A prática da autolesão, que consiste em autoinfligir cortes ou outros tipos de escarificações ao próprio corpo, vem crescendo na contemporaneidade, principalmente entre adolescentes que, muitas vezes, veem tais atos como único recurso frente à angústia e ao desamparo que os atingem durante o “adolescer” (Saggese, 2015). Esse processo, que diz respeito à passagem do universo infantil para o mundo social mais amplo e implica a separação das figuras parentais, é vivido por alguns jovens com intenso sofrimento. Na atualidade, como tem sido discutido por vários autores (Birman, 2012; Fortes & Macedo, 2017; Le Breton, 2010), constata-se que a experiência da adolescência tem sido atravessada por intensos sentimentos de solidão, desamparo e uma dor de existir cujo excesso se alivia (momentaneamente) pela dor física do corte.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui a autolesão no contexto da violência autoinfligida, correspondendo ao uso intencional de força física real ou de ameaça contra si próprio (OMS, 2015). Em termos mundiais, constata-se que cerca de 10% dos adolescentes entre 10 e 14 anos praticam a autolesão, mas não há dados suficientes sobre isso especificamente no Brasil (Fonseca et al., 2018).
As autolesões e, mais especificamente, os cortes, porém, são diferentemente interpretados pelos vários autores que teorizam a respeito, o que reforça a importância da análise da temática na singularidade de cada caso. Por esse motivo, optamos aqui por trabalhar essa temática a partir de um estudo de caso de uma menina de 13 anos que aqui chamaremos ficticiamente – assim como todos os outros nomes que aqui utilizaremos – de Maria Eduarda, a partir do qual as reflexões que se seguem começaram a se delinear em torno da temática da autolesão. Nesse caso, o que mais chama atenção são as demandas incessantes feitas por Maria Eduarda pela atenção de seus pais, as quais ao longo dos atendimentos foram se desdobrando como um apelo ao Outro, por olhar e escuta. Com isso, nota-se que, no bojo das questões da menina, encontram-se suas questões familiares, que repercutem centralmente na sua relação com o desejo do Outro.
Sabendo que é fundamental interrogarmos sobre o lugar e a função do caso clínico num trabalho de pesquisa em psicanálise, nos dedicaremos por um momento ao melhor delineamento da metodologia.
Considerações Metodológicas
Sabemos que, na obra freudiana, o estudo de casos clínicos possuiu um lugar fundamental, já que foi a partir de sua escrita que foi possível constituir o campo psicanalítico, fundar sua teoria e possibilitar sua transmissão. Essa, por sua vez, só se sustenta nas singularidades dos casos e no trabalho com esse singular que Freud tenta transmitir através de seus escritos. A transmissão, assim, é um dos fundamentos da escrita de casos e da importância da pesquisa em psicanálise, na qual é preciso ser afetado por sua discursividade, incluir-se como autor na sua produção.
É nesse sentido que, como marca Poli (2008, p. 171), a pesquisa na psicanálise não visa comprovar o que já se sabe, mas testemunhar um encontro com o real, com o ponto que resiste ao saber na experiência e só pode operar pela via da transmissão que é a transferência. Assim, quando se faz uma pesquisa em psicanálise a partir de uma prática clínica, a questão que a orienta não está posta desde o início, mas é uma construção que só pode se elaborar a posteriori a partir da transferência. É no contexto dessa que a transmissão pode se dar e fazer avançar a teoria.
Hoje não mais escrevemos como Freud para fundar um campo, mas para fazer avançar a psicanálise. O tripé norteador aqui é o “da intervenção, produção e investigação desse particular objeto que é o sujeito do inconsciente” (Costa & Poli, 2006, p. 15), sujeito este que deve se apropriar das formações inconscientes que o afetam, reconhecendo-se em um lugar objetalizado. Isso ocorre pela inscrição num circuito transferencial, um campo relacional onde está em causa a hipótese do inconsciente, esse insabido que é suposto pelas suas manifestações num campo relacional que inclui o pesquisador onde ele se produz, podendo ser apreendido e nomeado.
Tendo, pois, tudo isso em vista, o presente artigo constitui um estudo de caso qualitativo que se desenvolveu a partir de um atendimento psicoterápico com orientação psicanalítica e do método psicanalítico de apreensão de elementos inconscientes, a partir do qual trouxemos uma revisão teórica da problemática da autolesão na adolescência contemporânea. O recorte teórico que trazemos aqui, acerca dessa temática, centra-se na noção freudiana de desamparo e em algumas contribuições de Lacan que permitem avançar a partir desta noção. Em Lacan, optamos por trabalhar com um recorte da sua obra situado ainda dentro do paradigma da primazia do simbólico, mas levando em conta suas primeiras formulações sobre o objeto a e a angústia no Seminário 10 (Lacan, 2005).
Por fim, é importante ainda esclarecer que, quanto ao caso, trata-se de uma adolescente que foi atendida durante o ano de 2019 no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como uma das atividades relativas ao curso de Especialização em Psiquiatria e Psicanálise com crianças e adolescentes. Desse modo, este artigo constitui-se como parte das atividades relativas a esse curso, e ainda é parte integrante do projeto de pesquisa “Educação para a vida: adolescência, suicídio e vulnerabilidades sociais”, coordenado pela segunda autora deste artigo no âmbito do LAPSE/UFF (Grupo de pesquisa psicanálise, educação e laço social). A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa sob o CAAE nº 20131119.6.0000.8160.
Passemos agora ao corpo do artigo e, portanto, às articulações suscitadas pelo caso. É importante dizer que, considerando a relação entre clínica e pesquisa teórica em psicanálise, optamos por não fazer uma divisão entre a teoria e o caso, mas ir trazendo de forma imbricada o caminhar do caso juntamente com as reflexões suscitadas por ele.
