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Revista Subjetividades

versão impressa ISSN 2359-0769versão On-line ISSN 2359-0777

Rev. Subj. vol.24 no.1 Fortaleza  2024  Epub 20-Mar-2026

https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v24i1.e13427 

Estudos Teóricos

Neoliberalismo e Supereu: Uma Leitura sobre a Gestão do Mal-Estar Contemporâneo

Neoliberalism and super-Me: A reading on the management of contemporary malaise

Neoliberalismo y Superyó: Una lectura sobre la gestión del malestar contemporáneo

Néolibéralisme et surmoi : une lecture sur la gestion du malaise contemporain

Tiago Humberto Rodrigues Rocha1 
http://orcid.org/0000-0003-4178-0616; lattes: 8939587204155297

Luciano Henrique Moreira Santos2 
http://orcid.org/0000-0002-7289-1717; lattes: 2613360075056817

1Psicólogo, Psicanalista, Professor Adjunto na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP-SP) e Doutor pela Université de Rennes 2 (França). Mestre em Psicologia Aplicada pela Universidade Federal de Uberlândia e especialista em Clínica Psicanalítica pela mesma Universidade. Atualmente desenvolve pesquisas na áreas de Psicanálise, Saúde Mental e Sociedade. tiago.rocha@uftm.edu.br

2Mestrando em Psicologia, com ênfase em Psicanálise e Cultura, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com fomento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Bacharel em Psicologia pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Participa do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (GEPPSE-UFTM) e do Núcleo de Estudos Psicanálise, Cultura e Política da Universidade Federal de Uberlândia. lucianohenrique32@hotmail.com


Resumo

Compreender as emaranhadas relações entre o neoliberalismo e a subjetividade humana se constitui o principal escopo deste estudo. Outrossim, a partir disso, busca-se, também, apreender sistematicamente as tessituras associativas do estatuto do Supereu com a lógica de funcionamento neoliberal, de modo a estabelecer nexos de ligação junto ao fenômeno psíquico da autoridade e do autoritarismo. Esta pesquisa parte de uma perspectiva baseada, fundamentalmente, no método de investigação psicanalítico, cujo parâmetro se sustenta na premissa da análise interpretativa de fenômenos subjetivos e sociais. Assim, é possível pensar que no contemporâneo há modos de subjetivação que se encontram esvaziados pelo que, outrora, era regulada pela função paterna, pelo Nome-do-Pai. Esse fato corrobora a efetivação de um funcionamento social traçado pelo chamado imperativo de gozo, que se traduz na assídua demanda por felicidade, o que foi denominado, por alguns autores, por hedonismo exacerbado. Há, no entanto, um resto que é produto dessa manifestação comunitária: o desamparo. Similarmente, há uma proposição paradigmática que estabelece um modo de defesa estrutural que traduz a especificidade do período contemporâneo, chamado de desmentido da privação. Esse conceito erige a concepção da imagem não-introjetada da função paterna, o que engloba a sua queda estatutária; resulta, assim, uma constituição psíquica fundada na radicalidade rigorosa do Supereu, por meio da sua imperiosa deliberação: goza! Por fim, a contemporaneidade é engendrada, de um ponto de vista, como um hiato marcado pela negação do regimento da Lei fundante. Sobre isso, a partir da queda do estatuto da alteridade, o neoliberalismo se constitui como gerenciador das políticas do sofrimento subjetivo do mundo contemporâneo, do mal-estar humano. Assim, a articulação entre o Real, o Simbólico e o Imaginário pode ser pensada de maneiras distintas do que havia sido expresso em períodos anteriores.

Palavras-chave sujeito contemporâneo; política; supereu; autoritarismo; desamparo

Abstract

Understanding the tangled relationships between neoliberalism and human subjectivity constitutes the main scope of this study. Furthermore, based on this, we also seek to systematically grasp the associative textures of the Super-Me's status with the logic of neoliberal functioning to establish links with the psychic phenomenon of authority and authoritarianism. This research was, fundamentally, based on a psychoanalytic research method perspective, whose parameter is based on the premise of the interpretative analysis of subjective and social phenomena. Thus, it is possible to think that in contemporary times, there are modes of subjectivation that are emptied by what, in the past, was regulated by the paternal function, by the Name-of-the-Father. This fact corroborates the implementation of a social functioning outlined by the so-called imperative of enjoyment, which translates into the assiduous demand for happiness, which has been called, by some authors, exacerbated hedonism. There is, however, a reminder that is a product of this community manifestation: helplessness. Similarly, there is a paradigmatic proposition that establishes a structural defence mode that reflects the specificity of the contemporary period, called the denial of deprivation. This concept erects the conception of the non-introjected image of the paternal function, which encompasses its statutory fall; this results in a psychic constitution based on the rigorous radicality of the Super-Me through its imperious deliberation: it enjoys! Finally, contemporaneity is engendered, from a point of view, as a hiatus marked by the denial of the founding Law. And about this, from the fall of the status of otherness, neoliberalism constitutes itself as a manager of the policies of subjective suffering in the contemporary world of human malaise. Thus, the articulation between the Real, the Symbolic, and the Imaginary can be thought of differently than what had been expressed in previous periods.

Keywords contemporary subject; politics; superego; authoritarianism; helplessness

Resumen

Comprender las enmarañadas relaciones entre el neoliberalismo y la subjetividad humana se constituye el principal escopo de este estudio. Además, a partir de esto, se busca, también, aprehender sistemáticamente las tesituras asociativas del estatuto del Superyó con la lógica de funcionamiento neoliberal, de modo que se establezcan nexos de ligación junto al fenómeno psíquico de la autoridad y del autoritarismo. Esta investigación se basa, fundamentalmente, en una perspectiva del método de investigación psicoanalítico, cuyo parámetro se sostiene en la premisa del análisis interpretativo de fenómenos subjetivos y sociales. Así, es posible pensar que en el contemporáneo hay modos de subjetivación que se encuentran vaciados por lo que, antes, era regulada por la función paterna, por el Nombre-del-Padre. Este hecho corrobora la efectivización de un funcionamiento social trazado por el llamado imperativo de gozo, que se traduce en la asidua demanda por felicidad, lo que fue denominado, por algunos autores, por hedonismo exacerbado. Sin embargo, hay un restante que es producto de esta manifestación comunitaria: el desamparo. Similarmente, hay una proposición paradigmática que establece un modo de defensa estructural que traduce la especificidad del periodo contemporáneo, llamado de desmentido de la privación. Este concepto erige la concepción de la imagen no-introyectada de la función paterna, lo que engloba su caída estatutaria; resulta, así, una constitución psíquica fundada en la radicalidad rigurosa del Superyó, por medio de su imperiosa deliberación: ¡goza! Por fin, la contemporaneidad es generada, ante un punto de vista, como un hiato marcado por la negación del regimiento de la Ley fundante. Y acerca de esto, a partir de la caída del estatuto de la alteridad, el neoliberalismo se constituye como gestor de las políticas del sufrimiento subjetivo del mundo contemporáneo, del malestar humano. Así, la articulación entre lo Real, el Simbólico y el Imaginario, puede ser pensada de maneras distintas de lo que había sido expreso en periodos anteriores.

