O objetivo deste artigo é discutir as relações étnico-raciais na cidade de Joinville, estado de Santa Catarina, via análise da constituição e trajetória de quatro clubes sociais recreativos: Sociedade Harmonia Lyra, Sociedade Cultural Lírica, Circolo Italiano di Joinville e a Sociedade Kênia Clube.
As principais questões que orientam as discussões deste texto são: De que modo a existência dos clubes recreativos em questão nos ajuda a compreender as desigualdades sociais e econômicas entre os grupos étnico-raciais (brancos, negros e indígenas, embora esses últimos não sejam o foco deste estudo) que compõem a população de Joinville? De que maneira a localização desses clubes no espaço da cidade anuncia as diferentes posições das populações por eles representados na dinâmica política da cidade? A existência desses clubes sinaliza a institucionalização de um padrão de desigualdade étnico-racial que evidencia alguma especificidade da história das relações étnico-raciais em Joinville?
Diante dessas questões, apresentaremos, inicialmente, algumas considerações sobre a história dos clubes sociais recreativos, foco deste estudo, estabelecendo diálogos entre as suastrajetórias e os processos constituintes da cidade de Joinville/SC. Em seguida, propomos discussões que partem da premissa segunda a qual cada um desses clubes sociais recreativos se constitui como enunciado da configuração das relações étnico-raciais ao longo da história da cidade de Joinville/SC.
Os clubes sociais recreativos, objeto deste estudo, têm em comum o fato de serem lugares constituídos como espaços de lazer e diversão para pessoas de grupos étnico-raciais específicos. Portanto, suas trajetórias dizem das relações sociais produzidas historicamente na cidade, evidenciam aspectos culturais dos grupos étnico-raciais a eles vinculados e, ao mesmo tempo, sinalizam as suas diferentes condições de existência da cidade.
Camargo e Silva (2008) entendem que os clubes sociais recreativos participam da constituição da sociedade brasileira, pois são instituições, na sua maioria privadas, “formalmente constituídas, planejadas, construídas e destinadas especificamente para a prática do lazer, seja por meio de atividades esportivas, artísticas ou outras formas de manifestação da cultura” (p. 69). As mesmas autoras afirmam ainda que os clubes sociais recreativos no Brasil
podem ser considerados, na sua forma de concepção, como uma manifestação democrática de participação popular, pois, enquanto representatividade social é o resultado da vontade de grupos de interesses atendendo diferentes segmentos da sociedade, seja originária de grupos de imigrantes, de elites da sociedade, de classes trabalhadoras, iniciativa pública ou empreendimentos privados. (Camargo & Silva, 2008, p. 70)
Alguns estudos têm apontado para o fato de que a constituição dos espaços de lazer e convivência na maior parte das cidades brasileiras foi expressivamente influenciada pelas questões étnico-raciais e o desejo de preservação de certo patrimônio cultural (Aguiar, 2007; Camargo & Silva, 2008; Escobar, 2010; Rosa, 2011). Com isso, muitos dos clubes sociais recreativos se originaram como expressão de uma política de preservação cultural e produção de memória social dos grupos étnico-raciais a eles vinculados.
É nesse sentido que estudar a história dos clubes sociais recreativos, suas principais atividades, suas estruturas arquitetônicas, informações econômicas sobre seus associados/as e suas inscrições políticas na cidade, é ocupar-se com os enunciados históricos acerca das relações sociais que foram entretecidas na cidade. Ao mesmo tempo, é analisar as reverberações desses enunciados nos discursos, nas práticas culturais, nas lutas políticas e nas relações sociais que são produzidas atualmente na cidade.
Estudos como os de Rolnik (2009), Nogueira (2009), Baptista e Ferreira (2012), Barboza e Zanella (2014), Cardoso Filho (2016), Assis (2016) e Sicari (2018) compreendem a cidade como lugar de inscrições históricas, espaço de relações sociais e produção de vida. É um lugar de encontros e (im)potências, onde as relações vividas, das quais os sujeitos participam, são constitutivas de suas características singulares. Desse modo, a urbe apresenta-se como “composição de materiais diversos, pedra, tijolos, cimento, areia, asfalto, plantas, entre outros, de interações sociais, da vida social que a realiza e, ao mesmo tempo, pelas sensibilidades ali presentes” (Berri et al., 2015, p. 127).
Rolnik (2009) propõe três imagens para compreendermos a configuração das cidades modernas/contemporâneas: a cidade ímã, a cidade política e a cidade escrita. Enquanto imã, ela se caracteriza como espaço de concentração de pessoas, riqueza, bens e serviços do capitalismo; como espaço político, a cidade constitui-se de relações de poder entre os diversos agentes que compõem a vida pública; como escrita, o espaço urbano é um conjunto de textos escritos em diferentes temporalidades. Portanto, a cidade é um grande texto histórico, isto é, encontramos nela inúmeras vozes sociais que estão presentes na arquitetura, na distribuição dos territórios, nas práticas culturais, nos processos de patrimonialização e nas racionalidades que agenciam a vida pública.
No contexto brasileiro, um dos textos visíveis na história das cidades diz respeito às relações étnico-raciais. Em outras palavras, estamos afirmando que a estruturação dos espaços urbanos no Brasil está diretamente relacionada com as perspectivas étnico-raciais estruturantes da sociedade brasileira (Almeida, 2019; Borges & Carvalho, 2017; Martins et al., 2017; Silveira & Muniz, 2014). Nesse sentido, compreendemos que qualquer discussão sobre a constituição das cidades brasileiras deve levar em conta a categoria sociológica raça como critério fundamental para a análise da sua constituição, trajetória e configuração atual.
