Este artigo tem como objetivo investigar a experiência vivida por pessoas transgêneras na perspectiva da psicologia psicanalítica concreta. Entendemos como transgênero, pessoa transgênera/trans ou transgeneridade todas as pessoas que não se identificam, em tempo integral, parcial ou em momentos e/ou situações específicas de sua vida, com o gênero que lhes foi designado ao nascimento. Sendo assim, trata-se de um termo “guarda-chuva”, estrategicamente utilizado por abarcar diferentes possibilidades, como mulheres e homens transexuais, travestis, gêneros não bináries, drag queens, drag kings, dentre outros (Lanz, 2015). Vale dizer que gênero não se confunde com a orientação afetivo e/ou sexual, isto é, com o direcionamento erótico e/ou romântico das pessoas.
Grande parte do imaginário social se organiza ao redor da crença de que somente existiriam duas possibilidades de gênero, opostas e excludentes entre si, isto é, pênis-homem-masculino e vulva-mulher-feminino (cisnormatividade), devendo a orientação afetivo e sexual dirigir-se exclusivamente para o gênero oposto ao do indivíduo (heteronormatividade). Assim sendo, encontramos na literatura o termo cisheteronormatividade para descrever esse fenômeno, por alinhar, em uma mesma equação, as normativas socialmente construídas entre corpo, gênero e desejo (Morera, 2017).
Na literatura psicanalítica, a transgeneridade é entendida de maneiras distintas, sendo importante lembrar que a psicanálise se constituiu, a partir de Freud, como um campo plural. Sob tal pluralidade, é possível reconhecer, segundo Greenberg e Mitchell (1994), a vigência de dois modelos de teorização psicanalítica, o pulsional e o relacional, o que, aliás, coincide com a duplicidade do texto freudiano pioneiramente apontado por Politzer (2004). Vale lembrar, entretanto, que essa coincidência não surpreende se lembrarmos que o fulcro dessa duplicidade paradigmática repousa sobre o posicionamento que os teóricos da psicanálise, que sucedem seu criador, assumem diante dos problemas epistemológicos colocados pela metapsicologia freudiana (Bianco, 2016; Mariguela, 2005).
De fato, ao iniciar seus estudos sobre a psicanálise, Politzer (2004) deu-se conta de que esta se estruturava de modo incoerente na medida em que teorizava, segundo uma epistemologia de caráter abstrato e positivista, sobre fenômenos que abordava como acontecer dramático que se constelavam no encontro clínico. Por essa razão, o filósofo veio a propor uma psicologia concreta, que suprimia a metapsicologia para atender às exigências de rigor epistemológico. Essa proposta motivou o aparecimento de outras, em duas direções: 1) uma que defendia a preservação da duplicidade, sob o argumento de que refletiria uma condição fenomênica, como fez Ricoeur (1977), fortalecendo tentativas de acomodação entre os modelos pulsional e relacional; e 2) outra que pregava uma reforma radical da metapsicologia à luz do estruturalismo e da linguística, tarefa de grande vulto que chegou efetivamente a ser cumprida por Jacques Lacan (Roudinesco, 2016). Como resultado, temos hoje um campo psicanalítico que encontra nos lacanianos, que são numerosos e expressivos em nosso país, provavelmente os mais consequentes e coerentes representantes do modelo pulsional. Por outro lado, aqueles que se valem do modelo relacional – entendendo que a metapsicologia freudiana, em seu estado original ou lacanianamente modificada, não deve ser aceita como baliza definidora do que é ou não considerado como autenticamente psicanalítico – compõem hoje a denominada abordagem psicanalítica relacional, cuja vocação é declaradamente plural e inclusiva.
Quando buscamos apurar o modo como a homossexualidade é vista pelo lacanismo, constatamos que os autores encaram-na como manifestação da estrutura perversa e/ou como defesa contra a psicose, enquanto a transgeneridade é considerada como fenômeno psicótico de negação da realidade. Nessa linha, a transgeneridade, bem como as teorias queer, seriam um verdadeiro perigo, já que ameaçariam a própria compreensão do humano subjacente à concepção psicanalítica do sujeito, vigente no campo lacaniano (Cunha, 2016). Tal visão pode ser melhor apreciada quando lembramos da importância outorgada ao registro simbólico, no qual a dimensão cultural se vincula à organização cisheteropatriarcal que é o Nome-do-Pai1, desqualificando tudo aquilo que a esse não se subordine – inclusive manifestações feministas.
