A morte constitui-se como uma etapa natural do ciclo vital, um processo universal e biológico. Porém, atualmente, a sociedade se habituou a não aceitar a finitude humana (Santos & Fensterseifer, 2016). Esse assunto relaciona-se com a existência da humanidade, já que faz parte do seu processo de desenvolvimento e é um motivo para o levantamento de questionamentos baseados na religião, na ciência, na arte e na filosofia, tomadas como formas de compreender a questão. No entanto, nenhuma das respostas concedidas por esses meios é completa e universal. Além disso, a morte é uma temática que se apresenta como um tabu e traz consigo distintas maneiras de encará-la, visto que é fortemente influenciada pelo contexto socio-histórico e cultural (Kovács, 2005).
Durante a Idade Média, a morte era encarada como uma forma de a família estar próxima ao moribundo, confortando-o, e de envolvimento de uns na morte de outros, promovendo um planejamento desse acontecimento. Todavia, houve uma transição do local da morte: da casa para os hospitais. Isso porque o processo do morrer passa de uma problemática familiar, afetiva e de solidariedade para uma problemática técnica, já que, dentro da instituição hospitalar, a ideologia predominante consiste no prolongamento da vida por meio de recursos tecnológicos e humanos. Essa transição ocorreu justamente pela força desse pensamento, que traz em si uma intenção específica: proporcionar o sentimento de segurança nos momentos finais da vida. Dentro dessa perspectiva de mudanças históricas, a forma de lidar com o término da vida ao longo do tempo apresenta-se com algumas diferenças, o que não constitui um passado melhor do que o presente, mas que traz contribuições distintas diante do modo de encarar e de entender a morte (Machado et al., 2016).
No contexto contemporâneo, há tentativas de ignorar a morte, de esquecer-se dela, a fim de anular a possibilidade da sua presença no processo de vida e, com isso, chegar à sensação de imortalidade (Balestrini & Torres, 2021). Como afirma Kovács (2009), a cultura faz com que os indivíduos tenham controle da manifestação sobre a morte, aniquilando-a. Consequentemente, a população sente dificuldades em lidar com a morte, pois não há um preparo para enfrentar esse momento. A repressão e a negação estão associadas aos aspectos da dor e da perda, causas que podem provocar dificuldades no processo de luto.
Nesse cenário social e cultural em que a morte se apresenta como tabu, estudantes e profissionais da saúde manifestam sentimento de frustração e de derrota por não saberem a melhor forma de vivenciar situações que evidenciam a fragilidade decorrente do fim da vida (Duarte et al., 2015). Isso é reforçado pela influência do pensamento cartesiano no campo da medicina, uma abordagem mecanicista voltada para a doença. Atualmente, admite-se que a humanização é o ato mais acessível e efetivo para o cumprimento ético da tarefa de cuidar, estabelecendo, assim, o vínculo necessário com os pacientes e familiares (Gençer et al., 2018).
Segundo Junqueira e Kovács (2008), o desenvolvimento educacional sobre essa temática deve contemplar teoria e prática e ofertar debates, discussões e reflexões acerca das experiências dos estudantes. Sem perder o enquadre pedagógico, deve-se instituir um clima confortável e seguro que permita aos educandos um contato com sua subjetividade acerca da finitude humana. Para tanto, é relevante o fato de a familiarização com a morte ser um constante desafio que desperta sentimentos conflitantes, como a culpa e o fracasso, independentemente do histórico de experiência, o que indica a importância da promoção de constantes estudos e reflexões acerca dos significados da morte e do morrer, como uma possibilidade de viabilizar uma atuação valorosa na área da saúde (Vicensi, 2016).
Assim, a presente pesquisa objetivou compreender quais são os significados atribuídos por acadêmicos na área da saúde ao processo da morte e do morrer. Houve uma busca pelo entendimento de como os acadêmicos da área da saúde compreendem os significados e sentimentos que emergem diante da morte e do morrer. Além disso, essa pesquisa buscou verificar as dificuldades de enfrentamento da morte e do morrer que são apresentadas pelos estudantes da área da saúde, procurando identificar como e se essa temática, em específico, é apresentada durante a formação acadêmica.
Por fim, um estudo nesse sentido é uma tentativa de mostrar que a preparação gradual, ou seja, uma educação sobre esse tema, gera um incentivo para que a sociedade enfrente a morte como um acontecimento natural da vida, diminuindo-se os prejuízos emocionais e físicos, tanto dos pacientes que se encontram nas suas fases terminais de vida como da equipe de cuidados em saúde que necessitem lidar com a morte (Kubler-Ross, 2017). Em suma, destaca-se a relevância de proporcionar aos estudantes espaço para refletir e avaliar o contexto da morte e do morrer, o que, metaforicamente, transpõem-se em atribuir novos significados e experiências que possibilitam o crescimento e amadurecimento enquanto ser humano em desenvolvimento (Lima et al., 2018).