O Desamparo e o Adolescente Contemporâneo
A paciente, Maria Eduarda, então com 13 anos, foi encaminhada ao Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência (SPIA) pelo psiquiatra da clínica da família de sua região com queixa relativa à prática de cortes pelo corpo. Na triagem do serviço, compareceu acompanhada pela mãe e relatou ter sido encaminhada para atendimento psicológico após o psicólogo de sua escola notar cortes em seu braço. Disse que se cortava com gilete, faca ou tesoura e, ao ser questionada sobre o motivo de tais comportamentos, alegou que o fazia quando ficava estressada ou triste, às vezes com coisa grandes, como mágoas com o pai ou, em outras, com coisas rotineiras e bobas, como ter que realizar tarefas em casa. Quando questionada se algo aconteceu na época em que começou a se cortar, mencionou que sua mãe dava mais atenção aos seus irmãos e que quando um deles saiu de casa se sentiu abandonada. Questionada se conseguia comunicar quando estava chateada respondeu que não, que guardava para si e se cortava, e que estava feliz e aliviada que teria alguém com quem conversar. Maria Eduarda também contou que seu pai estava com uma nova companheira, tinha duas filhas com ela, e passou a ter menos paciência com ela e ser mais ausente.
A partir das teorizações de Françoise Dolto, seguindo os ensinamentos de Lacan ao tomar a relação da criança com o desejo do Outro, a vida psíquica infantil só pode ser entendida no bojo do funcionamento da estrutura desejante familiar (Costa, 2010). Ao nascer, e às vezes mesmo antes disso, a criança já está inserida na estrutura discursiva da família, o que faz com que a sua constituição como sujeito seja correlata ao lugar que ela ocupa nessa estrutura. Ao longo de nosso trabalho, veremos como isso se reatualiza na adolescência e está presente em nosso caso clínico. Para isso, organizamos nosso trabalho em três partes, ao longo das quais acompanharemos o caso clínico juntamente com as reflexões que ele nos suscitou.
Na primeira vez em que foram ao serviço, notou-se na recepção que, apesar de todas as cadeiras estarem desocupadas, mãe e filha haviam sentado deixando uma cadeira vazia entre elas. Quando questionadas sobre o que as trazia ali, Maria Eduarda pediu que a mãe falasse e esta contou que fora surpreendida há algum tempo por um relato da escola da filha de que ela estava se cortando há alguns meses. A mãe de Maria Eduarda, Sandra, disse não saber o que fazia a filha fazer isso e nem o que fazer a respeito, apenas achava que a culpa era de seu ex-marido, o qual não dava atenção à filha. Já Maria Eduarda, quando sozinha na sala com a psicóloga, afirmou que a causa não era só em função de sua relação com o pai, contando que sua mãe tinha preferência por seu irmão mais velho e isso sempre a entristeceu, além de também dar mais atenção ao seu padrasto do que a ela. Reclamou de não ter ninguém para conversar, contando que quando dizia à mãe que precisava conversar com ela, esta não lhe dava atenção. Relatou que a primeira vez em que se cortou foi quando foi deitar-se perto da mãe e esta se afastou e se aproximou do padrasto que estava deitado do outro lado. Disse ser muito sensível, guardar muitas coisas para si e depois acabar se cortando, sentia muita raiva antes e alívio na hora. Tudo isso traz à tona o sentimento de desamparo sentido por Maria Eduarda, relatado por ela repetidamente nas sessões seguintes ao dizer: se sentir sozinha, não ter ninguém para conversar, ninguém que a escute, além de ela deixar claro que apesar de todos dizerem que ela tinha tudo o que queria em termos de bens materiais, não era disso que se tratava.
Falar sobre o desamparo é complexo em função de não haver uma formalização deste como conceito na obra de Freud, apesar de a noção ter lugar de destaque na clínica e na teoria psicanalítica. Desde seu texto de 1950, Freud (1950[1895]/1996e), já estão presentes as ideias centrais a respeito da constituição do sujeito e da imprescindibilidade da relação com o outro, na forma primária de um apelo a este, por ser incapaz de sobreviver sem auxílio de um outro externo que o ampare.
Nesse ponto, porém, é importante desde já trazer a leitura que faz Lacan (1999) a respeito dessas postulações freudianas, afirmando que este apelo, que ele alça ao estatuto de demanda, passa a não visar somente o objeto da necessidade, como, por exemplo, o leite, mas também se dirige ao Outro e se refere a algo que não às satisfações que clama, sendo uma demanda de uma presença ou de uma ausência, o que pode ser visto na relação primordial com a mãe. Desse modo, ele postula que “a demanda, no fundo, é uma demanda de amor” (Lacan, 1999, p. 394).
O próprio Freud já havia afirmado que “o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais” (Freud, 1950[1895]/1996e, p. 370). Tal afirmação traz à tona com mais clareza a dependência do sujeito em relação ao outro, em um apelo para além da satisfação das necessidades biológicas da criança, mas também por seu amor. Com isso, começa a se delinear a compreensão de que, para além da incapacidade biológica que marca o sujeito como desamparado fisicamente, o Outro primordial ampara também seu desamparo psíquico. Desse modo, a dependência do sujeito não é apenas biológica, mas também psíquica.
Em 1926, Freud (1926[1925]/1996c), ao retomar algumas de suas teorizações do Projeto, reafirma novamente isso ao ligar o estado de desamparo à angústia do medo da perda de amor e à dependência do outro. Nesse texto, ele afirma que, diferentemente dos animais, os homens são lançados no mundo após uma breve estadia uterina, de modo que ao nascerem não se encontram ainda prontos e não conseguem se defender sozinhos dos perigos do mundo, sendo fundamental para sua sobrevivência o amparo daquele que o protege, necessidade que o acompanhará daí em diante. A partir disso, a angústia surge diante de uma situação de perigo, que Freud define aqui como perigo da perda do objeto amado, protetor, que o ampara.
