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versão impressa ISSN 2359-0769versão On-line ISSN 2359-0777

Rev. Subj. vol.22 no.2 Fortaleza  2022  Epub 05-Dez-2025

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v22i2.e11490 

Resenhas de Livros

A PROPOSTA PSICOEDUCATIVA: UM RECURSO À PSICANÁLISE FRENTE AS IMPLICAÇÕES CAPITALISTAS ATUAIS?

The Psychoeducational Proposal: A Recourse to Psychoanalysis Facing Current Capitalist Implications?

La Propuesta Psico-educativa: ¿Un Recurso al Psicoanálisis Ante las implicaciones Capitalistas Actuales?

Le Projet Psycho-Éducatif : Une Ressource à la Psychanalyse Devant les Implications Capitalistes Actuelles ?

1Psicanalista. Psicólogo. Doutor pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP). Pós-Doutorando (IPUSP). Pesquisador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (LATESFIP-USP). Membro do Ambulatório Generidades (AGE).


Resumo

Trata-se da resenha do livro Žižek in the clinic: a revolucionary proposal for a new endgame in psychoterapy. Seu autor, Eliot Rosenstock, considera que os preceitos do capitalismo atual e da lógica do mercado moldam as práticas clínicas comportamentais e engendram a indústria da psicoterapia. Como reação, o autor propõe a estratégia da psicoeducação, munido das contribuições que Slavoj Žižek traz para a psicanálise. A intenção seria desalienar o sujeito contemporâneo imerso no modelo neoliberal e desarticular as proposições psicoterapêuticas condizentes a ele. O livro convida à reflexão crítica sobre renovações clínicas compelidas pelo nosso cenário político e econômico.

Palavras-Chave: Žižek; psicoterapia; psicanálise; capitalismo; psicoeducação

Abstract

That is a review of the book Žižek in the clinic: a revolutionary proposal for a new endgame in psychoterapy. Its author, Eliot Rosenstock, considers that the precepts of current capitalism and the logic of the market shape clinical behavioral practices and generate the psychotherapy industry. As a reaction, the author proposes the psychoeducation strategy, from the contributions that Slavoj Žižek brings to psychoanalysis. The intention would be to de-alienate the contemporary subject subordinated to the neoliberal model and to dismantle the psychotherapeutic propositions consistent with it. The book invites critical reflection on clinical renewals induced by our political and economic context.

Key words: Žižek; psychotherapy; psychoanalysis; capitalism; psychoeducation

Resumen

Se refiere a la reseña del libro Žižek in the clinic: a revolucionary proposal for a new endgame in psychoterapy. Su autor, Eliot Rosenstock, considera que Los preceptos del capitalismo actual y de la lógica del mercado moldan las prácticas clínicas conductuales y engendran la industria de la psicoterapia. Como reacción, el autor propone la estrategia de la psico-educación, provisto de las contribuciones que Slavoj Žižek trae para el psicoanálisis. La intención sería quitar el enajenamiento del sujeto contemporáneo inmerso en el modelo neoliberal y desarticular las proposiciones psicoterapéuticas coherentes a él. El libro invita para una reflexión crítica sobre renovaciones clínicas obligadas por nuestro escenario político y económico.

Palabras-clave: Žižek; psicoterapia; psicoanálisis; capitalismo; psico-educación

Resumé

Ceci est une critique du livre Žižek in the clinic: a revolutionary proposal for a new endgame in psychoterapy.Son auteur, Eliot Rosenstock, estime que les préceptes du capitalisme actuel et de la logique du marché affectent les pratiques cliniques de la thérapie comportementale et engendrent l’industrie de la psychothérapie. En réaction, l’auteur propose la stratégie de la psychoéducation, dotée des contributions que Slavoj Žižek apporte à la psychanalyse. L’intention serait de désaliéner le sujet contemporain soumis au modèle néolibéral et de démanteler les propositions psychothérapeutiques qui lui sont correspondant. Le livre invite à une réflexion critique sur les renouvellements cliniques motivés par notre scénario politique et économique.