Palavras chave sujeto contemporâneo; política; superyó; autoritarismo; desamparo

Résumé

Comprendre les relations enchevêtrées entre le néolibéralisme et la subjectivité humaine est le principal objectif de cette étude. De plus, à partir de là, on cherche également à appréhender systématiquement les tessitures associatives du statut du surmoi avec la logique du fonctionnement néolibéral, afin d'établir des liens avec le phénomène psychique de l'autorité et de l'autoritarisme. Cette recherche a été proposée dans une perspective basée, fondamentalement, sur la méthode d'investigation psychanalytique, dont le paramètre se constitue sur la prémisse de l'analyse interprétative des phénomènes subjectifs et sociaux. Ainsi, il est possible de penser que dans le contemporain il y a des modes de subjectivation qui sont vidés par ce qui était autrefois régulé par la fonction paternelle, par le nom-du-père. Ce fait corrobore l'efficacité d'un fonctionnement social tracé par le soi-disant impératif de jouissance, qui se traduit par la demande assidue de bonheur, qui a été appelée, par certains auteurs, par un hédonisme exacerbé. Il y a cependant un repos qui est le produit de cette manifestation communautaire : l'impuissance. De même, il existe une proposition paradigmatique qui établit un mode de défense structurelle qui traduit la spécificité de la période contemporaine, appelée déni de privation. Ce concept établit l'idée de l'image non introjectée de la fonction paternelle, incluant sa chute statutaire ; cela résulte ainsi à une Constitution psychique fondée sur la rigueur radicale du surmoi, à travers son impératif délibérant : jouissez ! Enfin, la contemporanéité est souvent perçue, d'un point de vue, comme un hiatus marqué par la négation du règlement de la loi fondatrice. Et sur ce, dès la chute du statut d'altérité, le néolibéralisme se constitue en gestionnaire des politiques de la souffrance subjective du monde contemporain, du malaise humain. Ainsi, l'articulation entre le Réel, le symbolique et l'imaginaire, peut être pensée de manière différente de ce qui avait été exprimé dans les périodes précédentes.

Mots-clés sujet contemporain; politique; surmoi; autoritarisme; abandon

Alguns aspectos fundamentais para a compreensão da contemporaneidade

A contemporaneidade, segundo Han (2015), é marcada por um excesso de positividade; pela substituição da alteridade pela indiferença, à falta de estranheza. Nessa linha, a estranheza se aniquila em um paradigma próprio de consumo. Dizer que a alteridade foi substituída, isto é, desapareceu, significa dizer que a época atual é desvalida de negatividades. Han (2015) denomina de dialética da negatividade o processo de negação do outro por um Eu, ou seja, é a partir do não reconhecimento do outro que o sujeito irá se afirmar, se autoafirmar. A negatividade, nessa perspectiva, implica no fato de que a existência humana é, por si só, sublinhada pela diferença entre as pessoas. Birman (2017), por sua vez, sugere que a via que estabelece o laço social perpassa o âmbito do reconhecimento de que há distinção entre os sujeitos de uma sociedade. Por outro ângulo, a positivação do mundo, como proposto por Han (2015), faz surgir novas formas de violência: violências imanentes ao próprio sistema – o sistema neoliberal.

Segundo Lebrun (2008), hoje em dia os modos de regulação social não funcionam como funcionavam anteriormente: a norma, isto é, a compreensão e a aceitação da Lei, o ideal que é compartilhado de maneira coletiva e a hierarquização transmitida pela tradição são severamente questionados. Para o autor, há uma crise de legitimidade, uma crise de referências.

Já para Dardot e Laval (2016) vivemos, notadamente, em um período marcado pelo progresso de algo que nasceu há um certo tempo e isto é uma possível ilustração do vivente, um desenho, uma imagem, um perfil humano, portanto, uma invenção antropológica. O homo economicus, conforme nomeado por Foucault (2008), apareceu a partir de uma enorme variedade de escritos e pensamentos do século XVI, cujo objetivo foi, evidentemente, a tentativa de substituição da efígie clássica da pessoa cristã, virtuosa e casta, por um novo ser, moral e imoral, concomitantemente que, por meio do cálculo, mantém relações com os outros e, sobretudo, poderia ser dirigido, educado e governado por seu interesse. Eis, aqui, a raiz, em germe, do mundo hodierno.

O ocidente é, predominantemente, regido pelo modo de regulação econômico e social neoliberal. Este, por sua vez, se baseia em uma lógica normativa conduzida por políticas, não somente pela expansão dos mercados. Dessa maneira, segundo Dardot e Laval (2016), ocorre a redução do Estado à posição de mero “garantidor” de que a lógica mercadológica funcione plenamente em todas as instâncias da vida dos sujeitos, pois não há separação entre a economia do resto das atividades sociais e políticas. Para Dunker (2015), a economia age, nesse sentido, com o intuito de infligir dor à pessoa, de modo que o Estado fique em uma posição “suspensa”, o que faz com que as condições mais degradantes de vida possam ser, de fato, consumadas.

Em síntese, o pensamento neoliberal é marcado por uma racionalidade capitalista que sai do marco econômico, produz uma lógica político-cultural que tira do capitalismo seu modo de funcionamento para aplicá-lo a outras esferas. Afirma-se, perante isso, que todas as relações sociais e humanas são regidas pelas normas da concorrência, premissa básica da performance do capital; competitividade, per se, se torna um princípio, um fundamento, em todas as áreas, sem exceção (Dardot & Laval, 2016).

Diante da norma da concorrência, desse imperativo do mercado, o que se impõe é, rigorosamente, o modelo de gestão empresarial. Tal modelo se aplica a todas as pessoas da sociedade neoliberal; os indivíduos se tornam “empreendedores de si mesmos”, operam formalmente como capital a serem administrados e a tarefa, diante disso, é acumular valor, isto é, autovalorização: os sujeitos devem se valorizar como um capital (Dardot & Laval, 2016).