Destacados esses pontos centrais da obra de Freud, é importante trazer mais uma observação fundamental a partir da contribuição de Lacan, a de que, para além da condição biológica, o desamparo humano também se deve a sua condição frente ao desejo do Outro, sempre enigmático. Diz ele: “(...) na presença primária do desejo do Outro como opaco, como obscuro, o sujeito fica sem recursos. Ele está hilflos – Hilflosigkeit – emprego o termo de Freud, em francês chama-se o desamparo do sujeito” (Lacan, 2016, p. 28).
Este é um ponto chave para nosso estudo, pois é com o desejo do Outro que o adolescente se depara/confronta. A adolescência é compreendida pela psicanálise como um período de remanejamentos narcísicos e discursivos, de redefinição do campo das identificações a partir de novos encontros com o Outro, ou seja, quando frequentemente vemos o relançamento dos sujeitos à situação de desamparo como marca da passagem da vida infantil à adulta. Nessa direção, Alberti (2004) afirma que o adolescente precisa dos pais, por mais paradoxal que pareça, pois essa necessidade é condição de sua possibilidade de se separar, no sentido de ter como sua a escolha de fazê-lo. Isto porque, como ela pontua, a adolescência é um trabalho de elaboração de escolhas e da falta no Outro, sendo fundamental a elaboração de perdas. Para essas elaborações, ela deixa claro que são imprescindíveis as direções e os indicativos que o sujeito recebe desde a infância, período em que pode incorporar aos poucos a alteridade do Outro que determina sua constituição, primariamente através dos pais que idealiza, para que agora não seja mais tão dependente da idealização deles. Mesmo porque, ao crescer, aos poucos a criança se dá conta das falhas desse Outro que antes via como pleno, e isso vai encaminhando-a para a adolescência. Mas aqui, a autora ressalva que a separação não é do Outro incorporado, senão dos pais imaginarizados, e só terá êxito se a incorporação tiver ocorrido, garantindo certa proteção contra o desamparo fundamental. Pois,
(...) o adolescente deve saber que não há como escapar do desamparo fundamental intrínseco ao ser humano, por mais dolorosa que seja essa constatação, ele já sabe que o Outro não pode protegê-lo, apenas enriquecê-lo com algum recurso para encarar o desamparo sozinho. Há vários nomes para isso em psicanálise, o mais divulgado é o conceito de castração. (...) Para aceder ao desejo é necessário o reconhecimento da castração da qual, aliás, o desejo se alimenta! Os pais também são castrados e é por isso que o filho pode deixá-los, levando consigo a melhor bagagem que puder recolher! Poder encarar o desamparo, as impossibilidades, submeter-se à castração simbólica é o longo trabalho de elaboração da falta no Outro que diz respeito à adolescência. (Alberti, 2004, p. 16)
Com isso, a autora não deixa de pontuar que durante a adolescência pode haver momentos em que seja necessário o sujeito retornar à ilusória relação que tinha com os pais na tentativa de suportar a separação, pois não ė sem angústia que esse processo se dá, visto que ele presentifica incertezas em relação ao futuro e ao desamparo, e é aos poucos que o sujeito vai conseguindo se descolar desse bastião. Entretanto, é importante pensarmos nas especificidades da adolescência na contemporaneidade. Saggese (2015) reflete sobre essa temática e aponta que no mundo pós-tradicional a adolescência é marcada pela indefinição, pois a construção de identidade e o significado das normas sociais não são mais ofertados pela tradição através dos ritos de passagem, mas são responsabilidade do jovem em um meio onde oportunidade e perigo estão equilibrados. Assim, nesse meio, eles encontram impasses na obtenção de uma estabilização de seu lugar no laço social, já que lhes falta um sentido predeterminado para suas mudanças, o que, muitas vezes, os fazem buscar identificações imaginárias, baseadas, principalmente, no corpo, quando o referencial do Outro se fragmenta, mas nada é suficiente.
Nesse sentido, a clínica com adolescentes na atualidade coloca desafios por escapar a tudo que está instituído, já que é um trabalho psíquico a partir do excesso pulsional e do novo encontro do sujeito com o Outro sexo e o Outro da cultura (Coutinho, 2006). Diante disso, o estatuto do agir é frequente nos adolescentes e nos remete a um momento de “pane do sujeito” (Rassial, 2000), que diz respeito à sua dificuldade de sustentação diante do Outro – estado limite onde as amarrações de RSI (real, simbólico e imaginário) se afrouxam e têm que se refazer. Essa concepção vai em direção do que temos visto em relação ao fato de que os atos dos adolescentes, aqui direcionados aos seus próprios corpos, trazem uma denúncia referente à ausência de palavras e à impossibilidade de mediação para expressar o mal-estar do excesso psíquico que os atinge e que eles marcam nos seus corpos.
Alguns autores, como Birman (2003), apontam esse modo de expressão do mal-estar como uma tônica do sujeito na contemporaneidade diante da dificuldade em nomear os afetos que se manifestam no corpo e em ato como dores, esgotamento, etc. – quando o sujeito não consegue simbolizar seu sofrimento por meio da palavra. Anos depois, Birman (2012) formula que a experiência de dor não tem conseguido se alçar à condição de sofrimento, passível de ser endereçado e compartilhado através de uma narrativa, de modo que tal experiência permanece no campo das intensidades e é vivida de modo solitário, fechada no sujeito. Nesse caso, segundo o autor e para além do desamparo, encontramos a experiência de desalento, na qual o sujeito está entregue à solidão e ao vazio afetivo frente à ausência de um outro1, sendo atingido por desesperança e não lançando mão do apelo ao outro. Nesse livro, Birman (2012) avança algumas postulações feitas por ele mesmo em 2006, quando afirmou que frente às diversas revoluções sociais e culturais operadas pelos jovens nascidos em torno dos anos 1950 e 1960, as crianças e os jovens hoje são, de certa forma, deixados à deriva, sem a presença dos pais, que estão às voltas com suas próprias questões existenciais, o que tem como efeitos o desamparo e a fragilização psíquica.