Aqui, cabe lembrar que, na visão clássica freudiana, a sexualidade se encontra na origem de todos os quadros psicopatológicos: neuroses, perversões e psicoses. Dito de outra maneira, formas de expressão sexual, que não coincidem com práticas heterossexuais com finalidades procriativas, são consideradas patológicas. Como se vê, a psicanálise clássica esteve sob o signo da cisheteronormatividade desde seus primórdios, sendo importante destacar que o reconhecimento da sexualidade infantil e de outras formas de experiência de desejo não impediu que fossem de algum modo patologizadas, conforme aponta Silva (2021), em revisão da literatura psicanalítica sobre perversão e transgeneridade.
Dado seu caráter declaradamente inclusivo (Kuchuck, 2021), o modelo relacional abrange muitas iniciativas teóricas que guardam sempre certa afinidade com a escola britânica das relações objetais. Essas se referem a um conjunto de propostas que tem em comum não apenas o reconhecimento dos vínculos como base do existir humano, segundo uma visão antropológica que sustenta que, dadas as condições da vida humana, pessoalidades individuais e coletivas são movidas por motivações que extrapolam francamente os limites da sexualidade em geral e da sexualidade tal como se realiza sob a égide de normativas cisheteropatriarcais. A psicologia psicanalítica concreta, perspectiva teórico-metodológica que adotamos, deve ser incluída como proposta pioneira que se inscreve na chamada abordagem psicanalítica relacional (Liberman, 2014).
Não é difícil perceber que, dados seus fundamentos, a vertente relacional tem encontrado grande desenvolvimento na contemporaneidade, criticando visões psicanalíticas calcadas nas relações hierárquicas de gênero e, desse modo, revelando-se melhor preparada para dialogar com as importantes mudanças culturais que se fazem no sentido de um humanismo radical de caráter inclusivo que se posiciona contra o capitalismo cisheteropatriarcal. Pode parecer curioso, à primeira vista, que o modelo que não coloca a pulsionalidade sexual como base do psíquico se revele mais apto a compreender manifestações tais como a transgeneridade, no entanto, tudo se esclarece quando entendemos que as teorias pulsionais não são neutras e adotam uma visão do ser humano que, estando bastante ligada ao poderio geopolítico europeu, veio a ser contestada em muitas frentes.
Método
A pesquisa que realizamos organizou-se metodologicamente como investigação qualitativa com método psicanalítico à luz da psicologia psicanalítica concreta, referencial derivado das propostas de Politzer (2004); que foram retomadas e desenvolvidas por Bleger (1988, inscrevendo-se na abordagem psicanalítica relacional (, a partir de sua assunção de que o psiquismo se estrutura a partir dos vínculos e das interações inter-humanas, que são sempre diretamente impactadas pelos contextos macrossociais em que se inserem. A bem do cultivo de rigor e coerência, a psicologia psicanalítica concreta, a exemplo de outras abordagens relacionais, como a de , exige uma reformulação radical da ideia de inconsciente – que deixa de ser visto como instância psíquica individual para ser concebido como conjunto de campos intersubjetivos produzidos pelos atos humanos. Portanto, as interpretações psicanalíticas, nesse referencial, consistem na proposição de campos de sentido afetivo-emocional.
Considerando, com Herrmann (2001), que o método psicanalítico é uma forma geral de produção de conhecimento sobre sentidos afetivo-emocionais de atos humanos, entendemos que há necessidade de descrever os procedimentos investigativos tal como é operacionalizado nas pesquisas em que é utilizado. Adotando um esquema que segue a lógica da produção de conhecimento nas ciências humanas, distinguimos etapas do processo investigativo realizado em termos de procedimentos investigativos de produção, registro e interpretação do material de pesquisa (Ambrosio et al., 2013). Desse modo, chegamos às interpretações psicanalíticas em termos de criação/encontro de campos de sentido afetivo-emocional, que revisitaremos numa discussão que se desenvolverá sob forma de interlocuções reflexivas, ou seja, em próximo diálogo com autores que se ocuparam das questões humanas para as quais apontarem nossos resultados interpretativos.
Para cumprirmos o procedimento investigativo de produção do material de pesquisa, observamos os seguintes critérios de seleção dos vídeos: (a) estarem disponíveis no YouTube; (b) resultarem da busca que combina os termos trans e dificuldades, sem uso de aspas; (c) conterem relatos de pessoas autodeclaradas como transgêneras; (d) serem recentes, no sentido de que foram incluídos na plataforma a partir de 2015, ou seja, nos quatro últimos anos de realização da busca (abril/2019); (e) atenderem ao chamado critério de relevância da própria plataforma, isto é, selecionamos itens que foram organizados de modo decrescente, por algoritmos que consideram o número de visualizações, curtidas, comentários, inscritos do canal, palavras utilizadas na busca, dentre outros fatores (Briggs, 2018); (f) apresentaram progressivos sinais de saturação (Fontanella et al., 2008), indicando quantidade suficientemente expressiva de vídeos sobre o fenômeno pesquisado, aceitável para uma pesquisa qualitativa.