Se por um lado as cidades atuais são lugares de concentração populacional e espaços privilegiados de circulação dos bens e serviços, por outro, a distribuição dos lugares que cada pessoa ocupará nela é definida por algumas categorias interseccionalmente entrelaçadas, tais como a classe, raça, gênero, religião, etc. (Almeida, 2019). Essa distribuição apresenta-se de variadas maneiras, com diferentes estratégias e recursos. Por isso, se faz necessário perscrutá-la para visibilizar sua racionalidade, seus códigos linguísticos/políticos e os seus efeitos concretos no cotidiano da cidade.
Os clubes sociais recreativos, objeto deste estudo, têm em comum o fato de serem lugares constituídos como espaços de lazer e diversão para pessoas de grupos étnico-raciais específicos. Portanto, suas trajetórias dizem das relações sociais produzidas historicamente na cidade, evidenciam aspectos culturais dos grupos étnico-raciais a eles vinculados e, ao mesmo tempo, sinalizam as suas diferentes condições de existência da cidade.
Portanto, esses clubes sociais anunciam a existência de diferentes grupos étnico-raciais na cidade e evidenciam, por exemplo, o modo como as relações étnico-raciais foram construídas na região sul do país. Por esses motivos, estudá-los é uma possibilidade de conhecermos a trajetória de uma cidade, bem como as dinâmicas sociais e culturais que a compõem.
Do Percurso Metodológico à Composição das Discussões
Para atender aos objetivos da pesquisa1, realizamos inicialmente um estudo exploratório no Arquivo Histórico de Joinville2 com o intuito de obter informações sobre os principais clubes sociais recreativos existentes na cidade. Conforme os registros do Arquivo Histórico, especificamente na pasta intitulada “Sociedades e Clubes de Joinville”, encontramos documentos de mais de cinquenta clubes sociais recreativos.
Depois de identificar as informações de cada um deles, analisamos as relações, diferenças e semelhanças entre quatro deles: a Sociedade Harmonia Lyra, a Sociedade Cultural Lírica, o Circolo Italiano di Joinville e a Sociedade Kênia Clube. Escolhemos esses quatro clubes a partir de dois principais critérios: a visibilidade social que eles têm na história da cidade e o aspecto étnico-racial relacionado à sua constituição.
Em seguida, nos aproximamos desses clubes com o objetivo de participar de algumas de suas atividades, conhecer seus associados(as) e apresentar as intenções da investigação. As idas aos clubes aconteceram no primeiro semestre do ano de 2019. Guiados pelas notificações das páginas dos clubes no Facebook, anúncios radiofônicos e a agenda cultural da cidade, tomamos nota de eventos realizados nessas sociedades e participamos de alguns deles.
Na Sociedade Harmonia Lyra, participamos de dois eventos: da apresentação do projeto Interlúdio, cujo objetivo era homenagear o artista local Juarez Machado, e do concurso Miss Joinville, edição de 2019. Além desses eventos, mantivemos diálogos com alguns dos funcionários do clube durante três visitas realizadas em dias e horários comerciais. Por se tratarem de conversas informais sem a prévia autorização para sua reprodução, não são apresentadas neste texto, embora tenham possibilitado uma melhor compreensão da história e dinâmica atual do clube.
Na Sociedade Cultural Lírica de Joinville, fomos ao concerto matinal com o Coral da Lírica, evento que contou com a participação do grupo folclórico Windmühle e do Shanty Chor, dois grupos que apresentam, periodicamente nesse clube, danças tradicionais germânicas nas categorias infantil, adulto e master; participamos também da Noite germânica: música e culinária alemã e do jantar e baile musical em alusão aos 97 anos de existência do clube, intitulado Preservando a cultura germânica em Joinville. Todos esses eventos foram promovidos com o objetivo de reunir as/os associadas/os do clube, na sua maioria de ascendência germânica, para comemorações e festividades com atividades culturais que fazem alusões aos aspectos tradicionais germânicos, especialmente suíços e alemães.
No Circolo Italiano di Joinville, participamos da Noite da polenta, um evento realizado pela comunidade Cristo Rei do bairro Vila Nova, uma das comunidades filiadas ao clube. Embora a sede deste clube esteja localizada no bairro Anita Garibaldi, os(as) associados(as) que moram na região do Villa Nova realizam alguns eventos em uma casa pertencente ao clube naquela região. Participamos também da apresentação cinematográfica realizada pelo projeto Seratadel cinema italiano, exibindo o filme intitulado Concorrenza Sleale, em uma das salas da sede dessa sociedade. O clube é um dos espaços da cidade que procura visibilizar aspectos culturais da tradição italiana.
Por fim, participamos de algumas atividades da Sociedade Kênia Clube, tais como rodas de samba, dois eventos beneficentes, aulas de maracatu e de capoeira, festa de comemoração dos 58 anos de existência da sociedade, um lançamento de livro e reuniões do grupo de empreendedores negros em Joinville. A Sociedade Kênia Clube é um clube social negro constituído no ano de 1960 com o objetivo de reunir pessoas negras da cidade a fim de realizar bailes, festas, reuniões e atividades relacionadas à cultura afro-brasileira (Camara & Cesar Sá, 2015; Correia, 2016).