Assim, Birman (2012) afirma que, na contemporaneidade, o excesso transborda no psiquismo e nos toma como afetação e dor, irrompendo no eu, que hoje se encontra com suas fronteiras cada vez mais frágeis, estando mais assujeitado e à deriva das imposições da pulsão, que resulta na presença da angústia do real e no efeito traumático frente ao qual o eu se sente impotente, sem recursos para antecipar e se defender. Para tentar fazê-lo, o eu recorre à compulsão, à repetição e à atuação, numa tentativa desesperada de circunscrever a experiência traumática que lhe tomou, mas que suas ações não conseguem remodelar o contexto de intensidades em que se encontra, atingindo o eu em sua solidez, o que fragiliza o narcisismo e faz com que cada vez mais ele se desqualifique e se desvalorize. Com tudo isso, como também observa Birman (2006), a juventude hoje se caracteriza a partir do desamparo inscrito e marcado dolorosamente no corpo, referindo-se também às tatuagens que trazem a busca de uma visibilidade identitária.
Como podemos pensar tais questões nos casos em que se trata não de jovens que se tatuam, mas de jovens que se autolesionam e afirmam fazê-lo buscando, nesse ato fisicamente doloroso, justamente um alívio?
Os Cortes na Adolescência: Angústia e Dor
Dois meses após o início do atendimento, Maria Eduarda envia à analista uma mensagem dizendo que no dia anterior havia se cortado e ninguém sabia. Alega ter feito isso pelo comportamento de sua mãe, pois, em suas palavras: “Tudo que acontece dentro de casa ou se ela se estressa na rua, a minha mãe desconta em mim. Eu já estava guardando isso há muito tempo e ontem eu não aguentei e acabei me cortando”. Na sessão seguinte, a menina falou estar muito chateada por já ter notado sua mãe mentindo para ela algumas vezes. Afirmou a necessidade de saber as coisas da mãe para poder cuidar dela e disse sentir que também só tinha a mãe e não queria perdê-la. Todas essas cenas revelam a associação da organização sintomática da paciente a partir da angústia sentida diante do enigma do desejo da mãe e da possibilidade de perdê-la. Não podemos esquecer que a psicanálise ensina que a produção do sintoma do sujeito se dá numa tentativa de aplacar seu sofrimento e, portanto, seu desamparo e a angústia. Mas por que isso se dá através da produção de uma dor física? O que essa dor tenta inscrever? Serão os cortes a única forma de fazê-lo?
Em um artigo destinado a pensar sobre a questão da dor e sua relação com o desamparo, Dockhorn et al. (2007) pontuam que, após a formulação do segundo dualismo psíquico e da reformulação da concepção da compulsão à repetição por Freud em 1920 (Freud, 1920/1996b), é possível compreender que, na tentativa de ligar os excessos para dominar estímulos que tomaram o aparelho, muitas vezes o sujeito se vê condenado à repetição de uma experiência dolorosa.
Aqui, podemos levantar a hipótese de que a provocação de uma dor física permita ao sujeito passar de uma situação de passividade para uma situação de atividade e tentar, assim, dominar os excessos que o atingem psiquicamente, a partir da concepção destes como vindos do exterior. Não é à toa que o relato de adolescentes que se autolesionam em relação ao momento em que se cortam não é de dor, mas de alívio, o que revela o caráter apaziguante do ato. Cabe ainda questionar, nesses casos, as imbricações entre pulsão de vida e pulsão de morte, visto que, como afirmam Araújo et al. (2016), a autolesão não pode ser compreendida como uma tentativa de suicídio ou de autodestruição, mas é a busca, mesmo que de forma precária, de uma via de se autopreservar, se sentir (viva/vivo) e sair da permanente sensação de anestesiamento. Mesmo porque, como afirma Le Breton (2010), os cortes no corpo se relacionam também a uma tentativa de sentir a propriedade do corpo, em que a dor é um recurso justamente para tentar se afastar da sensação de amortecimento e de estar morta, à qual, de certa forma, o desamparo remete.
Nesse sentido, voltamos a Dockhorn et al. (2007), que recorrem à ideia do sociólogo e psicanalista Manoel Berlinck (1999) de que o ser humano habita a dor e que não a sentir coloca-o em um estado de total desamparo e ameaça, pois ela funciona como um alerta para estímulos lesivos.
O entrelaçamento entre as noções de desamparo e de dor. Trata-se na dor de uma tentativa fracassada ou insuficiente de utilização dos recursos psíquicos a fim de ligar e dar destino àquilo que invade o psiquismo. A situação de desamparo atual pode estar ressignificando o desamparo inicial cujas marcas dão conta de uma experiência de não-cuidado e resultam numa impossibilidade de trilhamento nos caminhos de complexização do psiquismo. Como consequência percebe-se uma importante falta de recursos e, consequentemente, uma suscetibilidade de inundamento psíquico pelo excesso traumático. Sob o domínio do traumático, cessa-se a regência do princípio do prazer e no psiquismo instala-se a repetição, frente à incapacidade de metabolização psíquica por parte do sujeito em relação ao que ingressa em seu psiquismo. Atordoado e preso à busca por dominar os estímulos que tomaram o aparelho, o sujeito torna-se condenado a uma incessante repetição de registros de dor. (Dockhorn et al., 2007, p. 40)
Assim, diferente da dor solipsista do desalento e das passagens ao ato (Birman, 2012), essas observações levam a compreender a dor, no caso de nossa paciente, como uma tentativa de ligação – mesmo que fracassada – frente ao desamparo. Ela se aproxima, dessa forma, do que ocorre no masoquismo originário, quando, cadenciado pelo desamparo, o sujeito faz um apelo ao outro para transformar a dor em sofrimento (Birman, 2012). Ou seja, a dor autoprovocada já implica uma atividade do sujeito em direção ao outro.
