação social do processo saúde-doença tem o adoecimento como um processo social. Laurell (1983) e Almeida (2018), ainda, destacam que cada modo de produção cria determinado padrão de desgaste e reprodução, dentro do qual o sofrimento é gerado. Ou seja, os padrões de desgaste e reprodução dependem dos modos de vida particulares dos grupos dos quais a pessoa faz parte.
O modo de produção compreende as classes sociais e suas frações, que são os diferentes grupos e coletividades, com suas características específicas, que determinam os perfis de reprodução social e os modos particulares de vida. Em seu processo de intervenção, o psicoterapeuta busca compreender os processos críticos, destrutivos e protetores da sociedade capitalista em sua fase atual, que determinam os padrões de desgaste e reprodução do grupo particular no qual o sujeito que procura atendimento está inserido.
As diferentes formas de violência atuam para a sobrecarga psíquica, que é agravada pela restrição de relações de suporte social. Logo, consideramos fundamental compreender como o racismo estrutural, a violência de gênero e a violência contra a população LGBTQIA+ atuam de forma reconhecidamente regular e socialmente determinada, gerando padrões de desgaste das forças físicas e psíquicas (Almeida, 2018; Laurell, 1983). Sendo assim, o psicoterapeuta precisa analisar como a dimensão particular gera desgaste das forças psíquicas, e quais são as condições dadas para a reprodução dessas forças, como os espaços individuais e coletivos de construção de sentido de vida e as relações sociais de apoio.
Apresentamos neste artigo formulações gerais sobre a potencialidade que a psicoterapia tem de atuar sobre o processo de formação de consciência, no caso do nosso estudo, em adultos. O processo de tomada de consciência está atravessado pelas determinações históricas do período em que vivemos. É a luta social que se constitui como força motriz para o desenvolvimento de diferentes formas de consciência em uma determinada época (Delari, 2013); e que entende que a psicoterapia, indubitavelmente, não é capaz de promover o desenvolvimento da consciência do sujeito em todas as suas dimensões, visto que tanto os processos de intervenção do terapeuta quanto os de tomada de consciência do sujeito estarão sempre atravessados por determinações históricas.
Contudo, sem desconsiderar o fato de que estamos inseridos em uma sociedade regida pelo capital, consideramos que a psicoterapia pode se constituir como um dos processos que podem contribuir para que o sujeito construa sua consciência sobre sua própria formação histórica e social, colaborar para o desenvolvimento da autonomia do sujeito e para a construção de novas possibilidades de ação, apontando para uma perspectiva de emancipação humana, ainda que limitada pela sociedade capitalista e subordinada à sua lógica. A psicoterapia pode atuar como promotora de reflexões que possibilitem que esse sujeito se posicione e se articule, de forma individual e coletiva, visando lutar pela transformação das condições históricas, sociais e singulares que produzem sofrimento.
O ocultamento das raízes do sofrimento psíquico tem sérias implicações para os indivíduos, que se veem incompreendidos e isolados no enfrentamento de seus sintomas. Almeida (2018) destaca que em períodos de crise do capital, acompanhados de severos ataques aos direitos dos trabalhadores e restrição de políticas sociais, crescem as tentativas de naturalização e biologização do sofrimento, logo as práticas psicoterapêuticas que visem desculpabilizar o indivíduo enquanto único responsável por seu sofrimento, ao mesmo tempo em que o impliquem como ativo frente ao processo de construção de sua história e da vida social, podem promover a possibilidade de o sujeito procurar seus pares sociais e se organizar.
Esperamos que as formulações teórico-práticas apresentadas neste texto incentivem pesquisadores a elaborar novas proposições e compartilhar sua prática psicoterapêutica, consolidando essa vertente teórica no campo de atuação da Psicologia Clínica. Por isso, destacamos a importância de novos estudos, que busquem discutir as distintas formas de sofrimento psíquico, evidenciando seus processos sociais constitutivos, o que poderá fundamentar a construção de novas formas de intervenção terapêutica a partir da Psicologia Histórico-Cultural.