Método
Delineamento da Pesquisa
Trata-se de uma pesquisa realizada em uma instituição particular de ensino superior na cidade de Aracaju-SE e que se configura como exploratória, de campo, descritiva, de cunho qualitativo e de corte transversal.
Participantes
O grupo pesquisado foi composto por 24 universitários, sendo 15 mulheres e 9 homens, com idade entre 18 e 24 anos, que estavam matriculados nos cursos de Enfermagem, Medicina, Psicologia e Fisioterapia. Participaram da pesquisa 6 estudantes de cada curso, em que cada sexteto foi composto, obrigatoriamente, por dois estudantes que cursavam o semestre inicial; dois no semestre mediano e dois no semestre final, totalizando 24 participantes, distribuídos conforme mostra a Tabela 1. Vale ressaltar que se trata de uma amostra por conveniência. Durante o processo de investigação e no desenvolvimento dos resultados obtidos, a identificação dos participantes foi apresentada como “aluno(a) 1 ou 2”, seguido do semestre e do curso referente, a fim de se garantir o sigilo e a privacidade dos entrevistados.
Instrumentos
Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada, compreendida como uma ação prática discursiva na qual são produzidos sentidos sobre a realidade do participante (Spink, 2001). As entrevistas foram gravadas por aparelho celular.
Procedimentos e Aspectos Éticos
A pesquisa foi apresentada aos acadêmicos no horário regular da aula. Durante a apresentação, foi esclarecido o tema e os objetivos da pesquisa e disponibilizado o contato dos pesquisadores, para que os discentes interessados pudessem se voluntariar como participantes. Foram marcadas reuniões individuais com cada graduando interessado, para apresentar e discutir o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), deixando claro que eles poderiam desistir a qualquer momento da participação da pesquisa. Esse documento se configurou como uma etapa essencial para viabilizar a validação da ética e possibilitar a garantia do respeito aos direitos dos participantes envolvidos na pesquisa, a partir do que prega a Resolução CNS n° 466/2012. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Tiradentes (Aracaju-SE) sob o CAAE nº 56847716.6.0000.5371 e foi conduzida de acordo com os padrões éticos exigidos.
A entrevista com cada participante foi gravada, com duração mínima de 30 minutos e máxima de 1 hora e 30 minutos, composta pelas seguintes questões: “para você qual o significado da palavra morte?, “Diante do seu processo de formação acadêmica, como você se avalia em termos de competências e habilidades diante de uma possível perda de um paciente?”, “Faça uma breve reflexão sobre o que a morte desperta em você:”, “Como a temática da morte foi trabalhada, até agora, durante seu curso de formação?”, “Você gostaria de sugerir como este tema poderia ser trabalhado na academia?”.
Após as entrevistas, foi realizada a transcrição na íntegra dos dados coletados. Os arquivos com as transcrições foram enviados via e-mail, para que os participantes lessem e autorizassem ou não o uso do seu discurso.
Análise dos Dados
Para a compreensão das entrevistas semiestruturadas, utilizou-se a análise textual discursiva de Moraes e Galiazzi (2016), que tem como base uma perspectiva fenomenológica, na qual os fenômenos se manifestam de forma livre, sem que sejam impostos direcionamentos, o que torna a leitura dos dados verossímil e dialética. Além disso, nessa metodologia de análise, os dados apresentados na etapa qualitativa são construídos na perspectiva êmica, segundo a qual os dados não estão prontos e sim são construídos na interação pesquisador-entrevistado.
Nesta pesquisa, os dados processados na unitarização foram encaixados em categorias estabelecidas pelos pesquisadores, utilizando-se o método dedutivo, caracterizado como um movimento do geral para o particular, o que possibilitou construí-las antes de se analisar o corpus. Portanto, as categorias foram construídas deduzindo-as por meio da fundamentação teórica que embasou a presente pesquisa (Bardin, 2004; Moraes & Galiazzi, 2016).
É importante ressaltar que as categorias não são preestabelecidas, elas emergem numa categorização de novos sentidos e entendimentos, transformando gradativamente o conteúdo que inicialmente é indeciso e inseguro em categorias firmes e claras. Sendo assim, não foram desprezadas a desorganização e a desconstrução ao longo da pesquisa, dada a sua relevância para a emergência das categorias no movimento de compreensão dos pesquisadores durante as análises (Moraes & Galiazzi, 2016).