Conforme lembra Braga (2009), relatos sobre si, tal como ocorrem em diários e blogs, cumprem diferentes funções, como extravasar ou repreender angústias, registrar a própria história, comunicar-se com outrem ou buscar reconhecimento, envolvendo manifestações mais ou menos autênticas. Assim, consideramos os materiais disponíveis na internet, como os aqui utilizados, como manifestações de mesma natureza do que aquelas que obtemos por outras vias, por exemplo, em entrevistas psicológicas ou autobiografias. Estamos, nesses casos, diante de expressões individuais passíveis de serem psicologicamente compreendidas em termos de seus sentidos afetivo-emocionais, coincidindo, portanto, com o que de fato nos interessa. Não deixamos, evidentemente, de reconhecer que não são as mesmas as condições transferenciais em que ocorrem entrevistas de participantes, manifestações em blogs pessoais ou depoimentos sob forma de vídeos, uma vez que os usuários podem alcançar, dentro dos recursos advindos com a tecnologia, um número muito alto de pessoas, incluindo conhecidos e desconhecidos, de modo praticamente imediato. Contudo, estamos sempre, malgrado as diferenças, diante de pessoas que querem oferecer narrativas sobre as experiências que estão vivendo ou que já viveram. Assim, como psicólogos/psicanalistas, entendemos que ao estudar vídeos, que trazem narrativas do próprio viver, não estejamos diante de algo cuja natureza difere essencialmente daquilo que ouvimos numa entrevista ou numa sessão. Por outro lado, lembramos que, ao fazer uso de manifestações que nos chegam via internet, ampliamos nosso acesso a conteúdos que talvez não nos alcançassem de outras maneiras, o que pode ser proveitosamente utilizado na produção de conhecimento compreensivo sobre a conduta de indivíduos e coletivos humanos em pesquisas psicológicas (Schulte et al., 2016).
O procedimento investigativo de registro do material de pesquisa se deu pelo download e transcrição dos vídeos. Isso se fez indispensável, uma vez que os vídeos do YouTube podem tornar-se indisponíveis a qualquer momento sem aviso prévio.
Realizamos, então, o procedimento investigativo de interpretação do material de pesquisa, de modo coletivo, em reuniões do grupo de pesquisa, levando em conta que os campos de sentidos afetivo-emocionais podem manter-se predominantemente não-conscientes. Buscamos criá-los/encontrá-los, cultivando estado de atenção flutuante e livre associação de ideias (Laplanche & Pontalis, 1967) e deixando-nos guiar pelas palavras de ordem de Herrmann (2001, p, p. 40): “deixar que surja”, “tomar em consideração” e “completar a configuração do sentido afetivo-emocional emergente”. Dessa maneira, suspendemos conhecimentos prévios para nos colocar de modo aberto diante da possibilidade de sermos impactados afetivamente pelo material, com vistas a chegar à sua compreensão interpretativa.
Após finalizarmos a realização dos procedimentos investigativos, passamos às interlocuções reflexivas, seção usualmente denominada como discussão em outras pesquisas. Aqui, suspendemos o cultivo da atenção flutuante e da livre associação de ideias e passamos a buscar a produção de conhecimento dialógico e compreensivo sobre os campos de sentido afetivo-emocional, possibilitando tanto pensar sobre questões humanas contemporâneas, como subsidiar práticas psicoprofiláticas e psicoterapêuticas.
Resultados Interpretativos
A busca que realizamos na plataforma YouTube, segundo os critérios adotados, resultaram em um número total de 13 vídeos, a nosso ver suficiente para compor o material de pesquisa. Publicados entre 2015 e 2018, tais vídeos colocam-nos em contato com 25 pessoas que falam de suas vivências como transgêneras (Tabela 1).