O neoliberalismo, pois, é uma racionalidade específica, singular, que associa aspectos particulares: o fato de ser conduzido pelo Estado – mas que supõe uma transformação deste – associado às políticas liberais que, para transformarem a sociedade, são obrigadas a transformarem o próprio aparato público; em todas as instituições públicas as normas são aplicadas para fazer do Estado um dispositivo que tenha como forma e função a generalização de certo tipo de funcionamento empresarial: a concorrência.

Surge, assim, “a nova gestão pública”, que consiste basicamente na importação de regras do setor privado para o setor público, o que faz com que as instituições funcionem de uma maneira distinta do que o estabelecido pelas políticas liberais-democráticas. Não é mais a instância da solidariedade e da coesão social que prevalece e nem tão somente apenas a ordem social. O regime estatal se torna um agente ativo de transformação da sociedade e dos indivíduos cujo funcionamento deve obedecer às regras das particularidades do setor privado. Os governantes tendem a fazer com que os indivíduos, eles mesmos, adotem uma subjetividade capitalista, que possui como um dos alicerces a ideia de meritocracia e equidade de condições.

Essa concepção se articula com a proposição articulada por Safatle et al. (2020), no que diz respeito à ideia da existência de um verdadeiro modelo de engenharia social que se sustenta por meio do pressuposto da interferência das estruturas econômicas na organização social, a partir da assunção de determinados atributos morais e psicológicos para o campo da economia. A “economia moral”, termo utilizado pelos autores, reflete a eliminação violenta das questões políticas do funcionamento deliberativo do corpo social, numa espécie de apagamento da possibilidade da execução das argumentações entre os opostos, o que produz, inevitavelmente, consequências psicossociais para todos os sujeitos (Safatle et al., 2020).

Dardot e Laval (2016) apontam, diante de todo esse cenário, uma propriedade particularmente interessante para a compreensão dos governos contemporâneos: o neoliberalismo provoca a destruição do imaginário democrático, o que os autores denominam de “desdemocratização”. É o que foi argumentado por Safatle et al. (2020) acerca da chamada tese da ditadura provisória como forma de implantação do modelo neoliberal de consagração política, ou seja, segundo os autores, alguns economistas pressupunham a ideia de que, para a efetivação dos princípios neoliberais, seria fundamental a instalação de governos autoritários e antidemocráticos, numa evidente imposição das bases do modelo político e econômico do neoliberalismo. Isso pode ser visto expresso nas inúmeras manchetes de muitos jornais – entre eles: Le Monde (Meyerfeld, 2019), Nexo Jornal (Cruz, 2020; Henrique, 2020a), BBC Brasil (Carmo, 2020) – acerca do atual Governo Federal Brasileiro. Muitas nações hoje, por exemplo a Hungria, o Brasil e até mesmo os Estados Unidos, em certo ponto, são democracias meramente formais, pois existem uma forte desconfiança entre os governados e os governantes a respeito da estabilidade dos sistemas democráticos (Henrique, 2020b).

Estados neoliberais e seus dispositivos psicossociais de manutenção

Nesse sentido, o neoliberalismo fabrica um novo sujeito: um sujeito cuja subjetividade baseia-se em função da construção e da manutenção de dispositivos de culpa. O sofrimento é indispensável ao sujeito neoliberal (Dardot & Laval, 2016). O sujeito neoliberal, portanto, embora engajado no consumo e na meritocracia que legitima seu lugar de consumidor, reifica o sujeito do desamparo, classicamente freudiano, uma vez que “para criar sujeitos, é necessário inicialmente desamparar-se. Pois é necessário mover-se para fora do que nos promete amparo, sair fora da ordem que nos individualiza, que nos predica no interior da situação atual” (Safatle, 2016, p. 40).

Soma-se ao neoliberalismo a necropolítica, conceito desenvolvido por Mbembe (2018), em que, de maneira sintética, o Estado, fundamentado no seu poder de soberania, passa a ditar os rumos das vidas dos sujeitos em seu ponto máximo, isto é, é o Estado, com seu monopólio sobre a morte, dirá, de maneira institucionalizada, quem tem o direito de viver e quem tem o dever de morrer. Durante a pandemia de COVID-19, causada pelo vírus Sars-CoV-2, esse conceito tornou-se ainda mais evidente. No caso do Brasil, o Governo Federal assumiu a postura de travar um embate aberto com as autoridades sanitárias a respeito de realizar ou não o distanciamento social, obrigatoriedade do uso de máscara, compra de vacinas, dentre outros (Bertoni, 2020). Um notório exemplo foi quando, em março de 2020 – quando os riscos apresentados pelo vírus ainda eram desconhecidos –, o Ministro da Economia passou a orientar os cidadãos a realizarem o chamado “isolamento vertical”, em que apenas os idosos permaneceriam em casa, enquanto os jovens continuariam a “mover a roda da economia” (Bertoni et al., 2021), numa evidente perspectiva política de aniquilamento dos mais vulneráveis. É importante considerar que, pela perspectiva neoliberal, ao se adotar a concepção de Dardot e Laval (2016), o fechamento do comércio, algo consequente da política de distanciamento, é visto como inaceitável.

Por fim, Mbembe (2018) expõe que a necropolítica surge a partir de uma possível dinâmica da biopolítica, contudo, de forma contrária. Conforme é investigado por Foucault (2008), a biopolítica é um conceito que denota, de maneira bastante resumida, a noção de controle dos corpos dos sujeitos, a partir do engendramento de um poder político e econômico autoritário, com o objetivo de estabelecer arbítrio sobre a vida, vigiando e punindo manifestações que vão de encontro às premissas construídas para a garantia e manutenção do status quo. Cabe ressaltar, em tempo, que essa perspectiva, foucaultiana, assume a rede de influência desse poder como algo capilarizado, rizomático, entre os integrantes do corpus sociale. Assim, o capitalismo, na divisão de classes, se assenta do poder de coerção que é materializado em práticas sustentadas no domínio absoluto de todas as dimensões da existência humana, por parte dos que detêm o poder. Por outro lado, a lógica de funcionamento da necropolítica subverte esse modelo em parte, com o advento do princípio do “deixar morrer”, por meio da negação dos cuidados básicos em saúde, da incompetência dos poderes, do desleixo às políticas públicas dispensadas à população, pela manutenção da condição de miserabilidade de parte da camada social. A necropolítica se insere em um contexto de seleção: os mais adaptados ao sistema, aqueles que devem continuar fazendo a “economia girar”, permanecem vivos, mesmo que de forma precária; já a mão de obra reserva, os “inúteis”, devem morrer, para liberar espaço para indivíduos que contribuirão com o status quo. Tal modelo de enlaçamento social parece tratar do apagamento da alteridade e da banalização do mal.