Entrevistamos alguns associados dos clubes que estudamos nesta pesquisa e, a partir dessas entrevistas, fizemos um mapeamento breve de dados econômicos e sociais dos associados de cada um deles. A Sociedade Kênia Clube conta, atualmente, com associados/as que são, em sua maioria, trabalhadores/as da educação, do comércio e das principais indústrias da cidade. Os/as sócios/as ativos/as da Sociedade Harmonia Lyra, por sua vez, são na maioria empresários/as de médio porte, proprietários/as de estabelecimentos comerciais da cidade, trabalhadores/as da rede de educação, saúde e compõem parte da classe média da cidade. A Sociedade Lírica e o Circolo Italiano di Joinville seguem o mesmo padrão, embora seus/suas associados/as sejam, na sua maioria, comerciantes de médios e grandes negócios da cidade.
Alguns dos relatos dos/as associados/as da Sociedade Kênia Clube serão aqui apresentados para aprofundar as discussões. No caso desses participantes, além de autorizarem a divulgação de suas reflexões, autorizaram também a menção de seus nomes verdadeiros no texto, para visibilizar seus saberes acerca da presença da população negra em Joinville, conforme a possibilidade apresentada no Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE).
Durante o processo de coleta e produção de informações, registramos por escrito nossas impressões e produzimos algumas fotografias. As imagens fotográficas produzidas formam “grafias dos nossos olhares” (Gusmão & Souza, 2008, p. 14) sobre os clubes e possibilitam a compreensão das diferenças e semelhanças arquitetônicas entre os seus prédios e suas localizações no corpo da cidade. Como resultado dessas grafias do olhar, produzimos uma imagem com cada um dos clubes que estudamos.
Produzimos também, a partir de um mapa da cidade obtido no site da Prefeitura Municipal (Mapa da renda per capita do município de Joinville, 20163) e com o recurso do Google Maps, uma imagem que indica a localização de cada um dos clubes na cidade. Essa segunda imagem permitiu analisar as distâncias entre os clubes, analisar a especulação imobiliária das regiões em que estão localizados e conhecer a renda per capita dos moradores do entorno desses clubes. Essas informações possibilitaram evidenciar diferenças de classe social das pessoas que, via de regra, frequentam esses espaços.
Os conhecimentos produzidos com as imagens e as visitas aos clubes recreativos permitiram-nos realizar o que compreendemos como leitura topográfica, uma ferramenta para a pesquisa em psicologia social interessada na análise crítica de relações constitutivas do espaço urbano.
Compreendemos que fazer uma leitura topográfica sob a perspectiva crítica da psicologia social é atentar não só aos elementos materiais dos espaços, mas principalmente ao que a disposição desses elementos diz das relações que ali são produzidas e os efeitos dessas relações na composição da vida urbana. É, também, se ocupar com a percepção das desigualdades (econômicas, sociais, étnico-raciais, entre outras) existentes entre os diferentes lugares que compõem a urbe e o modo como tais desigualdades orquestram modos diversos de experimentar a cidade e produzir relações sociais. Assim, chamamos de leitura topográfica o processo composto por diferentes práticas cuja proposta final é apresentar especificidades que permitem localizar, da melhor maneira possível, um determinado espaço da cidade e compreender as relações que ali são produzidas.
O processo de análise das informações produzidas pela pesquisa foi realizado a partir dos pressupostos teóricos da Análise Dialógica do Discurso (ADD). Segundo essa perspectiva teórico-metodológica, toda voz social é sempre dialógica, pois se constitui a partir das múltiplas interações entre os saberes de diferentes tempos históricos. Toda voz social é “produto da criação ideológica ou de uma enunciação, com tudo o que está aí subentendido: contexto histórico, social, cultural, etc. Em outras palavras, nenhuma voz social existe fora da sociedade, só existe nela e para ela e não pode ser reduzida à sua materialidade linguística ou dissolvida nos estados psíquicos daqueles que o produzem ou o interpretam” (Barros, 2015, p. 27).
A partir disso, consideramos os próprios clubes sociais como materialização de vozes sociais de diversas temporalidades. Ao mesmo tempo consideramos o que os/as associados/as da Sociedade Kênia Clube, por exemplo, relataram a partir dos dois aspectos de um enunciado: o verbo-visual e o extraverbal (Bakhtin, 2013).
No primeiro aspecto consideramos as interações verbais durante as conversas com os/as associados/as dos clubes investigados. Com o segundo aspecto consideramos aquilo que está presumido, isto é, “os conhecimentos que não estão explicitamente demarcados na materialidade analisada, mas, sim, nos implícitos sócio-histórico-ideológico-contextual de um enunciado” (Menegassi & Cavalcanti, 2013).
Para a ADD o dialogismo é tanto o princípio constitutivo da linguagem como a condição do sentido do discurso. Com isso, compreendemos que o discurso não é individual. Portanto, a dialogia se apresenta como “condição elementar para a existência histórica” (Bakhtin, 2013, p. 54). Nessa perspectiva, podemos afirmar que, assim como o diálogo é condição da existência humana, a história como tal deve ser entendida como um grande diálogo em que as relações e produções histórico-sociais são pequenos diálogos realizados em determinados espaços-tempo.
A partir dessa perspectiva compreendemos que os clubes sociais recreativos que foram objeto desse estudo são enunciados das relações historicamente constituídas na trajetória da cidade e a partir deles torna-se possível analisar os implícitos e explícitos sócio-histórico-ideológico-contextuais constituintes da cidade, evidenciando os tipos de saberes nela produzidos quanto às relações étnico-raciais.
A partir desse processo, elencamos duas principais categorias de análise: a localização dos clubes no mapa da cidade e suas relações com a renda per capita; e a arquitetura dos clubes e suas relações com as desigualdades socioeconômicas dos grupos étnico-raciais que a eles são vinculados.