O desamparo implica a alteridade, tendo desdobramentos no processo de subjetivação do sujeito, na medida em que medeia suas relações no laço social, lançando-o na busca de objetos e nos relacionamentos com os outros, através dos quais buscará apaziguar seu mal-estar. O primeiro grito de apelo ao outro no desamparo, como mostra Freud, 1950[1895]/1996e), é um grito de necessidade que, posteriormente, como afirma Lacan (1995), se lê como uma demanda, sempre de amor. Ainda segundo Lacan, este grito
Trata-se do choro na medida em que ele convoca sua resposta, que faz apelo, se posso dizê-lo, sobre um fundo de resposta. (...) O grito que levamos em conta na frustração se insere num mundo sincrônico de gritos organizados em sistema simbólico. (...) Desde a origem, o grito é feito para que se tome conhecimento dele, até mesmo para que, mais-além, se o relate a um outro. Basta ver a necessidade essencial que a criança tem de receber esses gritos modelados e articulados que se chamam palavras, e o interesse que ela tem no sistema de linguagem em si mesma. O dom-tipo é justamente o dom da palavra, porque, com efeito, o dom aqui é, se posso dizer, igual em seu princípio. Desde a origem, a criança se alimenta tanto de palavras quanto de pão, e perece por palavras. (Lacan, 1995, p. 192)
Porém, frente ao não atendimento desses gritos primários, poderíamos dizer que o sujeito faz ainda mais uma tentativa de ligação com um grito agora de dor? Acreditamos que, para além de uma função psíquica de tentativa de ligação para encaminhar à descarga as excitações psíquicas, a dor aqui também tem uma função no laço social como uma forma desesperada de apelo ao Outro. Apelo por amor, apelo por palavras. É isso que Maria Eduarda demonstra a todo o momento estar em jogo, ela quer que a mãe converse com ela.
Não raro uma dor física pode substituir e até fazer desaparecer uma dor psíquica, mas tal substituição se dá na medida em que há uma dificuldade de elaboração psíquica de um evento doloroso. Não à toa, a autolesão vem sendo pensada por autores da psicanálise (Araújo et al., 2016; Costa, 2003; Fortes & Macedo, 2017; Le Breton, 2010) como uma prática realizada por adolescentes em momentos nos quais são atingidos por uma insuportável tensão interna que não encontra vias de escoamento pelas palavras, pelo simbólico, e se dá diretamente através do corpo e dos cortes, como única possibilidade de apaziguamento.
Para além das postulações já feitas, é interessante destacar o sentimento de intensa solidão relatado por todos os jovens que lançam mão dessa prática. Nesses casos parece estar sempre em jogo uma ausência onde se esperava uma presença, o que revela a precariedade no campo alteritário que, além de relançar o sujeito ao desamparo, reforça a dificuldade do sujeito de colocar em palavras sua dor psíquica (Fortes & Macedo, 2017). Vale dizer, entretanto, que apesar de termos notícias de casos em que é a experiência radical do desalento que está em jogo, não acreditamos ser ela que está presente no caso aqui em questão. Assim, apesar de haver um sentimento de solidão, este não desemboca em um vazio solipsista, embora vejamos um movimento de constante apelo ao outro, inclusive por meio dos cortes.
Nesse sentido, é importante dizer que a partir da afirmação lacaniana de que “agir é arrancar da angústia a própria certeza” e de que “agir é efetuar uma transferência de angústia” (Lacan, 2005, p. 88), acreditamos que o que está em jogo nos atos da referida paciente é uma tentativa de fazer cessar a angústia que emerge diante a reatualização do desamparo, por meio do agir como um acting out. Assim, diferenciando-o da passagem ao ato pela análise da posição do sujeito na cena, Lacan (2005) afirma que, enquanto na passagem ao ato se trata de uma queda do sujeito para fora da cena, onde este se precipita e despenca, no acting out temos uma sustentação da cena onde o sujeito faz uma demonstração intencional, apesar de inconsciente, cuja orientação para o Outro deve ser destacada. No acting out há, segundo ele, uma exuberância performática. O ato veicula uma cena que se dirige ao Outro demandando decifração, interpretação – sendo este necessário como espectador. Sua encenação é marcada pela fantasia e se constitui como uma demanda de simbolização endereçada ao Outro para que este se mantenha em seu campo e o sujeito consiga encontrar o seu lugar no mesmo. O autor, com isso, define o acting out como um subir à cena, onde ele não se deixa cair como na passagem ao ato. Ao contrário, endereça-se ao Outro num movimento que ele afirma ser de uma transferência selvagem, atuada.