Tabela 1 : Vídeos que compõem o material de pesquisa, organizados por ordem de aparecimento na plataforma YouTube
| Título dos vídeos | Canal no YouTube | Tipo de canal | Data de upload | Número de inscritos | Número de visualizações | Número de pessoas trans |
|---|---|---|---|---|---|---|
| [Alunos trans] Se sentindo isolado por ser trans, Theo não conseguiu voltar à escola. | Uol TAB | Canal informativo | 30/jul/18 | 35,2 mil | 24.366 | 1 não especificado |
| As dificuldades de ser um homem trans (início da transição). | FTM Pedro Franco | Canal pessoal | 27/jan/17 | 2,44 mil | 2.760 | 1 homem trans |
| Trans: os desafios de sermos quem somos (Transgêneros). | Telma Martes | Canal informativo | 09/mar/18 | 25 | 1.583 | 2 mulheres trans e 2 não especificados |
| Homem trans dificuldades. | Caio Silva | Canal pessoal | 16/mar/18 | 8 | 208 | 1 homem trans |
| Reportagem sobre a dificuldade de inserção de mulheres trans no mercado de trabalho. | Emerson Miranda | Canal informativo | 10/jul/17 | 51 | 7.133 | 1 mulher trans e 2 não especificados |
| É fácil trabalhar sendo homem trans? - Pergunte Às Bee 148 | Canal das Bee | Canal informativo | 23/jan/17 | 374 mil | 34.390 | 1 homem trans |
| Skarlett Ohara fala sobre dificuldade de conseguir emprego em ruy barbosa por ser trans. | Ruy Barbosa Noticias | Canal informativo | 11/jan/18 | 7,46 mil | 5.395 | 1 trans |
| Dificuldades da vida de uma pessoa travesti transexual no mercado lavorativo. | severi Larissa74 | Canal pessoal | 03/mai/18 | 25 | 2.119 | 1 travesti transexual |
| Transexuais falam sobre a dificuldade da cirurgia no sistema público de saúde | Metrópolis | Canal informativo | 09/set/15 | 730 mil | 3.621 | 5 não especificados |
| Fred Soter é homem trans e fala sobre as dificuldades no acesso à saúde. | Ministério da Saúde | Canal governamental | 12/abr/16 | 424 mil | 652 | 1 homem trans |
| Profissão Repórter (22-06-2016) - Jovens homossexuais e transexuais falam sobre suas dificuldades. | 2012 GSantos | Canal informativo | 04/jan/18 | 78,3 mil | 418.344 | 2 mulheres trans, 1 ex-travesti e 1 drag queen |
| Relacionamento com transexual - travesti Sabrina Velmonth. | Sabrina Velmonth | Canal pessoal | 07/abr/18 | 16,2 mil | 8.426 | 1 travesti / transexual |
| Dificuldades de um homem trans, por Tia Claudia. | Tia Claudia | Canal pessoal | 03/jun/16 | 145 | 463 | 1 homem trans |
Vale destacar que os canais são, em sua maioria, pessoais ou informativos, com número de inscritos (entre 8 e 730 mil) e número de visualização dos vídeos (entre 208 e 418.344) bastante diversos, na consulta realizada em novembro de 2021. Nem sempre as pessoas especificam como se identificam, dentre as diversas possibilidades de ser trans, nos vídeos. No entanto, de modo geral, há homens trans, mulheres trans, travestis, pessoas transexuais e uma drag queen2 no material de pesquisa. Recordamos também que o processo de construção dessas identidades é complexo e se entremeia com a realidade concreta, envolvendo a biografia pessoal, os contextos históricos e políticos, a relação com saberes/poderes jurídicos e médicos, o ativismo social e as políticas públicas (Carvalho, 2018). Portanto, trata-se de um fenômeno relacional, que ultrapassa os limites naturalizantes, individualizantes e/ou identitaristas, para se inserir em uma gama de relações macrossociais (Haider, 2019), que transcorrem na esfera do ser social (Lukács, 2013).
A consideração do material, à luz do método psicanalítico, na perspectiva da psicologia psicanalítica concreta, permite que façamos a proposição de dois campos de sentido afetivo-emocional: perverso e degenerado e ser ou não ser verdadeiro. Tais campos correspondem aos nossos resultados interpretativos e, como sabemos, definem-se como uma espécie de região ou mundo emocional que se configura ao redor de crenças, valores ou fantasias. Assim, uma boa definição, que denote apreensão de seus elementos fundamentais, será, forçosamente, breve e sucinta. Seguindo tal diretriz, então, elaboramos as definições que se seguem.