De tal sorte, o objetivo deste estudo é empreender uma possível compreensão acerca da relação do neoliberalismo com a subjetividade e, ainda, assimilar como se dá o funcionamento psíquico do Supereu na contemporaneidade. Outrossim, o percurso desta iniciativa teórica visa estabelecer um entendimento sistemático sobre as relações psíquicas da autoridade e do autoritarismo na atualidade. Como hipótese de trabalho partimos da ideia de que com a queda do Nome-do-pai, a relação objetal também se abala, o que sugere, conforme propôs Nakasu (2012), uma queda dos ideais do eu. Assim, os sujeitos inscritos na lógica contemporânea passam a negar a existência do comum entre si e, ainda pior, constroem a premissa da destruição do que é distinto do si-mesmo, em um gozo masoquista, imperativo do Supereu.

Laço social, angústia e agressividade

Em O Mal-Estar na Civilização (Freud, 1930/2010), Sigmund Freud, precursor da psicanálise, buscou traçar uma compreensão social, baseada no funcionamento psíquico, da origem do sofrimento, especialmente alicerçada na relação do laço social e do mal-estar imposto pela condição civilizatória. O psicanalista partiu da premissa de que viver em sociedade é algo fundamentalmente angustiante, no sentido de que a vida coletiva é, por si só, fonte de sofrimento. Sigamos no rastro da pena do autor.

Segundo Freud (1930/2010), o sujeito é, primariamente, governado por aquilo que ele denominou por princípio do prazer, um motor que impele o vivente rumo aos fenômenos que produzem satisfação ao Eu. É verdade, ainda, que muitos desses fenômenos são passageiros, portanto, faz com que o sujeito encontre a satisfação pulsional em apenas determinadas ocasiões. A não satisfação do Eu, pela não correspondência externa fenomenológica, acarreta, porventura, frustração. A partir disso, então, a realidade se impõe ao sujeito, convocando um outro princípio, na tentativa de corresponder às exigências pulsionais e, também, de compreender o mundo externo. O Eu, de tal sorte, torna-se, assim, mais flexível quanto ao grau de investimento objetal com o intuito de obter a felicidade – aqui Freud situou o princípio de realidade.

O ser humano é, por constituição, um animal agressivo (Freud 1930/2010). Para viver em sociedade, explicou o autor, os sujeitos abdicam de suas pulsões de agressividade e isso é o que faz com que eles se sintam, constantemente, insatisfeitos já que a pulsão reprimida não encontra mais o seu destino.

A agressividade é introjetada, internalizada, mas é propriamente mandada de volta para o lugar de onde veio, ou seja, é dirigida contra o próprio Eu. Lá é acolhida por uma parte do Eu que se contrapõe ao resto como Supereu e que, como “consciência”, dispõe-se a exercer contra o Eu a mesma severa agressividade que o Eu gostaria de satisfazer em outros indivíduos. À tensão entre o rigoroso Supereu e o Eu a ele submetido chamamos consciência de culpa; ela se manifesta como necessidade de punição. A civilização controla então o perigoso prazer em agredir que tem o indivíduo, ao enfraquecê-lo, desarmá-lo e fazer com que seja vigiado por uma instância no seu interior, como por uma guarnição numa cidade conquistada. (Freud, 1930/2010, p. 59)

O conflito que é engendrado pela interrelação entre pulsão e civilização é, na teoria freudiana, algo de impossível ultrapassagem; a realidade toca, apenas, na esfera da gestão da pulsão agressiva pelo sujeito, o que anuncia a posição do desamparo (Birman, 2016). “(...) Em contrapartida, enunciar a irredutibilidade do desamparo implica reconhecer que o sujeito deve fazer um trabalho infinito de gestão daquela, justamente porque o desamparo originário da subjetividade seria incurável” (Birman, 2016, p. 137). Além disso, surge, destarte, sujeitos que interpelam a libido em movimento e orientam a sua direção, assumindo, por conseguinte um domínio sobre o sofrimento psíquico dos sujeitos. Na contemporaneidade é o que ocorre nos movimentos sociais de cunho extremista, como, por exemplo, a organização de grupos neonazistas, a assunção ao poder de líderes com tendências autoritárias, entre outros inúmeros acontecimentos.

Com base nisso, a violência que é dispensada ao Eu – que foi tiranizado pela instância repressiva –, se materializa no âmbito extrapsíquico, isto é, nas formações comunitárias dos sujeitos. Por exemplo, em Totem e Tabu (Freud, 1913/2012), a horda primeva, ao assassinar o pai e consolidar o fundamento legislativo do Supereu, passa a nutrir o sentimento do remorso, uma vez que a figura paterna morta corresponde ao gozo da falta (Cordeiro & Bastos, 2011), o que marca a hostilidade da fratria contra os próprios membros. É, a partir dessa mitologia freudiana, que se pode estabelecer raízes profundas sobre a origem da rivalidade entre os membros de uma mesma sociedade e de grupos distintos. Nesse sentido, de acordo com a análise empreendida por Freud, é possível afirmar que o sofrimento é uma condição intrínseca à experiência social da vida humana. Além disso, a própria sociabilidade é produtora da consciência de culpa.

O desvelamento da dimensão autoritária e dos atos de violência

Checchia (2020), amparado nas teorias de Freud, Lacan e Gross, empreende um minucioso estudo acerca da “genealogia” do autoritarismo. Segundo o autor, o autoritarismo encontra fundamento na complexa amarração que se desenvolve no processo do Édipo, com a sedimentação do psiquismo autoritário a partir da consolidação daquilo que é chamado, por ele, de autoridade despótica – uma posição restritiva, em que o sujeito que a ocupa busca pela dominação e satisfação de seu próprio gozo.

A agressividade, novamente, é proveniente da relação do Eu, em processo de constituição, com o Outro, uma vez que o arranjo de força nesse nexo é, notadamente, desproporcional. Ou seja, o Eu – infantil – é a parte mais vulnerável, sofre com a intimidação dos outros Eus e se sente impotente. Nesse ínterim, o Eu, a criança, se submete ao Outro, para poder sobreviver e isso, explica Checchia (2020), provoca uma ligação libidinal suficientemente forte para desencadear prazer cuja origem tem forte componente sexual. Trata-se, à primeira vista, de uma ambiguidade: a submissão ao Outro e a obtenção de prazer ante uma posição servil. Mas, o autor explica que esse prazer é justificado, sobremaneira, pela interrupção da intimidação ao Eu em constituição.