Notas sobre a Cidade e a Cultura Clubista
Joinville localiza-se na microrregião Nordeste do estado de Santa Catarina, com uma área de unidade territorial aproximadamente de 1.126,106 km2 e 457,58 hab./km2 de densidade demográfica. Considerada a maior cidade do estado, apresenta uma população estimada até 2021 de 604.708 pessoas (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2021), possuindo 41 bairros e duas zonas industriais. Segundo o último Censo (IBGE, 2021), Joinville/SC possui entre sua população residente 12.837 pessoas que se autodeclaram negras e 440.743 pessoas que se autodeclaram brancas.
O processo de constituição da cidade está associado ao contrato assinado em 1849 entre a Sociedade Colonizadora de Hamburgo e o casal de príncipes responsáveis pelas terras presentes na província de Santa Catarina, posteriormente conhecida como Colônia Dona Francisca (Guedes, 2005; Silivi et al., 2017). Em decorrência do processo de imigração e organização da colônia, no dia 09 de março de 1851 instituiu-se, oficialmente, a cidade de Joinville, nome que fazia referência ao então príncipe da cidade francesa de Joinville, “proprietário” das terras da antiga Colônia Dona Francisca (Guedes, 2005).
Desde então, “estabeleceram-se nessa região famílias de origem portuguesa e negros/as escravizados/as, vindos provavelmente da capitania de São Vicente (hoje estado de São Paulo) e da vizinha cidade de São Francisco do Sul” (Guedes, 2005, p. 20). Segundo o relatório da Prefeitura Municipal de Joinville (Silivi et al., 2017), “à população luso-brasileira e negra juntaram-se, sobretudo, os germânicos (a maior parte alemães e suíços, além desses, noruegueses, austríacos, suecos, dinamarqueses, belgas e holandeses), franceses e italianos” (Silivi et al., 2017, p. 12).
Guedes (2005), Cunha (2008) e Borba (2013) destacam a necessidade de afirmar a presença de povos originários, as populações indígenas, que já habitavam essa região e poucas vezes são citadas no processo de constituição da cidade. Apesar dessa informação relevante, não foi foco deste estudo ocupar-se com tal problemática. Inclusive indicamos aqui um tema para investigações futuras.
Com o desenvolvimento urbano e o crescimento da população joinvilense, passaram a existir diferentes espaços de convivência na cidade, entre eles os clubes sociais recreativos, foco deste estudo. De acordo com alguns dos jornais mais antigos de Joinville, A Notícia (1987) e o Jornal de Joinville (1989), um dos primeiros clubes sociais a existir na cidade foi o Clube de Joinville, fundado em 1905. Tais jornais descrevem o clube como sendo um dos símbolos tradicionais das relações políticas da cidade, pois resultou da junção de três agremiações políticas da época: Congresso Joinvilense, Clube União Joinville e Clube Republicano.
A partir dos anos de 1940, o Clube de Joinville tornou-se um dos espaços das famosas domingueiras, encontros realizados aos domingos entre associados(as) do clube para atividades de lazer e recreação. Além das domingueiras, organizavam-se, ainda, bailes de carnaval e comemorações de aniversários. Havia no Clube de Joinville um local de jogos, restaurante, um salão de bailes e uma biblioteca, a qual, no ano de 1950, tinha aproximadamente 2.500 livros (A Notícia, 1987; Jornal de Joinville, 1989)4.
Outro clube de destaque em Joinville, segundo os periódicos locais, é a Sociedade Harmonia Lyra, que resultou da associação entre a Sociedade Musical Lyra e a Orquestra da Lyra, no ano de 1921. Essa sociedade se constituiu como espaço de diversão e “entretenimentos nobres em um ambiente de camaradagem, principalmente por intermédio da cultura da arte dramática, com uma programação mensal de festas, teatro, música, canto, dança ou quaisquer outros divertimentos” dos seus/suas associados(as) (Sociedade Harmonia Lyra, 2022).
Destaca-se também a Sociedade Cultural Lírica, fundada em 10 de junho de 1922. Com base em informações disponibilizadas no seu site oficial, essa sociedade constituiu-se com a finalidade principal de reunir homens e mulheres de nacionalidade alemã e seus descendentes, a fim de cultivarem a arte de cantar em grupo. O mesmo site informa que os(as) associados(as) eram todos do “mesmo padrão social e econômico” e que a referida sociedade “sempre esteve presente na comunidade joinvilense como ponto de encontro dos alemães da região” (Sociedade Cultural Lírica, n.d.).
Em 1960 foi fundada a Sociedade Kênia Clube, o único clube social na cidade relacionado aos afrodescendentes. Inicialmente, essa sociedade funcionou em um salão alugado na Rua Botafogo, bairro Itaum, e promovia também as suas domingueiras, bailes de páscoa, do dia dos namorados, do dia dos pais, do dia das mães, de natal e baile de debutantes. Naquela época, a exemplo de outros clubes sociais recreativos da cidade, a Sociedade Kênia Clube tornou-se um espaço de convivência, lazer e festividades das pessoas negras que moravam em Joinville.
Um dos clubes mais recentes é o Circolo Italiano di Joinville, fundado em 1995. Nele são promovidos eventos específicos que celebram a cultura italiana, tais como: festas com gastronomia italiana, aulas de língua italiana, exposição de obras de arte italianas, entre outras ações realizadas para o fortalecimento e afirmação da memória desse grupo étnico-racial. Além disso, a sociedade tem um programa, na Rádio UDESC FM, específico para informes de suas atividades, indicação de filmes e literatura.