Dizer de uma tentativa do sujeito de encontrar um lugar no campo do Outro nos leva a fazer uma breve observação a respeito do lugar do sujeito no fantasma. Detemo-nos nisso para esclarecer que, como afirma Poli (2005) a respeito da especificidade da construção do fantasma na adolescência, este é o momento em que fantasmas infantis podem ser retomados e o sujeito pode refixar-se a eles ou reencaminhar os novos enigmas que se erigem ao se confrontar com o real do corpo e o Outro sexo. Ainda segundo ela, este é o momento da construção ficcional de um eu narrador – durante o qual podemos reconhecer a incidência dos processos de alienação e separação –, uma tarefa que não é simples e nem rapidamente concluída. De modo que é importante atentarmo-nos ao ponto estrutural da resposta ao Outro, por meio da autolesão que se faz notar como indicativo de um trabalho em curso de contestação da significação fálica constituída na infância, mais alienada ao desejo do Outro, em prol de uma nova construção sintomática que implique uma enunciação própria. Isso se dá a partir de uma nova relação ao Outro, da qual o adolescente extrai referências fálicas para o desejo, ressignificando a inscrição do fantasma.
Tais formulações têm consequências para a direção do trabalho analítico nesses casos, nos quais a aposta clínica é de propiciar que do agir faça-se palavra, para que o sujeito possa situá-lo em uma historização, na (re)construção de seu passado e na construção de seu presente, implicando-se. No caso de Maria Eduarda, através do trabalho analítico pudemos ver uma passagem do agir dos cortes – através dos quais sua demanda se dava pela via do corpo, à possibilidade de construção de demandas mais explícitas – pela via das palavras e onde ela pôde se implicar como sujeito. Desse modo, o próximo tópico se centra nas demandas da paciente, que veremos como sendo essencialmente demandas de amor.
A Construção de uma Demanda em Nome Próprio: Em Busca do Amor
Alguns meses após o início do acompanhamento, Maria Eduarda começou a contar quase que semanalmente sobre seus relacionamentos amorosos. A cada semana relatava estar apaixonada por um rapaz, o qual, na semana seguinte já havia sido substituído por outro, após ter descoberto que o anterior a traía. Em uma dessas sessões foi, então, pontuado para a menina que ela já havia contado repetidas histórias parecidas em torno da questão da traição, e questionado o motivo que ela achava que isso sempre acontecia, como era para ela gostar e desgostar tão rápido e se era realmente necessário sempre ter alguém. Após um tempo conseguiu elaborar que namorava sempre para não ficar sozinha. Disse que ficava muito sozinha, não gostava, e para não ficar, tinha que namorar, pois sua mãe, seus irmãos e suas amigas namoravam. Contou que sua mãe sempre dizia estar sem dinheiro, saia só com seu padrasto. Seus irmãos iam para as casas das namoradas, e suas amigas, em sua maioria, já estavam casadas e grávidas. Então, para não ficar sozinha, tinha que namorar sempre.
Fica claro como para Maria Eduarda está em jogo justamente a demanda por uma presença, principalmente frente uma não-presença de sua mãe, como uma tentativa de costurar algo diante de sua confrontação com o desamparo. Sobre as escolhas amorosas, desde 1905, Freud (1905/1996a) já havia afirmado que do primeiro e mais importante vínculo erótico da criança com a pessoa que cuida, geralmente a mãe – que lhe contempla com sentimentos de sua própria vida sexual –, a criança retira uma fonte incessante de excitação e satisfações sexuais que lhe despertam a pulsão sexual, tanto pela excitação da zona genital, como pela ternura. É isto que a ajuda na preparação da escolha do objeto com o objetivo de restaurar a satisfação perdida, levando a criança também a amar outras pessoas que a amparam e satisfazem suas necessidades, de modo a dar continuidade ao modelo de relação inicial.
Ainda segundo Freud (1905/1996a), o caminho mais curto para a criança seria escolher, como objetos sexuais, as mesmas pessoas que ama desde a infância com a libido amortecida. Entretanto, isso não é possível já que a maturação sexual é adiada e nesse período se ergue, dentre outros entraves à sexualidade, a barreira do incesto, uma exigência que exclui da escolha objetal os parentes consanguíneos amados na infância. Em virtude disso, as inclinações infantis só voltam a emergir nos seres humanos na esfera das representações, ou seja, por meio das fantasias. Mas, os objetos estranhos substitutivos, com os quais se pode levar uma vida sexual, continuam sendo escolhidos com base na imago dos objetos infantis.
Em nosso caso, Maria Eduarda não só demanda desses uma presença, como todos os rapazes com os quais se relacionou foram descritos por ela como “da vida errada”, assim como seu pai e seu irmão mais velho – este último, para o qual ela afirma estar voltado o desejo de sua mãe. Além disso, todos os términos foram motivados por descobertas de traições, momentos em que ela se sentiu com ciúmes e preterida por outras pessoas, e se chamou de “trouxa” por ter sido, segundo ela, trocada por outra pessoa, como ocorre quando sua mãe volta seus olhares para seu padrasto ou para seu irmão mais velho. Repete-se, assim, toda a cena da frustração em que suas demandas não são atendidas.
Desde as postulações lacanianas a respeito da frustração, privação e castração, em Lacan (1995), fica evidente que é preciso ultrapassar, de certa forma, a ordem apelativa por meio dessa tríade, a qual permitirá a ressignificação do imaginário pelo primado do simbólico. Prescindir deste último, ata/amarra o sujeito às garras de um imaginário atormentador no qual a falta de objeto é esfacelante. Nesse sentido, a frustração é a introdução primitiva na ordem simbólica a partir da relação dual com a mãe, e, somente atravessando-a, o sujeito pode desidentificar-se do falo. Com isso, os objetos obtidos do outro, antes compreendidos como reais, podem passar a ser apreendidos em termos de troca simbólica, sendo alçados à categoria de dom de amor. Assim, a mãe que era simbólica se torna real e o objeto que era real se torna simbólico, dom de amor, promessa. É preciso, então, uma perda de objeto para que esse possa se tornar substituível, o que representa um ganho no nível da metáfora. Desse modo, a frustração encaminha para a trama da castração onde a falta se justifica por algo que é da ordem do pacto civilizatório e da condição humana, inscrevendo o sujeito na dimensão simbólica, na perspectiva da aliança e da troca.