Contudo, isso não significa que esse método seja ágil e fácil de ser concluído, uma vez que é necessária a avaliação de conteúdo de forma profunda e repetitiva, na intenção de correlacionar fragmentos e de proporcionar a prevenção da categorização inadequada, validando-a (Moraes & Galiazzi, 2016). Desse modo, cada categoria descreve um conteúdo dentro de uma rede de ideias que propõe relatar novas compreensões. Logo, o pesquisador deve preocupar-se com os núcleos ou centros das categorias, afinal “as fronteiras são sempre vagas. Os conceitos não se definem nunca por suas fronteiras, mas a partir de seu núcleo” (Morin, 2003, p. 106). Por isso, o processo de categorização precisa dedicar-se a definir e evidenciar o núcleo das categorias emergentes, deixando que se defina o enlaçar das sobreposições das fronteiras, garantindo-se, dessa forma, a constituição de um todo incorporado (Morin, 2003).
Esse tipo de análise, a textual discursiva, possibilita tanto trabalhar com os significados explicitados pelo pesquisado quanto realizar uma análise da demanda latente ou implícita. Além disso, favorece o espaço para que o leitor entre em contato com os trechos das narrativas dos entrevistados e possa realizar as suas próprias análises sobre os discursos apresentados (Moraes & Galiazzi, 2016).
A etapa subsequente consiste em comunicar as compreensões emergentes, para que o pesquisador produza novas compreensões e sentidos que são expressos através da linguagem escrita, de modo complexo e aprofundado. Vale pontuar que o recorte e a percepção do pesquisador geram uma nova compreensão acerca dos sentidos apresentados pelos participantes. O objetivo dessa fase é que seja construído um metatexto que tem como matriz o texto inicial que será reformulado, fragmentado e relacionado com outros discursos, além de proceder ao acréscimo das pontuações do pesquisador, realizadas com embasamento na literatura sobre o fenômeno estudado (Moraes & Galiazzi, 2016).
Resultados e Discussão
O processo de análise das entrevistas possibilitou o surgimento de quatro categorias, sendo elas: significados e conceitos da morte e do morrer (como a ideia é definida pelos estudantes); desafios e sentimentos que emergem diante da morte e do morrer (quais dificuldades e sentimentos são apresentados ao lidar com a morte e o morrer); e a temática da morte e do morrer nos cursos de graduação da área da saúde (como essa temática é compreendida ou não no processo de formação destes estudantes).
Significados e Conceitos da Morte e do Morrer
Destacando-se como primeira categoria os “significados e conceitos da morte e do morrer”, percorre-se a dificuldade de falar ou de definir significativamente a morte e o morrer com naturalidade, dificuldade esta que se apresenta por meio de uma significação que busca acolher esse desafio. O sentido da palavra morte é estranho e causa desconforto na maioria das pessoas, apresentando ideias que recaem sobre a compreensão biológica, mas que, socialmente, são interpretadas como algo que não deveria fazer parte do ciclo vital (Sartori & Battistel, 2017). A maioria dos participantes da pesquisa apresentou a ideia que evidencia a morte e o morrer como o fim de tudo, o fim da vida ou o fim de um ciclo. Selecionaram-se alguns discursos que demonstraram esse entendimento como uma etapa natural da vida, mas que pode vir acompanhado de dificuldades para definir a morte: “A morte, para mim, é uma passagem. No caso da vida, o seu ciclo. Terminando seu ciclo. Nasceu, cresceu e morreu. É isso, fim do ciclo” (aluno 1 do 1° período de Fisioterapia); “Não estou conseguindo achar uma palavra certa para dizer, mas eu acho que tudo se resume ao fechamento de um ciclo” (aluna 1 do 10° período de Fisioterapia); “Eu acho que é a ausência do sentimento de vida, tanto biológico quanto psicológico” (aluna 1 do 5° período de Psicologia); e “Para mim, além de algo natural, é o fim” (aluno 2 do 10° período de Psicologia).
Embora a morte e o morrer se apresentem nos discursos como um evento natural da vida, é possível pontuar que tal compreensão não é simples e toca em questões de cunho cultural e social, o que é representado no discurso de um dos entrevistados:
Eu vejo a morte como algo natural, porém é algo que nós, seres humanos, não estamos preparados. Porque eu acredito que nós não fomos criados para a morte. Então sempre que nós perdemos alguém, existe a dor, existe ausência. (aluna 1 do 6° período de Medicina)
O homem, como um ser racional, é capaz de identificar a aproximação da morte e, por meio de suas experiências sociais, religiosas e culturais, desenvolve sua representação pessoal diante do processo de finitude e da morte (Hoffmann et al., 2021). Sendo assim, seu significado pode ser associado ao sentido de perda ou de separação. Esse entendimento surgiu nos discursos dos cursos de Medicina e Enfermagem: “Fim da vida é [pausa] não só da pessoa, mas uma perda da família e dos amigos também” (aluna 2 do 1° período de Medicina); e “(...) a morte significa mais a separação, né? Em não ter mais contato, em não ver, em não falar, em não abraçar, né?” (aluna 1 do 10° período de Enfermagem).