É possível ainda que ocorra uma identificação do Eu com a autoridade despótica, considera Checchia (2020). Para que o Eu não seja mais agredido – ou, não se sinta mais agredido –, ele agride. Para o autor, a pulsão de autoconservação, nesse caso, é preponderante, pois amplifica consideravelmente a pulsão agressiva do Eu com destino ao Outro, com o objetivo de uma supremacia narcísica. Em suma, é devido ao gozo que se alcança ao se colocar em uma posição identificada de tirania que o Eu autoritário é originado.

Com relação à autoridade e ao autoritarismo, por exemplo, Rudge (2006) explica que a hostilidade, fortuitamente, encontra terreno fértil, para se desenvolver, no âmago do Supereu dos sujeitos, devido à sua formação ambígua. Isto é, para a autora, o ódio recalcado irá retornar como forma de agressividade ao Outro, devido ao fato de haver a falta primordial e a impossibilidade de lidar com essa dimensão. É nessa perspectiva que se pode compreender o conteúdo do discurso de inúmeros líderes populistas que estão em ascensão e, em certa medida, consolidação, na contemporaneidade. Há, desse modo, uma dimensão do infantil marcada pelo ódio e pelo sofrimento por trás de todo líder com evidentes tendências autoritárias. “A repetição que está na base de toda a pulsão apoia-se nos resíduos das primeiras experiências da infância.” (Rudge, 2006, p. 86).

Fortes (2009) faz uma análise detalhada sobre a forma de subjetivação da atualidade. A autora expõe que há sujeitos que estão implicados numa relação imperiosa de busca pela felicidade, o que se traduz em um hedonismo exacerbado. Essa busca incessante pela satisfação faz com que toda forma de sofrimento seja desvalorizada e, ainda, deslegitimada, relegando-as à condição de algo não dito. Esse modo de organização, por conseguinte, produz uma sensação existencial de vazio, uma descrença na realidade e um esfacelamento dos laços sociais, condição denominada de desamparo. A alteridade, característica essencial para se constituir um corpo social harmônico, se tornou reduzida, uma vez que “o outro só existe enquanto reforçar a autoexaltação narcísica do sujeito, como meio para alimentar o eu, e não como relação de alteridade” (Fortes, 2009, p. 1.127). Por consequência, continua a autora, surge o sentimento de solidão e vulnerabilidade.

É teorizado por Carvalho (2013), Lustoza et al., (2014), Prata (2012) e Santos (2016) que o desamparo ao qual o sujeito moderno se encontra é forjado pelo declínio da autoridade paterna. Isso se dá, segundo Fortes (2009), devido à queda do projeto de razão universal, materializado pela ciência e pelo abandono que é sentido por este, por parte da religião. O sujeito contemporâneo está marcado pela condição da autonomia e isso produz, notadamente, a sensação de desproteção. Nessa perspectiva, é que se torna possível estabelecer uma relação de aniquilamento do Outro, por meio da execução dos atos de violência. Fortes (2009) explica que o sujeito da contemporaneidade não renuncia ao seu gozo para poder fazer parte da sociedade; ao contrário, o sujeito contemporâneo se permite gozar intensamente, por não encontrar mais os interditos impostos pela autoridade. “O preço que pagamos pelo gozo é cada vez mais risco e, por isso mesmo, cada vez menos segurança. A vitória do gozo sobre a ética, portanto, exacerba o individualismo e enfraquece os vínculos afetivos sólidos e duradouros” (Fortes, 2009, p. 1.132). Santos (2016), seguindo a mesma concepção, argumenta que na contemporaneidade vive-se o, que ela denomina, imperativo sadiano do gozo, uma vez que a Lei é, notadamente, desmentida. Tomando isso por base, surge a tese de que “na contemporaneidade, o Outro não existe” (Santos, 2016, p. 566).

A marca contemporânea fundamental: o desamparo

Entre o apagamento do Outro e a liberdade de gozo, tal como posto anteriormente, e a ascensão de discursos pautados pelo retorno do conservadorismo e de pautas político-ideológicas que pregam uma menor liberdade, parece haver uma espécie de lapso temporal, embora trate-se de fenômenos de um mesmo tempo. Pode-se, ainda, aventar o seguinte: atualmente, líderes populistas têm enfatizado muito a “liberdade” individual, no entanto, na prática, percebe-se que suas ações não parecem sustentar o que é dito, pelo contrário, observa-se uma acentuação de condutas em direção contrária, rumo ao autoritarismo. A respeito disso, existem duas dimensões: a retórica política e a discursividade que dá sustento aos seguidores, insaciáveis pela magniloquência personalista do líder, mas que, no fundo, são apenas membros de uma massa à espreita de um líder e um suposto amparo. Em suma: as questões de massa, como Freud aponta em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921/2011) têm de ser, agora, alimentadas por uma perspectiva de valorização do sujeito individual por parte do líder. O líder deve amar a massa e a cada sujeito desse séquito, como se os conhecessem profundamente, pois essa é a demanda para que o regime se sustente. Além disso, o líder encontra um “terreno fértil” na condição de desamparo da contemporaneidade: já que os sujeitos não têm mais a Lei para guiá-los, os seus referenciais caíram – é nesse vácuo que a figura personalista do líder adentra. Com seu discurso inflamado, com sua característica “do povo, para o povo”, o mestre se tornará aquele que levará os sujeitos rumo ao suposto progresso.

Na mesma linha, Cardoso (2018) analisa o funcionamento do traumático, perpassando pela economia libidinal dos sujeitos da contemporaneidade, e pressupõe que estes vivem um estado de “além do mal-estar”. Há, atualmente, uma peculiaridade vivida: a radicalização das defesas psíquicas, o que promove os estados-limites, escreve a autora. “(...) estaríamos diante de um além do ‘mal-estar’ cuja expressão, dentre muitas outras figuras, seria a presença insistente nos sujeitos de uma expectativa narcísica de caráter ilimitado, pressupondo visível desconhecimento de seu sofrimento, mais precisamente, de sua dor psíquica” (Cardoso, 2018, p. 155). Quintella (2016) propõe a tese de que o sujeito contemporâneo se organiza de uma maneira defensiva muito peculiar, própria ao momento, denominada, por ele, de desmentido da privação. A privação ocorre, explica o autor, na passagem do segundo para o terceiro tempo lógico do complexo de Édipo, momento em que se consolida o ideal de Eu da criança com relação ao pai. No caso do processo proposto pelo autor, no desmentido da privação, a criança, não introjeta a imagem paterna na posição desse ideal, mas