Key words: Žižek; psychothérapie; psychanalyse; capitalisme; psychoéducation

No contexto anglo-saxão, em que a indústria da psicoterapia desponta aliada à discursividade mercadológica, muito se questiona as práticas terapêuticas que supostamente anunciariam ou divulgariam sua clínica – métodos e objetivos – sob os preceitos da propagada – eficácia do mundo capitalista. O compromisso assumido de eliminar os sintomas seria outra versão para o acesso ao bem-estar e à felicidade, reputados índices de saúde mental. Tais práticas psicoterápicas seriam mais um produto vinculado pelo mercado, adaptadas à engrenagem neoliberal, e contando com a alienação do sujeito. Levando-se em conta tal conjuntura, como a psicanálise poderia se posicionar, tanto com relação ao nível tático da clínica – o que se passa entre psicanalista e psicanalisante – quanto em âmbito político, no que tange o discurso psicanalítico enquanto fenômeno cultural e o espaço que lhe é destinado, por exemplo, no universo dos planos de saúde? Permaneceríamos indiferentes às novidades contemporâneas – como as alegadas subjetividades pós-modernas e as inéditas relações interpessoais formatadas pela especificidade do código capitalista – e ao impacto que provocam na esfera das psicoterapias, ou a psicanálise deveria tê-las em vista e rever seus procedimentos clínicos e reformular sua técnica? Deveria repensar como veicula publicamente seu discurso, nortear-se pelos parâmetros do capitalismo atual e “falar a lei do mercado” como forma de se manter viva ou insistir na intocável pureza da sua enunciação, correndo o risco de se fazer ouvir somente dentro dos muros de suas escolas?

Assim, foi incitado por tais questões que, em 2019, Eliot Rosenstock publica Žižek in the clinic: A revolucionary proposal for a new endgame in psychoterapy, editado pela Zero Books. Na página on-line desta editora1, Rosenstock é descrito como um filósofo e psicoterapeuta zizekiano de Los Angeles, editor sênior da revista The Young Freudians, uma revista experimental de filosofia e psicologia destinada a novas ideias – da terapia psicodinâmica à eco- teoria. Se o autor de Žižek in the clinic assume referenciais das abordagens dialéticas atuais da psicoterapia, também propõe, recorrendo a Lacan, Hegel e Žižek, a criação, no processo de análise, de um algoritmo cognitivo – uma inovação tática – que o cliente poderia passar a aplicar em eventos da sua vida cotidiana. Tal algoritmo funcionaria como um novo ponto de fuga; como outro ponto na tela através da qual o pintor organiza o ângulo da paisagem ou do panorama – daí fazer referência à paralaxe e ao modo que Žižek (2008) a incorpora à psicanálise. Segundo Rosenstock, o novo ponto de fuga é isso: uma pessoa psicoeducada com algum nível de insight sobre seu próprio modo de funcionamento, com um processo de reposta algorítmica para responder a eventos tanto em um microcosmo individual quanto em nível sistêmico. O objetivo é ajudar a assumirem uma posição que lhes permita suportar a turbulência emocional que o impacto do mercado capitalista global contemporâneo promove na psique, fornecendo aos sujeitos instrumentos para que possam enfrentar a realidade atual (Rosenstock, 2019, p. 1).

O autor considera, assim como Lacan certa vez teria falado ou dissertado a certos pacientes psicóticos em uma igreja, que este tipo de intuição clínica deveria ser utilizado na psicoterapia lacaniana contemporânea. Lacan teria notado que tais pacientes “precisavam de conhecimento, e que para tanto ele deveria se colocar no discurso universitário; que ele deveria atuar como alguém que informasse” (Rosenstock, 2019, p. 2) – mas, furtando-se do lugar do saber que se confunde com responder às demandas do paciente ou orientando sua conduta desde o posto de mestre.

Rosenstock afirma:

Žižek faz uso de Lacan em uma época que ele perdeu a era das condições de hiperinformação da internet. A natureza do virtual assumiu outro significado além do símbolo; o virtual agora tem seu próprio plano de existência, reconhecido publicamente como realidade virtual. Se essa nova condição material for ignorada, novos desenvolvimentos na teoria lacaniana serão perdidos. (Rosenstock, 2019, p. 20)

Nesse sentido, Žižek não pode ser ignorado. O filósofo esloveno atualizaria o lacanismo: enriqueceria suas bases teóricas e orientações práticas ao se debruçar sobre a aparelhagem tecnocapitalista sem precedentes que regem o nosso cenário social. Žižek não só combinaria a discursividade lacaniana com os meandros da comunicação de hoje como permitiria se considerar uma renovação epistemológica.