Desse modo, compreende-se que a separação pode remeter à vivência de uma perda, resultante não apenas da ausência ou do afastamento de pessoas queridas, mas também do desaparecimento consciente ou inconsciente de sonhos, expectativas e desejos impossíveis. A interpretação e os significados atribuídos à morte é o que permite a cada indivíduo guiar e expressar seus sentimentos em busca de aliviar suas dores e de conviver com a perda, facilitando o contato com o fim da vida (Monteiro, 2022).
As interpretações espiritualistas da morte são muito comuns e representam uma das formas mais antigas de enfrentamento. A possibilidade da continuidade da vida após a morte encobre e reprime a ideia indesejada ou possibilita um entendimento de uma despedida aceitável (Elias, 2007; Perboni et al., 2018). Essa identificação que expressa um entendimento de uma possível continuidade da vida prevaleceu nas respostas dos alunos dos cursos de Psicologia e de Fisioterapia, conforme alguns exemplos destacados: “Para mim a morte é você sair dessa vida e ir para outra. Eu acredito que existe uma outra vida após a morte, entendeu? É isso que significa morte para mim, é um renascimento na verdade” (aluna 1 do 1° período de Psicologia) e:
Passagem [silêncio] passar para outra, assim, deixar de estar nessa vida. É o que eu acredito, é a minha crença, né. É encerrar essa vida e passar para outra vida, você vai para outro plano, você só se desmaterializa, uma passagem. (aluna 2 do 10° período de Fisioterapia)
Nesse sentido, as expressões de significados que contêm um caráter de base espiritualista estão intimamente ligadas à busca pelo sentido da vida, já que a espiritualidade é compreendida como uma ferramenta que possibilita ao sujeito essa busca, podendo estar relacionada à religiosidade ou não (Arrieira et al., 2018). Corroborando a ideia apresentada, Lima e Machado (2018) afirmam que as concepções espiritualistas buscam um sentido confortador para a morte e para o sofrimento, preenchendo as dúvidas e angústias acerca do evento da morte. Esse pensamento foi representado pelas palavras que foram colocadas pelo aluno 1 do 10° período de Psicologia: “É confortável pensar que existe vida após a morte, que existe Deus”.
Em suma, de um modo geral, essa categoria demonstrou uma variedade de entendimentos acerca dos significados da morte e do morrer, incluindo entendimentos que buscam acolher e facilitar a percepção e os sentimentos decorrentes da finitude humana.
Desafios e Sentimentos que Emergem Diante da Morte e do Morrer
Na segunda categoria, destacam-se os “desafios e sentimentos que emergem diante da morte e do morrer”, trazendo-se uma compreensão do sentir e das dificuldades dos graduandos no processo de enfrentamento desse momento. Sendo assim, foi possível identificar que é comum entre os estudantes dos diversos cursos a demonstração de temores e dúvidas que influenciam a prática da profissão, levando-os a considerá-la uma atuação profissional difícil e de muita dor. Nos trechos selecionados foi possível observar que os sentimentos mais recorrentes são o medo, a dor, a tristeza, a angústia, a insegurança e a impotência: “Eu, particularmente, temo muito. Não é muito confortável não saber. (...) Medo. Acho que medo. Medo do que a gente não consegue entender, saber, controlar. É uma ameaça que está aí o tempo todo, não é?!” (aluno 1 do 10º período de Psicologia).
Sob o olhar psicológico, o medo é o sentimento mais comum diante da morte. O medo de morrer é universal e atinge todos os seres humanos, independentemente da idade, do sexo, do nível socioeconômico e da crença religiosa (Kovács, 2005). Esse sentimento aparece devido à ideia de finitude que a morte apresenta e à incerteza de quando pode acontecer, como relata o acadêmico citado acima.