(...) O sujeito coloca no lugar do ideal do eu a própria fantasia de onipotência narcísica, subjugada à representação primária da Criança Maravilhosa, cujo corolário é a gama de sofrimentos que despontam na contemporaneidade, implicados em experiências de excesso e em sintomas depressivos. (Quintella, 2016, p. 120)

Na contemporaneidade, os ideais que, anteriormente, atuavam como norte dos sujeitos são fustigados, tornando-os desamparados, dado que o desmentido da privação faz com que estes sujeitos se encontrem em uma posição de impotência pulsional (Quintella, 2016). Para o autor, o desmentido da privação tem como escopo principal livrar o sujeito da castração, por meio de um fortalecimento exacerbado do Supereu, tornando-o muito mais potente, violento e compulsivo. É nesse sentido que o desmentido é um aspecto da neurose: é uma saída encontrada pelo sujeito para que não sucumba à inaceitável condição de castração, através do excesso e da autoafirmação da suposta onipotência narcísica (Quintella, 2016).

É com base nisso que se compreende alguns fatos da expressão do comportamento de alguns sujeitos da atualidade, reproduzidos, em partes, pelo aparato midiático, como vistos, por exemplo, nas expressões de fala do tipo: “Você sabe com quem está falando?”, “Cidadão, não. engenheiro civil, melhor do que você!” (Suzuki, 2020). Essas expressões foram utilizadas durante a pandemia de COVID-19, em diferentes regiões do Brasil, por pessoas que se recusavam a utilizar máscaras, a realizar o distanciamento físico ou, ainda, simplesmente por se considerarem superiores aos outros – que seguiam as recomendações da ciência, num nítido movimento de negação do discurso científico. Há, evidentemente, uma exacerbação narcísica desses sujeitos e uma violenta e crescente imposição de seu próprio imperativo de gozo, ao expressarem esses conteúdos comunicativos, que demonstra a fragilidade do Eu em aceitar a sua própria condição de ser marcado pela falta. Ao remeter uma suposta característica de superioridade, a pessoa da contemporaneidade marca, profundamente, o seu ponto de vulnerabilidade estrutural, o que denota a negação da castração.

(...) O truque ideológico consistia em sobrepor a violência institucionalizada da autoridade impessoal, como fundamento da diferença social, com a impossibilidade de responder própria e pessoalmente a tal pergunta. A operação equivale a colocar um significante-mestre na posição de agente de um discurso. Na fórmula citada, não há nenhum significado que dê consistência ao “quem está falando”. O significante-mestre, nessa posição, é assemântico, pede obediência, não pede compreensão – exatamente como um nome, ele designa, mas não significa. Nunca sabemos com quem exata e precisamente estamos falando. Recebemos do Outro nossa própria mensagem, desejante, inconsciente e ideológica, de forma invertida. Estamos sempre nos dirigindo ao outro, próximo ou conhecido, e, ao mesmo tempo, aos outros que formam nossa história, aos outros que habitam nossa fantasia, aos outros intimamente desconhecidos. (Dunker, 2015, p. 75)

“Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”

Ademais, Fortes (2009) faz uma consideração importante: a contemporaneidade traz em si a marca do hedonismo e, também, do individualismo em estado avançado. À medida que se acentua o processo da incrementação de traços individuais, a cidadania perde espaço, o espaço público se apequena e se torna deslegitimado. É, portanto, notável que a queda da Lei produz uma desorganização em nível individual e coletivo. “O enfraquecimento do Estado como figura que protege e vela pelos cidadãos acaba gerando, nestes últimos, um clima de insegurança, o que remete também à vulnerabilidade (...)” (Fortes, 2009, p. 1136). Para Santos (2016), a intensificação do capitalismo e, consequentemente, a consolidação do neoliberalismo, avulta a busca incessante do sujeito pelo gozo, através da indústria cultural e da massificação da exploração midiática.

Outro fenômeno bastante importante de se pensar, a partir da lógica de produção capitalista e da montagem publicitária, é a relação entre verdade-mentira. Para Santos (2016), a verdade, na atualidade, se tornou fragmentada e particular, sendo possível ser moldada ao bel-prazer de cada ser falante, uma vez que ela não carrega mais consigo um valor absoluto, inviolável, intocável; ao contrário, a verdade se tornou, conforme escreve a autora, um “verdade-ficção”. É a partir disso que Siebert e Pereira (2020) argumentam sobre o fenômeno denominado de pós-verdade, um conceito que assume o contorno de significação subjetiva.

Pelo viés discursivo, entendemos que significamos o mundo pela linguagem e agimos sobre ele simbolicamente, atravessados pelo inconsciente, o interdiscurso, a história, enfim, pelo conjunto de circunstâncias sociais, históricas e simbólicas que chamamos de condições de produção do sentido. Condições estas que legitimam posturas ideológicas de interpretação, servindo de fio condutor entre dizeres do passado e enunciados do presente. Relacionando ao termo pós-verdade, identificamos como condição de produção ampla o seu primeiro uso. (Siebert & Pereira, 2020, p. 243)

Ademais, é fundamental aludir às consequências sociais que todo esse modo de funcionamento causa. Portanto, prossigamos. Um significativo aspecto do populismo autoritário, que muitos países da América do Sul atravessam, como é o caso brasileiro, encontra sua explicação no movimento produzido pela representação do soberano, do líder, sobre a angústia do real por parte dos membros da massa de determinada nação. Birman (2017) explica que a angústia do real ocorre quando há ruptura dos laços sociais e de crenças nos poderes do soberano. Ainda para o autor, duas saídas podem ser produzidas, quais sejam: (a) os sujeitos buscam outro soberano; ou (b) estabelecem laços horizontais entre si, reconhecendo suas condições de desamparo e suas próprias singularidades. Ora, é evidente que esse segundo aspecto consiste numa saída mais próximo à sublimação, contudo, não é o que ocorre nos populismos aqui analisados.