O primeiro campo de sentido afetivo-emocional, intitulado perverso e degenerado, é aquele que se organiza ao redor da crença ou fantasia de que a recusa de se conformar ao “sexo biológico”3 corresponde a uma forma de anormalidade moral, livremente escolhida pela pessoa. Como ilustração das condutas, presentes no nosso material de estudo, que podem ser consideradas como emergentes desse primeiro campo, citamos, por exemplo:
Então, minha vida toda, por ter sido criado nessa sociedade transfóbica, uma luta entre eu me aceitar, porque é difícil tu se aceitar, imagina toda uma sociedade falando que isso aqui é doença, isso aqui é errado, isso aqui não existe e tu é aquilo. Então, é uma luta mental muito grande, assim, que tu fica e porque tu acaba internalizando que ser trans, por exemplo, uma das coisas que eu acabei internalizando, sei lá, que ser trans é feio e que é errado e que as pessoas acham esquisito e esse tipo de coisa, eu acabei internalizando e até que, por sorte, eu consegui resolver isso na minha cabeça. (Vídeo 2)
Eu lembro que no colégio as pessoas olhavam para mim e me chamavam de menininha, de mulherzinha e tudo mais. Se eu ia falar com a diretora, ela falava ‘ué, se você não se vestisse/comportasse como mulher, talvez eles não te chamassem assim’. Mas eu não sabia que eu me comportava como mulher, eu era assim, nascido dessa forma, entendeu? (Vídeo 11)
Os meus pais são evangélicos muito rigorosos e eu não sabia como lidar com essa situação. Então é aquela questão: ‘você vai para o inferno’. Eu não acho que eu vou para o inferno. Não desdenhando a religião dos outros, mas essa foi a primeira coisa que vieram me dizer. Aí eu fiquei meio desnorteado e tal, colocaram essa dúvida na minha cabeça. Será? (Vídeo 13)
O segundo campo de sentido afetivo-emocional, intitulado ser ou não ser verdadeiro, é aquele que se organiza ao redor da crença ou fantasia de que é importante ser fiel ao próprio sentir. Para ilustrar que tipo de condutas, expressas nos vídeos que estudamos, podem ser consideradas como emergentes desse campo, citamos, por exemplo:
E você tá mostrando uma coisa que você escondeu por muito tempo pros outros. É quem eu sou agora, sabe, antes era uma máscara, parecia que eu estava o tempo inteiro de fantasia e aí tirar essa fantasia na frente de todo mundo é tipo ficar pelado na frente de alguém. (Vídeo 1)
Então finalmente eu consegui cortar o meu cabelo e aí eu consegui comprar roupas masculinas, que alívio enorme. (Vídeo 2)
Então imaginem só, tu é trans, ou seja, tu tá num ‘corpo errado’ e tu tem que olhar todos os dias para o espelho e ver uma imagem que não é tua. Não só tu vê uma imagem que não é tua, mas todo mundo também vê aquela imagem. Tu queria se mostrar para o mundo e não tem como porque ninguém te vê de verdade. (Vídeo 2)
Eu sempre fui, desde nova... Eu sempre soube o que eu queria ser, daí eu pensava ‘meu Deus, eu quero ser mulher, quero ser mulher, quero ser mulher, eu quero me vestir de mulher, eu quero ser quem eu sou’, entendeu?! (Vídeo 11)
Interlocuções Reflexivas
Uma vez definidos os campos de sentido afetivo-emocional, segundo um estilo minimalista, por meio do qual pretendemos destacar os aspectos essenciais das crenças imaginativas sobre aspectos da realidade humana, que aqui se encontram em jogo, passaremos a elaborar reflexões em próximo diálogo com contribuições que podem ampliar nossa compreensão da questão por nós estudada. Dividimos, assim, esta seção em duas partes, dedicadas aos resultados interpretativos acima mencionados.
“Perverso e degenerado”
Visando refletir criticamente sobre o primeiro campo de sentido afetivo-emocional, perverso e degenerado, em que as possibilidades que fogem às normas de gênero são consideradas anormais, valemo-nos das contribuições de Monique Wittig (2006). De acordo com a autora, a constituição do outro/diferente, por meio de binarismos como “ser homem” ou “ser mulher”, “ser cisgênero” ou “ser transgênero”, ocorre por meio de construções imaginativas sofisticadas que reinterpretam a realidade a partir de sistemas sociais e das relações de poder, apresentando-se como determinações naturais que mascaram seu caráter verdadeiramente político. Quando conseguimos compreender a realidade com acuidade, constatamos que é a opressão que cria o gênero e não o inverso.
Sendo assim, os conceitos acima mencionados, para Wittig (2006), são políticos, correspondendo a interpretações de uma situação histórica de dominação, que tem por função mascarar conflitos e interesses, inclusive ideológicos. Portanto, a sociedade cisheterossexual funda-se sobre a constante necessidade desse outro/diferente em todos os níveis, do qual precisa, em termos econômicos, simbólicos, linguísticos e políticos, para a sua manutenção. Desse modo, aquilo que organiza relações, equivalendo, de fato, a uma construção social, figura falsamente como fenômeno natural.