Consegue-se notar uma resistência em vivenciar a morte do outro, principalmente quando esse outro faz parte do rol de familiares e amigos, conforme os discursos: “Eu não tenho medo da morte, uma hora chega para qualquer pessoa. Mas eu temo pela morte dos outros. A minha morte eu não tenho medo, mas pela morte dos outros eu me sensibilizo, eu temo pelos outros” (aluna 2 do 10° período de Fisioterapia); “Para mim, assim, me separar da minha mãe, é uma coisa de outro mundo. Eu não penso em me separar dela, mas se eu perder, um dia, a minha mãe, não sei mais o que fazer da minha vida” (aluna 1 do 1° período de Enfermagem);
Na verdade, quando eu penso na minha morte, eu penso e enfrento de forma natural, como algo que vai acontecer. Mas quando eu penso na morte de algum ente querido, para mim, isso me traz preocupação, isso me traz, mesmo que antecipadamente, a tristeza pela perda e pela ausência da pessoa. (aluna 1 do 6 º período de Medicina)
Em situações de impacto e elevado estresse, como a pandemia de covid-19, o estudante em campo de prática vivencia fatores estressores como o medo da infecção (em si e em familiares) e a frustração ao lidar com desfechos negativos de pacientes e colegas (Anido et al., 2021). Para o estudante que atua com situações desfavoráveis que envolvem a morte é necessário um bem-estar psicológico, que tem uma tênue relação com o prazer de viver e que influencia na redução das inseguranças de sua condição de vida e remete a uma aceitação positiva da morte. Uma atitude positiva diante de possíveis inseguranças acerca do processo de finitude humana ampliará as possibilidades dos cuidados necessários para melhor acolher o paciente (Kim, 2019).
A palavra morte, por ser um fenômeno ligado ao desconhecido e à interrupção, remete-se a associações de sentimentos como tristeza, angústia e impotência, já que o estudante e, consequentemente, o profissional atuante na área da saúde têm suas atitudes baseadas em normas e condutas que salvam vidas e que têm como pretensão evitar a morte (Arantes, 2019). “A primeira coisa que a morte desperta é tristeza. Porque realmente a morte significa que aquela pessoa não vai estar mais presente na vida daqueles que viviam com ela” (aluno 2 do 6º período de Medicina); “Primeira coisa que vem na minha cabeça quando se fala em sentimentos é uma tristeza bem profunda, e a depender do vínculo que você tenha com essa pessoa, um desespero, um desgaste emocional, acho que é isso” (aluna 2 do 10º período de Psicologia); “É um momento que, mesmo sem aceitar e sem entender, é um turbilhão de sentimentos, de tristeza, de lembranças e ficamos sem entender o porquê que aquilo está acontecendo naquele momento com nós” (aluno 1 do 5º período de Enfermagem); “Desconhecimento, [pausa] porque é uma coisa que a gente ainda não sabe o que acontece depois e causa uma certa angústia também” (aluna 2 do 1º período de Medicina);
A morte na verdade, sempre nos traz uma certa insegurança, uma certa inquietude em relação a isso. É muito vago assim, para mim, para tentar descrever isso, mas eu acho que seria uma sensação de impotência mesmo, assim diante disso. (aluna 1 do 12º período de Medicina)
Essas narrativas validam o sentimento que prevalece nos estudantes, futuros profissionais da área da saúde, diante da morte, já que pode haver uma variação de acordo com o contexto e com a vivência em que o indivíduo está inserido, sendo a vinculação com o paciente uma parte importante dentro desse conjunto de fatores que influenciam a sua maneira de lidar com esse processo. Confrontar-se rotineiramente com o fenômeno da morte durante a prática clínica é um desafio para exercer o cuidado da saúde e nem sempre os cuidadores, cujo ideal seria “encontrar e expressar a crença no sentido da vida e da morte” (Saunders, 1978, p. 728) enquanto válvula de segurança e suporte, se sentem aptos a administrar essa situação.