Cabe destacar que o avanço populista ultraconservador não está localizado apenas na América do Sul, mas tornou-se um fenômeno mundial, atingindo democracias muito mais antigas e consolidadas, como por exemplo Áustria, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Hungria, Turquia, Filipinas etc., tendo em comum a capacidade de capturar a libido em movimento de sujeitos desnorteados, colocando-os em condição de idolatria. O que acontece, contudo, é que o líder ocupa a posição de soberania num determinado momento, ou seja, a libido tornará a mudar, caso se deixe de produzir identificação na massa controlada. É o que se chama atualmente, em vários governos, de base ideológica ou radical. Nesse sentido, é necessário, para manter seu séquito mobilizado, o uso da retórica. Essa ferramenta, no entanto, não deve ser empregada em uma condição rebuscada; ao contrário, o soberano deve se colocar na posição de simplicidade, de fraternidade aos seus dominados, pois, dessa maneira, o seu poder não será rompido. Para Safatle (2008), essa lógica de funcionamento é chamada de cinismo.

(...) o cinismo pode ser compreendido como a posição subjetiva possível para um sujeito que internalizou a Lei sob a figura de um supereu que exige que as condutas sejam pautadas a partir da lógica do gozo puro. Pois essa procura incessante de satisfação imediata não pode simplesmente passar por cima dos critérios normativos de racionalização da dimensão prática, que no estágio atual de esclarecimento seriam intersubjetivamente partilhados e consensuais. (...) Em outras palavras, basta que sejam seguidas de maneira cínica, fazendo com que justifiquem o contrário do que pareciam indexar. Dessa forma, o “sofrimento de indeterminação” normativa capaz de provocar sintomas como a ansiedade e a depressão pode aparecer, no interior do cinismo, como motivo de gozo. (Safatle, 2008, pp. 138-139)

É com base nessas argumentações que se pode afirmar, tal qual Carvalhaes et al. (2020), que a condição dos populismos latino-americanos, entre eles, o Brasil, é de uma banalização do mal. Aventa-se, com o intuito de segregar a sociedade, um grupo inimigo ou, ainda, grupos inimigos. Devido ao fato de a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmar que havia sido detectado um vírus em Wuhan, na província de Hubei, na China (Organização Pan-Americana de Saúde, 2021), alguns líderes de nações iniciaram um processo contínuo de xenofobia e desprezo ao povo chinês. Declarações foram feitas, em sua maioria, no sentido de discriminar, insultar e estereotipar; termos como “comunavírus” (Zarur, 2021), “vírus chinês” (Martins, 2021) e “vachina” (Retz, 2021) foram criados para gerar ofensa e ódio. Devido a implicações ideológicas, a vacinação contra a COVID-19, iniciada em 17 de janeiro de 2021, no estado de São Paulo (Cristaldo & Brandão, 2021), foi sabotada e atrasada, no Brasil. Foi somente no final do segundo semestre de 2021 que o Brasil conseguiu vacinar cerca de 77% da população com ao menos uma dose; 64% com ambas as doses ou dose única; mais ou menos, 9%, com a dose de reforço (Bertoni, 2021).

Em síntese, o que podemos observar é que os regimes de colonialidade do poder se articulam, portanto, enquanto sistema que classifica diferentes grupos humanos a partir de características que demarcam diferenças (físicas, territoriais e culturais), consolidando um processo de banalização da potencialidade do mal que descredita e invisibiliza a alteridade como igualmente humana. (Carvalhaes et al., 2020, p. 4)

Real, pulsão de morte e o abandono de si

No contemporâneo, o inconsciente é silenciado e o corpo é colocado em posição de protagonismo de fala (Ferrari et al., 2020). O registro simbólico é destituído de sua condição inicial, marcada como fundante do corpo subjetivo, e a Lei é negada. O sintoma, nessa vertente, é formado pela intervenção direta no real, assumindo uma perspectiva de alta intensidade, falta de representação e de trauma. Depreende-se, a partir dessa concepção, a formação de massas de “ódio” nos populismos latino-americanos do século XXI.

Com a negação do Outro, com a dimensão traumática do gozo exposta em-si-mesmo e com a mobilização da libido em direção ao líder, o sujeito contemporâneo se torna um simples estar-no-mundo. Ferrari et al. (2020) explicam que os sintomas da contemporaneidade são marcados pela desorientação. A necropolítica é, dessa maneira, a forma pela qual o Estado se vale de selecionar os amigos e os inimigos.

Em meio ao problema da pandemia como um real que se impõe, pode-se constatar, portanto, de forma perturbadora, a prevalência da pulsão de morte e da dimensão do desmentido. Ao localizar o foco no que tem acontecido no Brasil, ele ilumina a gestão necropolítica dos corpos matáveis desvelada pela COVID-19, que aparece até mesmo em perguntas com aparência de naturalidade, como por exemplo: “uns vão morrer mesmo! E daí?”, dita pelo chefe do Poder Executivo do Brasil, em 28 de abril de 2020, quando o Brasil contava com 5.017 pessoas mortas pelo novo coronavírus (Bertoni et al., 2021). A aliança entre ciência e capital se descortina e interroga o valor da vida e a lógica atual do laço social. No cenário aparece, portanto, a figura central do desamparo que assola a todos, para alguns vivido de forma radical, exigindo que os sujeitos/cidadãos exercitem seus recursos na direção de um saber fazer com o inominável (Ferrari et al., 2020, p. 576).

Homem (2020) tece importantes contribuições, no que diz respeito ao encontro do sujeito com objetos enigmáticos. Durante o percurso de sua obra, a autora utiliza-se amplamente das consequências psicossociais engendradas pela pandemia de COVID-19 para dizer que a ansiedade, a angústia, a compulsão e a violência são produções desses tempos para uma possível amarração ante ao real do mundo. Uma importante consideração é feita, contudo, com o fato de que, para a psicanalista, os homens criam defesas rígidas que negam determinados fenômenos, com o intuito de se protegerem ante uma ameaça de aniquilamento. Ao negar um evento, imediatamente nega-se o que há de negativo frente ao Eu.

Ainda para a autora, durante o distanciamento físico, na pandemia, houve um significativo aumento nas formas de compulsão, quais sejam: sexo, redes sociais, consumo etc. Sabe-se, ademais, que o consumo é premissa básica do capitalismo – intensificou-se durante o neoliberalismo e surgiu a sua face ainda mais perversa, o consumismo –, nesse sentido, a pandemia de COVID-19 acentuou, ainda mais, o fenômeno do consumismo, pela compulsão à repetição. Apreende-se, a partir disso, então, a inércia de líderes populistas diante da maior crise sanitária dos últimos cem anos: ao se permitir que o vírus circule, a mão de obra precarizada é eliminada, despesas são cortadas e, ainda, os privilegiados, que podem permanecer em distanciamento físico, devido ao fato de não necessitarem de exposição obrigatória ao contato laboral, fazem a economia girar, ou seja, permanecem reclusos e consumindo de modo compulsivo. Eis a dimensão grotesca do neoliberalismo: a união entre a barbárie e a racionalidade burocrata em favor da morte e das grandes elites.