A Localização dos Clubes no Mapa da Cidade: Desigualdades Visíveis
Para compreendermos as relações entre a localização dos clubes no mapa da cidade, a visibilidade social de cada um deles e as questões econômicas envolvidas no processo de (des)valorização dos seus espaços físicos, produzimos a Figura 1. Trata-se de um mapa da cidade de Joinville, elaborado pela Unidade de Pesquisa e Documentação de Joinville (UPD) em parceirina com o Instituto de Pequisa e Planejamento para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville (IPPUJ) (2016) sobre a renda per capita da população da cidade. Além dos dados econômicos que o mapa apresenta, procuramos relacionar essas informações com a localização de cada um dos clubes na geografia da cidade. Compreendemos esses dados como enunciados que nos apresentam questões sobre a cidade e evidenciam discussões sobre as possibilidades econômicas de cada uma das populações representadas por esses clubes.

Fonte: Adaptação feita pelas autoras a partir do Mapa adaptado da renda per capita - Fundação IPPUJ (2016).
Figura 1 Distribuição dos clubes na cidade de Joinville.
Os bairros América, Bucarein, Centro e Saguaçu fazem parte da região central e comercial da cidade. Neles estão localizados os prédios de algumas das principais instituições da cidade, tais como: a Prefeitura Municipal (Centro), a Câmara dos Vereadores (Saguaçu), a Biblioteca Pública Municipal Prefeito Rolf Colin (Centro), o CentreventosCau Hansen (América), a Secretaria de Assistência Social (Bucarein), a Secretaria de Educação (Centro) e a Secretaria da Saúde (América).
Localizam-se também nessa região o Museu Nacional de Imigração e Colonização, o Museu Arqueológico de Sambaqui, o Arquivo Histórico, a Casa da Cultura, o Hospital São José, a Maternidade Darcy Vargas, o Hospital Dona Helena, O Hospital Infantil e o Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville. Todas essas instituições estão localizadas nos bairros América, Bucarein, Centro e Saguaçu.
Toda essa região faz parte do que Rolnik (2009) considera ser o anel concêntrico das cidades capitalistas. Na perspectiva dessa autora, as cidades capitalistas tendem a concentrar em uma determinada região os principais serviços públicos, os grandes espaços comerciais e, por vezes, a maior oferta de empregos, contrabalanceando apenas com os polos industriais. Essa realidade é também constatada por Trindade (2017, p. 158) que: “determinadas localizações, na cidade, são muito mais bem equipadas e vantajosas do que outras, e, por isso, muito mais valorizadas”.
Na medida em que se constituem os anéis concêntricos dos espaços urbanos, verifica-se, também, o processo de periferização da população mais pobre, pois as regiões com moradias mais baratas passam a ser aquelas distantes do anel concêntrico. Com isso, os espaços periféricos tendem a ser desprovidos dos serviços disponíveis nas regiões centrais da cidade, produzindo desigualdades de acesso e de oferta de certos serviços, tais como: saúde, saneamento básico, educação, lazer, etc.
Dessa forma, em cidades como a de Joinville/SC, o centro urbano tende a uma alta valorização imobiliária e concentra um grande percentual da população que possui uma renda per capita mais alta. Em outras, especialmente as que se localizam em regiões litorâneas, a maior valorização imobiliária e o percentual de pessoas que têm a renda per capita mais alta se localiza nas proximidades do litoral e não necessariamente na região central da cidade (Trindade, 2017).
Observam-se na Figura 1, dados estatísticos da renda per capita por cada região da cidade, disponibilizados pela Fundação IPPUJ e Unidade de Pesquisa e Documentação de Joinville (UPD) no ano de 2016. Na região sinalizada pela cor laranja, nota-se que grande parte da população residente nos bairros América, Atiradores e partes do Saguaçu têm uma renda entre 12 e 15 salários mínimos. Já na região mais central, sinalizada pela cor verde, a renda per capita é superior a 15 salários mínimos. Percebe-se que, quanto mais próximo da região central, maior é a concentração de pessoas com maior poder aquisitivo e, consequentemente, maior é a visibilidade e valorização dos espaços e instituições que estão localizados nessa região da cidade.
Por sua vez, os bairros Floresta, Fátima, Boa Vista, Guanabara e Itaum, por exemplo, estão divididos em dois públicos: aqueles que residem mais próximo da região central, com uma renda per capita entre sete e 10 salários mínimos, representados pela cor azul; e aqueles que estão mais distantes da região central, isto é, mais ao sul da cidade, cuja renda varia entre três e sete salários mínimos, representados pela cor cinza.
Segundo o trabalho de Voos (2016), a maior concentração da população negra em Joinville está nas regiões mais distantes do eixo concêntrico da cidade. No gráfico produzido pelo censo demográfico de 2010 acerca da concentração de moradores negros por setor censitário, constata-se que quanto mais ao sul e extremo norte da cidade, regiões de renda per capita menor, maior é a presença de moradores negros. Nesses bairros, a cada 10 moradores, aproximadamente quatro são negros(as).
Por outro lado, nas regiões mais concêntricas, para cada 10 moradores 0,5 são negros(as). Bairros longínquos do eixo concêntrico, com passivos ambientais, fora das principais vertentes da especulação imobiliária, com falta de infraestruturas necessárias, baixo rendimento e com as políticas sociais desajustadas com a realidade intraurbana são os que abrigam a maior quantidade de pessoas negras (Voos, 2016).