Acerca desse processo de cuidado e sobre seu processo educativo, observa-se que o ato de cuidar contempla características de uma função humana e profissional. Dessa forma, os indivíduos que integram uma equipe de cuidado em saúde serão instituídos como semelhantes aos pacientes e a seus familiares, compartilhando suas premissas de vulnerabilidade e de humanidade diante da morte, o que lhes possibilita a habilidade de reconhecer e de compreender suas necessidades (Betancur, 2016). Os trechos selecionados apresentam a ideia do quão desafiadora e dolorosa é a prática na visão desses acadêmicos, quando essa atuação está relacionada ao fenômeno da morte: “Até o momento, eu perdi dois pacientes apenas e soube lidar mais ou menos com isso. Não eram pacientes tão próximos, mas foi difícil de lidar com isso” (aluna 2 do 10º período de Fisioterapia);
Eu acho que a maior dificuldade que a gente tem, embora a gente sofra, a gente se apega ao paciente, que a gente sofra com a morte deles e com a perda. Eu ainda acho que a maior dificuldade é em lidar com a família do que com a perda do paciente. (aluna 2 do 12º período de Medicina)
É difícil imaginar. Na verdade, eu sei que é possível. Inclusive eu tive pacientes com alto risco suicida e por mais que a gente se prepare, por mais que haja uma terapia que se faz necessária, pensar na perda daquele paciente nos traz um certo anseio emocional, né? No caso desse paciente que citei, eu fiquei bastante confuso, abalado em relação, por exemplo, quando ele faltava. (aluna 2 do 10° período de Psicologia)
Esse entendimento de uma atuação dolorosa dentro dos enfrentamentos dos processos da morte e do morrer se apresenta, nos discursos dos acadêmicos, com uma estreita ligação à impotência gerada por uma ideia de que, embora existam diversos recursos tecnológicos suficientes para o prolongamento da vida, nem sempre isso é possível. Foram selecionados alguns trechos que demonstraram a impotência e a fragilidade em decorrência da consciência da finitude da vida: “(...) é constrangedor né? Você vê um paciente morrendo na sua frente e não poder fazer mais nada. Aí, é você... sente a dor dos familiares” (aluna 2 do 5° período de Enfermagem);
É um momento que exige muita preparação mental e a pessoa tem que saber lidar com isso, porque não é uma coisa simples. É uma coisa que vai muito além, porque você não vai lidar apenas com paciente, você precisa lidar com toda uma estrutura de família e de amigos. E muitas vezes as pessoas culpam o profissional, ainda mais o médico, que cuida muito, que está ali para curar (...). (aluna 2 do 12º período de Medicina)
Nesse contexto, pode-se refletir que existe um crescente avanço tecnológico na área médica que contribui para o desenvolvimento de uma mentalidade de manutenção da vida. Nessa perspectiva, não conseguir evitar ou adiar a morte pode causar a sensação de fragilidade e impotência (Kovács, 2014). Dentro desse incessante movimento de lutar contra a morte, encontram-se algumas formas particulares de tentar minimizar os possíveis sofrimentos diante da finitude da vida, de modo que se torna comum o desenvolvimento da naturalização da morte. Mas o movimento de naturalizar esse processo exige cuidado, para se evitar que as condutas de cuidado se tornem tecnicistas e comprometam a possibilidade de oferecer um olhar humanizado para o paciente assistido (Matta et al., 2020).
A impotência também surge em um dos discursos de uma estudante de Psicologia, só que, dessa vez, aparece com a compreensão de que trabalhar os fatores psicológicos é ainda mais desafiador:
(...) quando é uma doença, por exemplo um câncer, a minha visão é um pouco diferente. Porque a pessoa sofre antes, tem um sofrimento antes. Não é que quando a pessoa se mata, não tenha sofrimento. É lógico que ela estava sofrendo, mas eu não sei... eu acho que é um tema muito mais complicado, sabe?! Então, eu não sei... é como se uma doença no corpo, a gente conseguisse arranjar uma justificativa. Mas algo psicológico não é tão fácil. (aluna 1 do 5° período de Psicologia)
Por consequência, os estudantes, ao vivenciarem a prática clínica, se deparam com diversas reflexões acerca da impotência em diversos aspectos da sua própria vida e também da vida do moribundo e, diante dessa rotina estressante de perda, torna-se comum recorrerem à insensibilidade para suportarem melhor o seu cotidiano. A maneira de lidar com a morte marcada pela frieza se torna quase uma habilidade e uma competência adquirida, já que enfrentar a morte com um afastamento gera uma sensação de minimização da dor e, de forma indireta, também do sentimento de fracasso (Barbosa & Massaroni, 2016). Essa ideia é expressa por uma aluna de Enfermagem no trecho transcrito a seguir:
(...) Não sei se eu teria força que um profissional deve ter, lógico que isso a gente vai adquirindo com um tempo, mas não sei se teria a frieza, a palavra mais certa seria frieza, que o profissional da saúde precisa adquirir essa competência e eu sei disso, mas eu acho que eu vou demorar um pouquinho porque eu sou muito sentimental. (aluna 1 do 10º período de Enfermagem)
Essa impotência é decorrente da educação e/ou do treinamento ilusório que são concedidos aos futuros profissionais, permeados pela tentativa de exercer um poder sobre a morte (Arantes, 2019). Sendo assim, para uma atuação clínica satisfatória é necessário o aperfeiçoamento de aptidões que assumam o sentido de cuidar, indo além da ideia de curar, por meio de uma sensibilidade capaz de integrar os aspectos biológicos, subjetivos e relacionais (Proença et al., 2021).