“Psicoeducação” é um termo que Rosenstock traz para o meio psicanalítico; seria o nome de uma estratégia clínica que congregaria determinados acréscimos táticos. Sua implantação objetivaria criar no paciente certas condições, no caso, um savoir que lhe permitisse lidar, a seu modo, com as informações contaminadas pelo capital em nossa esfera techno recente. A perversão intrínseca à disseminação de tais informações prevê a manipulação do desejo, fazendo com que desejo seja sinônimo de “desejar mais” – o desejo, que não pode ser satisfeito por fenômenos positivos, de certa forma seria substancializado num infindável “além” ou “excesso”. Na esteira deste pensamento, em uma possível ilação clínica, Rosenstock indaga: “Como é que um terapeuta deve abordar um sujeito cujo medo da mais-valia esteja ligado a todos os seus objetos intrapsíquicos de que ele gosta ou deseja? A aplicação desta teoria não foi totalmente esclarecida por Lacan” (Rosenstock, 2019, p. 57).

Passemos a dois exemplos de intervenção psicoeducacional – um que apresenta o nível estratégico, e outro que põe o tático em destaque.

O que há por trás da cena de um filme ou propaganda de televisão em que um homem comum agarra firmemente o volante do carro, e com um sorriso maroto, sai guiando? Não seria tanto a mensagem de que se deve comprar este veículo, mas sim que guiar carros – ou truks, para fazendeiros; ou minivans, para a classe trabalhadora –, permite gozar; identificar-se e ter-se reconhecido como bem-sucedido. A estratégia clínica proposta levaria a conhecer o funcionamento e os objetivos da máquina de exploração capitalista que se atrela ao universo publicitário; de como o sujeito alienadamente é capturado por tal mecanismo; como o tecnocapital abocanha nossas pulsões. Rosenstock (2019, p. 21) coloca: “O sistema que proponho cria um ponto final para o cliente, na medida em que permite discernir por si mesmo como interagir com novos estímulos, dando a ele novos olhos para abordar de maneira zizekiana a natureza do evento”. À frente: “O ponto de fuga de Žižek é necessário para romper os transes induzidos por forças que exploram o sujeito, como a publicidade algorítmica, que sustenta a ilusão de facilidade, naturalidade e a sedução de se tornar o Mestre” (Rosenstock, 2019, p 26).

O segundo exemplo ilustra com mais clareza o nível tático da clínica sugerida pelo autor. Assim, como forma de descobrir como o paciente lida com as dinâmicas de poder, Rosenstock propõe a ele um instrumento, um questionário, no qual uma peça do jogo de xadrez indaga a outra: “o que o cavalo disse para o bispo”, por exemplo, e prossegue assim nas suas mais diversas combinações. Uma vez que a estrutura das relações de poder é acessada, “uma dialética entre o consciente e o inconsciente do cliente pode ser examinada com a ajuda do terapeuta” (Rosenstock, 2019, p. 32). Depois de entender como se dá o jogo de forças entre as peças e como ele é refletido na vida afora, paciente e terapeuta poderiam ajustá-lo de maneira precisa.

Mas a batalha que Rosenstock trava não é com o lacanismo “tradicional”. Ele aponta que o analista deve continuar acompanhando a cadeia significante do paciente e se aplicar ao campo do desejo inconsciente – o autor chega até a recorrer inalteravelmente à teoria dos nós e à noção de sinthome, ingredientes do último ensino de Lacan, na tentativa de formalizar seus argumentos. Rosenstock não propõe inovações no setting ou no enquadre analítico, no manejo do tempo ou do pagamento; não convida a uma revisão da diagnóstica estrutural lacaniana nem advoga pelo parto de um novo sujeito, tal como a psicanálise vigente de Jacques-Alain Miller. Ele assume como antagonista a terapia comportamental.