A Figura 1, além de apresentar informações que nos auxiliam a compreender a estratificação socioeconômica de cada bairro, relaciona também esses dados com a localização de cada um dos clubes em foco neste estudo. A Sociedade Harmonia Lyra, Sociedade Cultural Lírica e o Circolo Italiano di Joinville localizam-se na região central, fazendo parte do eixo concêntrico da cidade.
Por sua vez, a Sociedade Kênia Clube localiza-se em uma região que está fora do circuito central de Joinville. O bairro Itaum, onde se localiza, faz fronteira com o bairro Floresta, ambos localizados na região sul da cidade, constituída historicamente como a região de loteamentos de trabalhadores imigrantes vindos dos estados vizinhos, tais como Paraná, Rio Grande do Sul e de outras cidades próximas, principalmente a partir dos anos de 1970 e 1980, período de desenvolvimento industrial da cidade.
A compreensão da desigualdade econômica entre os/as associados/as desses clubes está presente nos relatos de duas pessoas negras associadas da Sociedade Kênia Clube que ilustram a discussão sobre a localização dos clubes no mapa da cidade. Bernardino disse: “é complicado pensar que existe uma mesma valorização dos lugares vinculados aos negros e aos brancos em Joinville (Gunlanda, 2020). Os lugares mais chiques, por muito tempo, foram dos brancos e não os nossos”. Outra associada, Silva (2019, citado por Gunlanda, 2020), relatou o seguinte:
Em Joinville, desde sempre tivemos que dar o nosso jeito. Divertir-se do nosso jeito e dentro das nossas possibilidades. Não sei se isso é o que deveríamos ter vivido para aprender a valorizar o que é nosso, mas o certo é que os clubes dos brancos sempre foram mais prestigiados em relação ao nosso clube, por exemplo.
As duas associadas, professora e fonoaudióloga respectivamente, têm suas histórias de infância e juventude ligadas à Sociedade Kênia Clube e indicam em seus relatos as diferenças existentes na cidade quanto ao modo como são valorizados os espaços culturais e de lazer da população branca e da população negra, por exemplo. Percebe-se que as associadas atribuem a valorização e prestígio dos clubes sociais de brancos/as a o fator econômico e ao efeito direto do racismo.
Ao serem questionadas sobre as desigualdades econômicas dos/as associados/as dos quatro clubes e a diferença entre a localização dos prédios dos quatro clubes, Silva (2019, citado por Gunlanda, 2020) afirmou o seguinte:
Essa diferença só não é visível para quem decide fechar os olhos. Está bem na cara da cidade: nós, os negros, tivemos menos poder econômico e, consequentemente, temos um clube mais pobre e menos poderoso aos olhos da sociedade. Mas o que importa é que para nós ele é alguma coisa, e coisa boa!
As duas associadas compreendem que a desigualdade que os clubes sociais evidenciam não se resume apenas aos clubes em si, mas se estende no modo como são produzidas as (des)valorizações das vidas de cada grupo étnico-racial. “Não são apenas os clubes. Na verdade, são as nossas histórias e as nossas trajetórias que são consideradas umas mais importantes do que as outras nessa cidade” (Silva, 2019, citado por Gunlanda, 2020).
Observamos que estas mulheres compreendem que a valorização das práticas culturais, das narrativas e dos patrimônios urbanos está diretamente relacionada às condições socioeconômicas dos grupos étnico-raciais que compõem a cidade. De modo geral, a população negra, por ser alvo principal dos processos de racialização que se perpetuam na sociedade brasileira, apresenta os piores índices na escala de desigualdades econômicas e sociais quando comparada à população branca no Brasil (Gomes & Laborne, 2018; Sinhoretto & Morais, 2018).
Não são apenas números econômicos ou localização geográfica, pelo contrário. Esses dados são enunciados que evidenciam o modo pelo qual pessoas negras e brancas, por exemplo, participam da dinâmica da urbe: a população branca está no centro da vida política da cidade e a população negra ainda se encontra na periferia política da mesma.
Esse enunciado – a localização dos clubes na cidade – dialoga com o contexto geral do Brasil em que a maior parte da população negra, por exemplo, vive nas regiões periféricas das cidades e tem uma renda 60% mais baixa em relação à população branca (Gomes & Laborne, 2018; Sinhoretto & Morais, 2018). A população negra está na periferia do poder político e a população branca está no centro do poder e das decisões políticas no Brasil de modo geral.
Os Patrimônios e a Arquitetura dos Clubes Sociais Recreativos
Outro aspecto sobre o modo como os clubes sociais de Joinville diferenciam-se em termos de valorização e prestígio social, diz respeito à arquitetura das suas edificações. Os prédios da Sociedade Harmonia Lyra e Sociedade Cultural Lírica apresentam uma estrutura arquitetônica influenciada pelas construções europeias de estilo enxaimel, eclético e neoclássico. Os aspectos materiais e físicos indicam um investimento econômico maior em comparação com a estrutura física da Sociedade Kênia Clube, facilmente observável na Figura 2.

Fonte: Arquivo dos pesquisadores.
Figura 2 Bricolagem de fotografias da fachada de quatro clubes sociais recreativos de Joinville/SC.
O atual prédio da Sociedade Cultural Lírica, inaugurado em 1985, contendo 1.200m2 de área construída, tem um estilo arquitetônico enxaimel semelhante à arquitetura europeia, especificamente aquela de tradição germânica do século XIX.