No entanto, a existência das pessoas transgêneras, em analogia do que Wittig (2006) pensa focalizando a condição de lésbicas, desnuda a produção política e ideológica das categorias “homens” e “mulheres” como “grupos naturais”. Em outras palavras:
Por um lado, está o mundo inteiro, com sua afirmação e suposição esmagadora da heterossexualidade como o-que-deveria-ser, e por outro lado há uma percepção fraca, fugitiva, às vezes brilhante e surpreendente da heterossexualidade como uma armadilha, como um regime político forçoso. É possível escapar disso. É um feito. (Wittig, 2006, p. 74, tradução nossa)
Quando tomamos tais considerações a partir da psicologia psicanalítica concreta (Bleger, 2007), percebemos que vigoram, no campo perverso e degenerado, crenças fantasiosas divalentes, que se expressam por meio da cisão esquizoparanóide, do outro como um “ser completamente bom” e um “ser completamente mau”. No caso das pessoas trans, ocorreria uma projeção direta do mal que as utiliza como depositários, ou seja, bom é ser cisgênero e heterossexual, o que coloca “ser trans”, no sentido de “não ser cishétero”, como algo perverso, como “ser completamente mau”. Ora, sendo o mundo dividido entre bons e maus, resta, como melhor opção, extirpar a maldade, de modo simbólico ou concreto. Trata-se sempre, em última instância, de produzir violências e assassinatos.
Poderíamos pensar, portanto, o primeiro campo de sentido afetivo-emocional, perverso e degenerado, como reflexo daquilo que Wittig (2006) descreveu sob o signo do “serás-hétero-ou-não-serás”, ou seja, como incapacidade de sociedades regidas pela cisheteronormatividade conceberem existências que rompem com essa normativa, relegando-as ao espaço do que poderíamos pensar como abjeto e degenerado – apontando para sofrimentos que têm sua raiz nas relações sociais que não se pautam no respeito ao humano. Desse modo, tal campo afasta a dissidência sexual do verdadeiro self, não a concebe como experiência humana que não se confunde com nenhuma forma de essencialismo. Ou ainda, conforme descreve Trevisan (2018, p. 42): “alguém que afirma uma incerteza, que abre espaço para a diferença e que se constitui em signo de contradição frente aos padrões de normalidade. Ou seja: trata-se do desejo enquanto devir e, portanto, como afirmação de uma identidade itinerante”.
“Ser ou não ser verdadeiro”
Convém, agora, refletir sobre o segundo campo de sentido afetivo-emocional interpretativamente produzido, na presente pesquisa, a partir da consideração psicanalítica dos vídeos estudados: ser ou não ser verdadeiro. Esse campo aponta para um conflito absolutamente nuclear, do ponto de vista existencial, indicando que está profundamente vinculado a uma forma radical de sofrimento emocional que, como sabemos, recebeu uma atenção significativa no pensamento winnicottiano.
Embora não tenha sido um autor inclinado a produzir textos sistemáticos, encontramos, em Winnicott (1988), uma visão psicopatológica bastante complexa e capaz de iluminar a compreensão de fenômenos que, ao que tudo indica, têm se tornado mais marcantes na contemporaneidade. Há um aspecto fundamental, em seus textos, ao qual Aiello-Vaisberg (2006) tem dedicado especial atenção que consiste no fato de conterem dois diferentes modelos psicopatológicos. Assim, podemos nele distinguir uma psicopatologia explícita, de caráter tripartite, que coincide, em termos gerais, com a adotada (praticamente) por todos os autores pós-freudianos, e uma psicopatologia implícita, que consiste numa teoria do sofrimento humano que tem lugar toda vez que a autenticidade pessoal se vê impossibilitada de realizar-se pela adoção de condutas submissas. Se para a primeira teoria o marco divisor entre saúde e doença é a manutenção ou perda do juízo de realidade, o que se encontra de fato em jogo, para a segunda, é a possibilidade de a pessoa sentir-se viva, real e capaz de gestualidade espontânea, pela qual pode tanto transformar-se como transformar o mundo em que vive (Aiello-Vaisberg, 2012).
Sentir-se real e verdadeiro é condição indispensável para um viver genuíno, pautado no verdadeiro self, concebido como lugar teórico de onde surge o gesto espontâneo, aquele por meio do qual a pessoa “torna-se si mesma”. O ser humano tenderia, naturalmente, para a espontaneidade, caso não fosse interrompido, na sua continuidade de ser, desde fora, pelo ambiente. Portanto, o grande obstáculo da realização do verdadeiro self seria ver-se invadido por um ambiente dominador que exige a submissão do indivíduo.
Desse modo, não causa espanto que Winnicott (1975 tenha dedicado atenção ao binômio dominação/submissão, abordado tanto no contexto da vida dos bebês, como no da vida de pacientes acometidos por angústias psicóticas, preocupando-se, contudo, em deixar pistas sobre sua importância ao longo da vida de todas as pessoas.