Se no processo de uma análise, o analista ocupa o lugar do sujeito suposto saber, na terapia comportamental, a ambiguidade quanto a esta posição, segundo o autor, não existira. Se tal modalidade terapêutica nega ou desconsidera o inconsciente, a visão hegeliana de Lacan, para Rosenstock, valoriza a relação dialética inconsciente-consciente. Logo, há uma diferença crucial quanto ao papel do conhecimento ou do saber na proposta psicoeducativa de Rosenstock, com relação às pretensões da terapia comportamental. Segundo ele, nós não podemos saber “o que” sem antes descobrimos o “porquê”. E este “porquê” evolve conhecer tanto aspectos do mundo atual – funcionamento do mercado e estratégias neoliberais — quanto como nosso psiquismo opera; o que o conhecimento pode nos proporcionar (e o que não pode); e a negatividade implícita que particulariza a mecânica de nossas atividades mentais, para assim termos meios de processar novas informações. O acesso ao conhecimento propiciado pela técnica comportamentalista seria pouco extenso; não atingiria o saber inconsciente em jogo na dinâmica psíquica e sua interface com nosso contexto socioeconômico. Rosenstock observa que

(...) tanto Žižek quanto os primeiros hegelianos sugerem algum tipo de estado que está além e dentro da realidade, tanto uma fuga quanto um hiper-exame, que permite algum tipo de devir que, se não escapa à ideologia, pelo menos em algum sentido nos deixa advertidos. (Rosenstock, 2019, pp. 7-8)

A ideia é se voltar contra a ingênua promessa comportamentalista de autoconhecimento curativo; ou que uma visão mais humana ou positiva deveria embasar a técnica clínica. No fundo, é como se a proposta psicoterápica comportamental, na ótica do autor, também fosse adequada à lógica do mercado. Essa categoria psicoterápica se “venderia” assim como mais efetiva ou eficaz; estruturaria seus enunciados de forma elementar, alastrando suas metas – esvaziamento de determinado afeto ou abatimento do sintoma – de jeito a serem facilmente comercializáveis.

Para fornecer assistência ao paciente, preços supostamente acessíveis e envolvimento de seguros públicos e privados, a indústria de terapia moderna atrela o sintoma a modalidades cognitivas que podem ser explicadas passo a passo, com o maior número possível de estatísticas que comprovam que o método funciona. (Rosenstock, 2019, p. 66)

O grande desafio, de acordo com Rosenstock, seria relativizar a análise dos resultados ou avaliar o sucesso do processo psicoterápico para além da redução dos sintomas. Como sustentar a eficácia de um trabalho como o psicanalítico, que divulga não atender a demanda do outro, que frustra o saber constituído, não predetermina o número de sessões necessárias para ao tratamento, não sistematiza na linguagem comum de “onde se parte”, “onde se vai chegar” e em quanto tempo? Como sustentar a eficácia de um trabalho que não embasa sua clínica em argumentos imediatamente compreensíveis para a comunidade e para as companhias de seguro – ou seja, que se pauta em uma indeterminação antimercadológica? Desse modo fica a dúvida sobre como justificar que se invista financeiramente no processo analítico se ele se fundamenta na natureza ambígua da psique e absorve a dimensão da compulsão à repetição e do conflito como partes da experiência ao invés de se propor soterrá-la – isto é, o trabalho psicanalítico conta justamente com o que deve ser descartado como o que atrapalha a produtividade. Neste ponto também entraria a vantagem do estilo psicoeducativo – oportuno tanto nos atendimentos clínicos quanto no trato com colegas e com a indústria. A psicoeducação favoreceria a comunicação, inclusive, permitindo defender a efetividade da operação psicanalítica à medida que denuncia a estratégia oculta do capitalismo que só dá inteligibilidade ao que se adéqua a ele.

Assim, se no início do processo psicoterapêutico, o ganho de gozo estaria atrelado a um saber aplacar o sintoma – sustentado pelo terapeuta e “comprado” pelo paciente –, com a psicoeducação, o gozo adviria da própria destruição deste saber, e da aquisição de um novo: “uma topologia hegeliana-lacaniana é mapeada e o cliente pode perceber que algo entrou no eixo (click into place), como se de repente tivesse se dado conta de um caminho a seguir” (Rosenstock, 2019, p. 4).

Para formalizar esta passagem, Rosenstock cria um algoritmo. Um matema pode ser atribuído à relação terapêutica e ao sucesso do tratamento: o terapeuta é designado como zero / vazio {ø} e o cliente como um {1}. O zero é uma referência ao vazio da teoria dos conjuntos – ø simboliza o vazio do terapeuta: presume-se que ele tenha “acesso zero” ao mundo interno do cliente.