A arquitetura enxaimel, conforme é possível visualizar na parte inferior esquerda da Figura 2, é uma estrutura de madeiras encaixadas, sem pregos, com 10 janelas na parte frontal do prédio. Internamente, o edifício tem dois andares: a parte térrea e a parte superior, onde estão as salas que acomodam os materiais utilizados nas atividades do clube. “Diversos elementos estruturantes compõe a arquitetura enxaimel como os baldrames, os frechais e as tesouras como componentes do telhado, a composição dos esteios e os barrotes para escoras da estrutura” (Franzen et al., 2018, p. 16).
A escolha dessa arquitetura é proposital. Ela é uma forma de reiterar na memória da cidade a presença dos imigrantes germânicos. É também uma forma de valorização das tradições, ideais e práticas culturais dos descendentes germânicos que atualmente habitam na cidade. Ou seja, a existência desse clube atualmente e a sua visibilização como patrimônio cultural da cidade é uma forma de reafirmar o tipo de cultura e o tipo de população que tem prestígio na cidade.
O prédio da Sociedade Harmonia Lyra, por sua vez, é classificado como arquitetura eclética, um tipo de arquitetura que procura conciliar diferentes estilos arquitetônicos. O ecletismo arquitetônico resulta da mistura do neoclassicismo francês, caracterizado pela grandeza das fachadas principais, pórtico ladeado pela colunata avançada e frontões triangulares, com um exotismo do pitoresco, que se apresenta como cópia das construções europeias menos formais.
O edifício dessa Sociedade é imponente, formado por dois prédios unidos por um pequeno corredor, com janelas longas e frontões presentes em ambos os prédios. Internamente, em um dos prédios encontramos o salão nobre e o restaurante; e no outro, encontramos o teatro. No texto intitulado Arquitetura (eclética) monumental, Walter de Queiroz Guerreiro (2007) descreve os detalhes arquitetônicos da Sociedade Harmonia Lyra e afirma:
Como construção, embora eclética, onde encontramos elementos neoclássicos, barrocos, art déco e até do modernismo nas esculturas da fachada, existe uma integridade na obra, forma e conteúdo traduzindo uma afirmação de um grupo socialmente organizado, coerência interna entre princípios e valores de uma sociedade burguesa formada nos moldes do século XIX e ainda vigente na primeira metade do século seguinte. Arquitetura monumental, perpetuando na memória e paredes objetivo máximo, o da harmonia entre os homens. (Guerreiro, 2007, p. 23)
O prédio do Circolo Italiano di Joinville, que se vê na parte superior esquerda da Figura 2, é de cor bege, com vidros azuis e possui um estilo arquitetônico considerado neocolonial, que passou a ser usado com maior frequência no Brasil depois dos anos de 1920. “O neocolonial fazia parte de um programa nacionalista de reivindicação e afirmação de identidades locais contrárias às estéticas cosmopolitas, universalistas e europeizantes vigentes na arquitetura, e de modo geral nas artes, no começo do século XX” (Natal, 2009, p. 4).
Na maior parte dos casos os projetos arquitetônicos neocoloniais definiam-se “por volumes recortados, balcões e corpos laterais salientes, grandes beirais, telhados de várias águas, além de um conjunto considerável de elementos ornamentais ‘inspirados’ na arquitetura civil do período colonial” (Natal, 2009, p. 5). O prédio do Circolo Italiano di Joinville apresenta uma pequena elevação no telhado, com janelas e esculturas que têm o objetivo de acomodar lâmpadas para a iluminação noturna. Está localizado em uma lateral da Avenida Getúlio Vargas, avenida essa que corta a cidade e possibilita a interligação entre a região sul e a região norte da cidade.
Consideramos importante apontar o estilo neoclássico e estilo eclético presente nesses clubes, pois dão a ver a influência de padrões estéticos europeus na constituição arquitetônica da cidade. Trazer esses estilos nas fachadas das edificações é, mais do que uma escolha estilística, a afirmação de uma determinada filiação identitária, herdeira dos padrões coloniais constitutivos das relações de saber e poder em nossa sociedade.
A sede da Sociedade Kênia Clube, por sua vez, situa-se no bairro Itaum, em uma região de residências, pequenos negócios e pouco movimento. O prédio é um grande galpão pré-moldado de aproximadamente 1.400 m2, com uma fachada na parte da frente contendo os letreiros que identificam o espaço. A estrutura externa é toda de cimento com pintura branca e azul, contendo quatro janelas laterais de madeira construídas nos anos 2000. A única entrada do clube é por uma porta de ferro, idêntica às portas de galpão, sem muros ao redor do prédio. Internamente tem um salão de festas e um corredor que abriga duas salas onde são guardados os materiais da escola Príncipes do Samba. As paredes são retas, sem colunas ou detalhes de um estilo arquitetônico.
Nos primeiros anos, a sede do clube funcionava em um salão alugado na Rua Botafogo. Segundo Maria da Conceição Pereira Osório (1996, p. 24) era “[...] uma construção de madeira muito modesta, mais tarde reconstruída em alvenaria”. Alvenaria é um tipo de construção caracterizada pelo conjunto de pedras, tijolos ou blocos que constituem a estrutura de uma edificação. De modo geral, esse tipo de construção passou a ser frequente no Brasil desde o século XX, pois além de ser mais acessível do ponto de vista econômico, não exigia a presença de um arquiteto, apenas da mão de obra de pedreiros. O objetivo da alvenaria era oferecer resistência, vedar espaços e fornecer proteção acústica e térmica (Tauil & Nese, 2010).