Na perspectiva winnicottiana de pensamento, quando a submissão tem lugar, antes da completa constituição do self, como unidade existencial relativamente separada, apresenta efeitos verdadeiramente devastadores, que promovem fragilidades propícias ao surgimento de angústias psicóticas e de agonias impensáveis (Winnicott, 1968). Entretanto, mesmo quando é vivenciada por alguém já constituído como self unitário, a submissão traz sempre prejuízos severos porque afeta a possibilidade da pessoa se sentir viva, real e capaz de gestualidade espontânea, tornando necessária a proteção cuidadora do falso self. Podemos aqui lembrar que:
(...) toda vez que o sentido de continuidade de ser de alguém é interrompido, vale dizer, que sua possibilidade de estar presente à própria experiência é barrada, há possibilidade de uma retirada de si, enquanto o falso self assume o prosseguimento aparente da vida. Este falso self pode enganar a todos, inclusive a própria pessoa, e isto pode parecer eficaz durante muito tempo. (Aiello-Vaisberg, 2002, p. 12)
As noções de falso e verdadeiro selves foram cunhadas para referir o modo como os próprios pacientes comunicavam as experiências que viviam para Winnicott (1983). Em outros termos, o psicanalista aprendeu, com aqueles que atendeu, que se sentiam falsos e não autênticos, mas aspiravam por uma outra condição em que poderiam sentir-se verdadeiros. Aqui é fundamental notar que a autenticidade só pode ser prejudicada, na perspectiva winnicottiana, pelo ambiente que, sendo opressor, impede a espontaneidade pessoal.
Não nos parece difícil perceber que o campo de sentido afetivo-emocional ser ou não ser verdadeiro, que propusemos interpretativamente na presente pesquisa, a partir da consideração psicanalítica dos vídeos, indica que as pessoas transgêneras vivenciam um conflito entre seu sentimento de si mesma quanto às (im)possibilidades de gênero, visto aquilo que lhes foi e continua sendo designado desde fora, pelo outro. Seu drama gira, portanto, ao redor da possibilidade de submeter-se às normas de gênero, vividas como profundamente invasivas, com a finalidade de agradar aos demais, ou rebelar-se para afirmar seu sentir, perdendo amor, aprovação, respeito e reconhecimento, para se tornar alvo de ódio e violência, o que se justifica por meio das crenças ao redor das quais se organiza o primeiro campo proposto, isto é, perverso e degenerado.
Na perspectiva winnicottiana, a sensação de ser falso apresenta efeito verdadeiramente corrosivo, em termos afetivo-emocionais, trazendo um desconforto persistente e desesperante. Entendemos que viver sob a primazia do parecer, isto é, do gênero designado ao nascimento, ao invés do sentir-se, corresponde a uma carga emocional extremamente penosa até porque à inautenticidade vivida se acrescenta a impressão de estar atraído por algo nefasto, já que a cisheteronormatividade surge para todos como condição única e desejável. Por outro lado, afirmar o seu sentir e tornar-se alvo de preconceitos extremados que, em última instância, visam o banimento e até mesmo o extermínio daqueles que não se conformam às normas de gênero vigentes, coloca a pessoa num lugar bastante sofrido, alvo de ataques despersonalizantes (Aiello-Vaisberg, 2017).
Assim, nossos resultados interpretativos apontam para uma configuração bastante interessante na medida em que a referência ao nascimento coloca nesse evento o poder de portar uma verdade. Contudo, não podemos deixar de notar que, no material, tal verdade é nitidamente vinculada não apenas ao “parecer”, mas ao “ser” do bebê, enquanto algo que poderíamos denominar, inspirados em Winnicott (1975), como potencial herdado de pertencimento à condição humana. Em outras palavras, quando falamos em gênero designado, este seria designado pelo outro, tendo relação com o “parecer”. Diante de tal configuração, podemos afirmar que a sociedade em que vivemos se organiza segundo uma crença de que o “parecer” corresponde ao “ser” da pessoa, simplificando a realidade complexa em que isso nem sempre se dá dessa maneira.
No pensamento ocidental, esse “parecer” se impõe – justificado como da ordem do biológico – considerado “mais real e mais concreto” do que o vívido – daí os mitos da pessoa natural, abstrata e isolada a serem superados, segundo Bleger (2007). Em outros termos, o gênero designado é supostamente uma leitura objetiva da condição biológica (e real) da criança. Como se pode ver, há todo um caminho imaginativo cursado para que o gênero designado seja tido como “gênero real” da pessoa, prática inteiramente de acordo com o positivismo objetivante e simplificador da realidade. Portanto, nesse cenário, a pessoa transgênera deve lutar, seja para impor um “ser” que transborda a regra, seja para sufocar o seu próprio sentir/ser.