O estado inicial da terapia pode ser denotado por {ø> 1}. O terapeuta representa um excesso de conhecimento narcisicamente refletido; é percebido como sujeito suposto saber. Dessa forma, assume uma espécie de qualidade transcendental, dada sua suposta capacidade de conduzir o tratamento. A marcha terapêutica deve, então, ter como objetivo {1> ø} – o cliente ultrapassar essa “dimensão religiosa” e elevar-se a um conhecimento material de si mesmo.

O curso transformador da terapia não seria atingido através da mera consideração positiva e da construção do “bom” relacionamento terapêutico, pois assim o terapeuta permaneceria um objeto contínuo de apego e, portanto, a fase de {ø> 1} nunca seria totalmente transcendida. O terapeuta, ao inverter a direção do saber, ativa as propriedades destrutivas do gozo; o cliente passa a desordenar-se e novas perspectivas quanto ao saber, junto ao gozo, despontam.

Se ao longo do processo {ø> 1} se transforma em {1> ø}, há entre os dois {>}, a terapia, que deve ter certas qualidades formais.

Neste quesito, o problema com a terapia comportamental seria, para Rosenstock, que ela apenas estabeleceria uma conotação; que só pretenderia imputar um conhecimento egoico no cliente. O terapeuta comportamental é sempre o coordenador da experiência, proprietário das ferramentas oferecidas ao cliente, que passivamente adota-se no intuito de melhor regular seu estado emocional. Assim, isto deixa por cumprir as propriedades da terapia, que constitui a dialética entre cliente e analista; a terapia e o Outro. A terapia fornece ao cliente o conhecimento algorítmico de si mesmo como sujeito – que Rosenstock chama de conhecimento simbólico –, viabilizando processar novos eventos e situações por conta própria. Desse modo, tal programa clínico, segundo o autor (2019, p. 82), também traria benefícios ao processo terapêutico psicanalítico.

Por fim, Rosenstock considera que o exame a respeito da liberdade, o reconhecimento da dialética integração-desintegração, alteridade-diferença colaboram tanto para se pensar a economia sociomaterial quanto a economia libidinal – pois no nosso estado do capitalismo, relacionar-se com a alteridade seria relacionar-se consigo próprio. A autoconsciência nos dá um senso de identidade, o que permitiria a ilusão fomentada pela sociedade contemporânea de fusão entre o que se é para si e o que se é para o outro. É como se as referências simbólicas fossem precárias, enquanto as imaginárias vigoram – neste sentido, Rosenstock (2019, p. 86) considera que o campo psíquico deveria ser vertido a um ser-para-nada. Em outros termos, em face da sedução identitária que nos é imposta, temos de admitir que no fundo há uma profunda e irremediável cisão no eu, que exteriorizamos naquela parcela eu-ideal como abjeto – e que Žižek colocaria como pulsão de morte.

Nosso campo do desejo aponta para a falta, e não para a autoidentificação. Logo, o processo de individuação – e uma liberdade condizente a ele –, como tal é impossível. O algoritmo proposto numa perspectiva zizekiana serviria como certa barreira contra o movimento do capitalismo que fomenta a tendência a nos autoproclamarmos a autoridade de indivíduo, ou de herói individual.

Se o uso potencial da psicoeducação é polêmico enquanto artifício a contribuir para o tratamento psicanalítico – inclusive, desconfia-se mesmo se este tipo de proposta tática que se quer pautada em certa pedagogia não seria contra a psicanálise –, por outro lado, não há como não reconhecer a contribuição e a coragem de Rosenstock, ao denunciar que as mudanças do mundo contemporâneo, notadamente reconfigurado pelo mercado e pelo que veio a ser denominado como “capitalismo tardio”, afeta tanto as relações interpessoais quanto a indústria da psicoterapia. O que nos leva a pensar, provocados pelo autor: como a psicanálise deve se posicionar, dentro e fora do setting analítico, a partir de então? Que postura adotar frente as reformas neoliberais; que tipo de inserção queremos?

Referências

Rosenstock, E. (2019). Žižek in the clinic: A revolucionary proposal for a new endgame in psychoterapy. Zero books. [ Links ]

Žižek, S. (2008). A visão em paralaxe. Boitempo. [ Links ]

Recebido: 14 de Agosto de 2020; Revisado: 29 de Junho de 2021; Aceito: 24 de Julho de 2021; Publicado: 30 de Agosto de 2022

Endereço para correspondência: Rafael Kalaf Cossi E-mail: rkcossi@hotmail.com

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