Miller, em sua leitura do Seminário 4 de Lacan, (1995), retoma a postulação deste autor de que a maior frustração é de amor, além de afirmar que tudo que Lacan aponta em relação à frustração, ele retorna nas teorizações acerca da demanda, de modo que “demanda é o nome de batismo, lacaniano, da frustração” (Miller, 1997, p. 110). No caso de Maria Eduarda, o que notamos é uma repetição da cena da frustração em que ela fica presa nas amarras da ordem apelativa, crendo que o Outro tem algo para lhe dar e não o faz, dando-o a outra pessoa. Ela não passa à compreensão do objeto como dom e não se dá à operação da metáfora do amor, de modo que ela se mantém na posição inicial de demandante de amor e de um objeto real, o que faz com que a falta do objeto seja esfacelante para ela. Aqui é curioso trazer o modo como Maria Eduarda se referiu à perda de sua virgindade desde a primeira sessão: como o momento em que “se perdeu”, termo que demonstra como para ela o (des)encontro sexual tem um quê de trágico, de queda, de perda. Relançada ao desamparo, sua falta esfacelante muitas vezes a leva a esfacelar o próprio corpo num grito desesperado por esse olhar.
É importante trazermos ainda mais uma sessão de Maria Eduarda como ponto-chave da virada de seu processo analítico, quando se nota que seus atos começam a clarificar uma mensagem, ou seja, quando é possível do ato se fazer linguagem pela via da palavra. Nessa sessão, Maria Eduarda chegou e colocou os braços desnudos sobre a mesa, dando a ver que em seu braço, através de cortes, estava escrita a frase “Eu sou um lixo”. Questionada se gostaria de falar sobre aquilo, ela contou que havia escrito no dia anterior por estar magoada com um menino com o qual estava se relacionando, mas também magoada e com raiva de sua mãe. Deslizando sua fala do menino à mãe, disse que estava assim porque a mãe desconta nela “todos os seus estresses”, acha que tudo que ela faz é errado e diz que é drama, mandando-a sempre arrumar a casa. Acrescentou ainda que a mãe colocava nela a culpa de tudo de errado que acontecia em casa e não a ouvia, como fazia com seus irmãos – a quem chamava para conversar quando faziam coisas erradas, mas apenas a acusava.
Através da escrita no corpo, Maria Eduarda conseguiu colocar seus sentimentos em palavras, cifrá-los, embora ainda muito alienada à mãe, ao que dizem dela, no lugar de objeto dejeto, lixo. Mas, ao se queixar e falar da raiva, do sentimento, pôde começar a deslizar um pouco desse lugar alienado, que os cortes e o agir fazem notar, e formular uma demanda que, minimamente, traz algo de uma tentativa de separação, diferenciação.
Algumas sessões após esse episódio, Maria Eduarda conseguiu dizer que queria aprender coisas com a mãe, queria conversar com ela por ser mulher. Perguntei o que ela achava que a mãe poderia lhe ensinar, e ela disse que seriam coisas de menina. Segundo ela, a mãe era muito vivida, já tinha passado por muitas coisas, e ela achava que a mãe poderia ensiná-la. Disse que a mãe sabia muitas coisas e nunca tinha conversado sobre nada com ela. Quando ela ficou menstruada, a mãe apenas falou o que era, e às vezes a levava ao médico – mas agora já havia dito que ela era grande e podia ir sozinha. Tal elaboração de Maria Eduarda, por meio da fala, aponta para que suas demandas possam ser elaboradas em nome próprio, articuladas ao desejo e estabelecendo, mesmo que sutilmente, um movimento em direção à separação do Outro. Além disso, deixa clara sua demanda por uma resposta a respeito do feminino.
O que quer uma mulher? O que é uma mulher? Tais questões parecem ser essencialmente o que Maria Eduarda demanda como resposta. Questões enigmáticas não só para a menina, mas para o sujeito e para a própria psicanálise, já que Freud, em 1933 (Freud, 1933[1932]/1996d), já dizia ser impossível responder a pergunta a respeito do desejo feminino, e que, com Lacan, compreendemos ser um enigma que advém inicialmente da impossibilidade de representação do sexo materno. Foi por essa via que a análise de Maria Eduarda pôde caminhar a partir da demanda de nossa menina adolescente – que está se confrontando com o real do sexo – pelo amor do Outro. Esse, ainda essencialmente materno, deve lhe responder a respeito dos enigmas da feminilidade e de seu desejo, mas sua indiferença a fixa na frustração e a atinge como uma grande angústia atrelada ao desamparo que, para ser ao menos momentaneamente aliviada, era extravasada no corpo num acting out.
Ao longo do processo analítico, acompanhamos Maria Eduarda na passagem dessa demanda por meio de um agir, a elaboração e construção da mesma no campo da palavra e da fala endereçada à mãe e à analista, podendo, assim, se questionar sobre o ser mulher. Ao poder falar sobre aquilo que sentia, colocando em palavras sua dor e sua raiva, acreditamos que Maria Eduarda pôde iniciar um processo de se confrontar com suas faltas e deslizar do campo de uma demanda alienante ao Outro através dos cortes, à construção de uma demanda menos alienada e feita em nome próprio, pela via da palavra, na medida em que denota também a marca de seu desejo. Dito tudo isso, podemos nos dirigir às nossas considerações finais. Vale dizer que as mesmas não têm valor de conclusões, mas sim de costuras finais, em que, novamente, e a partir do caso, traremos os últimos apontamentos do que foi tratado até aqui.