Ao analisarmos as crenças supracitadas, percebemos que essas são da esfera humana, da ontologia do ser social (Lukács, 2013), mas transvestidas como normas naturais, sobretudo por meio do uso ideológico da biologia. Quando tomamos a realidade de modo crítico, perceberemos que a dissidência não se confunde, de modo algum, com a anormalidade ou patologia. Ao contrário, para nós, a cisheteronormatividade seria patológica, uma vez que apresenta efeito corrosivo, nocivo e adoecedor na vida das pessoas.
Considerações Finais
Enfim, lembremos que quando realizamos a busca dos vídeos estudados, atendendo ao procedimento investigativo de produção do material de pesquisa, usamos, como termos de busca, trans e dificuldades. Desse modo, pudemos nos inteirar acerca dos tipos de dificuldades que despontam no campo da consciência daqueles que contavam, nos vídeos, acerca de sua experiência vivida. Seriam essas: dificuldades nas relações familiares, nas relações amorosas, na escola, no trabalho, na vida cotidiana, no sistema de saúde, na segurança pessoal, na relação com o próprio corpo e sensação de falsidade pessoal. Tais dificuldades ganham inteligibilidade quando produzimos interpretativamente os campos de sentido afetivo-emocional, intersubjetivamente criados e mantidos, que são: perverso e degenerado e ser ou não ser verdadeiro. Esses dois campos são antagônicos entre si, na medida em que um deles deriva diretamente das normas hierárquicas de gênero, perfazendo a transgeneridade como uma das formas degradadas de ser, diante da supremacia cisheteronormativa, enquanto o outro corresponde a uma forma de valorização da individualidade, do sentir e da capacidade humana de criar o novo para além da esfera orgânica do ser (Lukács, 2013).
Tomando o pensamento de Wittig (2006), esperamos ter demonstrado como os problemas “subjetivos”, “individuais” e “privados” das pessoas transgêneras são, na verdade, socialmente determinados, demarcando uma instituição social violenta e opressiva, permeada por interesses ideológicos. Portanto, o quadro geral aponta para grupos dominantes que, por meio de ataques despersonalizantes e das normas sociais, visam criar um campo que ameaça a existência individual daqueles que não se submetem ao que a autora descreveria como “serás-hétero-ou-não-serás”, pois essa seria uma condição necessária para a manutenção da existência e privilégios dos primeiros.
Tomando a teoria winnicottiana, por sua vez, cremos ter sido possível refletir acerca da submissão às normas de gênero e como essa incide sobre o potencial criativo e espontâneo, impactando a saúde mental, o que afetaria a todas as pessoas, inclusive as que se constituem em termos cisheteronormativos. Justificamos isso porque os efeitos nocivos das invasões ambientais incidem sobre o fato que a “normalidade” também pode ser vivida como algo patológico, não passando de submissão às normas, o que não deve ser confundido com sanidade, estado no qual se preservaria a autenticidade e a liberdade (Cooper, 1985). Logo, uma pessoa pode “parecer” saudável, quando é apenas “normal”, ou ter suas condutas norteadas pela sua própria criatividade, sendo uma sexualidade sadia e “brincante”, para usar um termo winnicottiano, mais próxima desse segundo caso.
Desse modo, esperamos contribuir para uma melhor compreensão dos efeitos despersonalizantes das normas, pois ao se exigir submissão a essas, caso contrário você “não será”, nos colocamos diante de uma aguda percepção de ameaça do ser. Disso, decorrem sofrimentos, que se articulam às condições sociais – aqui, vimos a expressão dessa problemática humana na esfera do gênero, contudo trata-se de uma condição muito ampla que nos ensina sobre condições similares.
Assim, percebemos, com este estudo, a importância de reconhecer e valorizar o outro em suas singularidades e em sua diversidade, mas atentos para não incorrermos a algum tipo de essencialismo, pois não devemos nos descuidar do social. Ainda que estejamos falando de sofrimentos socialmente determinados, uma vez que as normas são da esfera da ontologia social (Lukács, 2013), lembramos que também é dessa que decorre a possibilidade de transformação, de criação, do novo – e, portanto, da diversidade.
Sobre tais mudanças, relembramos uma prerrogativa básica e fundamental da psicologia psicanalítica concreta: a de que tudo o que existe, no mundo humano, é produto dos atos humanos (Bleger, 2007). Por conseguinte, cabe a nós, como indivíduos e sociedade, a luta por melhores condições de vida para todas as pessoas, isto é, o protagonismo desse processo. Assim, finalizamos com um convite, ou melhor, uma provocação, presente também em Wittig (2006, p. 29, tradução nossa): afinal, “o que estamos esperando?”.










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