No período de 1997 a 2002 o clube esteve fechado, pois o prédio foi alugado para um empresário da cidade de São Francisco do Sul a fim de funcionar como uma boate. A então diretoria do clube alugou o prédio por cinco anos para que pudesse adquirir recursos necessários para realizar uma reforma no prédio do clube, pois, segundo informações do então diretor do clube, “o quadro de associados do Kênia é composto na sua maioria por trabalhadores humildes que têm dificuldades para manter suas mensalidades em dia, eles têm outras prioridades e temos que entender isso” (A Notícia, 1997, p. 6). Ou seja, durante esses cinco anos o prédio do clube transformou-se numa boate administrada pelo empresário locatário que ao final dos cinco anos entregaria novamente o prédio para a diretoria do clube (Camara & Cesar Sá, 2015; Correia, 2016).
Certamente, as desigualdades econômicas dos/as associados/as desses quato clubes evidenciam-se nos investimentos realizados na estrutura dos seus prédios. A Sociedade Harmonia Lyra, Sociedade Cultural Lírica e o Circolo Italiano apresentam imóveis que remetem às construções europeias e, talvez por esse motivo, sejam estimados pelo poder público. Seus projetos arquitetônicos são definidos e contam com manutenções regulares.
A partir dessas desigualdades operam-se os processos de visibilização de certos lugares, memórias e, ao mesmo tempo, negligenciam-se outras. O edifício da Sociedade Harmonia Lyra, por exemplo, é considerado patrimônio cultural da cidade pela Secretaria da Cultura e Turismo, Unidade Patrimônio e Museus, Decreto Estadual nº 1.223/1996. Por sua vez, a Sociedade Kênia Clube entrou com o processo de patrimonialização do seu espaço no ano de 2016, mas ainda não obteve nenhum retorno por parte da Prefeitura. Não se tem registros de processos de tombamento da Sociedade Cultural Lírica e o Circolo Italiano de Joinville, pelo menos nos dados oficiais da prefeitura municipal publicados até Julho de 2020.
A demora no processo pode ter razões variadas, que aqui não serão respondidas por não ser objetivo do estudo aprofundar as questões sobre processos de patrimonialização. Mas consideramos importante indicar que os patrimônios são seleções produzidas a partir de relações de poder em determinado contexto. Pois, “o patrimônio tem a ver com a herança do passado ou monumentos herdados das gerações anteriores” (Assis, 2016, p. 39), a partir de relações de poder que determinam o tipo de passado que será lembrado e aquele que será apagado. Memórias e esquecimentos seletivos, balizados pela valoração diferenciada de edificações, de saberes e práticas culturais, como esclarecem Lia Calabre (2009), Eduardo Nivón (2011), Regina Maria do Rego Monteiro de Abreu (2016; 2018), entre outras pesquisadoras/es.
As autoras citadas nos permitem compreender que é em um intenso jogo de poder que acontece o processo de patrimonialização, tornando certas memórias de determinados grupos culturais reconhecidos como patrimônios culturais e valorizados como heranças a serem preservadas. No caso dos clubes em questão, a preservação da estética colonial é garantida pelos processos de patrimonialização, e na sua esteira difunde-se e se conserva um ideário civilizatório edificado sob o apagamento de estéticas outras, bem como de possibilidades de existência divergentes das socialmente aceitas e instituídas. Essas memórias outras têm maior dificuldade de serem reconhecidas e patrimonializadas. Talvez essa seja a situação da Sociedade Kênia Clube.
Considerações Finais
A pesquisa realizada nos permite afirmar que a localização geográfica de cada um dos clubes sociais recreativos pesquisados está relacionada às condições socioeconômicas de seus/suas associados(as) e às políticas identitárias que edificaram a cidade de Joinville/SC. Essas condições, constituídas historicamente, visibilizam as relações existentes entre poder econômico, raça e prestígio social. Nesse sentido, as relações entre cidade, desigualdades socioeconômicas e étnico-raciais são fundamentais para compreender a distribuição de cada um dos clubes no mapa da cidade.
Foi possível constatar também que há maior visibilidade dos clubes sociais relacionados às tradições germânicas e italianas, o que nos permite estabelecer conexões entre arquitetura, patrimônio e questões étnico-raciais. A localização dos clubes no mapa da cidade e a estrutura dos seus prédios possibilitam diferentes formas de visibilização, implicando diretamente nos modos como são conhecidas as narrativas, memórias e trajetórias dos grupos étnico-raciais representados por cada uma dessas sociedades recreativas.
Constatamos também que os clubes analisados, além de serem espaços de lazer e diversão, são patrimônios culturais da cidade de modo geral, embora aqueles que estão relacionados à tradição germânica e italiana tenham maior prestígio e visibilidade do que o clube relacionado à tradição afro-brasileira. Ao que tudo indica, as desigualdades sociais, econômicas e étnico-raciais estão na base dessa complexa trama de valorizações e desvalorizações, configurando a história arquitetônica que edificou a cidade e continua a reger as relações entre seus habitantes.
Por meio dessas discussões nos aproximamos dessa complexa questão, fundamental para a compreensão do tipo de relações que se apresentam contemporaneamente no Brasil, herdeiras de uma tradição colonial escravocrata e seus efeitos na produção de subjetividades e suas implicações na dinâmica política, econômica, social e cultural dos espaços urbanos.
Por fim, ressaltamos a necessidade e a importância de pesquisas em psicologia que considerem as relações entre produção social de memória, questões étnico-raciais e cidades, posto seus efeitos nos modos como se produzem (in)visibilidades de determinados grupos sociais, de suas narrativas, saberes e fazeres nos contextos urbanos brasileiros.











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