Costuras Finais
Algumas semanas após a última sessão relatada, Maria Eduarda fugiu de casa durante um momento em que a mãe havia saído. Passou alguns dias na casa de uma amiga até ser encontrada pelo irmão e levada de volta para casa. Após o retorno, enviou-me uma mensagem queixando-se da falta de atenção materna e contou que havia saído de casa porque estava brigando com a mãe todos os dias, não conseguia conversar com ela. Disse que sentia que só a atrapalhava, era a razão de seus problemas, e achou que seria bom ficar um tempo fora de casa, que sua mãe ficaria melhor. Disse que falou com a mãe que iria sair de casa e esta disse que ela poderia ir. Contou também que quando voltou para casa a mãe não disse nada. Na sessão seguinte, disse que achava que a mãe tinha visto no celular a mensagem enviada por ela, mas que não disse nada. Questionada sobre por que achava isso, disse que porque a mensagem estava no celular da mãe e ela podia ler – Maria Eduarda não estava com celular na época, e toda a comunicação com ela era feita pelo celular da mãe, inclusive as sessões. A analista questionou que: se ela não apagou a mensagem, talvez quisesse realmente que a mãe lesse, e assim como outras coisas que ela fazia, poderia ter o intuito de que a mãe olhasse para ela e conversasse com ela. Ela ficou pensativa e apenas concordou, disse que queria aprender coisas com a mãe, e que esta fosse como sua madrinha, uma mulher que conversava sobre tudo com ela e não a tratava diferente dos próprios filhos.
Em uma sessão feita com a mãe logo após esse acontecimento, como sempre ela disse que estava tudo bem, e que a filha não se abria muito com ela e não sabia o motivo. Disse que naquele dia pela manhã a filha havia deixado uma carta para ela dizendo de um menino do qual estava gostando, e que depois elas iriam conversar. Questionada sobre o motivo de que tal conversa aconteceria só depois, já que estavam ambas em casa, ela disse que sempre que a filha quer lhe dizer algo, primeiro ela escreve e depois vai falar com ela. Foi apontado para ela que a escrita de sua filha já era um modo de dizer e que demonstrava que sua opinião importava para ela, então talvez fosse importante que ela também tomasse a iniciativa de dizer que havia visto a carta e chamá-la para conversar.
Essas últimas sessões relatadas nos fazem ver como aos poucos o caso pôde caminhar e Maria Eduarda começou a recorrer a outras estratégias que não ao ato de se autoinfligir cortes, na busca pelo olhar do Outro. Sua saída de casa, a mensagem que envia à analista pelo celular da mãe e não apaga, além das cartas que começa a escrever, parecem ser modos de tentar convocar esse Outro materno de um modo outro. Acreditamos que, a partir de seu trabalho analítico, Maria Eduarda percorreu um caminho em direção à possibilidade de escrever/inscrever a sua dor, primeiro ainda pelos cortes, mas depois através de mensagens no celular, e por último através de cartas para sua mãe, podendo dessa forma falar sobre elas e reencontrar em seus agires os que têm valor de ato (Lesourd, 2004). Nesse caso, a escuta analítica – via transferência como campo de ancoragem e acolhimento – pode ser um instrumento de intervenção nessa situação de desamparo que parece se agravar nas adolescências contemporâneas.
Na adolescência, o sujeito é convocado a responder pelo seu desejo em nome próprio, mas só pode construir um discurso sobre si ao elaborar a falta no Outro, desalienando-se do discurso deste que o embala durante a infância para poder assumir sua condição desejante e se responsabilizar por seus atos e pelo seu dizer. Muitos e muitas adolescentes, porém, fixam-se na frustração por acreditarem que os outros não lhe dão respostas porque não querem, e não porque não as têm para dar porque também lhes falta. Isso os atinge como uma grande angústia atrelada ao desamparo que, para ser ao menos momentaneamente aliviada, é extravasada no corpo num acting out.
Apontamos, porém, que, na grande maioria dos casos, o ato de se autoinfligir cortes não significa um emudecimento, pois nesse agir há um dizer, há um grito de apelo ao Outro. A dor dos cortes não cala. Ela fala, grita. O esfacelamento do próprio corpo denuncia o relançamento a uma falta esfacelante e convoca um olhar. Nos casos de autolesões que caracterizamos como acting out, acreditamos que está implicada uma atividade do sujeito em direção ao Outro, uma tentativa de enlaçamento a este, de modo que o sujeito busca, mesmo que precariamente, uma forma, não de se anestesiar, mas de se autopreservar, de sentir o corpo e convocar o Outro para que se possa sair do amortecimento do desamparo.
A clínica com adolescentes coloca desafios à psicanálise por escapar ao que já está instituído e desafiar o analista sempre diante do mal-estar de sua época, mas o encontro com o analista, matizado pelos caminhos da transferência, é uma oportunidade valiosa para o adolescente construir novas referências fálicas para o desejo que possam enlaçá-lo de alguma forma aos discursos sociais. Na clínica contemporânea com adolescentes que se autolesionam, uma direção do tratamento é a distinção entre agir – busca por reconhecimento no Outro e certeza narcísica da existência – e ato – dizer sobre o que se faz, quando a presença do analista permite ao sujeito reencontrar em seus agires os que têm valor de ato, e, portanto, o representam junto ao Outro (Lesourd, 2004). Ao falar de seu ato em nome próprio, o sujeito se situa diante do Outro, cujo campo pouco a pouco se reconstitui para além da busca de um olhar alienante através do agir. A escuta do agir silencioso da dor possibilita que o sujeito possa nomeá-la e simbolizá-la, sustentar a angústia frente ao vazio, construir destinos para suas forças pulsionais, metabolizar os excessos e sair do terreno mortífero das repetições em busca de sua história singular e de uma mudança de sua posição subjetiva.