A Temática da Morte e do Morrer nos Cursos de Graduação da Área da Saúde
Por último, aborda-se a categoria que trata da temática morte nos cursos de graduação em saúde. Por meio dessa categoria, busca-se identificar se acontece e de que maneira acontece a preparação dos acadêmicos para o enfrentamento da morte dentro do contexto da área da saúde. Nesse âmbito, Perboni et al. (2018) pontuam que a insuficiência do suporte para lidar com os aspectos da finitude humana durante a formação acadêmica pode fragilizar emocionalmente o estudante, impactando-o com reações desfavoráveis diante do cuidado necessário com o paciente.
Selecionaram-se alguns trechos que representam, de modo geral, a opinião dos entrevistados sobre o modo como é contemplado o tema da morte e do morrer durante a formação acadêmica: “Para ser sincera, tipo assim, até agora durante o curso, acerca da morte eu não acrescentei nada ao que eu já tinha. Sabe?! Eu sinto este assunto muito pouco explorado aqui” (aluna 1 do 5° período de Psicologia); “A gente só teve uma matéria que falava sobre isso, foi pouco trabalhado. Teve outras disciplinas na grade que, para mim, era menos importante do que essa disciplina de Psicologia da Saúde” (aluno 1 do 10° período de Fisioterapia); e “Então, é muito pouco trabalhado e aqui puxando da minha memória, se eu tive uma matéria que passou um pouquinho sobre esse assunto, não foi nem uma temática bem direcionada” (aluno 2 do 10º período de Enfermagem).
Sendo assim, o discurso dos estudantes atesta que a temática da morte é abordada de modo ocasional e superficial durante a formação profissional, não oportunizando ao aluno pensar sobre a perda do paciente e sobre a consequência de não assimilar essa perda. Ou seja, nos cursos, não há espaço para pensar o impacto afetivo que envolve o processo de adoecimento e de morte, tanto dos pacientes quanto dos futuros profissionais. Assim, a morte não se apresenta de forma significativa dentro da prática clínica, o que evidencia uma atuação tecnicista que pode gerar reações negativas de distanciamento emocional e a sensação de incapacidade (Borges & Mendes, 2012).
Ainda na perspectiva da ausência dessa temática durante a formação dos profissionais da saúde, os estudantes de Medicina relataram que tiveram um breve contato com o tema, ressaltando a necessidade de se prepararem para comunicar aos familiares a notícia de falecimento do paciente.
A questão da perda do paciente foi tratada nas aulas de habilidade de comunicação. Teve até uma aula que o professor pediu, era uma aula de transmissão de notícias ruins, que nós como estudantes deveríamos simular uma situação na qual nós iríamos transmitir uma notícia ruim. (aluna 1 do 6° período de Medicina)
A gente tem uma matéria de habilidade de comunicação, que eles querem trabalhar um pouco do que é a morte, do que é o processo de morte, o estudo da tanatologia, o estudo do processo de morte, o estudo do fim da vida, eles tentam trabalhar um pouquinho disso com a gente. Mas isso é no primeiro ou segundo período. É no início e é um momento que a gente não tem muito contato com o paciente em processo de morte. Aí meio que a gente vê, mas que fica lá mesmo, aí acaba que a gente não traz muito isso. (aluna 2 do 12° período de Medicina)
Nesse contexto, o método educativo segue a lógica médico-biológica, que oferta uma capacitação potencialmente explicativa acerca dos aspectos da saúde e da doença, ou da vida e da morte. Porém, as discussões sobre a morte devem ir além dos aspectos científicos, buscando compreender a dignidade humana. Para isso, é necessário contemplar condutas, princípios e valores que compreendem uma equipe multidisciplinar harmônica e sintonizada da qual os futuros profissionais de saúde, desejavelmente, farão parte (Kovács, 2014; Machado et al., 2015).
Segundo Kovács (2009), a educação para a morte intenciona encontrar o sentido em que esta pode se apresentar à vida, proporcionando a ambas um desenvolvimento amplo e completo. Por conseguinte, esse processo educacional permite que os futuros profissionais se mostrem preparados para lidar com a morte em contato com sua própria subjetividade e com a subjetividade daquele que está sob seus cuidados. Contudo, tal fenômeno não se dá por meio de uma doutrina preestabelecida, mas na vivência cotidiana dos fazeres do campo da saúde, abarcando particularidades cognitivas e emocionais para que o estudante tenha a oportunidade de refletir e de discutir sobre sua atuação direcionada a um cuidado humanizado (Kovács, 2009). No contexto da pandemia de covid-19, por exemplo, os estudantes – no âmbito da prática – se depararam com a necessidade de conhecer e se adaptar ao novo, indo além de uma concepção tecnicista, ampliando as possibilidades de práticas e pesquisa científica (Anido et al., 2021).