Nakasu (2012) se debruçou em uma investigação sobre a constituição do Supereu na teoria freudiana, demonstrando que tal instância tem sua gênese estabelecida não apenas a partir da dissolução do complexo de Édipo, mas, também como uma diferenciação de parte do Isso, uma vez que a energia que impulsionou a formação do Supereu é fornecida em estados primitivos do desenvolvimento. Ainda, a autora trabalha a interessante tese de que o Supereu encontrou no Isso a herança dos investimentos objetais. Além disso, por conta desses aspectos, as atividades da instância censória podem ser compreendidas pela dinâmica da formação reativa.

Ao se apoderar da libido dos investimentos de objetos resignados do isso, o eu sublima as metas sexuais e favorece a desfusão pulsional; torna-se, por isso, incapaz de ligar o componente destrutivo das pulsões. Esse componente destrutivo das pulsões é liberado como inclinação à agressão e à destruição. (...) A desfusão pulsional incrementa, pois, o componente destrutivo pulsional. O eu se coloca a serviço das pulsões de morte porque protagoniza o jogo de identificações. Por sua vez, se o supereu é a parte do eu modificada por estas mesmas identificações, toda destruição liberada via identificação será empregada no seu caráter imperativo. A consequência da desfusão das pulsões é, portanto, a liberação das pulsões de agressão no supereu. (Nakasu, 2012, p. 472)

Com base nisso, o Eu se torna palco principal de um grande conflito pulsional, o que proporciona o desenvolvimento da agressividade contra si próprio e contra o que é distinto do ideal de Eu (Nakasu, 2012). É neste ponto que Han (2015) instala a sua concepção de excesso de positividade na atualidade. Como a pulsão de morte se movimenta nas energias constitutivas do Isso e, este por sua vez, exerce influência na composição do Supereu, a própria relação objetal se torna abalada, o que sugere, conforme denomina Nakasu (2012), a queda dos ideais do Eu, o declínio do Nome-do-pai. Portanto, há um não reconhecimento mútuo entre os sujeitos aí implicados e, ainda, terem o desejo de destruir os demais, daquilo que é distinto do si-mesmo, em um gozo masoquista, imperativo do Supereu que nada pode deixar de gozar.

Dada a desfusão pulsional e o incremento das ações terrificantes da pulsão de morte, o Supereu intensifica no Eu as recriminações e as punições por demandas de gozo, o que pode ocasionar ao Eu um abandono de si (Nakasu, 2012). Nessa perspectiva, a agressão pode encontrar dois futuros: (a) permanecer ensimesmada nos domínios da subjetividade ou (b) se exteriorizar no campo do social. A partir do segundo caminho é possível pensar nos fenômenos da contemporaneidade. Por exemplo, o populismo brasileiro se ancora na ideia de nacionalismo e, este, por sua vez, é um ideal calcado na ideia de que o Brasil deve ser independente, soberano e livre de quaisquer dominações externas e internas – lógica radical da paranoia: ou/ou. No entanto, na prática, a classe política – com maior ênfase após a assunção da extrema-direita ao Governo Federal, em 2018 – que se diz patriótica e nacionalista, enquanto modalidade de discurso político, deixou o país à mercê da disseminação viral, durante a pandemia de COVID-19, ao negar a compra de vacinas e a implementação de medidas sanitárias fundamentais para a diminuição do contágio. Nessa linha, o movimento de extrema-direita brasileiro foi capaz de recrutar esses sujeitos que estavam em um processo de repressão, cuja agressividade recaía neles mesmos, gerando um abandono de si, por conta dessa agressividade reprimida. Ao colocar um sujeito dito comum como representante máximo, a libido foi reorganizada e a agressividade passou a ser legitimada enquanto possibilidade de exteriorização.

O corpo, o feminino e a alteridade

Para além disso, no que tange ao aspecto resolutivo desse emaranhado psicossocial, é possível distinguir alguns caminhos. Eles não se apresentam, evidentemente, de modo seccionado, ao contrário, são interdependes entre si, em um fenômeno de concausalidade. Birman (2017) expõe, de maneira brilhante que, para o esfacelamento da premissa neoliberal, conforme foi exposto até o presente momento neste estudo, é imprescindível que o sujeito reconheça, genuinamente, a sua não autossuficiência. “(...) Pelo reconhecimento de sua não-suficiência o sujeito poderia reconhecer o outro como um igual” (Birman, 2017, p. 119).

Outrossim, Birman (2016) teoriza, a partir da mesma concepção anterior, que as dimensões da corporeidade e do feminino são fundamentais para a superação da lógica neoliberal. Uma vez que, de acordo com o autor, o sujeito, preconizado por Freud, é encorpado e incorporado, isto é, revela o fato inextrincável da falibilidade humana, da erogeneidade e da existência da face pulsional.

O corpo é regulado pelos destinos das pulsões e do desejo. A linguagem e o pensamento daquele são marcados então pela lógica desejante, modulados pelos desdobramentos e pelas variações desta. É o desejo, pois, que realiza a sintonia e as dissonâncias dos registros do pensamento e da linguagem. É por essa mediação que se revelam a finitude, a incompletude e a incerteza do sujeito. (Birman, 2016, p. 95)

Além disso, há na feminilidade, um aspecto que toca, conforme proposto por Freud, a ausência do phallus, do referencial universal da constituição estruturante do Eu, o que produz fragmentação e o contato com a circunstância, inegável, da incerteza e da morte. Lidar com a feminilidade, portanto, está na dimensão da impotência, para o sujeito contemporâneo. É, precisamente, pelo domínio, pela gestão, do desamparo que os sujeitos poderão organizar o destino erótico da pulsão, portanto, feminino (Birman, 2016). As transformações sociais radicais, portanto, acontecerão numa perspectiva de projeção de possibilidade, ante à elaboração subjetiva de cada pessoa no que diz respeito à dimensão do feminino da própria existência e da aceitação da falta que marca a origem do si-mesmo, numa perspectiva do reconhecimento da não autossuficiência. Trata-se de um desafio profundo, mas necessário.

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Recebido: 22 de Dezembro de 2021; Revisado: 15 de Maio de 2023; Aceito: 01 de Julho de 2023; Publicado: 12 de Março de 2024

*Endereço para correspondência Tiago Humberto Rodrigues Rocha E-mail: tiago.rocha@uftm.edu.br; Luciano Henrique Moreira Santos E-mail: lucianohenrique32@hotmail.com

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