Logo, o processo de educação deve promover discussões na busca da reumanização da morte. Dar voz aos medos e angústias da condição humana é um importante passo para isso, visto que pode dar ao aluno a oportunidade de compreender as subjetividades que estão relacionadas a um processo da morte e do morrer humanizado. Em outras palavras, o cuidar exige compreender essa etapa da condição humana, dignificando o acolhimento afetivo e ampliando as possibilidades de cuidados da saúde (Lima & Andrade, 2017).
Nessa direção, destaca-se que as áreas da saúde que têm uma proposta de atuação mais vinculada com situações hospitalares se deparam com um entendimento sobre a morte que o coloca como algo de fundamental importância (Santos et al., 2022). Alguns discursos demonstraram a relevância de falar e pensar sobre as possibilidades que rodeiam o contexto da finitude humana: “(...) eu sugeria é que tivesse realmente uma matéria destinada a isso. Como os profissionais de saúde poderiam lidar com a morte, com a situação da morte e com sentimentos e emoções diante daquele acontecimento dentro do ambiente profissional” (aluna 1 do 10° período de Enfermagem); “(...) eu acho que deveria ser um assunto mais rotineiro, com palestra, discussões. A gente sabe que muitas pessoas não buscam esse entendimento por livre e espontânea vontade” (aluna 2 do 10° período de Fisioterapia).
Enfim, lidar cotidianamente com a morte é ter a capacidade de saber auxiliar os indivíduos, nesse caso, os pacientes, a viverem até o dia em que a morte chegar. Para que isso aconteça, é necessário que o processo de educação esteja aliado a esse entendimento de integralidade do ser humano, viabilizando a aquisição da compreensão de que a morte é um fenômeno natural para todos, mas também que faz parte de um processo de subjetividade no qual cada sujeito se organiza, se descobre e se realiza de maneira particular até o final do processo da completude humana (Arantes, 2019).
Considerações Finais
Por meio do estudo realizado, foi possível constatar que a morte causa uma grande desordem nos acadêmicos da área da saúde, gerando tristeza, dor, medo, impotência e insucesso. Essa representação pode ser fundamentada pelo foco que permeia a educação desses estudantes quanto ao modo de cuidar dos pacientes e, posteriormente, na atuação profissional. Essa maneira de cuidado é baseada na busca constante da saúde, ou seja, no processo de curar a doença e no prolongamento da vida, não configurando, dessa forma, uma prática integrada e humanizada.
Por outro lado, verificou-se, em alguns discursos, a presença de ideias humanas e positivas voltadas ao cuidado integral do ser, o que favorece uma boa capacitação profissional e um ambiente que possibilite a troca de saberes. Porém, mesmo com o aparecimento desses discursos, percebe-se o quanto o processo da morte e do morrer gera uma instabilidade física, psíquica e emocional no ser humano, nos acadêmicos da área de saúde em específico, já que os provoca a refletir sobre a sua própria finitude diante da morte do outro.
É necessário abrir espaços para a discussão coletiva dessa temática, o que poderá oferecer aos acadêmicos uma construção reflexiva sobre as teorias relacionadas a ela. Uma base teórica sólida e consistente é o auxílio necessário para o constante processo de ressignificação de valores que abarca o equilíbrio das experiências junto à finitude humana, ou seja, é essencial que esse assunto seja incessantemente estudado e refletido, para possibilitar uma prática profissional digna e eficiente. Logo, é imprescindível assumir como desafio a construção de um novo olhar para os cuidados que se apegam à cura, visto que trazem consigo uma grande influência cultural. Como exemplo prático, tem-se o período pandêmico que exigiu uma ressignificação da prática de cuidados diante de tantas pessoas, inesperadamente, lutando pela preservação da vida.
O estudo apresentou limitação quanto à concentração regional e institucional, pois ficou restrito a uma única instituição privada numa única cidade. Uma possível ampliação em futuros estudos seria em outras instituições, tanto públicas quanto privadas, e, também, possivelmente, em outros estados brasileiros. Visualiza-se também a necessidade de se realizarem novos estudos que explorem a experiência profissional diante da morte, bem como englobem todos os profissionais ligados ao processo educacional, para assim tornar compreensível a forma como a morte é representada socialmente no ambiente acadêmico. Dessa forma, se teria uma compreensão mais abrangente acerca do tema em outros cenários. Após a pandemia de covid-19 é pertinente que estudos sobre a temática sejam feitos, devido ao adoecimento de profissionais e estudantes da saúde que atuaram nas linhas de frente e o elevado número de óbitos pela doença.
Os resultados da pesquisa podem servir de base para formulação de políticas públicas e diretrizes curriculares que preparem os estudantes universitários da área da saúde para desafios inerentes às profissões que almejam, especialmente no que se refere à morte e o morrer que acontecem rotineiramente.














